Correcções versus Incorrecções…

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Nos dias que correm, brada aos céus a ausência de um «saber, e de um saber fazer” no atendimento do funcionário ou do trabalhador da função pública das nossas instituições públicas. O constrangimento é que o utente se apercebe logo – através da inexistência de uma linguagem adequada e específica – de que está perante um interlocutor pouco informado. Logo, pouco preparado e capacitado para lhe responder e para o esclarecer sobre o assunto que ali o levou.

E isto está-se a tornar regra no funcionalismo público nacional. Naturalmente que salvaguardo e cumprimento as excepções.

Um dos exemplos que seria caricato, não fosse a má imagem que transmite do serviço público, começa na base, isto é, na maneira como alguns, para não dizer muitos telefonistas nos atendem quando ligamos para os serviços do Estado ou organismos públicos. Ao invés de anunciarem, acto contínuo, o nome da instituição para o qual o cidadão ligou, respondem como se da casa deles ou delas se tratasse. Com um familiar e pouco próprio, para não dizer, pouco correcto, tratando-se do telefone do serviço: «Sim...im..im!» prolongado e íntimo, como se fosse telefone pessoal. E isto quando não resolvem atender, exclamando o já célebre: «É quenha?!».

De tal modo funciona assim que muitas vezes me sinto obrigada a certificar-me se de facto marquei correctamente o número do telefone da instituição ou do serviço para o qual pretendi ligar, ou se me enganei para uma casa particular.

Não haverá, por um feliz acaso, alguém mais ilustrado nos serviços públicos nacionais capaz de pôr a circular uma fórmula simples de como se deve atender o telefone? Custa acreditar!

Para quando um retomar o orgulho e o brio desta classe socioprofissional – o funcionário público – que já foi referência em Cabo Verde?

O Exasperante “TU”!

sexta-feira, 10 de julho de 2009
Tornou-se “normal” ou quase isso, ouvir jovens quadros licenciados ou estudantes das nossas universidades locais, tratarem o mais velho, o superior hierárquico, as pessoas que estão a conhecer pela primeira vez: por “tu”! Exactamente: Por “tu”! Usando a forma verbal na 2.ª pessoa do singular sem desconfiar da enorme «gaffe» que estão a cometer.
Pessoalmente, tenho “sofrido” com esse tratamento familiar, íntimo e normal entre colegas, mas trato imediatamente de corrigir o meu jovem interlocutor, sempre que posso, sobretudo se se trata de alunos universitários ou a isso aspirante e que não sabem utilizar a forma verbal – que estão a empregar – na 3.ª pessoa do singular e numa situação formal de fala, ou quando se dirigem a mais velhos.
Exemplos disso colecciono-os fartamente. Este por exemplo, em plena aula: «Professora, vais (em vez de vai) entregar os testes hoje?» Ou, quando bato à porta da sala antes de entrar e pergunto: «Posso entrar?» Ouço como resposta: «Podes!» (em vez de pode) Esta «nova» gramática que seria irreverente se não fosse praticada por pura ignorância, está alastrar-se e a ganhar dimensões formalmente incorrectas entre nós. É escutar de jovens senhores engenheiros, ou senhores doutores – maioritariamente formados ou em formação nas universidades locais – a tratar por «tu» e em plena ocasião formal da fala, gente mais velha, ainda que colega de trabalho, mas sem intimidade que permita esse tratamento! Por desconhecimento das regras da fala formal.
Na verdade torna-se quase exasperante, actualmente ouvir gente portadora de um diploma, gente jovem universitária ou de muita escolaridade não saber empregar correctamente a forma verbal na terceira pessoa do singular!
Para os lusófonos de uma maneira geral, os que cá estão a trabalhar ou a viver, ou que nos visitam, estranham esta forma de tratamento interpessoal do cabo-verdiano, que sem qualquer “laço” ou intimidade que o autorize, expressam-no logo ao primeiro contacto.
Isto «ilumina» também um pouco a questão: como vai a nossa língua segunda?
Torna-se necessário e urgente uma acção concertada dos professores, nomeadamente, os da Língua portuguesa de todos os níveis escolares, ensinarem os alunos como se dirigir, como tratar as pessoas mais velhas, os professores, os superiores hierárquicos, isto é, ensiná-los que, nestas situações, ao empregar qualquer forma verbal devem sempre ir buscá-la à 3.ª pessoa do singular.
Bom seria que os professores cabo-verdianos começassem por despistar este erróneo emprego da forma verbal na 2.ª pessoa do singular, tratando eles próprios os seus alunos na formação post-secundária ou universitária com a forma verbal na 3.ª pessoa do singular e não por «tu», pois que, o aluno/formando actual, por desconhecimento de regras formais sociais, não apreende e não distingue em que meio e/ou em que situação deve tratar ou não por “tu”.

Irresponsabilidade Alvissareira?

O título com uma configuração quiçá “neológica,” pois que alvissareira deve derivar de alvíssaras, notícias, novas dadas com algum estardalhaço, foi-me sugerido pelo desassossego, pelo mal-estar provocado entre os familiares e próximos do escritor Luís Romano que o sabem vivo e que um jornal desta nossa praça, efabulista por natureza, numa notícia de muito mau gosto, resolve anunciar a morte do poeta, ensaísta e romancista cabo-verdiano, em primeira página. A efabulação foi a tal ponto que até lhe inventaram um novo curriculum. Fizeram do nosso Luís Romano, companheiro de Mário Soares e de Manuel Alegre em Argel. Tanto quanto se sabe, Romano nunca esteve em lides políticas em Argel e muito menos perseguido pela PIDE, como vinha na notícia títere. Viveu sim, alguns anos em Marrocos, onde trabalhou como técnico de salinas.
Enfim, a todos nós chegará o dia. Certíssimo. Mas quando chegar! São das tais coisas que não devem ser precipitadas, pois não há emenda que as redime. Nem sempre o querer ser mais alvissareiro do que o jornal vizinho, foi sinónimo de notícia séria. E o resultado, deu no que deu: toda uma família em polvorosa! Sejamos honestos e prudentes na informação para merecermos alguma credibilidade.

“Fantasmas”?...Ainda?!

Aqui há dias tendo-me dirigido ao antigo Instituto Superior de Educação ex – ISE, hoje Universidade de Cabo Verde, deparei-me com uma exposição fotográfica, no átrio do edifício e intitulada «Lusofonias». Demorei-me nos painéis ou cartazes expostos, os quais através de fotografias – postais - ilustravam cada um dos países da Comunidade, CPLP, aliás, identificados pela bandeira respectiva. Até aqui tudo interessante. Estranhamente, frente ao cartaz que ilustrava Portugal e que devia conter igualmente postais das belas paisagens e lugares daquele país, à semelhança do que fora feito em relação aos outros sete países da CPLP, o que vejo? Apenas a bandeira nacional identificadora. O painel gigante vazio. Monologuei: «Mas não é possível que continue a existir algum trauma (?) encoberto em relação a Portugal e que tenha chegado a este ponto? Sim, porque de certeza, se os organizadores da exposição tivessem pedido material sobre Portugal à delegação do Instituto Camões, instalada no mesmo edifício, ao Centro Cultural Português, creio que o teriam obtido capaz de cobrir todo o painel.»
Pouco depois, falando ao telefone com um colega sobre a minha estranheza e um pouco no pressuposto que só eu havia reparado no desequilíbrio do expositor vazio, percebi que felizmente também ele o havia feito e estava – acentuava ele – negativamente surpreendido por tal postura na apresentação de, exactamente: «Lusofonias». Como excluir Portugal disso? Era a questão! Tornava-se quase anedótico.
Isto vem a propósito desta estranhíssima postura mental que certos cabo-verdianos da classe média – que não o povo sociologicamente diferenciado – têm ou querem demonstrar ter em relação a Portugal. Adoram lá ir, podem fazê-lo e fazem-no com alguma frequência mas sempre maldizendo e querendo que se perceba de que não gostam de…
Outros acham-se no direito de criticar Portugal (como se fossem nacionais) sem pensar que estão ser indelicados para com um país amigo e excelente parceiro no desenvolvimento de Cabo Verde, mas em todo o caso também estrangeiro. Como diz um familiar meu: «os nosso crioulos que lá vivem, muitos deles, acham-se mais donos da terra do que os próprios portugueses. Se calhar se se sentissem um pouco mais “de fora,” até que o comportamento e a integração deles poderiam ser bem melhores»
Mas isso é de tal modo, que chega a ser hilariante o facto de alguns nacionais que vão de férias a Portugal, se nessa mesma ocasião intentam ir à Espanha, por exemplo, mesmo que seja apenas por dois dias, num período de um mês, já vão avisando antes do embarque, a amigos e a conhecidos, que vão de férias à Espanha! Bem, até se pode explicar isso talvez pela naturalidade com que para eles é ir a Portugal.
De qualquer forma não deixa de ser algo de anormal na actualidade, este comportamento no mínimo atípico face a Portugal e que nunca mais acaba…
Por que não apreciar, e já agora, sem reservas, a terra linda que é Portugal, o seu povo, o seu desenvolvimento, as suas cidades, os seus monumentos, os seus museus, as suas Livrarias e Bibliotecas, a sua gastronomia e o seu vinho? Enfim, o bom e o belo que lá existe, ao invés de accionar os mecanismos que relevam este anacrónico comportamento mental que, à falta de melhor, estou tentada a classificá-lo, de absurdo.
Daí a questão: “fantasmas”!.. Ainda?
Como é por vezes estranho e deveras bizarro o comportamento humano!

Apresentação

quinta-feira, 9 de julho de 2009
Chegou o CORAL Vermelho que pretende ser um espaço de diálogo interactivo, salutar e fraterno entre todos os que nele entrarem e queiram connosco, através de temas e de assuntos vários enriquecer este painel coralino.

Porquê CORAL Vermelho? E porque não? Eis a questão que nem chega a sê-la. Isto para vos dizer que afinal um nome é apenas um nome. Nada mais que o nome das coisas…ou talvez não, diria o poeta.

Mesmo assim procurou-se na simbologia inerente ao coral a íntima ligação com o mar e por extensão também simbólica, a significação com a ilha. No caso com o arquipélago. O que para nós, contextualizados nos mesmos ritos culturais, facilmente o adoptámos. Além disso, o coral representa a união, uma certa solidariedade e a firmeza rochosa que estão na sua génese. Não esqueçamos que o coral, um minúsculo organismo, que se apresenta sempre unido em colónias ou recifes de coral, é o obreiro de uma das mais grandiosas estruturas construídas por um ser vivo.

Outrossim, não nos são indiferentes o policromatismo e o multifacetismo da espécie, a arborescência da sua estrutura e a sua beleza provocadora e algo agreste, nomeadamente do coral vermelho, patrono do nosso Blog; o que, retomando a simbologia correlata ao coral, poderá significar que o pluralismo na abordagem e na apreciação dos temas que aqui se vão postar, a correcção, o respeito pelo espaço (latu sensu) do outro e um certo «savoir-faire», serão de certa forma, tal como a beleza, a natureza gregária e a firmeza que imanam do coral, as marcas relevantes que desejamos que timbrem o dito e o escrito no CORAL Vermelho.

E já agora, uma curiosidade interessante: explicam a fauna e a biologia marinhas que o coral vermelho é de águas relativamente profundas e para além de ser dos mais belos de entre a espécie, é o mais raro.