Leio, para meu espanto e mágoa que a pobreza extrema em Cabo Verde subiu para 26%. Pensar que há uma dezena e meia de anos a pobreza extrema no nosso país era de 14%! Para onde vamos? A isso chama-se retrocesso...
Mais, ainda sob o mesmo efeito, leio na coluna de Eunice Silva o seguinte:
«1. Reside mais de ¼ da população do país;
2. O crescimento da população é cerca de quase duas vezes superior à média nacional;
3. Cerca de 40% da população recorre à subtracção na rede pública para aceder à energia;
4. O desemprego atinge mais de 40% dos jovens, que por falta do que fazer enveredam por comportamentos desviantes, como o álcool ou a droga;
5. Pessoas são assassinadas em zonas nobres e em plena luz do dia, sem que as autoridades consigam apanhar o assassino;
6. Pessoas convivem no seu dia a dia com animais à solta, lixo e, as vacas andam nas avenidas e no meio das estradas;
7. As ruas estão invadidas de vendedores e prestadores de serviço ambulantes;
8. Cerca de 20% da população é imigrante-estrangeiro, sendo a grande maioria na situação irregular, desqualificado, pobre e desempregado;
9. Mais de 40% das famílias não tem casa de banho;
10. Apenas 15% tem acesso a rede de esgoto;
11. 53% não tem acesso à água canalizada;
12. 45% das famílias ainda abastecem-se de água em chafarizes.»
Esta é a situação da Cidade da Praia – a capital do país e o maior centro urbano de Cabo Verde – no século XXI.
Dengue – a responsabilidade do Governo
domingo, 8 de novembro de 2009
Falar do dengue é, actualmente, incontornável em qualquer conversa. Um surto epidémico que assentou arraiais na nossa terra, e que se espalhou pelo país inteiro por obra e graça do nosso governo. A ligeireza e displicência com que as autoridades encararam o aparecimento da doença permitiram o seu alastramento a uma velocidade exponencialmente crescente gerando uma onda de apreensão e pavor na população. Isto sem falar dos seus nefastos e pesados efeitos na economia do Pais.
Normalmente, depois da tragédia vem a farsa. Desta vez que, infelizmente, começou com a tragédia é a comédia que antecipa a farsa. Pois que, depois de mais de uma dezena de milhares de casos registados e de entre eles, algumas vítimas mortais, o governo surge, com um anúncio triunfalista e ao mesmo tempo inquietante, feito pelo próprio chefe do governo - que, pelos vistos, deixou de ter ministro da saúde – a conceder tolerância de ponto supostamente para permitir o combate às causas da doença e conter a sua proliferação.
Não se tratava de uma nova doença cujos efeitos e capacidade de alastramento não se conhecessem. O que aconteceu foi o desleixo e a incúria de um governo, que continua a privilegiar o imediatismo e o improviso, navegando sempre à vista. E que, pelos vistos, se limita a gerir, estritamente, o dia-a-dia e, por isso, não tem metas nem políticas consistentes, pelo menos, para a saúde pública.
Ninguém condena o gesto do governo em si em conceder tolerância de ponto. Ele é aparentemente generoso e tem a virtude de apelar à indispensável solidariedade e alertar para os focos a combater. Também não se questiona a sua necessidade. Tornara-se já, por incúria e negligência das próprias autoridades, imprescindível e indispensável. O que ninguém aplaude é o seu timing que o transformou numa manifestação folclórica evitável se o governo tivesse feito em tempo útil o seu trabalho de casa. Não teria sido necessário privar o país de um dia de produção. Foi um gesto não negligenciável mas com uma forte carga demagógica que, no fundo, o que mais pretendia era fazer esquecer a “borrada” que havia feito ao permitir que meia dúzia de casos descambasse tão rapidamente num surto epidémico. Como diz o povo: “Depois da casa arrombada, trancas na porta!”
Não é tempo de culpabilizar ninguém individualmente nem de procurar bodes expiatórios, que os há sempre. Mas se o governo não é responsável pelo aparecimento do dengue no País, ele não pode enjeitar a grande responsabilidade que tem na sua rápida transformação em epidemia. E por isso, deve tirar, ele próprio, as devidas ilações e agir em conformidade, sob pena de, se o não fizer alguém o fará por ele com pesados custos.
Normalmente, depois da tragédia vem a farsa. Desta vez que, infelizmente, começou com a tragédia é a comédia que antecipa a farsa. Pois que, depois de mais de uma dezena de milhares de casos registados e de entre eles, algumas vítimas mortais, o governo surge, com um anúncio triunfalista e ao mesmo tempo inquietante, feito pelo próprio chefe do governo - que, pelos vistos, deixou de ter ministro da saúde – a conceder tolerância de ponto supostamente para permitir o combate às causas da doença e conter a sua proliferação.
Não se tratava de uma nova doença cujos efeitos e capacidade de alastramento não se conhecessem. O que aconteceu foi o desleixo e a incúria de um governo, que continua a privilegiar o imediatismo e o improviso, navegando sempre à vista. E que, pelos vistos, se limita a gerir, estritamente, o dia-a-dia e, por isso, não tem metas nem políticas consistentes, pelo menos, para a saúde pública.
Ninguém condena o gesto do governo em si em conceder tolerância de ponto. Ele é aparentemente generoso e tem a virtude de apelar à indispensável solidariedade e alertar para os focos a combater. Também não se questiona a sua necessidade. Tornara-se já, por incúria e negligência das próprias autoridades, imprescindível e indispensável. O que ninguém aplaude é o seu timing que o transformou numa manifestação folclórica evitável se o governo tivesse feito em tempo útil o seu trabalho de casa. Não teria sido necessário privar o país de um dia de produção. Foi um gesto não negligenciável mas com uma forte carga demagógica que, no fundo, o que mais pretendia era fazer esquecer a “borrada” que havia feito ao permitir que meia dúzia de casos descambasse tão rapidamente num surto epidémico. Como diz o povo: “Depois da casa arrombada, trancas na porta!”
Não é tempo de culpabilizar ninguém individualmente nem de procurar bodes expiatórios, que os há sempre. Mas se o governo não é responsável pelo aparecimento do dengue no País, ele não pode enjeitar a grande responsabilidade que tem na sua rápida transformação em epidemia. E por isso, deve tirar, ele próprio, as devidas ilações e agir em conformidade, sob pena de, se o não fizer alguém o fará por ele com pesados custos.
A. Ferreira
O Romance Histórico em Teixeira de Sousa
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Se há uma narrativa – dentro do panorama da moderna Literatura cabo-verdiana – que se aproxima do chamado Romance Histórico é, sem grandes margens de erro, o romance: Entre Duas Bandeiras de Teixeira de Sousa.
Recordemos que a obra foi publicada em 1994 pela editora de sempre do escritor, a Europa/América, vinte anos após os acontecimentos nela narrados e quatro anos depois da instauração em Cabo Verde do regime democrático.
Tratou-se de um projecto audacioso do seu autor e entendam-me este “audacioso” como um desvio consciente e experimentalista do escritor do molde até então seguido em matéria de temática ficcional, embora o estilo e o poder criativo de Teixeira de Sousa se mantenham neste romance, em tudo semelhante aos dos seus romances anteriores e posteriores a este. É que o tema agora é político, observado e narrado sob um formato que se diria carnavalesco e sobreposto em várias dimensões.
Mas antes de entrarmos no universo romanesco propriamente dito, fixemos o espaço e o tempo histórico de Entre Duas Bandeiras. O cenário é a cidade do Mindelo e o tempo medeia entre o período histórico/político vivido em Cabo Verde, imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 (queda do regime salazarista) e o período antes do 5 de Julho de 1975 (data da independência de Cabo Verde).
O livro de Teixeira de Sousa – que vale a pena ser lido para quem ainda o não tenha feito – descreve-o de uma forma que prende o leitor até à última página do romance. Existe, e agora retomo o interior da acção, um tom satírico que perpassa o romance através do seu veio mais brando que é o humor. Como disse mais acima, o enredo parece formatado dentro de vários Carnavais. O Carnaval de Fevereiro, festa rija dos mindelenses, com os seus desfiles, os bailes animados e os prémios aos blocos; o Carnaval político com os seus comícios a toda a hora, com mil e um pretextos para manifestações de rua e palavras de ordem gritadas em megafones para os ouvidos dos transeuntes; os insultos e as provocações constantes dos ditos revolucionários; a dicotomia entre os auto proclamados «melhores filhos» gerados pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e os filhos ilustres da terra que a tudo assistiam, uns aterrorizados, outros atónitos, pois que eram mimoseados com a classificação de «cachorro de dois pés» entre outros epítetos e, finalmente, o Carnaval individual da personagem Gaudêncio Pereira, cuja maior aspiração em termos de vida social era poder entrar como sócio no famoso Grémio Recreativo de Mindelo. Mas há outros Carnavais dentro da urdidura novelesca que sem serem secundários, gozarão de menos estatuto do que os acabados de apontar. Gostaria de destacar a célebre «invasão e tomada da Rádio Barlavento» com a justificação de que era uma rádio que transmitia “demasiados comunicados da UDC” (União Democrática cabo-verdiana) ao invés de só transmitir “os comunicados do PAIGC”, culminando a história (de novo a ambiguidade entre o real e a ficção) com a prisão e o embarque para a cadeia política do Tarrafal dos membros da UDC, este último evento em tom sério porque trágico afinal num tempo que devia ser de liberdade. De tudo isto – e de forma aparentemente romanceada em que subjaz uma verdadeira crónica histórica – nos dá conta o livro: Entre Duas Bandeiras.
Dito por outras palavras, assistimos no desenrolar da narrativa a uma espécie de aliança, entre a História e a ficção de forma criativa e empolgante.
Finalizando, e tal como havia dito no início, a filiação deste romance, cuja leitura recomendo, deverá ser procurada na linha do romance histórico, pois que se trata também de uma grande reportagem (ficcionada embora) de um tempo histórico vivenciado pelos Mindelenses.
"Aprender a ser gente"?...
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Reiniciar a actividade de escrita é tarefa que se me apresenta sempre custosa. Afinal a inércia pela ausência dela por algum tempo, tem os seus custos na retoma…
Ora hoje o tema que queria partilhar convosco tem origem num pequeno – mas que não deixa de ser interessante – incidente, recentemente acontecido, entre uma mãe e a direcção da escola em que está o filho.
Mas antes de recontar o episódio que me foi relatado por um professor de uma das escolas da zona da Damaia, Portugal, onde vive uma significativa comunidade cabo-verdiana aí imigrada, devo explicar que se trata de uma mãe cabo-verdiana, emigrante, creio que oriunda da ilha de Santiago.
Ora bem, a referida escola onde anda o filho decidiu numa atitude que pode ser até louvável, que os professores das turmas, maioritariamente frequentadas por alunos de origem cabo-verdiana, deviam aprender e falar crioulo com os alunos. Foi ministrado um curso de crioulo aos docentes interessados e alguns deles começaram a pôr em prática a orientação recebida.
Vai daí, ao ter conhecimento de tal postura pedagógica, a nossa mãe e encarregada de educação de um dos alunos cuja turma fora abrangida por essa norma linguística, sai de casa, numa bela manhã, dirige-se à escola e pede para falar à Presidente do Conselho Directivo da Escola e segundo me contaram, as palavras, ao que parece indignadas da encarregada de educação para a responsável da escola foram (mais ou menos as seguintes, ditas num meio português, meio crioulo mas, ao que parece, bem percebidas): «Senhora Directora, eu vim aqui para falar consigo sobre o crioulo que agora estão a falar na escola. A senhora me desculpe, mas parece “chuchadeira”… Eu mando o meu filho à escola para aprender a ser gente o que passa por aprender a língua portuguesa. A escola não tem que se preocupar com o crioulo para ele, pois em casa tem-me a mim e ao pai para isso. Aqui na escola quero que o meu filho aprenda a estudar, a escrever e a falar bem português. Para isso é que o pus na escola! A senhora Directora entendeu direito o que eu disse? Bem, é só isto é que eu lhe queria dizer!» E mais não foi preciso acrescentar. Despediu-se e saiu do gabinete, porta fora, com passos enérgicos e com ar de quem havia cumprido um dever!
O que é certo é que a Presidente do Conselho Directivo teve mesmo de rever a orientação anteriormente dada.
Moral da história, se é que é ela é aqui precisa: esta atitude idiossincrática da mãe cabo-verdiana reflecte o que a escola directamente representa para o imigrante cabo-verdiano: uma via de integração e de valorização social. E ainda bem que assim é.
Ora hoje o tema que queria partilhar convosco tem origem num pequeno – mas que não deixa de ser interessante – incidente, recentemente acontecido, entre uma mãe e a direcção da escola em que está o filho.
Mas antes de recontar o episódio que me foi relatado por um professor de uma das escolas da zona da Damaia, Portugal, onde vive uma significativa comunidade cabo-verdiana aí imigrada, devo explicar que se trata de uma mãe cabo-verdiana, emigrante, creio que oriunda da ilha de Santiago.
Ora bem, a referida escola onde anda o filho decidiu numa atitude que pode ser até louvável, que os professores das turmas, maioritariamente frequentadas por alunos de origem cabo-verdiana, deviam aprender e falar crioulo com os alunos. Foi ministrado um curso de crioulo aos docentes interessados e alguns deles começaram a pôr em prática a orientação recebida.
Vai daí, ao ter conhecimento de tal postura pedagógica, a nossa mãe e encarregada de educação de um dos alunos cuja turma fora abrangida por essa norma linguística, sai de casa, numa bela manhã, dirige-se à escola e pede para falar à Presidente do Conselho Directivo da Escola e segundo me contaram, as palavras, ao que parece indignadas da encarregada de educação para a responsável da escola foram (mais ou menos as seguintes, ditas num meio português, meio crioulo mas, ao que parece, bem percebidas): «Senhora Directora, eu vim aqui para falar consigo sobre o crioulo que agora estão a falar na escola. A senhora me desculpe, mas parece “chuchadeira”… Eu mando o meu filho à escola para aprender a ser gente o que passa por aprender a língua portuguesa. A escola não tem que se preocupar com o crioulo para ele, pois em casa tem-me a mim e ao pai para isso. Aqui na escola quero que o meu filho aprenda a estudar, a escrever e a falar bem português. Para isso é que o pus na escola! A senhora Directora entendeu direito o que eu disse? Bem, é só isto é que eu lhe queria dizer!» E mais não foi preciso acrescentar. Despediu-se e saiu do gabinete, porta fora, com passos enérgicos e com ar de quem havia cumprido um dever!
O que é certo é que a Presidente do Conselho Directivo teve mesmo de rever a orientação anteriormente dada.
Moral da história, se é que é ela é aqui precisa: esta atitude idiossincrática da mãe cabo-verdiana reflecte o que a escola directamente representa para o imigrante cabo-verdiano: uma via de integração e de valorização social. E ainda bem que assim é.
Por onde anda a pontualidade!?
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
A pontualidade terá sido “varrida” dos mapas das escolas, dos serviços públicos, dos transportes, dos lares, entre amigos? Foi “banida” na cultura organizativa dos chefes de serviços, dos responsáveis, dos funcionários públicos, dos empregados? Por onde andará a pontualidade neste País? É a questão que se me tem vindo a colocar à medida que o tempo passa e a novos tempos dá lugar. O retrocesso nesta matéria é quase total. Já nem sequer faz parte da educação em casa e, infelizmente, também não nas escolas.
A propósito destas últimas, as escolas, escutando há dias um programa pela rádio em que o jornalista fazia a cobertura informativa do primeiro dia de aulas, verifiquei, uma vez mais e com muita tristeza, de como anda a nossa pontualidade. O referido jornalista de serviço matinal, andou por quase todas as escolas secundárias da nossa cidade capital e o denominador comum de todas elas – e de que o repórter se queixava ao colega do estúdio – era que as escolas visitadas, estavam praticamente vazias, sem ninguém a quem ele pudesse entrevistar ou colher impressões sobre o regresso às aulas. Segundo ele, ainda não havia chegado, nem professores, nem alunos e nem funcionários para se dar início às aulas das 7h30m de horário; olhei para o meu relógio e os ponteiros já quase se abeiravam da hora regulamentar lectiva. Disse para os meus “botões:” «a pontualidade não devia começar, precisamente nas escolas, como acto pedagógico e educativo?» Que péssimo exemplo!
Aqui há dias a Directora de um conceituado Jardim-escola desta cidade, lamentava os atrasos quase sistemáticos de muitos pais em chegarem à instituição a horas regulamentares com as crianças. Se começam assim o dia, a que horas chegarão ao respectivo posto de trabalho? E tudo isto tem um efeito somatório, multiplicador e acumulativo. De atraso em atraso no trabalho, no desempenho e no atendimento ao cidadão. Qual a meta a atingir?
Actualmente, e não é raro acontecer, não se encontrar no seu local de trabalho, ora o chefe, ora o funcionário responsável pelo assunto que o cidadão vai tentar resolver, ou tem pendente com o serviço público. As respostas mais ouvidas (da minha “estatística” pessoal) são invariavelmente as seguintes: «ainda não chegou» ou então: «saiu» e ainda a já estafada justificação de ausência e de não querer trabalhar: «acabou de entrar numa reunião». Tudo isto dito com o tom e o ar de ser a coisa mais natural do mundo, e mais, como que a fazer sentir ao cidadão necessitado do agente ausente, a culpa que lhe coube em ter ido à repartição ou ao serviço àquela hora, naquele momento! E estamos a falar em pleno horário de funcionamento. Ao que chegámos!
Resultado, o dito agente e prestador de serviço público, pago com os nossos impostos também, nunca está ou, muito raramente se encontra em horas normais de expediente, no seu posto de trabalho.
Minha gente, será assim que querem ou pretendem que o país progrida? Com recursos humanos dessa estirpe? Em que os pontuais constituem honradíssimas excepções?
Trata-se de uma quase “calamidade” nacional, uma espécie de praga endógena que vem avassalando e minando os serviços públicos, privados e as relações laborais em Cabo Verde. Para além de constituir, no meu entender, uma autêntica vergonha!
É que a pontualidade, para além de ser um elemento social, ou melhor de socialização, indispensável para a vida numa comunidade organizada e civilizada, é igualmente um claro sinal de respeito e de consideração pelo nosso trabalho, pelo outro que espera por nós e, finalmente, por nós próprios.
Eu já me considero uma “espécie em vias de extinção” ou seja, faço parte de um reduzido grupo de pessoas normais que pratica e sente orgulho nisso de ser pontual. Felizmente, ainda tenho o prazer de disputar com elas quem é mais pontual do que a outra. Longe vai o tempo em que a pontualidade fazia parte do código de honra de qualquer agente público.
A propósito destas últimas, as escolas, escutando há dias um programa pela rádio em que o jornalista fazia a cobertura informativa do primeiro dia de aulas, verifiquei, uma vez mais e com muita tristeza, de como anda a nossa pontualidade. O referido jornalista de serviço matinal, andou por quase todas as escolas secundárias da nossa cidade capital e o denominador comum de todas elas – e de que o repórter se queixava ao colega do estúdio – era que as escolas visitadas, estavam praticamente vazias, sem ninguém a quem ele pudesse entrevistar ou colher impressões sobre o regresso às aulas. Segundo ele, ainda não havia chegado, nem professores, nem alunos e nem funcionários para se dar início às aulas das 7h30m de horário; olhei para o meu relógio e os ponteiros já quase se abeiravam da hora regulamentar lectiva. Disse para os meus “botões:” «a pontualidade não devia começar, precisamente nas escolas, como acto pedagógico e educativo?» Que péssimo exemplo!
Aqui há dias a Directora de um conceituado Jardim-escola desta cidade, lamentava os atrasos quase sistemáticos de muitos pais em chegarem à instituição a horas regulamentares com as crianças. Se começam assim o dia, a que horas chegarão ao respectivo posto de trabalho? E tudo isto tem um efeito somatório, multiplicador e acumulativo. De atraso em atraso no trabalho, no desempenho e no atendimento ao cidadão. Qual a meta a atingir?
Actualmente, e não é raro acontecer, não se encontrar no seu local de trabalho, ora o chefe, ora o funcionário responsável pelo assunto que o cidadão vai tentar resolver, ou tem pendente com o serviço público. As respostas mais ouvidas (da minha “estatística” pessoal) são invariavelmente as seguintes: «ainda não chegou» ou então: «saiu» e ainda a já estafada justificação de ausência e de não querer trabalhar: «acabou de entrar numa reunião». Tudo isto dito com o tom e o ar de ser a coisa mais natural do mundo, e mais, como que a fazer sentir ao cidadão necessitado do agente ausente, a culpa que lhe coube em ter ido à repartição ou ao serviço àquela hora, naquele momento! E estamos a falar em pleno horário de funcionamento. Ao que chegámos!
Resultado, o dito agente e prestador de serviço público, pago com os nossos impostos também, nunca está ou, muito raramente se encontra em horas normais de expediente, no seu posto de trabalho.
Minha gente, será assim que querem ou pretendem que o país progrida? Com recursos humanos dessa estirpe? Em que os pontuais constituem honradíssimas excepções?
Trata-se de uma quase “calamidade” nacional, uma espécie de praga endógena que vem avassalando e minando os serviços públicos, privados e as relações laborais em Cabo Verde. Para além de constituir, no meu entender, uma autêntica vergonha!
É que a pontualidade, para além de ser um elemento social, ou melhor de socialização, indispensável para a vida numa comunidade organizada e civilizada, é igualmente um claro sinal de respeito e de consideração pelo nosso trabalho, pelo outro que espera por nós e, finalmente, por nós próprios.
Eu já me considero uma “espécie em vias de extinção” ou seja, faço parte de um reduzido grupo de pessoas normais que pratica e sente orgulho nisso de ser pontual. Felizmente, ainda tenho o prazer de disputar com elas quem é mais pontual do que a outra. Longe vai o tempo em que a pontualidade fazia parte do código de honra de qualquer agente público.
Mário Fonseca e a Poética do Amor Futuro...
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Porque a morte surpreende sempre e dolorosamente; e porque hoje ao evocar Mário Fonseca que recentemente nos deixou, gostaria de fazê-lo através da sua poesia, a sua maior herança a todos nós deixada; venho aqui neste curto e parco texto realçar, em palavras breves, a parte mor e larga que coube à temática do Amor, eterno mote que emoldurou e acompanhou muitos versos deste poeta os quais num outro escrito chamei de «Poética do amor e da rebeldia».
A parte “rebelde” da sua poesia, mais distinta na poesia dedicada ao «nacionalismo combatente» marcou indelevelmente a sua escrita e ficará certamente como uma espécie de “ex-libris” do seu estilo poético, mas para nós também que conhecemos o homem, como uma forma de estar na vida de quem nunca “dobrou a cerviz”.
Esta introdução é minha homenagem à memória afectuosa que guardarei do poeta Mário Fonseca.
Voltando ao tema que deu o título a este escrito, ora o amor na poesia de Mário Fonseca é também vária, é igualmente cósmica e abarca um colectivo. Muitas vezes é avassalador, de tal modo o é, que o poeta ao “deitar contas” à vida, eis senão que descobre e lhe assoma claramente, a dolorosa consciência – mas sem qualquer ressentimento, antes pelo contrário, numa atitude fraterna – de “se ter dado” aos outros, de ter posto e disponibilizado a sua poesia ao serviço da “vida” – que não exactamente a sua, mas – ”a que os outros terão, mesmo se dentro de séculos”
As palavras de Arménio Vieira, assinalaram e bem que Mário Fonseca pertence «à estirpe dos poetas que demandam o Ideal, esse lugar que nenhum mapa assinala» e que talvez se situe «num país distante chamado Utopia»
Mas o poeta acreditava nesse futuro perfeito que dependeria do querer e da vontade do Homem, daí que ele não teve receio em, ao defendê-lo, fazê-lo através da conjugação do verbo Amar:
A parte “rebelde” da sua poesia, mais distinta na poesia dedicada ao «nacionalismo combatente» marcou indelevelmente a sua escrita e ficará certamente como uma espécie de “ex-libris” do seu estilo poético, mas para nós também que conhecemos o homem, como uma forma de estar na vida de quem nunca “dobrou a cerviz”.
Esta introdução é minha homenagem à memória afectuosa que guardarei do poeta Mário Fonseca.
Voltando ao tema que deu o título a este escrito, ora o amor na poesia de Mário Fonseca é também vária, é igualmente cósmica e abarca um colectivo. Muitas vezes é avassalador, de tal modo o é, que o poeta ao “deitar contas” à vida, eis senão que descobre e lhe assoma claramente, a dolorosa consciência – mas sem qualquer ressentimento, antes pelo contrário, numa atitude fraterna – de “se ter dado” aos outros, de ter posto e disponibilizado a sua poesia ao serviço da “vida” – que não exactamente a sua, mas – ”a que os outros terão, mesmo se dentro de séculos”
As palavras de Arménio Vieira, assinalaram e bem que Mário Fonseca pertence «à estirpe dos poetas que demandam o Ideal, esse lugar que nenhum mapa assinala» e que talvez se situe «num país distante chamado Utopia»
Mas o poeta acreditava nesse futuro perfeito que dependeria do querer e da vontade do Homem, daí que ele não teve receio em, ao defendê-lo, fazê-lo através da conjugação do verbo Amar:
“Aqui tendes / O meu coração / Aberto / A todo o querer / Conjugai comigo / O verbo amar / O mais belo / O mais fácil / De conjugar / Eu amo a vida / E o pão / Partilhado / Na mesa de todos // (…) TU amas a vida / E o leite / Mungido / No úbere / Do amor // (…) ELE ama a vida / na paz merecida / dum comum caminhar / NÓS amamos a vida / E o quinhão / Que nos cabe / Porque bem / Trabalhamos / Na terra de todos / Por todos querida // (…) Se a morte vier / Em hora / importuna / Que importa / Morrer / Se é por amar /A vida / Se a semente semeada /Na terra / De todos / Germinará / Amanhã // (...)”
Mário Fonseca, in: Se a Luz é para Todos, 1998.
Por outro lado, o amor no poeta é também individualizado, sentido e dirigido. Nesta linha também está a sua “Força di Cretcheu:
Mário Fonseca, in: Se a Luz é para Todos, 1998.
Por outro lado, o amor no poeta é também individualizado, sentido e dirigido. Nesta linha também está a sua “Força di Cretcheu:
Pudesse ela ressuscitar /Não queria acreditar / Que ainda vive aquele amor / Que é amor de um mesmo amar / Nascido de um mero olhar.”
Porque a natureza e os limites deste escrito o não permitem, os excertos transcritos são apenas pequeníssimos exemplos dos muitos e variados poemas que Mário Fonseca escreveu sobre o tema.
É o próprio poeta que reconheceu que a sua poesia não era – e nem ele queria que ela fosse – unívoca. Não, ela não está munida apenas de tom “vociferante e acusador.” Ora isto permite-lhe sobreviver e perdurar consistentemente como texto poético. A sua rebeldia poética vai ao ponto de ter cantado o amor em tempo de guerra.
Podia acrescentar que são múltiplas, variadas e plurissignificativas, as vozes poéticas que lhe pediram, em simultâneo, licença para se expressarem. Vale dizer, que uma das riquezas da poética de Mário Fonseca residiu exactamente no facto de ele ter dado vez e voz a todas elas.
Porque a natureza e os limites deste escrito o não permitem, os excertos transcritos são apenas pequeníssimos exemplos dos muitos e variados poemas que Mário Fonseca escreveu sobre o tema.
É o próprio poeta que reconheceu que a sua poesia não era – e nem ele queria que ela fosse – unívoca. Não, ela não está munida apenas de tom “vociferante e acusador.” Ora isto permite-lhe sobreviver e perdurar consistentemente como texto poético. A sua rebeldia poética vai ao ponto de ter cantado o amor em tempo de guerra.
Podia acrescentar que são múltiplas, variadas e plurissignificativas, as vozes poéticas que lhe pediram, em simultâneo, licença para se expressarem. Vale dizer, que uma das riquezas da poética de Mário Fonseca residiu exactamente no facto de ele ter dado vez e voz a todas elas.
Ora se ele assim as entendeu – as vozes poéticas – melhor as expressou em ricos poemas que hão-de de permanecer no grande texto poético cabo-verdiano como símbolos de uma pujança cultural, histórica, social e igualmente lírica e rítmica que distinguem a poesia de Mário Fonseca.
As nossas Alegrias
Ultimamente e nesta etapa de vida comummente chamada de terceira idade, e já no limiar dela, apanho-me com alguma frequência, a reflectir sobre as prioridades a definir ou já definidas a levar a cabo exactamente nestes anos que hão-de de me encontrar (faço votos que sim!) em boa, ou no mínimo, razoável sanidade física e mental.
E o que sobressai de entre as minhas prioridades, que ao fim e ao cabo trazem sempre no topo a família; destaco as alegrias que os nossos netos nos têm dado. Eles funcionam como uma verdadeira bênção dos céus! E são-no de facto!
Daí chamá-los «As nossas alegrias».
Tudo é relativo. Não é? E se calhar em quase tudo semelhante a outros tantos avós deste mundo. Pois é, para nós o máximo é quando a Inês, a mais velha das netas telefona para comunicar aos avós que entrou no quadro de excelência da escola dela, ou que acabou de ler um livro com umas centenas de páginas, ou quando a Margarida, a segunda da lista dos netos, e muito dada a passatempos, às revistas e às disciplinas em que se configuram alguns conhecimentos científicos sobre a natureza e sobre o Homem, nos expressa de “cor e salteado” o nome dos ossos que formam o corpo humano.
Dos nossos dois netos, mais novos na sequência – ambos esbanjando energia – o Diego que nos seus lindíssimos três anos, faz-nos verdadeiros “recontos dramatizados” com pose das personagens dos contos que ele “lê” através das imagens dos livros e dos DVD. Outra graça: efabula maravilhosamente bem quando se lhe pergunta como foi o seu dia no Jardim.
Por último – e este último entenda-se apenas na fila por ordem etária – vem o nosso Miguel o «traquinas falador» por enquanto o «benjamin» dos netos e a querer fazer tudo o que as irmãs e o primo mais velhos fazem. A típica fase da imitação e que nele assenta com muita graça pois que os actos pretendidos, por vezes ultrapassam a capacidade dos seus dois anitos. Já agora não vá sem acrescentar a já célebre e irreverente expressão que ele terá ouvido e fixado e que gosta de repetir, diga-se em abono da verdade com alguma oportunidade por vezes e para quem o irrita: «cala a boca pá!» embora muito censurado, e bem, pelos progenitores, não deixa no entanto de provocar sonoras gargalhadas ao avô.
Tê-los todos cá em casa pelo Natal constitui para nós, os avós, o ponto alto do ano. Embora correndo o risco de utilizar lugares-comuns, diria que eles “enchem-nos” a casa de alegria e de barulho e quando partem, após a quadra festiva, o silêncio dos primeiros dias fica completamente preenchido pela saudade. Olhámos um para o outro, como a querer dizer: «Valem a pena! Eles são de facto as nossas alegrias!»
E o que sobressai de entre as minhas prioridades, que ao fim e ao cabo trazem sempre no topo a família; destaco as alegrias que os nossos netos nos têm dado. Eles funcionam como uma verdadeira bênção dos céus! E são-no de facto!
Daí chamá-los «As nossas alegrias».
Tudo é relativo. Não é? E se calhar em quase tudo semelhante a outros tantos avós deste mundo. Pois é, para nós o máximo é quando a Inês, a mais velha das netas telefona para comunicar aos avós que entrou no quadro de excelência da escola dela, ou que acabou de ler um livro com umas centenas de páginas, ou quando a Margarida, a segunda da lista dos netos, e muito dada a passatempos, às revistas e às disciplinas em que se configuram alguns conhecimentos científicos sobre a natureza e sobre o Homem, nos expressa de “cor e salteado” o nome dos ossos que formam o corpo humano.
Dos nossos dois netos, mais novos na sequência – ambos esbanjando energia – o Diego que nos seus lindíssimos três anos, faz-nos verdadeiros “recontos dramatizados” com pose das personagens dos contos que ele “lê” através das imagens dos livros e dos DVD. Outra graça: efabula maravilhosamente bem quando se lhe pergunta como foi o seu dia no Jardim.
Por último – e este último entenda-se apenas na fila por ordem etária – vem o nosso Miguel o «traquinas falador» por enquanto o «benjamin» dos netos e a querer fazer tudo o que as irmãs e o primo mais velhos fazem. A típica fase da imitação e que nele assenta com muita graça pois que os actos pretendidos, por vezes ultrapassam a capacidade dos seus dois anitos. Já agora não vá sem acrescentar a já célebre e irreverente expressão que ele terá ouvido e fixado e que gosta de repetir, diga-se em abono da verdade com alguma oportunidade por vezes e para quem o irrita: «cala a boca pá!» embora muito censurado, e bem, pelos progenitores, não deixa no entanto de provocar sonoras gargalhadas ao avô.
Tê-los todos cá em casa pelo Natal constitui para nós, os avós, o ponto alto do ano. Embora correndo o risco de utilizar lugares-comuns, diria que eles “enchem-nos” a casa de alegria e de barulho e quando partem, após a quadra festiva, o silêncio dos primeiros dias fica completamente preenchido pela saudade. Olhámos um para o outro, como a querer dizer: «Valem a pena! Eles são de facto as nossas alegrias!»