Dos conceitos à semântica mirabolante:

sexta-feira, 20 de novembro de 2009



Há palavras que são plenas, algumas vazias, outras ainda nem por isso…
A palavra Morte por exemplo, quando em contexto vernáculo, é um vocábulo pleno e pleno do incontornável, (porque a todos espera) do irremediável, do feito irreversível, do “até à eternidade”, em suma, do fatalismo expectável e as mais das vezes indesejável.
Porque estamos em tempo dela, a meio e em crescendo de uma epidemia devastadora (o dengue) que não escolhe a hora nem a idade, que ataca indiscriminadamente e mata a sério e dói muito para os que ficam e que ficam também à espera da vez… numa impotência aterrorizadora que só a expressão «fazer o quê?» nos aproxima de uma imitação de acalmia. Volto a dizer, porque estamos em tempo dela, a morte, o melhor mesmo é usarmos mais vezes as palavras plenas com sentido dirigido e realizado, ainda que com alguma contenção, mas é preferível o seu uso, ao invés de desbaratarmos os nossos pensamentos e as nossas ideias em palavras vazias.
O “silêncio” é também um vocábulo pleno e deve fazer parte das nossas cogitações pelos ganhos introspectivos que nos traz. Mas igualmente “compreensão” ganha aqui sentido pleno se a projectarmos no “outro” este tão prenhe de significado como o “nós” ou o “eu”.
E mais não vai dito, porque contido e sentido numa espécie de jogo de medo e de interrogação em que vida não rima com morte.




Oficialização do crioulo – Uma bandeira a meia haste

domingo, 15 de novembro de 2009
Estarão com certeza admirados de eu abordar este tema no blogue da Ondina. Parecer-vos-á, com certeza, uma temeridade, uma ousadia, ou mesmo um atrevimento.
Acontece que tenho fortes razões para o fazer. Referir-me-ei apenas a algumas: a primeira é que a Ondina se recusa a abordar o crioulo fora do contexto do bilinguismo com alegações várias – conheço-as e entendo-as - deixando-me por isso espaço para o fazer; a segunda é que a língua não é nem de longe nem de perto propriedade exclusiva dos linguístas; a terceira, é que a língua é, efectivamente, preocupação daqueles que a falam sendo intrinsecamente um meio e não um fim, desde imemoráveis tempos bíblicos da Torre de Babel; e, finalmente, the last but not the least, o recente chumbo político de que a oficialização do crioulo foi alvo na Assembleia Nacional.
A oficialização do crioulo é um tema polémico que de per si divide a sociedade cabo-verdiana independentemente do posicionamento político-partidário ou da ideologia. Há defensores e opositores em todos os quadrantes. Os argumentos de uns e de outros são vários. A meu ver a sua sustentação económica não encontra resposta nem nos seus defensores mais acérrimos arriscando-se por isso a não passar da letra de lei se, por acaso, fosse oficializado. É um "capricho" de países ricos. E se para a sua funcionalidade fosse necessário estender a mão então deixaria de ser um orgulho nacional para ser a mais vergonhosa das vaidades. Aliás, não é só vaidade, é também egoísmo e algum oportunismo e não sou eu quem o diz. É precisamente Amílcar Cabral que o deixa entender quando afirma:

"(…) Há pessoas que querem que ponhamos de lado a língua portuguesa, porque somos africanos e não queremos a língua de estrangeiros. Eles querem é avançar a sua cabeça, não é o seu povo que querem avançar». (…) Se quisermos levar para frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa língua tem que ser o português"

O Governo ao transformar a oficialização do crioulo num desígnio nacional, na sua bandeira política para toda a legislatura, foi muito imprudente e, de caminho, manifestou alguma dose de arrogância. Esqueceu-se que a sua maioria não lhe permitia mexer na Constituição. Confundiu a adopção de um alfabeto com a oficialização tácita da língua que ele suporta literariamente. Só que crioulo como língua latina que é, Mário Fonseca disse-o, tinha já subjacente um alfabeto que foi sempre usado e que permitiu e permite que lêssemos Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, B. Leza, Kaoberdiano Dambará, Manual d’Novas e outros sem quaisquer problemas quer de dicção quer de interpretação. O que o ALUPEC fez, e perdoem-me os seus defensores, foi tirar a alma ao crioulo. O que é que Kabral, Karlus, Kabra, Kongu, Kamiñu diz a um leitor (não ouvinte) comum cabo-verdiano? Segundo o grande F. Pessoa (e não era preciso ser ele a dizê-lo) qualquer idioma:

concentra em si, instintiva e naturalmente, um conjunto de tradições, de maneira de ser e de pensar, uma história e uma lembrança, um passado morto que só nele pode reviver”.

A grafia tem de traduzir estes sentimentos. Mas são estes, precisamente, os atributos do crioulo que o ALUPEC destrói: tradição, história e passado.
É interessante registar que não se cansam de apontar o grande Mestre B. Lopes da Silva quando ele conclui que para o estabelecimento de um padrão para o crioulo literário, o de Sotavento, com destaque para o de Santiago, é o que apresenta melhor performance mas olvidam-no completamente quando no mesmo documento diz:

Não valerá a pena elaborarmos um sistema ortográfico autónomo, bastando-nos adoptar a ortografia da língua portuguesa, visto que esta não se afasta, em quase ponto nenhum, da oralidade crioula, que o esquema ortográfico se destinará a traduzir.”

Tanto quanto sei, a oficialização do crioulo ficou na Comissão Especializada com o voto contra da UCID e a abstenção (táctica) do MpD. A Imprensa por razões que desconhecemos praticamente se calou. É certo que a não aprovação na Comissão Especializada não significa um chumbo definitivo mas, por tradição a proposta que não tiver passado na especialidade não se leva à plenária. A menos que um volte-face se verifique.
E é nesta linha que se chegou a falar na negociação do “C” com “K”. Presumo que não seja mais do que um rumor, um boato. É ridículo ou surrealista de mais para se crer.Com a votação da UCID e do MpD prevaleceu o bom-senso. Até alguns (não poucos) paicvistas aplaudem.
Não sei para quê tanta pressa com a oficialização do crioulo. A polémica divertiu-nos – de uma manobra de diversão também se tratava - durante todo este tempo desviando-nos dos verdadeiros problemas do País.
Os que tão bem souberam escrever o crioulo não precisaram de o aprender em nenhuma escola nem utilizar qualquer alfabeto alternativo. É preciso ter plena consciência que o crioulo termina, para fins oficiais, quando entramos no avião. Isto sem esquecer aqueles que lá fora dele vivem, em países que em vez de promover a integração fomentam, com a nossa ajuda, a guetização – as tais chamadas minorias (socialmente estigmatizadas).
Mas a ironia do destino é que em vez do PAICV que se arroga como herdeiro – só quando lhe interessa – do património político de Amílcar Cabral, são a UCID e o MpD que neste particular se apresentam como os guardiães dos seus desígnios.
A. Ferreira

Leio...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Leio, para meu espanto e mágoa que a pobreza extrema em Cabo Verde subiu para 26%. Pensar que há uma dezena e meia de anos a pobreza extrema no nosso país era de 14%! Para onde vamos? A isso chama-se retrocesso...
Mais, ainda sob o mesmo efeito, leio na coluna de Eunice Silva o seguinte:
«1. Reside mais de ¼ da população do país;
2. O crescimento da população é cerca de quase duas vezes superior à média nacional;
3. Cerca de 40% da população recorre à subtracção na rede pública para aceder à energia;
4. O desemprego atinge mais de 40% dos jovens, que por falta do que fazer enveredam por comportamentos desviantes, como o álcool ou a droga;
5. Pessoas são assassinadas em zonas nobres e em plena luz do dia, sem que as autoridades consigam apanhar o assassino;
6. Pessoas convivem no seu dia a dia com animais à solta, lixo e, as vacas andam nas avenidas e no meio das estradas;
7. As ruas estão invadidas de vendedores e prestadores de serviço ambulantes;
8. Cerca de 20% da população é imigrante-estrangeiro, sendo a grande maioria na situação irregular, desqualificado, pobre e desempregado;
9. Mais de 40% das famílias não tem casa de banho;
10. Apenas 15% tem acesso a rede de esgoto;
11. 53% não tem acesso à água canalizada;
12. 45% das famílias ainda abastecem-se de água em chafarizes.»

Esta é a situação da Cidade da Praia – a capital do país e o maior centro urbano de Cabo Verde – no século XXI.

Dengue – a responsabilidade do Governo

domingo, 8 de novembro de 2009
Falar do dengue é, actualmente, incontornável em qualquer conversa. Um surto epidémico que assentou arraiais na nossa terra, e que se espalhou pelo país inteiro por obra e graça do nosso governo. A ligeireza e displicência com que as autoridades encararam o aparecimento da doença permitiram o seu alastramento a uma velocidade exponencialmente crescente gerando uma onda de apreensão e pavor na população. Isto sem falar dos seus nefastos e pesados efeitos na economia do Pais.
Normalmente, depois da tragédia vem a farsa. Desta vez que, infelizmente, começou com a tragédia é a comédia que antecipa a farsa. Pois que, depois de mais de uma dezena de milhares de casos registados e de entre eles, algumas vítimas mortais, o governo surge, com um anúncio triunfalista e ao mesmo tempo inquietante, feito pelo próprio chefe do governo - que, pelos vistos, deixou de ter ministro da saúde – a conceder tolerância de ponto supostamente para permitir o combate às causas da doença e conter a sua proliferação.
Não se tratava de uma nova doença cujos efeitos e capacidade de alastramento não se conhecessem. O que aconteceu foi o desleixo e a incúria de um governo, que continua a privilegiar o imediatismo e o improviso, navegando sempre à vista. E que, pelos vistos, se limita a gerir, estritamente, o dia-a-dia e, por isso, não tem metas nem políticas consistentes, pelo menos, para a saúde pública.
Ninguém condena o gesto do governo em si em conceder tolerância de ponto. Ele é aparentemente generoso e tem a virtude de apelar à indispensável solidariedade e alertar para os focos a combater. Também não se questiona a sua necessidade. Tornara-se já, por incúria e negligência das próprias autoridades, imprescindível e indispensável. O que ninguém aplaude é o seu timing que o transformou numa manifestação folclórica evitável se o governo tivesse feito em tempo útil o seu trabalho de casa. Não teria sido necessário privar o país de um dia de produção. Foi um gesto não negligenciável mas com uma forte carga demagógica que, no fundo, o que mais pretendia era fazer esquecer a “borrada” que havia feito ao permitir que meia dúzia de casos descambasse tão rapidamente num surto epidémico. Como diz o povo: “Depois da casa arrombada, trancas na porta!”
Não é tempo de culpabilizar ninguém individualmente nem de procurar bodes expiatórios, que os há sempre. Mas se o governo não é responsável pelo aparecimento do dengue no País, ele não pode enjeitar a grande responsabilidade que tem na sua rápida transformação em epidemia. E por isso, deve tirar, ele próprio, as devidas ilações e agir em conformidade, sob pena de, se o não fizer alguém o fará por ele com pesados custos.

A. Ferreira

O Romance Histórico em Teixeira de Sousa

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Se há uma narrativa – dentro do panorama da moderna Literatura cabo-verdiana – que se aproxima do chamado Romance Histórico é, sem grandes margens de erro, o romance: Entre Duas Bandeiras de Teixeira de Sousa.
Recordemos que a obra foi publicada em 1994 pela editora de sempre do escritor, a Europa/América, vinte anos após os acontecimentos nela narrados e quatro anos depois da instauração em Cabo Verde do regime democrático.
Tratou-se de um projecto audacioso do seu autor e entendam-me este “audacioso” como um desvio consciente e experimentalista do escritor do molde até então seguido em matéria de temática ficcional, embora o estilo e o poder criativo de Teixeira de Sousa se mantenham neste romance, em tudo semelhante aos dos seus romances anteriores e posteriores a este. É que o tema agora é político, observado e narrado sob um formato que se diria carnavalesco e sobreposto em várias dimensões.
Mas antes de entrarmos no universo romanesco propriamente dito, fixemos o espaço e o tempo histórico de Entre Duas Bandeiras. O cenário é a cidade do Mindelo e o tempo medeia entre o período histórico/político vivido em Cabo Verde, imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 (queda do regime salazarista) e o período antes do 5 de Julho de 1975 (data da independência de Cabo Verde).
O livro de Teixeira de Sousa – que vale a pena ser lido para quem ainda o não tenha feito – descreve-o de uma forma que prende o leitor até à última página do romance. Existe, e agora retomo o interior da acção, um tom satírico que perpassa o romance através do seu veio mais brando que é o humor. Como disse mais acima, o enredo parece formatado dentro de vários Carnavais. O Carnaval de Fevereiro, festa rija dos mindelenses, com os seus desfiles, os bailes animados e os prémios aos blocos; o Carnaval político com os seus comícios a toda a hora, com mil e um pretextos para manifestações de rua e palavras de ordem gritadas em megafones para os ouvidos dos transeuntes; os insultos e as provocações constantes dos ditos revolucionários; a dicotomia entre os auto proclamados «melhores filhos» gerados pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e os filhos ilustres da terra que a tudo assistiam, uns aterrorizados, outros atónitos, pois que eram mimoseados com a classificação de «cachorro de dois pés» entre outros epítetos e, finalmente, o Carnaval individual da personagem Gaudêncio Pereira, cuja maior aspiração em termos de vida social era poder entrar como sócio no famoso Grémio Recreativo de Mindelo. Mas há outros Carnavais dentro da urdidura novelesca que sem serem secundários, gozarão de menos estatuto do que os acabados de apontar. Gostaria de destacar a célebre «invasão e tomada da Rádio Barlavento» com a justificação de que era uma rádio que transmitia “demasiados comunicados da UDC” (União Democrática cabo-verdiana) ao invés de só transmitir “os comunicados do PAIGC”, culminando a história (de novo a ambiguidade entre o real e a ficção) com a prisão e o embarque para a cadeia política do Tarrafal dos membros da UDC, este último evento em tom sério porque trágico afinal num tempo que devia ser de liberdade. De tudo isto – e de forma aparentemente romanceada em que subjaz uma verdadeira crónica histórica – nos dá conta o livro: Entre Duas Bandeiras.
Dito por outras palavras, assistimos no desenrolar da narrativa a uma espécie de aliança, entre a História e a ficção de forma criativa e empolgante.
Finalizando, e tal como havia dito no início, a filiação deste romance, cuja leitura recomendo, deverá ser procurada na linha do romance histórico, pois que se trata também de uma grande reportagem (ficcionada embora) de um tempo histórico vivenciado pelos Mindelenses.

"Aprender a ser gente"?...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Reiniciar a actividade de escrita é tarefa que se me apresenta sempre custosa. Afinal a inércia pela ausência dela por algum tempo, tem os seus custos na retoma…
Ora hoje o tema que queria partilhar convosco tem origem num pequeno – mas que não deixa de ser interessante – incidente, recentemente acontecido, entre uma mãe e a direcção da escola em que está o filho.
Mas antes de recontar o episódio que me foi relatado por um professor de uma das escolas da zona da Damaia, Portugal, onde vive uma significativa comunidade cabo-verdiana aí imigrada, devo explicar que se trata de uma mãe cabo-verdiana, emigrante, creio que oriunda da ilha de Santiago.
Ora bem, a referida escola onde anda o filho decidiu numa atitude que pode ser até louvável, que os professores das turmas, maioritariamente frequentadas por alunos de origem cabo-verdiana, deviam aprender e falar crioulo com os alunos. Foi ministrado um curso de crioulo aos docentes interessados e alguns deles começaram a pôr em prática a orientação recebida.
Vai daí, ao ter conhecimento de tal postura pedagógica, a nossa mãe e encarregada de educação de um dos alunos cuja turma fora abrangida por essa norma linguística, sai de casa, numa bela manhã, dirige-se à escola e pede para falar à Presidente do Conselho Directivo da Escola e segundo me contaram, as palavras, ao que parece indignadas da encarregada de educação para a responsável da escola foram (mais ou menos as seguintes, ditas num meio português, meio crioulo mas, ao que parece, bem percebidas): «Senhora Directora, eu vim aqui para falar consigo sobre o crioulo que agora estão a falar na escola. A senhora me desculpe, mas parece “chuchadeira”… Eu mando o meu filho à escola para aprender a ser gente o que passa por aprender a língua portuguesa. A escola não tem que se preocupar com o crioulo para ele, pois em casa tem-me a mim e ao pai para isso. Aqui na escola quero que o meu filho aprenda a estudar, a escrever e a falar bem português. Para isso é que o pus na escola! A senhora Directora entendeu direito o que eu disse? Bem, é só isto é que eu lhe queria dizer!» E mais não foi preciso acrescentar. Despediu-se e saiu do gabinete, porta fora, com passos enérgicos e com ar de quem havia cumprido um dever!
O que é certo é que a Presidente do Conselho Directivo teve mesmo de rever a orientação anteriormente dada.
Moral da história, se é que é ela é aqui precisa: esta atitude idiossincrática da mãe cabo-verdiana reflecte o que a escola directamente representa para o imigrante cabo-verdiano: uma via de integração e de valorização social. E ainda bem que assim é.

Por onde anda a pontualidade!?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009
A pontualidade terá sido “varrida” dos mapas das escolas, dos serviços públicos, dos transportes, dos lares, entre amigos? Foi “banida” na cultura organizativa dos chefes de serviços, dos responsáveis, dos funcionários públicos, dos empregados? Por onde andará a pontualidade neste País? É a questão que se me tem vindo a colocar à medida que o tempo passa e a novos tempos dá lugar. O retrocesso nesta matéria é quase total. Já nem sequer faz parte da educação em casa e, infelizmente, também não nas escolas.
A propósito destas últimas, as escolas, escutando há dias um programa pela rádio em que o jornalista fazia a cobertura informativa do primeiro dia de aulas, verifiquei, uma vez mais e com muita tristeza, de como anda a nossa pontualidade. O referido jornalista de serviço matinal, andou por quase todas as escolas secundárias da nossa cidade capital e o denominador comum de todas elas – e de que o repórter se queixava ao colega do estúdio – era que as escolas visitadas, estavam praticamente vazias, sem ninguém a quem ele pudesse entrevistar ou colher impressões sobre o regresso às aulas. Segundo ele, ainda não havia chegado, nem professores, nem alunos e nem funcionários para se dar início às aulas das 7h30m de horário; olhei para o meu relógio e os ponteiros já quase se abeiravam da hora regulamentar lectiva. Disse para os meus “botões:” «a pontualidade não devia começar, precisamente nas escolas, como acto pedagógico e educativo?» Que péssimo exemplo!
Aqui há dias a Directora de um conceituado Jardim-escola desta cidade, lamentava os atrasos quase sistemáticos de muitos pais em chegarem à instituição a horas regulamentares com as crianças. Se começam assim o dia, a que horas chegarão ao respectivo posto de trabalho? E tudo isto tem um efeito somatório, multiplicador e acumulativo. De atraso em atraso no trabalho, no desempenho e no atendimento ao cidadão. Qual a meta a atingir?
Actualmente, e não é raro acontecer, não se encontrar no seu local de trabalho, ora o chefe, ora o funcionário responsável pelo assunto que o cidadão vai tentar resolver, ou tem pendente com o serviço público. As respostas mais ouvidas (da minha “estatística” pessoal) são invariavelmente as seguintes: «ainda não chegou» ou então: «saiu» e ainda a já estafada justificação de ausência e de não querer trabalhar: «acabou de entrar numa reunião». Tudo isto dito com o tom e o ar de ser a coisa mais natural do mundo, e mais, como que a fazer sentir ao cidadão necessitado do agente ausente, a culpa que lhe coube em ter ido à repartição ou ao serviço àquela hora, naquele momento! E estamos a falar em pleno horário de funcionamento. Ao que chegámos!
Resultado, o dito agente e prestador de serviço público, pago com os nossos impostos também, nunca está ou, muito raramente se encontra em horas normais de expediente, no seu posto de trabalho.
Minha gente, será assim que querem ou pretendem que o país progrida? Com recursos humanos dessa estirpe? Em que os pontuais constituem honradíssimas excepções?
Trata-se de uma quase “calamidade” nacional, uma espécie de praga endógena que vem avassalando e minando os serviços públicos, privados e as relações laborais em Cabo Verde. Para além de constituir, no meu entender, uma autêntica vergonha!
É que a pontualidade, para além de ser um elemento social, ou melhor de socialização, indispensável para a vida numa comunidade organizada e civilizada, é igualmente um claro sinal de respeito e de consideração pelo nosso trabalho, pelo outro que espera por nós e, finalmente, por nós próprios.
Eu já me considero uma “espécie em vias de extinção” ou seja, faço parte de um reduzido grupo de pessoas normais que pratica e sente orgulho nisso de ser pontual. Felizmente, ainda tenho o prazer de disputar com elas quem é mais pontual do que a outra. Longe vai o tempo em que a pontualidade fazia parte do código de honra de qualquer agente público.