A gramática natural (versus?) a língua escolarizada?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Voltei a pensar sobre a chamada gramática natural com a chegada dos netos e a tentativa de “regularizar” – na fala deles – as formas verbais. Desde «eu fazi», corrigido: eu fiz «eu trazi», forma correcta: eu trouxe «eu sabo», corrigida: eu sei. De tudo um pouco se vai ouvindo dos mais pequenos.
Num aparte, que considero engraçado na fala dos meus netos mais novos, é a forma verbal que empregam correctamente e sem hesitar: «acabei!» que é quando querem informar que já finalizaram a refeição e que querem ser “libertados” da mesa para irem correr e brincar.
Este rememorar a fase verbal e natural da linguagem veiculada pela criança, levou-me também, aos meus filhos, quando bem pequenos, em que um deles - não interessa qual – perguntava: «…mãe, não foste tu que me nasceste?» (questionando-me se não tinha sido eu a trazê-lo ao mundo) ou ainda: «pai, se nós irmos…» (ao invés de: «se nós formos …») a “complicação” que é o verbo “Ir”, no futuro imperfeito do conjuntivo, com a configuração irregular de “for,” algo ainda ignorado na fala da criança, pois que não regida gramaticalmente. É que estas e algumas outras expressões que os nossos filhos diziam em pequenos e que agora retomam os netos – confesso que algumas delas me encantavam pela lógica que aparentavam no modo de expressão infantil – ilustraram alguma coisa sobre a fase de uma organização natural, ou de uma gramática natural da língua.
Mas afinal, este intróito é pretexto para relacionar ou tentar fazer alguma ponte com o que a seguir vem e que teve como “mote” o que li algures num texto da “net” intitulado: «Jogue sua Gramática no Lixo». Achei a frase um pouco excessiva, ou exagerada, para não dizer que percepcionei alguma “violência” nesta forma de expressão. Lido o conteúdo, apercebi-me de uma espécie de crítica do autor do escrito, aos falantes que dominam as regras gramaticais e por essa razão se julgam mais conhecedores da forma correcta de falar e de escrever de que outros não portadores dos mesmos conhecimentos.
Ora, embora concordando, por um lado, de que não é alardeando e fanfarronando conhecimentos que o “sábio” se descobre para os outros, por outro lado, não há que ter medo da gramática, da mesma forma ou similarmente, como não se deve ter medo da lei. A gramática funciona para uma língua, um pouco semelhantemente, como as leis e igualmente as normas sociais, organizam a vida em comunidade para os Homens. São regras e normas orientadoras que são úteis e funcionais para nos entendermos, ao falar e ao escrever a nossa e as outras línguas. O conhecimento do funcionamento da língua via a sua gramática, permite ao falante dominar o discurso – oral e escrito – e não ser dominado por ele. Se nos debruçarmos um pouco mais sobre a gramática, verificaremos que há uma lógica extremamente interessante, na qual ela se fundamenta. Desde a noção de algo substantivo e do adjectivo que o pode contornar e/ou modificar; passando pela ideia de principal e de acessório que acompanha as coisas e os actos, indo às causas (orações causais) e às consequências (orações consecutivas) desses mesmos actos, que oram se coordenam, (orações coordenadas) ora se integram, (orações integrantes) ora se subordinam (oração principal e subordinada) e por vezes, concedem (orações concessivas) e outras vezes, recusam e finalizam o acto (orações finais). E isto apenas para aflorar alguns aspectos dessa organização lógica e clara – que evita ambiguidades ou “ruídos” no acto de comunicação quer oral, quer escrito – que deriva da existência de regras gramaticais e que serve ao entendimento entre sujeitos falantes nos actos elocutórios que enformam e condicionam a nossa vida gregária.
Há um caminho, uma evolução que a escolarização da língua propicia ao falante, tendo como um dos meios dessa evolução, o conhecimento e o manejo das regras gramaticais.
O aprendente da sua própria língua e de outras línguas que lhe são necessárias, terá todas as vantagens em ir apreendendo e interiorizando de uma forma sistematizada e faseada no tempo e em estudos – para uma aplicação correcta nos já referidos actos elocutórios – os factores fundamentais da língua – a semântica, o léxico, a morfologia, a sintaxe, os estilos e outros mais, que constituem as normas linguísticas e gramaticais que regem a língua.
Daí reiterar que não há que recusar ou brigar com essas mesmas normas. Desde que haja oportunidade, vamos aprendê-las, o melhor que pudermos e soubermos. Só sairemos a ganhar. Nós (sujeitos falantes) e a língua (veículo de comunicação).
A gramática, alguém já o disse, é imanente à língua.
Não é por acaso que existe, creio que de há muito, uma linha pedagógica que orienta o sistema de ensino e que destaca o cuidado e o prolongamento que deve ser observado, em todas as etapas do ensino regular, no estudo da língua de ensino e veicular, como pilar indispensável para a formação e para a informação do aluno.

«Eu sabo, eu sabo...é o Pai Natal!»

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Esta foi a resposta – dita com muita graça – dada pelo meu neto mais novo, o Miguel de 2 anos, quando a minha filha perguntou aos filhos quem eram os pais do Menino Jesus. Sobre a mãe, uma das netas respondeu sem hesitar: «Maria», e quando foi a vez de nomear o pai, adiantou-se o «codé» com a resposta que serve de título a este escrito: «Eu sabo, eu sabo...é o Pai Natal».


Ora tudo isto vem a propósito da leitura do Editorial do número de Dezembro do Jornal «Terra Nova» assinado pelo seu director: Frei António Fidalgo de Barros. O conteúdo do referido editorial centra-se no que se pode chamar de uma espécie de deslocalização do sentido do Natal, que tem vindo a acontecer, que devia ser preenchido com o nascimento do Menino Jesus e os valores inerentes à efeméride, ao invés de o centrarmos na figura do “Pai Natal da Coca-Cola” nas palavras do autor.
A tentativa de recuperação do verdadeiro sentido do Natal não nega nem conflitua, bem pelo contrário acentua, creio eu, a ideia de festejarmos a quadra com alegria e com troca de prendas entre familiares e amigos que só demonstra afecto, embora muitas vezes não afaste tanto quanto seria desejável, o perigo de algum excesso nessas alturas, em matéria de consumismo.
Apesar de o não fazer na maior parte das vezes e dos casos, gostaria que as prendas fossem apenas simbólicas e que representassem exactamente aquilo que pretendemos, isto é, o facto de nos termos lembrado do outro próximo e de que nisso vai também um pouco da nossa amizade.

Voltando ao editorial lido, achei interessante e nem sabia que de um movimento se tratava, ter visto em Portugal – onde passei a quadra festiva – em muitas janelas e varandas de moradias, a efígie do Menino Jesus em pequenas bandeiras de ornamentação natalícia.
Afinal, alguma coisa está a “mexer-se” – essa movimentação referida no artigo do «Terra Nova» é disso prova – com a finalidade de repor os valores simbólicos do Natal que é cristão e cuja comemoração devia recordar-nos com alegria a comunhão da família, a humildade e o amor no acto de nascer de Cristo.

A Boa Vista de ontem na escrita e no romance de Germano Almeida

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A Ilha da Boa Vista era a ilha cujo nome diariamente se invocava nas outras Ilhas. Porquê? Porque a ilha entrava, estava e ficava em quase todas as casas, em muitos lares de Cabo Verde, tanto no seu exterior, pois era com a cal da ilha que se caiavam as casas, eram com telhas da Boa Vista que se cobriam muitas casas, como também no seu interior, sobretudo com lugar destacado, na cozinha. O atum enlatado da Fabrica Ultra muito apreciado nas mesas e do qual se podia variar a ementa caseira preparando-o de varias formas, Para além dessa iguaria, vinha da Boa Vista o binde que servia e serve para se confeccionar o cuscuz, uma espécie de bolo feito de farinha de milho que se come geralmente, ao pequeno-almoço ou no café da manhã. Hoje em dia, em vias de desaparecimento diário das mesas cabo-verdianas substituído pelo pão e pelas bolachas, produtos comprados já prontos a servir. Enquanto que a confecção cuidada do cuscuz, requeria que de véspera se deixasse o milho de molho, que era depois pilado, cochido, após o cantar do galo. Preparada a farinha, enchia-se o binde o qual se colocava em banho-maria para o cozimento do cuscuz. O ritual da sua preparação caseira, era mais adequado a um ambiente rural do que citadino.
O pote, utensílio indispensável para se conservar a água fresca, na ausência do frigorífico, vinha do barro da Boa Vista. Os moringues, as bilhas, as tagarras, largas tigelas de barro onde se colocavam as iguarias ou simples comida que depois se serviam à mesa. Os pratos de barro que durante muito tempo eram colocadas em quase todas as mesas de Cabo Verde, da mais abastada à mais pobre. Mais tarde, com a importação, mais generalizada, da chamada loiça fina da metrópole, a da Boa Vista passou a ser apenas da casa dos menos favorecidos, ou dos mais pobres. Refiro-me, como exemplo e, nomeadamente, o que sei sobre isso da ilha do Fogo, minha ilha de origem. Todas estas mercadorias distribuíam-se pelas ilhas através dos barcos que demandavam o porto de Sal-Rei em grande movimento no transporte para o comércio de cerâmica, de peles curtidas e sal que se vendiam nas outras ilhas. Por fim, desapareceu, faliu e fechou a Fábrica de Chaves de que fala o romance de Germano Almeida: «A Ilha Fantástica». Hoje, o célebre barro ou a argila da Boa Vista ficou circunscrita a trabalhos de artesanato não industrial da pequena olaria. Continuam a ser muito procurados os vasos para plantas, considerados, aliás, os mais bem acabados, mais bonitos e os que ficam bem, enfeitando, qualquer sala ou varanda da casa.
Logo, a ilha da Boa Vista esteve sempre presente outrora em quase todos os lares das ilhas.
Mas da Boa Vista vinham também as tâmaras douradas e saborosas de tal modo apreciadas que os rapazes do antigamente, para elogiarem uma rapariga diziam-lhe “a tua pele é como a tâmara passada da Boa Vista”, numa interessante metáfora para se referirem a cor e, possivelmente, ao que julgavam ser a macieza da pele da amada ou da pretendida como tal.
Considerada a Ilha mais oriental do Arquipélago, famosa também por aí “ter passado” o célebre meridiano, do Tratado de Tordesilhas, um dos marcos assinalados como divisória entre Portugal e a Espanha das novas terras achadas e por achar na época dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI.
Boa Vista é na actualidade uma das ilhas tomadas pelo turismo, definido nas palavras por G. Almeida «como garimpeiros de turismo que a tomaram parece que de assalto», estou a citar, para rematar que: «a Boa Vista está em vias de se transformar num grande hotel e que Deus ajude o boavistense a guardar para si, quanto mais não seja sete palmos de terra onde meter o caixão» Fim de citação.
Boa Vista é considerada, ex-aequo com a ilha Brava, a amorável pátria da morna a canção típica de Cabo Verde de que a internacional Cesária Évora é considerada das melhores interpretes. Terra de exímios rabequistas e de deliciosos violões, para além das mornas satíricas muito antigas da Boa Vista, de tal modo, a ilha era «terra sabi» que nos relatórios para os governadores, se escrevia que: «aquela gente muito folgava, muito dada as festas de muita dança e de... pouco trabalho»....
A “indolência” tornada proverbial/lendária que caracteriza o homem da Boa Vista e que faz com que os defensores da ilha, até encontrem explicações que a justificam, ao invés de a negar... o que não deixa de ser uma interessante abordagem da questão.
Permitam-me nesta sequência de evocações sobre a ilha da Boa Vista, trazer a pena de Maria Helena Spencer (1911-2005) antiga Jornalista do também antigo e já extinto «Boletim de Cabo Verde» (1949-1964) que numa soberba crónica descreve os homens (enaltecendo-os) e a ilha que apelida a «A ilha da Saudade». Numa alusão ao passado que permanece vivo, porque querido, na memória da sua gente. O que se conjugará, num belo acaso e convergência, com o que mais tarde, Germano Almeida de forma semi-ficcionada por vezes, nos transmite da sua ilha.
A ilha passou por muita penúria, ao longo do tempo. Os trabalhos quer fossem da pesca, da agricultura, ou mesmo fabril, eram regra geral sazonais para não dizer ocasionais e muito precários alias, tudo isto, aliado ao facto de o homem da Boa Vista ser muito dado à música e ao lazer e também justificados por ter muito tempo livre, e por se dedicar ao pastoreio que é, segundo alguns, uma actividade também contemplativa, e que convida a dedilhar as cordas do violão ou o arco da rabeca, ou do violino. Enfim, da “fama/lenda” não se livra o homem da Boa Vista. É quase gozo", quando se diz que, quando há necessidade de mão-de-obra para grandes obras de infra estruturação da ilha, vão-se buscar trabalhadores a outras ilhas.
O escritor G. Almeida “brinca” com isso, a seu jeito, mas vai defendendo a sua dama, dizendo que é mais lenda que ficou, do que outra coisa, essa da “preguiça” do homem da Boa Vista. Atenção, do homem, que não da mulher boavistense, pois ela é tida como trabalhadeira, empenhada e afamada cozinheira.
Boa Vista é também a ilha de artistas musicais, de intelectuais de boa pena, de oleiros, de artesãos, de pescadores, de mulheres emigrantes esforçadas e de agricultores esforçados também pois que lutam, a um tempo, com alguns adversários de peso: a areia invasora, os burros e as cabras, daninhos do plantio e das colheitas.
O romancista Germano Almeida centra boa parte da sua intriga ficcionista – na minha opinião, a mais densa, a mais profundamente trabalhada enquanto discurso literário e a melhor narrada – naturalmente, na ilha que o viu nascer.
A «Ilha Fantástica» 1994 – juntamente com a «Família Trago» 1994 – é um exemplo disso e constitui-se como memórias adolescentes da Ilha da Boa Vista, que sem deixar de lado relatos históricos, elas (as memórias) são narradas ao jeito e ao estilo satírico, mordaz e cómico do autor.

Nota actualizada: Este escrito é a introdução de uma intervenção feita na Universidade Brown de Rhode Island nos Estados Unidos. O tema explanado: “O romance cabo-verdiano contemporâneo”. Embora já com algum tempo, achei que podia figurar no «Coral Vermelho».

«Quem enfia a agulha à Avó?»

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
A velhice é uma etapa de vida “tramada”! …Onde é que já ouvi isto? Alguém já o disse. Mas é indubitavelmente, verdade! Eu que me gabava de enfiar a linha na agulha logo às primeiras tentativas, vejo-me hoje confrontada com esta imagem bem comum e real de pedir ajuda para isso e assim poder costurar as roupas… mas enfim, c’est la vie! Mas também e por outro lado, traz coisas boas. Como os netos, por exemplo.
Isto que aqui vai escrito é apenas pretexto para desabafar um pouco sobre algum “martírio” desta já famosa fase “condor” ou melhor, com dor mesmo! Ele é o reumático matinal ou vespertino nos joelhos, ele é dor na coluna e regra geral a chamada quinta lombar, ele é dor…enfim, um sem número, das mais variadas que o catálogo da 3ª idade comporta. E isto, sem falar do “arco-íris” dos comprimidos ao pequeno-almoço! De cores para todos os gostos!
Mas a pior de todas as dores para mim, é aquele começo de falta de memória! Terrível! Caros companheiros desta etapa. Nada a fazer, já não há “fitina” nem “fosfoferrero” que nos valham! Teremos de fazer autênticos e malabarísticos jogos com a senhora dona memória para que ela de nós se condoa e por fim nos traga de volta a lembrança teimosamente perseguida.
Por vezes, Armindo (ele se calhar não gosta que o meta neste meu “saco”pois que costuma dizer que: “velhos são os trapos! Não me ponhas no teu clube!”) e eu apanhámo-nos a querer lembrar títulos e nomes dos protagonistas de filmes há muito vistos – daqueles dos antigos cinemas Éden-Park ou do Park-Miramar e também dos filmes do nosso tempo de Lisboa – ou das canções e dos intérpretes da nossa juventude, os famosos e musicais anos sessenta, vem logo a “finta” da memória. Persistimos silenciosamente, e, num repente:"fiat lux" surge – para nosso real contentamento e numa espécie de desafio de quem acerta primeiro – o tão procurado nome!
Volto ao lugar-comum: “fazer o quê?!” (como diz o brasileiro). O melhor mesmo e, enquanto durar e restar, é fazer humor com esta etapa de vida, “trocar-lhe as voltas” de vez em quando e, aproveitar o bom que também contém.

Já agora, aproveitando a oportunidade (e antes que eu me esqueça…) porque estamos em tempo festivo, a todos – os mais e os menos “velhos,” e de igual modo os mais jovens – desejar festas alegres e em boa comunhão com a família e com os amigos! Paz e saúde para todos nós!

«Pai e Mãe, onde estais?»

sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Hoje, mais do que no antigamente dos tempos, a sociedade cabo-verdiana enfrenta um grande e gravíssimo problema que é o de uma sociedade em que a maior parte dos seus mais jovens cidadãos é cada vez mais – por que muito mais populosa – oriunda de família numerosa, desestruturada e monoparental, jovens cidadãos, geralmente dotados de pouca orientação e de educação no sentido mais amplo e abrangente do termo. Educação, em que valores e princípios alicerçados, são transmitidos de forma sistematizada e interiorizados pela criança e pelo adolescente como os esteios mais fortes da vida gregária do Homem. São as tais aquisições que devem ser feitas, em primeira-mão, no seio da família.
Infelizmente, o que nos é dado observar actualmente nas escolas públicas e ultimamente até nas privadas, são alunos, crianças e adolescentes, uma parte significativa, não portadores desse perfil de origem.
Se por um lado, exige-se entre nós e bem que a escola seja um verdadeiro centro de informação, de formação, científica, humana e social; de conhecimentos capazes de apetrechar o formando para a vida interpessoal e profissional. Por outro lado, tal já não será possível, uma vez que – de novo algum lamento por causa disso – os próprios professores, sobretudo os de geração mais recente, trazem infelizmente na sua bagagem cultural “etapas queimadas” porque não preenchidas por princípios e valores ganhos na/e em família. Muito pouco poderão dar ao aluno em termos de partilha. Daí também explicada porque convivemos actualmente tanta deseducação, (permitam-me a expressão) na nossa sociedade!
Já não é só a pobreza material, a causadora destes males. Não sei se estudos sociológicos e estatísticos aqui eventualmente realizados sobre o assunto têm conclusões fundamentadas sobre a matéria. No meu entender, e para os tempos actuais, razões outras, como exemplo paradigmático, a completa desestruturação e até por vezes a ausência familiar, na vida das crianças, são, sem dúvida, os elementos mais perturbadores desta cadeia de desequilíbrios sociais que se verificam de forma cada vez mais assustadora entre nós e de que os meninos de rua e os delinquentes juvenis, são parte do problema.
A escola não deve substituir a família. A cada um está atribuído um papel, específico e diferenciado. Assim deve ser o entendimento desta importantíssima equação social.
Os jovens, homens e mulheres, não podem deixar que a função de criar, de orientar e de educar uma criança ao mundo trazida sejam, regra geral, entre nós, tarefas apenas da procriadora. Esta última, cada vez mais adolescente, sobrecarregada na procura da sobrevivência, desamparada, com muito pouco para dar, acaba por orientar – se é que neste caso, assim se poderá dizer – mal a criança que posteriormente é encaminhada para a escola com faltas gritantes que só o lar (paterno/materno) poderia ter preenchido, se os dois partilhassem com alguma paridade esta responsabilidade.
A quantidade populacional – com muita incidência na camada mais pobre e desqualificada da população – tem também a ver com essa desestruturação total em termos da educação infanto/juvenil.
Por outro lado, e mais grave ainda, são as crianças de rua, abandonadas pelos progenitores, que não são chamados sequer à responsabilidade criminal de largar na via pública, entregues à sua sorte, meninos e meninas cada vez mais em tenra idade.
A propósito deste drama social, li num relatório do Eurostat, as consequências nefastas de se ser “criança de rua” o seguinte. “A curto prazo, reflecte-se na alimentação, na saúde, no sucesso escolar e na integração social inexistente, mas a médio e longo prazo, as consequências verificam-se ao nível da falta de qualificações e nas dificuldades de integração no mercado de trabalho.” (fim da transcrição) Para nós, acrescentaria que aumenta a incidência da pobreza extrema e potencia a delinquência juvenil e a criminalidade adulta.
O país conhecerá, nesta matéria, algum progresso real, no dia em que o programa de algum governo futuro sufragado pela sociedade, “pegar de frente” uma política de população – em que a família nuclear ocupe lugar de primazia, sem titubeios, de forma descomplexada, sem preconceitos – e, faça disso, a sua principal bandeira no pressuposto de que a sustentabilidade social e económica, a qualidade de vida do país e dos que nele vivem passam igualmente pelo modelo familiar adoptado no que respeita à assunção das responsabilidades dos progenitores na educação e na orientação dos seus filhos.
Temos todos alguma consciência de que a complexidade do problema é enorme e a transversalidade da abordagem da causa da família em Cabo Verde constitui um verdadeiro desafio, uma interpelação profunda a futuros governantes, a responsáveis do país, à sociedade civil no seu todo e a cada um dos cidadãos. Do mesmo modo que todos estamos igualmente cientes de que a sua inscrição na agenda prioritária do país é uma exigência imperiosa. Os valores cristãos culturalmente por nós interiorizados fazem dessa causa um quase desígnio nacional.

A reparação devida:

Por lapso, no texto intitulado: «A escola e o saber para a vida» não mencionei – entre as instituições académicas afamadas outrora em Cabo Verde – a Escola Industrial e Comercial do Mindelo, mais conhecida como Escola Técnica e que foi de facto de referência e que tão bons profissionais deu em ramos bem diversificados. Fica aqui o reparo.

A escola e o saber para a vida

quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Cabo Verde de uma maneira geral, sempre se orgulhou, da escola que teve sobretudo no passado. Lembremo-nos das instituições académicas que ainda hoje são referências para nós. Refiro-me ao Seminário – Liceu de S. Nicolau, ao Liceu de Gil Eanes de Mindelo. Gostaria de incluir neste rol, o também antigo liceu “Adriano Moreira” ou como foi chamado antes: “Liceu Nacional” da Praia dos anos 60 do século vinte, que hoje reclamo de bom liceu. Acontecia que nelas, as instituições aqui referidas, se falava e se comunicava em língua portuguesa, e, sobretudo se processavam os conhecimentos que os alunos adquiriam neste mesmo veículo linguístico que actualmente estamos a descurar e a querer renegar como nosso. Ora podem contra argumentar que ao tempo tudo isso era obrigatório, (a obrigação, os deveres e a disciplina sempre fizeram parte de qualquer escola que se preze e de toda a família com função de educar) mas a verdade é que basta comparar o aluno médio de hoje do 12º ano do ensino secundário, na sua forma de expressar, na cultura e no saber académico que revela para percebemo-nos que o não podemos comparar com o aluno do antigo 7º ano dos liceus, quer do Mindelo, quer da Praia. São duas situações e duas realidades, que mesmo salvaguardados o tempo e as diferenças, quem sai a perder nesta hipotética comparação é o actual aluno, finalista do secundário.
A escola na nossa cultura funcionou (já hesito dizer que “funciona”, colocando o verbo no presente) também como um local de iniciação, de descoberta de preceitos sociais, para além de noções científicas e culturais. Na verdade é ou foi durante a fase da escolarização, nesse hiato importantíssimo da vida é que a socialização é feita de forma mais intensa e mais constante. Depois…cada um partiu ou parte para sua vida (e este “sua” entendida aqui de forma bem individualizada e pessoal).
De facto é nessa fase, que se dão ou se deram as mais fortes e por vezes decisivas interacções entre o “eu”, o “nós”, e os “outros”, cujas marcas nos acompanharão para o resto das nossas vidas e é também nessa fase que se adquirem as “ferramentas” básicas para uma mais equilibrada integração social. Creio que na vida dos homens, e para aqueles que o fizeram, o serviço militar obrigatório, também acabam por comungar dos mesmos reflexos ou efeitos no seu comportamento cívico posterior.
Ora quem entra para o mundo adulto – do trabalho e da família – munido dessas ferramentas, à partida, terá naturalmente vantagens acrescidas.
Mas como obter essas ferramentas a partir da escola hoje neste país se nem os seus principais – os professores – agentes estão devidamente preparados?
Quando falo com alguns formandos – futuros professores – em preparação para a apresentação e a defesa do trabalho de fim de curso, reparo com muita tristeza, as lacunas gritantes no modo de expressão da linguagem que espelha a aquisição cultural que deveria diferente e mais substantiva nesta etapa de escolarização e de formação, e que ficou irremediavelmente perdida se calhar porque etapas não preenchidas adequadamente ao longo da vida escolar/académica.
Assim sendo o que esperar em termos de desempenho didáctico-pedagógico deste agente de ensino face a uma turma de alunos?
Mas teremos de chamar de volta o antigo orgulho que tínhamos da nossa escola pública e que tranquilizava os pais em matéria de aquisição de saber dos filhos. A sociedade civil, os pais e os encarregados de educação devem ser mais activos, mais participantes e até mais exigentes com a instituição escolar que frequentam os filhos. O manterem-se informados regularmente do aproveitamento e do comportamento dos seus educandos, acaba por ser uma forma eficaz de controlo sobre o que se está a ministrar nas disciplinas curriculares e de chamar a atenção da escola para o que está bem e para o que não está bem na instituição no seu todo.
Haja determinação de todos para se mudar este paradigma fundamental que é a educação, em que a escolar funciona também como um saber para a vida.
Mas para que tudo isso aconteça no meio de nós será preciso a presença e o envolvimento da família nuclear do educando ou quem faça as vezes disso. Sem esse sério contributo – o da família – estamos a comprometer negativamente o futuro da nossa sociedade.