Torna-se deveras evidente que a qualidade do cidadão, o nível do munícipe também se afere pela forma como ele cuida ou não cuida do espaço em que vive e circula.
Vem isto a propósito de quê? Ora bem, temos ido Armindo e eu durante a semana à praia de Quebra Canela (nome pouco apelativo e desencorajador) à natação matinal. Bem matinal, pois que começa, mais ou menos, às 6 horas da manhã, numa espécie de “talassoterapia” que é como chamo a esses mergulhos madrugadores no mar.
Tudo seria bonito, saudável e aprazível, pois que da nossa casa à praia faz-se bem a pé e percorre-se entre a ida e o regresso, cerca de quilómetro e meio. O que é já um razoável exercício físico.
Mas infelizmente mal descemos as escadas de acesso à praia, passando por um recipiente para o lixo, situado em local destacado, o que se nos depara em baixo é desolador: uma praia suja e imunda. Restos de embalagens, garrafas vazias, invólucros e material vário, atirados ao areal. Enfim, lixo na sua configuração mais indecorosa, a revelar um pouco o perfil de muitos dos munícipes que frequentam a praia de Quebra Canela.
Ah! Já me ia esquecendo de acrescentar que o recipiente do lixo encontra-se… praticamente vazio!
Porquê essa falta de cuidado? Esse primarismo meio bárbaro de se atirar o que se considera lixo ao chão? Porque o colocar em local apropriado? Ainda por cima estando à mão o recipiente adequado?
Bem, confesso-vos que é uma primeira impressão da praia, muito pouco convidativa, para não usar uma expressão mais forte.
Além de tudo o mais, revela também um desprezo exibicionista pela natureza, por uma das suas criações mais belas que é a beira-mar.
De uma maneira geral, não costumo culpar a Câmara Municipal por aquilo de que ela não é directa e unicamente responsável. Ou seja, pela qualidade do munícipe que possui. Dito desta forma, não gostaria que se interpretasse que a instituição, ou a autoridade responsável pela orla marítima não possa tomar medidas que inibam o cidadão de tal prática.
De qualquer ângulo que se analise a questão, procurando justificações para tal comportamento, parece-me que a culpa vai quase inteirinha para àqueles cidadãos que diariamente ou aos fins-de-semana, frequentam uma das poucas praias acessíveis da nossa capital e que infelizmente a não respeitam.
E lá queremos nós ter estatuto de paridade!... Vamos ser sérios! O primeiro passo é sermos, antes de mais, civilizados aqui na nossa cidade – capital e no resto do país, conservando limpas e saneadas as praias e a orla marítima que limitam o oceano que banha as ilhas. É óbvio que isto não se aplica só às praias…
Foi assim!...
terça-feira, 4 de maio de 2010
As estórias que se contam nem sempre correspondem a História que se quer narrar. Vem isto a propósito do que se passou com a South African Airways (SAA) no conturbado e agitado período (Maio/74 a Junho/75) que antecedeu a independência de Cabo Verde.
Era sabido que toda a Ilha do Sal e, por via disto, uma boa parte da nossa economia, era dependente da escala dos voos da SAA. Pois isto não evitou que certos fervorosos jovens de então - hoje pacatos avós - com responsabilidade na administração, gestão e funcionamento das actividades económicas da Ilha, tomados por uma onda de fervor independentista, ávidos de apresentar serviço quiçá movidos pelo oportunismo militante que proliferava, organizassem uma manifestação contra a escala dos aviões dessa companhia (SAA) no Sal. Estava na ordem do dia as manifestações espontâneas em nome e a favor do PAIGC consentidas e, por vezes, incentivadas e até sugeridas, pelo próprio Governo de Transição através de certos membros e realizadas por “iniciativa” de activistas cujos nomes e funções em nada vinculavam o partido que diziam representar. Eram “peixe miúdo”, “carne para canhão”, como sói dizer-se, e que a realidade posteriormente confirmou que disso não passavam.
Foi assim que certa tarde, uma turba encabeçada por esses jovens se perfilou na placa do aeroporto emitindo em grandes algazarras, palavras de ordem contra a SAA e a República Sul-africana, e formando uma barreira humana com o fito de impedir que ao avião da SAA se prestasse qualquer assistência. Os serviços de terra eram prestados pela TAP cujos trabalhadores eram todos cabo-verdianos. Alguns destes, conscientes da dependência da Ilha do Sal à escala dos aviões da SAA, cientes dos seus deveres profissionais, da ingenuidade política dos manifestantes e da inocuidade da manifestação dado os interesses em jogo, indiferentes à barreira, aos apupos e aos apodos de “lacaios de colonialismo”, “traidores”, “reaccionários” e outros, contornaram a massa humana, dirigiram-se ao avião e prestaram o serviço que era necessário permitindo deste modo que o avião partisse.
Convém aqui lembrar que se vivia o “apartheid” na República Sul-africana e que na sequência da natureza do regime havia um boicote imposto pela OUA ao qual, pragmaticamente, Cabo Verde não aderiu mesmo depois da Independência. Mas também não será de mais referir que apesar desse boicote alguns países da nossa costa africana ditos “moderados” faziam-se à escala dos voos dos aviões da SAA e há muito que se rumorejava acordos e protocolos secretos.
Após o despacho e partida do avião, o representante da SAA furiosíssimo deslocou-se ao gabinete do chefe de escala da TAP – um cabo-verdiano – dizendo-lhe que ia já telefonar e fazer um relatório pedindo o fecho da escala do Sal e que se os cabo-verdianos não queriam os aviões sul-africanos havia já outras alternativas negociadas. Foi dissuadido pelo chefe da escala da TAP pedindo-lhe que tivesse calma pois os manifestantes não representavam a vontade do Governo. Implorou-lhe que aguentasse uns dias para permitir que a situação se aclarasse através dos órgãos competentes. Que ele próprio iria fazer as diligências necessárias para efectivação deste propósito. O Representante da SAA perante a insistência do pedido, contemporizou-se “concedendo-lhe” os tais dias, acrescentando: “Não aceitarei mais nenhuma situação semelhante. Estou aqui a trabalhar há vários anos como sabes e não a fazer política e respeito escrupulosamente as leis do território.” E foi no cumprimento da promessa de diligência que o chefe de escala da TAP do Sal se deslocou a Lisboa no primeiro avião, por iniciativa própria, para falar com o Director da SAA para a região ibérica (sedeada em Lisboa) da qual Sal (e também Canárias) fazia parte. Pôs-lhe ao corrente da situação, reiterou-lhe o pedido de não fechar a escala do Sal da SAA recomendando-lhe, para evitar futuramente semelhantes situações à que se tinha verificado, uma conversa urgente com o Governo de Transição, designadamente com o membro desse Governo que se ocupava da administração interna uma vez que apenas se tratava de manifestações e de acções impeditivas projectadas e realizadas por um grupo de agitadores. O representante ibérico da SAA absorveu a recomendação e deslocou-se de imediato, no primeiro voo, a Cabo Verde tendo marcado com antecedência uma audiência com o então membro do Governo para administração interna. Durante a audiência que se verificou na Praia, foi-lhe assegurado tranquilidade, que o Governo de Transição garantiria os compromissos anteriormente assumidos, que o que havia ocorrido não voltaria a acontecer e que não haveria mais manifestação nem acções obstrucionistas.
Foi assim que a South African Airways manteve activa a escala do Sal e foi assim que aconteceu nos bastidores. Mais tarde, houve negociações abertas no quadro de um Cabo Verde independente.
A. Ferreira
Era sabido que toda a Ilha do Sal e, por via disto, uma boa parte da nossa economia, era dependente da escala dos voos da SAA. Pois isto não evitou que certos fervorosos jovens de então - hoje pacatos avós - com responsabilidade na administração, gestão e funcionamento das actividades económicas da Ilha, tomados por uma onda de fervor independentista, ávidos de apresentar serviço quiçá movidos pelo oportunismo militante que proliferava, organizassem uma manifestação contra a escala dos aviões dessa companhia (SAA) no Sal. Estava na ordem do dia as manifestações espontâneas em nome e a favor do PAIGC consentidas e, por vezes, incentivadas e até sugeridas, pelo próprio Governo de Transição através de certos membros e realizadas por “iniciativa” de activistas cujos nomes e funções em nada vinculavam o partido que diziam representar. Eram “peixe miúdo”, “carne para canhão”, como sói dizer-se, e que a realidade posteriormente confirmou que disso não passavam.
Foi assim que certa tarde, uma turba encabeçada por esses jovens se perfilou na placa do aeroporto emitindo em grandes algazarras, palavras de ordem contra a SAA e a República Sul-africana, e formando uma barreira humana com o fito de impedir que ao avião da SAA se prestasse qualquer assistência. Os serviços de terra eram prestados pela TAP cujos trabalhadores eram todos cabo-verdianos. Alguns destes, conscientes da dependência da Ilha do Sal à escala dos aviões da SAA, cientes dos seus deveres profissionais, da ingenuidade política dos manifestantes e da inocuidade da manifestação dado os interesses em jogo, indiferentes à barreira, aos apupos e aos apodos de “lacaios de colonialismo”, “traidores”, “reaccionários” e outros, contornaram a massa humana, dirigiram-se ao avião e prestaram o serviço que era necessário permitindo deste modo que o avião partisse.
Convém aqui lembrar que se vivia o “apartheid” na República Sul-africana e que na sequência da natureza do regime havia um boicote imposto pela OUA ao qual, pragmaticamente, Cabo Verde não aderiu mesmo depois da Independência. Mas também não será de mais referir que apesar desse boicote alguns países da nossa costa africana ditos “moderados” faziam-se à escala dos voos dos aviões da SAA e há muito que se rumorejava acordos e protocolos secretos.
Após o despacho e partida do avião, o representante da SAA furiosíssimo deslocou-se ao gabinete do chefe de escala da TAP – um cabo-verdiano – dizendo-lhe que ia já telefonar e fazer um relatório pedindo o fecho da escala do Sal e que se os cabo-verdianos não queriam os aviões sul-africanos havia já outras alternativas negociadas. Foi dissuadido pelo chefe da escala da TAP pedindo-lhe que tivesse calma pois os manifestantes não representavam a vontade do Governo. Implorou-lhe que aguentasse uns dias para permitir que a situação se aclarasse através dos órgãos competentes. Que ele próprio iria fazer as diligências necessárias para efectivação deste propósito. O Representante da SAA perante a insistência do pedido, contemporizou-se “concedendo-lhe” os tais dias, acrescentando: “Não aceitarei mais nenhuma situação semelhante. Estou aqui a trabalhar há vários anos como sabes e não a fazer política e respeito escrupulosamente as leis do território.” E foi no cumprimento da promessa de diligência que o chefe de escala da TAP do Sal se deslocou a Lisboa no primeiro avião, por iniciativa própria, para falar com o Director da SAA para a região ibérica (sedeada em Lisboa) da qual Sal (e também Canárias) fazia parte. Pôs-lhe ao corrente da situação, reiterou-lhe o pedido de não fechar a escala do Sal da SAA recomendando-lhe, para evitar futuramente semelhantes situações à que se tinha verificado, uma conversa urgente com o Governo de Transição, designadamente com o membro desse Governo que se ocupava da administração interna uma vez que apenas se tratava de manifestações e de acções impeditivas projectadas e realizadas por um grupo de agitadores. O representante ibérico da SAA absorveu a recomendação e deslocou-se de imediato, no primeiro voo, a Cabo Verde tendo marcado com antecedência uma audiência com o então membro do Governo para administração interna. Durante a audiência que se verificou na Praia, foi-lhe assegurado tranquilidade, que o Governo de Transição garantiria os compromissos anteriormente assumidos, que o que havia ocorrido não voltaria a acontecer e que não haveria mais manifestação nem acções obstrucionistas.
Foi assim que a South African Airways manteve activa a escala do Sal e foi assim que aconteceu nos bastidores. Mais tarde, houve negociações abertas no quadro de um Cabo Verde independente.
A. Ferreira
P.S.: Por razões éticas (não me foi possível falar com todos) e de coerência (não faz sentido nominar uns e manter anónimos outros) não usei os nomes dos representantes da SAA, do membro do Governo de Transição, nem do chefe de Escala e dos trabalhadores da TAP que prestaram assistência ao avião da SAA. Ao que parece estão todos vivos e vivem (os cabo-verdianos) quase todos no estrangeiro desde 1975…
Tradições e Transposições
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Tradições e Transposições…
À memória da mãe Joana.
Regressada recentemente de Bissau, onde estive por ocasião da morte de um familiar muito querido, lembrei-me – em jeito de homenagem – escrever este pequeno texto sobre a transposição de algumas tradições do meio rural, seu espaço de origem e de prática obrigatória, para o meio urbano sem condições para o cumprimento do ritual, normalmente longo e complexo que acompanha as cerimónias que as compõem.
Ora bem, abro aqui um pequeno parêntesis, para dizer que todas as vezes que sobre isso falo, trago à colação a imagem do batuque em estúdio de televisão. Para mim, essa dança assim apresentada ganha algum contorno de “grotesco” e de inestético, pois que ele, o batuque, foi concebido para o “terreiro” espaço aberto de terra batida, do campo, com o céu à vista, possivelmente em noite de luar e com uma ambiência adequada. Logo, isso não tem nada a ver com um estúdio fechado e virado para outros fins. Fecho o parêntesis e volto ao assunto inicial.
Com efeito, muitas das tradições que se querem manter já não se adequam – sobretudo nos nossos dias – na cidade, em casas sem quintal, em apartamentos, no meio do trânsito, com um tempo e uma movimentação diferentes do tempo e do movimento do meio rural. Enfim, estas tradições não foram pensadas, nem configuradas para o meio dito urbano. Daí toda uma inadequação quando se força a transposição delas para a cidade.
Pois bem, uma das tradições (quase instituição) mais fortemente implantadas na Guiné é o «Choro» por ocasião da morte de alguém. As chamadas cerimónias, são normalmente animistas, mas comportam também ou, podem também comportar celebrações fúnebres cristãs, (missas e terço rezado) se o defunto ou a família assim pretenderem e tudo isto num perfeito sincretismo religioso. Para além da matança/sacrifício de alguns animais, o ritual inclui a «Esteira», estendidas pois que são muitas as esteiras – ocupadas pelas mulheres mais velhas e da família no sentido literal do termo – durante oito dias na casa do defunto. A primeira refeição da manhã normalmente “comida de panela” cuja base é o arroz é levada à boca após uma espécie de invocação/homenagem ao morto.
Cada etnia guineense possui o seu modus faciendi do «Choro». No último dia da Esteira faz-se “o amanhecer,” «manchida» em crioulo, em que a noite da véspera é uma vigia até ao nascer do sol.
Após isso, enrolam-se as esteiras. Reza-se a missa do sétimo dia – nos casos de sincretismo religioso – e cada familiar e cada visitante, que entretanto esteve albergada em casa do morto, regressa ao seu local de residência. Em linhas muito gerais, de forma muito abreviada e muito superficial, fica a pretensão de uma descrição do «Choro».
Acrescente-se que a duração das cerimónias e a “largueza” dos repastos dependem obviamente do estatuto do defunto.
Mas o que aqui gostaria de enfatizar é que as tradições acabam por ter de ser modificadas, alteradas e abreviadas, pois que a sua realização no espaço citadino não se compadece com a configuração que elas trazem do meio rural.
Daí que, na minha opinião, e um pouco na linha: “ao campo o que é do campo, à cidade o que é da cidade” não é recomendável a transposição – porque inadequada e perturbadora – de práticas tradicionais rurais para o meio urbano, sob pena de uma descaracterização e de criação de situações, por vezes, conflituosas e constrangedoras.
Para finalizar, gostaria de aqui recordar aquilo que em vida dizia a nossa familiar querida, conhecedora dos usos e dos costumes da terra, mas ao mesmo tempo pessoa esclarecida – com a perfeita noção de que a isso, não poderia fugir quando a morte a viesse buscar – de tal modo que ela deixou recomendações e orientações no sentido de haver limites e contenção em tudo que às cerimónias dissesse respeito, para que os filhos, descendentes, certos familiares e amigos não se sentissem incomodados com essa tradição.
À memória da mãe Joana.
Regressada recentemente de Bissau, onde estive por ocasião da morte de um familiar muito querido, lembrei-me – em jeito de homenagem – escrever este pequeno texto sobre a transposição de algumas tradições do meio rural, seu espaço de origem e de prática obrigatória, para o meio urbano sem condições para o cumprimento do ritual, normalmente longo e complexo que acompanha as cerimónias que as compõem.
Ora bem, abro aqui um pequeno parêntesis, para dizer que todas as vezes que sobre isso falo, trago à colação a imagem do batuque em estúdio de televisão. Para mim, essa dança assim apresentada ganha algum contorno de “grotesco” e de inestético, pois que ele, o batuque, foi concebido para o “terreiro” espaço aberto de terra batida, do campo, com o céu à vista, possivelmente em noite de luar e com uma ambiência adequada. Logo, isso não tem nada a ver com um estúdio fechado e virado para outros fins. Fecho o parêntesis e volto ao assunto inicial.
Com efeito, muitas das tradições que se querem manter já não se adequam – sobretudo nos nossos dias – na cidade, em casas sem quintal, em apartamentos, no meio do trânsito, com um tempo e uma movimentação diferentes do tempo e do movimento do meio rural. Enfim, estas tradições não foram pensadas, nem configuradas para o meio dito urbano. Daí toda uma inadequação quando se força a transposição delas para a cidade.
Pois bem, uma das tradições (quase instituição) mais fortemente implantadas na Guiné é o «Choro» por ocasião da morte de alguém. As chamadas cerimónias, são normalmente animistas, mas comportam também ou, podem também comportar celebrações fúnebres cristãs, (missas e terço rezado) se o defunto ou a família assim pretenderem e tudo isto num perfeito sincretismo religioso. Para além da matança/sacrifício de alguns animais, o ritual inclui a «Esteira», estendidas pois que são muitas as esteiras – ocupadas pelas mulheres mais velhas e da família no sentido literal do termo – durante oito dias na casa do defunto. A primeira refeição da manhã normalmente “comida de panela” cuja base é o arroz é levada à boca após uma espécie de invocação/homenagem ao morto.
Cada etnia guineense possui o seu modus faciendi do «Choro». No último dia da Esteira faz-se “o amanhecer,” «manchida» em crioulo, em que a noite da véspera é uma vigia até ao nascer do sol.
Após isso, enrolam-se as esteiras. Reza-se a missa do sétimo dia – nos casos de sincretismo religioso – e cada familiar e cada visitante, que entretanto esteve albergada em casa do morto, regressa ao seu local de residência. Em linhas muito gerais, de forma muito abreviada e muito superficial, fica a pretensão de uma descrição do «Choro».
Acrescente-se que a duração das cerimónias e a “largueza” dos repastos dependem obviamente do estatuto do defunto.
Mas o que aqui gostaria de enfatizar é que as tradições acabam por ter de ser modificadas, alteradas e abreviadas, pois que a sua realização no espaço citadino não se compadece com a configuração que elas trazem do meio rural.
Daí que, na minha opinião, e um pouco na linha: “ao campo o que é do campo, à cidade o que é da cidade” não é recomendável a transposição – porque inadequada e perturbadora – de práticas tradicionais rurais para o meio urbano, sob pena de uma descaracterização e de criação de situações, por vezes, conflituosas e constrangedoras.
Para finalizar, gostaria de aqui recordar aquilo que em vida dizia a nossa familiar querida, conhecedora dos usos e dos costumes da terra, mas ao mesmo tempo pessoa esclarecida – com a perfeita noção de que a isso, não poderia fugir quando a morte a viesse buscar – de tal modo que ela deixou recomendações e orientações no sentido de haver limites e contenção em tudo que às cerimónias dissesse respeito, para que os filhos, descendentes, certos familiares e amigos não se sentissem incomodados com essa tradição.
Crioulo versus Português?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Lá volto eu com a questão que levanta sempre celeumas, provoca problemas, revolve malquerenças e mal-entendidos e deixa muito por entender, quando não desata zangas complexas, eu sei lá! Resultado final: Um oceano de equívocos!
Ora bem, apesar de tudo isto, acho preferível – no firme pressuposto e no fundamento cognitivo de que nada é dogmático; de que não existe coisa alguma que conflitua o homem que não seja discutível, analisável, e finalmente negociável e solucionado – mais uma vez, voltar à questão linguística nacional que tanta tinta tem feito correr.
Estamos bem conscientes que quando se toca na questão linguística cabo-verdiana e em Cabo Verde, as sensibilidades se hiperbolizam numa adrenalina que por vezes é de se lhe fugir!
Mas o assunto que iremos aqui esboçar: Crioulo versus português deverá ser pousado na rota do desenvolvimento de Cabo Verde? Sim ou não? É minha opinião de que seria melhor tratada a questão linguística nacional, se cada exercício sobre isso, formulasse hipóteses, as interrogasse e as discutisse, com alguma ilustração e alguns exemplos, Assim procedendo, talvez chegássemos a alguma pista mais fundamentada, ao invés de fazer disto um caso dogmático, indiscutível e de exacerbada afeição, para não dizer, paixão.
A relação que temos hoje, crioulo-portugês tem conduzido à melhoria de qualidade dos nossos recursos humanos? É um factor de união no País? Poderá potenciar o desenvolvimento tecnológico do País? Melhorará o nosso relacionamento com os países amigos no contexto internacional? Note-se que falo em melhor, não disse: mais (recursos humanos). Para muitos diria que ocorre um não! honesto e pronto como resposta. Quando muito, após meditação dirão: Duvido que haja!
Vou referir-me mais concretamente à classe profissional de que sou oriunda, a dos professores. Nos dias que correm, encontrar um professor que preencha os requisitos no expressar-se com correcção e sabedoria, na língua veicular, o seu saber específico já se vai tornado coisa raríssima nestas ilhas. É ou não é verdade? Porque será? Talvez porque trazem na sua formação e ao longo do seu percurso académico “etapas queimadas” de muita falta de conhecimentos, do saber estar e do saber ensinar. Lacunas gritantes que se vão reflectir no exercício da vida profissional, em parte causadas, no meu entender, pela ausência de muita leitura e do exercitar a aprendizagem em língua portuguesa.
Agora digam-me da vossa justiça, se não haverá em tudo isso alguma relação causa/efeito, pelo menos parcialmente, pelo mau serviço que estamos a prestar às nossas duas línguas: o crioulo e o português? Eu creio que sim. Esta “mistura” de papéis dos dois veículos linguísticos poderá ser altamente “perturbadora” no ensino, na escrita, na oralidade e na nossa produção literária e tecnológica. Faço-me entender: há séculos que a arrumação linguística cabo-verdiana se estruturou e, nós os falantes sempre soubemos atribuir – com conflitos ou sem eles – a cada uma das línguas o seu papel no nosso quotidiano, na nossa vida, na nossa cultura.
É a língua portuguesa, que nos permite desenvolver e elevar os conhecimentos científicos e tecnológicos, estudando, lendo e interpretando os manuais, ligando-nos ao exterior, é ela que nos faculta um diálogo substancialmente mais enriquecido entre nós e com os outros falantes da mesma língua, a tal ponto é assim que questionamos: para onde caminharemos, sem este valioso instrumento, no nosso desenvolvimento?
Creio que nenhum governante, alto responsável, ou legislador nacional de bom senso aprovaria tal derrocada e retrocesso.
Os países e as nações que fizeram o contrário, ficando apenas com a língua local, a substituir a língua oficial e veicular do ensino, deram-se muito mal com isso e retrocederam. Estão hoje na cauda dos mais subdesenvolvidos. Maus exemplos desse tipo de conduta são conhecidos, como também são infelizmente conhecidos, os maus resultados daqueles que assim procederam.
Voltando ao tema, o que aqui foi dito é apenas para alertar para o perigo de uma derrapagem aqui dentro, no país, que é muito frágil com muito pouco ou quase nada em termos de auto-sustentabilidade, de se tentar usurpar o papel que a língua portuguesa tem tido até agora.
Defendo que para o nosso caso, até deveríamos tornar o português, língua nacional e assim proporcionar a todo o falante cabo-verdiano maior competência linguística que o ajudará a libertar-se do ciclo de pobreza, do analfabetismo e de subdesenvolvimento.
Séculos de Documentação, de Literatura produzida em prosa e verso mostrou à saciedade que foi versada maioritariamente, em português, por gente que sempre amou e falou o crioulo, com os seus mais chegados, sem qualquer reserva. Agora, era também gente que sabia que o nosso querido crioulo não substituía nem de perto, nem de longe, a nossa também querida língua portuguesa quando se tratam assuntos que entram no âmbito da cogitação filosófica, da análise literária, ou de procedimentos tecnológicos.
Logo, com este caudal de rica experiência, Cabo Verde só tem a ganhar se deixar ao crioulo o papel que tem tido na especificidade cultural do Arquipélago cabo-verdiano De uso doméstico, da socialização afectiva, da lavoura, de cantigas, de quadras, do folclore nacional, das cantigas crioulas, de alguma prosa e poesia entre outras funções de comunicação e expressão; e à língua portuguesa, o seu lugar no ensino, na leitura, na alfabetização, no ensino, na formação de quadros, entre outras funções, até aqui tidas e realizadas, para o desenvolvimento do país. E isto deve ser encarado com todo o pragmatismo, sem qualquer reserva, pois, as duas línguas são ambas nossas, ambas expressam a cultura mestiça que nos caracteriza e ambas concorrem para a edificação da nossa identidade.
Ora bem, apesar de tudo isto, acho preferível – no firme pressuposto e no fundamento cognitivo de que nada é dogmático; de que não existe coisa alguma que conflitua o homem que não seja discutível, analisável, e finalmente negociável e solucionado – mais uma vez, voltar à questão linguística nacional que tanta tinta tem feito correr.
Estamos bem conscientes que quando se toca na questão linguística cabo-verdiana e em Cabo Verde, as sensibilidades se hiperbolizam numa adrenalina que por vezes é de se lhe fugir!
Mas o assunto que iremos aqui esboçar: Crioulo versus português deverá ser pousado na rota do desenvolvimento de Cabo Verde? Sim ou não? É minha opinião de que seria melhor tratada a questão linguística nacional, se cada exercício sobre isso, formulasse hipóteses, as interrogasse e as discutisse, com alguma ilustração e alguns exemplos, Assim procedendo, talvez chegássemos a alguma pista mais fundamentada, ao invés de fazer disto um caso dogmático, indiscutível e de exacerbada afeição, para não dizer, paixão.
A relação que temos hoje, crioulo-portugês tem conduzido à melhoria de qualidade dos nossos recursos humanos? É um factor de união no País? Poderá potenciar o desenvolvimento tecnológico do País? Melhorará o nosso relacionamento com os países amigos no contexto internacional? Note-se que falo em melhor, não disse: mais (recursos humanos). Para muitos diria que ocorre um não! honesto e pronto como resposta. Quando muito, após meditação dirão: Duvido que haja!
Vou referir-me mais concretamente à classe profissional de que sou oriunda, a dos professores. Nos dias que correm, encontrar um professor que preencha os requisitos no expressar-se com correcção e sabedoria, na língua veicular, o seu saber específico já se vai tornado coisa raríssima nestas ilhas. É ou não é verdade? Porque será? Talvez porque trazem na sua formação e ao longo do seu percurso académico “etapas queimadas” de muita falta de conhecimentos, do saber estar e do saber ensinar. Lacunas gritantes que se vão reflectir no exercício da vida profissional, em parte causadas, no meu entender, pela ausência de muita leitura e do exercitar a aprendizagem em língua portuguesa.
Agora digam-me da vossa justiça, se não haverá em tudo isso alguma relação causa/efeito, pelo menos parcialmente, pelo mau serviço que estamos a prestar às nossas duas línguas: o crioulo e o português? Eu creio que sim. Esta “mistura” de papéis dos dois veículos linguísticos poderá ser altamente “perturbadora” no ensino, na escrita, na oralidade e na nossa produção literária e tecnológica. Faço-me entender: há séculos que a arrumação linguística cabo-verdiana se estruturou e, nós os falantes sempre soubemos atribuir – com conflitos ou sem eles – a cada uma das línguas o seu papel no nosso quotidiano, na nossa vida, na nossa cultura.
É a língua portuguesa, que nos permite desenvolver e elevar os conhecimentos científicos e tecnológicos, estudando, lendo e interpretando os manuais, ligando-nos ao exterior, é ela que nos faculta um diálogo substancialmente mais enriquecido entre nós e com os outros falantes da mesma língua, a tal ponto é assim que questionamos: para onde caminharemos, sem este valioso instrumento, no nosso desenvolvimento?
Creio que nenhum governante, alto responsável, ou legislador nacional de bom senso aprovaria tal derrocada e retrocesso.
Os países e as nações que fizeram o contrário, ficando apenas com a língua local, a substituir a língua oficial e veicular do ensino, deram-se muito mal com isso e retrocederam. Estão hoje na cauda dos mais subdesenvolvidos. Maus exemplos desse tipo de conduta são conhecidos, como também são infelizmente conhecidos, os maus resultados daqueles que assim procederam.
Voltando ao tema, o que aqui foi dito é apenas para alertar para o perigo de uma derrapagem aqui dentro, no país, que é muito frágil com muito pouco ou quase nada em termos de auto-sustentabilidade, de se tentar usurpar o papel que a língua portuguesa tem tido até agora.
Defendo que para o nosso caso, até deveríamos tornar o português, língua nacional e assim proporcionar a todo o falante cabo-verdiano maior competência linguística que o ajudará a libertar-se do ciclo de pobreza, do analfabetismo e de subdesenvolvimento.
Séculos de Documentação, de Literatura produzida em prosa e verso mostrou à saciedade que foi versada maioritariamente, em português, por gente que sempre amou e falou o crioulo, com os seus mais chegados, sem qualquer reserva. Agora, era também gente que sabia que o nosso querido crioulo não substituía nem de perto, nem de longe, a nossa também querida língua portuguesa quando se tratam assuntos que entram no âmbito da cogitação filosófica, da análise literária, ou de procedimentos tecnológicos.
Logo, com este caudal de rica experiência, Cabo Verde só tem a ganhar se deixar ao crioulo o papel que tem tido na especificidade cultural do Arquipélago cabo-verdiano De uso doméstico, da socialização afectiva, da lavoura, de cantigas, de quadras, do folclore nacional, das cantigas crioulas, de alguma prosa e poesia entre outras funções de comunicação e expressão; e à língua portuguesa, o seu lugar no ensino, na leitura, na alfabetização, no ensino, na formação de quadros, entre outras funções, até aqui tidas e realizadas, para o desenvolvimento do país. E isto deve ser encarado com todo o pragmatismo, sem qualquer reserva, pois, as duas línguas são ambas nossas, ambas expressam a cultura mestiça que nos caracteriza e ambas concorrem para a edificação da nossa identidade.
Há dias...
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Há dias…
Devíamos todos ter um dia destinado simplesmente à reflexão, à meditação, sobre a nossa vida na relação connosco próprios e com os outros. Não tinha de ser necessariamente um feriado, um domingo ou um dia santo, expressamente destacado. Não, nada disso. Seria um “tempinho” discretamente roubado ao nosso dia-a-dia para essa finalidade.
Claro que muitos me hão-de contestar, dizendo que isso será um luxo para quem trabalhe, para quem tenha de procurar a sobrevivência. Em suma para quem tenha o dia totalmente preenchido. Não há tempo para esses “devaneios.” Pois bem, sei que não é fácil suspender um momento no tempo, num dia determinado, apenas e propositadamente para reflectirmos sobre nós próprios! Nem estamos para aí virados. Agora que nos faria muito bem, disso não duvido.
Até nos ajudaria a mudar um pouco, o rumo da nossa vida. Alterando aqui, melhorando a conduta acolá. Enfim, olhando depois com uma abordagem renovada muitos dos nossos próximos na sua interacção connosco.
Não é por acaso que os “gurus,” os livros e as recomendações com finalidades similares, para se alcançar alguma qualidade de vida e alguma longevidade, nos sugerem os tais minutos diários de concentração – para uma espécie de esvaziamento da mente ou para o esquecimento dos problemas – e assim, numa postura de relaxamento conseguirmos reencontrar o equilíbrio revigorador.
Lembro-me de um familiar que tinha por hábito à sexta-feira, ao invés das refeições normais ao longo do dia, substituí-las por um copo de leite e uma banana. Justificava isso, explicando que por um lado, era para auxiliar na perda de peso e, por outro lado, a dieta assim feita, ajudava-o a ficar “mais leve para meditar sobre a sua passagem pelo mundo,” isto é, sobre a vida.
Não sei se chegou a perder peso com a dieta da sexta-feira, agora que o recordo como uma pessoa muito tranquila e bem comandada pela razão e pelo coração, é uma memória que dele retive. Possivelmente já teria essa propensão na sua maneira de ser, talvez sim. Mas tenho para mim, que a meditação muito cristã também de sexta-feira sobre a sua condição humana, ter-lhe-ia ajudado a atingir uma certa forma de estar na vida que o caracterizou positivamente.
Devíamos todos ter um dia destinado simplesmente à reflexão, à meditação, sobre a nossa vida na relação connosco próprios e com os outros. Não tinha de ser necessariamente um feriado, um domingo ou um dia santo, expressamente destacado. Não, nada disso. Seria um “tempinho” discretamente roubado ao nosso dia-a-dia para essa finalidade.
Claro que muitos me hão-de contestar, dizendo que isso será um luxo para quem trabalhe, para quem tenha de procurar a sobrevivência. Em suma para quem tenha o dia totalmente preenchido. Não há tempo para esses “devaneios.” Pois bem, sei que não é fácil suspender um momento no tempo, num dia determinado, apenas e propositadamente para reflectirmos sobre nós próprios! Nem estamos para aí virados. Agora que nos faria muito bem, disso não duvido.
Até nos ajudaria a mudar um pouco, o rumo da nossa vida. Alterando aqui, melhorando a conduta acolá. Enfim, olhando depois com uma abordagem renovada muitos dos nossos próximos na sua interacção connosco.
Não é por acaso que os “gurus,” os livros e as recomendações com finalidades similares, para se alcançar alguma qualidade de vida e alguma longevidade, nos sugerem os tais minutos diários de concentração – para uma espécie de esvaziamento da mente ou para o esquecimento dos problemas – e assim, numa postura de relaxamento conseguirmos reencontrar o equilíbrio revigorador.
Lembro-me de um familiar que tinha por hábito à sexta-feira, ao invés das refeições normais ao longo do dia, substituí-las por um copo de leite e uma banana. Justificava isso, explicando que por um lado, era para auxiliar na perda de peso e, por outro lado, a dieta assim feita, ajudava-o a ficar “mais leve para meditar sobre a sua passagem pelo mundo,” isto é, sobre a vida.
Não sei se chegou a perder peso com a dieta da sexta-feira, agora que o recordo como uma pessoa muito tranquila e bem comandada pela razão e pelo coração, é uma memória que dele retive. Possivelmente já teria essa propensão na sua maneira de ser, talvez sim. Mas tenho para mim, que a meditação muito cristã também de sexta-feira sobre a sua condição humana, ter-lhe-ia ajudado a atingir uma certa forma de estar na vida que o caracterizou positivamente.
Há datas e Datas!...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Já escrevi tantas vezes sobre datas marcantes que até parece uma obsessão. Na verdade sempre que se aproxima um feriado vem-me esta espécie de compulsão. Não me cansarei de o fazer até ver algumas consagradas e todas, as que as que julgo interessantes, consideradas nacionais e não partidárias ou partidarizadas. Sei que há datas e datas! Mas numa coisa teremos de acertar: há datas demasiado importantes na história do país, que são da colectividade, isto é de todos, que não pode haver qualquer receio ou complexo em as assumir.
Refiro-me a algumas datas e efemérides que configuram a evolução mais recente do país na perspectiva social, política e histórica, entre outros acontecimentos que alteraram, para o bem, o rumo da relação Estado/cidadão. Neste contexto, destacam-se alguns marcos, de que o “13 de Janeiro” figura de forma distinta. Digo distinta, podia ter dito real em antinomia com artificial. Não foi determinado por “decreto” urdido nem por feito (heróico) de alguém em particular. É uma gesta de toda a Nação cabo-verdiana porque, pela primeira vez, e, repito, isto foi real e não retórico, houve o voto livre e secreto do cidadão cabo-verdiano em toda a sua abrangência para eleger os seus representantes e assim condicionar a escolha dos seus governantes. Foi nos idos de 1991. Escassos dias para a vida de um povo, de uma nação, mas muito tempo para as novas gerações. E por isso, para que não pareça que foi num “passe de mágica”, de forma “espontânea” que tudo aconteceu, pontifica o 28 de Setembro de 1990, quando se altera o artigo 4º da então Constituição do país que sustentava e defendia a existência de um único Partido político, o PAIGC, mais tarde PAICV que combatia repressivamente o direito de opinião e qualquer possibilidade de organização de qualquer outro agrupamento político e, por via disso, negava e impedia a eventualidade da alternância do poder.
Com a queda do Muro de Berlim os “revolucionários do mundo inteiro” converteram-se à “democracia”. E os ventos da História também chegaram a Cabo Verde. É assim que a 28 de Setembro de 1990, foi a vez do PAIGC/CV formalizar a sua conversão ao fazer cair o artigo 4º da Constituição deixando de ser «a força dirigente da sociedade e do Estado». Foi um passo enorme e muito significativo para o incremento do processo democrático em Cabo Verde, obviamente após a independência em 1975.
Por isso, não chocaria em absoluto se o “28 de Setembro” figurasse igualmente na galeria das datas marcantes do povo cabo-verdiano.
Infelizmente, ainda não se conseguiu isso, talvez por algum «trauma e/ou sentimento de culpa» dos que instalaram e defenderam a nova ditadura (pós-salazarista) em que a alusão ao 28 de Setembro, – uma fronteira entre a Ditadura institucional e a Democracia formal – poderá situar o PAIGC/CV numa história que quer apagar, negligenciando o facto de o ter reconhecido como algo negativo, devesse ter algum mérito. Não persistir no mal, tentando melhorar, só nos deve merecer reconhecimento.
Podia referir-me a outra data na minha opinião igualmente memorável, p.e. a que se relaciona com a “queda” da Lei da Reforma Agrária.
Note-se que falo em assinalar, não sugiro mais feriados, pois que disto já ultrapassámos o razoável. Creio que há feriados a mais num país pobre e subdesenvolvido como o nosso, em termos de mentalidade e de comportamento face ao dever e à obrigação do trabalho. Não me refiro ao PIB mas, de certa forma, ao PNB.
Ora, a novel geração, felizmente, não passou pelo facto de uma simples saída do País, para o que quer que fosse, carecer de uma autorização das autoridades. Mas conhecerá a História do seu país melhor, se a verdade – sem preconceitos ou receios, dos seus protagonistas – for registada e ainda por cima numa perspectiva de um devir evolutivo acompanhando o passo das comunidades humanas mais adiantadas.
A. Ferreira
Refiro-me a algumas datas e efemérides que configuram a evolução mais recente do país na perspectiva social, política e histórica, entre outros acontecimentos que alteraram, para o bem, o rumo da relação Estado/cidadão. Neste contexto, destacam-se alguns marcos, de que o “13 de Janeiro” figura de forma distinta. Digo distinta, podia ter dito real em antinomia com artificial. Não foi determinado por “decreto” urdido nem por feito (heróico) de alguém em particular. É uma gesta de toda a Nação cabo-verdiana porque, pela primeira vez, e, repito, isto foi real e não retórico, houve o voto livre e secreto do cidadão cabo-verdiano em toda a sua abrangência para eleger os seus representantes e assim condicionar a escolha dos seus governantes. Foi nos idos de 1991. Escassos dias para a vida de um povo, de uma nação, mas muito tempo para as novas gerações. E por isso, para que não pareça que foi num “passe de mágica”, de forma “espontânea” que tudo aconteceu, pontifica o 28 de Setembro de 1990, quando se altera o artigo 4º da então Constituição do país que sustentava e defendia a existência de um único Partido político, o PAIGC, mais tarde PAICV que combatia repressivamente o direito de opinião e qualquer possibilidade de organização de qualquer outro agrupamento político e, por via disso, negava e impedia a eventualidade da alternância do poder.
Com a queda do Muro de Berlim os “revolucionários do mundo inteiro” converteram-se à “democracia”. E os ventos da História também chegaram a Cabo Verde. É assim que a 28 de Setembro de 1990, foi a vez do PAIGC/CV formalizar a sua conversão ao fazer cair o artigo 4º da Constituição deixando de ser «a força dirigente da sociedade e do Estado». Foi um passo enorme e muito significativo para o incremento do processo democrático em Cabo Verde, obviamente após a independência em 1975.
Por isso, não chocaria em absoluto se o “28 de Setembro” figurasse igualmente na galeria das datas marcantes do povo cabo-verdiano.
Infelizmente, ainda não se conseguiu isso, talvez por algum «trauma e/ou sentimento de culpa» dos que instalaram e defenderam a nova ditadura (pós-salazarista) em que a alusão ao 28 de Setembro, – uma fronteira entre a Ditadura institucional e a Democracia formal – poderá situar o PAIGC/CV numa história que quer apagar, negligenciando o facto de o ter reconhecido como algo negativo, devesse ter algum mérito. Não persistir no mal, tentando melhorar, só nos deve merecer reconhecimento.
Podia referir-me a outra data na minha opinião igualmente memorável, p.e. a que se relaciona com a “queda” da Lei da Reforma Agrária.
Note-se que falo em assinalar, não sugiro mais feriados, pois que disto já ultrapassámos o razoável. Creio que há feriados a mais num país pobre e subdesenvolvido como o nosso, em termos de mentalidade e de comportamento face ao dever e à obrigação do trabalho. Não me refiro ao PIB mas, de certa forma, ao PNB.
Ora, a novel geração, felizmente, não passou pelo facto de uma simples saída do País, para o que quer que fosse, carecer de uma autorização das autoridades. Mas conhecerá a História do seu país melhor, se a verdade – sem preconceitos ou receios, dos seus protagonistas – for registada e ainda por cima numa perspectiva de um devir evolutivo acompanhando o passo das comunidades humanas mais adiantadas.
A. Ferreira
A gramática natural (versus?) a língua escolarizada?
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Voltei a pensar sobre a chamada gramática natural com a chegada dos netos e a tentativa de “regularizar” – na fala deles – as formas verbais. Desde «eu fazi», corrigido: eu fiz «eu trazi», forma correcta: eu trouxe «eu sabo», corrigida: eu sei. De tudo um pouco se vai ouvindo dos mais pequenos.
Num aparte, que considero engraçado na fala dos meus netos mais novos, é a forma verbal que empregam correctamente e sem hesitar: «acabei!» que é quando querem informar que já finalizaram a refeição e que querem ser “libertados” da mesa para irem correr e brincar.
Este rememorar a fase verbal e natural da linguagem veiculada pela criança, levou-me também, aos meus filhos, quando bem pequenos, em que um deles - não interessa qual – perguntava: «…mãe, não foste tu que me nasceste?» (questionando-me se não tinha sido eu a trazê-lo ao mundo) ou ainda: «pai, se nós irmos…» (ao invés de: «se nós formos …») a “complicação” que é o verbo “Ir”, no futuro imperfeito do conjuntivo, com a configuração irregular de “for,” algo ainda ignorado na fala da criança, pois que não regida gramaticalmente. É que estas e algumas outras expressões que os nossos filhos diziam em pequenos e que agora retomam os netos – confesso que algumas delas me encantavam pela lógica que aparentavam no modo de expressão infantil – ilustraram alguma coisa sobre a fase de uma organização natural, ou de uma gramática natural da língua.
Mas afinal, este intróito é pretexto para relacionar ou tentar fazer alguma ponte com o que a seguir vem e que teve como “mote” o que li algures num texto da “net” intitulado: «Jogue sua Gramática no Lixo». Achei a frase um pouco excessiva, ou exagerada, para não dizer que percepcionei alguma “violência” nesta forma de expressão. Lido o conteúdo, apercebi-me de uma espécie de crítica do autor do escrito, aos falantes que dominam as regras gramaticais e por essa razão se julgam mais conhecedores da forma correcta de falar e de escrever de que outros não portadores dos mesmos conhecimentos.
Ora, embora concordando, por um lado, de que não é alardeando e fanfarronando conhecimentos que o “sábio” se descobre para os outros, por outro lado, não há que ter medo da gramática, da mesma forma ou similarmente, como não se deve ter medo da lei. A gramática funciona para uma língua, um pouco semelhantemente, como as leis e igualmente as normas sociais, organizam a vida em comunidade para os Homens. São regras e normas orientadoras que são úteis e funcionais para nos entendermos, ao falar e ao escrever a nossa e as outras línguas. O conhecimento do funcionamento da língua via a sua gramática, permite ao falante dominar o discurso – oral e escrito – e não ser dominado por ele. Se nos debruçarmos um pouco mais sobre a gramática, verificaremos que há uma lógica extremamente interessante, na qual ela se fundamenta. Desde a noção de algo substantivo e do adjectivo que o pode contornar e/ou modificar; passando pela ideia de principal e de acessório que acompanha as coisas e os actos, indo às causas (orações causais) e às consequências (orações consecutivas) desses mesmos actos, que oram se coordenam, (orações coordenadas) ora se integram, (orações integrantes) ora se subordinam (oração principal e subordinada) e por vezes, concedem (orações concessivas) e outras vezes, recusam e finalizam o acto (orações finais). E isto apenas para aflorar alguns aspectos dessa organização lógica e clara – que evita ambiguidades ou “ruídos” no acto de comunicação quer oral, quer escrito – que deriva da existência de regras gramaticais e que serve ao entendimento entre sujeitos falantes nos actos elocutórios que enformam e condicionam a nossa vida gregária.
Há um caminho, uma evolução que a escolarização da língua propicia ao falante, tendo como um dos meios dessa evolução, o conhecimento e o manejo das regras gramaticais.
O aprendente da sua própria língua e de outras línguas que lhe são necessárias, terá todas as vantagens em ir apreendendo e interiorizando de uma forma sistematizada e faseada no tempo e em estudos – para uma aplicação correcta nos já referidos actos elocutórios – os factores fundamentais da língua – a semântica, o léxico, a morfologia, a sintaxe, os estilos e outros mais, que constituem as normas linguísticas e gramaticais que regem a língua.
Daí reiterar que não há que recusar ou brigar com essas mesmas normas. Desde que haja oportunidade, vamos aprendê-las, o melhor que pudermos e soubermos. Só sairemos a ganhar. Nós (sujeitos falantes) e a língua (veículo de comunicação).
A gramática, alguém já o disse, é imanente à língua.
Não é por acaso que existe, creio que de há muito, uma linha pedagógica que orienta o sistema de ensino e que destaca o cuidado e o prolongamento que deve ser observado, em todas as etapas do ensino regular, no estudo da língua de ensino e veicular, como pilar indispensável para a formação e para a informação do aluno.
Num aparte, que considero engraçado na fala dos meus netos mais novos, é a forma verbal que empregam correctamente e sem hesitar: «acabei!» que é quando querem informar que já finalizaram a refeição e que querem ser “libertados” da mesa para irem correr e brincar.
Este rememorar a fase verbal e natural da linguagem veiculada pela criança, levou-me também, aos meus filhos, quando bem pequenos, em que um deles - não interessa qual – perguntava: «…mãe, não foste tu que me nasceste?» (questionando-me se não tinha sido eu a trazê-lo ao mundo) ou ainda: «pai, se nós irmos…» (ao invés de: «se nós formos …») a “complicação” que é o verbo “Ir”, no futuro imperfeito do conjuntivo, com a configuração irregular de “for,” algo ainda ignorado na fala da criança, pois que não regida gramaticalmente. É que estas e algumas outras expressões que os nossos filhos diziam em pequenos e que agora retomam os netos – confesso que algumas delas me encantavam pela lógica que aparentavam no modo de expressão infantil – ilustraram alguma coisa sobre a fase de uma organização natural, ou de uma gramática natural da língua.
Mas afinal, este intróito é pretexto para relacionar ou tentar fazer alguma ponte com o que a seguir vem e que teve como “mote” o que li algures num texto da “net” intitulado: «Jogue sua Gramática no Lixo». Achei a frase um pouco excessiva, ou exagerada, para não dizer que percepcionei alguma “violência” nesta forma de expressão. Lido o conteúdo, apercebi-me de uma espécie de crítica do autor do escrito, aos falantes que dominam as regras gramaticais e por essa razão se julgam mais conhecedores da forma correcta de falar e de escrever de que outros não portadores dos mesmos conhecimentos.
Ora, embora concordando, por um lado, de que não é alardeando e fanfarronando conhecimentos que o “sábio” se descobre para os outros, por outro lado, não há que ter medo da gramática, da mesma forma ou similarmente, como não se deve ter medo da lei. A gramática funciona para uma língua, um pouco semelhantemente, como as leis e igualmente as normas sociais, organizam a vida em comunidade para os Homens. São regras e normas orientadoras que são úteis e funcionais para nos entendermos, ao falar e ao escrever a nossa e as outras línguas. O conhecimento do funcionamento da língua via a sua gramática, permite ao falante dominar o discurso – oral e escrito – e não ser dominado por ele. Se nos debruçarmos um pouco mais sobre a gramática, verificaremos que há uma lógica extremamente interessante, na qual ela se fundamenta. Desde a noção de algo substantivo e do adjectivo que o pode contornar e/ou modificar; passando pela ideia de principal e de acessório que acompanha as coisas e os actos, indo às causas (orações causais) e às consequências (orações consecutivas) desses mesmos actos, que oram se coordenam, (orações coordenadas) ora se integram, (orações integrantes) ora se subordinam (oração principal e subordinada) e por vezes, concedem (orações concessivas) e outras vezes, recusam e finalizam o acto (orações finais). E isto apenas para aflorar alguns aspectos dessa organização lógica e clara – que evita ambiguidades ou “ruídos” no acto de comunicação quer oral, quer escrito – que deriva da existência de regras gramaticais e que serve ao entendimento entre sujeitos falantes nos actos elocutórios que enformam e condicionam a nossa vida gregária.
Há um caminho, uma evolução que a escolarização da língua propicia ao falante, tendo como um dos meios dessa evolução, o conhecimento e o manejo das regras gramaticais.
O aprendente da sua própria língua e de outras línguas que lhe são necessárias, terá todas as vantagens em ir apreendendo e interiorizando de uma forma sistematizada e faseada no tempo e em estudos – para uma aplicação correcta nos já referidos actos elocutórios – os factores fundamentais da língua – a semântica, o léxico, a morfologia, a sintaxe, os estilos e outros mais, que constituem as normas linguísticas e gramaticais que regem a língua.
Daí reiterar que não há que recusar ou brigar com essas mesmas normas. Desde que haja oportunidade, vamos aprendê-las, o melhor que pudermos e soubermos. Só sairemos a ganhar. Nós (sujeitos falantes) e a língua (veículo de comunicação).
A gramática, alguém já o disse, é imanente à língua.
Não é por acaso que existe, creio que de há muito, uma linha pedagógica que orienta o sistema de ensino e que destaca o cuidado e o prolongamento que deve ser observado, em todas as etapas do ensino regular, no estudo da língua de ensino e veicular, como pilar indispensável para a formação e para a informação do aluno.