Infelizmente é verdade, ou melhor, já se tornou numa triste realidade a premissa interrogativa do título deste escrito, relativamente ao que se ouve dizer sobre o festival da praia da Gambôa.
Reparem bem: no dia a seguir à primeira noite deste festival que pretendeu (será que pretende ainda?) ser algo emblemático da nossa cidade, os comentários que se ouvem são de “tapar os ouvidos”! Até pode ir nisso algum exagero e se pensar que quem conta um conto, lhe acrescenta um ponto. De qualquer forma, escute-se o que por aí se diz sobre a noite ou o fim da noite da Gambôa.
Interessante é que não se fala da música, dos grupos que actuaram, se se gostou mais desta ou daquela banda musical; não se fala do bonito fogo de artifício. Ao invés, todos ou quase todos os comentários dão conta da selvajaria de algum público assistente, de garrafadas, de facadas, de pedradas, de corridas ao hospital com feridos e agredidos… enfim, um horror!
Já chega! Já se tornou evidente que para além de ser dentro da cidade, o festival de música da praia de Gambôa, há muito que já devia ter sido retirado de cena, pelo menos do perímetro da cidade da Praia.
É triste ter que falar assim de algo, que devia ser um momento privilegiado para os artistas musicais, as bandas nacionais e estrangeiras, terem oportunidade de estar em palco, de verem o seu produto artístico valorizado, e até puderem também estar mais perto dos seus fãs e de estes os ouvir ao vivo. Mas não, o que fica na memória e o que é contado com maior veemência, não é a qualidade das vozes e das melodias escutadas, isto é, do que se passou no palco, mas sim da violência presenciada no areal da praia.
Não é por acaso que gente prevenida e temerosa, não põe lá os pés
Eu já comungo de há muito, das vozes que já se levantaram e continuam a levantar-se junto da Câmara Municipal da capital (ela própria, creio eu, já se interroga sobre os problemas do festival) a solicitar que se organize, que se aborde e que se estruture esse festival musical de uma forma diferente, pois tal como ele vem sendo realizado, corre o risco de ficar de…triste memória!
Serão rudes as variantes do crioulo de Santiago e do Fogo?...
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Claro que não! A sua rudeza ou não, aplicar-se-ia aos seus falantes e nunca à língua!
Peço que me seja relevada este entrada meio abrupta sobre uma matéria que requer, geralmente, imensa cautela porque complexa e delicada. Mas a justificação será dada.
Ora bem, a interrogação do título deste escrito vem a propósito de algo que passo a explicar:
Fui “acordada” numa destas manhãs, (e não era a primeira vez) ainda no seu começo, pelo toque do meu telemóvel que me pareceu particularmente estridente, pois que funcionou como autêntico despertador. Apanho-o para atender. Coloquei o melhor que pude a voz, pois seria também o despertar da minha fala e…atendi. Eis que ouço do outro lado da linha: «A bó é quenha?» (quem és tu?) Assim! Sic! E seco! E eu, estupefacta com esta introdução elocutória, respondi: «faz favor! Bom dia, também se diz; e por outro lado, foi a senhora quem ligou; logo, caberá a si apresentar-se…» Claro que do outro lado, o que ouvi foi o “clique” do desligar do telefone.
Já nem sei o que pensar disto tudo. Fiquei a imaginar que seria bem possível que do outro lado da linha estivesse uma jovem ou não – a voz era feminina – escolarizada até, quem sabe!? Portadora de algum diploma superior…mas que ao mesmo tempo, ignora as mais elementares regras do viver em sociedade. Cometeu logo de entrada algumas «gaffes» quase imperdoáveis a saber: o ter tratado por «bó» ( «tu» em português) alguém que não conhece e nem sabe se mais velha, ou não. Depois a forma de enunciação telefónica só é equiparada em indelicadeza ao igualmente rude (na forma escrita): «Tchumam» (chama-me) indicativo de que alguém nos pede para o chamar – “cortesia” com que uma das operadoras nacionais dos telemóveis nos “brindou” – creio eu que numa imitação à forma inglesa: «call me» esquecendo-se do «please» que também integra o apelativo em inglês: «please call me» e que faz toda a diferença! Costuma-se dizer e isto já é bem antigo, de que os bons exemplos devem vir de cima. Para bom entendedor…
Enfim, imagine-se o «bem-disposta» que fiquei com um despertar deste!
Posto isto em jeito de introdução, retomo a ideia inicial, interrogada no meu título, numa espécie de hipaláge, figura de estilo, em que se verifica um “desajustamento entre a função gramatical e a função lógica das palavras», transferindo os atributos e as características de um semantema para outro semantema que de alguma forma lhe está próximo ou interligado. No caso vertente: a língua e o falante ou vice-versa.
No caso, volto a repetir, o adjectivo: “rude” é atributo do falante e não do veículo de comunicação que utilizou: o crioulo.
De qualquer forma, existem situações entre nós, em que me não é fácil fazer de modo completo e inequívoco, a dissociação entre o falante e a variante que utiliza pois que noto uma certa falta de boas maneiras ou de regras, ou ainda de expressões polidas, nas variantes do crioulo das ilhas do Fogo e de Santiago. Regra geral ignoram normas polidas e mais educadas de introduzir uma questão, de fazer um pedido, enfim, de interpelar. Apenas alguns exemplos.
Vou eu na via pública e ouço: «cantu hora sta?» (que horas são?) ou «fran hora!» Diz-me as horas). “Tout court!” como diz o francês. Isto é, não vem acoplado qualquer coisa como «se faz favor» ou então no final, um: «obrigado».
Outra “prenda linguística” e esta é particularmente audível na minha ilha (Fogo) é aquele comunizante e já irritante «bó» (tu) a torto e a direito, sem olhar a quem, se colega, se mais velho. Convenhamos que é demais! Já não há boas maneiras nestas ilhas? Até crianças quando nos pedem qualquer coisa iniciam o pedido com: «dam...) o que subentende o tratamento por «bó». E podem crer que quando menciono estes parcos exemplos estou a deixar de fora um sem número deles os quais, de tanto, que aqui nem caberiam.
Bem…desabafando é que a gente se entende também. Por hoje fica registado este desabafo.
Peço que me seja relevada este entrada meio abrupta sobre uma matéria que requer, geralmente, imensa cautela porque complexa e delicada. Mas a justificação será dada.
Ora bem, a interrogação do título deste escrito vem a propósito de algo que passo a explicar:
Fui “acordada” numa destas manhãs, (e não era a primeira vez) ainda no seu começo, pelo toque do meu telemóvel que me pareceu particularmente estridente, pois que funcionou como autêntico despertador. Apanho-o para atender. Coloquei o melhor que pude a voz, pois seria também o despertar da minha fala e…atendi. Eis que ouço do outro lado da linha: «A bó é quenha?» (quem és tu?) Assim! Sic! E seco! E eu, estupefacta com esta introdução elocutória, respondi: «faz favor! Bom dia, também se diz; e por outro lado, foi a senhora quem ligou; logo, caberá a si apresentar-se…» Claro que do outro lado, o que ouvi foi o “clique” do desligar do telefone.
Já nem sei o que pensar disto tudo. Fiquei a imaginar que seria bem possível que do outro lado da linha estivesse uma jovem ou não – a voz era feminina – escolarizada até, quem sabe!? Portadora de algum diploma superior…mas que ao mesmo tempo, ignora as mais elementares regras do viver em sociedade. Cometeu logo de entrada algumas «gaffes» quase imperdoáveis a saber: o ter tratado por «bó» ( «tu» em português) alguém que não conhece e nem sabe se mais velha, ou não. Depois a forma de enunciação telefónica só é equiparada em indelicadeza ao igualmente rude (na forma escrita): «Tchumam» (chama-me) indicativo de que alguém nos pede para o chamar – “cortesia” com que uma das operadoras nacionais dos telemóveis nos “brindou” – creio eu que numa imitação à forma inglesa: «call me» esquecendo-se do «please» que também integra o apelativo em inglês: «please call me» e que faz toda a diferença! Costuma-se dizer e isto já é bem antigo, de que os bons exemplos devem vir de cima. Para bom entendedor…
Enfim, imagine-se o «bem-disposta» que fiquei com um despertar deste!
Posto isto em jeito de introdução, retomo a ideia inicial, interrogada no meu título, numa espécie de hipaláge, figura de estilo, em que se verifica um “desajustamento entre a função gramatical e a função lógica das palavras», transferindo os atributos e as características de um semantema para outro semantema que de alguma forma lhe está próximo ou interligado. No caso vertente: a língua e o falante ou vice-versa.
No caso, volto a repetir, o adjectivo: “rude” é atributo do falante e não do veículo de comunicação que utilizou: o crioulo.
De qualquer forma, existem situações entre nós, em que me não é fácil fazer de modo completo e inequívoco, a dissociação entre o falante e a variante que utiliza pois que noto uma certa falta de boas maneiras ou de regras, ou ainda de expressões polidas, nas variantes do crioulo das ilhas do Fogo e de Santiago. Regra geral ignoram normas polidas e mais educadas de introduzir uma questão, de fazer um pedido, enfim, de interpelar. Apenas alguns exemplos.
Vou eu na via pública e ouço: «cantu hora sta?» (que horas são?) ou «fran hora!» Diz-me as horas). “Tout court!” como diz o francês. Isto é, não vem acoplado qualquer coisa como «se faz favor» ou então no final, um: «obrigado».
Outra “prenda linguística” e esta é particularmente audível na minha ilha (Fogo) é aquele comunizante e já irritante «bó» (tu) a torto e a direito, sem olhar a quem, se colega, se mais velho. Convenhamos que é demais! Já não há boas maneiras nestas ilhas? Até crianças quando nos pedem qualquer coisa iniciam o pedido com: «dam...) o que subentende o tratamento por «bó». E podem crer que quando menciono estes parcos exemplos estou a deixar de fora um sem número deles os quais, de tanto, que aqui nem caberiam.
Bem…desabafando é que a gente se entende também. Por hoje fica registado este desabafo.
sábado, 15 de maio de 2010
Caros:
Abel Djassi, Amílcar Tavares (Mica), Aristides, Charlene, Et Garcia, João Branco (e o seu já famoso: Café Margoso), João Carlos Pires Ferreira, MRVADAZ, Nininha, Tchá, Titim, Vektra
Antes de mais as saudações de cibernauta.
Sinto-me em dívida convosco e gostaria de vos agradecer e enviar-vos um “xi – coração” por se terem juntado ao Coral – Vermelho. Fico lisonjeada e feliz!
Um abraço
Ondina
Abel Djassi, Amílcar Tavares (Mica), Aristides, Charlene, Et Garcia, João Branco (e o seu já famoso: Café Margoso), João Carlos Pires Ferreira, MRVADAZ, Nininha, Tchá, Titim, Vektra
Antes de mais as saudações de cibernauta.
Sinto-me em dívida convosco e gostaria de vos agradecer e enviar-vos um “xi – coração” por se terem juntado ao Coral – Vermelho. Fico lisonjeada e feliz!
Um abraço
Ondina
O novo-riquismo dos títulos académicos?
Continuo a observar que mesmo com o passar dos anos, com o aumento do números dos jovens formados em universidades e em outras instituições de ensino superior, muitos dos nossos quadros técnicos superiores, usam e abusam do título académico com que se graduaram, como se de nome próprio se tratasse e num certo exibicionismo e ostentação, diga-se, em abono da verdade, quase sempre um pouco grotesco.
E vamos ao que me traz aqui. Faz parte dos manuais básicos do saber estar, entre nós de influência cultural lusa, o entendimento de que o título académico é para ser usado pelo interlocutor do médico, do engenheiro, do farmacêutico, do economista, etc., etc., entre outros e numerosos graus e formações académicas superiores, quando se lhe dirige, particularmente e sobretudo, em local de trabalho. Mas nunca pelo próprio quando se apresenta ou se auto-nomeia. Isto é regra social e geral. Claro que haverá situações de excepção em que o próprio o terá de fazer num quadro específico e estrito para melhor se identificar. Mas trata-se de excepcionalidade.
Vem isto a propósito de ouvir e assistir a situações (com alguma frequência incomodativa) em que o próprio se anuncia privadamente ao telefone, ou em pessoa, antepondo ao seu nome o título de “doutor, doutora” como se de registo se tratasse! Ele ou ela, que assim procede, não lhe foi ensinado ou não aprendeu ainda, de que se trata de uma postura incorrecta e que entre outras coisas que sugere a quem os ouve é de que os sujeitos falantes estão “deslumbrados” com o diploma, a ele não se habituaram ainda ou então, não “ligaram o seu desconfiómetro” social e regulador que os ajudariam a evitar essa situação ridícula!
Mas mais, recebo cartas de organismos públicos e/ou de empresas privadas em que o director, o presidente, o responsável máximo assina o documento que o já referenciou pelo cargo que desempenha na dita instituição, mas mesmo assim, antepõe ao seu nome o “Dr.” ou o “Eng.” e, por vezes, achando tudo isso pouco (vi isso em documentos assinados por Presidente de Câmara) ainda colocam em baixo desse nome: “Licenciado em…”como se estivesse desconfiado de não se lhe reconhecer habilitações para o exercício das funções.
Complexos!... costuma resumir-me alguém que me é muito caro.
Pois bem, vamos erradicar esta espécie de “novo-riquismo” de auto enunciação do título académico feito pelo próprio, em recinto de trabalho, ao telefone, ou em círculo privado, inter-pares ou não.
Deixe-se isso a cargo do interlocutor, ou de quem se lhe dirige. Este sim, este deve ter o cuidado e a cortesia de antepor ao nome por que é tratado o título académico a que tem “direito”. Neste caso, é normal e correcto. Mas nunca, o próprio, o portador do título.
Na verdade torna-se por vezes, caricato e confrangedor escutar e presenciar esse tipo de situações. Confesso que em muitas ocasiões, como mais velha e mais experiente, e, se calhar, ainda com tiques de professora, apeteceu-me corrigir o falante que assim procedeu. Mas também confesso que recuei e tenho recuado no último instante, com receio de ser mal entendida nesta pedagogia, quiçá, um pouco tardia. Valeria a pena?! Diz o povo que mais vale tarde do que nunca!
E vamos ao que me traz aqui. Faz parte dos manuais básicos do saber estar, entre nós de influência cultural lusa, o entendimento de que o título académico é para ser usado pelo interlocutor do médico, do engenheiro, do farmacêutico, do economista, etc., etc., entre outros e numerosos graus e formações académicas superiores, quando se lhe dirige, particularmente e sobretudo, em local de trabalho. Mas nunca pelo próprio quando se apresenta ou se auto-nomeia. Isto é regra social e geral. Claro que haverá situações de excepção em que o próprio o terá de fazer num quadro específico e estrito para melhor se identificar. Mas trata-se de excepcionalidade.
Vem isto a propósito de ouvir e assistir a situações (com alguma frequência incomodativa) em que o próprio se anuncia privadamente ao telefone, ou em pessoa, antepondo ao seu nome o título de “doutor, doutora” como se de registo se tratasse! Ele ou ela, que assim procede, não lhe foi ensinado ou não aprendeu ainda, de que se trata de uma postura incorrecta e que entre outras coisas que sugere a quem os ouve é de que os sujeitos falantes estão “deslumbrados” com o diploma, a ele não se habituaram ainda ou então, não “ligaram o seu desconfiómetro” social e regulador que os ajudariam a evitar essa situação ridícula!
Mas mais, recebo cartas de organismos públicos e/ou de empresas privadas em que o director, o presidente, o responsável máximo assina o documento que o já referenciou pelo cargo que desempenha na dita instituição, mas mesmo assim, antepõe ao seu nome o “Dr.” ou o “Eng.” e, por vezes, achando tudo isso pouco (vi isso em documentos assinados por Presidente de Câmara) ainda colocam em baixo desse nome: “Licenciado em…”como se estivesse desconfiado de não se lhe reconhecer habilitações para o exercício das funções.
Complexos!... costuma resumir-me alguém que me é muito caro.
Pois bem, vamos erradicar esta espécie de “novo-riquismo” de auto enunciação do título académico feito pelo próprio, em recinto de trabalho, ao telefone, ou em círculo privado, inter-pares ou não.
Deixe-se isso a cargo do interlocutor, ou de quem se lhe dirige. Este sim, este deve ter o cuidado e a cortesia de antepor ao nome por que é tratado o título académico a que tem “direito”. Neste caso, é normal e correcto. Mas nunca, o próprio, o portador do título.
Na verdade torna-se por vezes, caricato e confrangedor escutar e presenciar esse tipo de situações. Confesso que em muitas ocasiões, como mais velha e mais experiente, e, se calhar, ainda com tiques de professora, apeteceu-me corrigir o falante que assim procedeu. Mas também confesso que recuei e tenho recuado no último instante, com receio de ser mal entendida nesta pedagogia, quiçá, um pouco tardia. Valeria a pena?! Diz o povo que mais vale tarde do que nunca!
A qualidade do munícipe?
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Torna-se deveras evidente que a qualidade do cidadão, o nível do munícipe também se afere pela forma como ele cuida ou não cuida do espaço em que vive e circula.
Vem isto a propósito de quê? Ora bem, temos ido Armindo e eu durante a semana à praia de Quebra Canela (nome pouco apelativo e desencorajador) à natação matinal. Bem matinal, pois que começa, mais ou menos, às 6 horas da manhã, numa espécie de “talassoterapia” que é como chamo a esses mergulhos madrugadores no mar.
Tudo seria bonito, saudável e aprazível, pois que da nossa casa à praia faz-se bem a pé e percorre-se entre a ida e o regresso, cerca de quilómetro e meio. O que é já um razoável exercício físico.
Mas infelizmente mal descemos as escadas de acesso à praia, passando por um recipiente para o lixo, situado em local destacado, o que se nos depara em baixo é desolador: uma praia suja e imunda. Restos de embalagens, garrafas vazias, invólucros e material vário, atirados ao areal. Enfim, lixo na sua configuração mais indecorosa, a revelar um pouco o perfil de muitos dos munícipes que frequentam a praia de Quebra Canela.
Ah! Já me ia esquecendo de acrescentar que o recipiente do lixo encontra-se… praticamente vazio!
Porquê essa falta de cuidado? Esse primarismo meio bárbaro de se atirar o que se considera lixo ao chão? Porque o colocar em local apropriado? Ainda por cima estando à mão o recipiente adequado?
Bem, confesso-vos que é uma primeira impressão da praia, muito pouco convidativa, para não usar uma expressão mais forte.
Além de tudo o mais, revela também um desprezo exibicionista pela natureza, por uma das suas criações mais belas que é a beira-mar.
De uma maneira geral, não costumo culpar a Câmara Municipal por aquilo de que ela não é directa e unicamente responsável. Ou seja, pela qualidade do munícipe que possui. Dito desta forma, não gostaria que se interpretasse que a instituição, ou a autoridade responsável pela orla marítima não possa tomar medidas que inibam o cidadão de tal prática.
De qualquer ângulo que se analise a questão, procurando justificações para tal comportamento, parece-me que a culpa vai quase inteirinha para àqueles cidadãos que diariamente ou aos fins-de-semana, frequentam uma das poucas praias acessíveis da nossa capital e que infelizmente a não respeitam.
E lá queremos nós ter estatuto de paridade!... Vamos ser sérios! O primeiro passo é sermos, antes de mais, civilizados aqui na nossa cidade – capital e no resto do país, conservando limpas e saneadas as praias e a orla marítima que limitam o oceano que banha as ilhas. É óbvio que isto não se aplica só às praias…
Vem isto a propósito de quê? Ora bem, temos ido Armindo e eu durante a semana à praia de Quebra Canela (nome pouco apelativo e desencorajador) à natação matinal. Bem matinal, pois que começa, mais ou menos, às 6 horas da manhã, numa espécie de “talassoterapia” que é como chamo a esses mergulhos madrugadores no mar.
Tudo seria bonito, saudável e aprazível, pois que da nossa casa à praia faz-se bem a pé e percorre-se entre a ida e o regresso, cerca de quilómetro e meio. O que é já um razoável exercício físico.
Mas infelizmente mal descemos as escadas de acesso à praia, passando por um recipiente para o lixo, situado em local destacado, o que se nos depara em baixo é desolador: uma praia suja e imunda. Restos de embalagens, garrafas vazias, invólucros e material vário, atirados ao areal. Enfim, lixo na sua configuração mais indecorosa, a revelar um pouco o perfil de muitos dos munícipes que frequentam a praia de Quebra Canela.
Ah! Já me ia esquecendo de acrescentar que o recipiente do lixo encontra-se… praticamente vazio!
Porquê essa falta de cuidado? Esse primarismo meio bárbaro de se atirar o que se considera lixo ao chão? Porque o colocar em local apropriado? Ainda por cima estando à mão o recipiente adequado?
Bem, confesso-vos que é uma primeira impressão da praia, muito pouco convidativa, para não usar uma expressão mais forte.
Além de tudo o mais, revela também um desprezo exibicionista pela natureza, por uma das suas criações mais belas que é a beira-mar.
De uma maneira geral, não costumo culpar a Câmara Municipal por aquilo de que ela não é directa e unicamente responsável. Ou seja, pela qualidade do munícipe que possui. Dito desta forma, não gostaria que se interpretasse que a instituição, ou a autoridade responsável pela orla marítima não possa tomar medidas que inibam o cidadão de tal prática.
De qualquer ângulo que se analise a questão, procurando justificações para tal comportamento, parece-me que a culpa vai quase inteirinha para àqueles cidadãos que diariamente ou aos fins-de-semana, frequentam uma das poucas praias acessíveis da nossa capital e que infelizmente a não respeitam.
E lá queremos nós ter estatuto de paridade!... Vamos ser sérios! O primeiro passo é sermos, antes de mais, civilizados aqui na nossa cidade – capital e no resto do país, conservando limpas e saneadas as praias e a orla marítima que limitam o oceano que banha as ilhas. É óbvio que isto não se aplica só às praias…
Foi assim!...
terça-feira, 4 de maio de 2010
As estórias que se contam nem sempre correspondem a História que se quer narrar. Vem isto a propósito do que se passou com a South African Airways (SAA) no conturbado e agitado período (Maio/74 a Junho/75) que antecedeu a independência de Cabo Verde.
Era sabido que toda a Ilha do Sal e, por via disto, uma boa parte da nossa economia, era dependente da escala dos voos da SAA. Pois isto não evitou que certos fervorosos jovens de então - hoje pacatos avós - com responsabilidade na administração, gestão e funcionamento das actividades económicas da Ilha, tomados por uma onda de fervor independentista, ávidos de apresentar serviço quiçá movidos pelo oportunismo militante que proliferava, organizassem uma manifestação contra a escala dos aviões dessa companhia (SAA) no Sal. Estava na ordem do dia as manifestações espontâneas em nome e a favor do PAIGC consentidas e, por vezes, incentivadas e até sugeridas, pelo próprio Governo de Transição através de certos membros e realizadas por “iniciativa” de activistas cujos nomes e funções em nada vinculavam o partido que diziam representar. Eram “peixe miúdo”, “carne para canhão”, como sói dizer-se, e que a realidade posteriormente confirmou que disso não passavam.
Foi assim que certa tarde, uma turba encabeçada por esses jovens se perfilou na placa do aeroporto emitindo em grandes algazarras, palavras de ordem contra a SAA e a República Sul-africana, e formando uma barreira humana com o fito de impedir que ao avião da SAA se prestasse qualquer assistência. Os serviços de terra eram prestados pela TAP cujos trabalhadores eram todos cabo-verdianos. Alguns destes, conscientes da dependência da Ilha do Sal à escala dos aviões da SAA, cientes dos seus deveres profissionais, da ingenuidade política dos manifestantes e da inocuidade da manifestação dado os interesses em jogo, indiferentes à barreira, aos apupos e aos apodos de “lacaios de colonialismo”, “traidores”, “reaccionários” e outros, contornaram a massa humana, dirigiram-se ao avião e prestaram o serviço que era necessário permitindo deste modo que o avião partisse.
Convém aqui lembrar que se vivia o “apartheid” na República Sul-africana e que na sequência da natureza do regime havia um boicote imposto pela OUA ao qual, pragmaticamente, Cabo Verde não aderiu mesmo depois da Independência. Mas também não será de mais referir que apesar desse boicote alguns países da nossa costa africana ditos “moderados” faziam-se à escala dos voos dos aviões da SAA e há muito que se rumorejava acordos e protocolos secretos.
Após o despacho e partida do avião, o representante da SAA furiosíssimo deslocou-se ao gabinete do chefe de escala da TAP – um cabo-verdiano – dizendo-lhe que ia já telefonar e fazer um relatório pedindo o fecho da escala do Sal e que se os cabo-verdianos não queriam os aviões sul-africanos havia já outras alternativas negociadas. Foi dissuadido pelo chefe da escala da TAP pedindo-lhe que tivesse calma pois os manifestantes não representavam a vontade do Governo. Implorou-lhe que aguentasse uns dias para permitir que a situação se aclarasse através dos órgãos competentes. Que ele próprio iria fazer as diligências necessárias para efectivação deste propósito. O Representante da SAA perante a insistência do pedido, contemporizou-se “concedendo-lhe” os tais dias, acrescentando: “Não aceitarei mais nenhuma situação semelhante. Estou aqui a trabalhar há vários anos como sabes e não a fazer política e respeito escrupulosamente as leis do território.” E foi no cumprimento da promessa de diligência que o chefe de escala da TAP do Sal se deslocou a Lisboa no primeiro avião, por iniciativa própria, para falar com o Director da SAA para a região ibérica (sedeada em Lisboa) da qual Sal (e também Canárias) fazia parte. Pôs-lhe ao corrente da situação, reiterou-lhe o pedido de não fechar a escala do Sal da SAA recomendando-lhe, para evitar futuramente semelhantes situações à que se tinha verificado, uma conversa urgente com o Governo de Transição, designadamente com o membro desse Governo que se ocupava da administração interna uma vez que apenas se tratava de manifestações e de acções impeditivas projectadas e realizadas por um grupo de agitadores. O representante ibérico da SAA absorveu a recomendação e deslocou-se de imediato, no primeiro voo, a Cabo Verde tendo marcado com antecedência uma audiência com o então membro do Governo para administração interna. Durante a audiência que se verificou na Praia, foi-lhe assegurado tranquilidade, que o Governo de Transição garantiria os compromissos anteriormente assumidos, que o que havia ocorrido não voltaria a acontecer e que não haveria mais manifestação nem acções obstrucionistas.
Foi assim que a South African Airways manteve activa a escala do Sal e foi assim que aconteceu nos bastidores. Mais tarde, houve negociações abertas no quadro de um Cabo Verde independente.
A. Ferreira
Era sabido que toda a Ilha do Sal e, por via disto, uma boa parte da nossa economia, era dependente da escala dos voos da SAA. Pois isto não evitou que certos fervorosos jovens de então - hoje pacatos avós - com responsabilidade na administração, gestão e funcionamento das actividades económicas da Ilha, tomados por uma onda de fervor independentista, ávidos de apresentar serviço quiçá movidos pelo oportunismo militante que proliferava, organizassem uma manifestação contra a escala dos aviões dessa companhia (SAA) no Sal. Estava na ordem do dia as manifestações espontâneas em nome e a favor do PAIGC consentidas e, por vezes, incentivadas e até sugeridas, pelo próprio Governo de Transição através de certos membros e realizadas por “iniciativa” de activistas cujos nomes e funções em nada vinculavam o partido que diziam representar. Eram “peixe miúdo”, “carne para canhão”, como sói dizer-se, e que a realidade posteriormente confirmou que disso não passavam.
Foi assim que certa tarde, uma turba encabeçada por esses jovens se perfilou na placa do aeroporto emitindo em grandes algazarras, palavras de ordem contra a SAA e a República Sul-africana, e formando uma barreira humana com o fito de impedir que ao avião da SAA se prestasse qualquer assistência. Os serviços de terra eram prestados pela TAP cujos trabalhadores eram todos cabo-verdianos. Alguns destes, conscientes da dependência da Ilha do Sal à escala dos aviões da SAA, cientes dos seus deveres profissionais, da ingenuidade política dos manifestantes e da inocuidade da manifestação dado os interesses em jogo, indiferentes à barreira, aos apupos e aos apodos de “lacaios de colonialismo”, “traidores”, “reaccionários” e outros, contornaram a massa humana, dirigiram-se ao avião e prestaram o serviço que era necessário permitindo deste modo que o avião partisse.
Convém aqui lembrar que se vivia o “apartheid” na República Sul-africana e que na sequência da natureza do regime havia um boicote imposto pela OUA ao qual, pragmaticamente, Cabo Verde não aderiu mesmo depois da Independência. Mas também não será de mais referir que apesar desse boicote alguns países da nossa costa africana ditos “moderados” faziam-se à escala dos voos dos aviões da SAA e há muito que se rumorejava acordos e protocolos secretos.
Após o despacho e partida do avião, o representante da SAA furiosíssimo deslocou-se ao gabinete do chefe de escala da TAP – um cabo-verdiano – dizendo-lhe que ia já telefonar e fazer um relatório pedindo o fecho da escala do Sal e que se os cabo-verdianos não queriam os aviões sul-africanos havia já outras alternativas negociadas. Foi dissuadido pelo chefe da escala da TAP pedindo-lhe que tivesse calma pois os manifestantes não representavam a vontade do Governo. Implorou-lhe que aguentasse uns dias para permitir que a situação se aclarasse através dos órgãos competentes. Que ele próprio iria fazer as diligências necessárias para efectivação deste propósito. O Representante da SAA perante a insistência do pedido, contemporizou-se “concedendo-lhe” os tais dias, acrescentando: “Não aceitarei mais nenhuma situação semelhante. Estou aqui a trabalhar há vários anos como sabes e não a fazer política e respeito escrupulosamente as leis do território.” E foi no cumprimento da promessa de diligência que o chefe de escala da TAP do Sal se deslocou a Lisboa no primeiro avião, por iniciativa própria, para falar com o Director da SAA para a região ibérica (sedeada em Lisboa) da qual Sal (e também Canárias) fazia parte. Pôs-lhe ao corrente da situação, reiterou-lhe o pedido de não fechar a escala do Sal da SAA recomendando-lhe, para evitar futuramente semelhantes situações à que se tinha verificado, uma conversa urgente com o Governo de Transição, designadamente com o membro desse Governo que se ocupava da administração interna uma vez que apenas se tratava de manifestações e de acções impeditivas projectadas e realizadas por um grupo de agitadores. O representante ibérico da SAA absorveu a recomendação e deslocou-se de imediato, no primeiro voo, a Cabo Verde tendo marcado com antecedência uma audiência com o então membro do Governo para administração interna. Durante a audiência que se verificou na Praia, foi-lhe assegurado tranquilidade, que o Governo de Transição garantiria os compromissos anteriormente assumidos, que o que havia ocorrido não voltaria a acontecer e que não haveria mais manifestação nem acções obstrucionistas.
Foi assim que a South African Airways manteve activa a escala do Sal e foi assim que aconteceu nos bastidores. Mais tarde, houve negociações abertas no quadro de um Cabo Verde independente.
A. Ferreira
P.S.: Por razões éticas (não me foi possível falar com todos) e de coerência (não faz sentido nominar uns e manter anónimos outros) não usei os nomes dos representantes da SAA, do membro do Governo de Transição, nem do chefe de Escala e dos trabalhadores da TAP que prestaram assistência ao avião da SAA. Ao que parece estão todos vivos e vivem (os cabo-verdianos) quase todos no estrangeiro desde 1975…
Tradições e Transposições
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Tradições e Transposições…
À memória da mãe Joana.
Regressada recentemente de Bissau, onde estive por ocasião da morte de um familiar muito querido, lembrei-me – em jeito de homenagem – escrever este pequeno texto sobre a transposição de algumas tradições do meio rural, seu espaço de origem e de prática obrigatória, para o meio urbano sem condições para o cumprimento do ritual, normalmente longo e complexo que acompanha as cerimónias que as compõem.
Ora bem, abro aqui um pequeno parêntesis, para dizer que todas as vezes que sobre isso falo, trago à colação a imagem do batuque em estúdio de televisão. Para mim, essa dança assim apresentada ganha algum contorno de “grotesco” e de inestético, pois que ele, o batuque, foi concebido para o “terreiro” espaço aberto de terra batida, do campo, com o céu à vista, possivelmente em noite de luar e com uma ambiência adequada. Logo, isso não tem nada a ver com um estúdio fechado e virado para outros fins. Fecho o parêntesis e volto ao assunto inicial.
Com efeito, muitas das tradições que se querem manter já não se adequam – sobretudo nos nossos dias – na cidade, em casas sem quintal, em apartamentos, no meio do trânsito, com um tempo e uma movimentação diferentes do tempo e do movimento do meio rural. Enfim, estas tradições não foram pensadas, nem configuradas para o meio dito urbano. Daí toda uma inadequação quando se força a transposição delas para a cidade.
Pois bem, uma das tradições (quase instituição) mais fortemente implantadas na Guiné é o «Choro» por ocasião da morte de alguém. As chamadas cerimónias, são normalmente animistas, mas comportam também ou, podem também comportar celebrações fúnebres cristãs, (missas e terço rezado) se o defunto ou a família assim pretenderem e tudo isto num perfeito sincretismo religioso. Para além da matança/sacrifício de alguns animais, o ritual inclui a «Esteira», estendidas pois que são muitas as esteiras – ocupadas pelas mulheres mais velhas e da família no sentido literal do termo – durante oito dias na casa do defunto. A primeira refeição da manhã normalmente “comida de panela” cuja base é o arroz é levada à boca após uma espécie de invocação/homenagem ao morto.
Cada etnia guineense possui o seu modus faciendi do «Choro». No último dia da Esteira faz-se “o amanhecer,” «manchida» em crioulo, em que a noite da véspera é uma vigia até ao nascer do sol.
Após isso, enrolam-se as esteiras. Reza-se a missa do sétimo dia – nos casos de sincretismo religioso – e cada familiar e cada visitante, que entretanto esteve albergada em casa do morto, regressa ao seu local de residência. Em linhas muito gerais, de forma muito abreviada e muito superficial, fica a pretensão de uma descrição do «Choro».
Acrescente-se que a duração das cerimónias e a “largueza” dos repastos dependem obviamente do estatuto do defunto.
Mas o que aqui gostaria de enfatizar é que as tradições acabam por ter de ser modificadas, alteradas e abreviadas, pois que a sua realização no espaço citadino não se compadece com a configuração que elas trazem do meio rural.
Daí que, na minha opinião, e um pouco na linha: “ao campo o que é do campo, à cidade o que é da cidade” não é recomendável a transposição – porque inadequada e perturbadora – de práticas tradicionais rurais para o meio urbano, sob pena de uma descaracterização e de criação de situações, por vezes, conflituosas e constrangedoras.
Para finalizar, gostaria de aqui recordar aquilo que em vida dizia a nossa familiar querida, conhecedora dos usos e dos costumes da terra, mas ao mesmo tempo pessoa esclarecida – com a perfeita noção de que a isso, não poderia fugir quando a morte a viesse buscar – de tal modo que ela deixou recomendações e orientações no sentido de haver limites e contenção em tudo que às cerimónias dissesse respeito, para que os filhos, descendentes, certos familiares e amigos não se sentissem incomodados com essa tradição.
À memória da mãe Joana.
Regressada recentemente de Bissau, onde estive por ocasião da morte de um familiar muito querido, lembrei-me – em jeito de homenagem – escrever este pequeno texto sobre a transposição de algumas tradições do meio rural, seu espaço de origem e de prática obrigatória, para o meio urbano sem condições para o cumprimento do ritual, normalmente longo e complexo que acompanha as cerimónias que as compõem.
Ora bem, abro aqui um pequeno parêntesis, para dizer que todas as vezes que sobre isso falo, trago à colação a imagem do batuque em estúdio de televisão. Para mim, essa dança assim apresentada ganha algum contorno de “grotesco” e de inestético, pois que ele, o batuque, foi concebido para o “terreiro” espaço aberto de terra batida, do campo, com o céu à vista, possivelmente em noite de luar e com uma ambiência adequada. Logo, isso não tem nada a ver com um estúdio fechado e virado para outros fins. Fecho o parêntesis e volto ao assunto inicial.
Com efeito, muitas das tradições que se querem manter já não se adequam – sobretudo nos nossos dias – na cidade, em casas sem quintal, em apartamentos, no meio do trânsito, com um tempo e uma movimentação diferentes do tempo e do movimento do meio rural. Enfim, estas tradições não foram pensadas, nem configuradas para o meio dito urbano. Daí toda uma inadequação quando se força a transposição delas para a cidade.
Pois bem, uma das tradições (quase instituição) mais fortemente implantadas na Guiné é o «Choro» por ocasião da morte de alguém. As chamadas cerimónias, são normalmente animistas, mas comportam também ou, podem também comportar celebrações fúnebres cristãs, (missas e terço rezado) se o defunto ou a família assim pretenderem e tudo isto num perfeito sincretismo religioso. Para além da matança/sacrifício de alguns animais, o ritual inclui a «Esteira», estendidas pois que são muitas as esteiras – ocupadas pelas mulheres mais velhas e da família no sentido literal do termo – durante oito dias na casa do defunto. A primeira refeição da manhã normalmente “comida de panela” cuja base é o arroz é levada à boca após uma espécie de invocação/homenagem ao morto.
Cada etnia guineense possui o seu modus faciendi do «Choro». No último dia da Esteira faz-se “o amanhecer,” «manchida» em crioulo, em que a noite da véspera é uma vigia até ao nascer do sol.
Após isso, enrolam-se as esteiras. Reza-se a missa do sétimo dia – nos casos de sincretismo religioso – e cada familiar e cada visitante, que entretanto esteve albergada em casa do morto, regressa ao seu local de residência. Em linhas muito gerais, de forma muito abreviada e muito superficial, fica a pretensão de uma descrição do «Choro».
Acrescente-se que a duração das cerimónias e a “largueza” dos repastos dependem obviamente do estatuto do defunto.
Mas o que aqui gostaria de enfatizar é que as tradições acabam por ter de ser modificadas, alteradas e abreviadas, pois que a sua realização no espaço citadino não se compadece com a configuração que elas trazem do meio rural.
Daí que, na minha opinião, e um pouco na linha: “ao campo o que é do campo, à cidade o que é da cidade” não é recomendável a transposição – porque inadequada e perturbadora – de práticas tradicionais rurais para o meio urbano, sob pena de uma descaracterização e de criação de situações, por vezes, conflituosas e constrangedoras.
Para finalizar, gostaria de aqui recordar aquilo que em vida dizia a nossa familiar querida, conhecedora dos usos e dos costumes da terra, mas ao mesmo tempo pessoa esclarecida – com a perfeita noção de que a isso, não poderia fugir quando a morte a viesse buscar – de tal modo que ela deixou recomendações e orientações no sentido de haver limites e contenção em tudo que às cerimónias dissesse respeito, para que os filhos, descendentes, certos familiares e amigos não se sentissem incomodados com essa tradição.