Mulheres em tempo de guerra...

segunda-feira, 7 de junho de 2010
Com este título é natural que vários intertextos de outros escritos nos acudam à memória. Mas este particularmente foi-me sugerido pela recente leitura do livro: “ A África no feminino – As Mulheres Portuguesas e a Guerra Colonial” de autoria de Margarida Calafate Ribeiro, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Um ensaio interessante pois que acaba por ser ao mesmo tempo um testemunho em directo de mulheres, que no período compreendido entre 1961 e 1974 – quase todas então nos vinte anos, bem jovens – acompanharam os maridos que então prestavam serviço militar nas três frentes de guerra, Angola, Guiné e Moçambique.
A autora conseguiu reunir um punhado de depoimentos, que parecerão reais e sinceros ao leitor, pois que despidos de qualquer veleidade ou de pose de heroicidade ou similar, mas também sem grandes lamentos. Antes, muito lucidamente, algumas delas lançam um olhar sem preconceito e sem diabolismos sobre esse fenómeno chamado “guerra colonial” que marcou toda uma geração que foi também a minha.
As entrevistadas ou depoentes, falam dos seus medos, dos medos que sentiram pela iminência de perderem os maridos, os irmãos, os amigos, todos militares. Uns de carreira, outros cumprindo o serviço militar obrigatório. Tudo isso numa guerra a que muitos foram forçados a ir e que quase todas afirmam podia ter sido evitada. Jovens mulheres, alegres e confiantes que deixaram o conforto das suas vidas em Lisboa, Porto, Coimbra e outras cidades e terras portuguesas para estarem ao lado dos maridos em locais inóspitos as mais das vezes, pois que nem sempre ficavam em Luanda, Bissau, ou Lourenço Marques. Mas nenhuma, das depoentes, se sentiu automaticamente heroína ou diferente. Embora muitas tivessem ficado marcadas pelo drama da situação, pelo que viveram, ouviram e assistiram do horrendo de uma guerra. E algumas, por causa dela, a guerra, interrogam-se e questionam se hoje seriam as mulheres que são se não tivessem tido este período anormal, numa fase de vida tão bela como é a da juventude.
Possivelmente a autora fez uma selecção para o livro, dos depoimentos ouvidos. Nisso foi muito feliz, pela excelência de alguns deles e que dão ao leitor testemunhos maduros e inteligentes de uma época histórica das mais importantes, se não a mais importante da história recente de Portugal e das suas ex-colónias no século XX.
Como alguém, que me é muito caro, costuma dizer: só quem não fez a guerra é capaz de lhe entoar loas e remata que a guerra não é nenhum passeio romântico. Cometem-se atrocidades e por vezes algum humanismo dos dois lados dos contendores.
Voltando ao livro, a autora, na introdução fala do silêncio que pairou sobre a guerra colonial, uma guerra sobre a qual mal se falava ou então não se falava, pois que era assunto tabu enquadrado num ambiente sem liberdade de expressão. Diz ela que “o silêncio sobre a guerra seria assim uma forma equivalente ao discurso sobre a guerra, ou seja, numa forma de resposta ao trauma um sentido individual e colectivo” e remete o leitor a uma perspectiva metafórica da guerra nas palavras de uma personagem do romance de Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios: “Se ninguém fotografou, nem escreveu, o que aconteceu durante a noite acabou a madrugada – não chegou a existir.”
Interessante e coincidente para mim, ao ler o livro, “África no feminino – As mulheres portuguesas na Guerra Colonial,” veio-me à memória que aqui há algum tempo iniciei um texto, a que dei o título: “Conacry no feminino – Um tempo e várias Histórias.” O texto andou esquecido um ror de tempo. Felizmente que o computador o guardou. Fui relê-lo.
Afinal, também tivemos as nossas mulheres na guerra da independência na Guiné. Muitas não foram só acompanhar os maridos, também muitas delas participaram quase em directo no teatro de guerra.
E se essas mulheres começassem realmente a falar? Sim, as que lutaram também. E se elas começassem a escrever, a (des)confidencializar, a registar as memórias. Enfim, a fazer um pouco da catarses, do muito-dito e do não-dito que lhes carregam as lembranças de um tempo muito marcante, muito complexo e com o seu quê de glorioso e de traumatizante ao mesmo tempo. Seria bem interessante, para a nossa geração e descendentes, conhecer – com verdade e sem “pinças” – tudo aquilo por que algumas delas, passaram durante o tempo vivido em Conacry ao serviço do Paigc, perseguindo um ideal, que na altura era a independência de Cabo Verde, acoplada à da Guiné? Sim, já imaginaram o que seria? Se elas pegassem na pena? …
Alguma estará a fazê-lo? Seria óptimo!

Elas, as tais mulheres, jovens na altura, no meio de muitos outros homens igualmente jovens, num ambiente de guerra, de permanente desconfiança, de muito medo e, quiçá, de algum assédio. Numa proporcionalidade desequilibrada e desconfortável. O que não terão passado? Elas e alguns dos “seus” homens.

E se nos contassem essas memórias? Com verdade e sem preocupações louvaminhas ou de agradar, ou mesmo ainda do “parecer bem” ou do “parecer mal”. Que nos deixassem saber da perspectiva delas face a uma guerra em que foram por ela apanhadas numa determinada conjuntura histórica. Talvez surgisse uma outra face da mesma moeda…
E se de facto alguma decidisse narrar, cronicar e até mesmo historiar o que por lá passou? Alguma coisa mudaria o nosso entendimento da História recente de Cabo Verde? Do seu processo de independência? Dos seus homens? Dos que lá andaram. Alguns, bem formados moralmente, outros, nem tanto…
Todos heróis? Todos santos? Todos imorais? Claro que não!
E se nos falassem dos seus medos, dos seus terrores, de que como era viver entre muitos homens, cada um com a sua virilidade por desfrutar e em tempo de guerra? Se nos contassem também como era viver no meio do mato ou acantonadas, nos arredores de Conacry, no espaço que Sekou Touré permitiu?
De alguns domingos na capital do país que as acolheu, em que não raro aconteciam espectáculos públicos macabros de enforcamentos de intelectuais, de artistas, de políticos cuja única culpa era a de pensarem diferente do Ditador?
Como imaginar, o dia-a-dia desse punhado de mulheres, dos seus trabalhos, dos seus silêncios e das suas dores. Algumas que para lá foram de “motu próprio” por sua vontade e outras – se calhar a maior parte – apenas por terem de acompanhar os maridos, os companheiros? Sim, e se alguma resolvesse escrever sobre isso? Dos temores sentidos quando pairava a eventualidade do seu homem (porque era sobretudo sobre eles que caía o machado directo da guerra) cair em “desgraça” face à estrutura militar e de comando da luta? Como viver o dilema da solidariedade ou do isolamento?
Enfim, seriam sem dúvida histórias de um tempo de guerra e como tal deverão (ou deveriam?) também ser percebidas.
E se alguma a isso se abalançasse? Ora bem, são já passadas três décadas sobre os acontecimentos. As que participaram na guerra na Guiné são hoje, quase todas, respeitáveis avós, mas ainda lúcidas e em boa idade de pôr cá para fora essas memórias de forma mais pensada, mais interiorizada e melhor elaborada, sobretudo sem fingimentos porque hoje desnecessários e sem o afã de agradar ou de desagradar quem quer que seja, apenas com o belo intuito cívico de um depoimento histórico no mais amplo sentido do termo. Talvez tivéssemos belas surpresas… Quem sabe!
Digam-me lá, se não seria interessante termos a perspectiva feminina da luta na Guiné, pela independência da Guiné e de Cabo Verde? Sim, porque manda a verdade que se diga que até agora o que a contraparte masculina já escreveu, pelo menos no que me foi dado ler, não passa de uma história muito colorida, recheada do já esperado que fosse dito e substancialmente prenhe de heróis… Como se aquela guerra tivesse sido algum filme daqueles bem à maneira americana.
Tal como o realizado pelo livro de Margarida Calafate Ribeiro, também projectei em tempos idos, bater à porta de algumas das minhas patrícias que vivenciaram a guerra e pedir-lhes que nos contassem em depoimentos honestos – não estamos à procura de heroínas, com todo o respeito que disso se possa ter – como foi do ponto de vista delas…
Nunca é tarde!...

Nota actualizada – Este texto foi escrito e já publicado há algum tempo. É minha opinião que o assunto não perde actualidade. Daí voltar a editá-lo.

A Peça escolhida...

sábado, 29 de maio de 2010
Vinha eu no carro de regresso à casa com a rádio ligada e ouço uma entrevista feita – nos estúdios de Mindelo da nossa Rádio nacional – a um dirigente de um grupo teatral daquela cidade.
O conteúdo da entrevista focou vários aspectos da vida do grupo teatral, desde as formações e as oficinas de trabalho dramático realizadas, passando pelas peças já apresentadas em palco e indo a algo que escutei com redobrado interesse.
Tratava-se de um comentário feito pelo entrevistador pelo facto de, a peça teatral do grupo, cujo líder estava a ser entrevistado, ter sido escolhida de entre as concorrentes para o grande festival de teatro internacional destinada aos grupos teatrais, creio que dos sete países da CPLP e que este ano teria lugar no Brasil.
Pelo teor da conversa radiodifundida, o critério de participação nesse mesmo festival, distinguia os novos grupos de teatro, eventualmente os mais necessitados de troca de experiências e de pisar outros palcos.
Realçava o Jornalista, como a querer confirmar junto do entrevistado, de que o grupo havia sido escolhido porque apresentara uma peça em língua portuguesa, o que à partida garantia audiência e comunicação internacional, o que possivelmente não fizeram os outros concorrentes.
Corroborou o dirigente teatral, e mais, reiterou as vantagens disso acrescentando que era uma excelente oportunidade sair e poder interagir com grupos congéneres da mesma língua, com maior experiência e visão do mundo do teatro, o que certamente iria acontecer no certame internacional a realizar no Brasil. Só teriam a ganhar, pressupunha ele.
Ora aqui estamos de novo à volta do velho tema: as vantagens do falante cabo-verdiano ter na sua bagagem cultural e linguística a língua portuguesa.
O caso descrito espelha bem a necessidade, diria que urgente, de repor com afinco o uso oral e escrito em português, entre nós. Somos uma comunidade pequena que colhe também no exterior, e isto já vem de séculos, não só o seu ganha-pão, como a experiência do seu saber fazer laboral e artístico, não alienando igualmente a sua criatividade específica.
Dito de outro modo: para que não se “fechem” as ligações com o exterior e para que se alarguem os nossos horizontes de desenvolvimento seria bom que mantivéssemos accionado em permanência, a nossa língua segunda, mantendo-a em bom e em activo estado, tornando-a até língua nacional o que só nos traria vantagens.
Aproveitaria para transcrever o que disse, e bem, alguém (anónimo) comentando o texto publicado neste “Blog” e intitulado: ”Crioulo versus Português.” O comentário focou o Haiti, a dificuldade de comunicação que tiveram os enviados internacionais e estrangeiros para socorrer os haitianos, a quando do enorme sismo que abalou o país recentemente. Passo a transcrever:
«É muito interessante o título do texto "Crioulo versus Português?", quanto mais não seja pela utilização do "versus" para juntar duas línguas íntimas e familiarmente ligadas. Eu apenas me expresso em português, o que lamento, pois o crioulo para além da sua especial sonoridade, possui uma enorme riqueza em termos de expressões idiomáticas que muito caracterizam o relacionamento dos falantes desta língua.
Mas o objectivo do meu comentário é chamar a atenção dos eventuais interessados para o facto que recentemente foi reportado por muitos dos voluntários que socorreram as populações do Haiti, após o terrível terramoto que tantas vítimas causou. É que a generalidade dos voluntários, que eram falantes de inglês, francês, português, italiano, espanhol, etc., referiu ter tido muita dificuldade para entender e se fazer entender pela maioria das vitimas, precisamente por estas apenas se expressarem na sua língua local, o crioulo do Haiti
.» (fim de transcrição).
Por ter sido enviado sob anonimato tomei a liberdade de o publicar, obviamente sem qualquer pedido de autorização.
E pensar que num passado recente, o país em questão possuía também o francês como património linguístico e que quase o perderam mercê de uma tomada de posição política que infelizmente não se revelou benéfica para o desenvolvimento da sua comunidade.
Retomando, e para finalizar, acrescentaria que isolarmo-nos linguisticamente seria uma horrível catástrofe para o desenvolvimento da comunidade cabo-verdiana.
O crioulo não pode e nem deve tomar o lugar (da forma como está sendo feito) do português em Cabo Verde.

Quarenta anos depois...

quinta-feira, 27 de maio de 2010
Dezembro 2009. A viagem a Lisboa havia sido propositadamente antecipada para pudermos fazer uma comemoração especial, uma vez que aí iríamos passar o Natal com os filhos e os netos
…Quarenta anos depois voltámos ao sítio onde tudo começou para nós. O banco do jardim era ainda o mesmo ou quase, pois que, com mais pinturas, menos pintura pouco o mudaram; manteve a sua traça inicial. O Jardim Botânico também o mesmo no geral, agora com algumas alterações normais após quatro décadas – guarita de segurança, entrada paga e outras benfeitorias, inovações e possivelmente maior diversidade da oferta botânica e da tecnologia de acesso ao visitante. Claro, que tudo isso ainda não existia naquele já longínquo ano de 1969. Mas do resto e em grandes linhas, tudo parecia ter permanecido na mesma para que assim o reconhecêssemos.
Feita esta espécie de “romagem da saudade,” comentámos que tudo era igual, ou quase isso…menos nós os dois, quarenta anos depois de ali termos dito sim, um ao outro e iniciar as etapas para uma vida em comum que já vai em netos…enfim, até parece letra de uma velha canção que trauteávamos na nossa juventude: «A mesma praça /o mesmo banco/ as mesmas flores / e o mesmo Jardim //Tudo é igual!»...
Mas não se trata de lamento, mas sim de uma saudade real e de terna recordação de um tempo ímpar que é a juventude!

Voltando ao presente – de muitos bons momentos também – tirámos algumas fotografias de nós os dois sentados no tal banco no dia do 40º aniversário; para isso, pedimos a um dos escuteiros que orientava um grupo de visita ao Jardim Botânico da velha Faculdade de Ciências de Lisboa na rua Politécnica que fizesse o “clique” da máquina fotográfica que para esse fim havíamos levado connosco. A máquina falhou por falta de energia suficiente; tivemos que nos recorrer ao telemóvel não obstante o escuteiro se ter disponibilizado a fazer a fotografia com a máquina dele e enviar-no-la por “e-mail.” Embora não se tenha revelado necessário, foi um gesto simpático que agradecemos, tendo-lhe passado para as mãos o nosso telemóvel.
Remetidas as fotografias aos filhos, um deles escreveu: “…as fotografias estão lindíssimas. Cá ficamos à espera das dos 50 anos!”
Obrigada! Haja vida e saúde!

A poesia de Eugénio Tavares e a questão do «nativismo»

segunda-feira, 24 de maio de 2010
Resolvi trazer este texto “retirado” do meu projecto de brochura, «Eugénio Tavares, Cantigas e Sonetos – A influência poética de João de Deus e de Antero Quental por se tratar de um tema que vem merecendo uma séria reflexão.
Na realidade, o fundamento do ensaio a publicar incide sobre a intertextualidade e a influência da poesia romântica portuguesa da 3ª fase, conhecida na historiografia literária portuguesa como a “Regeneração,” com especial destaque para João de Deus e Antero de Quental os quais, salvaguardada a originalidade e a criatividade do poeta bravense, nele exerceram uma significativa influência.
Mas o conteúdo deste texto apenas aproveita uma pequena parcela da brochura a editar e que foca num curto parêntesis, a questão do “nativismo” na escrita literária de E. Tavares para observar que o que se pretende hodiernamente e quase à viva força, é ligar – todas ou, quase todas – as influências recebidas pelo nosso poeta bravense ao “Nativismo.” De tal modo, tem sido assim na definição de alguns dos nossos actuais e mais mediáticos intelectuais, talvez influenciados pelo texto jornalístico de amor à terra, em que E. Tavares fala do «Nativismo através da Alma de Mistral».
Creio ter sido apenas neste artigo que E. T. focou o tema do nativismo, ainda que de forma veemente e crente. Daí talvez explicada a razão da classificação de “nativista” ao poeta e compositor, estendendo e ampliando o conceito numa espécie de «cartão de apresentação» dos poetas cabo-verdianos da segunda metade do século XIX, e mesmo para os das primeiras décadas do século XX. Todos são chamados: «nativista». Não vá sem se dizer, que no meio disto, isto é, do mesmo molde generalista se tem feito força para se colocar o nosso helénico, latinista e clássico acabado - o poeta José Lopes. Não será exagero?...
Se E. Tavares foi “nativista” no sentido de amar e de defender as ilhas, disso não tenho dúvidas, mas no que toca ao segundo entendimento do vocábulo nativista que é de “ódio a tudo o que é estrangeiro”, a obra dele nada revelou e o que ressalta é exactamente o contrário, um prolongado abraço afectivo e familiar à sua parte portuguesa e à sua dimensão universal também. Aliás, mais do que o seu texto considerado nativista, E. Tavares expressou e bastas vezes a sua ligação afectiva e cultural a Portugal, por vezes até simbolizada no amor filial exaltado ao pai, natural de Santarém. Na minha modesta opinião, em que não me considero desacompanhada, a pretensão sócio-política mais fortemente enunciada por E. Tavares teria sido a de reivindicar para o cabo-verdiano, iguais direitos e estatuto que tinha o então chamado metropolitano. E isto não quer de forma alguma negar – pois que à época não seria fácil declará-lo – a postura nacionalista de Eugénio Tavares em relação às suas amadas ilhas.
Reafirmo o que antes já dissera: Nunca houve em Cabo Verde uma corrente literária de carácter nativista o que não significa que um ou outro texto não se tivesse aproximado dessa linha.
Uma asserção bem elucidativa sobre este assunto e que trago a meu favor é a que faz Alfredo Margarido no prefácio ao livro de Pedro Cardoso: Folclore de Cabo Verde, uma edição da Solidariedade Cabo-verdiana de Paris e publicada em Lisboa em 1983. Diz Margarido a propósito do nativismo em Cabo Verde que já em 1917: «Luiz Loff de Vasconcelos…salienta que a origem do nativismo deve ir buscar-se ao Brasil, onde traduziu “ uma forma política de reivindicação” dos direitos dos naturais contra os estranhos. O que lhe permite mostrar que o chamado “nativismo cabo-verdiano é uma impropriedade de termo, a que se tem dado um significado moral e político falso, baseando-se em ódio de raça e como manifestação de rebeldia.”(palavras de Luís Loff de Vasconcelos) Esta intervenção procura reduzir a importância real do nativismo, …Mas é evidente que se este aviso à população possui, visto a evolução das migrações cabo-verdianas, um aspecto propriamente profético, a verdade é que ele põe termo a esta questão. Cabo Verde sai do campo perigoso do nativismo, que fica então solidamente ocupado pelos santomenses e pelos angolanos.» Análise e conclusão de Alfredo Margarido e fim da transcrição. O sublinhado e o “negrito” são meus.)
Interessante que mesmo conhecendo esta posição de Luiz Loff de Vasconcelos secundada de forma inequívoca por Alfredo Margarido nestas notas transcritas (Note-se que a tese de Loff de Vasconcelos que já tem quase um século de existência é dirigida à escrita jornalística de época) persistem alguns intelectuais cabo-verdianos no século XXI, em querer manter a classificação com a agravante de a tornar extensiva e englobante para todos os literatos dessa época.

Gostaria de finalizar este escrito, lembrando que quer Eugénio Tavares, quer José Lopes, Pedro Cardoso, Januário Leite e demais poetas cronologicamente próximos, não formaram e nem estiverem inseridos em nenhum grupo ou corrente literária. E nesta matéria, não vale a pena forçar convenções pois que podem deturpar desnecessariamente a historiografia literária cabo-verdiana.
Uni-los sim, nos momentos (raros) em que pessoalmente alguns deles se encontraram e nos poemas que entre eles trocaram em dedicatória mútua.
Poucos se têm lembrado que, tal como nos cantados versos de António Gedeão: «…Cada um é seus caminhos…» assim também sucedeu na forma de versejar e na poesia dos autores cabo-verdianos aqui citados. Cada um foi o seu próprio “caminho” e também a intertextualidade que o influenciou no modo de versejar.

Festival de música ou festival de pancadaria?...

sábado, 22 de maio de 2010
Infelizmente é verdade, ou melhor, já se tornou numa triste realidade a premissa interrogativa do título deste escrito, relativamente ao que se ouve dizer sobre o festival da praia da Gambôa.
Reparem bem: no dia a seguir à primeira noite deste festival que pretendeu (será que pretende ainda?) ser algo emblemático da nossa cidade, os comentários que se ouvem são de “tapar os ouvidos”! Até pode ir nisso algum exagero e se pensar que quem conta um conto, lhe acrescenta um ponto. De qualquer forma, escute-se o que por aí se diz sobre a noite ou o fim da noite da Gambôa.
Interessante é que não se fala da música, dos grupos que actuaram, se se gostou mais desta ou daquela banda musical; não se fala do bonito fogo de artifício. Ao invés, todos ou quase todos os comentários dão conta da selvajaria de algum público assistente, de garrafadas, de facadas, de pedradas, de corridas ao hospital com feridos e agredidos… enfim, um horror!
Já chega! Já se tornou evidente que para além de ser dentro da cidade, o festival de música da praia de Gambôa, há muito que já devia ter sido retirado de cena, pelo menos do perímetro da cidade da Praia.
É triste ter que falar assim de algo, que devia ser um momento privilegiado para os artistas musicais, as bandas nacionais e estrangeiras, terem oportunidade de estar em palco, de verem o seu produto artístico valorizado, e até puderem também estar mais perto dos seus fãs e de estes os ouvir ao vivo. Mas não, o que fica na memória e o que é contado com maior veemência, não é a qualidade das vozes e das melodias escutadas, isto é, do que se passou no palco, mas sim da violência presenciada no areal da praia.
Não é por acaso que gente prevenida e temerosa, não põe lá os pés
Eu já comungo de há muito, das vozes que já se levantaram e continuam a levantar-se junto da Câmara Municipal da capital (ela própria, creio eu, já se interroga sobre os problemas do festival) a solicitar que se organize, que se aborde e que se estruture esse festival musical de uma forma diferente, pois tal como ele vem sendo realizado, corre o risco de ficar de…triste memória!

Serão rudes as variantes do crioulo de Santiago e do Fogo?...

quinta-feira, 20 de maio de 2010
Claro que não! A sua rudeza ou não, aplicar-se-ia aos seus falantes e nunca à língua!
Peço que me seja relevada este entrada meio abrupta sobre uma matéria que requer, geralmente, imensa cautela porque complexa e delicada. Mas a justificação será dada.
Ora bem, a interrogação do título deste escrito vem a propósito de algo que passo a explicar:
Fui “acordada” numa destas manhãs, (e não era a primeira vez) ainda no seu começo, pelo toque do meu telemóvel que me pareceu particularmente estridente, pois que funcionou como autêntico despertador. Apanho-o para atender. Coloquei o melhor que pude a voz, pois seria também o despertar da minha fala e…atendi. Eis que ouço do outro lado da linha: «A bó é quenha?» (quem és tu?) Assim! Sic! E seco! E eu, estupefacta com esta introdução elocutória, respondi: «faz favor! Bom dia, também se diz; e por outro lado, foi a senhora quem ligou; logo, caberá a si apresentar-se…» Claro que do outro lado, o que ouvi foi o “clique” do desligar do telefone.
Já nem sei o que pensar disto tudo. Fiquei a imaginar que seria bem possível que do outro lado da linha estivesse uma jovem ou não – a voz era feminina – escolarizada até, quem sabe!? Portadora de algum diploma superior…mas que ao mesmo tempo, ignora as mais elementares regras do viver em sociedade. Cometeu logo de entrada algumas «gaffes» quase imperdoáveis a saber: o ter tratado por «bó» ( «tu» em português) alguém que não conhece e nem sabe se mais velha, ou não. Depois a forma de enunciação telefónica só é equiparada em indelicadeza ao igualmente rude (na forma escrita): «Tchumam» (chama-me) indicativo de que alguém nos pede para o chamar – “cortesia” com que uma das operadoras nacionais dos telemóveis nos “brindou” – creio eu que numa imitação à forma inglesa: «call me» esquecendo-se do «please» que também integra o apelativo em inglês: «please call me» e que faz toda a diferença! Costuma-se dizer e isto já é bem antigo, de que os bons exemplos devem vir de cima. Para bom entendedor…
Enfim, imagine-se o «bem-disposta» que fiquei com um despertar deste!

Posto isto em jeito de introdução, retomo a ideia inicial, interrogada no meu título, numa espécie de hipaláge, figura de estilo, em que se verifica um “desajustamento entre a função gramatical e a função lógica das palavras», transferindo os atributos e as características de um semantema para outro semantema que de alguma forma lhe está próximo ou interligado. No caso vertente: a língua e o falante ou vice-versa.
No caso, volto a repetir, o adjectivo: “rude” é atributo do falante e não do veículo de comunicação que utilizou: o crioulo.
De qualquer forma, existem situações entre nós, em que me não é fácil fazer de modo completo e inequívoco, a dissociação entre o falante e a variante que utiliza pois que noto uma certa falta de boas maneiras ou de regras, ou ainda de expressões polidas, nas variantes do crioulo das ilhas do Fogo e de Santiago. Regra geral ignoram normas polidas e mais educadas de introduzir uma questão, de fazer um pedido, enfim, de interpelar. Apenas alguns exemplos.
Vou eu na via pública e ouço: «cantu hora sta?» (que horas são?) ou «fran hora!» Diz-me as horas). “Tout court!” como diz o francês. Isto é, não vem acoplado qualquer coisa como «se faz favor» ou então no final, um: «obrigado».
Outra “prenda linguística” e esta é particularmente audível na minha ilha (Fogo) é aquele comunizante e já irritante «bó» (tu) a torto e a direito, sem olhar a quem, se colega, se mais velho. Convenhamos que é demais! Já não há boas maneiras nestas ilhas? Até crianças quando nos pedem qualquer coisa iniciam o pedido com: «dam...) o que subentende o tratamento por «bó». E podem crer que quando menciono estes parcos exemplos estou a deixar de fora um sem número deles os quais, de tanto, que aqui nem caberiam.
Bem…desabafando é que a gente se entende também. Por hoje fica registado este desabafo.
sábado, 15 de maio de 2010
Caros:
Abel Djassi, Amílcar Tavares (Mica), Aristides, Charlene, Et Garcia, João Branco (e o seu já famoso: Café Margoso), João Carlos Pires Ferreira, MRVADAZ, Nininha, Tchá, Titim, Vektra

Antes de mais as saudações de cibernauta.
Sinto-me em dívida convosco e gostaria de vos agradecer e enviar-vos um “xi – coração” por se terem juntado ao Coral – Vermelho. Fico lisonjeada e feliz!

Um abraço
Ondina