Tenho seguido, há umas semanas, por mero acaso, um diferendo de certa forma interessante, entre um finalista, em fase de estágio dos Complementos de Licenciatura de uma das instituições de ensino superior nacional e as suas orientadoras e supervisoras responsáveis pelos trabalhos finais que lhe conferirão o grau académico perseguido.
Andam as duas partes – de um lado o Formando e do oposto, os Formadores – verdadeiramente de “candeias às avessas” por causa da aceitação e da não-aceitação da existência formalizada do conceito de “Língua literária.”
Ora bem, o diferendo/debate que até podia ser deveras construtivo e interessante, pois que obriga as duas partes a estudarem mais atentamente o assunto e, de caminho abrir pistas a outras reflexões linguísticas/literárias; infelizmente, embora parcialmente, o caso já está a ganhar contornos tais, que o finalista – que me parece aplicado e com uma preocupação que já vai sendo muito rara entre nós, (formadores e formandos) que é o de se argumentar com base em pesquisas feitas, em estudos de autores abalizados na matéria em apreço – já receia uma “reprovação.” A acontecer será de certo modo “revanchista” do ponto de vista dele, porque, e continuo com a opinião dele, apenas por não concordar pontualmente com as professoras orientadoras sobre a não existência de “língua literária” enquanto conceito e registo como nível de Língua.
O que para mim é certo e muito claro, é que não quero e nem devo julgar, ou tomar partido, uma vez que apenas ouvi e escutei as razões de uma das partes.
De qualquer forma, ganhei um “mote” para escrevinhar umas linhas, o que tentarei fazer neste texto breve. Apenas isso. Longe de mim qualquer veleidade extra que não a de acrescentar mais uma opinião que nem sequer foi pedida, e que nem terá qualquer validade decisória. E ainda bem!
Mas vamos por partes que assim será melhor entendido o caso.
De uma maneira geral, entre os especialistas que sobre os níveis da língua arregimentaram conceitos, existe alguma unanimidade. Isto é, uma língua viva possui, e isso pode ser registado em termos da sua oralidade e da sua escrita, diversos níveis de língua, que se agrupam também em variações socioculturais da linguagem e variações geográficas da língua.
É assim que distinguimos numa mesma Língua, o nível corrente, o nível cuidado, o nível familiar e o nível popular. Também se observa nessa mesma língua a existência do calão, da gíria e das variantes regionais. Tomemos para exemplo, a nossa língua portuguesa que pode ser um exemplar perfeito do que se acabou de afirmar.
Fazendo agora um pouco a história da origem destes níveis de língua, a sua “paternidade” é atribuída de forma partilhada, ao “fundador” da Linguística como ciência, o suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913) ao «Círculo Linguístico de Praga» (1930) e a Roman Jakobson notável linguista russo (Moscovo, 1896 - Boston, 1982). Estes mestres históricos, estruturaram a Língua, criaram modelos hoje universais das funções da linguagem e fizeram aproximações entre os domínios da linguística e os da teoria literária. Todos eles fizeram escola, ganharam discípulos teorizadores, dos níveis de língua e das funções da linguagem.
Ora bem, existem também alguns autores que aceitam a conceptualização da chamada “língua literária” apenas como registo escrito, não oral, configurando-a como apresentando: “as características da língua cuidada, mas assume desvios da norma mais arrojados: figuras de estilo e palavras estudadas para criar ambientes emotivos e poéticos.” (fim de transcrição).
É minha opinião que a definição de uma “língua literária” como nível de língua – não como linguagem que a meu ver ela tem cabimento – talvez esteja mais assente, enquanto tese, entre os estilistas brasileiros da língua portuguesa, uma vez que os falantes desta variante da língua portuguesa possuem uma oralidade muito diferenciada e distinta da língua escrita. É muito mais notória a “décalage”, o desnivelamento entre a oralidade e a escrita do português, variante brasileira do que entre a oralidade e a escrita entre nós, falantes do português (euro-africano) em que, por vezes, as fronteiras entre o nível da oralidade e o nível da escrita são bem ténues.
Daí talvez tenha havido entre alguns estudiosos e estilistas da língua, a necessidade do acentuar uma existência de «língua literária» enquanto nível de língua. O que é bem capaz de eventualmente poder enriquecer, porque aumenta as variações, a distinção entre os níveis de língua, mas não deixa de ser “uma abstracção” dado que à linguagem literária concorrem e podem concorrer ao mesmo tempo, vários níveis de língua por ela absorvidos, fundidos, neutralizados e recriados. Consequentemente, pode parecer “redutora” e “limitativa” a existência de “per si” da língua literária enquanto registo autónomo como nível de língua.
Com efeito, na nossa permanente e vital necessidade de comunicação, estamos sempre a usar um nível de língua, ora o familiar, ora o cuidado, ora o corrente, e até mesmo a gíria e/ou o calão, importando apenas o contexto em que nos encontremos, os interlocutores de ocasião e a natureza e o conteúdo do assunto a tratar.
Por vezes, nos nossos actos elocutórios, em que, a “linguagem pensa o discurso e articula a fala” – que me seja permitida esta espécie também de abstracção aparentemente confusa – juntam-se num mesmo acto elocutório, o nível cuidado (culto) e o nível corrente (informativo) da língua. Imagine-se, por exemplo, o cenário de uma conferência, ou de um debate científico, entre outros, em que o rigor do pensamento e a formulação das ideias são chamados a par. Nestes casos usamos mais do que um registo da língua veiculada e com alguma ênfase no nível cuidado, na língua culta que acabam por ser sinónimos e que engloba também a linguagem científica e técnica.
Por outro lado, se se está perante um texto literário – prosa ou poesia – está-se perante um consciente “desvio” de tudo isto na perspectiva de uma linguagem criativa, original, simbólica perfigurativa, artística e poética, sem perder os limites, por vezes em última instância, da linguagem comunicativa. Por isso é que se fala em “literariedade” de um texto enquanto ficcional, poético e fundamentalmente criativo e estilístico.
E o texto literário é, por vezes, um ponto de chegada, uma convergência reelaborada, transformada, em que se encontram os vários registos dos níveis de língua, da cuidada à popular, passando pela familiar, pela gíria, numa perfeita simbiose distintiva em contexto, ora nas falas das personagens socioculturalmente distintas, ora nos descritivos do narrador e/ou no expressar emotivo do sujeito poético.
Eu fico-me – falando o nível corrente da língua – pela suposição de que existe em grau acentuado, alguma existência virtual e não verificável – enquanto nível de língua – da chamada “língua literária” sobretudo se agrupada aos níveis já aqui referidos. Mas é apenas a minha opinião.
Voltando ao início deste escrito, espero e faço votos sinceros de que o diferendo entre o estagiário e as supervisoras, responsáveis pela finalização do seu percurso académico, seja bem resolvido, com bom senso, com abertura na análise dos pontos de vista de cada lado e que haja uma discussão paritária com aceitação e compreensão na divergência de opiniões divergentes. Pelo contrário, não desejaria que o assunto fosse resolvido transmitindo algum sinal, alguma suspeição de que a solução esteve do lado da “força” de quem tem (?) a superioridade conferida do alto do estrado da sala de aula, ou da irreverência por se ter acesso a variadas informações hoje disponibilizadas pelas novas tecnologias de informação.
Finalizo reiterando o desejo que neste caso, impere a abertura intelectual e o saber, mas um saber baseado numa argumentação séria e honesta conferida através do estudo e da pesquisa sobre a matéria.
Camões e a lírica do Amor
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Estou convicta de que não é tarefa fácil falar de Camões e da sua lírica amorosa, pois que, se há campo poético em que ele mais se agigantou, e que quase faz unanimidade entre os seus críticos e estudiosos de maior peso, foi exactamente no campo do amor. Com efeito, foi através da temática do Amor que Camões melhor exercitou a sua pena.
E convém explicitar, acrescentando desde logo que, sobre essa temática – a do amor – tudo ou, quase tudo outros maiores já se pronunciaram sobre Camões “escalpelizando-lhe” os versos. Que me seja permitida esta imagem que pretendeu significar as análises literárias, sociológicas e históricas, algumas de indiscutível valor já feitas ao longo de séculos sobre a poesia de Camões, na parte em que versa o Amor.
Logo, abordar a sua imensa poesia amorosa feita em mil poemas de que se destacam os versos sob forma de sonetos, de redondilhas, de esparsas, de cantigas, de canção, de epigramas, de elegias, de odes, éclogas…eu sei lá! Abordá-la, dizia eu, constitui sempre uma enorme temeridade de que em consciência e perante vós, gostaria de dizer que dos seus versos me aproximo sempre em reverente e maravilhada postura pois que são verdadeiras filigranas, daquele que é considerado um dos gigantes de todos os tempos da poesia feita em língua portuguesa, Luís de Camões.
Mas vamos por partes, e comecemos por uma breve cronologia da vida de Luís Vaz de Camões.
Nasceu em Lisboa, em 1524 ou 1525 (o ano e o local do seu nascimento dividem os seus biógrafos) de qualquer forma a cidade de Lisboa é-lhe dada com maior frequência como terra natal. Cedo fica órfão de pai morto em combate. Criado pela mãe, descendente de família fidalga, embora arruinada, assim o afirmam muitos dos registos biográficos do poeta, e mais, dizem que Camões estudou humanidades, letras clássicas graças a um tio materno que era Chanceler da Universidade de Coimbra e que teria descoberto a superior inteligência e muita curiosidade por saciar do sobrinho, ainda criança. Da sua vida jovem, passada na cidade de Lisboa, para além de compor poemas e até os compor a pedido de outros, ele fez poesia por encomenda para assim angariar alguma subsistência; destaca-se a sua faceta de soldado, aventureiro; de vida boémia e um pouco marginal das noites dos bares de bairros de rixas frequentes; de jovem de brigas, e de duelos por amor, por ciúmes e por rivalidades várias e de ter conhecido a prisão, algumas vezes por causa disso. Conhece por um lado, alguma fama de bom poeta ainda muito jovem e em Lisboa, mas por outro lado, não chega a ser convidado para poeta do rei, dado a “má fama” em termos de comportamento social rebelde de que gozava entre os fidalgos da Corte portuguesa.
A primeira expedição militar e guerreira foi feita em Ceuta, Marrocos, onde perde um olho.
Mais tarde, e como parte de uma pena que lhe fora comutada, embarca para a Índia, como soldado, numa das naus que na época quinhentista partiam com regularidade de Lisboa para o Oriente.
Ora, é no Oriente – onde permaneceu largos anos fundamentalmente na Índia (Goa e Malabar) e na China, em Macau, onde exerceu alguns cargos e onde numa gruta, a célebre gruta de Camões em Macau, hoje, ponto de visita obrigatória da cidade, ele escreveu grande parte da sua obra.
Com efeito, foi no Oriente que ele redigiu o livro, considerado o maior entre as suas obras, “Os Lusíadas” cujos versos são considerados de inimitável valor épico até então, realizados na Literatura portuguesa. Os Lusíadas constituem-se como um louvor aos Descobrimentos e aos feitos levados a cabo, pelos portugueses, com destaque para os feitos acontecidos nos séculos XV e XVI. Organizado em 10 cantos, o livro descreve em verso a viagem de Vasco da Gama, na descoberta do caminho marítimo para a Índia. Desde a partida de Lisboa, das aventuras, naufrágios, lutas, doenças e mortes até à chegada ao porto de destino (Calecut) em 1498. Os Lusíadas revelam de forma soberba o saber renascentista de que Camões é um expoente acabado pois o poeta inscreve neles o seu imenso saber sobre a História portuguesa e a universal, sobre a ciência náutica, sobre a mitologia clássica greco / latina, sobre os fenómenos naturais, marítimos, astronómicos, climáticos, entre outros. Claro que na obra existe também a imitação de um grande mestre clássico, no caso de Virgílio (séc. I A. C.) poeta latino, e da sua obra a “Eneida”. Imitação no sentido clássico. Camões terá tomado de Virgílio os moldes e o formato para sua obra épica. Aliás, essa imitação era tida como positiva, pedagógica e formativa do poeta renascentista.
Ora Camões escreveu muito, de tal maneira o fez, que disso tem perfeita consciência quando num dos seus conhecidos versos disse: “numa mão trago a espada, (aludindo à vida de soldado e da defesa pessoal) noutra mão trago sempre a pena” significando a produção dos seus poemas. É também no Oriente que ele experimenta a dureza da vida, passando por miséria, perseguições, naufrágios, aflições e tormentos, de vária ordem. De tudo isto, Camões dará conta nos seus versos os quais ele próprio classifica como sendo escritos: “cum saber só de experiência feito”( do Canto IV dos Lusíadas), A fala do Velho do Restelo, funciona aliás, um pouco como o alter-ego do poeta no relato das desgraças e dos infortúnios que esperam os que partem na aventura do além-mar. Aventuras e experiências dramáticas foram a própria vida de Luís de Camões no Oriente.
Regressa a Lisboa, acompanhado de um escravo javanês, o jovem Jau. Em Lisboa apresenta Os Lusíadas, lendo-os ao rei D. Sebastião que como reconhecimento lhe promete uma pensão pecuniária que o sustentaria mas que infelizmente dela pouco usufruiu, uma vez que o rei partiu logo de seguida para a célebre batalha de Alcácer-Quibir, no norte de Africa, onde perdeu a vida.
Camões vive os seus últimos anos com muita penúria e não menos dificuldades em angariar o seu sustento. Conta-se que ele sobrevivia, graças à dedicação do seu escravo Jau, que pedia esmolas para o grande poeta, nas ruas e às portas das casas de Lisboa.
Entremos agora na parte que constitui o tema que aqui trago que é Camões o lírico do Amor.
Convido-vos para juntos seguirmos alguns momentos bem significativos, ainda que a infinitésima parte, da grande viagem amorosa de Camões expressa através de alguns sonetos. Diz ele que a desdita nessa matéria cedo começou e não mais o deixou, aliás o poeta diz-nos que três desígnios lhe configuraram a vida, a saber: “Erros, Má Fortuna e Amor Ardente” quando ele afinal, apenas queria o Amor.
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
Para falar sobre o amor, com conhecimento de causa, o poeta revela o entendimento que disso tem; entendimento esse, feito de longa e continuada experiência; logo, conhece o sentimento profundamente. Conhece-o tão completamente que é capaz de o descrever e de o definir nos contrastes, nos paradoxos e nas antíteses mais subtis que o mesmo sentimento pode provocar no ser humano:
«Amor é um fogo que arde sem se ver;/É ferida que dói, e não se sente;/É um contentamento descontente;/É dor que desatina sem doer.//É um não querer mais que bem querer;/É um andar solitário entre a gente;/É nunca contentar-se e contente;/É um cuidar que ganha em se perder;//É querer estar preso por vontade;/É servir a quem vence, o vencedor;/É ter com quem nos mata, lealdade.//Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade,/Se tão contrário a si é o mesmo Amor?»
Mas mesmo assim, ele tem uma proposta que faz à vida. Aliás, para sermos mais correctos trata-se mais do que simples proposta, é uma promessa, um juramento: o de cantar o Amor, não só para ele, mas como algo que o transcenderá pois que é pertença de todos. Fá-lo, dando o seu exemplo, através do seu caso particular de amor não correspondido e cantando a beleza da amada.
Camões fez também do Amor um templo de perfeição, um ponto de chegada à Beleza espiritual, muito na linha renascentista e no caso dele também «bebido» no cancioneiro medieval:
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia, e pena, ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e arte.
Mas o Amor não foi brando, nem generoso com o poeta. Entregou-o à má sorte, ao destino. Fê-lo sofrer e passar por mil tormentos, chegando ao ponto de, já não havendo mais como torturá-lo, permitir que a Fortuna inventasse outros tantos sofrimentos expressamente para ele:
Depois que quis Amor que eu só passasse
Quanto mal já por muitos repartiu,
Entregou-me à Fortuna, porque viu
Que não tinha mais mal que em mim mostrasse.
Ela, porque do Amor se avantajasse
Na pena a que ele só me reduziu,
O que para ninguém se consentiu,
Para mim consentiu que se inventasse.
Eis-me aqui vou com vário som gritando,
Copioso exemplário para a gente
Que destes dois tiranos é sujeita;
Desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
Que deste tão pequeno está contente!
Vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
Parece-me que estava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
Que era o contentamento vergonhoso,
Só por ver que coisa era viver ledo.
Mas minha Estrela, que eu já agora entendo,
A Morte cega, e o Caso duvidoso
Me fizeram de gostos haver medo
Apesar disto, ele não se afaste do Amor e nem desiste de amar, apesar de tudo louva-o embora reconheça a sua inconstância em questões de fidelidade e de juras de amor…Em várias flamas variamente ardia” (de muitas paixões simultâneas e diferentes se constituiu a vida do poeta/ amante)
No tempo que de amor viver soía,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes agora livre, agora atado,
Em várias flamas variamente ardia.
Que ardesse n’um só fogo não queria
O Céu porque tivesse experimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.
E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co’o peso descansou
Por tornar a cansar com mais alento.
Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu tão cansado sofrimento!
E volta o poeta numa espécie de cantiga de Amor a revelar a tormenta por que passa por causa do Amor que não cessa de o maltratar ao provocar-lhe diferentes e desencontrados estados de alma e levando-o quase ao desvario insano aparentemente sem causa mas de tal estado ele tem uma suspeita: “…suspeito que só porque vos vi, minha senhora.”
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Num’ hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um’ hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Nessa linha, tal é o “desvario” provocado pelo seu estado de enamorado que o poeta fica com uma espécie de “ressaca” de amor na alma que nem ele próprio a entende. Eis os versos que no-lo dizem:
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
O Amor é por vezes em Camões comparado ao mar bravio de ondas indomáveis e de iminente naufrágio a que não escapará o mais valente marinheiro, mas uma tormenta da qual ele sobreviverá, jurando embora que de novo, o oceano não o apanhará e que irá para o sossego em terra. Fatalmente para o mar voltará ainda que dele tendo medo:
Como quando do mar tempestuoso
O marinheiro todo trabalhado,
De um naufrágio cruel saindo a nado,
Só de ouvir falar nele está medroso;
Firme jura que o vê-lo bonançoso
Do seu lar o não tire sossegado;
Mas esquecido já do horror passado,
Dele a fiar se torna cobiçoso;
Assi, Senhora, eu que da tormenta
De vossa vista fujo, por salvar-me,
Jurando de não mais em outra ver-me;
Com a alma que de vós nunca se ausenta,
Me torno, por cobiça de ganhar-me,
Onde estive tão perto de perder-me.
A força do Amor é de tal monta que já não se contenta com dois sujeitos em que um ama e o outro é amado. Não, para ser Amor na plenitude deve o “amador transformar-se na coisa amada” Um só ser aninhando os dois amantes. Desta forma talvez cessem o desejo e as outras inerências de natureza carnal/material do amor, com a transmutação dessa parte da amada – intuída na obsessão dele que a ama – para o espírito do amador.
De novo a herança do cancioneiro e das cantigas de amor do antigo trovador. Igualmente, esta composição poética possui na sua configuração e dentro da temática camoniana do amor, o intertexto clássico de uma certa postura do amador perante a endeusada amada.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Este sentimento (o Amor) que o poeta, como poucos, soube retratar, é por vezes uma longa provação. Assemelha-se a uma quase expiação a que o amador tem de se sujeitar para merecer e ter finalmente a recompensa almejada. Mas mesmo sofrido o “calvário” por amor, é-lhe negada a recompensa que o seu sentimento pretendia e a expiação volta ao início por vontade de quem ama. Assim se expressa o poeta no soneto que a seguir se apresenta e que vai buscar no texto bíblico o mote que o emoldura:
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prémio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: − Mais servira, senão fora
Para tão longo amor tão curta a vida
A vida amorosa de Camões encontra-se abundantemente documentada pelos seus inúmeros biógrafos e pressentida grande parte dela, através dos poemas que o poeta legou. Amou muitas mulheres/musas dos seus versos. Assim foi o caso da Bárbara, segundo alguns biógrafos, a companheira dele no Oriente e que terá perecido no naufrágio em que Camões se salvou e salvou também os manuscritos dos Lusíadas.
«Endechas a Bárbara escrava/Aquela cativa,/que me tem cativo,/porque nela vivo/já não quer que viva.//Eu nunca vi rosa/que em suaves molhos,/que para meus olhos/fosse mais fermosa.// Nem no campo flores,/nem no céu estrelas,/me parecem belas/como os meus amores.//Rosto singular,/olhos sossegados,/pretos e cansados,/mas não de matar.// üa graça viva/que neles lhe mora,/para ser senhora/de quem é cativa.//Pretos os cabelos,/onde o povo vão/perde opiniãoque os louros são belos.// Pretidão de Amor,/tão doce a figura,/que a neve lhe jura/que trocara a cor.//Leda mansidão/que o siso acompanha:/bem parece estranha,/mas bárbara não.// Presença serena/que a tormenta amansa:/nela enfim descansa/toda a minha pena./Esta é a cativa/que me tem cativo,/e, pois nela vivo,"é força que viva.»
Conta-se que quando ela morreu teria o poeta em sua memória composto o célebre soneto que é dos versos de Camões dos mais conhecidos:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
O que restou afinal para o Poeta do grande Amor perdido? Diz-nos que são memórias que o têm perseguido «do doce bem passado e mal presente»:
Se quando vos perdi, minha esperança,
A memória perdera juntamente
Do doce bem passado e mal presente,
Pouco sentira a dor de tal mudança.
Mas Amor, em quem tinha confiança,
Me representa mui miudamente
Quantas vezes me vi ledo e contente,
Por me tirar a vida esta lembrança.
De cousas de que apenas um sinal
Havia, porque as dei ao esquecimento,
Me vejo com memórias perseguido.
Ah dura estrela minha! Ah grão tormento
Que mal pode ser mor, que no meu mal
Ter lembranças do bem que é já passado?
A demanda do Amor torna-se cada vez mais penosa para o Poeta. Ele visitou o templo do Amor, dizem-no os seus versos: «Amor co’a esperança já perdida teu soberano templo visitei (…)»
Mas agora não resta muito tempo, a idade avança e a experiência desengana.
Minguando a idade vai, crescendo o dano;
Perdeu-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
De vista se me perde, e da esperança.
Finalmente Camões resume o que foi a vida dele num verso lapidar e exemplar e que nos interpela:
«Este meu breve e vão discurso humano!»
Camões morreu a 10 de Junho de 1580 aos 56 anos de idade, pobre e doente. Um dos seus últimos poemas dizem-no amaldiçoando a sua vinda ao mundo e nele deixa gravado também, como se percebeu a si próprio:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar;
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu.
Para finalizar direi que tal como ele antes dissera em versos acerca daqueles que ficam para além da morte através das suas criações e legados, também ele próprio (grande e acabado poeta) se integra totalmente nesses seus versos: “e aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando” … Portanto, Camões permanece entre aqueles cujas obras ficam na memória dos Homens.
E convém explicitar, acrescentando desde logo que, sobre essa temática – a do amor – tudo ou, quase tudo outros maiores já se pronunciaram sobre Camões “escalpelizando-lhe” os versos. Que me seja permitida esta imagem que pretendeu significar as análises literárias, sociológicas e históricas, algumas de indiscutível valor já feitas ao longo de séculos sobre a poesia de Camões, na parte em que versa o Amor.
Logo, abordar a sua imensa poesia amorosa feita em mil poemas de que se destacam os versos sob forma de sonetos, de redondilhas, de esparsas, de cantigas, de canção, de epigramas, de elegias, de odes, éclogas…eu sei lá! Abordá-la, dizia eu, constitui sempre uma enorme temeridade de que em consciência e perante vós, gostaria de dizer que dos seus versos me aproximo sempre em reverente e maravilhada postura pois que são verdadeiras filigranas, daquele que é considerado um dos gigantes de todos os tempos da poesia feita em língua portuguesa, Luís de Camões.
Mas vamos por partes, e comecemos por uma breve cronologia da vida de Luís Vaz de Camões.
Nasceu em Lisboa, em 1524 ou 1525 (o ano e o local do seu nascimento dividem os seus biógrafos) de qualquer forma a cidade de Lisboa é-lhe dada com maior frequência como terra natal. Cedo fica órfão de pai morto em combate. Criado pela mãe, descendente de família fidalga, embora arruinada, assim o afirmam muitos dos registos biográficos do poeta, e mais, dizem que Camões estudou humanidades, letras clássicas graças a um tio materno que era Chanceler da Universidade de Coimbra e que teria descoberto a superior inteligência e muita curiosidade por saciar do sobrinho, ainda criança. Da sua vida jovem, passada na cidade de Lisboa, para além de compor poemas e até os compor a pedido de outros, ele fez poesia por encomenda para assim angariar alguma subsistência; destaca-se a sua faceta de soldado, aventureiro; de vida boémia e um pouco marginal das noites dos bares de bairros de rixas frequentes; de jovem de brigas, e de duelos por amor, por ciúmes e por rivalidades várias e de ter conhecido a prisão, algumas vezes por causa disso. Conhece por um lado, alguma fama de bom poeta ainda muito jovem e em Lisboa, mas por outro lado, não chega a ser convidado para poeta do rei, dado a “má fama” em termos de comportamento social rebelde de que gozava entre os fidalgos da Corte portuguesa.
A primeira expedição militar e guerreira foi feita em Ceuta, Marrocos, onde perde um olho.
Mais tarde, e como parte de uma pena que lhe fora comutada, embarca para a Índia, como soldado, numa das naus que na época quinhentista partiam com regularidade de Lisboa para o Oriente.
Ora, é no Oriente – onde permaneceu largos anos fundamentalmente na Índia (Goa e Malabar) e na China, em Macau, onde exerceu alguns cargos e onde numa gruta, a célebre gruta de Camões em Macau, hoje, ponto de visita obrigatória da cidade, ele escreveu grande parte da sua obra.
Com efeito, foi no Oriente que ele redigiu o livro, considerado o maior entre as suas obras, “Os Lusíadas” cujos versos são considerados de inimitável valor épico até então, realizados na Literatura portuguesa. Os Lusíadas constituem-se como um louvor aos Descobrimentos e aos feitos levados a cabo, pelos portugueses, com destaque para os feitos acontecidos nos séculos XV e XVI. Organizado em 10 cantos, o livro descreve em verso a viagem de Vasco da Gama, na descoberta do caminho marítimo para a Índia. Desde a partida de Lisboa, das aventuras, naufrágios, lutas, doenças e mortes até à chegada ao porto de destino (Calecut) em 1498. Os Lusíadas revelam de forma soberba o saber renascentista de que Camões é um expoente acabado pois o poeta inscreve neles o seu imenso saber sobre a História portuguesa e a universal, sobre a ciência náutica, sobre a mitologia clássica greco / latina, sobre os fenómenos naturais, marítimos, astronómicos, climáticos, entre outros. Claro que na obra existe também a imitação de um grande mestre clássico, no caso de Virgílio (séc. I A. C.) poeta latino, e da sua obra a “Eneida”. Imitação no sentido clássico. Camões terá tomado de Virgílio os moldes e o formato para sua obra épica. Aliás, essa imitação era tida como positiva, pedagógica e formativa do poeta renascentista.
Ora Camões escreveu muito, de tal maneira o fez, que disso tem perfeita consciência quando num dos seus conhecidos versos disse: “numa mão trago a espada, (aludindo à vida de soldado e da defesa pessoal) noutra mão trago sempre a pena” significando a produção dos seus poemas. É também no Oriente que ele experimenta a dureza da vida, passando por miséria, perseguições, naufrágios, aflições e tormentos, de vária ordem. De tudo isto, Camões dará conta nos seus versos os quais ele próprio classifica como sendo escritos: “cum saber só de experiência feito”( do Canto IV dos Lusíadas), A fala do Velho do Restelo, funciona aliás, um pouco como o alter-ego do poeta no relato das desgraças e dos infortúnios que esperam os que partem na aventura do além-mar. Aventuras e experiências dramáticas foram a própria vida de Luís de Camões no Oriente.
Regressa a Lisboa, acompanhado de um escravo javanês, o jovem Jau. Em Lisboa apresenta Os Lusíadas, lendo-os ao rei D. Sebastião que como reconhecimento lhe promete uma pensão pecuniária que o sustentaria mas que infelizmente dela pouco usufruiu, uma vez que o rei partiu logo de seguida para a célebre batalha de Alcácer-Quibir, no norte de Africa, onde perdeu a vida.
Camões vive os seus últimos anos com muita penúria e não menos dificuldades em angariar o seu sustento. Conta-se que ele sobrevivia, graças à dedicação do seu escravo Jau, que pedia esmolas para o grande poeta, nas ruas e às portas das casas de Lisboa.
Entremos agora na parte que constitui o tema que aqui trago que é Camões o lírico do Amor.
Convido-vos para juntos seguirmos alguns momentos bem significativos, ainda que a infinitésima parte, da grande viagem amorosa de Camões expressa através de alguns sonetos. Diz ele que a desdita nessa matéria cedo começou e não mais o deixou, aliás o poeta diz-nos que três desígnios lhe configuraram a vida, a saber: “Erros, Má Fortuna e Amor Ardente” quando ele afinal, apenas queria o Amor.
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
Para falar sobre o amor, com conhecimento de causa, o poeta revela o entendimento que disso tem; entendimento esse, feito de longa e continuada experiência; logo, conhece o sentimento profundamente. Conhece-o tão completamente que é capaz de o descrever e de o definir nos contrastes, nos paradoxos e nas antíteses mais subtis que o mesmo sentimento pode provocar no ser humano:
«Amor é um fogo que arde sem se ver;/É ferida que dói, e não se sente;/É um contentamento descontente;/É dor que desatina sem doer.//É um não querer mais que bem querer;/É um andar solitário entre a gente;/É nunca contentar-se e contente;/É um cuidar que ganha em se perder;//É querer estar preso por vontade;/É servir a quem vence, o vencedor;/É ter com quem nos mata, lealdade.//Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade,/Se tão contrário a si é o mesmo Amor?»
Mas mesmo assim, ele tem uma proposta que faz à vida. Aliás, para sermos mais correctos trata-se mais do que simples proposta, é uma promessa, um juramento: o de cantar o Amor, não só para ele, mas como algo que o transcenderá pois que é pertença de todos. Fá-lo, dando o seu exemplo, através do seu caso particular de amor não correspondido e cantando a beleza da amada.
Camões fez também do Amor um templo de perfeição, um ponto de chegada à Beleza espiritual, muito na linha renascentista e no caso dele também «bebido» no cancioneiro medieval:
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia, e pena, ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e arte.
Mas o Amor não foi brando, nem generoso com o poeta. Entregou-o à má sorte, ao destino. Fê-lo sofrer e passar por mil tormentos, chegando ao ponto de, já não havendo mais como torturá-lo, permitir que a Fortuna inventasse outros tantos sofrimentos expressamente para ele:
Depois que quis Amor que eu só passasse
Quanto mal já por muitos repartiu,
Entregou-me à Fortuna, porque viu
Que não tinha mais mal que em mim mostrasse.
Ela, porque do Amor se avantajasse
Na pena a que ele só me reduziu,
O que para ninguém se consentiu,
Para mim consentiu que se inventasse.
Eis-me aqui vou com vário som gritando,
Copioso exemplário para a gente
Que destes dois tiranos é sujeita;
Desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
Que deste tão pequeno está contente!
Vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
Parece-me que estava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
Que era o contentamento vergonhoso,
Só por ver que coisa era viver ledo.
Mas minha Estrela, que eu já agora entendo,
A Morte cega, e o Caso duvidoso
Me fizeram de gostos haver medo
Apesar disto, ele não se afaste do Amor e nem desiste de amar, apesar de tudo louva-o embora reconheça a sua inconstância em questões de fidelidade e de juras de amor…Em várias flamas variamente ardia” (de muitas paixões simultâneas e diferentes se constituiu a vida do poeta/ amante)
No tempo que de amor viver soía,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes agora livre, agora atado,
Em várias flamas variamente ardia.
Que ardesse n’um só fogo não queria
O Céu porque tivesse experimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.
E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co’o peso descansou
Por tornar a cansar com mais alento.
Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu tão cansado sofrimento!
E volta o poeta numa espécie de cantiga de Amor a revelar a tormenta por que passa por causa do Amor que não cessa de o maltratar ao provocar-lhe diferentes e desencontrados estados de alma e levando-o quase ao desvario insano aparentemente sem causa mas de tal estado ele tem uma suspeita: “…suspeito que só porque vos vi, minha senhora.”
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Num’ hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um’ hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Nessa linha, tal é o “desvario” provocado pelo seu estado de enamorado que o poeta fica com uma espécie de “ressaca” de amor na alma que nem ele próprio a entende. Eis os versos que no-lo dizem:
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
O Amor é por vezes em Camões comparado ao mar bravio de ondas indomáveis e de iminente naufrágio a que não escapará o mais valente marinheiro, mas uma tormenta da qual ele sobreviverá, jurando embora que de novo, o oceano não o apanhará e que irá para o sossego em terra. Fatalmente para o mar voltará ainda que dele tendo medo:
Como quando do mar tempestuoso
O marinheiro todo trabalhado,
De um naufrágio cruel saindo a nado,
Só de ouvir falar nele está medroso;
Firme jura que o vê-lo bonançoso
Do seu lar o não tire sossegado;
Mas esquecido já do horror passado,
Dele a fiar se torna cobiçoso;
Assi, Senhora, eu que da tormenta
De vossa vista fujo, por salvar-me,
Jurando de não mais em outra ver-me;
Com a alma que de vós nunca se ausenta,
Me torno, por cobiça de ganhar-me,
Onde estive tão perto de perder-me.
A força do Amor é de tal monta que já não se contenta com dois sujeitos em que um ama e o outro é amado. Não, para ser Amor na plenitude deve o “amador transformar-se na coisa amada” Um só ser aninhando os dois amantes. Desta forma talvez cessem o desejo e as outras inerências de natureza carnal/material do amor, com a transmutação dessa parte da amada – intuída na obsessão dele que a ama – para o espírito do amador.
De novo a herança do cancioneiro e das cantigas de amor do antigo trovador. Igualmente, esta composição poética possui na sua configuração e dentro da temática camoniana do amor, o intertexto clássico de uma certa postura do amador perante a endeusada amada.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Este sentimento (o Amor) que o poeta, como poucos, soube retratar, é por vezes uma longa provação. Assemelha-se a uma quase expiação a que o amador tem de se sujeitar para merecer e ter finalmente a recompensa almejada. Mas mesmo sofrido o “calvário” por amor, é-lhe negada a recompensa que o seu sentimento pretendia e a expiação volta ao início por vontade de quem ama. Assim se expressa o poeta no soneto que a seguir se apresenta e que vai buscar no texto bíblico o mote que o emoldura:
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prémio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: − Mais servira, senão fora
Para tão longo amor tão curta a vida
A vida amorosa de Camões encontra-se abundantemente documentada pelos seus inúmeros biógrafos e pressentida grande parte dela, através dos poemas que o poeta legou. Amou muitas mulheres/musas dos seus versos. Assim foi o caso da Bárbara, segundo alguns biógrafos, a companheira dele no Oriente e que terá perecido no naufrágio em que Camões se salvou e salvou também os manuscritos dos Lusíadas.
«Endechas a Bárbara escrava/Aquela cativa,/que me tem cativo,/porque nela vivo/já não quer que viva.//Eu nunca vi rosa/que em suaves molhos,/que para meus olhos/fosse mais fermosa.// Nem no campo flores,/nem no céu estrelas,/me parecem belas/como os meus amores.//Rosto singular,/olhos sossegados,/pretos e cansados,/mas não de matar.// üa graça viva/que neles lhe mora,/para ser senhora/de quem é cativa.//Pretos os cabelos,/onde o povo vão/perde opiniãoque os louros são belos.// Pretidão de Amor,/tão doce a figura,/que a neve lhe jura/que trocara a cor.//Leda mansidão/que o siso acompanha:/bem parece estranha,/mas bárbara não.// Presença serena/que a tormenta amansa:/nela enfim descansa/toda a minha pena./Esta é a cativa/que me tem cativo,/e, pois nela vivo,"é força que viva.»
Conta-se que quando ela morreu teria o poeta em sua memória composto o célebre soneto que é dos versos de Camões dos mais conhecidos:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
O que restou afinal para o Poeta do grande Amor perdido? Diz-nos que são memórias que o têm perseguido «do doce bem passado e mal presente»:
Se quando vos perdi, minha esperança,
A memória perdera juntamente
Do doce bem passado e mal presente,
Pouco sentira a dor de tal mudança.
Mas Amor, em quem tinha confiança,
Me representa mui miudamente
Quantas vezes me vi ledo e contente,
Por me tirar a vida esta lembrança.
De cousas de que apenas um sinal
Havia, porque as dei ao esquecimento,
Me vejo com memórias perseguido.
Ah dura estrela minha! Ah grão tormento
Que mal pode ser mor, que no meu mal
Ter lembranças do bem que é já passado?
A demanda do Amor torna-se cada vez mais penosa para o Poeta. Ele visitou o templo do Amor, dizem-no os seus versos: «Amor co’a esperança já perdida teu soberano templo visitei (…)»
Mas agora não resta muito tempo, a idade avança e a experiência desengana.
Minguando a idade vai, crescendo o dano;
Perdeu-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
De vista se me perde, e da esperança.
Finalmente Camões resume o que foi a vida dele num verso lapidar e exemplar e que nos interpela:
«Este meu breve e vão discurso humano!»
Camões morreu a 10 de Junho de 1580 aos 56 anos de idade, pobre e doente. Um dos seus últimos poemas dizem-no amaldiçoando a sua vinda ao mundo e nele deixa gravado também, como se percebeu a si próprio:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar;
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu.
Para finalizar direi que tal como ele antes dissera em versos acerca daqueles que ficam para além da morte através das suas criações e legados, também ele próprio (grande e acabado poeta) se integra totalmente nesses seus versos: “e aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando” … Portanto, Camões permanece entre aqueles cujas obras ficam na memória dos Homens.
Mulheres em tempo de guerra...
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Com este título é natural que vários intertextos de outros escritos nos acudam à memória. Mas este particularmente foi-me sugerido pela recente leitura do livro: “ A África no feminino – As Mulheres Portuguesas e a Guerra Colonial” de autoria de Margarida Calafate Ribeiro, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Um ensaio interessante pois que acaba por ser ao mesmo tempo um testemunho em directo de mulheres, que no período compreendido entre 1961 e 1974 – quase todas então nos vinte anos, bem jovens – acompanharam os maridos que então prestavam serviço militar nas três frentes de guerra, Angola, Guiné e Moçambique.
A autora conseguiu reunir um punhado de depoimentos, que parecerão reais e sinceros ao leitor, pois que despidos de qualquer veleidade ou de pose de heroicidade ou similar, mas também sem grandes lamentos. Antes, muito lucidamente, algumas delas lançam um olhar sem preconceito e sem diabolismos sobre esse fenómeno chamado “guerra colonial” que marcou toda uma geração que foi também a minha.
As entrevistadas ou depoentes, falam dos seus medos, dos medos que sentiram pela iminência de perderem os maridos, os irmãos, os amigos, todos militares. Uns de carreira, outros cumprindo o serviço militar obrigatório. Tudo isso numa guerra a que muitos foram forçados a ir e que quase todas afirmam podia ter sido evitada. Jovens mulheres, alegres e confiantes que deixaram o conforto das suas vidas em Lisboa, Porto, Coimbra e outras cidades e terras portuguesas para estarem ao lado dos maridos em locais inóspitos as mais das vezes, pois que nem sempre ficavam em Luanda, Bissau, ou Lourenço Marques. Mas nenhuma, das depoentes, se sentiu automaticamente heroína ou diferente. Embora muitas tivessem ficado marcadas pelo drama da situação, pelo que viveram, ouviram e assistiram do horrendo de uma guerra. E algumas, por causa dela, a guerra, interrogam-se e questionam se hoje seriam as mulheres que são se não tivessem tido este período anormal, numa fase de vida tão bela como é a da juventude.
Possivelmente a autora fez uma selecção para o livro, dos depoimentos ouvidos. Nisso foi muito feliz, pela excelência de alguns deles e que dão ao leitor testemunhos maduros e inteligentes de uma época histórica das mais importantes, se não a mais importante da história recente de Portugal e das suas ex-colónias no século XX.
Como alguém, que me é muito caro, costuma dizer: só quem não fez a guerra é capaz de lhe entoar loas e remata que a guerra não é nenhum passeio romântico. Cometem-se atrocidades e por vezes algum humanismo dos dois lados dos contendores.
Voltando ao livro, a autora, na introdução fala do silêncio que pairou sobre a guerra colonial, uma guerra sobre a qual mal se falava ou então não se falava, pois que era assunto tabu enquadrado num ambiente sem liberdade de expressão. Diz ela que “o silêncio sobre a guerra seria assim uma forma equivalente ao discurso sobre a guerra, ou seja, numa forma de resposta ao trauma um sentido individual e colectivo” e remete o leitor a uma perspectiva metafórica da guerra nas palavras de uma personagem do romance de Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios: “Se ninguém fotografou, nem escreveu, o que aconteceu durante a noite acabou a madrugada – não chegou a existir.”
Interessante e coincidente para mim, ao ler o livro, “África no feminino – As mulheres portuguesas na Guerra Colonial,” veio-me à memória que aqui há algum tempo iniciei um texto, a que dei o título: “Conacry no feminino – Um tempo e várias Histórias.” O texto andou esquecido um ror de tempo. Felizmente que o computador o guardou. Fui relê-lo.
Afinal, também tivemos as nossas mulheres na guerra da independência na Guiné. Muitas não foram só acompanhar os maridos, também muitas delas participaram quase em directo no teatro de guerra.
E se essas mulheres começassem realmente a falar? Sim, as que lutaram também. E se elas começassem a escrever, a (des)confidencializar, a registar as memórias. Enfim, a fazer um pouco da catarses, do muito-dito e do não-dito que lhes carregam as lembranças de um tempo muito marcante, muito complexo e com o seu quê de glorioso e de traumatizante ao mesmo tempo. Seria bem interessante, para a nossa geração e descendentes, conhecer – com verdade e sem “pinças” – tudo aquilo por que algumas delas, passaram durante o tempo vivido em Conacry ao serviço do Paigc, perseguindo um ideal, que na altura era a independência de Cabo Verde, acoplada à da Guiné? Sim, já imaginaram o que seria? Se elas pegassem na pena? …
Alguma estará a fazê-lo? Seria óptimo!
Elas, as tais mulheres, jovens na altura, no meio de muitos outros homens igualmente jovens, num ambiente de guerra, de permanente desconfiança, de muito medo e, quiçá, de algum assédio. Numa proporcionalidade desequilibrada e desconfortável. O que não terão passado? Elas e alguns dos “seus” homens.
E se nos contassem essas memórias? Com verdade e sem preocupações louvaminhas ou de agradar, ou mesmo ainda do “parecer bem” ou do “parecer mal”. Que nos deixassem saber da perspectiva delas face a uma guerra em que foram por ela apanhadas numa determinada conjuntura histórica. Talvez surgisse uma outra face da mesma moeda…
E se de facto alguma decidisse narrar, cronicar e até mesmo historiar o que por lá passou? Alguma coisa mudaria o nosso entendimento da História recente de Cabo Verde? Do seu processo de independência? Dos seus homens? Dos que lá andaram. Alguns, bem formados moralmente, outros, nem tanto…
Todos heróis? Todos santos? Todos imorais? Claro que não!
E se nos falassem dos seus medos, dos seus terrores, de que como era viver entre muitos homens, cada um com a sua virilidade por desfrutar e em tempo de guerra? Se nos contassem também como era viver no meio do mato ou acantonadas, nos arredores de Conacry, no espaço que Sekou Touré permitiu?
De alguns domingos na capital do país que as acolheu, em que não raro aconteciam espectáculos públicos macabros de enforcamentos de intelectuais, de artistas, de políticos cuja única culpa era a de pensarem diferente do Ditador?
Como imaginar, o dia-a-dia desse punhado de mulheres, dos seus trabalhos, dos seus silêncios e das suas dores. Algumas que para lá foram de “motu próprio” por sua vontade e outras – se calhar a maior parte – apenas por terem de acompanhar os maridos, os companheiros? Sim, e se alguma resolvesse escrever sobre isso? Dos temores sentidos quando pairava a eventualidade do seu homem (porque era sobretudo sobre eles que caía o machado directo da guerra) cair em “desgraça” face à estrutura militar e de comando da luta? Como viver o dilema da solidariedade ou do isolamento?
Enfim, seriam sem dúvida histórias de um tempo de guerra e como tal deverão (ou deveriam?) também ser percebidas.
E se alguma a isso se abalançasse? Ora bem, são já passadas três décadas sobre os acontecimentos. As que participaram na guerra na Guiné são hoje, quase todas, respeitáveis avós, mas ainda lúcidas e em boa idade de pôr cá para fora essas memórias de forma mais pensada, mais interiorizada e melhor elaborada, sobretudo sem fingimentos porque hoje desnecessários e sem o afã de agradar ou de desagradar quem quer que seja, apenas com o belo intuito cívico de um depoimento histórico no mais amplo sentido do termo. Talvez tivéssemos belas surpresas… Quem sabe!
Digam-me lá, se não seria interessante termos a perspectiva feminina da luta na Guiné, pela independência da Guiné e de Cabo Verde? Sim, porque manda a verdade que se diga que até agora o que a contraparte masculina já escreveu, pelo menos no que me foi dado ler, não passa de uma história muito colorida, recheada do já esperado que fosse dito e substancialmente prenhe de heróis… Como se aquela guerra tivesse sido algum filme daqueles bem à maneira americana.
Tal como o realizado pelo livro de Margarida Calafate Ribeiro, também projectei em tempos idos, bater à porta de algumas das minhas patrícias que vivenciaram a guerra e pedir-lhes que nos contassem em depoimentos honestos – não estamos à procura de heroínas, com todo o respeito que disso se possa ter – como foi do ponto de vista delas…
Nunca é tarde!...
Nota actualizada – Este texto foi escrito e já publicado há algum tempo. É minha opinião que o assunto não perde actualidade. Daí voltar a editá-lo.
A autora conseguiu reunir um punhado de depoimentos, que parecerão reais e sinceros ao leitor, pois que despidos de qualquer veleidade ou de pose de heroicidade ou similar, mas também sem grandes lamentos. Antes, muito lucidamente, algumas delas lançam um olhar sem preconceito e sem diabolismos sobre esse fenómeno chamado “guerra colonial” que marcou toda uma geração que foi também a minha.
As entrevistadas ou depoentes, falam dos seus medos, dos medos que sentiram pela iminência de perderem os maridos, os irmãos, os amigos, todos militares. Uns de carreira, outros cumprindo o serviço militar obrigatório. Tudo isso numa guerra a que muitos foram forçados a ir e que quase todas afirmam podia ter sido evitada. Jovens mulheres, alegres e confiantes que deixaram o conforto das suas vidas em Lisboa, Porto, Coimbra e outras cidades e terras portuguesas para estarem ao lado dos maridos em locais inóspitos as mais das vezes, pois que nem sempre ficavam em Luanda, Bissau, ou Lourenço Marques. Mas nenhuma, das depoentes, se sentiu automaticamente heroína ou diferente. Embora muitas tivessem ficado marcadas pelo drama da situação, pelo que viveram, ouviram e assistiram do horrendo de uma guerra. E algumas, por causa dela, a guerra, interrogam-se e questionam se hoje seriam as mulheres que são se não tivessem tido este período anormal, numa fase de vida tão bela como é a da juventude.
Possivelmente a autora fez uma selecção para o livro, dos depoimentos ouvidos. Nisso foi muito feliz, pela excelência de alguns deles e que dão ao leitor testemunhos maduros e inteligentes de uma época histórica das mais importantes, se não a mais importante da história recente de Portugal e das suas ex-colónias no século XX.
Como alguém, que me é muito caro, costuma dizer: só quem não fez a guerra é capaz de lhe entoar loas e remata que a guerra não é nenhum passeio romântico. Cometem-se atrocidades e por vezes algum humanismo dos dois lados dos contendores.
Voltando ao livro, a autora, na introdução fala do silêncio que pairou sobre a guerra colonial, uma guerra sobre a qual mal se falava ou então não se falava, pois que era assunto tabu enquadrado num ambiente sem liberdade de expressão. Diz ela que “o silêncio sobre a guerra seria assim uma forma equivalente ao discurso sobre a guerra, ou seja, numa forma de resposta ao trauma um sentido individual e colectivo” e remete o leitor a uma perspectiva metafórica da guerra nas palavras de uma personagem do romance de Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios: “Se ninguém fotografou, nem escreveu, o que aconteceu durante a noite acabou a madrugada – não chegou a existir.”
Interessante e coincidente para mim, ao ler o livro, “África no feminino – As mulheres portuguesas na Guerra Colonial,” veio-me à memória que aqui há algum tempo iniciei um texto, a que dei o título: “Conacry no feminino – Um tempo e várias Histórias.” O texto andou esquecido um ror de tempo. Felizmente que o computador o guardou. Fui relê-lo.
Afinal, também tivemos as nossas mulheres na guerra da independência na Guiné. Muitas não foram só acompanhar os maridos, também muitas delas participaram quase em directo no teatro de guerra.
E se essas mulheres começassem realmente a falar? Sim, as que lutaram também. E se elas começassem a escrever, a (des)confidencializar, a registar as memórias. Enfim, a fazer um pouco da catarses, do muito-dito e do não-dito que lhes carregam as lembranças de um tempo muito marcante, muito complexo e com o seu quê de glorioso e de traumatizante ao mesmo tempo. Seria bem interessante, para a nossa geração e descendentes, conhecer – com verdade e sem “pinças” – tudo aquilo por que algumas delas, passaram durante o tempo vivido em Conacry ao serviço do Paigc, perseguindo um ideal, que na altura era a independência de Cabo Verde, acoplada à da Guiné? Sim, já imaginaram o que seria? Se elas pegassem na pena? …
Alguma estará a fazê-lo? Seria óptimo!
Elas, as tais mulheres, jovens na altura, no meio de muitos outros homens igualmente jovens, num ambiente de guerra, de permanente desconfiança, de muito medo e, quiçá, de algum assédio. Numa proporcionalidade desequilibrada e desconfortável. O que não terão passado? Elas e alguns dos “seus” homens.
E se nos contassem essas memórias? Com verdade e sem preocupações louvaminhas ou de agradar, ou mesmo ainda do “parecer bem” ou do “parecer mal”. Que nos deixassem saber da perspectiva delas face a uma guerra em que foram por ela apanhadas numa determinada conjuntura histórica. Talvez surgisse uma outra face da mesma moeda…
E se de facto alguma decidisse narrar, cronicar e até mesmo historiar o que por lá passou? Alguma coisa mudaria o nosso entendimento da História recente de Cabo Verde? Do seu processo de independência? Dos seus homens? Dos que lá andaram. Alguns, bem formados moralmente, outros, nem tanto…
Todos heróis? Todos santos? Todos imorais? Claro que não!
E se nos falassem dos seus medos, dos seus terrores, de que como era viver entre muitos homens, cada um com a sua virilidade por desfrutar e em tempo de guerra? Se nos contassem também como era viver no meio do mato ou acantonadas, nos arredores de Conacry, no espaço que Sekou Touré permitiu?
De alguns domingos na capital do país que as acolheu, em que não raro aconteciam espectáculos públicos macabros de enforcamentos de intelectuais, de artistas, de políticos cuja única culpa era a de pensarem diferente do Ditador?
Como imaginar, o dia-a-dia desse punhado de mulheres, dos seus trabalhos, dos seus silêncios e das suas dores. Algumas que para lá foram de “motu próprio” por sua vontade e outras – se calhar a maior parte – apenas por terem de acompanhar os maridos, os companheiros? Sim, e se alguma resolvesse escrever sobre isso? Dos temores sentidos quando pairava a eventualidade do seu homem (porque era sobretudo sobre eles que caía o machado directo da guerra) cair em “desgraça” face à estrutura militar e de comando da luta? Como viver o dilema da solidariedade ou do isolamento?
Enfim, seriam sem dúvida histórias de um tempo de guerra e como tal deverão (ou deveriam?) também ser percebidas.
E se alguma a isso se abalançasse? Ora bem, são já passadas três décadas sobre os acontecimentos. As que participaram na guerra na Guiné são hoje, quase todas, respeitáveis avós, mas ainda lúcidas e em boa idade de pôr cá para fora essas memórias de forma mais pensada, mais interiorizada e melhor elaborada, sobretudo sem fingimentos porque hoje desnecessários e sem o afã de agradar ou de desagradar quem quer que seja, apenas com o belo intuito cívico de um depoimento histórico no mais amplo sentido do termo. Talvez tivéssemos belas surpresas… Quem sabe!
Digam-me lá, se não seria interessante termos a perspectiva feminina da luta na Guiné, pela independência da Guiné e de Cabo Verde? Sim, porque manda a verdade que se diga que até agora o que a contraparte masculina já escreveu, pelo menos no que me foi dado ler, não passa de uma história muito colorida, recheada do já esperado que fosse dito e substancialmente prenhe de heróis… Como se aquela guerra tivesse sido algum filme daqueles bem à maneira americana.
Tal como o realizado pelo livro de Margarida Calafate Ribeiro, também projectei em tempos idos, bater à porta de algumas das minhas patrícias que vivenciaram a guerra e pedir-lhes que nos contassem em depoimentos honestos – não estamos à procura de heroínas, com todo o respeito que disso se possa ter – como foi do ponto de vista delas…
Nunca é tarde!...
Nota actualizada – Este texto foi escrito e já publicado há algum tempo. É minha opinião que o assunto não perde actualidade. Daí voltar a editá-lo.
A Peça escolhida...
sábado, 29 de maio de 2010
Vinha eu no carro de regresso à casa com a rádio ligada e ouço uma entrevista feita – nos estúdios de Mindelo da nossa Rádio nacional – a um dirigente de um grupo teatral daquela cidade.
O conteúdo da entrevista focou vários aspectos da vida do grupo teatral, desde as formações e as oficinas de trabalho dramático realizadas, passando pelas peças já apresentadas em palco e indo a algo que escutei com redobrado interesse.
Tratava-se de um comentário feito pelo entrevistador pelo facto de, a peça teatral do grupo, cujo líder estava a ser entrevistado, ter sido escolhida de entre as concorrentes para o grande festival de teatro internacional destinada aos grupos teatrais, creio que dos sete países da CPLP e que este ano teria lugar no Brasil.
Pelo teor da conversa radiodifundida, o critério de participação nesse mesmo festival, distinguia os novos grupos de teatro, eventualmente os mais necessitados de troca de experiências e de pisar outros palcos.
Realçava o Jornalista, como a querer confirmar junto do entrevistado, de que o grupo havia sido escolhido porque apresentara uma peça em língua portuguesa, o que à partida garantia audiência e comunicação internacional, o que possivelmente não fizeram os outros concorrentes.
Corroborou o dirigente teatral, e mais, reiterou as vantagens disso acrescentando que era uma excelente oportunidade sair e poder interagir com grupos congéneres da mesma língua, com maior experiência e visão do mundo do teatro, o que certamente iria acontecer no certame internacional a realizar no Brasil. Só teriam a ganhar, pressupunha ele.
Ora aqui estamos de novo à volta do velho tema: as vantagens do falante cabo-verdiano ter na sua bagagem cultural e linguística a língua portuguesa.
O caso descrito espelha bem a necessidade, diria que urgente, de repor com afinco o uso oral e escrito em português, entre nós. Somos uma comunidade pequena que colhe também no exterior, e isto já vem de séculos, não só o seu ganha-pão, como a experiência do seu saber fazer laboral e artístico, não alienando igualmente a sua criatividade específica.
Dito de outro modo: para que não se “fechem” as ligações com o exterior e para que se alarguem os nossos horizontes de desenvolvimento seria bom que mantivéssemos accionado em permanência, a nossa língua segunda, mantendo-a em bom e em activo estado, tornando-a até língua nacional o que só nos traria vantagens.
Aproveitaria para transcrever o que disse, e bem, alguém (anónimo) comentando o texto publicado neste “Blog” e intitulado: ”Crioulo versus Português.” O comentário focou o Haiti, a dificuldade de comunicação que tiveram os enviados internacionais e estrangeiros para socorrer os haitianos, a quando do enorme sismo que abalou o país recentemente. Passo a transcrever:
«É muito interessante o título do texto "Crioulo versus Português?", quanto mais não seja pela utilização do "versus" para juntar duas línguas íntimas e familiarmente ligadas. Eu apenas me expresso em português, o que lamento, pois o crioulo para além da sua especial sonoridade, possui uma enorme riqueza em termos de expressões idiomáticas que muito caracterizam o relacionamento dos falantes desta língua.
Mas o objectivo do meu comentário é chamar a atenção dos eventuais interessados para o facto que recentemente foi reportado por muitos dos voluntários que socorreram as populações do Haiti, após o terrível terramoto que tantas vítimas causou. É que a generalidade dos voluntários, que eram falantes de inglês, francês, português, italiano, espanhol, etc., referiu ter tido muita dificuldade para entender e se fazer entender pela maioria das vitimas, precisamente por estas apenas se expressarem na sua língua local, o crioulo do Haiti.» (fim de transcrição).
Por ter sido enviado sob anonimato tomei a liberdade de o publicar, obviamente sem qualquer pedido de autorização.
E pensar que num passado recente, o país em questão possuía também o francês como património linguístico e que quase o perderam mercê de uma tomada de posição política que infelizmente não se revelou benéfica para o desenvolvimento da sua comunidade.
Retomando, e para finalizar, acrescentaria que isolarmo-nos linguisticamente seria uma horrível catástrofe para o desenvolvimento da comunidade cabo-verdiana.
O crioulo não pode e nem deve tomar o lugar (da forma como está sendo feito) do português em Cabo Verde.
O conteúdo da entrevista focou vários aspectos da vida do grupo teatral, desde as formações e as oficinas de trabalho dramático realizadas, passando pelas peças já apresentadas em palco e indo a algo que escutei com redobrado interesse.
Tratava-se de um comentário feito pelo entrevistador pelo facto de, a peça teatral do grupo, cujo líder estava a ser entrevistado, ter sido escolhida de entre as concorrentes para o grande festival de teatro internacional destinada aos grupos teatrais, creio que dos sete países da CPLP e que este ano teria lugar no Brasil.
Pelo teor da conversa radiodifundida, o critério de participação nesse mesmo festival, distinguia os novos grupos de teatro, eventualmente os mais necessitados de troca de experiências e de pisar outros palcos.
Realçava o Jornalista, como a querer confirmar junto do entrevistado, de que o grupo havia sido escolhido porque apresentara uma peça em língua portuguesa, o que à partida garantia audiência e comunicação internacional, o que possivelmente não fizeram os outros concorrentes.
Corroborou o dirigente teatral, e mais, reiterou as vantagens disso acrescentando que era uma excelente oportunidade sair e poder interagir com grupos congéneres da mesma língua, com maior experiência e visão do mundo do teatro, o que certamente iria acontecer no certame internacional a realizar no Brasil. Só teriam a ganhar, pressupunha ele.
Ora aqui estamos de novo à volta do velho tema: as vantagens do falante cabo-verdiano ter na sua bagagem cultural e linguística a língua portuguesa.
O caso descrito espelha bem a necessidade, diria que urgente, de repor com afinco o uso oral e escrito em português, entre nós. Somos uma comunidade pequena que colhe também no exterior, e isto já vem de séculos, não só o seu ganha-pão, como a experiência do seu saber fazer laboral e artístico, não alienando igualmente a sua criatividade específica.
Dito de outro modo: para que não se “fechem” as ligações com o exterior e para que se alarguem os nossos horizontes de desenvolvimento seria bom que mantivéssemos accionado em permanência, a nossa língua segunda, mantendo-a em bom e em activo estado, tornando-a até língua nacional o que só nos traria vantagens.
Aproveitaria para transcrever o que disse, e bem, alguém (anónimo) comentando o texto publicado neste “Blog” e intitulado: ”Crioulo versus Português.” O comentário focou o Haiti, a dificuldade de comunicação que tiveram os enviados internacionais e estrangeiros para socorrer os haitianos, a quando do enorme sismo que abalou o país recentemente. Passo a transcrever:
«É muito interessante o título do texto "Crioulo versus Português?", quanto mais não seja pela utilização do "versus" para juntar duas línguas íntimas e familiarmente ligadas. Eu apenas me expresso em português, o que lamento, pois o crioulo para além da sua especial sonoridade, possui uma enorme riqueza em termos de expressões idiomáticas que muito caracterizam o relacionamento dos falantes desta língua.
Mas o objectivo do meu comentário é chamar a atenção dos eventuais interessados para o facto que recentemente foi reportado por muitos dos voluntários que socorreram as populações do Haiti, após o terrível terramoto que tantas vítimas causou. É que a generalidade dos voluntários, que eram falantes de inglês, francês, português, italiano, espanhol, etc., referiu ter tido muita dificuldade para entender e se fazer entender pela maioria das vitimas, precisamente por estas apenas se expressarem na sua língua local, o crioulo do Haiti.» (fim de transcrição).
Por ter sido enviado sob anonimato tomei a liberdade de o publicar, obviamente sem qualquer pedido de autorização.
E pensar que num passado recente, o país em questão possuía também o francês como património linguístico e que quase o perderam mercê de uma tomada de posição política que infelizmente não se revelou benéfica para o desenvolvimento da sua comunidade.
Retomando, e para finalizar, acrescentaria que isolarmo-nos linguisticamente seria uma horrível catástrofe para o desenvolvimento da comunidade cabo-verdiana.
O crioulo não pode e nem deve tomar o lugar (da forma como está sendo feito) do português em Cabo Verde.
Quarenta anos depois...
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Dezembro 2009. A viagem a Lisboa havia sido propositadamente antecipada para pudermos fazer uma comemoração especial, uma vez que aí iríamos passar o Natal com os filhos e os netos
…Quarenta anos depois voltámos ao sítio onde tudo começou para nós. O banco do jardim era ainda o mesmo ou quase, pois que, com mais pinturas, menos pintura pouco o mudaram; manteve a sua traça inicial. O Jardim Botânico também o mesmo no geral, agora com algumas alterações normais após quatro décadas – guarita de segurança, entrada paga e outras benfeitorias, inovações e possivelmente maior diversidade da oferta botânica e da tecnologia de acesso ao visitante. Claro, que tudo isso ainda não existia naquele já longínquo ano de 1969. Mas do resto e em grandes linhas, tudo parecia ter permanecido na mesma para que assim o reconhecêssemos.
Feita esta espécie de “romagem da saudade,” comentámos que tudo era igual, ou quase isso…menos nós os dois, quarenta anos depois de ali termos dito sim, um ao outro e iniciar as etapas para uma vida em comum que já vai em netos…enfim, até parece letra de uma velha canção que trauteávamos na nossa juventude: «A mesma praça /o mesmo banco/ as mesmas flores / e o mesmo Jardim //Tudo é igual!»...
Mas não se trata de lamento, mas sim de uma saudade real e de terna recordação de um tempo ímpar que é a juventude!
Voltando ao presente – de muitos bons momentos também – tirámos algumas fotografias de nós os dois sentados no tal banco no dia do 40º aniversário; para isso, pedimos a um dos escuteiros que orientava um grupo de visita ao Jardim Botânico da velha Faculdade de Ciências de Lisboa na rua Politécnica que fizesse o “clique” da máquina fotográfica que para esse fim havíamos levado connosco. A máquina falhou por falta de energia suficiente; tivemos que nos recorrer ao telemóvel não obstante o escuteiro se ter disponibilizado a fazer a fotografia com a máquina dele e enviar-no-la por “e-mail.” Embora não se tenha revelado necessário, foi um gesto simpático que agradecemos, tendo-lhe passado para as mãos o nosso telemóvel.
Remetidas as fotografias aos filhos, um deles escreveu: “…as fotografias estão lindíssimas. Cá ficamos à espera das dos 50 anos!”
Obrigada! Haja vida e saúde!
…Quarenta anos depois voltámos ao sítio onde tudo começou para nós. O banco do jardim era ainda o mesmo ou quase, pois que, com mais pinturas, menos pintura pouco o mudaram; manteve a sua traça inicial. O Jardim Botânico também o mesmo no geral, agora com algumas alterações normais após quatro décadas – guarita de segurança, entrada paga e outras benfeitorias, inovações e possivelmente maior diversidade da oferta botânica e da tecnologia de acesso ao visitante. Claro, que tudo isso ainda não existia naquele já longínquo ano de 1969. Mas do resto e em grandes linhas, tudo parecia ter permanecido na mesma para que assim o reconhecêssemos.
Feita esta espécie de “romagem da saudade,” comentámos que tudo era igual, ou quase isso…menos nós os dois, quarenta anos depois de ali termos dito sim, um ao outro e iniciar as etapas para uma vida em comum que já vai em netos…enfim, até parece letra de uma velha canção que trauteávamos na nossa juventude: «A mesma praça /o mesmo banco/ as mesmas flores / e o mesmo Jardim //Tudo é igual!»...
Mas não se trata de lamento, mas sim de uma saudade real e de terna recordação de um tempo ímpar que é a juventude!
Voltando ao presente – de muitos bons momentos também – tirámos algumas fotografias de nós os dois sentados no tal banco no dia do 40º aniversário; para isso, pedimos a um dos escuteiros que orientava um grupo de visita ao Jardim Botânico da velha Faculdade de Ciências de Lisboa na rua Politécnica que fizesse o “clique” da máquina fotográfica que para esse fim havíamos levado connosco. A máquina falhou por falta de energia suficiente; tivemos que nos recorrer ao telemóvel não obstante o escuteiro se ter disponibilizado a fazer a fotografia com a máquina dele e enviar-no-la por “e-mail.” Embora não se tenha revelado necessário, foi um gesto simpático que agradecemos, tendo-lhe passado para as mãos o nosso telemóvel.
Remetidas as fotografias aos filhos, um deles escreveu: “…as fotografias estão lindíssimas. Cá ficamos à espera das dos 50 anos!”
Obrigada! Haja vida e saúde!
A poesia de Eugénio Tavares e a questão do «nativismo»
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Resolvi trazer este texto “retirado” do meu projecto de brochura, «Eugénio Tavares, Cantigas e Sonetos – A influência poética de João de Deus e de Antero Quental por se tratar de um tema que vem merecendo uma séria reflexão.
Na realidade, o fundamento do ensaio a publicar incide sobre a intertextualidade e a influência da poesia romântica portuguesa da 3ª fase, conhecida na historiografia literária portuguesa como a “Regeneração,” com especial destaque para João de Deus e Antero de Quental os quais, salvaguardada a originalidade e a criatividade do poeta bravense, nele exerceram uma significativa influência.
Mas o conteúdo deste texto apenas aproveita uma pequena parcela da brochura a editar e que foca num curto parêntesis, a questão do “nativismo” na escrita literária de E. Tavares para observar que o que se pretende hodiernamente e quase à viva força, é ligar – todas ou, quase todas – as influências recebidas pelo nosso poeta bravense ao “Nativismo.” De tal modo, tem sido assim na definição de alguns dos nossos actuais e mais mediáticos intelectuais, talvez influenciados pelo texto jornalístico de amor à terra, em que E. Tavares fala do «Nativismo através da Alma de Mistral».
Creio ter sido apenas neste artigo que E. T. focou o tema do nativismo, ainda que de forma veemente e crente. Daí talvez explicada a razão da classificação de “nativista” ao poeta e compositor, estendendo e ampliando o conceito numa espécie de «cartão de apresentação» dos poetas cabo-verdianos da segunda metade do século XIX, e mesmo para os das primeiras décadas do século XX. Todos são chamados: «nativista». Não vá sem se dizer, que no meio disto, isto é, do mesmo molde generalista se tem feito força para se colocar o nosso helénico, latinista e clássico acabado - o poeta José Lopes. Não será exagero?...
Se E. Tavares foi “nativista” no sentido de amar e de defender as ilhas, disso não tenho dúvidas, mas no que toca ao segundo entendimento do vocábulo nativista que é de “ódio a tudo o que é estrangeiro”, a obra dele nada revelou e o que ressalta é exactamente o contrário, um prolongado abraço afectivo e familiar à sua parte portuguesa e à sua dimensão universal também. Aliás, mais do que o seu texto considerado nativista, E. Tavares expressou e bastas vezes a sua ligação afectiva e cultural a Portugal, por vezes até simbolizada no amor filial exaltado ao pai, natural de Santarém. Na minha modesta opinião, em que não me considero desacompanhada, a pretensão sócio-política mais fortemente enunciada por E. Tavares teria sido a de reivindicar para o cabo-verdiano, iguais direitos e estatuto que tinha o então chamado metropolitano. E isto não quer de forma alguma negar – pois que à época não seria fácil declará-lo – a postura nacionalista de Eugénio Tavares em relação às suas amadas ilhas.
Reafirmo o que antes já dissera: Nunca houve em Cabo Verde uma corrente literária de carácter nativista o que não significa que um ou outro texto não se tivesse aproximado dessa linha.
Uma asserção bem elucidativa sobre este assunto e que trago a meu favor é a que faz Alfredo Margarido no prefácio ao livro de Pedro Cardoso: Folclore de Cabo Verde, uma edição da Solidariedade Cabo-verdiana de Paris e publicada em Lisboa em 1983. Diz Margarido a propósito do nativismo em Cabo Verde que já em 1917: «Luiz Loff de Vasconcelos…salienta que a origem do nativismo deve ir buscar-se ao Brasil, onde traduziu “ uma forma política de reivindicação” dos direitos dos naturais contra os estranhos. O que lhe permite mostrar que o chamado “nativismo cabo-verdiano é uma impropriedade de termo, a que se tem dado um significado moral e político falso, baseando-se em ódio de raça e como manifestação de rebeldia.”(palavras de Luís Loff de Vasconcelos) Esta intervenção procura reduzir a importância real do nativismo, …Mas é evidente que se este aviso à população possui, visto a evolução das migrações cabo-verdianas, um aspecto propriamente profético, a verdade é que ele põe termo a esta questão. Cabo Verde sai do campo perigoso do nativismo, que fica então solidamente ocupado pelos santomenses e pelos angolanos.» Análise e conclusão de Alfredo Margarido e fim da transcrição. O sublinhado e o “negrito” são meus.)
Interessante que mesmo conhecendo esta posição de Luiz Loff de Vasconcelos secundada de forma inequívoca por Alfredo Margarido nestas notas transcritas (Note-se que a tese de Loff de Vasconcelos que já tem quase um século de existência é dirigida à escrita jornalística de época) persistem alguns intelectuais cabo-verdianos no século XXI, em querer manter a classificação com a agravante de a tornar extensiva e englobante para todos os literatos dessa época.
Gostaria de finalizar este escrito, lembrando que quer Eugénio Tavares, quer José Lopes, Pedro Cardoso, Januário Leite e demais poetas cronologicamente próximos, não formaram e nem estiverem inseridos em nenhum grupo ou corrente literária. E nesta matéria, não vale a pena forçar convenções pois que podem deturpar desnecessariamente a historiografia literária cabo-verdiana.
Uni-los sim, nos momentos (raros) em que pessoalmente alguns deles se encontraram e nos poemas que entre eles trocaram em dedicatória mútua.
Poucos se têm lembrado que, tal como nos cantados versos de António Gedeão: «…Cada um é seus caminhos…» assim também sucedeu na forma de versejar e na poesia dos autores cabo-verdianos aqui citados. Cada um foi o seu próprio “caminho” e também a intertextualidade que o influenciou no modo de versejar.
Na realidade, o fundamento do ensaio a publicar incide sobre a intertextualidade e a influência da poesia romântica portuguesa da 3ª fase, conhecida na historiografia literária portuguesa como a “Regeneração,” com especial destaque para João de Deus e Antero de Quental os quais, salvaguardada a originalidade e a criatividade do poeta bravense, nele exerceram uma significativa influência.
Mas o conteúdo deste texto apenas aproveita uma pequena parcela da brochura a editar e que foca num curto parêntesis, a questão do “nativismo” na escrita literária de E. Tavares para observar que o que se pretende hodiernamente e quase à viva força, é ligar – todas ou, quase todas – as influências recebidas pelo nosso poeta bravense ao “Nativismo.” De tal modo, tem sido assim na definição de alguns dos nossos actuais e mais mediáticos intelectuais, talvez influenciados pelo texto jornalístico de amor à terra, em que E. Tavares fala do «Nativismo através da Alma de Mistral».
Creio ter sido apenas neste artigo que E. T. focou o tema do nativismo, ainda que de forma veemente e crente. Daí talvez explicada a razão da classificação de “nativista” ao poeta e compositor, estendendo e ampliando o conceito numa espécie de «cartão de apresentação» dos poetas cabo-verdianos da segunda metade do século XIX, e mesmo para os das primeiras décadas do século XX. Todos são chamados: «nativista». Não vá sem se dizer, que no meio disto, isto é, do mesmo molde generalista se tem feito força para se colocar o nosso helénico, latinista e clássico acabado - o poeta José Lopes. Não será exagero?...
Se E. Tavares foi “nativista” no sentido de amar e de defender as ilhas, disso não tenho dúvidas, mas no que toca ao segundo entendimento do vocábulo nativista que é de “ódio a tudo o que é estrangeiro”, a obra dele nada revelou e o que ressalta é exactamente o contrário, um prolongado abraço afectivo e familiar à sua parte portuguesa e à sua dimensão universal também. Aliás, mais do que o seu texto considerado nativista, E. Tavares expressou e bastas vezes a sua ligação afectiva e cultural a Portugal, por vezes até simbolizada no amor filial exaltado ao pai, natural de Santarém. Na minha modesta opinião, em que não me considero desacompanhada, a pretensão sócio-política mais fortemente enunciada por E. Tavares teria sido a de reivindicar para o cabo-verdiano, iguais direitos e estatuto que tinha o então chamado metropolitano. E isto não quer de forma alguma negar – pois que à época não seria fácil declará-lo – a postura nacionalista de Eugénio Tavares em relação às suas amadas ilhas.
Reafirmo o que antes já dissera: Nunca houve em Cabo Verde uma corrente literária de carácter nativista o que não significa que um ou outro texto não se tivesse aproximado dessa linha.
Uma asserção bem elucidativa sobre este assunto e que trago a meu favor é a que faz Alfredo Margarido no prefácio ao livro de Pedro Cardoso: Folclore de Cabo Verde, uma edição da Solidariedade Cabo-verdiana de Paris e publicada em Lisboa em 1983. Diz Margarido a propósito do nativismo em Cabo Verde que já em 1917: «Luiz Loff de Vasconcelos…salienta que a origem do nativismo deve ir buscar-se ao Brasil, onde traduziu “ uma forma política de reivindicação” dos direitos dos naturais contra os estranhos. O que lhe permite mostrar que o chamado “nativismo cabo-verdiano é uma impropriedade de termo, a que se tem dado um significado moral e político falso, baseando-se em ódio de raça e como manifestação de rebeldia.”(palavras de Luís Loff de Vasconcelos) Esta intervenção procura reduzir a importância real do nativismo, …Mas é evidente que se este aviso à população possui, visto a evolução das migrações cabo-verdianas, um aspecto propriamente profético, a verdade é que ele põe termo a esta questão. Cabo Verde sai do campo perigoso do nativismo, que fica então solidamente ocupado pelos santomenses e pelos angolanos.» Análise e conclusão de Alfredo Margarido e fim da transcrição. O sublinhado e o “negrito” são meus.)
Interessante que mesmo conhecendo esta posição de Luiz Loff de Vasconcelos secundada de forma inequívoca por Alfredo Margarido nestas notas transcritas (Note-se que a tese de Loff de Vasconcelos que já tem quase um século de existência é dirigida à escrita jornalística de época) persistem alguns intelectuais cabo-verdianos no século XXI, em querer manter a classificação com a agravante de a tornar extensiva e englobante para todos os literatos dessa época.
Gostaria de finalizar este escrito, lembrando que quer Eugénio Tavares, quer José Lopes, Pedro Cardoso, Januário Leite e demais poetas cronologicamente próximos, não formaram e nem estiverem inseridos em nenhum grupo ou corrente literária. E nesta matéria, não vale a pena forçar convenções pois que podem deturpar desnecessariamente a historiografia literária cabo-verdiana.
Uni-los sim, nos momentos (raros) em que pessoalmente alguns deles se encontraram e nos poemas que entre eles trocaram em dedicatória mútua.
Poucos se têm lembrado que, tal como nos cantados versos de António Gedeão: «…Cada um é seus caminhos…» assim também sucedeu na forma de versejar e na poesia dos autores cabo-verdianos aqui citados. Cada um foi o seu próprio “caminho” e também a intertextualidade que o influenciou no modo de versejar.
Festival de música ou festival de pancadaria?...
sábado, 22 de maio de 2010
Infelizmente é verdade, ou melhor, já se tornou numa triste realidade a premissa interrogativa do título deste escrito, relativamente ao que se ouve dizer sobre o festival da praia da Gambôa.
Reparem bem: no dia a seguir à primeira noite deste festival que pretendeu (será que pretende ainda?) ser algo emblemático da nossa cidade, os comentários que se ouvem são de “tapar os ouvidos”! Até pode ir nisso algum exagero e se pensar que quem conta um conto, lhe acrescenta um ponto. De qualquer forma, escute-se o que por aí se diz sobre a noite ou o fim da noite da Gambôa.
Interessante é que não se fala da música, dos grupos que actuaram, se se gostou mais desta ou daquela banda musical; não se fala do bonito fogo de artifício. Ao invés, todos ou quase todos os comentários dão conta da selvajaria de algum público assistente, de garrafadas, de facadas, de pedradas, de corridas ao hospital com feridos e agredidos… enfim, um horror!
Já chega! Já se tornou evidente que para além de ser dentro da cidade, o festival de música da praia de Gambôa, há muito que já devia ter sido retirado de cena, pelo menos do perímetro da cidade da Praia.
É triste ter que falar assim de algo, que devia ser um momento privilegiado para os artistas musicais, as bandas nacionais e estrangeiras, terem oportunidade de estar em palco, de verem o seu produto artístico valorizado, e até puderem também estar mais perto dos seus fãs e de estes os ouvir ao vivo. Mas não, o que fica na memória e o que é contado com maior veemência, não é a qualidade das vozes e das melodias escutadas, isto é, do que se passou no palco, mas sim da violência presenciada no areal da praia.
Não é por acaso que gente prevenida e temerosa, não põe lá os pés
Eu já comungo de há muito, das vozes que já se levantaram e continuam a levantar-se junto da Câmara Municipal da capital (ela própria, creio eu, já se interroga sobre os problemas do festival) a solicitar que se organize, que se aborde e que se estruture esse festival musical de uma forma diferente, pois tal como ele vem sendo realizado, corre o risco de ficar de…triste memória!
Reparem bem: no dia a seguir à primeira noite deste festival que pretendeu (será que pretende ainda?) ser algo emblemático da nossa cidade, os comentários que se ouvem são de “tapar os ouvidos”! Até pode ir nisso algum exagero e se pensar que quem conta um conto, lhe acrescenta um ponto. De qualquer forma, escute-se o que por aí se diz sobre a noite ou o fim da noite da Gambôa.
Interessante é que não se fala da música, dos grupos que actuaram, se se gostou mais desta ou daquela banda musical; não se fala do bonito fogo de artifício. Ao invés, todos ou quase todos os comentários dão conta da selvajaria de algum público assistente, de garrafadas, de facadas, de pedradas, de corridas ao hospital com feridos e agredidos… enfim, um horror!
Já chega! Já se tornou evidente que para além de ser dentro da cidade, o festival de música da praia de Gambôa, há muito que já devia ter sido retirado de cena, pelo menos do perímetro da cidade da Praia.
É triste ter que falar assim de algo, que devia ser um momento privilegiado para os artistas musicais, as bandas nacionais e estrangeiras, terem oportunidade de estar em palco, de verem o seu produto artístico valorizado, e até puderem também estar mais perto dos seus fãs e de estes os ouvir ao vivo. Mas não, o que fica na memória e o que é contado com maior veemência, não é a qualidade das vozes e das melodias escutadas, isto é, do que se passou no palco, mas sim da violência presenciada no areal da praia.
Não é por acaso que gente prevenida e temerosa, não põe lá os pés
Eu já comungo de há muito, das vozes que já se levantaram e continuam a levantar-se junto da Câmara Municipal da capital (ela própria, creio eu, já se interroga sobre os problemas do festival) a solicitar que se organize, que se aborde e que se estruture esse festival musical de uma forma diferente, pois tal como ele vem sendo realizado, corre o risco de ficar de…triste memória!