Seria boa ideia pôr algum termo às efabulações criadas em torno da figura de Armand Mont-Rond!...
Sim, é chegada altura de vir ao de cima algum bom senso e pôr termo a tanta efabulação (estou a tentar, através deste eufemismo, manter-me o mais correcta possível!) ouvida e escrita sobre o francês, por sinal meu bisavô, que demandou a ilha do Fogo no último quartel de 1800.
Ora existem alguns pontos que nunca serão de mais esclarecer. Vou tentar enumerá-las:
1 - Ele não deixou “numerosos filhos” Não foram tantos como se pretende fazer crer. Falso. Os seus filhos – que não foram poucos mas também não tão numerosos – é que deixaram muita prole. Como afirmava a minha tia Eugénia, neta do francês. Terá sido o caso da minha avó paterna Maria Clementina Gomes Mont-Rond que teve 10 (dez) filhos; o caso também do meu tio-avô paterno Simiano Mont-Rond ou Montrond, que teve também muitos filhos. Dos outros filhos, confesso que não tenho notícia, possivelmente também eles tiveram descendência. Todos eles multiplicados, pode-se perceber a quantidade de gente que conserva ainda o apelido Montrond.
2 - Armand Mont-Rond nunca viveu na Chã das Caldeiras. Quem para lá se transferiu da (Ribeira Ilhéu ou da Atalaia) foi o filho Simiano Montrond, nos meados do século XX e foi quem veio a marcar a tal inúmera descendência dos Montrond da Chã que ainda hoje distingue a região. O ascendente Armand Mont-Rond viveu em Baluarte, na Achada Matriz ou Achada Mariz como localmente é chamado o local, e circulava entre Atalaia e Ribeira Ilhéu. Também teve moradias em S. Filipe e na Cova Figueira.
3 - Igualmente convém repetir que o nosso gaulês Mont-Rond não introduziu a vinha e nem a produção do vinho no Fogo. Li isso num Guia turístico sobre o Fogo. Falso. É bom que se esclareça que a uva foi das primeiras frutas que os portugueses – com a videira trazida de Portugal ou da Madeira ou dos Açores – experimentaram plantar em Cabo Verde. O que se entende. Queriam ter por perto aquilo a que estavam habituados a comer e no caso, a beber, na terra de origem. Há notícias disso logo a seguir ao povoamento, ainda no século XVI. Portanto, quando o nosso francês cá chegou no século XIX, já havia muita parra e algum vinho. Interessante é que não foi só no Fogo que os portugueses plantaram a videira. Também a cultivaram em Santiago, em Santo Antão, em S. Nicolau e na Brava.
4 – Em termos de formação académica ouvia meu pai contar que o avô dele tinha “estudos de medicina”. Daí ter percebido que não completara medicina. Logo, ele não era médico. Nem mágico, nem homeopata. Por que deduzo falsas ou por certificar, as profissões e/ou formações académicas que lhe são atribuídas.
Com efeito, e já no Fogo ele interessou-se e ali estudou as propriedades medicinais de muitas ervas locais, as quais recomendava às pessoas que o consultavam que as tomassem ou sob forma de chá ou sob forma de pasta (para massagem).
5 - Sei sim, e nisso acredito, pois que fazia “voz corrente” na família que Armand Mont-Rond fora um homem empreendedor, ousado e dinâmico. Praticava actos de engenharia em obras consideradas públicas. Daí ter suscitado algum confronto com o Governador, pois ele construiu a tal estrada carroçável da antiga “Volta-Volta” sem pedir autorização às autoridades e do seu bolso. Praticava, se calhar, actos ditos médicos, dado que consultava e receitava tratamento a doentes que dele se abeiravam. A maior parte das vezes os remédios eram caseiros e alternativos. Fazia-o graciosamente. Estamos a falar da ilha do Fogo do século XIX e de uma zona, Mosteiros onde o Clínico (sedeado em S. Filipe) visitaria muito espaçadamente.
6 – Outra “lenda” criada à volta da figura do meu bisavô é a razão, o motivo que o terá levado a fixar-se no Fogo. A versão que a minha avó contava e mais tarde ratificada pela filha, minha tia Eugénia, era que se tratou de uma briga com a família francesa e ele, (Armand) um espírito rebelde e aventureiro, se calhar, terá preferido deixar a França e fixar-se numa então remota ilha. Daí, o tal mistério que tantas efabulações tem criado com transmissões exageradas e deturpadas (quem conta um conto…) aos forasteiros que visitam a ilha do Fogo à procura de testemunhos sobre a vida do francês na ilha do vulcão.
Possivelmente Armand Mont-Rond pertenceu a família aristocrática e rica da França que não se sentiu nada “orgulhosa” do feito do membro familiar. Ele teve uma irmã que não deixou descendência. Eis a razão porque não se encontram descendentes “Mont-Rond” (de origem) em França.
De seu nome completo Armand Fourbeaux de Mont-Rond, que tanto segredo fez das razões porque fixou residência no Fogo, nunca pensou que após o seu desaparecimento, haviam de ser criadas tantas lendas e estas badaladas aos quatro ventos, por vezes, sem o mínimo cuidado de verificação da verdade histórica.
João Augusto Martins, no seu livro «Madeira, Cabo Verde e Guiné» Lisboa, 1891, fala de Armand Mont-Rond, descrevendo-o a determinada altura, (pois que o conheceu e o visitou no Fogo) como: «um homem inteligente porque percebe, compreende e decide quando os outros hesitam e se declaram impotentes. Muito culto, eis o que revela a sua conversação cheia de interesse (…) Tudo o que faz e pratica mostra um vasto exercício solidamente orientado» continua o escritor Martins, nos seus elogios a Armand Mont-Rond dizendo que o francês pela sua lavra, melhorou a agricultura nas terras que cultivou pois que introduziu processos mais modernos à época, que terá trazido da França.
Por outro lado, há um testemunho que considero fiável, que é o de Padre Luigi Miragillio, o nosso Padre Luís que viveu durante muitos anos nos Mosteiros e que baptizou quase todos os meus irmãos. Excepto eu porque fui baptizada em Lisboa. O Padre Luís chegou ao Fogo em 1947. Ele narrou para Pierre Sorgial, autor do livro: - «Les îles du Cap-Vert d’ hier et d’aujourd’hui» – ecos daquilo que ouviu nos Mosteiros sobre Mont-Rond, com contenção e bom senso. Reli-o recentemente no exemplar da Casa da Memória em S. Felipe. Uma das explicações da “aura de prestígio” que rodeou o francês que se auto exilou naquele canto do Arquipélago é que o homem era por lado, bondoso e por outro lado, não tolerava a negligência e a preguiça no trabalho.
Finalmente, pois o texto já vai longo, dizer que ele voltou à França por duas vezes. Tanto na morte do pai, como na morte da mãe. Regressou sempre carregado de armas e de munições para a caça que se praticava muito no Fogo. Os netos dele, meu pai, o irmão Armando José Rodrigues e o primo Alberto Montrond gostavam e praticavam caça. Outra habilidade de Armand era a música que também legou a alguns dos descendentes. O violino e o bandolim eram os instrumentos preferidos.
Histórias envoltas em lavas...
Trata-se de uma colectânea de 12 contos que, como o próprio título sugere, as histórias e as personagens nela contidas foram recortadas em ambiente foguense. Sob protecção ou sob maldição (conforme o ângulo de abordagem da ficção) do medonho e do temido vulcão. É que de facto existe um autêntico «feiticismo» do foguense com o seu Pico.
Daí o título do livro e daí também o conteúdo de algumas histórias «bebidas» de alguma forma no magma do vulcão, ainda que simbolicamente.
Por se tratar de uma edição de Autor, torna a sua publicação num projecto que direi muito pessoal. Isto para justificar o que disse no início deste escrito que iria falar de mim.
Mas pensando melhor, vou alargar ligeiramente o âmbito do «ego» e abrir um parêntesis, e falar um pouco dos “riscos” de se editar um livro de “motu” próprio – aqui na minha terra – Por um lado, o mecenato, os patrocinadores escasseiam. Mas mesmo os que ainda o fazem, refiro-me às instituições financeiras dizem-se já “cansadas” de tantos pedidos para as muitas actividades que diariamente acontecem. Depois o autor nem sempre dispõe ab initio, do montante, que não é pouco, para a impressão de um livro. Felizmente que sempre vai aparecendo um co-patrocínio o que se agradece. A propósito, achei interessante o que me disse uma das instituições contactadas, que o critério dela para patrocinar livros se fixava apenas em manuais escolares e em livros científicos. Fiquei sensibilizada! Óptimo! Que seja para isso!
Por outro lado, é um “risco” pensando na existência do potencial leitor aqui nas ilhas, que segundo estatísticas, a percentagem ainda não satisfaz quando se pensa na “vida” plena de um livro.
Ora bem, de todo o modo, o facto de ver finalizado este meu projecto pontual e imediato, deu-me uma sensação boa! Porque fiz aquilo que gosto de fazer: escrever e escrever efabulando, recriando memórias, transfigurando realidades e assim tecendo os contos. Relendo-os, vou reencontrar parte da minha vivência, parte da comunidade de pertença, pela espécie de lastro cultural que se envolvem nas histórias ou que nos é devolvido por elas.
Bem-haja a ficção pela felicidade que dá!
Crioulês? Ou a dependência do crioulo actual à Língua matriz?
Folheando um caderno de apontamentos encontrei, num puro acaso, as linhas que se seguem resultantes de uma intervenção escutada numa reunião institucional, já há alguns meses – a quando da virulência do dengue na Praia – mas cujo conteúdo pareceu-me interessante para ilustrar o título acima enunciado. Não resisto a transcrevê-la:
«Isso ta bem obriga a que haja uma mudança na política di saúde pública. Para além disso, Praia stá em conexão muito forte cu resto do país»
Se bem repararmos, apenas três partículas (grafemas) deste pequeno excerto ficam de fora do português: di, stá, e cu. (É bom não esquecer que estas mesmas partículas são vestígios do português quinhentista, base da formação do crioulo)
Daí a minha reiteração de que a Língua cabo-verdiana ou o crioulo de Cabo Verde se encontra cada vez mais interdependente da Língua portuguesa hodierna. E isso é bem visível na oralidade dos falantes escolarizados e na dos técnicos de intervenção pública/mediática, que ao veicularem uma mensagem de cariz médico, educativo, ou outra de carácter técnico-científico se socorram do vocabulário e da construção frásica bem próximos da língua portuguesa. É também o sociolecto ouvido em certos ambientes escolarizados.
No mesmo registo, aconteceu-me numa destas manhãs, ia eu no carro às compras e de rádio ligado, “apanho” ainda bocados de uma entrevista na RNCV. O entrevistado questionado se alguém que fora nomeado para o cargo – referido pelo Jornalista – tinha o perfil adequado, responde nos termos que a seguir transcrevo:
«Na nha opinião ele tem o perfil ideal. Ele é um perfeito conhecedor da área qui el stá bá gere; tanto mais, que se trata di um pessoa muito capaz e cu provas dadas.» (sic) (o sublinhado é meu).
Sem muitos comentários, e creio que sem necessidade também de tradução, apenas para referir e reforçar de que é minha convicção de que a oralidade culta – chamemo-la assim – do crioulo actual, aproximou-se muito fortemente da língua portuguesa. É um dado que diariamente – ou quase isso – venho verificando aqui nas ilhas. E isso passa-se sobretudo com o segmento do crioulo que os falantes utilizam nos media nacionais.
Embora se trate de um fenómeno linguístico de há muito previsto, lembremo-nos de que Baltazar Lopes da Silva numa das suas intervenções na célebre “Mesa Redonda sobre o Homem cabo-verdiano” (Mindelo, 1956) afirmava que o crioulo, para além da sua inquestionável e crescente vitalidade, caminhava também e cada vez mais para uma espécie de “aristocratização” que ele ilustrava da seguinte forma: «…É de um interesse extremo observar como e em que compartimentos se processa esta aristocratização. Primeiramente na fonética. Não admira. Maurice Grammont notou esta tendência, ou esta maior permeabilidade da fonética a influências exteriores mais prestigiosas. Suponho que a tendência assenta na constante que leva o homem, quando desejoso, mas impossibilitado de assimilar totalmente um padrão diferente do seu, a copiar-lhe, ao menos, a forma externa. Em segundo lugar, no léxico. O crioulo dispõe hoje de um tesouro lexical de origem portuguesa que me não parece inferior, ao menos em grau sensível, ao padrão comum do vocabulário metropolitano. A aristocratização vocabular enverga ainda uma vestimenta de que o português e as outras línguas românicas fizeram largo uso: a divergência. É assim que, quando o crioulo possui no seu léxico tradicional determinado vocábulo, a influência do português exerce-se, não no sentido de essa forma desaparecer, mas no dela se aproximar o mais possível da forma correspondente portuguesa…»
Não sei se o eminente filólogo já não teria em mente a possível “décaláge” que a mais recente proposta ortográfica para a escrita do crioulo iria criar entre a sua expressão oral e a sua expressão escrita, (?) pois que Baltazar Lopes foi avisando de que não haveria necessidade de se “inventar” qualquer conjunto alfabético para a normalização escrita, uma vez que a já antiga língua (o crioulo) que ele caracterizou como sendo de origem latina/portuguesa já o possuía de séculos com uma história etimológica própria.
Num aparte gracioso, como disse um familiar meu com muito espírito: “- Convenhamos de que não havia de ser com o “K” empurrando o “C” borda fora que resolveríamos o problema!” –
Ora bem, tudo isto se conjuga com a tese que comungo de que há uma cumplicidade e uma interdependência cada vez mais acentuadas e intensivas entre o crioulo e o português de Cabo Verde, nos dias que correm. Se me perguntarem, se isso é bom (?) se isso é mau (?) talvez respondesse que a questão arregimenta em si, características positivas e características negativas. Mas que algo – uma nova reconfiguração da língua? - se desenha de forma indelével nesse “aportuguesamento” do crioulo, como também, já antes se inscrevera no “acrioulamento” do português de / e em Cabo Verde, disso não tenho dúvidas!
Paralelamente, a escolaridade em língua portuguesa deve estar muito atenta a estes fenómenos linguísticos de entrosamento, pois que não me parecem que já sejam apenas “empréstimos” de uma língua para a outra, respectivamente em posição de ascendente e de descendente.
E depois, caros leitores, a língua cabo-verdiana, na parte que tem de “rebelde, transformadora, criadora e inovadora” – sobretudo na sua oralidade – porque ainda em permanente estado de “magma”, permitam-me esta comparação, acaba ela própria, por vontade dos seus falantes e com a ajuda das ferramentas adequadas por encontrar o seu caminho.
Se pende, ou não, para um reajustamento (reaproximação) com a matriz que lhe deu origem é algo que o tempo, os interesses do falante e as vicissitudes complexas que o mundo global de hoje comporta, dirão.
Da minha parte, limito-me a apontar e…a tirar apontamentos também!
Nota de Leitura - A propósito de alguns Contos tradicionais brasileiros
Vem isto também a propósito e em contexto, pelo facto de me encontrar ainda sob o “encantamento” da leitura recentemente feita de alguns contos tradicionais brasileiros.
Trata-se de uma selecção e de uma adaptação da autoria de Cármen Lúcia Tindo Secco, professora/pesquisadora da UNFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Retomando a questão de Walter Benjamin, claro que o tempo, o contexto, as transformações tecnológicas, humanas e as formas de socialização ainda que em ambiente rural – onde mais tempo, regra geral perduram as manifestações folclóricas de que o conto tradicional oral é parte – são outras actualmente, naturalmente, e não creio que já existam tais contadores/recriadores repentistas de histórias orais, como os havia outrora.
É meu entender que a leitura deste conjunto de narrativas em que o maravilhoso e o mágico naturalmente dominam, ainda que limitado em número que não em qualidade, se destina a leitor apreciador de contos da tradição oral e, eventualmente, atrairá também o leitor interessado em conhecer um pouco dos contos pertencentes ao folclore brasileiro. Que fique esclarecido que estamos perante uma infinitésima parte daquilo que são os contos tradicionais brasileiros – dez contos – mas ainda que parca em quantidade, não deixa de ser significativa e exemplar em termos de amostragem.
De facto, alguns dos contos aqui transcritos, ilustram de certa forma – e creio que boa parte deles – uma região do Brasil que salvo melhor opinião, se trata do Rio Grande do Norte.
São contos orais recolhidos da tradição folclórica, que nos fazem viajar no tempo. Num tempo longinquamente passado, mas, em que, também diria, fixado pela palavra oral e/ou pela palavra escrita e carregado de uma profunda ancestralidade e de genuína ruralidade, ganha forma intemporal e a dimensão do espaço neles (nos contos) se dilui, pois que os sentimos – nós leitores da língua portuguesa de outras paragens e culturas – por vezes bem próximos e identificáveis, não só linguisticamente, mas sobretudo culturalmente.
No fundo, trata-se da tal proximidade legada pela língua comum e pelas matrizes culturais portuguesas e africanas, acrescida, no caso do Brasil, pela matriz cultural índia.
Logo, os contos aqui colectados, estão embebidos de uma maravilhosa e sublime cosmogonia mestiça, que os tornam ao nosso entendimento, uma “fonte” onde todos, ou quase todos, também tivemos em algum momento ou, temos lá ainda algum “cântaro” que comungou da mesma água.
Com efeito, são pequenas narrativas oralmente transmitidas, que vêm de tempos remotos, algumas delas fizeram, por vezes, atormentadas e demoradas viagens, originárias de terras e de países longínquos e de culturas diferentes, foram escutadas por muitas gerações e transmitidas a outras tantas; pelo caminho sofreram diversas alterações e transfigurações geo-sociais, até chegarem aos nossos dias.
As histórias contidas nestas narrativas orais ao mudarem de ambiente, os seus conteúdos também se alteraram, igualmente se adaptaram e adquiriram nova feição, novo tom, outros ritos, acção renovada, aventuras novas, paisagens aculturadas à região e à comunidade, de tal modo que estes os envolveram como parte da sua própria vivência. Nesta arte modificada, as personagens iniciais e/ou originais transmudaram-se em outras figuras bem locais, e muito poucas conservaram as suas formas estrangeiras ou forasteiras. E isto é válido, quer para os animais, quer para os humanos ou sobre-humanos efabulados, quer ainda para as personagens fantasmagóricas.
De qualquer forma ganharam quase todas, novas cores, novas feições, novas formas de falar e de se socializarem, outros usos e diferentes costumes locais e/ou regionais e novas “manhas” e/ou “artimanhas para garantir a sobrevivência.
Enfim, dito de maneira resumida: tanto as personagens como os seus comportamentos aculturaram-se ao país, no caso, Brasil e nas suas diferentes regiões. As personagens antropomorfizadas ou não, foram recriadas e enriquecidas com novos tipos humanos, com novas atitudes e reacções, novas travessuras e posturas outras perante o relativismo do bem e do mal, da riqueza e da pobreza. Em síntese, ouvidos os contos e identificados os dramas, as tragédias e as alegrias da condição humana neles efabulados, eles foram incorporados na comunidade, absorvidos e transformados pela mesma comunidade em algo de pertença própria. Tudo isto emoldurado num fundo em que existe e se percebe uma autêntica recriação antropológica ficcional, conformada – reitere-se – ao ambiente para onde os contos orais migraram e passaram a ser património da região.
É assim que temos no conto «Os Compadres Corcundas» uma acabada narrativa de personagens, ou melhor de duas personagens que só na aparência física se assemelham, porque ambas corcundas, mas enquanto um era pobre, humilde e amigo de ajudar o próximo, o outro era rico, vaidoso e ambicioso desmedido. O conto de final exemplar gira à volta da virtude e do pecado, dois ditames antagónicos que coexistem no ser humano em divergência constante um contra o outro e o caso contado não foge a este figurino esquemático. No final do conto, naturalmente que a virtude e a humildade são copiosamente recompensadas e o vício e o pecado severamente punidos.
O interessante do enredo do conto «Os Compadres Corcundas» reside também nas informações que vão sendo dadas sob forma de juízos de valor social e ditas de uma forma aparentemente despicienda. É que, enquanto: «o povo do lugar vivia mangando do corcunda pobre» assim se inicia a narração, ninguém «reparava no rico» que também era corcunda. A medida que se adensa a narração das desventuras do «corcunda pobre» pois ele é o protagonista, o universo mágico por onde ele circula vai-lhe preparando a alteração para a riqueza e para a bem-aventurança próximas pois que ele não desrespeitou os preceitos cristãos religiosos ao acrescentar à cantiga de roda dos seres mágicos (seus benfeitores finais) a sua quadra de versejador repentista: «Segunda, terça-feira / Vai, vem! /E quarta e quinta-feira / Meu Bem!
Opostamente, embora sem o saber, mas com ambição desmedida, quando lhe chegou a vez, o «corcunda rico» a quem «a medida do ter, nunca se enche» querendo ser compensado como o outro compadre que, para além de rico se tornou «esbelto», quis acrescentar também a cantoria dos duendes da floresta encantada, dizendo desastradamente: «Sexta, sábado e domingo! / também!» Ora, não guardou os dias santos. A assomar aqui o intertexto religioso cristão de clara influência cultural portuguesa/europeia.
Remate final do conto «Os Compadres Corcundas»: o corcunda rico, além de muito espancado fisicamente pelos duendes em fúria, ficou com dupla marreca, isto é, com mais «aquela de que o compadre pobre se livrara» para se lembrar do pecado e do atrevimento cometidos.
Outro dado singular deste conto é que o universo da história se desenrola em ambiente muito masculino, não há presença feminina explicitada. O conto respira: “Muita briga,” “caçador esforçado,” “trabalho duro,” “força física” são os elementos e os requisitos constantes de que se compõe toda a acção do conto.
Entrando agora no dos outros contos, este intitulado, «Bicho de Palha» somos remetidos intertextualmente, e diria que quase de imediato, para a universal «Gata Borralheira» dos Irmãos Grimm. Aliás, este paralelismo, esta similitude temática de base entre as duas narrativas, já foi e tem sido objecto de análises comparativas de ensaístas, de críticos literários e de antropólogos brasileiros de renome, de entre os quais destacaria o insigne folclorista Luís da Câmara Cascudo.
Continuando com o conto «Bicho de Palha» aqui e agora a jovem bonita, de seu nome Maria, que nascera de família rica e educada, mas que devido às viagens constantes, ao novo casamento e o posterior desaparecimento do seu progenitor, ela ficou entregue aos maus-tratos da madrasta; à inveja por parte da meia-irmã feia e, para cúmulo, é alcunhada por todos da vizinhança de Bicho de Palha, «graças ao seu vestido singular (…) uma grande capa de palha entrançada com um capuz…» o tipo de vestuário que diariamente envergava para não lhe serem reconhecidos os traços de beleza aristocratas, pois que a função que exercia era de serva. Tal como a homóloga europeia, (Gata Borralheira) Bicho de Palha, tropical/brasileira, tem também uma protectora, uma fada – disfarçada sob a forma de uma velha bondosa – e igualmente irá ao baile do princípe por quem está apaixonada e será retribuída com igual afecto; a sedução fará bem o seu jogo entre os dois; a “Bicho de Palha” terá também direito ao teste do sapato de cristal. O casamento final é abençoado pelos reis e a fada velhinha então revela-se. Afinal, era ela, nada mais, nada menos, do que a “Nossa Senhora!” A arquitectura deste conto oral acaba por ser clássica com os três momentos: o primeiro, de equilíbrio pois que supõe a infância tranquila de Maria repleta de afecto e de bem-estar; o segundo, de desequilíbrio e de muita instabilidade, dá a conhecer toda a saga da “Bicho de Palha” e, por último, o terceiro momento em que se dá a transformação de novo na “Maria” original, mas agora adulta, bela e amada pelo Príncipe. Repare-se no simbolismo da fada que não é uma “encantada” qualquer, é a santa maior (Nossa Senhora) de entre todas.
Ora isso faz-nos identificar e reconhecer de novo o fundo religioso que se implica de certa forma no conto, dado que buscado na própria realidade do quotidiano. Dito de outro modo: a iconografia sagrada e os ritos cristãos funcionam como “hiper-texto” em grande parte das manifestações folclóricas, tradicionais e populares das regiões e dos povos que possuem a base histórica/linguística comum portuguesa.
Além do mais, num dos contos, temos de volta o eterno Pedro Malas Artes, ou Pedro das Malas-artes ou ainda Pedro Malasartes, como é mais conhecida esta personagem. Possivelmente terá “viajado” do Portugal quinhentista para as terras de Vera Cruz, pois que é personagem recorrente no conto tradicional português – em recolhas feitas por Teófilo Braga e outros autores – com incidência nos contos tradicionais orais alentejanos.
Desta feita e no conto aqui presente, o nosso pícaro e manhoso “Malasartes,” um exímio e ardiloso mestre na arte da sobrevivência, engana a todos, incluindo o próprio rei, ao prometer-lhe que em troca de “três bilhas de azeite” lhe traria ao palácio “três mulatas moças e bonitas”. Ora bem, com a oferta real em mãos, sai Pedro Malasartes pelo mundo, na aventura de conseguir sustento e de cumprir com o prometido ao rei. Pelo caminho vai enganando, torpedeando e ludibriando tudo e todos até conseguir em pleno os seus objectivos.
Outra narrativa muito interessante é o conto «Mãe do Ouro» que introduz na história narrada alguns elementos que me parecem pertencer ao maravilhoso de matriz cultural dos índios. A começar, a simbologia do nome e do significado na narrativa da personagem/protagonista “Mãe do Mundo” cosmogónica, abrangente, onde começa e acaba a natureza, que «vira nascer o primeiro Deus» de tão velha e antiga que era, pois «que até parecia haver a morte se esquecido dela». Narra-nos o conto que com o decorrer do tempo e ciclicamente, nas noites de lua cheia acontecia um ritual, a “mãe do Mundo” acompanhada de uma jovem de boas virtudes, banhava-se num lago e era por ele tragada. Passara o testemunho. Reaparecia transformada em mulher-serpente cujas escamas eram de ouro; daí o novo nome que intitula o conto: «Mãe do Ouro». Assim, através dela vem a explicação fantástica do renascer constante e eterno da terra e da água (ambas prefiguradas em mulher) que geram os demais elementos da natureza.
Fazendo agora um pouco a “narrativa tradicional oral comparada” se assim me é permitido expressar, a propósito dos contos acabados de ler e que foram pretextos desta singela nota de leitura, (re)contaria também que outrora em Cabo Verde as contadoras de histórias mágicas e de encantar, mas igualmente exemplares, pois que quase sempre continham algum ensinamento, ilustravam algumas normas de comportamento mediante castigos e recompensas – nisso as histórias contadas em crioulo, e/ou em crioulo/português adaptadas ao Arquipélago e, por vezes, às singularidades de cada ilha, não diferiam muito em finalidade com o que acontecia ou acontece noutras partes do nosso mundo – terminavam-nas regra geral com as seguintes lengalengas ou sentenças «história, história, fartura do céu, ámen!» (ilhas de barlavento) «quem souber mais que conte melhor» (ilhas de sotavento). Tudo isso dito oralmente nas variantes do crioulo das ilhas ou Língua cabo-verdiana. Logo, um final, ou melhor, uma “suspensão” a adivinhar continuidade, desde que se verificassem algumas condições: «fartura do céu…» e mais estórias por e para contar.
As histórias, normalmente destinadas às crianças tinham, ou podiam ter, também entre o auditório ouvinte adulto. Regra geral, os contos orais só deviam ser narrados, depois do pôr-do-sol ou, como então se dizia: à «boquinha da noite», ao anoitecer e nunca antes. O que faz supor a existência de um ritual em termos de tempo de lazer que não devia ser roubado ao tempo do trabalho. De tal modo assim era respeitado a hora de contar histórias que se tal narração acontecesse antes da noite, ou fora de horas, havia ritos a cumprir para que os malefícios que o conto explicitasse não fizessem recair os seus efeitos sobre alguém de entre a assistência. Um desses ritos ou gesto era, por exemplo, de entre os ouvintes do conto, três pessoas, normalmente voluntárias, arrancassem ou simulassem arrancar um cílio das pestanas. Feita esta espécie de esconjuro, a contadora poderia iniciar tranquilamente a sua narração, na certeza, de que embora estivesse a transgredir o preceito da hora apropriada de contar história, lhe seria relevada a eventual falta, e nada de mal sucederia a quem a escutasse.
Para alguns de nós, muitas das histórias escutadas na infância ajudaram-nos a construir, de certa forma, valores e a intuir o lado misterioso, encantado e maravilhoso da vida.
Concluindo, gostaria de declarar que se me fosse pedida alguma recomendação ou sugestão de leitura, ela seria a seguinte: que se leiam os dez contos; da «Princesa Bambuluá» ao «Peixinho Encantado», passando por «O Marido da Mãe D’Água», «Mulher Dengosa», e indo até «O Bem se Paga com o Mal» pois que o resultado da leitura integralmente feita será gratificante por várias razões, mas sobretudo, pela espécie de alegria inicial ou de um regresso ao ponto de partida, que estes contos nos devolvem.
É minha convicção que enquanto nota de leitura, singela como se apresenta este escrito, ela não se deverá alongar muito mais, sob pena de contrariar o objectivo final desejado, pois que nada substitui a intimidade que se vai estabelecer entre o leitor e o conto. Por isso mesmo convido-o, caro leitor, a ler estas pequenas – “ariscas,” “delicadas” e deliciosas ao mesmo tempo – peças culturais saídas de um criador colectivo, prenhes de prefigurações, de ícones e de símbolos da cultura miscigenada e rica que é o folclore brasileiro.
Para fechar mesmo estes apontamentos que me seja permitido voltar de novo ao universo de um dos contos ora colectados, «A Princesa Bambuluá,» e fazer minhas as palavras da narradora do conto: “Eu estava lá e vi tudo, e trouxe um boião de doces, mas, na Ladeira do Escorrega, escorreguei, caí e se quebrou tudo…”
Que perdure o maravilhoso!
OBS – Este texto foi elaborado a pedido do IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa) para uma colectânea de contos tradicionais da CPLP.
O meu avô maçónico...
Assim aconteceu com a família Duarte Fonseca, da qual sou membro pelo lado materno e sobre a qual pretendo – é mesmo pretensão da minha parte e que isso seja tomado à letra – traçar alguns episódios da sua história passada e vivida sobretudo na ilha de S. Vicente.
Ora bem, era meu avô materno Torquato Gomes Fonseca, natural de Mindelo e nascido a 26 de Fevereiro de 1881. Filho de José Pedro Gomes da Fonseca e de Tereza de Jesus Fonseca, ambos naturais da Ilha de Santo Antão. Foi escolarizado no Seminário-Liceu de S. Nicolau, e na vida adulta foi maçónico e republicano. Funcionário Público, tendo desempenhado diversos cargos dos quais destaco o de Presidente, de Vice-Presidente e de Vogal da Câmara Municipal de S. Vicente, Director dos Correios de Cabo Verde, Vogal Permanente do Conselho da Instrução Pública de Cabo Verde, vogal do Conselho da Biblioteca Municipal de Mindelo, entre outras funções algumas graciosa e civicamente desempenhadas. Igualmente, instruiu então muitos jovens comerciantes e empregados de escritórios comerciais de S. Vicente com aulas de contabilidade e de escrita comercial que ministrava. Charadista em tempos livres, colaborou no Almanaque Luso – Brasileiro com hieróglifos comprimidos, cruzadas e salto a cavalo, passatempos que mais tarde alguns netos (eu incluída) lhe herdámos o gosto. Neste particular, o meu irmão mais velho foi quem aprendeu a resolver os “hieróglifos comprimidos” e os “saltos de cavalo” com o avô.
Casou-se em 1909 com a minha avó Leopoldina Cristina Duarte, natural da ilha de São Vicente, nascida a 9 de Agosto de 1884. Filha de Pedro José Duarte, natural da ilha de São Nicolau e de Izabel Christina Duarte Christino, natural da ilha de Santo Antão, família de muita inclinação à monarquia então vigente em Portugal.
O pai da minha avó Dina, Pedro José Duarte era proprietário e comerciante, vindo de S. Nicolau e que se estabelecera a partir de 1880 em Mindelo para aí criar e educar os filhos. Augusto de Deus Duarte, Belmiro de Deus Duarte, Francisco de Deus Duarte, Isabel Cristina Duarte, Leopoldina Cristina Duarte, Mariana Cristina Duarte, Eugénia Cristina Duarte, Rosely Cristina Duarte e Alda Cristina Duarte, esta última nascida em 1890, e a que permaneceu solteira. (ao que parece, queria seguir a vida religiosa. Suspeito que por uma causa amorosa mal sucedida e nunca divulgada. Aliás, muito comum à época) Foi sempre tratada e nomeada carinhosamente pela família de: “a querida Aldinha” que quando eu era miúda julgava que fosse esse o nome dela. Querida tia, era ela e por sinal minha madrinha de baptismo, que se realizou na Igreja de S. Sebastião da Pedreira em Lisboa pois era a igreja que servia o Bairro Azul, onde vivi os dois primeiros anos de vida, com os meus pais e os manos mais velhos (1946-1948).
A avó Dina e as irmãs tiveram mestras em casa que lhes ensinaram e lhes ministravam as disciplinas da Instrução Primária, também bordado, francês e piano, muito usado entre as famílias então ditas de “bem.” O pai delas queria que as filhas fossem mulheres instruídas, para isso recrutava e pagava as ditas mestras ou professoras particulares que se deslocavam a casa dele para aí ministrarem a formação às seis filhas.
Um aparte: o instrumento musical, o piano e o aprender a tocá-lo, cedo fizeram parte da mobília e do estar social dos lares mindelenses mais abonados.
Retomando, os rapazes frequentaram Seminário, tendo um deles – Francisco de Deus Duarte, meu tio-avô – sido ordenado padre.
Conta-se entre os familiares mais próximos, que a avó Dina, para além de ter sido uma mãe educadora exemplar, foi igualmente uma senhora culta e benquista por todos os familiares e amigos próximos de tal forma o fora que na sua morte, ocorrida em Lisboa em 1938, os primos/sobrinhos Manuel Ribeiro de Almeida (Leça Ribeiro) e Raul Ribeiro lhe traçaram o seguinte perfil, que passo a transcrever e que foi notícia no jornal «Notícias de Cabo Verde», no seu número 178, de 1 de Novembro de 1938: «Sucumbiu em Lisboa no dia 31 de Outubro findo, à acção da doença de que foi tratar-se, a Exma. Sra. D. Leopoldina Duarte Fonseca, acarinhada esposa do nosso prezado amigo e ilustre funcionário dos Correios e Telégrafos, Sr. Torquato Gomes Fonseca. O seu dilecto esposo, a sua numerosa prole e toda a família ficaram inconsoláveis com o passamento da bondosa e distinta senhora. Educadora como as melhores mães de Cabo Verde, era um encanto observar a forma primorosa como dirigia a instrução dos seus filhos de quem constituiu uma verdadeira dinastia de excelentes estudantes.
Mas D. Leopoldina Duarte Fonseca foi também filha amantíssima, irmã, esposa e parente virtuosa e prestante.
Avaliamos, pois, a imensa dor que a sua falta irreparável vai causar aos membros extremosos do seu lar. À sua carinhosa família, em especial ao Sr. Torquato G. Fonseca, aos seus filhos, aos nossos directores, seus primos e às suas tias apresentamos a expressão muito sentida das nossas condolências.» (Fim de transcrição). Assim era o perfil da avó Dina para os familiares e para os amigos.
Voltando um pouco atrás na narração, vale dizer que idêntico processo de transposição de ilha sucedera com José Pedro Gomes da Fonseca e Tereza de Jesus Fonseca, meus bisavós, pais de Torquato, que se mudaram de Santo Antão para a ilha de S. Vicente onde nasceram os filhos: Torquato Gomes Fonseca (1881-1954) e João Gomes Fonseca (1882-1940?). Existiu também uma filha, irmã do meu avô, de nome Francisca de Jesus Fonseca, tia Chica, que bem jovem pôs termos à vida e dela pouco se falou na família. Os dois rapazes, Torquato e João, após a frequência do Seminário-Liceu em S. Nicolau entraram para o funcionalismo público e nele fizeram carreira.
O enlace de Torquato Fonseca e de Leopoldina Duarte efectuou-se em 1909, em S. Vicente, terra de nascimento dos nubentes que viveram na cidade do Mindelo, numa casa espaçosa e com um grande quintal – objecto de boa memória da minha mãe e dos irmãos, pois sítio de jogos, de brincadeiras de uma infância cuidada – e na antiga então rua “Júdice Becker”, perto da Praça Nova, até à morte da avó Leopoldina em 1938, vítima de doença renal grave. Falo do quintal pois ele fez parte das memórias mais queridas da minha mãe e dos irmãos que das fotografias guardadas da família, muitas foram tiradas nesse espaço de inúmeras brincadeiras da infância e adolescência e onde havia um frondoso tamarindeiro e um famoso tanque.
Do matrimónio, nasceram oito filhos: José, Celina, Sérgio, Humberto, Maria da Paz, Dina, Jorge e Henrique. Interessante é que o filho mais velho é registado com o nome comum dos dois avós, sendo o materno, Pedro José e o paterno José Pedro. A filha Dina morreu ainda de tenra idade, vítima de doença. É a partir deles que se segue a descendência dos Duarte Fonseca.
Mas mais do que espelhar um pouco esta “árvore genealógica” o que queria registar, recordando, são pequenas histórias de família.
De entre os episódios da família mindelense contados com muita graciosidade e com a arte de bem narrar da minha mãe, reconto dois.
A primeira, liga-se à passagem em S. Vicente – no périplo pelas colónias portuguesas de África – do príncipe herdeiro da coroa portuguesa, Luís Filipe, filho do rei D. Carlos, em 1908, que na noite em que o “brigue” esteve fundeado no Porto Grande, ofereceu um baile em que foram convidadas algumas jovens das então consideradas as melhores famílias de Mindelo. A minha avó Leopoldina, nessa altura já estava bem comprometida com o seu Torquato, foi uma das convidadas. Bem, a família dela contente e possivelmente honrada com tal convite, pois que eram de simpatias monárquicas sabidas, autorizou a jovem a participar do baile. De roupa nova e aperaltada lá foi a filha e outras tantas amigas ao grande baile no barco real. O príncipe, num gesto gentil, pois que o fez pessoalmente, ofereceu no final da festa, uma cigarrilha de cinta dourada a cada uma das moças convidadas para o baile.
Deve ser esclarecido que o namorado da Dina, o Kate – assim eram os diminutivos por que eram conhecidos os meus avós – não gostou mesmo nada de ver a sua namorada, ou mesmo noiva prometida, a participar de um baile em que o par não seria ele. Enciumado e mais, nada contente, pois para além de tudo, ele pertencia ao núcleo de cabo-verdianos que aspirava o advento da república e nada gostava da realeza; zangou-se com a sua Dina e por mais de uma semana não lhe enviou cartas, nem bilhetes como se usava na época entre namorados. Parece que tal situação terá divertido a avó que se apercebeu, pela primeira vez de uma cena real de ciúmes por parte do noivo. Mais tarde, já casados, eis que um dia, ao mexer em caixas com papéis, o meu avô descobre a cigarrilha – que lhe trouxe à memória o episódio – que entretanto fora cuidadosamente embrulhada e guardada pela minha avó como recordação do baile. De novo uma cena de ciúmes e de amuo entre o casal. Ora, moral da história, dizia a avó numa demonstração de como o casal se entendia bem, que todas as cenas de ciúmes que o avô lhe fizera durante os anos de casados, se resumiram a essas duas e ambas tiveram como causa o baile e a cigarrilha de cinta dourada oferecida pelo “malogrado príncipe Luís Filipe,” como ela dizia pois que o regicídio havia de acontecer pouco tempo depois da visita do Príncipe às então colónias portuguesas africanas.
Outra historieta já presenciada por minha mãe foi quando, os filhos, os mais velhos – na altura: José, (1910 -2004) Celina, (1911-1992) Sérgio (1913 -1994) e Humberto, (1916 -1983) Maria da Paz (1919) era bem pequena ainda, 3 anos de idade – descobriram que o pai era “maçom”. E tudo aconteceu em 1922, quando Torquato Fonseca se preparava para participar no Congresso internacional maçónico (secreto evidentemente) que se realizou, ou não, nesse ano na cidade do Porto. Ele integraria a representação portuguesa ao congresso. Suponho que ele já possuía, à época, o grau de oficial. Ora, a minha mãe teria na altura 11 anos e já ajudava a mãe dela nas lides da casa. Coube-lhe ir colocar um casaco do pai acabado de ser passado e brunido, no guarda-fato. Possivelmente as coisas que seriam necessárias para a viagem ao Porto já estariam à vista dentro do mesmo guarda-fato. Estranheza da filha quando ao abrir a porta do móvel, vê o avental e mais os outros símbolos próprios da sociedade secreta. Vai daí, chama aos gritos, os irmãos, crianças todos, para irem ver a “descoberta” feita desses estranhos pertences do pai. Este, na hora ausente de casa no trabalho, não teve conhecimento do caso. A mãe Dina tomou conta da ocorrência. Ter-lhes-ia explicado que eles ficavam expressamente proibidos de qualquer comentário sobre o incidente a quem quer fosse e que ela prometia em contrapartida, nada contar ao pai deles sobre o que haviam feito.
Foi assim que a minha mãe soube que o pai era membro e activo da maçonaria luso-cabo-verdiana, da “Loja Almirante Reis” de Mindelo que era filiada no “Grande Oriente Lusitano”. Também o irmão João Gomes Fonseca era “maçon.”
Nota curiosa: Aqui há alguns anos descobri em documentos lidos, que o avô paterno do meu marido, Jaime Alberto Ferreira (1887-1925) foi igualmente maçónico, membro de uma das lojas de Mindelo e que os nossos dois avós terão estado juntos, ou não – pois não confirmei se a tal delegação de que eles seriam parte, lá esteve – no tal congresso do Porto. Igualmente, um tio-avô do meu marido foi outro destacado membro da maçonaria luso-cabo-verdiana. De seu nome, António Augusto Martins, mais conhecido por Fidjito Martins e por sinal, membro da mesma loja a que pertencia o meu avô.
Interessante foi saber que o avô Torquato chegou a ser “grande oficial” e o representante máximo em Cabo Verde. Antes de morrer passou a chefia a Carlos Rocha conhecido e tratado por Carlos Pudjim na cidade do Mindelo.
Sobre a actividade da maçonaria exercida em Cabo Verde, para além dos aspectos considerados negativos no tocante à animosidade, recíproca aliás, entre a franco-maçonaria, a Igreja, e a perseguição movida pelo regime vigente (O Estado Novo) após a 1ª República portuguesa cuja liderança estivera a cargo de altos membros da maçonaria portuguesa; ressalvados estes aspectos e acrescidos por outro lado, pelo facto de lhes ser atribuído poderes esotéricos e extra -humanos – a maior parte, criada e efabulada no imaginário popular – para além disso, a confraria maçónica crioula, em certos momentos de crises e de fomes, ao tempo muito frequentes nestas ilhas, foi autêntica benemérita. Auxiliada pela congénere lusa, concorria com o governo, na assistência aos desvalidos, por vezes com quantitativos em géneros alimentícios e pecuniários bem superiores aos donativos oficiais. Igualmente, protegia as viúvas e os filhos dos membros falecidos, pagando-lhes os estudos e, por vezes, custeando até a subsistência alimentar ao agregado privado do chefe de família.
Essa actividade assistencial das lojas maçónicas crioulas, filadas no Grande Oriente Lusitano, foi para mim uma descoberta boa, ao pensar que o meu avô materno pertenceu ao núcleo dos seus membros mais activos.
Afinal são historietas de família, boas e más que por vezes nos levam a descobrir alguns “rastos” da memória mais colectiva que emolduraram uma época e fazem-nos também entender algum passado destas ilhas.
Nota final: Apesar de, por um lado, ter tentado com este texto, fazer um exercício de aproximação à realidade passada da família Duarte Fonseca, com destaque para o avô Kate. Por outro lado, gostaria de considerar também que terá havido da minha parte e naturalmente, muita subjectividade de perspectiva na sua abordagem.
DE ONDE VIRÁ O EXEMPLO?...
Sempre ouvi dizer que o exemplo vem de cima. E nem era preciso! Todos nós, temos esta percepção desde a tenra idade em que os nossos pais, primeiro, depois em parceria com os nossos professores constituem as nossas referências, os nossos paradigmas, normalmente modelados pela religião. E continuam pelo resto da vida, às vezes nem sempre pelos melhores motivos, mas permanecendo como uma base residual que o ditado popular, de certo modo, consagrou em “o que o berço dá, só a tumba leva” – referindo-se sobretudo à educação doméstica.
Este intróito para dizer que hoje, ganhou forma, sustentada e praticada pelas grandes instituições, a indelicadeza, a deselegância no comportamento com o público. E isto em assuntos banais quanto mais em reivindicações ou reclamações; com pessoas publicamente conhecidas quanto mais com “anónimos”. Insinua-se um apelo, quiçá, à reverência ou à bajulação, ou ainda à velha «cunha» para quebrar a silenciosa arrogância. A “importantivite” ou o comezinho "culto da personalidade” feito à escala de cada função é mais forte que os procedimentos formalmente instituídos. E, pelos vistos, não é só aos balcões, ou “front office” como modernamente se converteram, termo que supõe maior abrangência, mas também na gestão de topo.
Fui gestor (não era preciso tê-lo sido) e todos os meus colaboradores – felizmente estão todos vivos e lúcidos – tinham instruções explícitas de que como servidores públicos “toda a carta merece uma resposta em carta”. Era uma questão de consideração e respeito da parte da instituição pelo cidadão, mesmo se a resposta fosse desagradável ou o remetente tivesse sido menos cortês não “merecendo” aparentemente qualquer resposta. Mas a instituição é (para) deles – condição para que foi criada.
Hoje, reconheço que a resposta não tem de ser através de uma carta formal. Os meios de comunicação evoluíram muito e culturalmente adquiriram-se novos valores e instrumentos. Poderá, por isso, ser por correio electrónico, por fax ou mesmo por telefone, para casos que não requeiram registos. Mas nada disso acontece. As instituições, pura e simplesmente, não respondem a não ser para cobrar, ou se daí resultam perspectivas imediatas de valor material acrescentado. Mostram, talvez sem intenção, total desprezo pelo cidadão remetente ignorando, ou mostrando-se indiferentes ao eventual prejuízo que lhe poderão causar pela omissão ou ausência de uma resposta tempestiva qualquer que ela seja. Esquecem que um atendimento, não interessa em que sentido, poderá conduzir a outras diligências, provavelmente com outros resultados. E que em última instância é o País que ganharia.
Tudo isto ocorre-me, por arrastamento, ao saber que uma pessoa amiga, dirigiu cartas a determinadas instituições pedindo patrocínio para um acto cultural e passados meses só uma instituição teve a consideração de lhe responder. Fiquei admirado porque se tratava de coisa simples que um despacho do género: “Responder dizendo que a instituição lamenta não poder satisfazer o pedido por ….(motivos não faltam: p.e. já esgotou a verba para o efeito, etc. etc.)” teria tempestivamente resolvido com pragmatismo, elegância e delicadeza ainda que não fosse totalmente verdadeira a causa invocada. Não sendo assunto virgem, até se podia ter um modelo de carta para esse tipo de resposta. Mas era uma resposta. Uma manifestação de consideração e respeito pela pessoa que endereçou a missiva.
No caso em apreço não se tratava de uma pessoa desconhecida pois já tinha algum nome em actividades culturais para além de ter desempenhado cargos públicos.
Repito: Só uma instituição se dignou responder – o BCA (Banco Comercial do Atlântico) – (passe-se a publicidade). Não interessa em que sentido. As outras instituições nada. Silêncio absoluto. Estou certo que não foi por negligência e muito menos por desrespeito. E não acredito que o procedimento formal instituído seja “não responder quando a resposta é negativa”. Não. Isto seria o desconhecimento das mais elementares regras de relacionamento humano. E também não quero acreditar que tenha sido por indelicadeza e deselegância. Essas instituições são normalmente geridas por pessoas bem formadas cuja educação e instrução estão (ou devem estar) acima da média.
Confesso que não consigo descortinar as razões desse, no mínimo, estranho comportamento. E não acuso as instituições que seguramente sobreviverão à passagem dos seus gestores e colaboradores, quaisquer que sejam. E também sei que há comportamentos que se não forem assimilados, interiorizados – diz-se que de pequeno é que se torce o pepino – “incorporados” no nosso ADN comportamental, jamais passaremos de primatas evoluídos. E, por vezes, muito evoluídos, mas sempre PRIMATAS…
Mas quando o exemplo vem de cima é para fazer escola. E nós que passamos todo o tempo a reivindicar respeito e consideração da instituição ao simples funcionário de balcão!...
A. Ferreira
A Portugal Telecom e a Acção dourada
Era eu membro do Governo de Cabo Verde e defendia, obviamente, os interesses do País do qual era governante na compra da Cabo Verde Telecom por parte da Portugal Telecom (PT) então empresa pública portuguesa. Não era um desafio de futebol ou de rugby, era um negócio de dezenas de milhões em que os interesses do Estado de Cabo Verde não só ficariam “penhorados” por algumas décadas como havia visíveis prejuízos imediatos. Não se podia tratar nem de boa nem de má intenção, nem tão pouco de «portuguesismo» ou «anti-portuguesismo» mas simplesmente de um negócio entre duas partes. Nem sequer da utilização de um eventual veto se poderia minimamente aventar. E note-se que em tempo algum procurei (ou se me poderá acusar de) contornar ou contrariar a lei, antes pelo contrário, pugnava pelo seu integral e rigoroso cumprimento. Isto levou a que alguns intriguistas “polítiqueiros” de ambição mesquinha à mistura com uma acentuada covardia e uma nítida falta de carácter tratassem em transformar-me em seu bode expiatório. Tomei isto, ao tempo, como um preço a pagar pelo desempenho de determinadas funções políticas e não lhe dei a devida importância.
O que é verdadeiramente interessante é que agora nenhum português ou portuguesista das Ilhas condena Sócrates ou o rotula de anti-espanhol por ter usado a golden share. Todos acham – e eu também – que como governante fez aquilo que devia fazer: defender os interesses do seu país – Portugal.
E eu como governante que devia então fazer? Ou será que o Estado de Cabo Verde não tem interesses próprios a defender? Ou deveria ser eu um “submarino” dos interesses portugueses, como os há por aí, muito bem colocados e impantes de patriotismo ilhéu?
Todos – aqueles que me são próximos – sabem muito bem como eu gosto de Portugal e dos portugueses. Não o escondo e até disso faço gala. Que tenho lá, em Portugal e entre portugueses, há longas décadas um rol de amigos de peito e mais recentemente familiares, que quando lá chego não me deixam espaço para as minhas acções privadas tal é o número de convites e de recepções, conforme o grupo.
Não me quero alongar nesta pequena reflexão, e gostaria apenas de lembrar aos que me rotularam, na falta de argumentos ponderosos, que ser amigo de Portugal e dos portugueses, não é defendê-los contra os interesses de Cabo Verde para usufruir das migalhas que mancham o carácter e envergonham a pessoa.
Convivi de perto com alguns milhares de portugueses, e particularmente e durante quase três anos, de forma continuada, com centena e meia; e algumas vezes todos sob o meu comando defendendo interesses, ao tempo, genuinamente portugueses, em circunstâncias muito difíceis, de vida ou morte, onde pontificava a cooperação real e se faziam verdadeiros amigos. Éramos jovens e os nossos caminhos, naturalmente, divergiram. Mas mantenho com eles ainda hoje uma relação muito boa. É isto que me faz feliz.
A. Ferreira