No baú das memórias…

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Estava-se nos inícios dos anos sessenta e o Liceu da Praia ainda era um belo edifício – inaugurado em 1960 – com o seu relógio certeiro e a sineta accionada pontualmente nos toques de entrada, de tolerância e de saída. Revejo os painéis em azulejos ao longo das escadas, representando cenas dos épicos portugueses, quer históricos, quer saídos dos Lusíadas de Camões. Igualmente reconfiguro as salas amplas com carteiras ainda de brilho novo; o grande pátio circundante – onde passeávamos, brincávamos e jogávamos nos intervalos das aulas – o jardim defronte com o marco dos Descobrimentos, os canteiros floridos e regados. Enfim, para nós adolescentes e entrados no então terceiro ano do liceu, o Liceu Nacional da Praia primeiro, e poucos anos depois, Liceu Adriano Moreira, perfilava-se imponente e bonito.
Respeitosos e temerosos éramos nós os alunos – creio que sobretudo as alunas – quer do Reitor, quer de professores, quer ainda dos Contínuos, estes últimos tinham muita autoridade sobre o aluno, a uma participação ou a uma queixa por eles feita acabava-se intimado ao gabinete do Reitor. Ninguém o desejava, pois a reprimenda em casa ainda seria pior…
Mas no meu baú de memórias, queria reviver alguns bons momentos aí passados nessa escola que instruiu gerações.
Recordo-me das disciplinas de que mais gostava e que por vezes também coincidia com o professor que a ministrava.
Assim foi para mim a disciplina de História e do professor Mário Santos. Interessante no meu ponto de vista, a forma como ele leccionava os factos ou os mitos históricos. Por um lado, desdramatizava ou retirava alguma carga solene ou mesmo “super-heróica” como eram narrados determinados factos históricos – em que ele pressentia ou sabia retocados por alguma propaganda do regime vigente – e por outro lado, acrescentava ainda mais beleza poética à mitologia greco-romana, quando discorria sobre isso, o que tornava apetecível escutá-lo. Isto acontecia quer com a História de Portugal, quer com a História Universal.
Lembro-me de um episódio de aula quando foi o estudo do capítulo da “Restauração” ou da “4ª Dinastia” da História de Portugal; nele apresentava-se muito solenemente a parte em que o novel rei – o primeiro depois da denominação espanhola sobre Portugal (1580-1640) – D. João IV perguntava à mulher, D. Luísa de Gusmão se devia aceitar o cargo, a então duquesa de Bragança teria respondido de forma grave e épica: “Mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida!” E isto era narrado com igual grandiloquência descritiva de uma terrível e decisiva batalha guerreira.
Ora Mário Santos, o nosso professor, fazia algum “gozo fino” com factos similares e sobre este particularmente, disse aos nossos ouvidos ingenuamente escandalizados, mas ao mesmo tempo divertidos: “Ah! Isso! Isso ele (o rei) terá dito à mulher quando se iam deitar: - “Olha lá, tu queres ser rainha ou não?”
Era assim que ele tornava coloquiais e engraçados certos “chavões” históricos que o nosso manual de História continha.
Outras boas memórias me acodem, são as amizades que se forjaram nas turmas e algumas que perduraram inesquecíveis com o passar do tempo e das vicissitudes da vida de cada um de nós.
Há outra recordação boa que guardo do Liceu da Praia, fazia-se teatro e eu tomava parte quase sempre nas peças. A par de outros colegas, fui também algumas vezes protagonista feminina do auto ou do texto dramático e, adorava representar. Eram obrigatórias pelo menos, duas peças de teatro por ano. No final do primeiro período, antes do Natal e por ocasião do 10 de Junho, a coincidir com o término do último período, antes das férias grandes. O nosso ensaiador, encenador era também o professor Mário Santos e os autores dos textos dramáticos invariavelmente da Literatura portuguesa: Almeida Garrett, Gil Vicente, entre outros.
Os ensaios tinham o seu encanto de camaradagem sã e o seu quê de risadas quando nos enganávamos ou atrapalhávamos nas “deixas” ou nas “falas” das personagens a nós cometidas. O ensaio-geral era normalmente de muitos nervos e vivido por vezes, mais intensamente do que a estreia da peça. Era aí que o encenador queria certificar-se de que estávamos à-vontade na “pele” das personagens. O Salão nobre do Liceu era o nosso palco, quer para as peças teatrais, quer para os saraus, quer ainda para os jograis de poemas.
Não vá esta oportunidade passar em branco, alguns nomes de então colegas – “actores e actrizes” que nós éramos no Liceu – Alda Macedo, Ercília Camacho, Eurícles Barros, o saudoso Lico Barros, Francisco dos Reis Brito (carinhosamente tratado por nós, seus antigos colegas: “Chico actor” seria ele quem participava em mais peças) Hedy Fonseca, Hulda Fernandes, Jorge Carlos Fonseca, Mafalda Carvalho entre outros. Creio que Carlos Veiga era quem, regra geral, apresentava o nosso espectáculo. Tinha boa dicção, dizia o professor. Espero que a memória me não esteja a atraiçoar e as sinceras e antecipadas desculpas aos não mencionados por falha gravíssima minha…
Em matéria de teatro e de saraus, vinha de tempo bem recente da então chamada “Secção de Gil Eanes da Praia,” algum lastro, bem fresco e muito comentado entre nós, sobre os trabalhos artísticos apresentados pelo famoso grupo da inesquecível professora Maria Luísa Blanqui.

Voltando às récitas teatrais que no Liceu novo, em meados da década de sessenta se fizeram, acredito que datasse desse tempo também um certo gosto pelo Teatro que me acompanhou muitos anos da minha adolescência e juventude, a ponto de como primeiro curso, ter querido fazer o então Conservatório Nacional em Lisboa, e a minha progenitora suavemente me ter dissuadido da ideia.
Eis em resumo – e de acordo com o título deste escrito, baixar agora a “tampa do baú” – o que a memória me trouxe de volta e me transportou ao antigo Liceu da Praia, veneranda instituição no seu todo, que atingiu meio-século de existência e que nos transmitiu conhecimentos e valores de que os livros são dos principais repositórios.

De volta...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Após uma prolongada paragem, em que o facto de ter estado longe do meu “habitat” de escrita poderá justificar o seu não exercício, retomo atenção ao meu “blog.” O que, com a verdade a abonar, é para mim sempre bom!
Antes de mais, e ainda que já não vá tão a tempo, os meus votos de 2011 cheio de saúde, tranquilidade, sucessos e de mais coisas boas para todos nós. E que saibamos também ultrapassar com dignidade e com coragem as adversidades que nos surjam no percurso das nossas vidas. São os meus desejos sinceros.
Hoje, em jeito de apontamento, focarei uma questão – que me foi posta aqui há dias por uma jovem em fase de doutoramento – e que constitui o fundamento da sua tese.
Trata-se do tema: “a mulher na política e o caso/estudo o de Cabo Verde”.
- Na minha opinião, considero que ainda não temos, em Cabo Verde, mulheres políticas. Temos tido e temos mulheres, algumas, técnicas de bom gabarito, como sói dizer-se, a exercer titularidades e cargos no executivo ou no governo nacional. Mas “políticas” de sentido pleno e com provas reveladas de conceptualização que resulta do saber político; de cultura e de liderança políticas, do meu conhecimento e análise ainda não tinha tido, até ao momento presente, a eventual agradável surpresa de as conhecer entre nós – Disse eu à minha interlocutora.
Normalmente, por feitio, idade e experiência, sou cautelosa em historicamente e retrospectivamente, abarcar o meu juízo sobre esta e qualquer outra matéria, cujos dados se me escapam na sua integralidade. Naturalmente que falo do meu tempo, este vivencial.
Não vá sem acrescentar que apreciei o facto de a candidata ao doutoramento me ter reiterado que intitulara o trabalho de: “Mulheres na Política”… e que portanto estava ciente da eventual ambiguidade, embora em algum momento do desenvolvimento da sua tese gostasse também de encontrar mulher (es) política (s) aqui nas ilhas.
E sobre o facto questionou-me pelas razões desse já tardio e ainda não efectivado aparecimento de mulheres políticas, ou mesmo de líderes partidárias femininas nacionais.
Claro que o momento foi uma oportunidade para ambas discorrermos um pouco sobre os factores condicionadores ou não, inibidores ou não, desse impedimento que revela alguma “pobreza” ou “insuficiência” paritária e democrática entre nós.
Desde as já mais do que sabidas sobrecargas com a casa, o cuidado com a saúde e a alimentação dos filhos (geralmente muitos) e por vezes da família alargada que pendem sobre a mulher, passando pela pobreza, pela iliteracia, pela irresponsabilidade, pela parentalidade precoce, da família monoparental; indo à fuga de responsabilização muito comum do homem, (mas também de jovens mulheres) e da sua ausência e assistência como pai em casa. Lugares-comuns, dir-me-ão. Pois sim, mas infelizmente actuais também.
Ora bem, de tudo um pouco e neste tom, pretextou e substantivou o nosso diálogo na tentativa transversalmente social de, mais uma vez, perceber e justificar razões que ainda e em pleno século XXI entravam muito a qualidade do desenvolvimento social cabo-verdiano que devia assentar primordialmente na família nuclear estruturada e na partilha equilibrada de tarefas vitais como são o cuidado e a educação dos filhos, entre o pai e a mãe.
Termino este apontamento, desejando êxito no resultado final deste trabalho de doutoramento. Mas, do fundo do coração e da razão gostaria que ele, o trabalho, contivesse já entrevistas com as tais “mulheres políticas” pois que tal poderia significar uma evolução libertadora no bom sentido, na condição da mulher crioula…

HÁ TÚNEIS & TÚNEIS

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Há já algum tempo, numa rotineira troca de e-mail com um antigo colega de liceu e mais tarde do Instituto Superior Técnico (IST) – ele estava mais adiantado – que vive na Madeira, ele comunicou-me que alguém lhe tinha dito (tout court) que eu era contra túneis.

Ele, que é muito meu amigo e me conhece bem, ficara admirado sabendo que sou engenheiro de minas; e eu incomodado e irritado pela tremenda calúnia que, pelos vistos, tinha já entrado num circuito e produzido os seus perversos efeitos pois não sabia quantas pessoas mais tinham tido a mesma informação e dessa forma.

Nunca lhe perguntei a fonte – nem achei que o devesse fazer – e não me preocupei em dar-lhe mais explicações do que o contexto e as circunstâncias em que havia feito tais declarações públicas. E para quem era, não era preciso mais…

Mas porque polémica tem havido sobre esta questão com alguma ressonância e ecos nos media e não só, sou levado a explicar-me e a reiterar a minha posição.

Há túneis e túneis!...
Túnel para ligar duas localidades importantes (normalmente túneis ferroviários); túnel como alternativa construtiva de uma via de circulação (túneis rodoviários); ou ainda túnel como solução para descongestionamento de trânsito urbano (túneis urbanos – rodoviários e, por vezes, ferroviários) ou, no mesmo contexto, túnel como salvaguarda de um direito ou mais-valia de superfície. São todas coisas diferentemente iguais. E a linha de separação (ligeiríssima) que apresento é apenas na finalidade.

O que é importante aqui registar é que a opção por túneis rodoviários, não é política. É normalmente técnico-económica da responsabilidade dos projectistas das vias de circulação (rodo ou ferroviárias). E não está em causa o factor tecnológico quando é sabido que grandes túneis com mais de meia centena de quilómetros de extensão foram já construídos sob água. E outros estão sendo projectados como o que poderá vir a ligar América à Ásia através do Estreito de Béring. Mas são onerosos quando comparados com as obras de superfície. Por vezes, muito onerosos mesmo.

Por isso é que a opção por túneis exige sempre um aturado estudo económico sopesando todos os factores – endógenos e exógenos – incluindo obviamente o impacto ambiental e as externalidades. Não é igual construir um túnel de 5 Km ou construir 25 túneis de 200 metros. O comprimento total é o mesmo mas a relação não é linear nem os propósitos serão os mesmos, como se calculará. Os problemas de ventilação, da iluminação, de combate aos incêndios, da segurança, das galerias de emergência e até da própria secção desse túnel – citando apenas alguns factores – que irão pesar muito não só na execução como na posterior manutenção não podem ser iguais. Daí que nenhum dos grandes túneis mundiais é rodoviário.

O maior túnel rodoviário da Península Ibérica será o de Marão, que terminará em 2011 e que terá apenas 5,6 Km. Mesmo no imenso Brasil com uma fabulosa rede de estradas o maior túnel rodoviário não chega a 4 Km.

É nesta linha que quando me disseram que alguém tinha aventado a hipótese de se construir um túnel rodoviário que ligasse Porto Novo a Povoação de Ribeira Grande, separados por uma estrada de montanha de cerca 35 Km que passa por muitas localidades e permite usufruir de uma paisagem única, pensei logo: seguramente essa pessoa não é engenheiro nem economista e muito menos está ligado ao turismo. Não sabe fazer contas nem tirar proveito das potencialidades turísticas da região. Ou então é um político pouco honesto ou mal assessorado. Essas tomadas públicas de posição, totalmente desprotegidas de palavras cautelares e sem qualquer base técnica, são uma ligeireza e uma leviandade de todo o tamanho.

Que se faria com os escassos minutos que se ganhariam com o túnel? Qual o fluxo de viaturas, de passageiros e de mercadorias que justificariam tal investimento? Que turista havia de preferir viajar através de um túnel tendo uma estrada de montanha a cortar a Ilha ou do litoral a beijar o mar? A onerosíssima manutenção quem é que a pagaria? Muitas questões poderiam aqui ser levantadas sem qualquer resposta. As mesmas que quando se lançou igual hipótese para ligar Tarrafal a Vila Ribeira Brava.

Presumo que a ideia tenha vindo da Madeira onde um grandioso programa, lançado em 1989, de construir 136 Km de vias rápidas conduziu à construção de muitas dezenas de túneis, em que o túnel mais oneroso, de mais ou menos 2 Km, teria custado 26 milhões de euros por cada quilómetro, cerca 2.900 contos cabo-verdianos cada metro. Todo o programa, que se concluiu em 2000, custou cerca de 1815 milhões de euros, mais de 200 milhões de contos cabo-verdianos. Os túneis estavam na moda!...

A Madeira tinha “três” orçamentos: o do Arquipélago, o do Continente (Portugal) e o da União Europeia (Região ultraperiférica). Extrapolar a infra-estruturação da Madeira ou das Canárias para Cabo Verde exige muita ponderação, muita sensatez e muito realismo. Ou então muita demagogia e fantasia. E como é fácil acreditar-se naquilo que se deseja, muita gente acreditou…

Dizer que sou contra túneis é uma imensa calúnia! E a calúnia como diz o povo, é como o carvão – quando não queima, suja.

Não sou nem a favor nem contra túneis. Nem podia ser de outro modo. Os túneis são “sempre” exequíveis. E a opção para a sua execução assenta, como já disse atrás, num estudo técnico-económico quase sempre alternativo.

Mas não é visionário quem hoje, e muito menos ontem, defende ou defendeu a construção de um túnel que ligue Porto Novo a Povoação de Ribeira Grande quando há outras alternativas bem mais acessíveis economicamente e com vantagens outras. Ele é precisamente o inverso – lunático no sentido literal do termo: com os pés (ou cabeça) na Lua e não na Terra.

As transacções comerciais conhecidas e projectadas entre os dois povoados incluindo S. Vicente são irrisórias para um investimento global (estimado) dessa envergadura – um túnel rodoviário de alguns quilómetros.

Contudo, ligar Covoada a Fajã através de um túnel de umas centenas de metros poderá ser a solução de pôr Covoada em comunicação com o resto de S. Nicolau. A alternativa é uma relativamente extensa (4-5Km), sinuosa e alcantilada estrada que partirá de Estância Brás. A opção definitiva deverá obrigatoriamente envolver um estudo técnico-económico das duas alternativas.

Túneis, viadutos, pontes são opções meramente técnicas dos projectistas das vias de comunicação. A ordem de execução poderá ser política pois dirá respeito à via de circulação como um todo.

É por isso que eu defendo que as grandes obras devem ter o parecer de um Conselho das Obras Públicas formado na base de competências e não da cor partidária. Mesmo pagando a esse conselho sairia mais económico para o País pois evitar-se-iam alguns “elefantes brancos" eleitoralistas, certas aberrações que temos visto por aí e que teremos de pagar mais tarde com juros, sobretudo sociais, elevados.

Já é tempo de deixarem os técnicos decidirem e falarem das opções técnicas, justificando-as publicamente, se necessário.

É importante infra-estruturar. Mas infra-estruturar não é construir a torto e a direito e a qualquer preço. Exige enquadramento, programas e critérios bem definidos e transparentes.

De outro modo, acontece-nos o que já se verificou num país, muito amigo, da União Europeia: Tem a maior rede de auto-estradas por habitante da Europa, e vive hoje uma grave crise (passe a redundância) económica e social, em grande parte motivada pela sua dívida pública, que o obriga a tomar medidas draconianas porque tem o FMI e o Fundo Europeu à porta.

A. Ferreira

Seria boa ideia pôr algum termo às efabulações criadas em torno da figura de Armand Mont-Rond!...

terça-feira, 30 de novembro de 2010


Sim, é chegada altura de vir ao de cima algum bom senso e pôr termo a tanta efabulação (estou a tentar, através deste eufemismo, manter-me o mais correcta possível!) ouvida e escrita sobre o francês, por sinal meu bisavô, que demandou a ilha do Fogo no último quartel de 1800.
Ora existem alguns pontos que nunca serão de mais esclarecer. Vou tentar enumerá-las:

1 - Ele não deixou “numerosos filhos” Não foram tantos como se pretende fazer crer. Falso. Os seus filhos – que não foram poucos mas também não tão numerosos – é que deixaram muita prole. Como afirmava a minha tia Eugénia, neta do francês. Terá sido o caso da minha avó paterna Maria Clementina Gomes Mont-Rond que teve 10 (dez) filhos; o caso também do meu tio-avô paterno Simiano Mont-Rond ou Montrond, que teve também muitos filhos. Dos outros filhos, confesso que não tenho notícia, possivelmente também eles tiveram descendência. Todos eles multiplicados, pode-se perceber a quantidade de gente que conserva ainda o apelido Montrond.
2 - Armand Mont-Rond nunca viveu na Chã das Caldeiras. Quem para lá se transferiu da (Ribeira Ilhéu ou da Atalaia) foi o filho Simiano Montrond, nos meados do século XX e foi quem veio a marcar a tal inúmera descendência dos Montrond da Chã que ainda hoje distingue a região. O ascendente Armand Mont-Rond viveu em Baluarte, na Achada Matriz ou Achada Mariz como localmente é chamado o local, e circulava entre Atalaia e Ribeira Ilhéu. Também teve moradias em S. Filipe e na Cova Figueira.
3 - Igualmente convém repetir que o nosso gaulês Mont-Rond não introduziu a vinha e nem a produção do vinho no Fogo. Li isso num Guia turístico sobre o Fogo. Falso. É bom que se esclareça que a uva foi das primeiras frutas que os portugueses – com a videira trazida de Portugal ou da Madeira ou dos Açores – experimentaram plantar em Cabo Verde. O que se entende. Queriam ter por perto aquilo a que estavam habituados a comer e no caso, a beber, na terra de origem. Há notícias disso logo a seguir ao povoamento, ainda no século XVI. Portanto, quando o nosso francês cá chegou no século XIX, já havia muita parra e algum vinho. Interessante é que não foi só no Fogo que os portugueses plantaram a videira. Também a cultivaram em Santiago, em Santo Antão, em S. Nicolau e na Brava.
4 – Em termos de formação académica ouvia meu pai contar que o avô dele tinha “estudos de medicina”. Daí ter percebido que não completara medicina. Logo, ele não era médico. Nem mágico, nem homeopata. Por que deduzo falsas ou por certificar, as profissões e/ou formações académicas que lhe são atribuídas.
Com efeito, e já no Fogo ele interessou-se e ali estudou as propriedades medicinais de muitas ervas locais, as quais recomendava às pessoas que o consultavam que as tomassem ou sob forma de chá ou sob forma de pasta (para massagem).
5 - Sei sim, e nisso acredito, pois que fazia “voz corrente” na família que Armand Mont-Rond fora um homem empreendedor, ousado e dinâmico. Praticava actos de engenharia em obras consideradas públicas. Daí ter suscitado algum confronto com o Governador, pois ele construiu a tal estrada carroçável da antiga “Volta-Volta” sem pedir autorização às autoridades e do seu bolso. Praticava, se calhar, actos ditos médicos, dado que consultava e receitava tratamento a doentes que dele se abeiravam. A maior parte das vezes os remédios eram caseiros e alternativos. Fazia-o graciosamente. Estamos a falar da ilha do Fogo do século XIX e de uma zona, Mosteiros onde o Clínico (sedeado em S. Filipe) visitaria muito espaçadamente.

6 – Outra “lenda” criada à volta da figura do meu bisavô é a razão, o motivo que o terá levado a fixar-se no Fogo. A versão que a minha avó contava e mais tarde ratificada pela filha, minha tia Eugénia, era que se tratou de uma briga com a família francesa e ele, (Armand) um espírito rebelde e aventureiro, se calhar, terá preferido deixar a França e fixar-se numa então remota ilha. Daí, o tal mistério que tantas efabulações tem criado com transmissões exageradas e deturpadas (quem conta um conto…) aos forasteiros que visitam a ilha do Fogo à procura de testemunhos sobre a vida do francês na ilha do vulcão.
Possivelmente Armand Mont-Rond pertenceu a família aristocrática e rica da França que não se sentiu nada “orgulhosa” do feito do membro familiar. Ele teve uma irmã que não deixou descendência. Eis a razão porque não se encontram descendentes “Mont-Rond” (de origem) em França.
De seu nome completo Armand Fourbeaux de Mont-Rond, que tanto segredo fez das razões porque fixou residência no Fogo, nunca pensou que após o seu desaparecimento, haviam de ser criadas tantas lendas e estas badaladas aos quatro ventos, por vezes, sem o mínimo cuidado de verificação da verdade histórica.
João Augusto Martins, no seu livro «Madeira, Cabo Verde e Guiné» Lisboa, 1891, fala de Armand Mont-Rond, descrevendo-o a determinada altura, (pois que o conheceu e o visitou no Fogo) como: «um homem inteligente porque percebe, compreende e decide quando os outros hesitam e se declaram impotentes. Muito culto, eis o que revela a sua conversação cheia de interesse (…) Tudo o que faz e pratica mostra um vasto exercício solidamente orientado» continua o escritor Martins, nos seus elogios a Armand Mont-Rond dizendo que o francês pela sua lavra, melhorou a agricultura nas terras que cultivou pois que introduziu processos mais modernos à época, que terá trazido da França.
Por outro lado, há um testemunho que considero fiável, que é o de Padre Luigi Miragillio, o nosso Padre Luís que viveu durante muitos anos nos Mosteiros e que baptizou quase todos os meus irmãos. Excepto eu porque fui baptizada em Lisboa. O Padre Luís chegou ao Fogo em 1947. Ele narrou para Pierre Sorgial, autor do livro: - «Les îles du Cap-Vert d’ hier et d’aujourd’hui» – ecos daquilo que ouviu nos Mosteiros sobre Mont-Rond, com contenção e bom senso. Reli-o recentemente no exemplar da Casa da Memória em S. Felipe. Uma das explicações da “aura de prestígio” que rodeou o francês que se auto exilou naquele canto do Arquipélago é que o homem era por lado, bondoso e por outro lado, não tolerava a negligência e a preguiça no trabalho.
Finalmente, pois o texto já vai longo, dizer que ele voltou à França por duas vezes. Tanto na morte do pai, como na morte da mãe. Regressou sempre carregado de armas e de munições para a caça que se praticava muito no Fogo. Os netos dele, meu pai, o irmão Armando José Rodrigues e o primo Alberto Montrond gostavam e praticavam caça. Outra habilidade de Armand era a música que também legou a alguns dos descendentes. O violino e o bandolim eram os instrumentos preferidos.



Histórias envoltas em lavas...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Hoje vou falar de mim, isto é, do meu próximo livro de Contos intitulado: «Contos com Lavas» que será apresentado na Casa da Memória, em S. Filipe no fim desta semana.
Trata-se de uma colectânea de 12 contos que, como o próprio título sugere, as histórias e as personagens nela contidas foram recortadas em ambiente foguense. Sob protecção ou sob maldição (conforme o ângulo de abordagem da ficção) do medonho e do temido vulcão. É que de facto existe um autêntico «feiticismo» do foguense com o seu Pico.
Daí o título do livro e daí também o conteúdo de algumas histórias «bebidas» de alguma forma no magma do vulcão, ainda que simbolicamente.

Por se tratar de uma edição de Autor, torna a sua publicação num projecto que direi muito pessoal. Isto para justificar o que disse no início deste escrito que iria falar de mim.
Mas pensando melhor, vou alargar ligeiramente o âmbito do «ego» e abrir um parêntesis, e falar um pouco dos “riscos” de se editar um livro de “motu” próprio – aqui na minha terra – Por um lado, o mecenato, os patrocinadores escasseiam. Mas mesmo os que ainda o fazem, refiro-me às instituições financeiras dizem-se já “cansadas” de tantos pedidos para as muitas actividades que diariamente acontecem. Depois o autor nem sempre dispõe ab initio, do montante, que não é pouco, para a impressão de um livro. Felizmente que sempre vai aparecendo um co-patrocínio o que se agradece. A propósito, achei interessante o que me disse uma das instituições contactadas, que o critério dela para patrocinar livros se fixava apenas em manuais escolares e em livros científicos. Fiquei sensibilizada! Óptimo! Que seja para isso!
Por outro lado, é um “risco” pensando na existência do potencial leitor aqui nas ilhas, que segundo estatísticas, a percentagem ainda não satisfaz quando se pensa na “vida” plena de um livro.
Ora bem, de todo o modo, o facto de ver finalizado este meu projecto pontual e imediato, deu-me uma sensação boa! Porque fiz aquilo que gosto de fazer: escrever e escrever efabulando, recriando memórias, transfigurando realidades e assim tecendo os contos. Relendo-os, vou reencontrar parte da minha vivência, parte da comunidade de pertença, pela espécie de lastro cultural que se envolvem nas histórias ou que nos é devolvido por elas.
Bem-haja a ficção pela felicidade que dá!

Crioulês? Ou a dependência do crioulo actual à Língua matriz?

sábado, 2 de outubro de 2010

Folheando um caderno de apontamentos encontrei, num puro acaso, as linhas que se seguem resultantes de uma intervenção escutada numa reunião institucional, já há alguns meses – a quando da virulência do dengue na Praia – mas cujo conteúdo pareceu-me interessante para ilustrar o título acima enunciado. Não resisto a transcrevê-la:
«Isso ta bem obriga a que haja uma mudança na política di saúde pública. Para além disso, Praia stá em conexão muito forte cu resto do país»
Se bem repararmos, apenas três partículas (grafemas) deste pequeno excerto ficam de fora do português: di, stá, e cu. (É bom não esquecer que estas mesmas partículas são vestígios do português quinhentista, base da formação do crioulo)
Daí a minha reiteração de que a Língua cabo-verdiana ou o crioulo de Cabo Verde se encontra cada vez mais interdependente da Língua portuguesa hodierna. E isso é bem visível na oralidade dos falantes escolarizados e na dos técnicos de intervenção pública/mediática, que ao veicularem uma mensagem de cariz médico, educativo, ou outra de carácter técnico-científico se socorram do vocabulário e da construção frásica bem próximos da língua portuguesa. É também o sociolecto ouvido em certos ambientes escolarizados.
No mesmo registo, aconteceu-me numa destas manhãs, ia eu no carro às compras e de rádio ligado, “apanho” ainda bocados de uma entrevista na RNCV. O entrevistado questionado se alguém que fora nomeado para o cargo – referido pelo Jornalista – tinha o perfil adequado, responde nos termos que a seguir transcrevo:
«Na nha opinião ele tem o perfil ideal. Ele é um perfeito conhecedor da área qui el stá gere; tanto mais, que se trata di um pessoa muito capaz e cu provas dadas.» (sic) (o sublinhado é meu).
Sem muitos comentários, e creio que sem necessidade também de tradução, apenas para referir e reforçar de que é minha convicção de que a oralidade culta – chamemo-la assim – do crioulo actual, aproximou-se muito fortemente da língua portuguesa. É um dado que diariamente – ou quase isso – venho verificando aqui nas ilhas. E isso passa-se sobretudo com o segmento do crioulo que os falantes utilizam nos media nacionais.
Embora se trate de um fenómeno linguístico de há muito previsto, lembremo-nos de que Baltazar Lopes da Silva numa das suas intervenções na célebre “Mesa Redonda sobre o Homem cabo-verdiano” (Mindelo, 1956) afirmava que o crioulo, para além da sua inquestionável e crescente vitalidade, caminhava também e cada vez mais para uma espécie de “aristocratização” que ele ilustrava da seguinte forma: «…É de um interesse extremo observar como e em que compartimentos se processa esta aristocratização. Primeiramente na fonética. Não admira. Maurice Grammont notou esta tendência, ou esta maior permeabilidade da fonética a influências exteriores mais prestigiosas. Suponho que a tendência assenta na constante que leva o homem, quando desejoso, mas impossibilitado de assimilar totalmente um padrão diferente do seu, a copiar-lhe, ao menos, a forma externa. Em segundo lugar, no léxico. O crioulo dispõe hoje de um tesouro lexical de origem portuguesa que me não parece inferior, ao menos em grau sensível, ao padrão comum do vocabulário metropolitano. A aristocratização vocabular enverga ainda uma vestimenta de que o português e as outras línguas românicas fizeram largo uso: a divergência. É assim que, quando o crioulo possui no seu léxico tradicional determinado vocábulo, a influência do português exerce-se, não no sentido de essa forma desaparecer, mas no dela se aproximar o mais possível da forma correspondente portuguesa…»
Não sei se o eminente filólogo já não teria em mente a possível “décaláge” que a mais recente proposta ortográfica para a escrita do crioulo iria criar entre a sua expressão oral e a sua expressão escrita, (?) pois que Baltazar Lopes foi avisando de que não haveria necessidade de se “inventar” qualquer conjunto alfabético para a normalização escrita, uma vez que a já antiga língua (o crioulo) que ele caracterizou como sendo de origem latina/portuguesa já o possuía de séculos com uma história etimológica própria.
Num aparte gracioso, como disse um familiar meu com muito espírito: “- Convenhamos de que não havia de ser com o “K” empurrando o “C” borda fora que resolveríamos o problema!” –
Ora bem, tudo isto se conjuga com a tese que comungo de que há uma cumplicidade e uma interdependência cada vez mais acentuadas e intensivas entre o crioulo e o português de Cabo Verde, nos dias que correm. Se me perguntarem, se isso é bom (?) se isso é mau (?) talvez respondesse que a questão arregimenta em si, características positivas e características negativas. Mas que algo – uma nova reconfiguração da língua? - se desenha de forma indelével nesse “aportuguesamento” do crioulo, como também, já antes se inscrevera no “acrioulamento” do português de / e em Cabo Verde, disso não tenho dúvidas!
Paralelamente, a escolaridade em língua portuguesa deve estar muito atenta a estes fenómenos linguísticos de entrosamento, pois que não me parecem que já sejam apenas “empréstimos” de uma língua para a outra, respectivamente em posição de ascendente e de descendente.
E depois, caros leitores, a língua cabo-verdiana, na parte que tem de “rebelde, transformadora, criadora e inovadora” – sobretudo na sua oralidade – porque ainda em permanente estado de “magma”, permitam-me esta comparação, acaba ela própria, por vontade dos seus falantes e com a ajuda das ferramentas adequadas por encontrar o seu caminho.
Se pende, ou não, para um reajustamento (reaproximação) com a matriz que lhe deu origem é algo que o tempo, os interesses do falante e as vicissitudes complexas que o mundo global de hoje comporta, dirão.
Da minha parte, limito-me a apontar e…a tirar apontamentos também!



Nota de Leitura - A propósito de alguns Contos tradicionais brasileiros

domingo, 26 de setembro de 2010
Antes de mais gostaria – ao introduzir esta breve nota de leitura – de parafrasear o famoso ensaísta e filosofo alemão Walter Benjamin que questionou se haveria quem ainda soubesse contar histórias? A propósito daquilo que ele cogitava maléfico no avanço rápido do progresso. E aqui quando se usa o semantema “contar” complementado por “história” está-se a referir à espontaneidade, nos tempos que correm, de se narrar um conto da tradição oral de uma comunidade.
Vem isto também a propósito e em contexto, pelo facto de me encontrar ainda sob o “encantamento” da leitura recentemente feita de alguns contos tradicionais brasileiros.
Trata-se de uma selecção e de uma adaptação da autoria de Cármen Lúcia Tindo Secco, professora/pesquisadora da UNFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Retomando a questão de Walter Benjamin, claro que o tempo, o contexto, as transformações tecnológicas, humanas e as formas de socialização ainda que em ambiente rural – onde mais tempo, regra geral perduram as manifestações folclóricas de que o conto tradicional oral é parte – são outras actualmente, naturalmente, e não creio que já existam tais contadores/recriadores repentistas de histórias orais, como os havia outrora.
É meu entender que a leitura deste conjunto de narrativas em que o maravilhoso e o mágico naturalmente dominam, ainda que limitado em número que não em qualidade, se destina a leitor apreciador de contos da tradição oral e, eventualmente, atrairá também o leitor interessado em conhecer um pouco dos contos pertencentes ao folclore brasileiro. Que fique esclarecido que estamos perante uma infinitésima parte daquilo que são os contos tradicionais brasileiros – dez contos – mas ainda que parca em quantidade, não deixa de ser significativa e exemplar em termos de amostragem.
De facto, alguns dos contos aqui transcritos, ilustram de certa forma – e creio que boa parte deles – uma região do Brasil que salvo melhor opinião, se trata do Rio Grande do Norte.
São contos orais recolhidos da tradição folclórica, que nos fazem viajar no tempo. Num tempo longinquamente passado, mas, em que, também diria, fixado pela palavra oral e/ou pela palavra escrita e carregado de uma profunda ancestralidade e de genuína ruralidade, ganha forma intemporal e a dimensão do espaço neles (nos contos) se dilui, pois que os sentimos – nós leitores da língua portuguesa de outras paragens e culturas – por vezes bem próximos e identificáveis, não só linguisticamente, mas sobretudo culturalmente.
No fundo, trata-se da tal proximidade legada pela língua comum e pelas matrizes culturais portuguesas e africanas, acrescida, no caso do Brasil, pela matriz cultural índia.
Logo, os contos aqui colectados, estão embebidos de uma maravilhosa e sublime cosmogonia mestiça, que os tornam ao nosso entendimento, uma “fonte” onde todos, ou quase todos, também tivemos em algum momento ou, temos lá ainda algum “cântaro” que comungou da mesma água.
Com efeito, são pequenas narrativas oralmente transmitidas, que vêm de tempos remotos, algumas delas fizeram, por vezes, atormentadas e demoradas viagens, originárias de terras e de países longínquos e de culturas diferentes, foram escutadas por muitas gerações e transmitidas a outras tantas; pelo caminho sofreram diversas alterações e transfigurações geo-sociais, até chegarem aos nossos dias.
As histórias contidas nestas narrativas orais ao mudarem de ambiente, os seus conteúdos também se alteraram, igualmente se adaptaram e adquiriram nova feição, novo tom, outros ritos, acção renovada, aventuras novas, paisagens aculturadas à região e à comunidade, de tal modo que estes os envolveram como parte da sua própria vivência. Nesta arte modificada, as personagens iniciais e/ou originais transmudaram-se em outras figuras bem locais, e muito poucas conservaram as suas formas estrangeiras ou forasteiras. E isto é válido, quer para os animais, quer para os humanos ou sobre-humanos efabulados, quer ainda para as personagens fantasmagóricas.
De qualquer forma ganharam quase todas, novas cores, novas feições, novas formas de falar e de se socializarem, outros usos e diferentes costumes locais e/ou regionais e novas “manhas” e/ou “artimanhas para garantir a sobrevivência.
Enfim, dito de maneira resumida: tanto as personagens como os seus comportamentos aculturaram-se ao país, no caso, Brasil e nas suas diferentes regiões. As personagens antropomorfizadas ou não, foram recriadas e enriquecidas com novos tipos humanos, com novas atitudes e reacções, novas travessuras e posturas outras perante o relativismo do bem e do mal, da riqueza e da pobreza. Em síntese, ouvidos os contos e identificados os dramas, as tragédias e as alegrias da condição humana neles efabulados, eles foram incorporados na comunidade, absorvidos e transformados pela mesma comunidade em algo de pertença própria. Tudo isto emoldurado num fundo em que existe e se percebe uma autêntica recriação antropológica ficcional, conformada – reitere-se – ao ambiente para onde os contos orais migraram e passaram a ser património da região.
É assim que temos no conto «Os Compadres Corcundas» uma acabada narrativa de personagens, ou melhor de duas personagens que só na aparência física se assemelham, porque ambas corcundas, mas enquanto um era pobre, humilde e amigo de ajudar o próximo, o outro era rico, vaidoso e ambicioso desmedido. O conto de final exemplar gira à volta da virtude e do pecado, dois ditames antagónicos que coexistem no ser humano em divergência constante um contra o outro e o caso contado não foge a este figurino esquemático. No final do conto, naturalmente que a virtude e a humildade são copiosamente recompensadas e o vício e o pecado severamente punidos.
O interessante do enredo do conto «Os Compadres Corcundas» reside também nas informações que vão sendo dadas sob forma de juízos de valor social e ditas de uma forma aparentemente despicienda. É que, enquanto: «o povo do lugar vivia mangando do corcunda pobre» assim se inicia a narração, ninguém «reparava no rico» que também era corcunda. A medida que se adensa a narração das desventuras do «corcunda pobre» pois ele é o protagonista, o universo mágico por onde ele circula vai-lhe preparando a alteração para a riqueza e para a bem-aventurança próximas pois que ele não desrespeitou os preceitos cristãos religiosos ao acrescentar à cantiga de roda dos seres mágicos (seus benfeitores finais) a sua quadra de versejador repentista: «Segunda, terça-feira / Vai, vem! /E quarta e quinta-feira / Meu Bem!
Opostamente, embora sem o saber, mas com ambição desmedida, quando lhe chegou a vez, o «corcunda rico» a quem «a medida do ter, nunca se enche» querendo ser compensado como o outro compadre que, para além de rico se tornou «esbelto», quis acrescentar também a cantoria dos duendes da floresta encantada, dizendo desastradamente: «Sexta, sábado e domingo! / também!» Ora, não guardou os dias santos. A assomar aqui o intertexto religioso cristão de clara influência cultural portuguesa/europeia.
Remate final do conto «Os Compadres Corcundas»: o corcunda rico, além de muito espancado fisicamente pelos duendes em fúria, ficou com dupla marreca, isto é, com mais «aquela de que o compadre pobre se livrara» para se lembrar do pecado e do atrevimento cometidos.
Outro dado singular deste conto é que o universo da história se desenrola em ambiente muito masculino, não há presença feminina explicitada. O conto respira: “Muita briga,” “caçador esforçado,”trabalho duro,” “força física” são os elementos e os requisitos constantes de que se compõe toda a acção do conto.
Entrando agora no dos outros contos, este intitulado, «Bicho de Palha» somos remetidos intertextualmente, e diria que quase de imediato, para a universal «Gata Borralheira» dos Irmãos Grimm. Aliás, este paralelismo, esta similitude temática de base entre as duas narrativas, já foi e tem sido objecto de análises comparativas de ensaístas, de críticos literários e de antropólogos brasileiros de renome, de entre os quais destacaria o insigne folclorista Luís da Câmara Cascudo.
Continuando com o conto «Bicho de Palha» aqui e agora a jovem bonita, de seu nome Maria, que nascera de família rica e educada, mas que devido às viagens constantes, ao novo casamento e o posterior desaparecimento do seu progenitor, ela ficou entregue aos maus-tratos da madrasta; à inveja por parte da meia-irmã feia e, para cúmulo, é alcunhada por todos da vizinhança de Bicho de Palha, «graças ao seu vestido singular (…) uma grande capa de palha entrançada com um capuz…» o tipo de vestuário que diariamente envergava para não lhe serem reconhecidos os traços de beleza aristocratas, pois que a função que exercia era de serva. Tal como a homóloga europeia, (Gata Borralheira) Bicho de Palha, tropical/brasileira, tem também uma protectora, uma fada – disfarçada sob a forma de uma velha bondosa – e igualmente irá ao baile do princípe por quem está apaixonada e será retribuída com igual afecto; a sedução fará bem o seu jogo entre os dois; a “Bicho de Palha” terá também direito ao teste do sapato de cristal. O casamento final é abençoado pelos reis e a fada velhinha então revela-se. Afinal, era ela, nada mais, nada menos, do que a “Nossa Senhora!” A arquitectura deste conto oral acaba por ser clássica com os três momentos: o primeiro, de equilíbrio pois que supõe a infância tranquila de Maria repleta de afecto e de bem-estar; o segundo, de desequilíbrio e de muita instabilidade, dá a conhecer toda a saga da “Bicho de Palha” e, por último, o terceiro momento em que se dá a transformação de novo na “Maria” original, mas agora adulta, bela e amada pelo Príncipe. Repare-se no simbolismo da fada que não é uma “encantada” qualquer, é a santa maior (Nossa Senhora) de entre todas.
Ora isso faz-nos identificar e reconhecer de novo o fundo religioso que se implica de certa forma no conto, dado que buscado na própria realidade do quotidiano. Dito de outro modo: a iconografia sagrada e os ritos cristãos funcionam como “hiper-texto” em grande parte das manifestações folclóricas, tradicionais e populares das regiões e dos povos que possuem a base histórica/linguística comum portuguesa.
Além do mais, num dos contos, temos de volta o eterno Pedro Malas Artes, ou Pedro das Malas-artes ou ainda Pedro Malasartes, como é mais conhecida esta personagem. Possivelmente terá “viajado” do Portugal quinhentista para as terras de Vera Cruz, pois que é personagem recorrente no conto tradicional português – em recolhas feitas por Teófilo Braga e outros autores – com incidência nos contos tradicionais orais alentejanos.
Desta feita e no conto aqui presente, o nosso pícaro e manhoso “Malasartes,” um exímio e ardiloso mestre na arte da sobrevivência, engana a todos, incluindo o próprio rei, ao prometer-lhe que em troca de “três bilhas de azeite” lhe traria ao palácio “três mulatas moças e bonitas”. Ora bem, com a oferta real em mãos, sai Pedro Malasartes pelo mundo, na aventura de conseguir sustento e de cumprir com o prometido ao rei. Pelo caminho vai enganando, torpedeando e ludibriando tudo e todos até conseguir em pleno os seus objectivos.
Outra narrativa muito interessante é o conto «Mãe do Ouro» que introduz na história narrada alguns elementos que me parecem pertencer ao maravilhoso de matriz cultural dos índios. A começar, a simbologia do nome e do significado na narrativa da personagem/protagonista “Mãe do Mundo” cosmogónica, abrangente, onde começa e acaba a natureza, que «vira nascer o primeiro Deus» de tão velha e antiga que era, pois «que até parecia haver a morte se esquecido dela». Narra-nos o conto que com o decorrer do tempo e ciclicamente, nas noites de lua cheia acontecia um ritual, a “mãe do Mundo” acompanhada de uma jovem de boas virtudes, banhava-se num lago e era por ele tragada. Passara o testemunho. Reaparecia transformada em mulher-serpente cujas escamas eram de ouro; daí o novo nome que intitula o conto: «Mãe do Ouro». Assim, através dela vem a explicação fantástica do renascer constante e eterno da terra e da água (ambas prefiguradas em mulher) que geram os demais elementos da natureza.

Fazendo agora um pouco a “narrativa tradicional oral comparada” se assim me é permitido expressar, a propósito dos contos acabados de ler e que foram pretextos desta singela nota de leitura, (re)contaria também que outrora em Cabo Verde as contadoras de histórias mágicas e de encantar, mas igualmente exemplares, pois que quase sempre continham algum ensinamento, ilustravam algumas normas de comportamento mediante castigos e recompensas – nisso as histórias contadas em crioulo, e/ou em crioulo/português adaptadas ao Arquipélago e, por vezes, às singularidades de cada ilha, não diferiam muito em finalidade com o que acontecia ou acontece noutras partes do nosso mundo – terminavam-nas regra geral com as seguintes lengalengas ou sentenças «história, história, fartura do céu, ámen!» (ilhas de barlavento) «quem souber mais que conte melhor» (ilhas de sotavento). Tudo isso dito oralmente nas variantes do crioulo das ilhas ou Língua cabo-verdiana. Logo, um final, ou melhor, uma “suspensão” a adivinhar continuidade, desde que se verificassem algumas condições: «fartura do céu…» e mais estórias por e para contar.
As histórias, normalmente destinadas às crianças tinham, ou podiam ter, também entre o auditório ouvinte adulto. Regra geral, os contos orais só deviam ser narrados, depois do pôr-do-sol ou, como então se dizia: à «boquinha da noite», ao anoitecer e nunca antes. O que faz supor a existência de um ritual em termos de tempo de lazer que não devia ser roubado ao tempo do trabalho. De tal modo assim era respeitado a hora de contar histórias que se tal narração acontecesse antes da noite, ou fora de horas, havia ritos a cumprir para que os malefícios que o conto explicitasse não fizessem recair os seus efeitos sobre alguém de entre a assistência. Um desses ritos ou gesto era, por exemplo, de entre os ouvintes do conto, três pessoas, normalmente voluntárias, arrancassem ou simulassem arrancar um cílio das pestanas. Feita esta espécie de esconjuro, a contadora poderia iniciar tranquilamente a sua narração, na certeza, de que embora estivesse a transgredir o preceito da hora apropriada de contar história, lhe seria relevada a eventual falta, e nada de mal sucederia a quem a escutasse.
Para alguns de nós, muitas das histórias escutadas na infância ajudaram-nos a construir, de certa forma, valores e a intuir o lado misterioso, encantado e maravilhoso da vida.
Concluindo, gostaria de declarar que se me fosse pedida alguma recomendação ou sugestão de leitura, ela seria a seguinte: que se leiam os dez contos; da «Princesa Bambuluá» ao «Peixinho Encantado», passando por «O Marido da Mãe D’Água», «Mulher Dengosa», e indo até «O Bem se Paga com o Mal» pois que o resultado da leitura integralmente feita será gratificante por várias razões, mas sobretudo, pela espécie de alegria inicial ou de um regresso ao ponto de partida, que estes contos nos devolvem.
É minha convicção que enquanto nota de leitura, singela como se apresenta este escrito, ela não se deverá alongar muito mais, sob pena de contrariar o objectivo final desejado, pois que nada substitui a intimidade que se vai estabelecer entre o leitor e o conto. Por isso mesmo convido-o, caro leitor, a ler estas pequenas – “ariscas,” “delicadas” e deliciosas ao mesmo tempo – peças culturais saídas de um criador colectivo, prenhes de prefigurações, de ícones e de símbolos da cultura miscigenada e rica que é o folclore brasileiro.
Para fechar mesmo estes apontamentos que me seja permitido voltar de novo ao universo de um dos contos ora colectados, «A Princesa Bambuluá,» e fazer minhas as palavras da narradora do conto: “Eu estava lá e vi tudo, e trouxe um boião de doces, mas, na Ladeira do Escorrega, escorreguei, caí e se quebrou tudo…”
Que perdure o maravilhoso!


OBS – Este texto foi elaborado a pedido do IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa) para uma colectânea de contos tradicionais da CPLP.