1.Uma coisa que me chamou atenção nos períodos da pré-campanha e campanha foi a quantidade de cartazes gigantes (outdoors) espalhados na capital. Muitos pareceram-me publicidade desnecessária, outros enganosa e outros ainda absurda. Havia-os por todo o lado dos dois grandes partidos à mistura com os comerciais. São artefactos caros sobretudo quando feitos em pequena escala. E a maior parte não resiste a uma análise custo-benefício, ainda que superficial. A transposição de métodos de publicidade comercial para o marketing político exige ponderação, critério e alguma expertise. Toda a publicidade tem uma meta, visa um objectivo e tem um retorno. Mesmo a política.
2.Apanhei-me a imaginar de onde viria tanto dinheiro para os partidos brincarem aos cartazes gigantes, aos outdoors. Sim, porque a sua profusão era tanta que de outra coisa não podia tratar-se. Além do mais, estranhou-me a quebra de uma regra de ouro no marketing político: “evitar a multiplicidade de mensagens e centrar num número reduzidíssimo e de forte conteúdo.
3.Admiti que, eventualmente, algum lobby publicitário bem instalado, quiçá por mero oportunismo, aconselhava a este tipo de marketing. E não seria necessário que ocorresse simultaneamente nos dois partidos. Bastaria que se instalasse num só, que a lei da acção-reacção faria o resto. Mas o que me intrigava particularmente, é a sustentabilidade deste tipo de publicidade de tal forma onerosa que até vem sendo afastada por partidos europeus em campanha brandindo expressamente essa exclusão como bandeira de austeridade.
4.Uma ponta do véu se me levantou quando tive oportunidade de ler algures que “O MPLA considera, num documento interno, “exitoso” o apoio material ao PAICV para a sua recente campanha eleitoral”. Não foi surpresa nenhuma dado os rumores que sobre o assunto por todo o lado intensamente circulavam. Apenas confirmação. E aí condescendi: não custa esbanjar o que os outros “trabalharam” ou, melhor, conseguiram.
5.Embora tenha alguma reserva se é moralmente aceitável o apoio dado por entidades estrangeiras a partidos políticos nacionais para campanha, não posso deixar de admitir que é uma prática entre partidos da mesma família e afins e que seria de todo impossível evitá-lo. Acho, contudo, que vicia sobremaneira as regras do jogo sendo por isso de elementar honestidade e transparência que, no mínimo, esses “apoios” fossem obrigatoriamente declarados e posteriormente contabilizados (sem criatividade) como se faz em todos os países democráticos sérios e a sério. Muita especulação se evitaria e muita transparência e credibilidade ganharia a ambiência política, e abrir-se-ia a compreensão para certas e/ou eventuais contrapartidas.
6.Sobre o MpD ainda paira sobre mim o desconhecimento da origem do dinheiro desbaratado em alguns outdoors. Não descarto a eventualidade de também ter recebido apoio do exterior. Só assim se compreende a utilização abusiva desta via onerosa mas efectivamente cómoda de fazer campanha, dando respaldo, como se viu, à falta de um trabalho árduo, penoso e continuado no terreno.
7.Voltando aos cartazes, não os vou comentar todos, mas registo que alguns deles eram portadores de conteúdos de tal forma fúteis ou visivelmente falsos que não só não justificavam o investimento, como produziam pernicioso efeito boomerang, de retorno – desconfiança e perda de credibilidade – bem ao contrário do pretendido.
8.Lembro-me de um – do MpD – que ilustrava o rosto de um jovem e dizia, mais ou menos, isto (cito de cor): “A minha bolsa, onde está a minha bolsa?” No mínimo pareceu-me absurdo alimentar este tipo de ilusão tanto mais que se tratava de um partido que defende o mérito (parece que todos o defendem) e preconiza a diminuição do peso do estado na sociedade e na economia do País. A bolsa de estudo é simultaneamente um prémio de mérito e um investimento. Com regras claras, obviamente. E fazer dela um direito é uma absurda e insustentável demagogia e por isso, descredibiliza e desacredita.
A política tem que ser feita com verdades e transparência.
9.Um outro – do PAICV – referindo-se às realizações do governo que sustentava, não teve pejo em falar, de entre outras enganosas como a criação de inúmeras universidades (imagine-se!...) privadas, do Aeroporto da Praia como também sua. É espantosamente enganoso!...
10.O Aeroporto da Praia é uma história longa que vem dos fins dos anos 80, atravessa os 90 chegando a 2000. Não é mérito de nenhum partido ou governo. Conheço razoavelmente a história da qual fui, circunstancialmente, também protagonista. O Aeroporto da Praia não é uma concepção estratégica do governo do MpD que o iniciou nem do PAICV que o finalizou. A atribuir paternidade ao Aeroporto da Praia só há um nome: Osvaldo Lopes da Silva. Singularmente. Faça-se-lhe justiça antes que a mensagem insinuada no outdoor a reescreva como história oficial. Foi ele que o concebeu como medida estratégica para o desenvolvimento de Cabo Verde e foi graças à sua perseverança, “teimosia”, convicção de que era mesmo estratégico e remando contra ventos e marés “impôs” o Aeroporto da Praia. A tese então dominante era que com a construção do Aeroporto da Praia, o do Sal e mesmo a própria ilha desapareceriam social e economicamente. Não vou recontar a história. Penso que os menos jovens suficientemente informados ainda se lembram que à revelia do seu próprio governo, o então Ministro dos Transportes ousou, usando uma prerrogativa de tutela “enterrar” fundos da ASA nas fundações (aterros) do que viria a ser o Aeroporto da Praia. Foram milhões de dólares, que criaram um facto consumado e levaram o governo do MpD, que logo a seguir assumiu o poder, a institucionalizar o Projecto, negociar o financiamento e promover todas as diligências que permitiriam o lançamento da 1ª Pedra pelo Presidente Mascarenhas Monteiro na segunda metade dos anos 90. Não está em causa se o Aeroporto da Praia seria mais cedo ou mais tarde construído. Hoje – é fácil dizê-lo - estamos todos convencidos que sim. Mas neste momento apenas pretendo colocar o assunto num referencial temporo-espacial, devidamente definido. A História não se faz com “se” mas sim com factos.
11.Retomando outra vez os outdoors, salvo opinião mais abalizada, não acredito que eles sejam a melhor forma de investir na campanha política mas sim de gastar dinheiro. E o dinheiro não se gasta, utiliza-se. Não quero com isto dizer que são de todo inúteis. E não sou contra cartazes, entenda-se. Sou sim, pela sua absoluta racionalidade como instrumento de marketing político. Mas não creio que sejam eficientes fazedores de opinião.
12.Agora que as eleições terminaram e os resultados conhecidos é tempo de balanço, do deve e haver, como sói dizer-se. O PAICV não constitui preocupação - ganhou as eleições com um número significativo de votos e está bem escorado financeiramente na generosidade estratégica de alguns membros “poderosos” da sua família política. Está, portanto, visto, que do lado das despesas nenhum partido em Cabo Verde pode competir com ele. Os presidenciáveis sem o seu apoio que se cuidem.
13.Quanto aos outros, sobretudo o MpD, é necessária (seguramente que estará a fazê-la) uma avaliação séria e objectiva do desempenho político do partido não só durante a campanha mas ao longo de toda a legislatura. Não aquelas avaliações normalmente “especulativas” (sem um estruturado documento-base) e cheias de retórica das Comissões Políticas. Mas de uma avaliação precedida de um diagnóstico profundo, sério e honesto feito pelo Gabinete de Estudo ou algo com funções semelhantes (se não existe devia existir) e submetido à Comissão Política e demais órgãos do partido para apreciação e propostas. Não será apenas de uma circunstância (campanha) mas também de um período longo de jejum. Mérito do partido no poder ou demérito da oposição? Uma avaliação com recolha efectiva de dados e o seu adequado tratamento; que determine as causas do desaire eleitoral; que estabeleça os planos, as metas e os objectivos; que permita a (re)estruturação e a (re)organização do partido; que promova o alargamento e a fidelização da sua base de apoio; e que aponte já, o rumo a seguir. Os planos ajustam-se no decorrer da acção. Mas é preciso existir um e é preciso haver acção. Os políticos não são funcionários, são “missionários” no sentido literal do termo. São para servir e não para se servirem. Ou se disponibilizam seriamente ou abdicam.
14.Como alguém escreveu neste blog:”Para já o MPD o que mais tem é tempo para mudar.”
A.Ferreira
domingo, 10 de abril de 2011
Vidas com histórias ou histórias de vidas?
Entrei aqui há dias num táxi na grande Lisboa, cumprimentei o condutor e pedi-lhe para me levar ao aeroporto. Embarcava nessa noite com destino à Praia.
O taxista pergunta-me de seguida: «…a senhora é da Madeira?» respondi-lhe a sorrir: «Não, por acaso sou também de ilhas, mas não da Madeira…» Ele tornou-me: «Olhe, pela pronúncia, fi-la da Madeira» Eu já toda interessada neste teor da conversa – sempre vou acrescentando que de pronúncias já me atribuíram tantas em termos de regiões e de variantes da Língua portuguesa que a isso já me vou habituando. Achei interessante mais esta origem atribuída pelo modo de falar, quis pormenores, “atiçando” a conversa com o taxista.
Mas antes de continuar a história indiscreta (?) que me proponho recontar e que o título aponta, abro aqui um parêntesis para pormenorizar um pouco as pronúncias, o sotaque que alguns dos meus interlocutores na primeira conversa fazem confluir na minha expressão oral da nossa língua. Para não ir mais longe, começo da vez em que um Deputado em plena sessão da Assembleia Nacional, muito exaltado, se me dirigiu nestes termos: «…A senhora Ministra com a sua pronúncia alfacinha…» Aí, saiu-me uma gargalhada incontrolada, agradeci-lhe, pois considerei isso um cumprimento, uma vez que acho o sotaque lisboeta lindíssimo!
Uma outra vez e desta feita numa apresentação de um livro na Biblioteca Nacional, no final do evento – tinha sido eu a apresentadora – veio ter comigo uma amiga e, sem introdução e nem transição, atira-me: «…pois bem Ondina, tu tens esta pronúncia que afinal é mesmo tua!...» despediu-se e deu por terminada a conversa. Achei o máximo! Pensei com os meus botões: «Que quereria ela dizer? Que afinal descobriu que o meu sotaque não é” afectado.” Terá sido!?».Pois bem, continuando, numa das minhas idas a Lisboa, entro num táxi na Portela, dou o endereço ao taxista e este inquiriu-me: «…a senhora é de Coimbra?». Adorei!
Aconteceu isto que passo a contar, quando fui pela primeira vez a São Paulo, Brasil participar num Encontro da AULP, (Associação das Universidades de Língua Portuguesa). Antes da partida, ainda na Praia, um colega muito conhecedor do país, avisou-me: «Atenção Ondina que em São Paulo vão gozar com o teu português, pois gozam com a nossa pronúncia!» Confesso que fiquei curiosa. Qual não foi o meu espanto, durante a estada nessa grande metrópole brasileira, só ter ouvido elogios do género: «...Mas você fala um português bonito!» e outros do género que deitaram por terra as apreensões do meu conterrâneo.
Uma outra vez, sentada num café, também em Lisboa, entabulo conversa com dois jovens angolanos e a determinada altura um deles questiona-me: «… a senhora é angolana ou portuguesa?...» e eu: «Por acaso, nem uma coisa, nem outra, sou cabo-verdiana…» e o outro, mostrando algum espanto: «…cabo-verdiana?...pois…mas é que os cabo-verdianos, normalmente não falam bem o português…» Tive que lhes explicar: «Pois eu sou de uma geração de cabo-verdianos que fala com a mesma naturalidade e segurança, tanto o português como o crioulo…» Acredite-se que dessa vez não gostei mesmo nada da observação…
Afinal, estas minhas memórias linguísticas e em termos de «passadas» saíram-me mais longas do que imaginei no início deste escrito, como intróito à história que propus contar e que sugere o título que encima este texto. De forma que me quedo por aqui prometendo retomá-la da próxima vez.
Entrei aqui há dias num táxi na grande Lisboa, cumprimentei o condutor e pedi-lhe para me levar ao aeroporto. Embarcava nessa noite com destino à Praia.
O taxista pergunta-me de seguida: «…a senhora é da Madeira?» respondi-lhe a sorrir: «Não, por acaso sou também de ilhas, mas não da Madeira…» Ele tornou-me: «Olhe, pela pronúncia, fi-la da Madeira» Eu já toda interessada neste teor da conversa – sempre vou acrescentando que de pronúncias já me atribuíram tantas em termos de regiões e de variantes da Língua portuguesa que a isso já me vou habituando. Achei interessante mais esta origem atribuída pelo modo de falar, quis pormenores, “atiçando” a conversa com o taxista.
Mas antes de continuar a história indiscreta (?) que me proponho recontar e que o título aponta, abro aqui um parêntesis para pormenorizar um pouco as pronúncias, o sotaque que alguns dos meus interlocutores na primeira conversa fazem confluir na minha expressão oral da nossa língua. Para não ir mais longe, começo da vez em que um Deputado em plena sessão da Assembleia Nacional, muito exaltado, se me dirigiu nestes termos: «…A senhora Ministra com a sua pronúncia alfacinha…» Aí, saiu-me uma gargalhada incontrolada, agradeci-lhe, pois considerei isso um cumprimento, uma vez que acho o sotaque lisboeta lindíssimo!
Uma outra vez e desta feita numa apresentação de um livro na Biblioteca Nacional, no final do evento – tinha sido eu a apresentadora – veio ter comigo uma amiga e, sem introdução e nem transição, atira-me: «…pois bem Ondina, tu tens esta pronúncia que afinal é mesmo tua!...» despediu-se e deu por terminada a conversa. Achei o máximo! Pensei com os meus botões: «Que quereria ela dizer? Que afinal descobriu que o meu sotaque não é” afectado.” Terá sido!?».Pois bem, continuando, numa das minhas idas a Lisboa, entro num táxi na Portela, dou o endereço ao taxista e este inquiriu-me: «…a senhora é de Coimbra?». Adorei!
Aconteceu isto que passo a contar, quando fui pela primeira vez a São Paulo, Brasil participar num Encontro da AULP, (Associação das Universidades de Língua Portuguesa). Antes da partida, ainda na Praia, um colega muito conhecedor do país, avisou-me: «Atenção Ondina que em São Paulo vão gozar com o teu português, pois gozam com a nossa pronúncia!» Confesso que fiquei curiosa. Qual não foi o meu espanto, durante a estada nessa grande metrópole brasileira, só ter ouvido elogios do género: «...Mas você fala um português bonito!» e outros do género que deitaram por terra as apreensões do meu conterrâneo.
Uma outra vez, sentada num café, também em Lisboa, entabulo conversa com dois jovens angolanos e a determinada altura um deles questiona-me: «… a senhora é angolana ou portuguesa?...» e eu: «Por acaso, nem uma coisa, nem outra, sou cabo-verdiana…» e o outro, mostrando algum espanto: «…cabo-verdiana?...pois…mas é que os cabo-verdianos, normalmente não falam bem o português…» Tive que lhes explicar: «Pois eu sou de uma geração de cabo-verdianos que fala com a mesma naturalidade e segurança, tanto o português como o crioulo…» Acredite-se que dessa vez não gostei mesmo nada da observação…
Afinal, estas minhas memórias linguísticas e em termos de «passadas» saíram-me mais longas do que imaginei no início deste escrito, como intróito à história que propus contar e que sugere o título que encima este texto. De forma que me quedo por aqui prometendo retomá-la da próxima vez.
E agora?!
domingo, 13 de março de 2011
E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, /
o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? /
...................................................
...................................................
Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato, /
sem teogonia, / sem parede nua / para se encostar, /
sem cavalo preto / que fuja a galope, /
você marcha, José! / José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade
Depois das últimas autárquicas criou-se a convicção entre as hostes do MpD de que este partido havia reencontrado o “caminho certo” e entrado numa dinâmica de vitória.
Os resultados tinham sido surpreendentes passando a estar nas mãos do MpD as maiores e mais emblemáticas câmaras do País – Praia, S. Vicente, ‘Sal’ e Santa Catarina – havendo duas, Praia e Santa Catarina, sido reconquistadas ao PAICV.
Tendo as eleições autárquicas um cunho especial, onde se crê, pontifica mais o perfil dos candidatos do que a organização da estrutura partidária apoiante, ninguém quis ler nos resultados algum mérito do então presidente do partido. E em vez de cerrarem fileiras e potenciarem os resultados optimizando-os com acções organizadas, estruturadas e orientadas, atribuem o sucesso autárquico à circunstancialidade ligada a um suposto enfraquecimento/desgaste do paicv, o que gerou expectativa de um regresso próximo ao poder fazendo com que determinados “barões” se movimentassem nos bastidores fabricando um falso “unanimismo” de interesses que convergiu no “forçado” regresso de Carlos Veiga à liderança do partido.
2. É fácil e cómodo hoje, crucificar o actual presidente do MpD pelos resultados eleitorais que ele, obviamente, frontalmente assume; e conferir-lhe toda a responsabilidade pela situação difícil com que o seu partido ora se defronta. Não deixa de ter grandes responsabilidades neles. Mas atribuir estas responsabilidades só a ele e ilibar os apoiantes do anterior presidente do partido da outra grande parte de culpa seria uma grande injustiça. As propaladas negociações que conduziram à lista única para a Convenção tornaram igualmente responsáveis tanto a actual direcção como a precedente.
3. Está hoje em causa uma nova liderança depois do desaire das eleições e, no meu ponto de vista, mais precisamente no fim do actual mandato que deve ser terminado, não só porque os mandatos são para cumprir mas também devido a proximidade das eleições autárquicas. Nenhuma organização pública deve ser refém de um homem. E MpD tem-no sido por culpa de ambos - do homem e do partido.
4. O anterior presidente do MpD, a sua equipa e apoiantes não foram suficientemente fortes nem politicamente corajosos para se constituírem numa frente alternativa, uma tendência. As tais apregoadas negociações que conduziram à lista única soaram a encenação para salvar a honra do convento ao mandarem, como sói dizer-se, às urtigas as suas convicções a troco de uma longínqua miragem do poder. Subestimaram-se, submeteram-se e ignoraram deliberadamente (internamente) os fundamentos da democracia – submissão à orientação da maioria e rejeição (desconfiança) do unanimismo característico dos regimes monolíticos que é bem distinto do desejável consenso que até pode ser regra.
Este mesmo MpD que se diz um partido democrático e plural teme tendências e não consegue conviver com diferenças, com democracia interna. Assim o foi no Governo, mesmo com maioria qualificada, assim o é na oposição.
5. É tempo de mudar, de interiorizar a pluralidade, de se regressar às ‘opções inteligentes’. Não são obrigatórias as tendências, mas se existirem devem ser aceitas, respeitadas, toleradas sem quaisquer desconfianças ou preconceitos, entendidas como um “reforço”, uma outra visão, uma evidência de pluralidade e não uma fragilidade.
Para as chamadas tendências que mais não são do que sintonizadas correntes de opinião normalmente críticas e obviamente minoritárias no interior do partido mas devidamente identificadas, também existem regras de coexistência e de convivência em que o protagonismo não deve ultrapassar o espaço interno e o mediatismo deve revestir-se de um “low profile” e sempre que possível com omissão pública dos desacordos ou travesti-los de algum consenso com as linhas orientadoras vigentes do partido. Ao fim e ao cabo, em tese, o combate é o mesmo e as diferenças não existem no “essencial” (ideologia, projecto de sociedade) mas no modus faciendi, nas orientações, a menos que haja mesmo “inultrapassável” perversão dos estatutos e das regras do jogo.
6. Os antecedentes que de perto gravitaram à volta das últimas eleições no MpD não dignificaram o partido nem os putativos e anunciados candidatos, designadamente o então presidente que inutilmente se diluiu e se autodestruiu. Não acreditou no seu projecto, nas suas orientações, mas sobretudo, o que é muito grave, na sua capacidade de os levar avante. Não propiciou uma separação das águas relegando as chamadas negociações, a eventual procura de consenso, e não de unanimidade, para o decurso do próprio acto eleitoral ou para a fase pós-eleitoral vincando a individualidade (singularidade) do seu projecto. Ele e a sua equipa são hoje os grandes responsáveis pela potencial e indesejada mas previsível orfandade do MpD. Oxalá me engane na previsão embora não seja adepto do sebastianismo.
7. O MpD está num beco sem saída, desencantado, desiludido, sem uma reserva estratégica, sem uma visível alternativa credível, sem uma opção, tudo por falta de coragem e de convicções da anterior direcção; e agora anda com a candeia de Diógenes na mão à procura de um outro verdadeiro líder.
É preciso sair deste buraco para o bem da democracia cabo-verdiana. Um MpD e uma UCID fortes precisam-se. O primeiro – MpD – estruturando-se, organizando-se, renovando-se racionalmente e, sobretudo, trabalhando, trabalhando, trabalhando. Não abdicar um só momento da sua condição de líder da oposição não só a parlamentar como a da sociedade política como partido alternativo de poder. Congregar, desde já, todas as suas forças, todas as forças da sua área política, tendo permanentemente presente que todos, mas mesmo todos, não serão de mais, e marcando cada vez mais a sua identidade não pela negação mas pela afirmação – os que rejeitam paicv não são necessariamente mpd ou ucid. A segunda – UCID – continuando a trabalhar, agora com mais vigor, mas sobretudo, orientado no sentido de ultrapassar o seu carácter regional; alargar a sua abrangência e ganhar parlamentarmente o estatuto de partido nacional. As condições estão maduras para um trabalho desse género. Deve assumir-se como verdadeira oposição que é e não sentar-se no muro como algumas vezes o fez na última legislatura. A sociedade clama por um partido charneira, que faça o contrapeso e a UCID tem potencialidade e perfil.
8. A sociedade cabo-verdiana tem fortes razões para estar preocupada. Os resultados eleitorais reflectem uma oposição fraca, debilitada e totalmente dessincronizada com o país real. E é sabido que não há verdadeira democracia sem uma oposição forte.
O apoio, no meu ponto de vista, precipitado, agora dado para as presidenciais a um independente em detrimento de um fiel, leal, diligente, “disciplinado”, pelos vistos, em demasia, e notável militante, com um curriculum político e de dedicação ao partido invejáveis (Presidente de Câmara, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Deputado da Nação, Presidente da Assembleia Nacional) não só não é curial como reflecte um partido sem norte, que menospreza os seus valores, facilmente manipulável e seguramente negligente.
Nas circunstâncias actuais um partido com a dimensão e o estatuto do MpD só apoia um independente se não tiver o seu próprio candidato; se ninguém no seu interior com perfil adequado se dispuser a fazê-lo. E se tiver de o fazer deve evitar fazê-lo de forma ligeira, precipitada, imprudente, sem um rastreio prévio dos seus potenciais candidatos e sem um estudo sério que salvaguarde a sua mensagem e garanta a concepção do exercício da função presidencial que defende. O apoio dado a um independente, por um grande partido na oposição, realço ‘grande partido na oposição’, é uma declaração explícita de falência ou de total falta de ambição. E não me venham com a lengalenga da despartidarização ou apartidarização das eleições presidenciais que desde há algum tempo é apenas semântica e que não passa por aí.
9. Estou profundamente preocupado com o espectro de uma eventual mexicanização do nosso regime político. E a minha preocupação é tanto maior quanto mais olho para a oposição que temos que desperdiça oportunidades cruciais de união, de concertação, de clarificação da sua mensagem que, vê-se, não tem passado para se condicionar a compromissos e projectos pessoais sem uma serena meditação sobre o efectivo interesse da sua comunidade política.
10. A nossa jovem democracia encontra-se numa encruzilhada que requer uma profunda reflexão e tomada urgente de medidas sob pena de voltarmos “democraticamente” para um regime não de partido único mas de um só partido.
Até lá, até que a oposição tome consciência do fosso em que se encontra e da efectiva urgência de dali sair, apraz-me parafrasear, porque pertinente, o poeta Carlos Drummond de Andrade no poema parcialmente transcrito no início deste texto:
E agora José? / … / José, para onde?
A. Ferreira
o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? /
...................................................
...................................................
Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato, /
sem teogonia, / sem parede nua / para se encostar, /
sem cavalo preto / que fuja a galope, /
você marcha, José! / José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade
Depois das últimas autárquicas criou-se a convicção entre as hostes do MpD de que este partido havia reencontrado o “caminho certo” e entrado numa dinâmica de vitória.
Os resultados tinham sido surpreendentes passando a estar nas mãos do MpD as maiores e mais emblemáticas câmaras do País – Praia, S. Vicente, ‘Sal’ e Santa Catarina – havendo duas, Praia e Santa Catarina, sido reconquistadas ao PAICV.
Tendo as eleições autárquicas um cunho especial, onde se crê, pontifica mais o perfil dos candidatos do que a organização da estrutura partidária apoiante, ninguém quis ler nos resultados algum mérito do então presidente do partido. E em vez de cerrarem fileiras e potenciarem os resultados optimizando-os com acções organizadas, estruturadas e orientadas, atribuem o sucesso autárquico à circunstancialidade ligada a um suposto enfraquecimento/desgaste do paicv, o que gerou expectativa de um regresso próximo ao poder fazendo com que determinados “barões” se movimentassem nos bastidores fabricando um falso “unanimismo” de interesses que convergiu no “forçado” regresso de Carlos Veiga à liderança do partido.
2. É fácil e cómodo hoje, crucificar o actual presidente do MpD pelos resultados eleitorais que ele, obviamente, frontalmente assume; e conferir-lhe toda a responsabilidade pela situação difícil com que o seu partido ora se defronta. Não deixa de ter grandes responsabilidades neles. Mas atribuir estas responsabilidades só a ele e ilibar os apoiantes do anterior presidente do partido da outra grande parte de culpa seria uma grande injustiça. As propaladas negociações que conduziram à lista única para a Convenção tornaram igualmente responsáveis tanto a actual direcção como a precedente.
3. Está hoje em causa uma nova liderança depois do desaire das eleições e, no meu ponto de vista, mais precisamente no fim do actual mandato que deve ser terminado, não só porque os mandatos são para cumprir mas também devido a proximidade das eleições autárquicas. Nenhuma organização pública deve ser refém de um homem. E MpD tem-no sido por culpa de ambos - do homem e do partido.
4. O anterior presidente do MpD, a sua equipa e apoiantes não foram suficientemente fortes nem politicamente corajosos para se constituírem numa frente alternativa, uma tendência. As tais apregoadas negociações que conduziram à lista única soaram a encenação para salvar a honra do convento ao mandarem, como sói dizer-se, às urtigas as suas convicções a troco de uma longínqua miragem do poder. Subestimaram-se, submeteram-se e ignoraram deliberadamente (internamente) os fundamentos da democracia – submissão à orientação da maioria e rejeição (desconfiança) do unanimismo característico dos regimes monolíticos que é bem distinto do desejável consenso que até pode ser regra.
Este mesmo MpD que se diz um partido democrático e plural teme tendências e não consegue conviver com diferenças, com democracia interna. Assim o foi no Governo, mesmo com maioria qualificada, assim o é na oposição.
5. É tempo de mudar, de interiorizar a pluralidade, de se regressar às ‘opções inteligentes’. Não são obrigatórias as tendências, mas se existirem devem ser aceitas, respeitadas, toleradas sem quaisquer desconfianças ou preconceitos, entendidas como um “reforço”, uma outra visão, uma evidência de pluralidade e não uma fragilidade.
Para as chamadas tendências que mais não são do que sintonizadas correntes de opinião normalmente críticas e obviamente minoritárias no interior do partido mas devidamente identificadas, também existem regras de coexistência e de convivência em que o protagonismo não deve ultrapassar o espaço interno e o mediatismo deve revestir-se de um “low profile” e sempre que possível com omissão pública dos desacordos ou travesti-los de algum consenso com as linhas orientadoras vigentes do partido. Ao fim e ao cabo, em tese, o combate é o mesmo e as diferenças não existem no “essencial” (ideologia, projecto de sociedade) mas no modus faciendi, nas orientações, a menos que haja mesmo “inultrapassável” perversão dos estatutos e das regras do jogo.
6. Os antecedentes que de perto gravitaram à volta das últimas eleições no MpD não dignificaram o partido nem os putativos e anunciados candidatos, designadamente o então presidente que inutilmente se diluiu e se autodestruiu. Não acreditou no seu projecto, nas suas orientações, mas sobretudo, o que é muito grave, na sua capacidade de os levar avante. Não propiciou uma separação das águas relegando as chamadas negociações, a eventual procura de consenso, e não de unanimidade, para o decurso do próprio acto eleitoral ou para a fase pós-eleitoral vincando a individualidade (singularidade) do seu projecto. Ele e a sua equipa são hoje os grandes responsáveis pela potencial e indesejada mas previsível orfandade do MpD. Oxalá me engane na previsão embora não seja adepto do sebastianismo.
7. O MpD está num beco sem saída, desencantado, desiludido, sem uma reserva estratégica, sem uma visível alternativa credível, sem uma opção, tudo por falta de coragem e de convicções da anterior direcção; e agora anda com a candeia de Diógenes na mão à procura de um outro verdadeiro líder.
É preciso sair deste buraco para o bem da democracia cabo-verdiana. Um MpD e uma UCID fortes precisam-se. O primeiro – MpD – estruturando-se, organizando-se, renovando-se racionalmente e, sobretudo, trabalhando, trabalhando, trabalhando. Não abdicar um só momento da sua condição de líder da oposição não só a parlamentar como a da sociedade política como partido alternativo de poder. Congregar, desde já, todas as suas forças, todas as forças da sua área política, tendo permanentemente presente que todos, mas mesmo todos, não serão de mais, e marcando cada vez mais a sua identidade não pela negação mas pela afirmação – os que rejeitam paicv não são necessariamente mpd ou ucid. A segunda – UCID – continuando a trabalhar, agora com mais vigor, mas sobretudo, orientado no sentido de ultrapassar o seu carácter regional; alargar a sua abrangência e ganhar parlamentarmente o estatuto de partido nacional. As condições estão maduras para um trabalho desse género. Deve assumir-se como verdadeira oposição que é e não sentar-se no muro como algumas vezes o fez na última legislatura. A sociedade clama por um partido charneira, que faça o contrapeso e a UCID tem potencialidade e perfil.
8. A sociedade cabo-verdiana tem fortes razões para estar preocupada. Os resultados eleitorais reflectem uma oposição fraca, debilitada e totalmente dessincronizada com o país real. E é sabido que não há verdadeira democracia sem uma oposição forte.
O apoio, no meu ponto de vista, precipitado, agora dado para as presidenciais a um independente em detrimento de um fiel, leal, diligente, “disciplinado”, pelos vistos, em demasia, e notável militante, com um curriculum político e de dedicação ao partido invejáveis (Presidente de Câmara, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Deputado da Nação, Presidente da Assembleia Nacional) não só não é curial como reflecte um partido sem norte, que menospreza os seus valores, facilmente manipulável e seguramente negligente.
Nas circunstâncias actuais um partido com a dimensão e o estatuto do MpD só apoia um independente se não tiver o seu próprio candidato; se ninguém no seu interior com perfil adequado se dispuser a fazê-lo. E se tiver de o fazer deve evitar fazê-lo de forma ligeira, precipitada, imprudente, sem um rastreio prévio dos seus potenciais candidatos e sem um estudo sério que salvaguarde a sua mensagem e garanta a concepção do exercício da função presidencial que defende. O apoio dado a um independente, por um grande partido na oposição, realço ‘grande partido na oposição’, é uma declaração explícita de falência ou de total falta de ambição. E não me venham com a lengalenga da despartidarização ou apartidarização das eleições presidenciais que desde há algum tempo é apenas semântica e que não passa por aí.
9. Estou profundamente preocupado com o espectro de uma eventual mexicanização do nosso regime político. E a minha preocupação é tanto maior quanto mais olho para a oposição que temos que desperdiça oportunidades cruciais de união, de concertação, de clarificação da sua mensagem que, vê-se, não tem passado para se condicionar a compromissos e projectos pessoais sem uma serena meditação sobre o efectivo interesse da sua comunidade política.
10. A nossa jovem democracia encontra-se numa encruzilhada que requer uma profunda reflexão e tomada urgente de medidas sob pena de voltarmos “democraticamente” para um regime não de partido único mas de um só partido.
Até lá, até que a oposição tome consciência do fosso em que se encontra e da efectiva urgência de dali sair, apraz-me parafrasear, porque pertinente, o poeta Carlos Drummond de Andrade no poema parcialmente transcrito no início deste texto:
E agora José? / … / José, para onde?
A. Ferreira
Construir conhecimento...
quinta-feira, 10 de março de 2011
Há dias falando com um amigo e colega do antigo ISE (Instituto Superior de Educação) hoje departamento da Universidade de Cabo Verde, dizia-me ele – meio indignado e ainda estupefacto – que uma das inovações introduzida em alguns dos cursos de formação de professores havia sido a dispensa ou, a eliminação no currículo formativo dos alunos, da elaboração e da defesa oral da chamada monografia ou melhor, do trabalho de fim de curso.
Tal como o meu antigo colega fiquei perplexa, pois entendemos ambos que o trabalho exigido ao aluno no último ano da sua formação para a docência reflectirá ou, deverá reflectir, uma ou várias das facetas dos conhecimentos adquiridos ao longo dos quatro anos do curso. Que simbólico e afinal real também, esse trabalho elaborado pelo finalista e submetido a um júri para apreciação, avaliação e classificação, é uma forma de iniciação e de treino do estudante para pesquisas mais amplas e profundas com que necessariamente se terá de confrontar na vida profissional, já que estamos a falar de professor, até mesmo de futuro investigador e/ou de futuro ensaísta.
Para além disso, é nosso entendimento de que a tese de final do curso é um grande primeiro momento – de forma autónoma – de “construção de conhecimento,” sobretudo se ajudada por uma pesquisa orientada para a prática e pela teoria acumulada durante o curso.
Daí a sua validade e a sua importância como um corolário dos estudos feitos numa determinada área científica e didáctica e que na mesma linha, não deixa de ser uma “ferramenta de trabalho” útil ao futuro professor.
Ora, a ser verdade que vem a caminho a eliminação, a supressão, do currículo formativo do futuro docente da dissertação final – permitam-me esta abordagem – a um tempo expositiva e argumentativa que é o seu trabalho de fim do curso. É minha opinião que se está certamente a empobrecer, a reduzir “o saber” para a docência, para a pesquisa e a subestimar uma oportunidade, que diria excelente de o formando, agora com alguma autonomia científica, de poder ele próprio, formando – construir conhecimento.
Espero que este não seja mais um daqueles momentos em que o nosso processo nacional de ensino/aprendizagem, “ganhe” algum ou mais um traço de menos valia...
Tal como o meu antigo colega fiquei perplexa, pois entendemos ambos que o trabalho exigido ao aluno no último ano da sua formação para a docência reflectirá ou, deverá reflectir, uma ou várias das facetas dos conhecimentos adquiridos ao longo dos quatro anos do curso. Que simbólico e afinal real também, esse trabalho elaborado pelo finalista e submetido a um júri para apreciação, avaliação e classificação, é uma forma de iniciação e de treino do estudante para pesquisas mais amplas e profundas com que necessariamente se terá de confrontar na vida profissional, já que estamos a falar de professor, até mesmo de futuro investigador e/ou de futuro ensaísta.
Para além disso, é nosso entendimento de que a tese de final do curso é um grande primeiro momento – de forma autónoma – de “construção de conhecimento,” sobretudo se ajudada por uma pesquisa orientada para a prática e pela teoria acumulada durante o curso.
Daí a sua validade e a sua importância como um corolário dos estudos feitos numa determinada área científica e didáctica e que na mesma linha, não deixa de ser uma “ferramenta de trabalho” útil ao futuro professor.
Ora, a ser verdade que vem a caminho a eliminação, a supressão, do currículo formativo do futuro docente da dissertação final – permitam-me esta abordagem – a um tempo expositiva e argumentativa que é o seu trabalho de fim do curso. É minha opinião que se está certamente a empobrecer, a reduzir “o saber” para a docência, para a pesquisa e a subestimar uma oportunidade, que diria excelente de o formando, agora com alguma autonomia científica, de poder ele próprio, formando – construir conhecimento.
Espero que este não seja mais um daqueles momentos em que o nosso processo nacional de ensino/aprendizagem, “ganhe” algum ou mais um traço de menos valia...
As Legislativas de 2011 – uma abordagem *
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Hoje, no auge do crescendo das tecnologias de informação e comunicação é cada vez mais o povo quem mais ordena independentemente da natureza do regime, a menos que o não queira fazer. A vaga de revolta e de manifestações populares que assola o mundo árabe é prova evidente deste facto.
Não sou político no sentido restrito do termo, por isso não tenho que ser “politicamente correcto” para dizer que o povo tem sempre razão quando é sabido que o voto de um analfabeto vale tanto como o de um professor.
Manda a democracia que nos submetamos às decisões do povo. É uma regra de ouro e é bom que assim seja na falta de um sistema melhor, mais equilibrado. Mas daí a esse povo ter sempre razão vai um abismo. Ele é tão ou mais manipulável do que qualquer cidadão avisado. É neste sentido que se desenvolvem as ciências e tecnologias do marketing e se afirma com êxito a publicidade, a maior parte das vezes, enganosa.
2. Não sei se é nessa esteira que a ampla, abstracta e vazia “Mais Cabo Verde” se impôs ao humanista e dirigido “Governar para as Pessoas” ou “As pessoas em Primeiro” ou a postura televisiva de um irrequieto e intranquilo “enfant terrible” tenha granjeado mais simpatias que a de um sereno, composto e maduro cidadão para a figura de Primeiro-Ministro.
No que eu tenho poucas dúvidas, ou nenhumas, é que a mensagem de que o governo do PAICV não tinha feito nada, era enganosa. Que com os mesmos meios podia ter sido feito muito mais, já não tenho dúvidas. Como não tenho dúvidas que o PAICV tem instalado no País uma partidocracia onde pontifica uma mal-disfarçada nepoticracia que só um trabalho de denúncia permanente, sério e honesto da oposição pode atenuar. Não acredito na sua mais do que desejável erradicação.
3. Igualmente enganosa é a mensagem bairrista da oposição de que S. Vicente estava esquecido em favor de Santiago – a maior ilha do País com mais de metade da população. Não tinha pernas para andar depois dos investimentos (infelizmente sem critério e sem qualquer preocupação com o devido retorno) feitos na Ilha. Alguns, nomeadamente a estrada que liga Baía a Calhau é pouco mais do que uma via de agressão ao ambiente por facilitar a apanha da areia em vez de incrementar a circulação de pessoas e bens quando tantas melhores alternativas havia para aplicação desse financiamento.
4. Congratulamo-nos todos pela maneira globalmente ordeira e correcta como decorreram as eleições; pela aceitável taxa de abstenção e pela “ausência” de reclamações de irregularidades, não obstante se comente à boca cheia “compra de votos” e outras anomalias o que não é de todo inverosímil dado o historial do comportamento do partido no poder em eleições anteriores. Mas os resultados foram de tal forma inequívocos que se dúvidas surgissem quanto a irregularidades seriam facilmente fagocitadas pelos números. Aliás, a diferença do número de deputados não reflecte a diferença de votos.
A confirmar, assinale-se que apenas em S. Nicolau e no Maio, a mais verde de todas as ilhas, o MpD ultrapassou a fasquia dos 50% dos votos; e registe-se também que em S. Vicente, ao contrário do embandeiramento em arco que o PAICV vem fazendo a oposição conseguiu o mesmo feito – é também absolutamente maioritária.
Felicitamos vivamente todos os partidos participantes e com especial ênfase o partido vencedor – PAICV – e o seu líder – Dr. José Maria Neves e esperamos que cada um se empenhe com ou sem tacticismos partidários para a defesa efectiva dos valores e das promessas que com tanto ardor proclamaram e fizeram durante as campanhas.
5. A vitória do PAICV era uma vitória “esperada”. Há cinco anos já se sabia e se comentava, dada a disponibilidade de financiamentos em pipeline e projectados que se vislumbrava que quem vencesse as eleições teria a possibilidade efectiva de o fazer por 10 anos. As probabilidades eram grandes. Assim se previu, assim aconteceu. Não cabe aqui descrever a justeza da aplicação desses financiamentos. Se eram para votos, os resultados são inegavelmente satisfatórios não obstante seja o povo a pagá-los. Se eram para o benefício da população uma análise serena e correcta não nos afastaria de entre boas e necessárias realizações de uma boa série de elefantes brancos que também teremos de pagar.
6. Em Cabo Verde, como em quase todos os países, em circunstâncias normais as eleições não se ganham, perdem-se. Sobretudo quando a força no poder joga, no nosso caso com total impunidade, com todas as peças do tabuleiro: as legais e legítimas e as proibidas e condenadas. E não faltaram casos nestas eleições, alguns bem bizarros atentando contra a inteligência das pessoas como aquele em que o PM e presidente do PAICV inaugura em plena campanha eleitoral porque, diz ele, as crianças não podem ficar sem refeições. A impunidade das eleições anteriores e a conhecida complacência – um eufemismo para não dizer outra coisa – da justiça dão ânimo e moral para continuar a desafiar as leis da República.
7. O igualmente abstracto e abrangente “mesti muda” do MpD, mensagem com a qual também comungo, chocava com a figura do seu líder carismático, e de sempre, Dr. Carlos Alberto Veiga. Era inconsequente e incoerente o “mesti muda” quando tinha como bandeira alguém que estava na primeiríssima linha do seu partido desde a primeira hora e que em si era a negação da renovação reclamada no “mesti muda” no interior do seu próprio partido. Não estava em causa a sua inteligência, seguramente acima da média, o seu profundo conhecimento da realidade cabo-verdiana, a sua reconhecida capacidade e qualidade de trabalho ou o seu inegável espírito de luta. Mas trazia consigo a síndrome do seu último mandato como executivo e o espectro resultante da sua manifesta incapacidade em distinguir a amizade pessoal da solidariedade política sendo o caso mais gritante, diria mesmo escandaloso, o seu posicionamento nas últimas autárquicas em S. Vicente ao dar o seu “apoio” público a uma candidatura adversária à do seu próprio partido. Ser amigo nada tem a ver com afinidade ou solidariedade políticas!...
8. A vitória do PAICV nestas últimas eleições, no meu ponto de vista contraproducente, não porque bole com a essência da democracia - não traz qualquer ineditismo à história da democracia - mas porque numa nascente democracia como a nossa ratifica e consolida más práticas e vícios instalados que poderão vir a ganhar raízes e confundir-se com normalidades democráticas apenas porque não rejeitadas nas urnas, e ainda com a agravante de encontrar ecos no continente.
9. Os conhecidos narcisismo e vaidade do presidente do PAICV, aliados à sua arrogância política exacerbaram-se com discursos hiperbólicos que por vezes roçam a infantilidade e a irresponsabilidade. E não me refiro ao facto de se vangloriar “herói” por um terceiro mandato consecutivo – não lhe retiro o mérito – em contraposição a Carlos Veiga que ele quer “diminuir” politicamente por ter tido só dois. Esquece apenas que é tão “herói” com três mandatos consecutivos como Carlos Veiga o foi com duas maiorias qualificadas sendo, em democracia, este facto muito mais raro do que três mandatos. Pessoalmente, sou contra três mandatos consecutivos do mesmo jeito que sou contra maiorias qualificadas embora por razões diferentes.
10. Não estou entre aqueles que saudaram o regresso de Carlos Veiga à liderança do seu partido. Não porque pensasse que ele já nada mais tinha a acrescentar ao muito que tinha dado à democracia cabo-verdiana. Bem pelo contrário, achava e acho que ele é sempre uma mais-valia para a sociedade política cabo-verdiana concordando-se ou não com ele.
Pressentia mais do que sentia que, para os menos jovens, aqueles que lhes haviam dado, a ele e ao seu MpD, duas maiorias qualificadas a mágoa e a indignação pelo modo turbulento, menos digno e até desrespeitoso com que terminara o seu segundo mandato como executivo permaneciam ainda.
A punição tinha sido severa – saltar de uma maioria qualificada directamente para a oposição. Também inédito pela negativa. E o MpD não a soube interpretar enquanto o PAICV capitalizava de tal forma esses erros que as pessoas, as tais menos jovens, perderam a memória do brilhante primeiro mandato de Carlos Veiga e o seu MpD em que lançaram as bases da nossa democracia e modularam o paradigma de gestão para o desenvolvimento que hoje seguimos e usufruímos vencendo a obsolescência que então reinava. Foi por todas as razões o período áureo e mais marcante – só há antes e depois – do nosso desenvolvimento global.
11. Terminaram as eleições. É tempo de governar. O povo – juiz – rejeitou a mudança e sentenciou a continuidade. O reeleito PM diz que será o primeiro-ministro de todos os cabo-verdianos. Ninguém, nem ele próprio, acredita nas suas palavras. Nunca o foi e não se vislumbra nenhuma mudança no ambiente de provocação e crispação partidárias que ele alimenta como nutriente para o seu incomensurável ego. Ele há-de se justificar sempre com a suposta vontade das bases…
O que todos nós esperamos é que ele seja mais comedido nas palavras e mais cumpridor das promessas, sobretudo as que bolem com o bem-estar e sobrevivência das pessoas.
12. Não sei se lhe admiro a coragem e generosidade ou lhe abomino a inconsciência e irresponsabilidade. Não aludo ao prometido milhão de turistas no próximo ano. Mas atente-se que num momento de crise mundial em que países “doadores” congelam e reduzem salários ele promete o 13º mês; quando a Europa sai para a rua reclamando contra cortes de regalias sociais ele promete a pensão social igual ao salário mínimo que também prometeu criar (legislar) à boa maneira dos países “ricos”. Se calhar nunca se debruçou sobre o que produzimos. O nosso PNB e não o nosso PIB onde entra o milho que nos dão e os perús que nos mandam atrás. (Vide o sector da Construção Civil e Obras Públicas)
Mas o problema não é dar essas regalias que todos queremos, é a sua sustentabilidade. Eu, pessoalmente, já me contentava com as anteriores promessas, ainda por cumprir, de reduzir a taxa do desemprego a um dígito e levar a do crescimento a dois dígitos. E que nunca nos falte o 12º mês. Como se vê concedo uma prorrogação de mais cinco anos para cumprir a antiga promessa de 2006. Se o conseguir terá o meu voto.
A. Ferreira
*Texto publicado na edição de Fevereiro do mensário “Terra Nova”
Não sou político no sentido restrito do termo, por isso não tenho que ser “politicamente correcto” para dizer que o povo tem sempre razão quando é sabido que o voto de um analfabeto vale tanto como o de um professor.
Manda a democracia que nos submetamos às decisões do povo. É uma regra de ouro e é bom que assim seja na falta de um sistema melhor, mais equilibrado. Mas daí a esse povo ter sempre razão vai um abismo. Ele é tão ou mais manipulável do que qualquer cidadão avisado. É neste sentido que se desenvolvem as ciências e tecnologias do marketing e se afirma com êxito a publicidade, a maior parte das vezes, enganosa.
2. Não sei se é nessa esteira que a ampla, abstracta e vazia “Mais Cabo Verde” se impôs ao humanista e dirigido “Governar para as Pessoas” ou “As pessoas em Primeiro” ou a postura televisiva de um irrequieto e intranquilo “enfant terrible” tenha granjeado mais simpatias que a de um sereno, composto e maduro cidadão para a figura de Primeiro-Ministro.
No que eu tenho poucas dúvidas, ou nenhumas, é que a mensagem de que o governo do PAICV não tinha feito nada, era enganosa. Que com os mesmos meios podia ter sido feito muito mais, já não tenho dúvidas. Como não tenho dúvidas que o PAICV tem instalado no País uma partidocracia onde pontifica uma mal-disfarçada nepoticracia que só um trabalho de denúncia permanente, sério e honesto da oposição pode atenuar. Não acredito na sua mais do que desejável erradicação.
3. Igualmente enganosa é a mensagem bairrista da oposição de que S. Vicente estava esquecido em favor de Santiago – a maior ilha do País com mais de metade da população. Não tinha pernas para andar depois dos investimentos (infelizmente sem critério e sem qualquer preocupação com o devido retorno) feitos na Ilha. Alguns, nomeadamente a estrada que liga Baía a Calhau é pouco mais do que uma via de agressão ao ambiente por facilitar a apanha da areia em vez de incrementar a circulação de pessoas e bens quando tantas melhores alternativas havia para aplicação desse financiamento.
4. Congratulamo-nos todos pela maneira globalmente ordeira e correcta como decorreram as eleições; pela aceitável taxa de abstenção e pela “ausência” de reclamações de irregularidades, não obstante se comente à boca cheia “compra de votos” e outras anomalias o que não é de todo inverosímil dado o historial do comportamento do partido no poder em eleições anteriores. Mas os resultados foram de tal forma inequívocos que se dúvidas surgissem quanto a irregularidades seriam facilmente fagocitadas pelos números. Aliás, a diferença do número de deputados não reflecte a diferença de votos.
A confirmar, assinale-se que apenas em S. Nicolau e no Maio, a mais verde de todas as ilhas, o MpD ultrapassou a fasquia dos 50% dos votos; e registe-se também que em S. Vicente, ao contrário do embandeiramento em arco que o PAICV vem fazendo a oposição conseguiu o mesmo feito – é também absolutamente maioritária.
Felicitamos vivamente todos os partidos participantes e com especial ênfase o partido vencedor – PAICV – e o seu líder – Dr. José Maria Neves e esperamos que cada um se empenhe com ou sem tacticismos partidários para a defesa efectiva dos valores e das promessas que com tanto ardor proclamaram e fizeram durante as campanhas.
5. A vitória do PAICV era uma vitória “esperada”. Há cinco anos já se sabia e se comentava, dada a disponibilidade de financiamentos em pipeline e projectados que se vislumbrava que quem vencesse as eleições teria a possibilidade efectiva de o fazer por 10 anos. As probabilidades eram grandes. Assim se previu, assim aconteceu. Não cabe aqui descrever a justeza da aplicação desses financiamentos. Se eram para votos, os resultados são inegavelmente satisfatórios não obstante seja o povo a pagá-los. Se eram para o benefício da população uma análise serena e correcta não nos afastaria de entre boas e necessárias realizações de uma boa série de elefantes brancos que também teremos de pagar.
6. Em Cabo Verde, como em quase todos os países, em circunstâncias normais as eleições não se ganham, perdem-se. Sobretudo quando a força no poder joga, no nosso caso com total impunidade, com todas as peças do tabuleiro: as legais e legítimas e as proibidas e condenadas. E não faltaram casos nestas eleições, alguns bem bizarros atentando contra a inteligência das pessoas como aquele em que o PM e presidente do PAICV inaugura em plena campanha eleitoral porque, diz ele, as crianças não podem ficar sem refeições. A impunidade das eleições anteriores e a conhecida complacência – um eufemismo para não dizer outra coisa – da justiça dão ânimo e moral para continuar a desafiar as leis da República.
7. O igualmente abstracto e abrangente “mesti muda” do MpD, mensagem com a qual também comungo, chocava com a figura do seu líder carismático, e de sempre, Dr. Carlos Alberto Veiga. Era inconsequente e incoerente o “mesti muda” quando tinha como bandeira alguém que estava na primeiríssima linha do seu partido desde a primeira hora e que em si era a negação da renovação reclamada no “mesti muda” no interior do seu próprio partido. Não estava em causa a sua inteligência, seguramente acima da média, o seu profundo conhecimento da realidade cabo-verdiana, a sua reconhecida capacidade e qualidade de trabalho ou o seu inegável espírito de luta. Mas trazia consigo a síndrome do seu último mandato como executivo e o espectro resultante da sua manifesta incapacidade em distinguir a amizade pessoal da solidariedade política sendo o caso mais gritante, diria mesmo escandaloso, o seu posicionamento nas últimas autárquicas em S. Vicente ao dar o seu “apoio” público a uma candidatura adversária à do seu próprio partido. Ser amigo nada tem a ver com afinidade ou solidariedade políticas!...
8. A vitória do PAICV nestas últimas eleições, no meu ponto de vista contraproducente, não porque bole com a essência da democracia - não traz qualquer ineditismo à história da democracia - mas porque numa nascente democracia como a nossa ratifica e consolida más práticas e vícios instalados que poderão vir a ganhar raízes e confundir-se com normalidades democráticas apenas porque não rejeitadas nas urnas, e ainda com a agravante de encontrar ecos no continente.
9. Os conhecidos narcisismo e vaidade do presidente do PAICV, aliados à sua arrogância política exacerbaram-se com discursos hiperbólicos que por vezes roçam a infantilidade e a irresponsabilidade. E não me refiro ao facto de se vangloriar “herói” por um terceiro mandato consecutivo – não lhe retiro o mérito – em contraposição a Carlos Veiga que ele quer “diminuir” politicamente por ter tido só dois. Esquece apenas que é tão “herói” com três mandatos consecutivos como Carlos Veiga o foi com duas maiorias qualificadas sendo, em democracia, este facto muito mais raro do que três mandatos. Pessoalmente, sou contra três mandatos consecutivos do mesmo jeito que sou contra maiorias qualificadas embora por razões diferentes.
10. Não estou entre aqueles que saudaram o regresso de Carlos Veiga à liderança do seu partido. Não porque pensasse que ele já nada mais tinha a acrescentar ao muito que tinha dado à democracia cabo-verdiana. Bem pelo contrário, achava e acho que ele é sempre uma mais-valia para a sociedade política cabo-verdiana concordando-se ou não com ele.
Pressentia mais do que sentia que, para os menos jovens, aqueles que lhes haviam dado, a ele e ao seu MpD, duas maiorias qualificadas a mágoa e a indignação pelo modo turbulento, menos digno e até desrespeitoso com que terminara o seu segundo mandato como executivo permaneciam ainda.
A punição tinha sido severa – saltar de uma maioria qualificada directamente para a oposição. Também inédito pela negativa. E o MpD não a soube interpretar enquanto o PAICV capitalizava de tal forma esses erros que as pessoas, as tais menos jovens, perderam a memória do brilhante primeiro mandato de Carlos Veiga e o seu MpD em que lançaram as bases da nossa democracia e modularam o paradigma de gestão para o desenvolvimento que hoje seguimos e usufruímos vencendo a obsolescência que então reinava. Foi por todas as razões o período áureo e mais marcante – só há antes e depois – do nosso desenvolvimento global.
11. Terminaram as eleições. É tempo de governar. O povo – juiz – rejeitou a mudança e sentenciou a continuidade. O reeleito PM diz que será o primeiro-ministro de todos os cabo-verdianos. Ninguém, nem ele próprio, acredita nas suas palavras. Nunca o foi e não se vislumbra nenhuma mudança no ambiente de provocação e crispação partidárias que ele alimenta como nutriente para o seu incomensurável ego. Ele há-de se justificar sempre com a suposta vontade das bases…
O que todos nós esperamos é que ele seja mais comedido nas palavras e mais cumpridor das promessas, sobretudo as que bolem com o bem-estar e sobrevivência das pessoas.
12. Não sei se lhe admiro a coragem e generosidade ou lhe abomino a inconsciência e irresponsabilidade. Não aludo ao prometido milhão de turistas no próximo ano. Mas atente-se que num momento de crise mundial em que países “doadores” congelam e reduzem salários ele promete o 13º mês; quando a Europa sai para a rua reclamando contra cortes de regalias sociais ele promete a pensão social igual ao salário mínimo que também prometeu criar (legislar) à boa maneira dos países “ricos”. Se calhar nunca se debruçou sobre o que produzimos. O nosso PNB e não o nosso PIB onde entra o milho que nos dão e os perús que nos mandam atrás. (Vide o sector da Construção Civil e Obras Públicas)
Mas o problema não é dar essas regalias que todos queremos, é a sua sustentabilidade. Eu, pessoalmente, já me contentava com as anteriores promessas, ainda por cumprir, de reduzir a taxa do desemprego a um dígito e levar a do crescimento a dois dígitos. E que nunca nos falte o 12º mês. Como se vê concedo uma prorrogação de mais cinco anos para cumprir a antiga promessa de 2006. Se o conseguir terá o meu voto.
A. Ferreira
*Texto publicado na edição de Fevereiro do mensário “Terra Nova”
Será mesmo Funcionário Público?...
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Isto que a seguir se escreve, vai mesmo em formato de diálogo e em discurso directo (estilo peça de teatro) para ser melhor entendido.
Não se trata de ficção. Passou-se na realidade.
Aqui há dias, a meio da manhã toca o telefone, atendo e, inicia-se a seguinte conversação.
Do outro lado da linha, voz feminina e numa abrupta introdução:
- «É di casa di Armindo? (É da casa do Armindo?)
Eu – «…??? Da casa do Armindo? (acentuei, pois percebi voz jovem e desconhecida)Oh!minha senhora da parte de quem?
- «Li é di Finança de Tchada Santo António...» (Aqui é dos serviços de Finanças da Achada Santo António)
Eu a interromper estupefacta:
- «Mas minha senhora está-me a dizer que está a telefonar de um serviço público nestes termos? A perguntar se é: “da casa do Armindo”? A senhora é funcionária pública?...Não sabe dirigir-se às pessoas? Não haveria aí, a ser dito: “senhor Armindo,” no mínimo?...
Do outro lado, após um curto silêncio e sem se dar por achada:
- «É pa el bem li papia cu Gilda?» (É para ele cá vir falar com a Gilda)
Eu já a ironizar:
- «Olhe e já agora, se faz o favor, quem é a D. Gilda? Será por acaso a dona da casa?... Sim, porque eu ainda não estou a acreditar que este telefonema venha de um serviço público… Que garantias me dá a senhora com este tipo de transmissão telefónica que se trata de um assunto das Finanças?...»
«Não, Gilda é chefe di serviço di…» (lá disse a categoria da senhora na Repartição em questão)
-«Olhe minha senhora, vou-lhe ser franca e lamento dizê-lo: mas a forma incorrecta como se processou este telefonema, eu já nem sei se eu o vou transmitir ao destinatário…»
Bem a conversa ficou assim.
Passados dois ou três dias, toca o telefone, a mesma voz, o mesmo teor de mensagem, mas já com algumas diferenças substanciais. Perguntou se era a residência do senhor… (nome e apelido) que falava das Finanças e que o senhor (nome e apelido de novo) ali se dirigisse para falar com a (Dona Gilda…do serviço tal e tal).
Bem melhor, pensei eu com os meus botões. Afinal a chamada de atenção havia servido para alguma coisa. Surtira o efeito desejado. Ainda bem.
A que estado lastimoso chegou o atendimento num serviço de Estado do meu país? Nem ao telefone se já se sabe transmitir com correcção, uma simples informação, uma curta solicitação!? Mas que pessoal este?
Por outro lado, questiono se no acto de admissão ao serviço, o candidato a funcionário – (ele/ela) – não é advertido, instruído, informado sobre os procedimentos, a forma com se deve dirigir-se, falar, expressar-se quando frente a um cidadão que está a atender? Não haverá uma entrevista, uma conversa, um questionário antes de se iniciar funções? Sim, porque não acredito, face ao que me é dado ver, que tenha havido formação, com estes exemplos! É que grassa nos nossos serviços públicos uma iliteracia funcional de bradar aos céus!
Infelizmente – e digo isto com imensa tristeza – o perfil hodierno do chamado servidor público nacional, com raríssimas excepções, que felizmente ainda as há, está a ficar cada vez mais incivilizado, mais incorrecto no “saber estar” nada educado, cada vez menos instruído e a perder nível de forma galopante…
É caso para exclamar: que saudades do funcionário público cabo-verdiano de antanho!
Não se trata de ficção. Passou-se na realidade.
Aqui há dias, a meio da manhã toca o telefone, atendo e, inicia-se a seguinte conversação.
Do outro lado da linha, voz feminina e numa abrupta introdução:
- «É di casa di Armindo? (É da casa do Armindo?)
Eu – «…??? Da casa do Armindo? (acentuei, pois percebi voz jovem e desconhecida)Oh!minha senhora da parte de quem?
- «Li é di Finança de Tchada Santo António...» (Aqui é dos serviços de Finanças da Achada Santo António)
Eu a interromper estupefacta:
- «Mas minha senhora está-me a dizer que está a telefonar de um serviço público nestes termos? A perguntar se é: “da casa do Armindo”? A senhora é funcionária pública?...Não sabe dirigir-se às pessoas? Não haveria aí, a ser dito: “senhor Armindo,” no mínimo?...
Do outro lado, após um curto silêncio e sem se dar por achada:
- «É pa el bem li papia cu Gilda?» (É para ele cá vir falar com a Gilda)
Eu já a ironizar:
- «Olhe e já agora, se faz o favor, quem é a D. Gilda? Será por acaso a dona da casa?... Sim, porque eu ainda não estou a acreditar que este telefonema venha de um serviço público… Que garantias me dá a senhora com este tipo de transmissão telefónica que se trata de um assunto das Finanças?...»
«Não, Gilda é chefe di serviço di…» (lá disse a categoria da senhora na Repartição em questão)
-«Olhe minha senhora, vou-lhe ser franca e lamento dizê-lo: mas a forma incorrecta como se processou este telefonema, eu já nem sei se eu o vou transmitir ao destinatário…»
Bem a conversa ficou assim.
Passados dois ou três dias, toca o telefone, a mesma voz, o mesmo teor de mensagem, mas já com algumas diferenças substanciais. Perguntou se era a residência do senhor… (nome e apelido) que falava das Finanças e que o senhor (nome e apelido de novo) ali se dirigisse para falar com a (Dona Gilda…do serviço tal e tal).
Bem melhor, pensei eu com os meus botões. Afinal a chamada de atenção havia servido para alguma coisa. Surtira o efeito desejado. Ainda bem.
A que estado lastimoso chegou o atendimento num serviço de Estado do meu país? Nem ao telefone se já se sabe transmitir com correcção, uma simples informação, uma curta solicitação!? Mas que pessoal este?
Por outro lado, questiono se no acto de admissão ao serviço, o candidato a funcionário – (ele/ela) – não é advertido, instruído, informado sobre os procedimentos, a forma com se deve dirigir-se, falar, expressar-se quando frente a um cidadão que está a atender? Não haverá uma entrevista, uma conversa, um questionário antes de se iniciar funções? Sim, porque não acredito, face ao que me é dado ver, que tenha havido formação, com estes exemplos! É que grassa nos nossos serviços públicos uma iliteracia funcional de bradar aos céus!
Infelizmente – e digo isto com imensa tristeza – o perfil hodierno do chamado servidor público nacional, com raríssimas excepções, que felizmente ainda as há, está a ficar cada vez mais incivilizado, mais incorrecto no “saber estar” nada educado, cada vez menos instruído e a perder nível de forma galopante…
É caso para exclamar: que saudades do funcionário público cabo-verdiano de antanho!
No baú das memórias…
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Estava-se nos inícios dos anos sessenta e o Liceu da Praia ainda era um belo edifício – inaugurado em 1960 – com o seu relógio certeiro e a sineta accionada pontualmente nos toques de entrada, de tolerância e de saída. Revejo os painéis em azulejos ao longo das escadas, representando cenas dos épicos portugueses, quer históricos, quer saídos dos Lusíadas de Camões. Igualmente reconfiguro as salas amplas com carteiras ainda de brilho novo; o grande pátio circundante – onde passeávamos, brincávamos e jogávamos nos intervalos das aulas – o jardim defronte com o marco dos Descobrimentos, os canteiros floridos e regados. Enfim, para nós adolescentes e entrados no então terceiro ano do liceu, o Liceu Nacional da Praia primeiro, e poucos anos depois, Liceu Adriano Moreira, perfilava-se imponente e bonito.
Respeitosos e temerosos éramos nós os alunos – creio que sobretudo as alunas – quer do Reitor, quer de professores, quer ainda dos Contínuos, estes últimos tinham muita autoridade sobre o aluno, a uma participação ou a uma queixa por eles feita acabava-se intimado ao gabinete do Reitor. Ninguém o desejava, pois a reprimenda em casa ainda seria pior…
Mas no meu baú de memórias, queria reviver alguns bons momentos aí passados nessa escola que instruiu gerações.
Recordo-me das disciplinas de que mais gostava e que por vezes também coincidia com o professor que a ministrava.
Assim foi para mim a disciplina de História e do professor Mário Santos. Interessante no meu ponto de vista, a forma como ele leccionava os factos ou os mitos históricos. Por um lado, desdramatizava ou retirava alguma carga solene ou mesmo “super-heróica” como eram narrados determinados factos históricos – em que ele pressentia ou sabia retocados por alguma propaganda do regime vigente – e por outro lado, acrescentava ainda mais beleza poética à mitologia greco-romana, quando discorria sobre isso, o que tornava apetecível escutá-lo. Isto acontecia quer com a História de Portugal, quer com a História Universal.
Lembro-me de um episódio de aula quando foi o estudo do capítulo da “Restauração” ou da “4ª Dinastia” da História de Portugal; nele apresentava-se muito solenemente a parte em que o novel rei – o primeiro depois da denominação espanhola sobre Portugal (1580-1640) – D. João IV perguntava à mulher, D. Luísa de Gusmão se devia aceitar o cargo, a então duquesa de Bragança teria respondido de forma grave e épica: “Mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida!” E isto era narrado com igual grandiloquência descritiva de uma terrível e decisiva batalha guerreira.
Ora Mário Santos, o nosso professor, fazia algum “gozo fino” com factos similares e sobre este particularmente, disse aos nossos ouvidos ingenuamente escandalizados, mas ao mesmo tempo divertidos: “Ah! Isso! Isso ele (o rei) terá dito à mulher quando se iam deitar: - “Olha lá, tu queres ser rainha ou não?”
Era assim que ele tornava coloquiais e engraçados certos “chavões” históricos que o nosso manual de História continha.
Outras boas memórias me acodem, são as amizades que se forjaram nas turmas e algumas que perduraram inesquecíveis com o passar do tempo e das vicissitudes da vida de cada um de nós.
Há outra recordação boa que guardo do Liceu da Praia, fazia-se teatro e eu tomava parte quase sempre nas peças. A par de outros colegas, fui também algumas vezes protagonista feminina do auto ou do texto dramático e, adorava representar. Eram obrigatórias pelo menos, duas peças de teatro por ano. No final do primeiro período, antes do Natal e por ocasião do 10 de Junho, a coincidir com o término do último período, antes das férias grandes. O nosso ensaiador, encenador era também o professor Mário Santos e os autores dos textos dramáticos invariavelmente da Literatura portuguesa: Almeida Garrett, Gil Vicente, entre outros.
Os ensaios tinham o seu encanto de camaradagem sã e o seu quê de risadas quando nos enganávamos ou atrapalhávamos nas “deixas” ou nas “falas” das personagens a nós cometidas. O ensaio-geral era normalmente de muitos nervos e vivido por vezes, mais intensamente do que a estreia da peça. Era aí que o encenador queria certificar-se de que estávamos à-vontade na “pele” das personagens. O Salão nobre do Liceu era o nosso palco, quer para as peças teatrais, quer para os saraus, quer ainda para os jograis de poemas.
Não vá esta oportunidade passar em branco, alguns nomes de então colegas – “actores e actrizes” que nós éramos no Liceu – Alda Macedo, Ercília Camacho, Eurícles Barros, o saudoso Lico Barros, Francisco dos Reis Brito (carinhosamente tratado por nós, seus antigos colegas: “Chico actor” seria ele quem participava em mais peças) Hedy Fonseca, Hulda Fernandes, Jorge Carlos Fonseca, Mafalda Carvalho entre outros. Creio que Carlos Veiga era quem, regra geral, apresentava o nosso espectáculo. Tinha boa dicção, dizia o professor. Espero que a memória me não esteja a atraiçoar e as sinceras e antecipadas desculpas aos não mencionados por falha gravíssima minha…
Em matéria de teatro e de saraus, vinha de tempo bem recente da então chamada “Secção de Gil Eanes da Praia,” algum lastro, bem fresco e muito comentado entre nós, sobre os trabalhos artísticos apresentados pelo famoso grupo da inesquecível professora Maria Luísa Blanqui.
Voltando às récitas teatrais que no Liceu novo, em meados da década de sessenta se fizeram, acredito que datasse desse tempo também um certo gosto pelo Teatro que me acompanhou muitos anos da minha adolescência e juventude, a ponto de como primeiro curso, ter querido fazer o então Conservatório Nacional em Lisboa, e a minha progenitora suavemente me ter dissuadido da ideia.
Eis em resumo – e de acordo com o título deste escrito, baixar agora a “tampa do baú” – o que a memória me trouxe de volta e me transportou ao antigo Liceu da Praia, veneranda instituição no seu todo, que atingiu meio-século de existência e que nos transmitiu conhecimentos e valores de que os livros são dos principais repositórios.
Respeitosos e temerosos éramos nós os alunos – creio que sobretudo as alunas – quer do Reitor, quer de professores, quer ainda dos Contínuos, estes últimos tinham muita autoridade sobre o aluno, a uma participação ou a uma queixa por eles feita acabava-se intimado ao gabinete do Reitor. Ninguém o desejava, pois a reprimenda em casa ainda seria pior…
Mas no meu baú de memórias, queria reviver alguns bons momentos aí passados nessa escola que instruiu gerações.
Recordo-me das disciplinas de que mais gostava e que por vezes também coincidia com o professor que a ministrava.
Assim foi para mim a disciplina de História e do professor Mário Santos. Interessante no meu ponto de vista, a forma como ele leccionava os factos ou os mitos históricos. Por um lado, desdramatizava ou retirava alguma carga solene ou mesmo “super-heróica” como eram narrados determinados factos históricos – em que ele pressentia ou sabia retocados por alguma propaganda do regime vigente – e por outro lado, acrescentava ainda mais beleza poética à mitologia greco-romana, quando discorria sobre isso, o que tornava apetecível escutá-lo. Isto acontecia quer com a História de Portugal, quer com a História Universal.
Lembro-me de um episódio de aula quando foi o estudo do capítulo da “Restauração” ou da “4ª Dinastia” da História de Portugal; nele apresentava-se muito solenemente a parte em que o novel rei – o primeiro depois da denominação espanhola sobre Portugal (1580-1640) – D. João IV perguntava à mulher, D. Luísa de Gusmão se devia aceitar o cargo, a então duquesa de Bragança teria respondido de forma grave e épica: “Mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida!” E isto era narrado com igual grandiloquência descritiva de uma terrível e decisiva batalha guerreira.
Ora Mário Santos, o nosso professor, fazia algum “gozo fino” com factos similares e sobre este particularmente, disse aos nossos ouvidos ingenuamente escandalizados, mas ao mesmo tempo divertidos: “Ah! Isso! Isso ele (o rei) terá dito à mulher quando se iam deitar: - “Olha lá, tu queres ser rainha ou não?”
Era assim que ele tornava coloquiais e engraçados certos “chavões” históricos que o nosso manual de História continha.
Outras boas memórias me acodem, são as amizades que se forjaram nas turmas e algumas que perduraram inesquecíveis com o passar do tempo e das vicissitudes da vida de cada um de nós.
Há outra recordação boa que guardo do Liceu da Praia, fazia-se teatro e eu tomava parte quase sempre nas peças. A par de outros colegas, fui também algumas vezes protagonista feminina do auto ou do texto dramático e, adorava representar. Eram obrigatórias pelo menos, duas peças de teatro por ano. No final do primeiro período, antes do Natal e por ocasião do 10 de Junho, a coincidir com o término do último período, antes das férias grandes. O nosso ensaiador, encenador era também o professor Mário Santos e os autores dos textos dramáticos invariavelmente da Literatura portuguesa: Almeida Garrett, Gil Vicente, entre outros.
Os ensaios tinham o seu encanto de camaradagem sã e o seu quê de risadas quando nos enganávamos ou atrapalhávamos nas “deixas” ou nas “falas” das personagens a nós cometidas. O ensaio-geral era normalmente de muitos nervos e vivido por vezes, mais intensamente do que a estreia da peça. Era aí que o encenador queria certificar-se de que estávamos à-vontade na “pele” das personagens. O Salão nobre do Liceu era o nosso palco, quer para as peças teatrais, quer para os saraus, quer ainda para os jograis de poemas.
Não vá esta oportunidade passar em branco, alguns nomes de então colegas – “actores e actrizes” que nós éramos no Liceu – Alda Macedo, Ercília Camacho, Eurícles Barros, o saudoso Lico Barros, Francisco dos Reis Brito (carinhosamente tratado por nós, seus antigos colegas: “Chico actor” seria ele quem participava em mais peças) Hedy Fonseca, Hulda Fernandes, Jorge Carlos Fonseca, Mafalda Carvalho entre outros. Creio que Carlos Veiga era quem, regra geral, apresentava o nosso espectáculo. Tinha boa dicção, dizia o professor. Espero que a memória me não esteja a atraiçoar e as sinceras e antecipadas desculpas aos não mencionados por falha gravíssima minha…
Em matéria de teatro e de saraus, vinha de tempo bem recente da então chamada “Secção de Gil Eanes da Praia,” algum lastro, bem fresco e muito comentado entre nós, sobre os trabalhos artísticos apresentados pelo famoso grupo da inesquecível professora Maria Luísa Blanqui.
Voltando às récitas teatrais que no Liceu novo, em meados da década de sessenta se fizeram, acredito que datasse desse tempo também um certo gosto pelo Teatro que me acompanhou muitos anos da minha adolescência e juventude, a ponto de como primeiro curso, ter querido fazer o então Conservatório Nacional em Lisboa, e a minha progenitora suavemente me ter dissuadido da ideia.
Eis em resumo – e de acordo com o título deste escrito, baixar agora a “tampa do baú” – o que a memória me trouxe de volta e me transportou ao antigo Liceu da Praia, veneranda instituição no seu todo, que atingiu meio-século de existência e que nos transmitiu conhecimentos e valores de que os livros são dos principais repositórios.