Política de Habitação e a Juventude - Um Comentário

domingo, 8 de maio de 2011
Este texto vem na sequência directa de uma interpelação em jeito de queixa de que fui alvo da parte de um jovem indignado com aquilo que ele considera ser “falta de apoio” efectivo do Estado aos jovens para aquisição de habitação própria.

O tema habitação pode ser encarado de vários ângulos. Nenhum está verdadeiramente incólume de polémica não obstante quase todas as constituições, incluindo a nossa, se referirem ao “direito a uma habitação condigna”. Mesmo este “direito” não é universalmente consagrado e aceite, inclusive por alguns subscritores da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Antes de entrar naquilo a que me proponho abordar vou contar, de passagem e muito resumidamente, um pequeno episódio para ilustrar o que acabei de afirmar.

Nos anos 70, mais precisamente em 1976, as Nações Unidas através da sua Comissão para os Assentamentos Humanos organizou em Vancouver, Canadá, a Conferência Habitat I com vista a estudar e sustar o fenómeno do êxodo rural que inúmeros constrangimentos estavam causando à gestão das grandes cidades – as megalópoles – que se encontravam literalmente a rebentar pelas costuras, impotentes para enfrentar e resolver os novos desafios que se lhe punham de carácter físico em termos de habitat – alojamento, energia, água, transporte, saneamento, acessibilidades, entre outros – perante um crescimento exponencial inesperado das suas populações provocado pela avalanche migratória campo - cidade.

Em 1996, vinte anos depois, organizou o mesmo organismo a Conferência Habitat II em Istambul para fazer o balanço da Conferência de Vancouver (Habita I) e “corrigir” o rumo. Tive a oportunidade de participar nas reuniões de preparação deste último evento.

A última reunião geral preparatória (depois houve uma outra, restrita, em Nova Iorque) em Nairobi, sede da Comissão das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, teve lugar em 1995 e visava aprovar os documentos que seriam levados à Conferência.

Tudo parecia pacífico até que um documento que, aparentemente, não fugia muito do teor dos restantes cria uma polémica que absorveu todos os restantes dias do Encontro sem que se tivesse chegado a um entendimento. Tratava-se de um item que se referia ao “direito à habitação condigna”. Precisamente o ponto que na generalidade não se esperava qualquer contestação. Eis que surge um dedo no ar – a delegação dos E.U.A logo seguida da do Japão e depois por outras dando início a um debate muito interessante que ocupou todos os restantes dias da reunião. As diversas posições mostraram-se irreconciliáveis para um texto consensual. E, para ser breve, a questão central era esta: Os Estados Unidos não reconhecem a habitação como um direito. Mais tarde, no jornal da Comissão, numa entrevista, o embaixador dos EUA explicou que a Constituição do seu país não consagra esse direito e subscrever essa cláusula, ironizou, significava que no dia seguinte teriam todos os “homeless” do país a reclamar uma habitação condigna. Os direitos dos cidadãos são para respeitar.

Na Conferência de Istambul (Habitat II – 1996) os EUA e o Japão mantiveram as suas posições e não subscreveram esse item.

Voltando a questão inicial, quero realçar que o direito à habitação condigna referido na nossa Constituição é, muitas vezes, confundido com o “direito à habitação própria” por um elevado número de pessoas onde pontificam os carenciados e uma boa gama de jovens. É bom aqui registar que se trata de um direito programático, portanto de um compromisso do Estado, abrangendo todos os cidadãos, em o ir resolvendo. Mas quase todos os governos, sobretudo os dos países em que a juventude constitui a força dos votos dão especial ênfase à política habitacional para jovens fazendo dela uma bandeira eleitoral para a conquista desse estrato sem se debruçar sobre a eventualidade da (in)justiça social.

Nem sempre foi assim e não tem que ser como foi. A habitação própria condigna constitui o sonho de uma vida. Não é um exclusivo da juventude. Não me parece que a condição de ser jovem torne um cidadão mais merecedor do contributo do erário público para a aquisição de um património. A habitação própria não é apenas um alojamento, um abrigo, é um património. E é também como tal que deve ser analisado.

Pergunto se é justo conceder à juventude, que praticamente ainda não contribuiu para a produção da riqueza, “facilidades” (leia-se contribuição do Estado) para a aquisição de um bem material duradouro que os pais também perseguem em prejuízo destes últimos que toda a vida também sonharam em ter casa própria condigna? Falo no âmbito de hipóteses e prioridades.

Não quero, de forma alguma, que se pense que estou contra o direito dos jovens a uma habitação condigna. De maneira nenhuma. Estou sim contra o contributo do erário para a aquisição de um bem material transaccionável, a menos que seja uma política generalizada sem discriminação, tout court, para resolver a questão habitacional globalmente.

Como princípio, não sou defensor de qualquer tipo de discriminação, com particular incidência na que diz respeito ao género e à idade (entre adultos, entenda-se) e, por isso, não a qualifico. Normalmente ela constitui um atentado ao mérito e, objectivamente, quase sempre fere a dignidade.

Há que encontrar a solução para habitação para jovens por outras vias, inclusive a do desenvolvimento de políticas criativas que poderão nomeadamente passar pelo fomento do desenvolvimento efectivo de um mercado de arrendamento que salvaguarde com equidade os interesses dos senhorios e dos arrendatários e promova a justiça social. Não é fácil, mas é possível. O financiamento, ainda que de juros, para aquisição não me parece justo.

A casa é um bem material duradouro. Só a deve adquirir quem pode. O que não impede que em circunstâncias muito especiais possam ser outorgadas para usufruto, apenas usufruto, ainda que vitalício.

Mas compreendo que a estratégia política pode conduzir a uma lógica e a um “timing” que nem sempre são consentâneas com opções justas.

Como nota final quero aqui registar que esta foi sempre a minha posição que sei, ser muito pouco simpática. Enquanto dirigente submeti-me ao consenso geral, pois que na política as regras são muito claras para quem tem ética: Acatamento da posição da maioria quando ela é legítima e legal. Ou então não se entra no jogo.

A.Ferreira

A riqueza linguística das Ilhas...

sexta-feira, 29 de abril de 2011
Segui com algum interesse o último Encontro de Quadros de origem cabo-verdiana na Diáspora, que se realizou em Mindelo (S. Vicente) em Abril do ano em curso.
Digo com algum interesse, pois que havia sido convidada pela minha amiga de infância, Celeste Correia para ser moderadora de um dos painéis integrados no Congresso ou Encontro. Daí ter ficado desperta e atenta para o evento. Infelizmente razões que se prenderam com compromissos anteriormente assumidos não me permitiram estar presente, no que teria muito prazer. De qualquer forma, mesmo de longe não deixei de o seguir de perto.
Ora bem, indo ao assunto que aqui me traz: uma das recomendações saídas no final do Encontro foi a de se cuidar mais e melhor do Crioulo. Até aqui tudo bem. Nada contra. Apenas estranhei, e muito, o facto de nessa mesma recomendação para servir aos falantes das ilhas, não se ter acrescentado igualmente a de Cabo Verde cuidar bem e melhor da Língua portuguesa que é também a nossa língua. Que é Língua veicular do sistema de ensino; que é língua de suporte de quase toda a documentação científica, literária, histórica, administrativa, entre outras; e que é língua que vem servindo, de forma excelente, o cabo-verdiano e Cabo Verde no seu percurso formativo, profissional e de entendimento do seu estar no mundo e com os outros.
Ter-se-ão “esquecido” os nossos caros patrícios deste pormenor que afinal não é tão negligenciável como poderá parecer? Ou aqui pesou mais, ou apenas, o facto deles e dos seus descendentes terem como língua de escolaridade, de formação e de profissão, a língua do país de acolhimento?
Terá sido uma destas razões que os fizeram esquecer de algo tão importante no percurso de desenvolvimento aberto ao mundo de que Cabo Verde almeja? Sim, porquê “fecharmo-nos” na língua materna e não nos prolongarmos em desenvolvimento na nossa língua segunda e oficial que é o português?
Prefiro pensar que terá sido antes alguma espécie de “saudade” ou de “nostalgia” muito comum e natural a quem viva fora das ilhas que os fez “recomendar” apenas uma das nossas línguas e esquecer a outra igualmente importante!
Olhemos para nós e à nossa volta e façamos honestamente o balanço que é inquestionavelmente positivo do que tem sido a co-existência nas ilhas da língua portuguesa e do crioulo. Ambas definem a nossa identidade cultural mestiça. Ambas são nossas com toda a legitimidade e legalidade.
Outrossim, para os nossos formandos que saem da terra em demanda de estudos superiores e pós-secundários, maioritariamente em Portugal e no Brasil, o domínio da língua portuguesa tem representado uma mais-valia preciosa e indispensável na prossecução dos objectivos
A Língua portuguesa tão nossa como o Crioulo que nela tem origem, tem a idade da nação cabo-verdiana. Prefiro assim do que denominá-la mais velha em Cabo Verde, do que a própria nação cabo-verdiana.
Por tudo isto, fica aqui o registo desse “lapso” que espero não ter sido deliberado. Acredito que o não foi. Faço votos que os Quadros da Diáspora se mantenham ligados fortemente à terra de origem e que recomendem no próximo Encontro, o estudo e a prática da Língua portuguesa com afecto e plena assumpção nestas ilhas.

“Mais Cabo Verde” no seu Esplendor

sábado, 23 de abril de 2011
Na manhã do dia 20 de Abril, ia eu para os escritórios, como habitualmente com o rádio do carro ligado, quando fui surpreendido com o noticiário das oito de uma das estações com uma notícia sobre Boa Vista: Anunciava-se uma manifestação porque a população havia dois meses (!!!) que não tinha água na rede de distribuição doméstica. De permeio a situação de subida da tarifa de 300$00 (trezentos escudos) para 1.000$00 (mil escudos) o metro cúbico – correspondente a um aumento de cerca de 233% – e um conflito entre empresas (de Produção e de Distribuição), que o Governo não consegue dirimir não obstante ser parte - uma delas é pública (Electra) – e constituir seu dever resolvê-lo ainda que não fosse parte por se tratar de um bem essencial cuja exploração deve ser feita por concessão e regulação.

Mas verifico com alguma estranheza, e sente-se, um certo ambiente de mal-estar social o que é aparentemente absurdo porque as eleições tiveram lugar há menos de dois meses e o povo havia decidido expressivamente pelo “mesti manti” (continuidade). Acresce-se que há dias eram os rabidantes a manifestarem-se contra a subida do preço do pão. Imagine-se, os vendedores a manifestarem-se enquanto os consumidores (compradores) mantinham-se abúlicos e resignados. Sim, o preço do pão aumentou 50% (cinquenta porcento) de uma assentada e nem uma agulha buliria na inquieta melancolia da nossa sociedade, parafraseando Augusto Gil, não fossem esses revendedores informais. Justificou-se o facto com o aumento dos preços dos cereais, dos combustíveis, etc. etc. assumindo-se deste modo a espiral de subida de preços generalizada que se tem verificado.

Terminadas as campanhas legislativas e com a tomada de posse do novo Governo, a energia eléctrica, cuja frequência de cortes, ou melhor, “sabotagens” na terminologia do Governo (PAICV), na Praia, cresceu exponencialmente, aumentou de preço 20% (vinte porcento) e a água 5% (cinco porcento). Na base deste aumento estaria, oficialmente, a retirada do subsídio à Empresa produtora e distribuidora. Uma empresa do Estado que presta mau serviço, cujos custos elevados de produção e de eventual ou consequente má gestão são sempre totalmente suportados pelos contribuintes quer haja ou não subsídio, quando é sabido que uma larga franja na Praia continua a ser “subsidiada” a 100% porque não paga energia por incompetência, incúria e negligência do Governo, último responsável pela empresa, sem contar com as enormes perdas na rede de distribuição verificadas, também pelas mesmas razões.

Toda a Europa está numa crise profunda e Portugal, nosso maior parceiro, encontra-se financeiramente à beira do abismo do qual desejamos muito ardentemente se afaste o mais rapidamente possível. O seu contributo em 2010 para o nosso desenvolvimento num montante de 102 milhões de euros representou 42% da ajuda recebida terá baralhado os nossos governantes e mascarado a nossa real capacidade de desenvolvimento e de crescimento ao mesmo tempo que dava uma “ajudinha” ao PAICV nas legislativas.

Os tempos vindouros não auguram boas perspectivas. Mas o nosso PM continua com toda a verborreia triunfalista que se lhe conhece a garantir “Mais Cabo Verde” com a insensatez que vem manifestando ao manter as demagógicas promessas de campanha – 13º mês e mais regalias sociais – em vez de pôr os pés no chão e apelar à produção e à contenção ao consumo, uma vez que o que na verdade produzimos é muito pouco e ele absolutamente nada fez para alterar esta situação.

Tudo o que estamos a assistir, enquadrado no panorama económico-financeiro internacional que não se alterou depois de 6 de Fevereiro (data das eleições legislativas) ao contrário do que sugere o PM, indica que a procissão ainda vai no adro e constitui a ponta de iceberg daquilo que nos está reservado. Oxalá me engane. Mas se isto é o “Mais Cabo Verde” que nos prometeram e que o PM apregoa à boca cheia, seria bom que todos estivéssemos preparados para o seu indesejado esplendor que se avizinha.
A.Ferreira

“Morabeza” Profissional!?...

quinta-feira, 21 de abril de 2011
Por vezes surpreendo-me a pensar com os meus botões na “institucionalização” que já foi feita abusiva e falsamente entre nós, da expressão: “morabeza” oriunda do português amorável ou amabilidade que significa jeito educado, terno e amável em dirigir-se e em atender o outro. Semanticamente ganhou maior abrangência e “morabeza” passou a representar a arte e a forma de bem receber, de bem atender, a finura, a elegância e os modos educados de uma pessoa quando em interacção com outrem.
Ora bem, “gente morabi” era regra geral, atributo dos habitantes da ilha Brava de outrora. E isso tem uma explicação, entre outras. Tratava-se de uma população pequena que vivia de alguma forma isolada e a chegada de um forasteiro era uma alegria e um acontecimento para os bravenses que o integravam com “morabeza.” Com a tal gentileza e arte de bem receber que os caracterizava. Mas isso era uma particularidade específica (desculpem a redundância) da ilha Brava antiga.
Criança ainda ouvia dizer isso dos adultos e comprovei mais tarde essa fineza natural das bravenses.
A jornalista e escritora Maria Helena Spencer, (1911-2006) descreveu isso de uma forma belíssima num artigo sobre a ilha de Eugénio Tavares, onde ela viveu o tempo que ali fora colocada como professora na localidade, creio eu, de Nossa Senhora do Monte. Pois bem diz-nos a jornalista do antigo Boletim «Cabo Verde»: «…Ali cada mulher do povo é uma senhora pelos seus hábitos, pela elegância do seu porte, pela delicadeza instintiva que põe em cada palavra, em cada gesto…»
Aconteceu que a determinada altura se resolveu “nacionalizar e institucionalizar” o vocábulo “morabeza” estendendo-o, ampliando-o e aplicando-o a todo Cabo Verde, ou melhor a todo empregado, funcionário público e privado nacional. Nada mais falso, meus senhores. Embora o lamente, pois gostaria que tal fosse verdade e se possível absoluta.
Mas infelizmente a realidade e o dia-a-dia desmentem-no com uma constância indesejável! Contam-se pelos dedos da mão (passe o exagero da expressão) o patrício “morabi” e profissional que nos atende quer aos balcões públicos, quer até nos restaurantes, hotéis e cafés, entre outros serviços. De tal modo assim é que eu me apanho sempre agradavelmente surpreendida quando acontece ser bem e profissionalmente atendida, que acabei por criar para mim própria uma espécie de “estatística” pois que interrogo o bom profissional no seu mister. «Desculpe a indiscrição, o senhor (ou a senhora) viveu ou trabalhou fora de Cabo Verde?» e a resposta é invariavelmente, positiva. O que significa que terá ganhado isso, ou terá despertado para isso, trabalhando e interagindo socialmente fora das ilhas. Claro que há excepções! E felizmente que as há.
Logo, algo está a mais nesse emprego entre nós, generalizado e abusivo do termo: “morabeza crioula”.

Políticos ou Mercenários?

terça-feira, 19 de abril de 2011

Há dias, em conversa com um colega de trabalho e falando sobre a nossa Assembleia Nacional e o contributo dos deputados, questionou-me: Os nossos deputados?! Contributos?! Eles estão mais preocupados é com as mordomias… Veja o que aconteceu na posse (investidura) há dias. E eu, o que aconteceu? Não sabe da história do deputado que pediu a chave do carro? Eu: a chave do carro? Sim, a chave do carro… e acrescentou: Não leu no jornal? Ah, já me esquecia, o senhor não lê certos jornais… deu uma gargalhada e sem esperar qualquer comentário meu à sua observação continuou:
A quando da posse (investidura) dos novos deputados, logo que a sessão terminou, um membro recém-eleito da Mesa vira-se para o seu homólogo de saída e diz: "Dê-me a chave do carro!" Apanhado de surpresa, pois ignorava a ocorrência, perguntei, como? E ele repetiu a frase:”Dê-me a chave do carro”. Pediu-lhe a chave do carro, ajuntou. Não me contive, exclamei: Que indelicadeza, que deselegância!... Que grosseria! É esta a estirpe dos nossos deputados? E acrescentei: E o outro deu-lha? Claro, respondeu-me ele. Pois não devia porque o carro não é de nenhum deles… Ele devia era dizer-lhe: Vá buscá-la na Secretaria ou nos Serviços da Gestão de Equipamentos ou do Património ou o que quer que seja. As coisas do Estado não se passam assim de mão para mão. Há uma tramitação que deve ser respeitada, a menos que sejam pessoas decentes e amigas que queiram encurtar a burocracia (no sentido positivo do termo – tramitações administrativas – embora haja sempre um mínimo).
Mas o que me desconcertou e me deixou perplexo é, na verdade, a preocupação primeira do nosso deputado – chaves do carro. Começar logo a tirar proveito das mordomias que o cargo lhe oferece em vez de saber dos caminhos para um bom desempenho. É esta a fixação dos nossos políticos. Servirem-se à saciedade das suas funções. Tirar o máximo proveito pessoal da política sem se preocupar em dar… Não é isto que se pede ou se espera dos nossos representantes. Sobretudo nos do Parlamento que devem ser o espelho da Nação. Às responsabilidades inerentes às funções que exercem e ao seu simbolismo intrínseco em democracia deve-se acrescer o esforço que representa dos contribuintes. Não é despiciendo. Cada deputado custa, em média, aos contribuintes mais de 750 contos por mês. E se a eficiência do País se medisse pela do nosso parlamento éramos seguramente um país falhado. Os nossos deputados trabalham muito pouco. Preocupam-se muito mais com questiúnculas mesquinhas e partidárias do que com os assuntos reais que dizem respeito à vida dos cabo-verdianos.
Por vezes apanho-me a interrogar se o entendimento dos nossos políticos da coisa política é de missionário ou de mercenário?

A.Ferreira

Vidas com histórias ou história de vidas? (Continuação)

sábado, 16 de abril de 2011
Tal como dissera no meu último texto, retomo a história que nele queria contar. Ao invés de colocar os “romanos” I e II, a seguir ao título, preferi acrescentar: “continuação” pois que os primeiros só me remetem para filmes de má qualidade do tipo: «Tubarão I» «Tubarão II» «Rambo I» «Rambo II». Não, prefiro continuação.
Ora bem, vamos à história escutada no táxi a caminho do aeroporto e que me pareceu algo inverosímil, mas o facto é que o narrador/protagonista – do drama – ma contou sem grandes rodeios e também sem arranjos de falsas confidências.
Foi assim: quando o taxista me perguntou se eu era madeirense e eu curiosa a querer saber que sonoridade no meu modo de falar o tinha levado a isso, ele afirmou: «Sabe, minha senhora, eu conheço bem a pronúncia madeirense pois a mulher que ainda considero que foi a da minha vida, é da Madeira» Foi quando me narrou o que ele também considera a sua história de vida.
Jovem, solteiro, na casa dos vinte anos, envolve-se apaixonadamente com uma moça também jovem da Madeira que fazia um estágio de longa duração, no Continente. Dessa paixão recíproca, segundo ele, havia um grande obstáculo, a mulher tinha uma relação formal e estável na ilha de origem e deveria, findo o estágio, regressar naturalmente à casa. Mas em vésperas da partida ela anuncia-lhe que já não queria regressar. Que queria pôr fim ao casamento. Ele surpreso com a decisão dela e desorientado com a futura responsabilidade, sem meios estáveis para qualquer compromisso sério, nas palavras dele, responde-lhe: «Não, tu vais regressar ainda que eu tenha de te meter no avião!» E assim foi. Ela partiu contrariada e zangada e nunca mais deu qualquer notícia. Ele perdeu-lhe o rasto. Os anos passaram-se.
O nosso motorista casou-se, teve filhos (dois rapazes) e a vida continuou. Eis que, tornou ele: «Passados vinte e dois anos após a partida daquela de quem conservei a memória da nossa paixão, entra-me neste carro e no lugar em que a senhora está sentada, uma mulher que me pede para a levar a um centro comercial em Cascais. Eu escuto-lhe a voz e murmuro comigo próprio olhando para o retrovisor todo arrepiado:será a minha querida que meti no avião para a Madeira há vinte e dois anos?” E ela ouviu e ordenou-me: “pare o carro!” e eu, com receio de algum engano da minha parte, retorqui-lhe: “Não, não posso parar neste troço de estrada” Então, disse-me ela quando entrarmos na avenida tal, vai parar o carro, pois quero verificar uma coisa” E assim fiz. Ela sai do lugar e veio sentar-se ao meu lado: “Tu és o Francisco, não és?” Bem, reconhecemo-nos, falámos do nosso passado, de imensas coisas que entretanto aconteceram nas nossas vidas e trocámos endereços no final da viagem».
E o taxista continuou a narração. Poucos dias passados após o reencontro, toca o telefone, ele atende pois que estava de folga e em casa com a mulher e os filhos. Era ela, a madeirense, que lhe pede para a ir buscar ao hotel e levá-la ao aeroporto pois que estava de regresso à casa e que também tinha um assunto muito importante para lhe comunicar. Ele de folga, sem o táxi, disse para a mulher que se tratava de um frete para o aeroporto de uma cliente que prezava muito, que partia para Londres e que ele gostaria de poder ser prestável. A mulher toda expedita, retorquiu-lhe: «Vai! Leva o nosso carro. Uma cliente destas não se pode frustrar. Era o que eu queria ouvir. E assim, fui com o meu carro buscá-la ao hotel.»
Durante o percurso do hotel ao aeroporto, ela diz-lhe:
«Francisco, sabes que a minha filha mais velha se chama Francisca e é tua filha, só que para ela o pai é o meu marido e para todos os efeitos assim será…»
Francisco ouviu isso e arrepiou-se todo – disse-me ele – e asseverou à mãe da filha que concordava com tudo, mas que gostaria de conhecer a filha de quem estava a ouvir falar pela primeira vez. Lá combinaram que numa das viagens a Lisboa ela iria mais a filha a um determinado café e em que ele lá estaria, “anonimamente” numa mesa e sem se dar por presente, para a conhecer.
Assim aconteceu, continuou o meu interlocutor, que disse ter levado o filho mais velho a quem havia revelado o segredo tornando-o confidente do seguinte desejo: «Quando eu fechar os olhos e o “pai” dela também, promete-me que te abeiras da tua irmã e lhe revelarás a verdade da história dela».
Chegados ao café, ele vê a mãe e a filha e o que o transtornou é que a filha não revelada como tal, era a versão feminina do filho que o acompanhara ao encontro, de tal maneira que o próprio rapaz reparou nisso e comentou com o pai: «Ela é mesmo minha irmã!» Encurtando o drama e quase a terminar a história, o senhor Francisco que suspira de tristeza por não poder chegar à fala com a filha disse-me que se consola seguindo-a através de fotografias e de notícias no “face-book” pois o filho tornou-se amigo dela por essa via. E assim vem tendo novas da sua Francisca, e repetia: «Nunca havia de estragar a vida à minha filha, aparecendo a declarar-me pai dela».
Narração findada, conversa terminada, chegámos ao aeroporto e dei comigo a pensar em “vidas com histórias”...

OUTDOORS

quarta-feira, 13 de abril de 2011
1.Uma coisa que me chamou atenção nos períodos da pré-campanha e campanha foi a quantidade de cartazes gigantes (outdoors) espalhados na capital. Muitos pareceram-me publicidade desnecessária, outros enganosa e outros ainda absurda. Havia-os por todo o lado dos dois grandes partidos à mistura com os comerciais. São artefactos caros sobretudo quando feitos em pequena escala. E a maior parte não resiste a uma análise custo-benefício, ainda que superficial. A transposição de métodos de publicidade comercial para o marketing político exige ponderação, critério e alguma expertise. Toda a publicidade tem uma meta, visa um objectivo e tem um retorno. Mesmo a política.
2.Apanhei-me a imaginar de onde viria tanto dinheiro para os partidos brincarem aos cartazes gigantes, aos outdoors. Sim, porque a sua profusão era tanta que de outra coisa não podia tratar-se. Além do mais, estranhou-me a quebra de uma regra de ouro no marketing político: “evitar a multiplicidade de mensagens e centrar num número reduzidíssimo e de forte conteúdo.
3.Admiti que, eventualmente, algum lobby publicitário bem instalado, quiçá por mero oportunismo, aconselhava a este tipo de marketing. E não seria necessário que ocorresse simultaneamente nos dois partidos. Bastaria que se instalasse num só, que a lei da acção-reacção faria o resto. Mas o que me intrigava particularmente, é a sustentabilidade deste tipo de publicidade de tal forma onerosa que até vem sendo afastada por partidos europeus em campanha brandindo expressamente essa exclusão como bandeira de austeridade.
4.Uma ponta do véu se me levantou quando tive oportunidade de ler algures que “O MPLA considera, num documento interno, “exitoso” o apoio material ao PAICV para a sua recente campanha eleitoral”. Não foi surpresa nenhuma dado os rumores que sobre o assunto por todo o lado intensamente circulavam. Apenas confirmação. E aí condescendi: não custa esbanjar o que os outros “trabalharam” ou, melhor, conseguiram.
5.Embora tenha alguma reserva se é moralmente aceitável o apoio dado por entidades estrangeiras a partidos políticos nacionais para campanha, não posso deixar de admitir que é uma prática entre partidos da mesma família e afins e que seria de todo impossível evitá-lo. Acho, contudo, que vicia sobremaneira as regras do jogo sendo por isso de elementar honestidade e transparência que, no mínimo, esses “apoios” fossem obrigatoriamente declarados e posteriormente contabilizados (sem criatividade) como se faz em todos os países democráticos sérios e a sério. Muita especulação se evitaria e muita transparência e credibilidade ganharia a ambiência política, e abrir-se-ia a compreensão para certas e/ou eventuais contrapartidas.
6.Sobre o MpD ainda paira sobre mim o desconhecimento da origem do dinheiro desbaratado em alguns outdoors. Não descarto a eventualidade de também ter recebido apoio do exterior. Só assim se compreende a utilização abusiva desta via onerosa mas efectivamente cómoda de fazer campanha, dando respaldo, como se viu, à falta de um trabalho árduo, penoso e continuado no terreno.
7.Voltando aos cartazes, não os vou comentar todos, mas registo que alguns deles eram portadores de conteúdos de tal forma fúteis ou visivelmente falsos que não só não justificavam o investimento, como produziam pernicioso efeito boomerang, de retorno – desconfiança e perda de credibilidade – bem ao contrário do pretendido.
8.Lembro-me de um – do MpD – que ilustrava o rosto de um jovem e dizia, mais ou menos, isto (cito de cor): “A minha bolsa, onde está a minha bolsa?” No mínimo pareceu-me absurdo alimentar este tipo de ilusão tanto mais que se tratava de um partido que defende o mérito (parece que todos o defendem) e preconiza a diminuição do peso do estado na sociedade e na economia do País. A bolsa de estudo é simultaneamente um prémio de mérito e um investimento. Com regras claras, obviamente. E fazer dela um direito é uma absurda e insustentável demagogia e por isso, descredibiliza e desacredita.
A política tem que ser feita com verdades e transparência.
9.Um outro – do PAICV – referindo-se às realizações do governo que sustentava, não teve pejo em falar, de entre outras enganosas como a criação de inúmeras universidades (imagine-se!...) privadas, do Aeroporto da Praia como também sua. É espantosamente enganoso!...
10.O Aeroporto da Praia é uma história longa que vem dos fins dos anos 80, atravessa os 90 chegando a 2000. Não é mérito de nenhum partido ou governo. Conheço razoavelmente a história da qual fui, circunstancialmente, também protagonista. O Aeroporto da Praia não é uma concepção estratégica do governo do MpD que o iniciou nem do PAICV que o finalizou. A atribuir paternidade ao Aeroporto da Praia só há um nome: Osvaldo Lopes da Silva. Singularmente. Faça-se-lhe justiça antes que a mensagem insinuada no outdoor a reescreva como história oficial. Foi ele que o concebeu como medida estratégica para o desenvolvimento de Cabo Verde e foi graças à sua perseverança, “teimosia”, convicção de que era mesmo estratégico e remando contra ventos e marés “impôs” o Aeroporto da Praia. A tese então dominante era que com a construção do Aeroporto da Praia, o do Sal e mesmo a própria ilha desapareceriam social e economicamente. Não vou recontar a história. Penso que os menos jovens suficientemente informados ainda se lembram que à revelia do seu próprio governo, o então Ministro dos Transportes ousou, usando uma prerrogativa de tutela “enterrar” fundos da ASA nas fundações (aterros) do que viria a ser o Aeroporto da Praia. Foram milhões de dólares, que criaram um facto consumado e levaram o governo do MpD, que logo a seguir assumiu o poder, a institucionalizar o Projecto, negociar o financiamento e promover todas as diligências que permitiriam o lançamento da 1ª Pedra pelo Presidente Mascarenhas Monteiro na segunda metade dos anos 90. Não está em causa se o Aeroporto da Praia seria mais cedo ou mais tarde construído. Hoje – é fácil dizê-lo - estamos todos convencidos que sim. Mas neste momento apenas pretendo colocar o assunto num referencial temporo-espacial, devidamente definido. A História não se faz com “se” mas sim com factos.
11.Retomando outra vez os outdoors, salvo opinião mais abalizada, não acredito que eles sejam a melhor forma de investir na campanha política mas sim de gastar dinheiro. E o dinheiro não se gasta, utiliza-se. Não quero com isto dizer que são de todo inúteis. E não sou contra cartazes, entenda-se. Sou sim, pela sua absoluta racionalidade como instrumento de marketing político. Mas não creio que sejam eficientes fazedores de opinião.
12.Agora que as eleições terminaram e os resultados conhecidos é tempo de balanço, do deve e haver, como sói dizer-se. O PAICV não constitui preocupação - ganhou as eleições com um número significativo de votos e está bem escorado financeiramente na generosidade estratégica de alguns membros “poderosos” da sua família política. Está, portanto, visto, que do lado das despesas nenhum partido em Cabo Verde pode competir com ele. Os presidenciáveis sem o seu apoio que se cuidem.
13.Quanto aos outros, sobretudo o MpD, é necessária (seguramente que estará a fazê-la) uma avaliação séria e objectiva do desempenho político do partido não só durante a campanha mas ao longo de toda a legislatura. Não aquelas avaliações normalmente “especulativas” (sem um estruturado documento-base) e cheias de retórica das Comissões Políticas. Mas de uma avaliação precedida de um diagnóstico profundo, sério e honesto feito pelo Gabinete de Estudo ou algo com funções semelhantes (se não existe devia existir) e submetido à Comissão Política e demais órgãos do partido para apreciação e propostas. Não será apenas de uma circunstância (campanha) mas também de um período longo de jejum. Mérito do partido no poder ou demérito da oposição? Uma avaliação com recolha efectiva de dados e o seu adequado tratamento; que determine as causas do desaire eleitoral; que estabeleça os planos, as metas e os objectivos; que permita a (re)estruturação e a (re)organização do partido; que promova o alargamento e a fidelização da sua base de apoio; e que aponte já, o rumo a seguir. Os planos ajustam-se no decorrer da acção. Mas é preciso existir um e é preciso haver acção. Os políticos não são funcionários, são “missionários” no sentido literal do termo. São para servir e não para se servirem. Ou se disponibilizam seriamente ou abdicam.
14.Como alguém escreveu neste blog:”Para já o MPD o que mais tem é tempo para mudar.”

A.Ferreira