Por vezes o mote para um texto surge de forma inesperada, e não deixa de ter o seu quê de surpreendentemente agradável!
Foi o caso de, ao abrir o meu correio electrónico, ter encontrado um convite vindo da prestigiada Casa da Memória da ilha do Fogo e da sua responsável a minha querida amiga Monique, sobre a exibição de um Documentário intitulado: «Ilha Da Cova Da Moura».
Dito desta forma, pretendo explicar que o tema foi dele cooptado e correlacionado com uma conversa tida recentemente sobre a responsabilidade parental, no caso, foi mais de desresponsabilização paternal.
É minha opinião que é na família ou melhor, na ausência estruturada dela que encontramos as causas maiores dos males que afectam e condicionam o perfil e o comportamento social de uma parte significativa dos nossos cidadãos.
Mas antes de continuar, abro um parêntesis para contextualizar o que a seguir conto, dizendo num aparte, que o mês de Junho tem sido nas paróquias do país, ou pelo menos nas da Praia, o mês dos Crismas. Sei-o bem, pois na paróquia que frequento, aconteceu tal solenidade na semana passada. Fecho o parêntesis e retomo o tema.
Um dos filhos da minha empregada vai a crismar proximamente e, contou-me ela que o Pároco pediu aos crismandos a presença dos pais numa das reuniões de preparação do evento.
Ora bem, vai daí o nosso jovem rapaz, explicou ao padre que ele tinha apenas mãe. Que do pai, ele sabe que ele está vivo, sabe quem é, mas que nunca o tratou e nem dele cuidou como filho. Daí não fazer qualquer sentido, ter o progenitor ao lado dele naquele momento de tão grande importância, no seu entender.
Pois bem, teremos de dar alguma razão ao rapaz. Ele foi autêntico! Não queria ao lado e, numa ocasião especial, o tal “pai de drops” – numa bem achada definição, simbólica embora, de uma juíza de família que lida ou lidou no tribunal com este protótipo de pai e com os problemas por ele causados com a sua irresponsabilidade em não assumir os filhos que traz ao mundo e que só os chama e se lembra deles em dias festivos e quando com eles topa, para lhes dar os tais “drops” (rebuçados), esquecendo-se nos restantes dias do ano de que é o pai.
Infelizmente, esse é um triste quotidiano da realidade, com maior visibilidade, na família desestruturada, monoparental da camada social mais pobre e iletrada de Cabo Verde, mais visível numas ilhas do que noutras e sobretudo, com toda a configuração suburbana de bairros periféricos e problemáticos das cidades.
Eu sei que o tema é recorrente nas análises sociológicas que se tecem sobre a família monoparental cabo-verdiana, mas não perde e nem esgota a actualidade e a possibilidade de diferentes ângulos de abordagem.
Creio, que nos dias de hoje constitui o mais sério problema com que se defronta a nossa sociedade. É um cidadão que assim é criado!
Voltando ao Documentário, objecto do simpático convite da Casa da Memória – que com as suas actividades, tem proporcionado aos sanfilipenses momentos de cultura, de reflexão e de reencontro com a sua identidade – o Documentário, dizia eu, aborda aspectos mais abrangentes da emigração pobre, e mal integrada e com problemas outros e bem diferenciados, mas também de conflitos em lares disfuncionais, num dos bairros mais problemáticos da chamada grande Lisboa. Nas palavras que acompanham o convite trata-se de: “Um bairro muitas vezes associado à ideia de violência, insegurança, perigo ou simplesmente pobreza, onde vive uma grande comunidade cabo-verdiana”
A hodierna emigração cabo-verdiana – com especial ênfase sobre a acontecida de há três décadas a esta parte, ou pouco mais, quer para Portugal, quer para os Estados Unidos – parte dela, para não dizer grande parte, reflecte também os problemas da disfuncionalidade da família numerosa pobre que a cargo de uma mulher-mãe de reduzidas posses, pouco alfabetizada criou e continuou a criar, pois que cuida de filhos e de netos, em condições muitas vezes bem precárias.
Filhos e netos que uma vez adultos, sem terem tido a devida orientação em altura própria, buscam na emigração ou, na vida marginal cá dentro e/ou fora, a sobrevivência.
Por outro lado, poderá parecer óbvio afirmar – mas vale dizê-lo – que no meio deste ambiente familiar problemático existe e se encontra gente honrada e labutadora que ultrapassa e consegue «fintar» este perfil também, quase estereótipo. E que se afirma em sociedade pela forma positiva.
Seria bom que não houvesse, da nossa parte, total transferência dos males sociais que afligem estes nossos emigrantes, sobretudo a não integração dos mais jovens, para a sociedade ou para o país de acolhimento. É bom igualmente que nos lembremos de perguntar pelo papel da família.
Afinal, muitos dos eventuais “desvios” sociais do jovem são ou, deviam ser naturalmente despistados, corrigidos e resolvidos em casa. No chamado lar que o gerou e o acolheu. No seio e com o envolvimento da família nuclear a primeira e a principal responsável pela educação e pela formação cívica dos filhos.
Infelizmente, tal não se passa hoje em dia entre nós, com a consistência e a frequência que seriam desejáveis.
Quo vadis, PAICV?
domingo, 19 de junho de 2011
A confusão que actualmente reina no interior do PAICV é inquietante. Não por amor e simpatia ou ódio e antipatia por esse partido. Longe disso. Trata-se de um problema de Estado. Porque se encontra na praça pública e é protagonizada por governantes e altos dirigentes do Estado. Não sendo por isso apenas uma questão interna circunscrita aos militantes, mas de toda a sociedade cabo-verdiana.
É deprimente o espectáculo que se vem assistindo das acusações que partem de “tocas” ou do “esgoto” para as “casas de saúde” ou “manicómios”, isto é de “ratos e ratazanas” para “esquizofrénicos e loucos”, ou vice-versa, passando por “répteis” e “mamíferos” insinuando a constituição de um verdadeiro zoo como palco predilecto desses ilustres figurantes. É esta a conformidade da linguagem que se vem utilizando.
A troca de mimos entre os apoiantes de ARL e os de JMN não augura um bom começo de legislatura nem garante a expectativa de tranquilidade de uma maioria absolutamente necessária para atravessar a crise real e global existente.
Mas porquê ARL e JMN e não ARL e MIS? Porque a “guerra” é entre quem personifica a “rebelião” orgânica e quem compete defender os estatutos, e não entre candidatos (ainda não começou) como aparentemente se quer fazer crer.
Mas é preciso situar a origem desta polémica para a compreender. Para que a culpa não morra solteira ou malcasada.
Nasceu (eventualmente precipitou-se) para ARL em S. Martinho num almoço/convívio “encomendado” que outro fim não tinha (ou não teve) do que “antecipar”, pretendendo colocar JMN sob um facto consumado, para anular o eventual apoio ao espectro de uma candidatura que se perfilava com fortes possibilidades desse apoio pelo PAICV, não do MIS mas de um outro putativo candidato da mesma área político-partidária.
A jogada teve e tem um mentor bem identificado que se mantém escondido, encolhido, quedo e mudo para evitar que dele se fale. E JMN que de tolo nada tem, compreendeu e descodificou de imediato o jogo, reagiu publicamente de forma agressiva (como é seu hábito) e incisiva apontando o dedo e mostrando que é ele o presidente do partido e não outro.
No seguimento, JMN, terá accionado a sua máquina partidária. “Ignorou” a eventualidade da candidatura visada com o almoço/convívio e “providenciou” uma outra do aparelho e, logicamente, próxima dele, com fortes possibilidades de vencer internamente por que de um alto dirigente se tratava com visíveis serviços prestados. Jogava em dois tabuleiros, com propósitos diferentes. Agiu de acordo com os Estatutos do PAICV que estabelecem na alínea e) do nº 2 do seu artigo 48º como competência do Conselho Nacional “Aprovar as propostas de apoio a uma candidatura a Presidente da República e designar o candidato a Primeiro-Ministro” levando os candidatos a submeterem a aprovação das suas candidaturas mediante a apresentação de um projecto do seu exercício da função presidencial.
O órgão máximo – Conselho Nacional – entre dois congressos, portanto colectivo e acima do próprio presidente, para os militantes é insuspeito, e as suas deliberações também o deviam ser para o credibilizar e ao próprio partido.
A questão da desobediência, ou não, de ARL é de foro partidário; e pouco interessaria à sociedade civil não fosse o caso, não de solicitar um apoio mas o de submeter o seu projecto a aprovação do partido que foi rejeitado, ao que se diz, por uma expressiva maioria de votos. Isto significa que a sua candidatura é intencional e aprioristicamente partidária – de uma facção que se julga maioritária e, por isso, se sente injustiçada pelas regras do jogo que acusa de viciadas sem contudo recorrer.
A atitude de ARL seria legítima e até podia ser bem entendida não se tratasse do caso de ele ser um ex-presidente do partido a que continua estranhamente amarrado, por questões estratégicas ou de falta de confiança pessoal e coragem o que o impede de personificar uma verdadeira “candidatura da cidadania” com o sentido que lhe quer atribuir. O seu comportamento fragiliza o seu partido e descredibiliza-o totalmente. E não é prestigiante para ele, pela polémica que envolve.
Mas não confundamos as coisas. A “guerra” não é entre ARL e MIS. Estes são, tão-somente, ilustres representantes dos residentes dos Palácios do Plateau e da Várzea na sua guerra sisuda e fratricida. Todos os outros que por aí saltitam, salvo uma ou outra honrosa excepção, não passam de peões de brega. Ou mesmo figurantes que aproveitam a oportunidade para se porem em bicos dos pés e simularem uma altura e envergadura que na realidade não têm, insinuando-se directa ou indirectamente delfins. Usando, com todo o respeito, uma metáfora corriqueira: Respondem à voz do dono.
Nem MIS nem ARL avançou só porque o quis. Tiveram ambos o aval dos seus mentores. Destes, um escudado no funcionamento orgânico do seu partido que bem soube manobrar, o outro compelido pelas joguetanas que alimentam os seus ódios e vinganças políticas de que é um exímio e compulsivo artífice. Por detrás de tudo isto, também deverá estar o malfadado “Dinheiro de Angola” (porventura já a circular), que muito tem condicionado o voto dos cabo-verdianos.
Em suma, a polémica existente retira a qualquer das candidaturas protagonizadas pelo PAICV as necessárias condições efectivas para o exercício da função presidencial que os tempos actuais exigem. Estão ambas inquinadas ab initio. Uma com uma expectável excessiva sintonia e “colaboração” (não confundir com cooperação que é função presidencial) com o Governo e outra ressabiada e, eventualmente, vingativa, com fortes indícios de vir a negligenciar a indispensável cooperação estratégica.
É inegável que o PAICV se encontra perante uma crise. Ninguém a pode sonegar mais. Quando dirigentes se declaram publicamente não acatar uma deliberação do seu órgão máximo é uma insubordinação que põe em causa a liderança do partido e o normal funcionamento dos seus órgãos. O grupo de dirigentes que assim age, afronta deliberadamente o seu líder. Põem-se e põem-no à prova.
Neste momento fala-se de congresso e do Parlamento e contam-se as espingardas sem medir as consequências reais para o País. Esquece-se que não é de um partido da oposição que se trata mas do partido que suporta o Governo do País através de uma maioria, numa legislatura que mal começou.
Não se trata de um problema semelhante ao do MpD no passado que tinha uma maioria qualificada e passou a maioria absoluta, mantendo a sua legitimidade de governação. Aqui e agora, o desfazer dessa maioria pode relegar o Grupo Parlamentar do PAICV para o 2º lugar e tornar ilegítima ou mesmo “ilegal” a sua permanência no poder provocando precipitadamente novas e onerosas eleições para as quais o País não está financeiramente preparado.
Mas o PAICV como qualquer pessoa ou instituição tem uma génese, um passado e uma história. Considera-se herdeiro do PAIGC. Tem portanto uma longa história. E não consta do seu código genético a confrontação pública ao líder e às deliberações dos órgãos constituídos. Nem os cismas (vide PAIGC na Guiné-Bissau que nunca o aceitou). Mas sim, no passado, os tradicionais processos sumários e fuzilamentos imediatos.
Os tempos são outros. E estes são marcados, no passado recente (pós-independência), pela purga, pelo rolar de cabeças e pela “caça às bruxas” naquilo que normalmente é apelidado de “clarificação” no interior do partido. Depois sim, tudo voltará a ser como dantes com a declaração de que o partido está cada vez mais unido e coeso.
O JMN está num beco sem saída. O mandato do deputado é pessoal. Ou terá de “engolir” os desafios e os impropérios dos “rebeldes” no Parlamento para evitar que se tornem independentes (pouco provável); ou terá de se demitir dando lugar a um outro líder mais consensual para que o PAICV permaneça no poder; ou terão todos de ficar quietinhos sem fazer qualquer onda. A escolha é difícil para as duas facções.
A verdade é que para o PAICV, as presidenciais tornaram-se mais num desafio tormentoso à sua liderança do que a corrida ao sempre sonhado “um presidente, uma maioria, um governo” permanentemente sugerido nas mensagens dos comícios de PP nas presidenciais de 2001. Esperamos todos que haja já bom senso.
A. Ferreira
É deprimente o espectáculo que se vem assistindo das acusações que partem de “tocas” ou do “esgoto” para as “casas de saúde” ou “manicómios”, isto é de “ratos e ratazanas” para “esquizofrénicos e loucos”, ou vice-versa, passando por “répteis” e “mamíferos” insinuando a constituição de um verdadeiro zoo como palco predilecto desses ilustres figurantes. É esta a conformidade da linguagem que se vem utilizando.
A troca de mimos entre os apoiantes de ARL e os de JMN não augura um bom começo de legislatura nem garante a expectativa de tranquilidade de uma maioria absolutamente necessária para atravessar a crise real e global existente.
Mas porquê ARL e JMN e não ARL e MIS? Porque a “guerra” é entre quem personifica a “rebelião” orgânica e quem compete defender os estatutos, e não entre candidatos (ainda não começou) como aparentemente se quer fazer crer.
Mas é preciso situar a origem desta polémica para a compreender. Para que a culpa não morra solteira ou malcasada.
Nasceu (eventualmente precipitou-se) para ARL em S. Martinho num almoço/convívio “encomendado” que outro fim não tinha (ou não teve) do que “antecipar”, pretendendo colocar JMN sob um facto consumado, para anular o eventual apoio ao espectro de uma candidatura que se perfilava com fortes possibilidades desse apoio pelo PAICV, não do MIS mas de um outro putativo candidato da mesma área político-partidária.
A jogada teve e tem um mentor bem identificado que se mantém escondido, encolhido, quedo e mudo para evitar que dele se fale. E JMN que de tolo nada tem, compreendeu e descodificou de imediato o jogo, reagiu publicamente de forma agressiva (como é seu hábito) e incisiva apontando o dedo e mostrando que é ele o presidente do partido e não outro.
No seguimento, JMN, terá accionado a sua máquina partidária. “Ignorou” a eventualidade da candidatura visada com o almoço/convívio e “providenciou” uma outra do aparelho e, logicamente, próxima dele, com fortes possibilidades de vencer internamente por que de um alto dirigente se tratava com visíveis serviços prestados. Jogava em dois tabuleiros, com propósitos diferentes. Agiu de acordo com os Estatutos do PAICV que estabelecem na alínea e) do nº 2 do seu artigo 48º como competência do Conselho Nacional “Aprovar as propostas de apoio a uma candidatura a Presidente da República e designar o candidato a Primeiro-Ministro” levando os candidatos a submeterem a aprovação das suas candidaturas mediante a apresentação de um projecto do seu exercício da função presidencial.
O órgão máximo – Conselho Nacional – entre dois congressos, portanto colectivo e acima do próprio presidente, para os militantes é insuspeito, e as suas deliberações também o deviam ser para o credibilizar e ao próprio partido.
A questão da desobediência, ou não, de ARL é de foro partidário; e pouco interessaria à sociedade civil não fosse o caso, não de solicitar um apoio mas o de submeter o seu projecto a aprovação do partido que foi rejeitado, ao que se diz, por uma expressiva maioria de votos. Isto significa que a sua candidatura é intencional e aprioristicamente partidária – de uma facção que se julga maioritária e, por isso, se sente injustiçada pelas regras do jogo que acusa de viciadas sem contudo recorrer.
A atitude de ARL seria legítima e até podia ser bem entendida não se tratasse do caso de ele ser um ex-presidente do partido a que continua estranhamente amarrado, por questões estratégicas ou de falta de confiança pessoal e coragem o que o impede de personificar uma verdadeira “candidatura da cidadania” com o sentido que lhe quer atribuir. O seu comportamento fragiliza o seu partido e descredibiliza-o totalmente. E não é prestigiante para ele, pela polémica que envolve.
Mas não confundamos as coisas. A “guerra” não é entre ARL e MIS. Estes são, tão-somente, ilustres representantes dos residentes dos Palácios do Plateau e da Várzea na sua guerra sisuda e fratricida. Todos os outros que por aí saltitam, salvo uma ou outra honrosa excepção, não passam de peões de brega. Ou mesmo figurantes que aproveitam a oportunidade para se porem em bicos dos pés e simularem uma altura e envergadura que na realidade não têm, insinuando-se directa ou indirectamente delfins. Usando, com todo o respeito, uma metáfora corriqueira: Respondem à voz do dono.
Nem MIS nem ARL avançou só porque o quis. Tiveram ambos o aval dos seus mentores. Destes, um escudado no funcionamento orgânico do seu partido que bem soube manobrar, o outro compelido pelas joguetanas que alimentam os seus ódios e vinganças políticas de que é um exímio e compulsivo artífice. Por detrás de tudo isto, também deverá estar o malfadado “Dinheiro de Angola” (porventura já a circular), que muito tem condicionado o voto dos cabo-verdianos.
Em suma, a polémica existente retira a qualquer das candidaturas protagonizadas pelo PAICV as necessárias condições efectivas para o exercício da função presidencial que os tempos actuais exigem. Estão ambas inquinadas ab initio. Uma com uma expectável excessiva sintonia e “colaboração” (não confundir com cooperação que é função presidencial) com o Governo e outra ressabiada e, eventualmente, vingativa, com fortes indícios de vir a negligenciar a indispensável cooperação estratégica.
É inegável que o PAICV se encontra perante uma crise. Ninguém a pode sonegar mais. Quando dirigentes se declaram publicamente não acatar uma deliberação do seu órgão máximo é uma insubordinação que põe em causa a liderança do partido e o normal funcionamento dos seus órgãos. O grupo de dirigentes que assim age, afronta deliberadamente o seu líder. Põem-se e põem-no à prova.
Neste momento fala-se de congresso e do Parlamento e contam-se as espingardas sem medir as consequências reais para o País. Esquece-se que não é de um partido da oposição que se trata mas do partido que suporta o Governo do País através de uma maioria, numa legislatura que mal começou.
Não se trata de um problema semelhante ao do MpD no passado que tinha uma maioria qualificada e passou a maioria absoluta, mantendo a sua legitimidade de governação. Aqui e agora, o desfazer dessa maioria pode relegar o Grupo Parlamentar do PAICV para o 2º lugar e tornar ilegítima ou mesmo “ilegal” a sua permanência no poder provocando precipitadamente novas e onerosas eleições para as quais o País não está financeiramente preparado.
Mas o PAICV como qualquer pessoa ou instituição tem uma génese, um passado e uma história. Considera-se herdeiro do PAIGC. Tem portanto uma longa história. E não consta do seu código genético a confrontação pública ao líder e às deliberações dos órgãos constituídos. Nem os cismas (vide PAIGC na Guiné-Bissau que nunca o aceitou). Mas sim, no passado, os tradicionais processos sumários e fuzilamentos imediatos.
Os tempos são outros. E estes são marcados, no passado recente (pós-independência), pela purga, pelo rolar de cabeças e pela “caça às bruxas” naquilo que normalmente é apelidado de “clarificação” no interior do partido. Depois sim, tudo voltará a ser como dantes com a declaração de que o partido está cada vez mais unido e coeso.
O JMN está num beco sem saída. O mandato do deputado é pessoal. Ou terá de “engolir” os desafios e os impropérios dos “rebeldes” no Parlamento para evitar que se tornem independentes (pouco provável); ou terá de se demitir dando lugar a um outro líder mais consensual para que o PAICV permaneça no poder; ou terão todos de ficar quietinhos sem fazer qualquer onda. A escolha é difícil para as duas facções.
A verdade é que para o PAICV, as presidenciais tornaram-se mais num desafio tormentoso à sua liderança do que a corrida ao sempre sonhado “um presidente, uma maioria, um governo” permanentemente sugerido nas mensagens dos comícios de PP nas presidenciais de 2001. Esperamos todos que haja já bom senso.
A. Ferreira
Manipulação da Cidadania ou Sociedade Civil Manipulada?
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Estas presidenciais, se outro mérito não vierem a ter, já tiveram o de desmascarar o exercício do poder pelo PAICV. As acusações mútuas dos apoiantes dos dois candidatos do PAICV, vindas do interior deste partido, inequivocamente insuspeitas, mostram as maquinações e o maquiavelismo não do seu candidato A ou I mas de uma filosofia do exercício do poder inerente ao próprio partido. Afinal o MpD tinha (e tem) razão quando falava do partidarismo, da discriminação, das pressões e dos favorecimentos na máquina do Estado. É o próprio PAICV quem agora no-lo confessa. De forma clara e inequívoca através dos seus militantes. “Zangam-se as comadres descobrem-se as verdades”, diz o povo com razão.
Interessante é, verificar como entre nós existe uma capacidade que diria incomensurável, de deturpar factos e de fazer opinião de forma destorcida da realidade com intenção clara de confundir o eleitor no entendimento de conceitos e de posicionamentos político-partidários com manifestos ecos na comunicação social e com a sua evidente colaboração. Sobretudo quando se avizinham eleições.
Tiro o chapéu à “criatividade” da candidatura de Aristides Lima (AL) que conseguiu transformar o óbvio e natural em algo individualizado e distinto – “candidato da cidadania”
As candidaturas presidenciais por imperativo constitucional são sempre da cidadania. Mesmo a do Inocêncio Sousa (IS) que faz parte de um, legítimo, projecto político partidário é, formalmente, também da cidadania. A do AL só está fora do projecto político do PAICV por deliberação, presumo, “democrática”, dos seus militantes. A “democracia” interna do PAICV na qual, tudo o indica, o candidato AL deixou agora de acreditar, depois de a defender e a praticar afincadamente ao longo de décadas, ao que parece, apenas por não satisfazer os seus desígnios políticos pessoais.
O eufemístico slogan “candidatura da cidadania” apresentado por AL no fundo quer induzir o eleitor de que se trata de uma candidatura da “sociedade civil” o que não condiz em absoluto com a realidade dos factos.
Um homem do aparelho; dirigente do partido; que foi presidente do partido; que ainda muito recentemente era presidente da AN por indicação do seu partido; que se mantém nesse partido, continuando como um dos seus representantes (deputado) na AN; que se submete à votação para «candidato presidencial “oficial” desse (seu) partido»; torna-se, pelo simples facto de ter perdido, ter sido rejeitado, em “candidato da cidadania”? (leia-se “sociedade civil”?) É uma metamorfose dificilmente explicável. Sem dúvida com evidentes traços kafkianos.
Ninguém contesta a legitimidade da sua candidatura e muito menos a sua legalidade. Nem o perfil técnico-político de AL para o desempenho das funções presidenciais. É um bom candidato. Mas convenhamos que é no mínimo extravagante chamar-se à candidatura de um militante; que surge no interior do seu partido – almoço/convívio em S. Martinho; que emerge da luta de facções; e se afirma por ressábio e rebeldia, “Candidatura da Cidadania”. É um slogan sonante mas esvaziado de qualquer conteúdo. É uma manipulação semântica completamente descontextualizada. E por isso tem contornos de uma publicidade enganosa. Diria até que é um forte candidato à extensa e pouco honrosa lista das “caboverduras”.
Candidatura da Cidadania com o sentido e o conteúdo que este recente “léxico” político quer introduzir, isto é, da “sociedade civil” por inteiro, só houve uma em Cabo Verde e com sucesso absoluto – a de Mascarenhas Monteiro. Por razões circunstanciais e de conjuntura dirão alguns. Mas também por notórias razões de carácter e posicionamento político do candidato, acrescentarão outros. Provou-o pela maciça votação que obteve. E não desmereceu. Exerceu a sua magistratura acima dos partidos não promulgando leis inconstitucionais e vetando largas dezenas de diplomas, com muita discrição, sem nunca publicitar nenhum, como é o seu timbre.
Das actuais três candidaturas presidenciais, uma vez que a 4ª, a de Joaquim Monteiro, meu amigo Jack, é de um outsider se ela se vier a confirmar quando o Supremo se pronunciar, a única que pode pré-figurar uma “candidatura da cidadania” no sentido de “sociedade civil” é a de Jorge Carlos Fonseca. Não só não é militante de nenhum partido como não exerce nenhum cargo político e nem sequer aguardou ou condicionou-se a qualquer apoio partidário para se assumir como candidato o que o liberta de disciplinas partidárias, de compromissos estatutários ou outros e de formatação ideológica. O MpD, como já escrevi e não vou agora re-explicar-me, totalmente a contra-corrente e de uma forma pouco lógica e absolutamente não entendível deu-lhe o seu apoio com o qual, obviamente, se congratulou.
Antes de terminar esta brevíssima reflexão, uma coisa posso garantir: não terei saudades nenhumas de “um presidente, uma maioria e um governo” que já se pode considerar de triste memória pois até leis inconstitucionais foram promulgadas contra interesses populares para fazer jeito à maioria e ao governo. E entre AL e IS assenta bem o conhecido e popular provérbio:”Entre marido e mulher ninguém meta a colher”. É um problema interno do partido que derrapou do centralismo democrático da sua configuração marxista-leninista. Nada mais. Quando terminar a zanga darão o dito por não dito atribuindo-lhe o estatuto de “coisas de campanha” e assestarão conjuntamente as baterias no mesmo alvo. Todos. Que ninguém o duvide!
A presidência da república é um cargo político. E encontrar uma pequena diferença política por mais pequena que seja entre AL e IS é mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro. A eventual diferença apenas poderá residir no carácter… E sobre isto não me pronunciarei.
A. Ferreira
Interessante é, verificar como entre nós existe uma capacidade que diria incomensurável, de deturpar factos e de fazer opinião de forma destorcida da realidade com intenção clara de confundir o eleitor no entendimento de conceitos e de posicionamentos político-partidários com manifestos ecos na comunicação social e com a sua evidente colaboração. Sobretudo quando se avizinham eleições.
Tiro o chapéu à “criatividade” da candidatura de Aristides Lima (AL) que conseguiu transformar o óbvio e natural em algo individualizado e distinto – “candidato da cidadania”
As candidaturas presidenciais por imperativo constitucional são sempre da cidadania. Mesmo a do Inocêncio Sousa (IS) que faz parte de um, legítimo, projecto político partidário é, formalmente, também da cidadania. A do AL só está fora do projecto político do PAICV por deliberação, presumo, “democrática”, dos seus militantes. A “democracia” interna do PAICV na qual, tudo o indica, o candidato AL deixou agora de acreditar, depois de a defender e a praticar afincadamente ao longo de décadas, ao que parece, apenas por não satisfazer os seus desígnios políticos pessoais.
O eufemístico slogan “candidatura da cidadania” apresentado por AL no fundo quer induzir o eleitor de que se trata de uma candidatura da “sociedade civil” o que não condiz em absoluto com a realidade dos factos.
Um homem do aparelho; dirigente do partido; que foi presidente do partido; que ainda muito recentemente era presidente da AN por indicação do seu partido; que se mantém nesse partido, continuando como um dos seus representantes (deputado) na AN; que se submete à votação para «candidato presidencial “oficial” desse (seu) partido»; torna-se, pelo simples facto de ter perdido, ter sido rejeitado, em “candidato da cidadania”? (leia-se “sociedade civil”?) É uma metamorfose dificilmente explicável. Sem dúvida com evidentes traços kafkianos.
Ninguém contesta a legitimidade da sua candidatura e muito menos a sua legalidade. Nem o perfil técnico-político de AL para o desempenho das funções presidenciais. É um bom candidato. Mas convenhamos que é no mínimo extravagante chamar-se à candidatura de um militante; que surge no interior do seu partido – almoço/convívio em S. Martinho; que emerge da luta de facções; e se afirma por ressábio e rebeldia, “Candidatura da Cidadania”. É um slogan sonante mas esvaziado de qualquer conteúdo. É uma manipulação semântica completamente descontextualizada. E por isso tem contornos de uma publicidade enganosa. Diria até que é um forte candidato à extensa e pouco honrosa lista das “caboverduras”.
Candidatura da Cidadania com o sentido e o conteúdo que este recente “léxico” político quer introduzir, isto é, da “sociedade civil” por inteiro, só houve uma em Cabo Verde e com sucesso absoluto – a de Mascarenhas Monteiro. Por razões circunstanciais e de conjuntura dirão alguns. Mas também por notórias razões de carácter e posicionamento político do candidato, acrescentarão outros. Provou-o pela maciça votação que obteve. E não desmereceu. Exerceu a sua magistratura acima dos partidos não promulgando leis inconstitucionais e vetando largas dezenas de diplomas, com muita discrição, sem nunca publicitar nenhum, como é o seu timbre.
Das actuais três candidaturas presidenciais, uma vez que a 4ª, a de Joaquim Monteiro, meu amigo Jack, é de um outsider se ela se vier a confirmar quando o Supremo se pronunciar, a única que pode pré-figurar uma “candidatura da cidadania” no sentido de “sociedade civil” é a de Jorge Carlos Fonseca. Não só não é militante de nenhum partido como não exerce nenhum cargo político e nem sequer aguardou ou condicionou-se a qualquer apoio partidário para se assumir como candidato o que o liberta de disciplinas partidárias, de compromissos estatutários ou outros e de formatação ideológica. O MpD, como já escrevi e não vou agora re-explicar-me, totalmente a contra-corrente e de uma forma pouco lógica e absolutamente não entendível deu-lhe o seu apoio com o qual, obviamente, se congratulou.
Antes de terminar esta brevíssima reflexão, uma coisa posso garantir: não terei saudades nenhumas de “um presidente, uma maioria e um governo” que já se pode considerar de triste memória pois até leis inconstitucionais foram promulgadas contra interesses populares para fazer jeito à maioria e ao governo. E entre AL e IS assenta bem o conhecido e popular provérbio:”Entre marido e mulher ninguém meta a colher”. É um problema interno do partido que derrapou do centralismo democrático da sua configuração marxista-leninista. Nada mais. Quando terminar a zanga darão o dito por não dito atribuindo-lhe o estatuto de “coisas de campanha” e assestarão conjuntamente as baterias no mesmo alvo. Todos. Que ninguém o duvide!
A presidência da república é um cargo político. E encontrar uma pequena diferença política por mais pequena que seja entre AL e IS é mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro. A eventual diferença apenas poderá residir no carácter… E sobre isto não me pronunciarei.
A. Ferreira
O Boletim «Cabo Verde» 1949/1964 - Um preito! Uma homenagem!
Sim, permitam-me esta homenagem, num tempo de muitas comemorações, muitas medalhas. Algumas sob reserva e interrogação, na minha modesta opinião e salvo opinião mais bem informada, do mérito do medalhado. Outras, ainda bem – há que dizê-lo – bem merecidas! Mas bom, adiante na matéria que aqui me traz, pois o dito atrás não é da minha alçada.
Pois bem, tem havido, dizia eu, muitas distinções para imensa coisa. Daí que pensei que era já chegada a altura de prestar também a minha homenagem – muito modesta e sem encomenda, apenas juntando a voz como cidadã comum – ao periódico que detém ainda o recorde, em termos de números publicados, cerca de duzentas edições Se ultrapassada já estiver esta estatística, o que permanece certo, é que em termos de qualidade dos textos nele inseridos, o antigo periódico detém palmarés.
Trata-se do “Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação” que há 62 anos, em 1949, iniciava o seu primeiro número e que viria a terminar a sua actividade em 1964.
Teve como Director, (creio que único) Bento Levy, “Advogado e Publicista, natural e residente na cidade da Praia.” (Assim reza a sua biografia)
Sei que o periódico tinha subvenção estatal porque “afecto” à situação vigente e que, portanto, tinha “vida” garantida, ao contrário, por exemplo, da revista que lhe foi ainda coeva, “Claridade” (1936-1962) que fazia recolha de donativo financeiro e material entre os seus fundadores, os seus colaboradores e admiradores dos seus mentores, para se puder publicar, talvez para preservar também a sua liberdade criadora e inovadora! …Mas isto não retira o mérito e o apreço que nos devem merecer, nos dias de hoje, um periódico de cerca de 200 números e que registou, senão os melhores artigos, sem duvida dos melhores escritos explicativos sobre a nossa génese e subsequente evolução cultural enquanto comunidade humana que se tornou distinta e singular. Logo, pôde ainda assim, e dada a época de que falamos, preservar uma boa e bem aproveitada margem de liberdade de expressão e de escolha de temas para os seus colaboradores.
Durante a sua existência, teve colaboradores da mais alta craveira intelectual, deste Arquipélago. Referências, ainda hoje, incontornáveis no nosso universo literário e cultural. A exemplificar: José Lopes, Jorge Barbosa – nota curiosa, o facto deste poeta, para além de regular colaborador ter sido também o Correspondente do Boletim no Sal e em S. Vicente, enquanto chefe dos serviços aduaneiros nas ilhas mencionadas – Baltazar Lopes da Silva, João Lopes, Jaime Figueiredo, António Aurélio Gonçalves, Manuel Lopes, Manuel Ferreira, Félix Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, este último fez questão em afirmar, numa entrevista dada a Michel Laban, em 1987, que raro teria sido o número do «Cabo Verde» em que ele não tivesse escrito um artigo. Do mesmo modo, Maria Helena Spencer, colaboradora permanente, cronista/repórter/contista. Na mesma linha de colaboração, Guilherme Rocheteau, Nuno Miranda, quem, juntamente com Carlos Alberto Leite, coordenou uma página cultural. De Arnaldo Vasconcelos França, destaque-se de entre a sua valiosa colaboração para o Boletim, o extenso artigo, “Notas sobre poesia e ficção cabo-verdianas” que mereceu ser publicado como “separata” ao «Cabo Verde nº 1/57-1962 (nova fase)» e que ainda hoje constitui um ensaio sério para o estudo e para o conhecimento da trajectória da historiografia literária nacional. Na mesma sequência, distinguiria também a excelente análise «Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana» de Amílcar Lopes Cabral, inserida num dos números do Boletim, sobre Literatura cabo-verdiana na qual o autor elogia «Claridade» como sendo o que de melhor havia acontecido, até então, ao panorama literário das ilhas.
Foi no «Cabo Verde» que se estreou – tinha ele 17 anos – o grande poeta, ensaísta e contista, Gabriel Mariano, cujas primeiras colaborações datam do seu sexto ano do Liceu, em 1950, com o conto «O Roubo» primeiro prémio do concurso organizado pelo Boletim: “melhor Contista do ano” ao lado dos finalistas, Francisco de Sales Lopes da Silva e de José André Leitão da Graça, respectivamente segundo e terceiro classificados, igualmente alunos do sexto ano do velho Liceu de Gil Eanes. Do mesmo autor, Gabriel Lopes da Silva Mariano e igualmente publicado num dos números de 1950, o interessante ensaio: «O Amor na poesia de Eugénio Tavares».
A poetisa Yolanda Morazzo, os poetas Aguinaldo Fonseca, Terêncio Anahory, Ovídio Martins, Jorge Pedro Barbosa, Daniel Filipe, Pedro Duarte, e muitos mais deixaram os seus poemas inseridos neste periódico.
Foi ao “Cabo Verde,” em 1951, que o irmão do então malogrado poeta António Nunes – precocemente atingido pela doença que o levaria à morte em 1949 – confiou para publicação os manuscritos originais contendo poemas postumamente dados à estampa.
É igualmente neste mensário que encontrámos as transcrições em vários números, das sessões que constituíram a «Mesa Redonda sobre o Homem cabo-verdiano» (1957-58) em que se registaram intervenções dos nossos notáveis – escolho ao acaso: Daniel Tavares, Baltasar Lopes, Henrique Teixeira de Sousa, António Aurélio Gonçalves, entre outros, sob coordenação do Prof. Almerindo Lessa – sobre a idiossincrasia do Homem cabo-verdiano; ou, do mesmo modo, o registo escrito das afamadas crónicas de Baltasar Lopes da Silva, lidas aos microfones da Rádio Barlavento como repostas à celeuma levantada às conclusões a que terá chegado o estudo que o sociólogo brasileiro, Gilberto Freire elaborou após ter visitado, durante escassos dias, estas Ilhas. Um acrescento curioso sobre o mesmo caso foi a opinião contrária manifestada por Maria Helena Spencer, num dos seus artigos, pois que achava que Gilberto Freire era capaz de ter alguma razão naquilo que dissera sobre as ilhas. Fica o registo, pois demonstra a atenção que tal polémica despertou,
Continuando no «Cabo Verde», convinha igualmente destacar alguns ensaios científicos sobre o problema da seca e das estiagens cíclicas do Arquipélago. Neste campo registem-se as colaborações de Humberto Duarte Fonseca. Sobre a saúde, para além do já citado médico/escritor Teixeira de Sousa, temos textos de Sócrates Monteiro, João Meira, João Morais, José Duarte Fonseca, entre outros. E sobre a educação, destaco as colaborações de Guilherme Chantre, Edgar Santos, Maria Madalena Monteiro. Que não vá sem acrescentar as páginas desportivas com as assinaturas de Joaquim Ribeiro e de Evandro Matos.
Tem todo o mérito evocar que foi no Cabo Verde que se deu à estampa o «Suplemento Cultural» 1958 que pretendeu ser uma viragem ou uma novidade na poética nacional.
Mais tarde, na década de sessenta do século passado, o «Cabo Verde» viria a revelar-nos poetas como Mário Fonseca, Arménio Vieira – este último Prémio Camões, 2009 – e ambos em estreia absoluta, na publicação dos seus poemas; mas igualmente continuaram a revelar-se nas páginas deste Boletim, poetas como: Corsino Fortes, Onésimo Silveira, Teobaldo Virgínio. Foi também através das suas páginas que pudemos ler contistas, nas suas melhores narrativas, como: Virgílio Pires, Maria Margarida Mascarenhas e Maria Haydeia Avelino Pires.
E assim, ficaram patentes em quase todos os números desta revista/Boletim nas suas páginas, escritos reveladores da idiossincrasia, das alegrias, dos infortúnios e das vicissitudes do cabo-verdiano, na terra e no estrangeiro. Tudo caldeado em inúmeras análises lúcidas, históricas e sociologicamente profundas, que o «Cabo Verde» publicou ao longo dos seus quase duas centenas de números. Os artigos de estudo e de opinião aí registados foram e são ilustrativas de cuidadas elaborações de mentes atentas, estudiosas e sobretudo conhecedoras do que falavam; e mais, o leitor percebe que só escreviam depois de já dominados os temas com a segurança e a tranquilidade que só um aturado labor intelectual deixa depois escorrer na fala e na pena
Páginas bem escritas. Num português dulcíssimo. Como já quase não se usa nestas paragens. Para além de bem e escorreitamente escritas, os conteúdos, os assuntos saíram quase todos maduros e intelectualmente pensados, formulados e reformulados, num exercício sério dos seus autores, para ser lido e entendido pelos leitores, sobre a terra, as suas gentes e os seus problemas e que chegaram até aos nossos dias imbuídos de muita clarividência.
Deixem-me aqui expressar os dias, as horas, de belíssimas leituras e daquilo que apreendi e aprendi ao longo dos anos, sobre a cultura e a literatura do meu país, respigadas nas folhas deste antigo mensário do século XX.
É minha convicção que o «Cabo Verde» continua a ser uma excelente fonte de informação, de documentação, de pesquisa e, fundamentalmente, uma referência obrigatória para quem procure textos que melhor ilustraram e continuam a ilustrar a praxis cultural e literária cabo-verdianas.
Pois bem, tem havido, dizia eu, muitas distinções para imensa coisa. Daí que pensei que era já chegada a altura de prestar também a minha homenagem – muito modesta e sem encomenda, apenas juntando a voz como cidadã comum – ao periódico que detém ainda o recorde, em termos de números publicados, cerca de duzentas edições Se ultrapassada já estiver esta estatística, o que permanece certo, é que em termos de qualidade dos textos nele inseridos, o antigo periódico detém palmarés.
Trata-se do “Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação” que há 62 anos, em 1949, iniciava o seu primeiro número e que viria a terminar a sua actividade em 1964.
Teve como Director, (creio que único) Bento Levy, “Advogado e Publicista, natural e residente na cidade da Praia.” (Assim reza a sua biografia)
Sei que o periódico tinha subvenção estatal porque “afecto” à situação vigente e que, portanto, tinha “vida” garantida, ao contrário, por exemplo, da revista que lhe foi ainda coeva, “Claridade” (1936-1962) que fazia recolha de donativo financeiro e material entre os seus fundadores, os seus colaboradores e admiradores dos seus mentores, para se puder publicar, talvez para preservar também a sua liberdade criadora e inovadora! …Mas isto não retira o mérito e o apreço que nos devem merecer, nos dias de hoje, um periódico de cerca de 200 números e que registou, senão os melhores artigos, sem duvida dos melhores escritos explicativos sobre a nossa génese e subsequente evolução cultural enquanto comunidade humana que se tornou distinta e singular. Logo, pôde ainda assim, e dada a época de que falamos, preservar uma boa e bem aproveitada margem de liberdade de expressão e de escolha de temas para os seus colaboradores.
Durante a sua existência, teve colaboradores da mais alta craveira intelectual, deste Arquipélago. Referências, ainda hoje, incontornáveis no nosso universo literário e cultural. A exemplificar: José Lopes, Jorge Barbosa – nota curiosa, o facto deste poeta, para além de regular colaborador ter sido também o Correspondente do Boletim no Sal e em S. Vicente, enquanto chefe dos serviços aduaneiros nas ilhas mencionadas – Baltazar Lopes da Silva, João Lopes, Jaime Figueiredo, António Aurélio Gonçalves, Manuel Lopes, Manuel Ferreira, Félix Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, este último fez questão em afirmar, numa entrevista dada a Michel Laban, em 1987, que raro teria sido o número do «Cabo Verde» em que ele não tivesse escrito um artigo. Do mesmo modo, Maria Helena Spencer, colaboradora permanente, cronista/repórter/contista. Na mesma linha de colaboração, Guilherme Rocheteau, Nuno Miranda, quem, juntamente com Carlos Alberto Leite, coordenou uma página cultural. De Arnaldo Vasconcelos França, destaque-se de entre a sua valiosa colaboração para o Boletim, o extenso artigo, “Notas sobre poesia e ficção cabo-verdianas” que mereceu ser publicado como “separata” ao «Cabo Verde nº 1/57-1962 (nova fase)» e que ainda hoje constitui um ensaio sério para o estudo e para o conhecimento da trajectória da historiografia literária nacional. Na mesma sequência, distinguiria também a excelente análise «Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana» de Amílcar Lopes Cabral, inserida num dos números do Boletim, sobre Literatura cabo-verdiana na qual o autor elogia «Claridade» como sendo o que de melhor havia acontecido, até então, ao panorama literário das ilhas.
Foi no «Cabo Verde» que se estreou – tinha ele 17 anos – o grande poeta, ensaísta e contista, Gabriel Mariano, cujas primeiras colaborações datam do seu sexto ano do Liceu, em 1950, com o conto «O Roubo» primeiro prémio do concurso organizado pelo Boletim: “melhor Contista do ano” ao lado dos finalistas, Francisco de Sales Lopes da Silva e de José André Leitão da Graça, respectivamente segundo e terceiro classificados, igualmente alunos do sexto ano do velho Liceu de Gil Eanes. Do mesmo autor, Gabriel Lopes da Silva Mariano e igualmente publicado num dos números de 1950, o interessante ensaio: «O Amor na poesia de Eugénio Tavares».
A poetisa Yolanda Morazzo, os poetas Aguinaldo Fonseca, Terêncio Anahory, Ovídio Martins, Jorge Pedro Barbosa, Daniel Filipe, Pedro Duarte, e muitos mais deixaram os seus poemas inseridos neste periódico.
Foi ao “Cabo Verde,” em 1951, que o irmão do então malogrado poeta António Nunes – precocemente atingido pela doença que o levaria à morte em 1949 – confiou para publicação os manuscritos originais contendo poemas postumamente dados à estampa.
É igualmente neste mensário que encontrámos as transcrições em vários números, das sessões que constituíram a «Mesa Redonda sobre o Homem cabo-verdiano» (1957-58) em que se registaram intervenções dos nossos notáveis – escolho ao acaso: Daniel Tavares, Baltasar Lopes, Henrique Teixeira de Sousa, António Aurélio Gonçalves, entre outros, sob coordenação do Prof. Almerindo Lessa – sobre a idiossincrasia do Homem cabo-verdiano; ou, do mesmo modo, o registo escrito das afamadas crónicas de Baltasar Lopes da Silva, lidas aos microfones da Rádio Barlavento como repostas à celeuma levantada às conclusões a que terá chegado o estudo que o sociólogo brasileiro, Gilberto Freire elaborou após ter visitado, durante escassos dias, estas Ilhas. Um acrescento curioso sobre o mesmo caso foi a opinião contrária manifestada por Maria Helena Spencer, num dos seus artigos, pois que achava que Gilberto Freire era capaz de ter alguma razão naquilo que dissera sobre as ilhas. Fica o registo, pois demonstra a atenção que tal polémica despertou,
Continuando no «Cabo Verde», convinha igualmente destacar alguns ensaios científicos sobre o problema da seca e das estiagens cíclicas do Arquipélago. Neste campo registem-se as colaborações de Humberto Duarte Fonseca. Sobre a saúde, para além do já citado médico/escritor Teixeira de Sousa, temos textos de Sócrates Monteiro, João Meira, João Morais, José Duarte Fonseca, entre outros. E sobre a educação, destaco as colaborações de Guilherme Chantre, Edgar Santos, Maria Madalena Monteiro. Que não vá sem acrescentar as páginas desportivas com as assinaturas de Joaquim Ribeiro e de Evandro Matos.
Tem todo o mérito evocar que foi no Cabo Verde que se deu à estampa o «Suplemento Cultural» 1958 que pretendeu ser uma viragem ou uma novidade na poética nacional.
Mais tarde, na década de sessenta do século passado, o «Cabo Verde» viria a revelar-nos poetas como Mário Fonseca, Arménio Vieira – este último Prémio Camões, 2009 – e ambos em estreia absoluta, na publicação dos seus poemas; mas igualmente continuaram a revelar-se nas páginas deste Boletim, poetas como: Corsino Fortes, Onésimo Silveira, Teobaldo Virgínio. Foi também através das suas páginas que pudemos ler contistas, nas suas melhores narrativas, como: Virgílio Pires, Maria Margarida Mascarenhas e Maria Haydeia Avelino Pires.
E assim, ficaram patentes em quase todos os números desta revista/Boletim nas suas páginas, escritos reveladores da idiossincrasia, das alegrias, dos infortúnios e das vicissitudes do cabo-verdiano, na terra e no estrangeiro. Tudo caldeado em inúmeras análises lúcidas, históricas e sociologicamente profundas, que o «Cabo Verde» publicou ao longo dos seus quase duas centenas de números. Os artigos de estudo e de opinião aí registados foram e são ilustrativas de cuidadas elaborações de mentes atentas, estudiosas e sobretudo conhecedoras do que falavam; e mais, o leitor percebe que só escreviam depois de já dominados os temas com a segurança e a tranquilidade que só um aturado labor intelectual deixa depois escorrer na fala e na pena
Páginas bem escritas. Num português dulcíssimo. Como já quase não se usa nestas paragens. Para além de bem e escorreitamente escritas, os conteúdos, os assuntos saíram quase todos maduros e intelectualmente pensados, formulados e reformulados, num exercício sério dos seus autores, para ser lido e entendido pelos leitores, sobre a terra, as suas gentes e os seus problemas e que chegaram até aos nossos dias imbuídos de muita clarividência.
Deixem-me aqui expressar os dias, as horas, de belíssimas leituras e daquilo que apreendi e aprendi ao longo dos anos, sobre a cultura e a literatura do meu país, respigadas nas folhas deste antigo mensário do século XX.
É minha convicção que o «Cabo Verde» continua a ser uma excelente fonte de informação, de documentação, de pesquisa e, fundamentalmente, uma referência obrigatória para quem procure textos que melhor ilustraram e continuam a ilustrar a praxis cultural e literária cabo-verdianas.
O PM, a Água, a Energia e as Promessas
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Acabo de ouvir na rádio, hoje, dia 1 de Junho, o PM e a Ministra das Finanças. Sobre a água, a energia e as promessas de campanha. Fiquei estupefacto. Ainda há três meses, já depois de ter ganho as eleições, o PM confirmara a promessa de atribuir o 13º mês e a melhoria das condições salariais da Função Pública. A Ministra das Finanças acaba de anunciar precisamente o contrário. Pelo menos por agora. Na altura faláramos da insensatez do PM ou do seu desconhecimento da conjuntura internacional e da dependência absoluta de um país cuja produção de riqueza ainda não passara do estádio de reciclagem da ajuda internacional com particular incidência na construção de infra-estruturas. Um sector totalmente dominado por empresas estrangeiras. As infra-estruturas ficam, é certo, embora muitas ultrapassem as nossas reais necessidades e outras não passem de gigantescos elefantes brancos, de um grande logro. Pelos projectos e pelas vias de financiamento e de adjudicação. Mas os lucros e até alguma mão-de-obra básica, saliento básica, da sua construção são “expatriados”. Não vou entrar nos meandros desta perversa engrenagem que serve conhecidos interesses muito bem situados. Alguns até muito mesquinhos.
A minha estupefacção é pelo facto de, ou o PM não conhece minimamente as finanças do país que gere ou é de uma desonestidade compulsiva ao enganar de forma continuada, sistemática e desnecessária o País, alimentando-o de falsas e inúteis expectativas.
A água e a energia são bens essenciais básicos. E a maior cidade do País, cidade-capital, que alberga 25% da sua população vê-se intermitentemente privada desses bens essenciais. E o PM fala de avarias. De “avarias” estruturais dizia a Ministra das Finanças. Uma avaria cheia de tergiversações e que dura há décadas e que só conhece alguma “normalidade” no período das campanhas. Sobretudo das últimas – as de 2006 e de 2011. E é isto que espanta. O facto simples de avarias nessas alturas, e só nessas alturas, em que são inexplicavelmente infrequentes deixarem de ser “avarias” para passarem a ser “sabotagens”. Porquê só nas campanhas?... A pergunta não é só minha.
Mas também fiquei estarrecido ao ouvir o PM demarcar-se da ELECTRA ao encaminhar o jornalista para o gestor da Empresa quanto aquele o interpelou quanto ao mau funcionamento da empresa no cumprimento dos seus objectivos primários - fornecimento de energia e água. Como é? Uma empresa pública sobre a qual o PM considera-se inimputável. Desde quando? Quem nomeia a administração da Empresa? Que me desculpe a interrogação que me parece legítima: Terá sido o PM covarde ou irresponsável ao distanciar-se da administração da ELECTRA contrariando em absoluto o que não fez quando a empresa era privada sob a administração dos portugueses? Em qualquer dos casos é no mínimo bizarro!
Quanto às promessas, só faltou o subsídio de férias para se comparar aos países de maiores regalias sociais do mundo – os europeus. Convenhamos que é de mais para um país que só vive de ajudas!...
Louvo o pragmatismo, o realismo e a frontalidade da Ministra das Finanças de quem gostei muito mais ontem do que hoje. Portanto mais quando era uma técnica na política do que hoje em que defende ou subtiliza posições partidárias.
Duma coisa tenho poucas dúvidas: Com ou sem condições, até o fim do mandato aparecerá o 13º mês. E quem vier a seguir que o pague.
A. Ferreira
A minha estupefacção é pelo facto de, ou o PM não conhece minimamente as finanças do país que gere ou é de uma desonestidade compulsiva ao enganar de forma continuada, sistemática e desnecessária o País, alimentando-o de falsas e inúteis expectativas.
A água e a energia são bens essenciais básicos. E a maior cidade do País, cidade-capital, que alberga 25% da sua população vê-se intermitentemente privada desses bens essenciais. E o PM fala de avarias. De “avarias” estruturais dizia a Ministra das Finanças. Uma avaria cheia de tergiversações e que dura há décadas e que só conhece alguma “normalidade” no período das campanhas. Sobretudo das últimas – as de 2006 e de 2011. E é isto que espanta. O facto simples de avarias nessas alturas, e só nessas alturas, em que são inexplicavelmente infrequentes deixarem de ser “avarias” para passarem a ser “sabotagens”. Porquê só nas campanhas?... A pergunta não é só minha.
Mas também fiquei estarrecido ao ouvir o PM demarcar-se da ELECTRA ao encaminhar o jornalista para o gestor da Empresa quanto aquele o interpelou quanto ao mau funcionamento da empresa no cumprimento dos seus objectivos primários - fornecimento de energia e água. Como é? Uma empresa pública sobre a qual o PM considera-se inimputável. Desde quando? Quem nomeia a administração da Empresa? Que me desculpe a interrogação que me parece legítima: Terá sido o PM covarde ou irresponsável ao distanciar-se da administração da ELECTRA contrariando em absoluto o que não fez quando a empresa era privada sob a administração dos portugueses? Em qualquer dos casos é no mínimo bizarro!
Quanto às promessas, só faltou o subsídio de férias para se comparar aos países de maiores regalias sociais do mundo – os europeus. Convenhamos que é de mais para um país que só vive de ajudas!...
Louvo o pragmatismo, o realismo e a frontalidade da Ministra das Finanças de quem gostei muito mais ontem do que hoje. Portanto mais quando era uma técnica na política do que hoje em que defende ou subtiliza posições partidárias.
Duma coisa tenho poucas dúvidas: Com ou sem condições, até o fim do mandato aparecerá o 13º mês. E quem vier a seguir que o pague.
A. Ferreira
A Língua Portuguesa ignorada...
terça-feira, 24 de maio de 2011
Por vezes surpreendem-me certas e determinadas situações, pois que as acho bizarras pois chega a faltar-lhes, na minha perspectiva, alguma lógica contextual!
Foi o que aconteceu, quando vi em grande destaque e em vários “outdoors” ao longo da marginal de Lisboa o seguinte: «Brazilian Day» a anunciar a celebração do dia da comunidade brasileira. Por sinal a maior comunidade de luso-falantes imigrada em Portugal, nesta década.
Pois bem, aqui é que residiu a minha admiração. A maior nação falante do português a comemorar o seu dia em Portugal e a anunciá-lo em inglês? Não será já de mais esta autêntica “psicose” de tudo ser dito, ser feito e cantado em inglês?
Então? Que lógica haverá nisso? O anúncio em inglês de uma comemoração em Portugal da comunidade brasileira, ambos (os países) tendo por língua comum o português?! …
Estranha e bizarra! Ainda que me digam que seja uma “marca registada” em inglês, ainda que fosse o caso, merecia neste contexto concreto, alguma tradução! Sempre seria mais autêntico e, seguramente, mais perceptível para o comum dos transeuntes inclusive para os próprios brasileiros para o qual se destinava.
Por estas e por outras similares, é que os falantes da língua comum e que a amam de verdade, sentem alguma frustração e até indignação pela falta de respeito e de estima que os grandes da CPLP parecem, por vezes, nutrir pela sua própria língua!
Não está em causa o poderio quase absoluto que o inglês ganhou a nível mundial nos nossos dias. O que aqui parece falhar é a “falta de brio” com a nossa língua por parte dos seus, e muita vezes, daqueles que, se calhar, mais responsabilidade, afecto e cuidado deviam ter para com ela… Mas não, o que nos é dado perceber na actual conjuntura (chega a ser patético!) é que altos responsáveis luso-falantes (técnicos, académicos e políticos) mal saltam fronteira, para qualquer congresso ou encontro internacional - e sem mesmo antes do início da sessão, procurar saber se o serviço de tradução da Língua portuguesa está disponibilizado – o grande afã e empenho em querer “exibir” o seu “very fine british.” Não estou a ironizar, assisti isso em algumas reuniões internacionais por parte de colegas participantes da língua comum.
Da minha parte, tive a exacta percepção disso, numa reunião em Montréal no Canadá, com as representações e intervenções ao mais alto nível – directores-gerais e ministros – e então tive a preocupação de me dirigir à cabine de tradução e perguntar se a língua portuguesa não estaria de entre as passíveis de tradução. A responsável ao responder-me afirmativamente acrescentou que a da língua portuguesa só não havia sido accionada, porque «nenhum orador a havia solicitado». Esclarecedor.
Quando uma certa vaidade e também algum exibicionismo se sobrepõem ao orgulho, ao pragmatismo e à funcionalidade que podemos nós esperar? Sobretudo se o exemplo vem cima…
Foi o que aconteceu, quando vi em grande destaque e em vários “outdoors” ao longo da marginal de Lisboa o seguinte: «Brazilian Day» a anunciar a celebração do dia da comunidade brasileira. Por sinal a maior comunidade de luso-falantes imigrada em Portugal, nesta década.
Pois bem, aqui é que residiu a minha admiração. A maior nação falante do português a comemorar o seu dia em Portugal e a anunciá-lo em inglês? Não será já de mais esta autêntica “psicose” de tudo ser dito, ser feito e cantado em inglês?
Então? Que lógica haverá nisso? O anúncio em inglês de uma comemoração em Portugal da comunidade brasileira, ambos (os países) tendo por língua comum o português?! …
Estranha e bizarra! Ainda que me digam que seja uma “marca registada” em inglês, ainda que fosse o caso, merecia neste contexto concreto, alguma tradução! Sempre seria mais autêntico e, seguramente, mais perceptível para o comum dos transeuntes inclusive para os próprios brasileiros para o qual se destinava.
Por estas e por outras similares, é que os falantes da língua comum e que a amam de verdade, sentem alguma frustração e até indignação pela falta de respeito e de estima que os grandes da CPLP parecem, por vezes, nutrir pela sua própria língua!
Não está em causa o poderio quase absoluto que o inglês ganhou a nível mundial nos nossos dias. O que aqui parece falhar é a “falta de brio” com a nossa língua por parte dos seus, e muita vezes, daqueles que, se calhar, mais responsabilidade, afecto e cuidado deviam ter para com ela… Mas não, o que nos é dado perceber na actual conjuntura (chega a ser patético!) é que altos responsáveis luso-falantes (técnicos, académicos e políticos) mal saltam fronteira, para qualquer congresso ou encontro internacional - e sem mesmo antes do início da sessão, procurar saber se o serviço de tradução da Língua portuguesa está disponibilizado – o grande afã e empenho em querer “exibir” o seu “very fine british.” Não estou a ironizar, assisti isso em algumas reuniões internacionais por parte de colegas participantes da língua comum.
Da minha parte, tive a exacta percepção disso, numa reunião em Montréal no Canadá, com as representações e intervenções ao mais alto nível – directores-gerais e ministros – e então tive a preocupação de me dirigir à cabine de tradução e perguntar se a língua portuguesa não estaria de entre as passíveis de tradução. A responsável ao responder-me afirmativamente acrescentou que a da língua portuguesa só não havia sido accionada, porque «nenhum orador a havia solicitado». Esclarecedor.
Quando uma certa vaidade e também algum exibicionismo se sobrepõem ao orgulho, ao pragmatismo e à funcionalidade que podemos nós esperar? Sobretudo se o exemplo vem cima…