1. Os candidatos presidenciais perfilam-se na «grelha de partida» para a sua arrancada final. O chamado “debate” que constituiu na realidade o tiro de partida esteve muito longe de satisfazer as expectativas apesar das diversas tentativas de Jorge Carlos Fonseca para o aquecer e o tornar mais interactivo. Foi morno, depressivo e pouco ou nada clarificador. Aliás, esclareceu porque é que os dois candidatos do PAICV evitam um frente-a-frente que até podia ocupar-lhes menos tempo do que o actual figurino. Para tal bastaria que cada frente-a-frente tivesse a duração de uma hora, o que daria para cada um dos candidatos um tempo global de três horas, menos uma hora do que o modelo estabelecido. Não se tratou pois de um problema de agenda como nos tentaram impingir fazendo pouco da nossa inteligência, mas de medo dos efeitos directos e colaterais – exposição da impreparação e revelação de verdades inconvenientes.
2. Aristides Lima engoliu a treta de “candidato da cidadania” e nem sequer esboçou uma defesa quando acossado principalmente por Jorge Carlos Fonseca mas também por Inocêncio de Sousa dizendo tratar-se de um assunto menor. Mas mostrou que domina bem a Constituição, o que era absolutamente expectável dada a sua formação académica e as últimas funções que desempenhou. Não domina tão bem os outros “dossier” e revelou que tem alguma reticência na coabitação pacífica com o Governo ao endossar a estabilidade política para outras instâncias sem afirmar com clareza o seu posicionamento. No geral não convenceu.
3. Inocêncio de Sousa, por sua vez, esteve igual a si próprio mostrando que é o candidato oficial do PAICV – partido no poder – ao qual declara lealdade em contraposição ao seu adversário de partido. Está virado para a facilitação do cumprimento do programa do Governo e colaboração na persecução das metas desenvolvimentistas estabelecidas pelo Governo e seu partido a este respeito. E dentro deste quadro não esteve mal – discreto, talvez de mais, e pragmático e directo na sua exposição. Domina menos bem a Constituição, o que não admira pois é engenheiro de profissão embora político de ocupação. Se for eleito precisará de bons conselheiros e tomada séria de conselhos nesta área para não cometer os erros graves do actual PR. Cá fica o aviso para eventuais indesculpáveis e inadmissíveis inconstitucionalidades.
4. Jorge Carlos Fonseca é aquele cuja preparação se mostrou a mais equilibrada dominando de igual modo os “dossier” das várias áreas de intervenção política – a do direito e cidadania, a social, a económica, a da segurança dos cidadãos e a da política externa. Isto sem se falar da Constituição da qual se diz co-autor. Disse também ser um candidato sintonizado com os valores defendidos pelo MpD, partido do qual tem apoio, acrescentou, que o orgulha, tendo lembrado, num nítido apelo ao voto da diáspora, que a múltipla nacionalidade e a potenciação da dignificação da nossa comunidade emigrada, descendentes incluídos, são frutos exclusivos da governação MpD. Relativamente à política externa, tem ideias claras e algo críticas mas exacerba o papel do PR. Ele não é MNE e deve conter-se ao papel do Presidente da República. Globalmente está bem preparado para o desempenho da função presidencial.
5. Quanto ao candidato Joaquim Jaime Monteiro revelou-se um acérrimo defensor do regime presidencialista. E as suas posições quanto à concepção dos poderes do Presidente são, no actual regime, de governante e não de Presidente da República. Por isso não se sintoniza com as competências da função presidencial definidas na Constituição. A menos que ele queira aproveitar a ocasião para fazer passar a mensagem da defesa do presidencialismo uma vez que não seria muito coerente da sua parte jurar uma Constituição com a qual, no essencial, não concorda. E não terá poderes nenhuns para a mudar.
6. A política externa é uma área muito sensível e importante para um país com as nossas fragilidades, natureza diaspórica e dimensão. A alusão à nossa participação no Conselho de Segurança, não me pareceu muito feliz. Foi uma questão na altura polémica; não justificou os investimentos feitos e arriscou a criar-nos pequenas fricções com a “superpower” da nossa sub-região, Nigéria, para além de termos perdido o financiamento de um projecto. Não nos esqueçamos também da nossa abstenção nas Nações Unidas, ainda na 1ª República, no caso da Líbia, apenas uma abstenção que nos valeu um “puxão de orelhas” e alguns importantes sacos de milho que os americanos deixaram de nos dar. E alguma suspeita muito remota das razões da saída do USAID de Cabo Verde. Recentemente temos vindo a observar a intervenção desastrosa, ao que se diz nos meios diplomáticos vexatória, do PR e seu principal ponta de lança na Côte d’Ivoire, no tratamento do diferendo Ouatara - Gbagbo confundindo uma eventual amizade e/ou tratamento pessoal privilegiado – Gbagbo foi o único PR a estar presente na investidura do nosso PR – com os interesses reais de Cabo Verde, quiçá por ter estado envolvido numa questão interna semelhante que, por razões muito mais fortes, só não teve um desfecho tão trágico como o de Côte d’Ivoire por alguma lucidez e sensatez de Carlos Veiga e por sermos um povo de brandos costumes. E esperemos que as recentes, inúteis e desnecessárias, declarações do PR sobre o TPI na emissão do mandado de captura de Khadafi não venham a beliscar a nossa imagem. Intervir e dinamizar sim, mas com profundo realismo, discrição, sentido de estado e muita sensatez.
7. Um assunto que vem sendo dito e repisado sobretudo pelos media dominados pela facção do PAICV afecta a Aristides Lima é que José Maria Neves (JMN) enganou-se ao escolher Manuel Inocêncio Sousa (MIS) como candidato a PR. Para já intriga ter-se “encomendado” uma “sondagem” desse teor. A quem interessa? Mas atente-se ao significado do enunciado. Para além de surrealista no contexto partidário, ele arrasta em si mesmo uma vergonha e um escândalo para a imagem e para o funcionamento das estruturas do PAICV. Então como é? Manuel Inocêncio Sousa foi escolhido por José Maria Neves tout court? Não houve umas eleições internas num universo de quase 100 pessoas, precisamente entre as politicamente mais autorizadas e qualificadas (Conselho Nacional) do PAICV, por sinal com regras elaboradas com a participação dos directamente interessados, das quais ele se saiu vencedor? Não estariam presentes membros das duas facções? Ou, já o disse anteriormente, o centralismo democrático inspirador e essência da doutrina marxista-leninista do PAIGC ainda prevalece mesmo depois de mais de duas décadas da queda do Muro de Berlim? Não há instâncias de recurso para as irregularidades? Deixemos de histórias e de tretas… Qualquer militante do PAICV que tenha um miligrama de vergonha e um neurónio que seja de consciência democrática não devia falar de escolha do JMN. Não foi uma nomeação do JMN mas deliberação do Conselho Nacional. E quando alguém não respeita a democracia interna do partido que garantias pode dar do respeito pela democracia instalada no País? Não há democracia sem democratas.
8. O que realmente existe é uma “guerra” de facções e não uma natural luta de tendências. Não discutem “nuances” de ideologia nem percursos alternativos mas sim assentos, influências, no poder. É o triunvirato liderado por JMN e o seu grupo vitorioso de “jovens turcos” contra todo o “parque jurássico” do PAICV que vendo na saída do actual PR, o seu líder e último sobrevivente no poder, uma retirada (reforma) política efectiva que, aproveitando a ambição pessoal de Aristides Lima, quer encontrar nele uma âncora, uma tábua de salvação depois do esforço fracassado do PR de colocar em instâncias de poder os seus homens de mão. Aristides Lima nunca avançaria se, presumivelmente, não tivesse o aval do actual PR e promessas de incentivos de vária ordem, designadamente financeiros, dele e de figuras gradas desse “parque jurássico” à sua volta e seus acólitos, todos alinhados e bem identificados. Talvez aqui sim, haja ou haverá uma relação de submissão ou de dívida de gratidão.
9. Não admira que o conhecido triunvirato liderado por JMN tenha uma estratégia de poder que exclua de forma selectiva os mais proeminentes membros da “velha guarda” do PAICV e seus acólitos. Poderá existir, ab initio ou mesmo a posteriori, entre os elementos deste triunvirato um compromisso que implique a conquista dos três lugares cimeiros da hierarquia do poder no quadro de uma relação de primus inter pares onde pontificam a lealdade e a confiança mútuas e não qualquer relação de subordinação ou de submissão como provam os seus percursos comuns solidários dentro do seu partido. Junte-se a irreverência perante a “velha guarda”. É isto que incomoda a outra facção – a perda de protagonismo e de influências na área do poder e a miragem de definitivamente não os conquistar pelo sentimento real de que a era do PAICV caminha inexoravelmente para o fim, o que poderá estar mais perto do que se pode imaginar.
10. Como se diz popularmente que “só não sente quem não se sente filho de boa gente” e, por isso pessoa alguma acredita que depois do 7 de Agosto – data das eleições presidenciais – não haverá no PAICV um Congresso Extraordinário clarificador qualquer que seja o desfecho das eleições. Internamente nada será como dantes independentemente daquilo que vier a ser publicamente declarado. JMN quererá pôr cobro à insubordinação no seio do seu partido corporizada pelo grupo que fez tábua rasa a uma deliberação do seu Conselho Nacional; clarificar o desafio à sua autoridade como presidente; conferir a sua legitimidade indirectamente posta em causa por algumas declarações de militantes; aferir as relações de confiança e de lealdade indispensáveis ao trabalho de equipa. Se passar a sua moção, nada poderá fazer contra os membros deputados porque estes pertencem a uma outra área do poder. E estes, por sua vez, manter-se-ão quedos e mudos com medo que o Governo caia e percam definitivamente os seus “tachos”. Mas para todos aqueles cujos lugares são escolha sua – do JMN – directa ou indirectamente, por uma questão de coerência e dignidade não devem esperar clemência ou condescendência e antecipar com o seu pedido de demissão ou de lugar à disposição. E tenho poucas dúvidas que JMN não será outra coisa senão Maquiavel travestido de Erasmo de Roterdão no seu esplendor. Noblesse oblige.
A. Ferreira
Recusa de Debates em Democracia?
terça-feira, 5 de julho de 2011
“A democracia é uma forma superior de governo, porque
se baseia no respeito do homem como ser racional."
John F. Kennedy
Fiquei estupefacto ao ter conhecimento que os candidatos à presidência da República do meu país, com excepção de Jorge Carlos Fonseca, se escusaram a fazer um debate público entre eles, alegando razões de agenda.
Seja-me permitido achar ridícula e caricata tal atitude depois de mais vinte anos da queda do muro de Berlim e da instalação da democracia num País que também é classificado como de desenvolvimento médio.
Pelos vistos os nossos hábitos e a nossa cultura democráticos, não só não acompanharam o nosso desenvolvimento económico como também, em relação à democracia, não acompanharam a sua evolução no mundo. Ou melhor, a questão da democracia só é invocada para determinadas situações. Como estamos em ambiente das presidenciais, é o caso, p.e., do presidente eleito com votos dos mortos e ausentes para o qual a simples referência de Carlos Veiga ao facto, nos passados debates televisivos para as legislativas, foi classificada demagogicamente por José Maria Neves de gesto antidemocrático por, no seu entender, querer pôr em causa a decisão dos tribunais esquecendo ele, José Maria Neves, que Carlos Veiga também se baseava numa decisão dos tribunais e não em conjecturas. Mas o mais estranho dessa “eleição” jurídico-administrativa de um presidente é que o grande beneficiado, na sua função de mais alto magistrado da Nação nenhuma palavra disse de condenação desses actos comprovadamente fraudulentos, acomodando-se e escondendo-se atrás de um, usando um eufemismo, insensato, “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”.
Mas voltando a recusa – e não escusa, como antes disse – a um debate nacional público entre os candidatos, quando nenhum deles se encontra instalado e quando todo o eleitorado precisa de esclarecimento para decidir, ela é um atestado de menoridade e de desprezo à inteligência de todos os cidadãos-eleitores. É achar que o nosso eleitorado decide para funções tão importantes como as de Presidente da República por “simpatia”, por arrastamento dos “partidos apoiantes” ou por “slogans” quase sempre ocos e vazios dos comícios onde proliferam os lugares-comuns e as diversas fantasias.
Não é inédito, mas a envolvente e as circunstâncias políticas hoje, são bem diferentes.
Posso até compreender, sem a justificar, a recusa do candidato Manuel Inocêncio Sousa, uma vez que se trata de uma candidatura assumidamente partidária, orientada exclusivamente para os militantes do seu partido e, portanto, com os parâmetros e objectivos programáticos bem definidos e um público-alvo já suficientemente “esclarecido”.
Todas as outras dizem-se da “cidadania” (leia-se “sociedade civil”), ao mesmo tempo que, volto a referir, excepção feita a Jorge Carlos Fonseca, viram costas aos anseios e expectativas dessa sociedade civil da qual reclamam o seu voto sem nada dar em troca, nem sequer submeter ao contraditório directo dos contendores o seu programa mínimo. De quê é que têm medo? Das suas próprias palavras e posições? Das suas ambiguidades e carência de ideias? Do confronto das ideias com a realidade dos factos? De os eleitores passarem a conhecer toda a intriga e a imensa malha tortuosa em que o PAICV está metido e a consequência óbvia de uma punição nas urnas aos seus dois candidatos?
O que se espera dos candidatos presidenciais, porque todos constitucionalmente da “cidadania”, é que tenham na sua agenda lugares vários para debates a dois e, pelo menos um, para todos em conjunto (neste caso específico a quatro) e não o inverso – secundarizar o debate e remetê-lo a um lugarzinho na agenda, se “houver tempo”.
Com a evolução das novas tecnologias de informação e comunicação, designadamente dos meios audiovisuais, os debates tornaram-se a essência, a pedra de toque das democracias modernas.
É ponto assente e já lugar-comum que o debate de ideias, constitui sempre o grau alto em ambiente democrático; é um ponto de chegada, de apuramento, de classificação do estado da democracia em qualquer país que se preze! E quem ainda não compreendeu isto não pode aspirar, em democracia, a um lugar politicamente elegível. Não está preparado para a democracia real e esconde-se, evitando submeter as suas ideias ao contraditório directo e em simultâneo no universo dos eleitores para que estes reflictam, comparem e decidam.
Confesso estar chocado e triste com essa recusa dos nossos candidatos à presidência da República em fazer um debate público. Isto é reduzir a democracia e empobrecer o processo de candidaturas presidenciais. Desta forma não me permitem ter opções claras sobre qual dos candidatos merece o meu voto e atiram-me inexoravelmente para as bandas de Jorge Carlos Fonseca ou do voto branco punitivo. Este, reconheço, poderia não ser justo para com aquele que mostrou uma atitude democrática e de respeito e consideração para os cidadãos eleitores. Não gostaria de decidir desta forma… E mantenho ainda alguma esperança embora remota e ténue que esta manifesta caboverdura será evitada. Ainda há tempo!...
A grande conclusão a que chego é que os nossos candidatos a cargos políticos, salvo honrosas excepções, têm a mentalidade e os procedimentos de funcionários e não de titulares de órgãos de soberania mesmo se já os tiverem exercido, como resquícios de uma doutrina e de uma prática interiorizadas.
E esta de não ter espaço na agenda, para a primazia da democracia – o debate – há mais de um mês da data das eleições “não lembra ao diabo”. Por favor, tenham um pouco de respeito pela nossa ignorância para que vos possamos igualmente respeitar.
A. Ferreira
Presidente e não Presidenta!... Assim é que é!
domingo, 3 de julho de 2011
Aqui há tempos assisti a um agradável e interessante documentário – “José e Pilar” sobre uma significativa parte da vida de José Saramago. E já algum tempo antes havia também escutado uma entrevista à Dilma Rousself – Presidente da República Federativa do Brasil – conduzida por Miguel Sousa Tavares, através de um dos canais televisivos portugueses.
Antes de continuar, devo explicar porque junto estes dois assuntos, aparentemente desconexos. Acontece que em ambos houve um ponto coincidente que acabou por ser de certa forma, um forte atropelo à nossa língua portuguesa com a utilização incorrecta e, por vezes, arrogante, do termo “presidenta”. E é sobre isto que vou tecer umas muito breves considerações.
Que Dilma Rousself, a Presidente da República Federativa do Brasil se auto-denomine ou queira ser chamada de “Presidenta” até posso relevar, aceitar e compreender pois que isso poderá revelar algum deslumbramento ou fulgor feminista da parte da senhora, o que até se justifica pelo facto de ter sido a primeira mulher (?) eleita Presidente da República no seu País.
Todavia, o que já não consigo relevar ou deixar passar, é que um escritor, jornalista e comentador do gabarito e da estirpe – aqui no sentido nobre do termo – de Miguel Sousa Tavares, (que em matéria de língua portuguesa até teve «berço de ouro», pois que filho da grande contista e sublime poeta ou poetisa, Sofia de Melo Breyner Andressen) se tenha deixado ir nessa “fita” (que me seja permitido este eventual à-vontade semântico) quando entrevistou a Presidente do Brasil, na sua passagem por Portugal e a tenha tratado durante a entrevista por «Presidenta». É que isso deve ter bulido e chocado com o conhecimento e a correcção que Miguel Sousa Tavares de certeza possui das regras da sua língua materna. E emprego aqui o verbo chocar, pois que o conhecido comentador, autor de «Equador» entre outros romances, e considerado entre os melhores que temos em matéria de ficção e de história contemporâneas – estaria certamente, deduzo, a “violentar-se” linguisticamente.
Mas mais, li também, na mesma altura, numa revista portuguesa, títulos de notícias sobre a visita da presidente do Brasil neste teor: «Mimos portugueses para a senhora “Presidenta”»
Na mesma linha, Pilar del Rio, jornalista espanhola – a amada companheira de José Saramago, o Prémio Nobel da Literatura portuguesa – actual Presidente da Fundação José Saramago sedeada em Portugal, mulher dinâmica e culta, não duvido, mas quem, numa atitude muito pouco civilizada e sem ligar o “desconfiométro” social, desatou a chamar “néscios” e “burros” a quem a tratasse por “Presidente” da Fundação José Saramago. E numa postura pouco recomendada, e que até reclamava alguma reserva intelectual, afirmava em tom agressivo e peremptório que era “Presidenta” e que se a palavra não existisse na língua portuguesa, por “machismo”, (pensou ela, se calhar…) passaria a partir daquele momento a existir. “Magister dixit!” E assim nascem Linguistas! Como se diz à moda do Porto: «Valha-nos Deus!»
Ora bem, vamos à língua portuguesa, a nossa língua que, como afirmaram e afirmam os seus mais famosos e ilustres utilizadores, (de entre eles José Saramago), artistas, poetas e homens de pensamento, “outra mais bela no mundo não há!” Assim ela deve ser para nós, os seus falantes.
Faço relembrar que para além de ser bela, ela tem regras, como qualquer outra língua viva, falada e escrita. Ela possui normas ditas gramaticais que lhe dão sustentabilidade e sobretudo lógica no seu tecido linguístico (passe alguma eventual redundância) para que a comunicação se faça sem os chamados “ruídos”, “ambiguidades” ou outras confusões.
Possivelmente, o que as duas senhoras desconhecem ou ignoram é que a maior parte dos substantivos e adjectivos, terminados em “e” na língua portuguesa, nem sequer é do género masculino. Ou é do género feminino, ou é comum de dois (que é um subgénero gramatical). Isto é, são termos que pertencem e podem ser usados, conforme o contexto, ora no género masculino, ora no género feminino. Logo, a nossa gramática não é tão monocromática como querem fazê-la parecer. Não, ela possui uma paleta de variantes e de cambiantes de géneros e de subgéneros nas famílias das palavras que permitem que o falante, mantendo-se dentro das normas, se expresse de uma forma rica e clara!
Fiz ao acaso, um brevíssimo apanhado de algumas das mais bonitas, e também das mais temíveis palavras terminadas em “e” da língua portuguesa, que julgo ser ilustrativo daquilo que venho afirmando.
Ei-las:
A Amizade, a Saúde, a Fonte, a Felicidade, a Honestidade, a Dignidade, a Hombridade, a Bondade, a Caridade, a Fidelidade, a Lealdade, a Majestade, a Efeméride, a Sensualidade e a Sexualidade. Assim também: a Falsidade, a Hostilidade, a Calamidade, a Malignidade, a Catástrofe, entre outras, e mais outras, de uma inesgotável listagem.
O interessante é que são mais raros, os registos gramaticais de palavras terminadas em “e” pertencentes ao género masculino. Uma mini listagem: Infante, Enxofre, Enxame e Cardume, são algumas delas.
Mas o mais significativo, em termos de quantidade e de regra gramatical da língua portuguesa, são os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em “e” e que se usam tanto no feminino, como no masculino, o tal subgénero chamado, comum de dois.
Assim temos: o, a Presidente; o, a, Inteligente; o, a Ignorante; o, a Estudante; o, a Intérprete; o, a Emigrante; o, a Imigrante; o, a Cônjuge; o, a Herege, o, a Vidente, o, a Regente; o, a Paciente; o, a Pretendente, o, a Cliente, o, a Adolescente; o, a Elegante; o, a Prudente; o, a, Representante; o, a Ardente; o, a Chefe, entre vários outros exemplos que os limites deste texto não comportam.
Como vêm, ilustres Presidentes, a nossa gramática permite ao semantema que denomina a vossa actual função (Presidente) uma ambivalência em termos de género que o torna mais prestimoso e rico no seu uso e no seu significado.
Para além disso e antes de finalizar este breve escrito, gostaria de alertar às duas ilustres Presidentes que fiquem tranquilas porque não são as primeiras mulheres “presidentes” e nem serão as últimas. Antes delas existiram centenas se não milhares, nos países de Língua portuguesa. São as presidentes das câmaras, dos conselhos de administração, das fundações, das juntas de freguesia, dos institutos vários, das diversas comissões, das associações, entre presidentes mulheres de múltiplas outras instituições ou organizações privadas e públicas. Isto, assim dito, de forma genérica e sem qualquer esforço de memória. Não vejo pois razão alguma plausível para essas duas mulheres – já notáveis – rejeitarem ou se sentirem menos mulheres quando apelidadas de “presidente”.
E para terminar mesmo, daqui das ilhas de Cabo Verde vai uma Saúde! (sinónimo de saudação) à Língua Portuguesa!
Antes de continuar, devo explicar porque junto estes dois assuntos, aparentemente desconexos. Acontece que em ambos houve um ponto coincidente que acabou por ser de certa forma, um forte atropelo à nossa língua portuguesa com a utilização incorrecta e, por vezes, arrogante, do termo “presidenta”. E é sobre isto que vou tecer umas muito breves considerações.
Que Dilma Rousself, a Presidente da República Federativa do Brasil se auto-denomine ou queira ser chamada de “Presidenta” até posso relevar, aceitar e compreender pois que isso poderá revelar algum deslumbramento ou fulgor feminista da parte da senhora, o que até se justifica pelo facto de ter sido a primeira mulher (?) eleita Presidente da República no seu País.
Todavia, o que já não consigo relevar ou deixar passar, é que um escritor, jornalista e comentador do gabarito e da estirpe – aqui no sentido nobre do termo – de Miguel Sousa Tavares, (que em matéria de língua portuguesa até teve «berço de ouro», pois que filho da grande contista e sublime poeta ou poetisa, Sofia de Melo Breyner Andressen) se tenha deixado ir nessa “fita” (que me seja permitido este eventual à-vontade semântico) quando entrevistou a Presidente do Brasil, na sua passagem por Portugal e a tenha tratado durante a entrevista por «Presidenta». É que isso deve ter bulido e chocado com o conhecimento e a correcção que Miguel Sousa Tavares de certeza possui das regras da sua língua materna. E emprego aqui o verbo chocar, pois que o conhecido comentador, autor de «Equador» entre outros romances, e considerado entre os melhores que temos em matéria de ficção e de história contemporâneas – estaria certamente, deduzo, a “violentar-se” linguisticamente.
Mas mais, li também, na mesma altura, numa revista portuguesa, títulos de notícias sobre a visita da presidente do Brasil neste teor: «Mimos portugueses para a senhora “Presidenta”»
Na mesma linha, Pilar del Rio, jornalista espanhola – a amada companheira de José Saramago, o Prémio Nobel da Literatura portuguesa – actual Presidente da Fundação José Saramago sedeada em Portugal, mulher dinâmica e culta, não duvido, mas quem, numa atitude muito pouco civilizada e sem ligar o “desconfiométro” social, desatou a chamar “néscios” e “burros” a quem a tratasse por “Presidente” da Fundação José Saramago. E numa postura pouco recomendada, e que até reclamava alguma reserva intelectual, afirmava em tom agressivo e peremptório que era “Presidenta” e que se a palavra não existisse na língua portuguesa, por “machismo”, (pensou ela, se calhar…) passaria a partir daquele momento a existir. “Magister dixit!” E assim nascem Linguistas! Como se diz à moda do Porto: «Valha-nos Deus!»
Ora bem, vamos à língua portuguesa, a nossa língua que, como afirmaram e afirmam os seus mais famosos e ilustres utilizadores, (de entre eles José Saramago), artistas, poetas e homens de pensamento, “outra mais bela no mundo não há!” Assim ela deve ser para nós, os seus falantes.
Faço relembrar que para além de ser bela, ela tem regras, como qualquer outra língua viva, falada e escrita. Ela possui normas ditas gramaticais que lhe dão sustentabilidade e sobretudo lógica no seu tecido linguístico (passe alguma eventual redundância) para que a comunicação se faça sem os chamados “ruídos”, “ambiguidades” ou outras confusões.
Possivelmente, o que as duas senhoras desconhecem ou ignoram é que a maior parte dos substantivos e adjectivos, terminados em “e” na língua portuguesa, nem sequer é do género masculino. Ou é do género feminino, ou é comum de dois (que é um subgénero gramatical). Isto é, são termos que pertencem e podem ser usados, conforme o contexto, ora no género masculino, ora no género feminino. Logo, a nossa gramática não é tão monocromática como querem fazê-la parecer. Não, ela possui uma paleta de variantes e de cambiantes de géneros e de subgéneros nas famílias das palavras que permitem que o falante, mantendo-se dentro das normas, se expresse de uma forma rica e clara!
Fiz ao acaso, um brevíssimo apanhado de algumas das mais bonitas, e também das mais temíveis palavras terminadas em “e” da língua portuguesa, que julgo ser ilustrativo daquilo que venho afirmando.
Ei-las:
A Amizade, a Saúde, a Fonte, a Felicidade, a Honestidade, a Dignidade, a Hombridade, a Bondade, a Caridade, a Fidelidade, a Lealdade, a Majestade, a Efeméride, a Sensualidade e a Sexualidade. Assim também: a Falsidade, a Hostilidade, a Calamidade, a Malignidade, a Catástrofe, entre outras, e mais outras, de uma inesgotável listagem.
O interessante é que são mais raros, os registos gramaticais de palavras terminadas em “e” pertencentes ao género masculino. Uma mini listagem: Infante, Enxofre, Enxame e Cardume, são algumas delas.
Mas o mais significativo, em termos de quantidade e de regra gramatical da língua portuguesa, são os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em “e” e que se usam tanto no feminino, como no masculino, o tal subgénero chamado, comum de dois.
Assim temos: o, a Presidente; o, a, Inteligente; o, a Ignorante; o, a Estudante; o, a Intérprete; o, a Emigrante; o, a Imigrante; o, a Cônjuge; o, a Herege, o, a Vidente, o, a Regente; o, a Paciente; o, a Pretendente, o, a Cliente, o, a Adolescente; o, a Elegante; o, a Prudente; o, a, Representante; o, a Ardente; o, a Chefe, entre vários outros exemplos que os limites deste texto não comportam.
Como vêm, ilustres Presidentes, a nossa gramática permite ao semantema que denomina a vossa actual função (Presidente) uma ambivalência em termos de género que o torna mais prestimoso e rico no seu uso e no seu significado.
Para além disso e antes de finalizar este breve escrito, gostaria de alertar às duas ilustres Presidentes que fiquem tranquilas porque não são as primeiras mulheres “presidentes” e nem serão as últimas. Antes delas existiram centenas se não milhares, nos países de Língua portuguesa. São as presidentes das câmaras, dos conselhos de administração, das fundações, das juntas de freguesia, dos institutos vários, das diversas comissões, das associações, entre presidentes mulheres de múltiplas outras instituições ou organizações privadas e públicas. Isto, assim dito, de forma genérica e sem qualquer esforço de memória. Não vejo pois razão alguma plausível para essas duas mulheres – já notáveis – rejeitarem ou se sentirem menos mulheres quando apelidadas de “presidente”.
E para terminar mesmo, daqui das ilhas de Cabo Verde vai uma Saúde! (sinónimo de saudação) à Língua Portuguesa!
«BALTASAR LOPES, Um homem arquipélago na linha de todas as batalhas»
quarta-feira, 29 de junho de 2011
APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE LEÃO LOPES
Por Rui Figueiredo Soares
Senhor Presidente do Instituto da Biblioteca e do Livro,
Distintos Convidados e Amigos,
Caro Leão,
Há vozes que não se calam.
Há pessoas que fazem morada eterna na nossa memória colectiva.
Nhô Baltas é uma delas.
E, no SOLILÓQUIO que nos legou Osvaldo Alcântara, continua a baralhar a água lenta em que desagua a nossa Sabedoria…
É do pedacinho de memória colectiva em mim ancorada que vos falarei hoje, por ocasião do lançamento, na Praia, da obra-prima de Leão Lopes, sugestivamente intitulada BALTASAR LOPES, Um homem arquipélago na linha de todas as batalhas.
Uma homenagem conjunta ao Amigo e Mestre Baltasar Lopes, enquadrada nas Edições Ponto & Vírgula, numa evocação mista de saudade e alegria dos anos riquíssimos da Revista, entusiasticamente aplaudida e assumida por Nhô Baltas, desde a primeira hora.
Faltar-me-á certamente engenho e arte para a ousada tarefa de vos falar do conhecido Mestre Baltasar Lopes (mormente depois da cuidada apresentação feita por Leão), mas tentarei compensar essa ausência de atributos com notas da emoção de quem lembra uma velha melodia, não triste como a de Chiquinho, mas sempre alegre, como um diapasão persistente no roteiro da minha vida.
Falar-vos-ei hoje do meu amigo Nhô Baltas, o meu professor desde o primeiro ano no Liceu Gil Eanes e o meu Mestre inesquecível, na linha de todas as batalhas.
Trago apenas um testemunho, povoado de notas esparsas, que gostaria de alçar em público agradecimento, pelo raro privilégio de aprender da vida com um Homem da estatura de Baltasar Lopes.
Porém, não sem antes vos dizer que li de uma assentada a excelente obra de Leão, que constitui um importantíssimo contributo para o engrandecimento da cabo-verdianidade, revelando uma parte do itinerário biográfico de um dos seus, se não o seu, mais importante construtor, Baltasar Lopes.
Leão Lopes fez um trabalho de grande rigor científico, no qual pôs também, à imagem do biografado, todo o seu coração, e oferece-nos uma oportunidade ímpar de entender o homem Baltasar Lopes, no seu tempo, dentro e fora das fronteiras das Ilhas.
Toda a reconhecida arte do autor está no livro, que em mim evocou o resultado da sábia paciência do savoir-faire de um artista plástico: um monumento àquele esteve na linha de todas as batalhas, com os pés bem fincados nesta terra que o deslumbrou.
Leão mostra-nos o poeta, o professor, o filólogo, o ensaísta, o romancista, o advogado, o homem do povo, o político, facetas mais conhecidas de Baltasar Lopes.
Mas revela-nos igualmente:
• O amante do desporto, praticante de futebol e atletismo, nos tempos de Universidade, em Lisboa;
• O executante de vários instrumentos musicais, que participa na génese da morna Eclipse de B. Leza, faz serenatas prometidas à amada em Lajedos e incentiva o estudo da música, com um projecto de Conservatório em Mindelo, antevendo a dimensão que Cabo Verde devia ganhar através dos sues músicos;
• O contestatário político, no centro das operações da revolta encabeçada pelo Capitão Ambrósio;
• A religiosidade de Osvaldo Alcântara, não pseudónimo, nem heterónimo, simplesmente o “outro” com Baltasar dentro. O mais um do Grupo Claridoso, o pen-man, no dizer do próprio Baltasar Lopes, que viveu na mais absoluta clandestinidade durante 23 anos, aos olhos da PIDE, que, entretanto avoluma o dossier desse misterioso personagem;
• O aluno adolescente do Liceu Camões em Lisboa, que sentia muita vocação para Medicina e gostaria de fazer esse curso, mas acabou por fazer Direito e Filologia Românica, depois de se ter matriculado em Germânicas, com um segredo na manga: estudar sempre, todos os dias, que lhe valeu a elevada classificação de dezassete valores nas duas licenciaturas;
• A formação do “adjectivamente” advogado, que, a meio do curso se pergunta “…diabo, para que me serve este curso de Direito?” e torna-se substancialmente professor, para gáudio de inúmeras gerações de cabo-verdianos, exercendo de forma única o magistério no Liceu de S. Vicente;
• O professor da boina basca comprada na Loja de Toi Pombinha, rapidamente imitado por alunos do Liceu e por populares;
• A circunspecção dos amores dos tempos universitários e dos de professorado, até à paixão da sua vida, marcada por travessias do canal, compasso de morna e notas de serenatas.
Leão vai às raízes da existência de Baltasar Lopes, observa atentamente a evolução da sua personalidade, conduz-nos de forma magistral à sua maturidade intelectual, política e social e à consequente entrada na vida pública do homem pronto para actuar, aos trinta e três anos de idade, desvendando-nos facetas do grande Mestre, até hoje desconhecidas do grande público.
Leão quer surpreender e registar todas as dimensões do homem Baltasar Lopes, e, na sua qualidade de artista multifacetado, lega-nos uma obra inesquecível sobre um génio incontornável da Nação Cabo-verdiana.
Se cada coisa tem o seu tempo, este já era o do início do grande empreendimento que é o estudo sistemático da obra de Baltasar Lopes, e Leão deixa o seu contributo inegável, acenando, no Epílogo, novas pistas que devem ser prosseguidas.
A apresentação cuidada e minuciosa feita por Leão guia-nos de forma perfeita na viagem que ele empreendeu no rico universo “baltasariano”.
Depois da apresentação, é fácil adivinhar o tesouro talhado na lavra de Leão.
Não resisto, contudo, a aguçar mais a vossa curiosidade para a descoberta de muitas batalhas que, com o coração sempre na mão, o homem arquipélago Baltasar Lopes enfrentou e venceu.
O livro de Leão trouxe-me muitas revelações sobre o percurso inicial de Nhô Baltas (nos primeiros trinta e três anos), mas podem crer que nele encontrei as raízes do mesmo homem íntegro, determinado, inteligente, perspicaz, amigo e profundo conhecedor das pessoas e das coisas, o mesmo arauto indefectível da cabo-verdianidade.
Reencontrei a essência do excelente professor, atento a cada pessoa entregue à sua missão de educador, com um capital de milhares de alunos e todos amigos, para os quais era evidente a paixão do Mestre por ensinar e partilhar o saber, com inegável espírito de rigor, com o sentimento de euforia e de exaltação que tive o prazer de constatar no dia da sua última lição no Gil Eanes.
Reencontrei o mesmo ímpeto e a mesma coragem do defensor intransigente da liberdade, a que me habituou como conselheiro em várias iniciativas literárias e políticas, em que tive a honra de participar:
• No programa radiofónico Nôs Terra, de clara contestação ao colonialismo português, entre 1973 e 1974, que lhe valeu uma anotação da PIDE-DGS: Cuidado, estes jovens são dirigidos pelo Dr. Baltasar Lopes!
• Na Festa de Finalistas do meu ano, a 27 de Abril de 1974 (dois dias depois da Revolução dos Cravos), em que o Reitor do Liceu mandou apagar os títulos dos poemas contestatários (entre outros, Flagelados do Vento Leste e Poema diferente) que tínhamos escrito nas paredes do Salão, perante a indefinição ainda em Cabo Verde: o comentário do Dr. Baltasar foi: Ó homens, é como apresentar um prato de comida a um faminto e tirar-lhe o garfo; ele come com mãos ou com a boca.
• No Ponto & Vírgula, em que participou de corpo e alma, com a mesma combatividade e produtividade, brindando-nos com as crónicas intituladas VARIA QUAEDAM, revigorado por aquilo que, afinal, foi um compromisso de combate pela resistência cultural: investigar e dar a conhecer sobre a cabo-verdianidade.
Obrigado, Leão, pelos anos de intenso labor que, em mim e nos inúmeros discípulos do Mestre, confirmam a grandeza do Homem com o qual tivemos o privilégio de conviver.
Estou seguro de que Nhô Baltas colheu o fruto que Osvaldo Alcântara vaticinou no Deslumbramento da paisagem árida: o fruto da vitória lenta que sempre marchou para ele com passos silenciosos.
Para terminar, uma confissão, envolta no véu invisível das coisas que saem do fundo do coração: estou aqui hoje também porque, como o caçador de heranças do Capitão das Ilhas, queria confessar publicamente a minha gratidão pela riqueza que Nhô Baltas me deixou e pela sua dimensão desmesurada do mundo.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Rui Figueiredo Soares
Por Rui Figueiredo Soares
Senhor Presidente do Instituto da Biblioteca e do Livro,
Distintos Convidados e Amigos,
Caro Leão,
Há vozes que não se calam.
Há pessoas que fazem morada eterna na nossa memória colectiva.
Nhô Baltas é uma delas.
E, no SOLILÓQUIO que nos legou Osvaldo Alcântara, continua a baralhar a água lenta em que desagua a nossa Sabedoria…
É do pedacinho de memória colectiva em mim ancorada que vos falarei hoje, por ocasião do lançamento, na Praia, da obra-prima de Leão Lopes, sugestivamente intitulada BALTASAR LOPES, Um homem arquipélago na linha de todas as batalhas.
Uma homenagem conjunta ao Amigo e Mestre Baltasar Lopes, enquadrada nas Edições Ponto & Vírgula, numa evocação mista de saudade e alegria dos anos riquíssimos da Revista, entusiasticamente aplaudida e assumida por Nhô Baltas, desde a primeira hora.
Faltar-me-á certamente engenho e arte para a ousada tarefa de vos falar do conhecido Mestre Baltasar Lopes (mormente depois da cuidada apresentação feita por Leão), mas tentarei compensar essa ausência de atributos com notas da emoção de quem lembra uma velha melodia, não triste como a de Chiquinho, mas sempre alegre, como um diapasão persistente no roteiro da minha vida.
Falar-vos-ei hoje do meu amigo Nhô Baltas, o meu professor desde o primeiro ano no Liceu Gil Eanes e o meu Mestre inesquecível, na linha de todas as batalhas.
Trago apenas um testemunho, povoado de notas esparsas, que gostaria de alçar em público agradecimento, pelo raro privilégio de aprender da vida com um Homem da estatura de Baltasar Lopes.
Porém, não sem antes vos dizer que li de uma assentada a excelente obra de Leão, que constitui um importantíssimo contributo para o engrandecimento da cabo-verdianidade, revelando uma parte do itinerário biográfico de um dos seus, se não o seu, mais importante construtor, Baltasar Lopes.
Leão Lopes fez um trabalho de grande rigor científico, no qual pôs também, à imagem do biografado, todo o seu coração, e oferece-nos uma oportunidade ímpar de entender o homem Baltasar Lopes, no seu tempo, dentro e fora das fronteiras das Ilhas.
Toda a reconhecida arte do autor está no livro, que em mim evocou o resultado da sábia paciência do savoir-faire de um artista plástico: um monumento àquele esteve na linha de todas as batalhas, com os pés bem fincados nesta terra que o deslumbrou.
Leão mostra-nos o poeta, o professor, o filólogo, o ensaísta, o romancista, o advogado, o homem do povo, o político, facetas mais conhecidas de Baltasar Lopes.
Mas revela-nos igualmente:
• O amante do desporto, praticante de futebol e atletismo, nos tempos de Universidade, em Lisboa;
• O executante de vários instrumentos musicais, que participa na génese da morna Eclipse de B. Leza, faz serenatas prometidas à amada em Lajedos e incentiva o estudo da música, com um projecto de Conservatório em Mindelo, antevendo a dimensão que Cabo Verde devia ganhar através dos sues músicos;
• O contestatário político, no centro das operações da revolta encabeçada pelo Capitão Ambrósio;
• A religiosidade de Osvaldo Alcântara, não pseudónimo, nem heterónimo, simplesmente o “outro” com Baltasar dentro. O mais um do Grupo Claridoso, o pen-man, no dizer do próprio Baltasar Lopes, que viveu na mais absoluta clandestinidade durante 23 anos, aos olhos da PIDE, que, entretanto avoluma o dossier desse misterioso personagem;
• O aluno adolescente do Liceu Camões em Lisboa, que sentia muita vocação para Medicina e gostaria de fazer esse curso, mas acabou por fazer Direito e Filologia Românica, depois de se ter matriculado em Germânicas, com um segredo na manga: estudar sempre, todos os dias, que lhe valeu a elevada classificação de dezassete valores nas duas licenciaturas;
• A formação do “adjectivamente” advogado, que, a meio do curso se pergunta “…diabo, para que me serve este curso de Direito?” e torna-se substancialmente professor, para gáudio de inúmeras gerações de cabo-verdianos, exercendo de forma única o magistério no Liceu de S. Vicente;
• O professor da boina basca comprada na Loja de Toi Pombinha, rapidamente imitado por alunos do Liceu e por populares;
• A circunspecção dos amores dos tempos universitários e dos de professorado, até à paixão da sua vida, marcada por travessias do canal, compasso de morna e notas de serenatas.
Leão vai às raízes da existência de Baltasar Lopes, observa atentamente a evolução da sua personalidade, conduz-nos de forma magistral à sua maturidade intelectual, política e social e à consequente entrada na vida pública do homem pronto para actuar, aos trinta e três anos de idade, desvendando-nos facetas do grande Mestre, até hoje desconhecidas do grande público.
Leão quer surpreender e registar todas as dimensões do homem Baltasar Lopes, e, na sua qualidade de artista multifacetado, lega-nos uma obra inesquecível sobre um génio incontornável da Nação Cabo-verdiana.
Se cada coisa tem o seu tempo, este já era o do início do grande empreendimento que é o estudo sistemático da obra de Baltasar Lopes, e Leão deixa o seu contributo inegável, acenando, no Epílogo, novas pistas que devem ser prosseguidas.
A apresentação cuidada e minuciosa feita por Leão guia-nos de forma perfeita na viagem que ele empreendeu no rico universo “baltasariano”.
Depois da apresentação, é fácil adivinhar o tesouro talhado na lavra de Leão.
Não resisto, contudo, a aguçar mais a vossa curiosidade para a descoberta de muitas batalhas que, com o coração sempre na mão, o homem arquipélago Baltasar Lopes enfrentou e venceu.
O livro de Leão trouxe-me muitas revelações sobre o percurso inicial de Nhô Baltas (nos primeiros trinta e três anos), mas podem crer que nele encontrei as raízes do mesmo homem íntegro, determinado, inteligente, perspicaz, amigo e profundo conhecedor das pessoas e das coisas, o mesmo arauto indefectível da cabo-verdianidade.
Reencontrei a essência do excelente professor, atento a cada pessoa entregue à sua missão de educador, com um capital de milhares de alunos e todos amigos, para os quais era evidente a paixão do Mestre por ensinar e partilhar o saber, com inegável espírito de rigor, com o sentimento de euforia e de exaltação que tive o prazer de constatar no dia da sua última lição no Gil Eanes.
Reencontrei o mesmo ímpeto e a mesma coragem do defensor intransigente da liberdade, a que me habituou como conselheiro em várias iniciativas literárias e políticas, em que tive a honra de participar:
• No programa radiofónico Nôs Terra, de clara contestação ao colonialismo português, entre 1973 e 1974, que lhe valeu uma anotação da PIDE-DGS: Cuidado, estes jovens são dirigidos pelo Dr. Baltasar Lopes!
• Na Festa de Finalistas do meu ano, a 27 de Abril de 1974 (dois dias depois da Revolução dos Cravos), em que o Reitor do Liceu mandou apagar os títulos dos poemas contestatários (entre outros, Flagelados do Vento Leste e Poema diferente) que tínhamos escrito nas paredes do Salão, perante a indefinição ainda em Cabo Verde: o comentário do Dr. Baltasar foi: Ó homens, é como apresentar um prato de comida a um faminto e tirar-lhe o garfo; ele come com mãos ou com a boca.
• No Ponto & Vírgula, em que participou de corpo e alma, com a mesma combatividade e produtividade, brindando-nos com as crónicas intituladas VARIA QUAEDAM, revigorado por aquilo que, afinal, foi um compromisso de combate pela resistência cultural: investigar e dar a conhecer sobre a cabo-verdianidade.
Obrigado, Leão, pelos anos de intenso labor que, em mim e nos inúmeros discípulos do Mestre, confirmam a grandeza do Homem com o qual tivemos o privilégio de conviver.
Estou seguro de que Nhô Baltas colheu o fruto que Osvaldo Alcântara vaticinou no Deslumbramento da paisagem árida: o fruto da vitória lenta que sempre marchou para ele com passos silenciosos.
Para terminar, uma confissão, envolta no véu invisível das coisas que saem do fundo do coração: estou aqui hoje também porque, como o caçador de heranças do Capitão das Ilhas, queria confessar publicamente a minha gratidão pela riqueza que Nhô Baltas me deixou e pela sua dimensão desmesurada do mundo.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Rui Figueiredo Soares
Família (?)...Procura-se
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Por vezes o mote para um texto surge de forma inesperada, e não deixa de ter o seu quê de surpreendentemente agradável!
Foi o caso de, ao abrir o meu correio electrónico, ter encontrado um convite vindo da prestigiada Casa da Memória da ilha do Fogo e da sua responsável a minha querida amiga Monique, sobre a exibição de um Documentário intitulado: «Ilha Da Cova Da Moura».
Dito desta forma, pretendo explicar que o tema foi dele cooptado e correlacionado com uma conversa tida recentemente sobre a responsabilidade parental, no caso, foi mais de desresponsabilização paternal.
É minha opinião que é na família ou melhor, na ausência estruturada dela que encontramos as causas maiores dos males que afectam e condicionam o perfil e o comportamento social de uma parte significativa dos nossos cidadãos.
Mas antes de continuar, abro um parêntesis para contextualizar o que a seguir conto, dizendo num aparte, que o mês de Junho tem sido nas paróquias do país, ou pelo menos nas da Praia, o mês dos Crismas. Sei-o bem, pois na paróquia que frequento, aconteceu tal solenidade na semana passada. Fecho o parêntesis e retomo o tema.
Um dos filhos da minha empregada vai a crismar proximamente e, contou-me ela que o Pároco pediu aos crismandos a presença dos pais numa das reuniões de preparação do evento.
Ora bem, vai daí o nosso jovem rapaz, explicou ao padre que ele tinha apenas mãe. Que do pai, ele sabe que ele está vivo, sabe quem é, mas que nunca o tratou e nem dele cuidou como filho. Daí não fazer qualquer sentido, ter o progenitor ao lado dele naquele momento de tão grande importância, no seu entender.
Pois bem, teremos de dar alguma razão ao rapaz. Ele foi autêntico! Não queria ao lado e, numa ocasião especial, o tal “pai de drops” – numa bem achada definição, simbólica embora, de uma juíza de família que lida ou lidou no tribunal com este protótipo de pai e com os problemas por ele causados com a sua irresponsabilidade em não assumir os filhos que traz ao mundo e que só os chama e se lembra deles em dias festivos e quando com eles topa, para lhes dar os tais “drops” (rebuçados), esquecendo-se nos restantes dias do ano de que é o pai.
Infelizmente, esse é um triste quotidiano da realidade, com maior visibilidade, na família desestruturada, monoparental da camada social mais pobre e iletrada de Cabo Verde, mais visível numas ilhas do que noutras e sobretudo, com toda a configuração suburbana de bairros periféricos e problemáticos das cidades.
Eu sei que o tema é recorrente nas análises sociológicas que se tecem sobre a família monoparental cabo-verdiana, mas não perde e nem esgota a actualidade e a possibilidade de diferentes ângulos de abordagem.
Creio, que nos dias de hoje constitui o mais sério problema com que se defronta a nossa sociedade. É um cidadão que assim é criado!
Voltando ao Documentário, objecto do simpático convite da Casa da Memória – que com as suas actividades, tem proporcionado aos sanfilipenses momentos de cultura, de reflexão e de reencontro com a sua identidade – o Documentário, dizia eu, aborda aspectos mais abrangentes da emigração pobre, e mal integrada e com problemas outros e bem diferenciados, mas também de conflitos em lares disfuncionais, num dos bairros mais problemáticos da chamada grande Lisboa. Nas palavras que acompanham o convite trata-se de: “Um bairro muitas vezes associado à ideia de violência, insegurança, perigo ou simplesmente pobreza, onde vive uma grande comunidade cabo-verdiana”
A hodierna emigração cabo-verdiana – com especial ênfase sobre a acontecida de há três décadas a esta parte, ou pouco mais, quer para Portugal, quer para os Estados Unidos – parte dela, para não dizer grande parte, reflecte também os problemas da disfuncionalidade da família numerosa pobre que a cargo de uma mulher-mãe de reduzidas posses, pouco alfabetizada criou e continuou a criar, pois que cuida de filhos e de netos, em condições muitas vezes bem precárias.
Filhos e netos que uma vez adultos, sem terem tido a devida orientação em altura própria, buscam na emigração ou, na vida marginal cá dentro e/ou fora, a sobrevivência.
Por outro lado, poderá parecer óbvio afirmar – mas vale dizê-lo – que no meio deste ambiente familiar problemático existe e se encontra gente honrada e labutadora que ultrapassa e consegue «fintar» este perfil também, quase estereótipo. E que se afirma em sociedade pela forma positiva.
Seria bom que não houvesse, da nossa parte, total transferência dos males sociais que afligem estes nossos emigrantes, sobretudo a não integração dos mais jovens, para a sociedade ou para o país de acolhimento. É bom igualmente que nos lembremos de perguntar pelo papel da família.
Afinal, muitos dos eventuais “desvios” sociais do jovem são ou, deviam ser naturalmente despistados, corrigidos e resolvidos em casa. No chamado lar que o gerou e o acolheu. No seio e com o envolvimento da família nuclear a primeira e a principal responsável pela educação e pela formação cívica dos filhos.
Infelizmente, tal não se passa hoje em dia entre nós, com a consistência e a frequência que seriam desejáveis.
Foi o caso de, ao abrir o meu correio electrónico, ter encontrado um convite vindo da prestigiada Casa da Memória da ilha do Fogo e da sua responsável a minha querida amiga Monique, sobre a exibição de um Documentário intitulado: «Ilha Da Cova Da Moura».
Dito desta forma, pretendo explicar que o tema foi dele cooptado e correlacionado com uma conversa tida recentemente sobre a responsabilidade parental, no caso, foi mais de desresponsabilização paternal.
É minha opinião que é na família ou melhor, na ausência estruturada dela que encontramos as causas maiores dos males que afectam e condicionam o perfil e o comportamento social de uma parte significativa dos nossos cidadãos.
Mas antes de continuar, abro um parêntesis para contextualizar o que a seguir conto, dizendo num aparte, que o mês de Junho tem sido nas paróquias do país, ou pelo menos nas da Praia, o mês dos Crismas. Sei-o bem, pois na paróquia que frequento, aconteceu tal solenidade na semana passada. Fecho o parêntesis e retomo o tema.
Um dos filhos da minha empregada vai a crismar proximamente e, contou-me ela que o Pároco pediu aos crismandos a presença dos pais numa das reuniões de preparação do evento.
Ora bem, vai daí o nosso jovem rapaz, explicou ao padre que ele tinha apenas mãe. Que do pai, ele sabe que ele está vivo, sabe quem é, mas que nunca o tratou e nem dele cuidou como filho. Daí não fazer qualquer sentido, ter o progenitor ao lado dele naquele momento de tão grande importância, no seu entender.
Pois bem, teremos de dar alguma razão ao rapaz. Ele foi autêntico! Não queria ao lado e, numa ocasião especial, o tal “pai de drops” – numa bem achada definição, simbólica embora, de uma juíza de família que lida ou lidou no tribunal com este protótipo de pai e com os problemas por ele causados com a sua irresponsabilidade em não assumir os filhos que traz ao mundo e que só os chama e se lembra deles em dias festivos e quando com eles topa, para lhes dar os tais “drops” (rebuçados), esquecendo-se nos restantes dias do ano de que é o pai.
Infelizmente, esse é um triste quotidiano da realidade, com maior visibilidade, na família desestruturada, monoparental da camada social mais pobre e iletrada de Cabo Verde, mais visível numas ilhas do que noutras e sobretudo, com toda a configuração suburbana de bairros periféricos e problemáticos das cidades.
Eu sei que o tema é recorrente nas análises sociológicas que se tecem sobre a família monoparental cabo-verdiana, mas não perde e nem esgota a actualidade e a possibilidade de diferentes ângulos de abordagem.
Creio, que nos dias de hoje constitui o mais sério problema com que se defronta a nossa sociedade. É um cidadão que assim é criado!
Voltando ao Documentário, objecto do simpático convite da Casa da Memória – que com as suas actividades, tem proporcionado aos sanfilipenses momentos de cultura, de reflexão e de reencontro com a sua identidade – o Documentário, dizia eu, aborda aspectos mais abrangentes da emigração pobre, e mal integrada e com problemas outros e bem diferenciados, mas também de conflitos em lares disfuncionais, num dos bairros mais problemáticos da chamada grande Lisboa. Nas palavras que acompanham o convite trata-se de: “Um bairro muitas vezes associado à ideia de violência, insegurança, perigo ou simplesmente pobreza, onde vive uma grande comunidade cabo-verdiana”
A hodierna emigração cabo-verdiana – com especial ênfase sobre a acontecida de há três décadas a esta parte, ou pouco mais, quer para Portugal, quer para os Estados Unidos – parte dela, para não dizer grande parte, reflecte também os problemas da disfuncionalidade da família numerosa pobre que a cargo de uma mulher-mãe de reduzidas posses, pouco alfabetizada criou e continuou a criar, pois que cuida de filhos e de netos, em condições muitas vezes bem precárias.
Filhos e netos que uma vez adultos, sem terem tido a devida orientação em altura própria, buscam na emigração ou, na vida marginal cá dentro e/ou fora, a sobrevivência.
Por outro lado, poderá parecer óbvio afirmar – mas vale dizê-lo – que no meio deste ambiente familiar problemático existe e se encontra gente honrada e labutadora que ultrapassa e consegue «fintar» este perfil também, quase estereótipo. E que se afirma em sociedade pela forma positiva.
Seria bom que não houvesse, da nossa parte, total transferência dos males sociais que afligem estes nossos emigrantes, sobretudo a não integração dos mais jovens, para a sociedade ou para o país de acolhimento. É bom igualmente que nos lembremos de perguntar pelo papel da família.
Afinal, muitos dos eventuais “desvios” sociais do jovem são ou, deviam ser naturalmente despistados, corrigidos e resolvidos em casa. No chamado lar que o gerou e o acolheu. No seio e com o envolvimento da família nuclear a primeira e a principal responsável pela educação e pela formação cívica dos filhos.
Infelizmente, tal não se passa hoje em dia entre nós, com a consistência e a frequência que seriam desejáveis.
Quo vadis, PAICV?
domingo, 19 de junho de 2011
A confusão que actualmente reina no interior do PAICV é inquietante. Não por amor e simpatia ou ódio e antipatia por esse partido. Longe disso. Trata-se de um problema de Estado. Porque se encontra na praça pública e é protagonizada por governantes e altos dirigentes do Estado. Não sendo por isso apenas uma questão interna circunscrita aos militantes, mas de toda a sociedade cabo-verdiana.
É deprimente o espectáculo que se vem assistindo das acusações que partem de “tocas” ou do “esgoto” para as “casas de saúde” ou “manicómios”, isto é de “ratos e ratazanas” para “esquizofrénicos e loucos”, ou vice-versa, passando por “répteis” e “mamíferos” insinuando a constituição de um verdadeiro zoo como palco predilecto desses ilustres figurantes. É esta a conformidade da linguagem que se vem utilizando.
A troca de mimos entre os apoiantes de ARL e os de JMN não augura um bom começo de legislatura nem garante a expectativa de tranquilidade de uma maioria absolutamente necessária para atravessar a crise real e global existente.
Mas porquê ARL e JMN e não ARL e MIS? Porque a “guerra” é entre quem personifica a “rebelião” orgânica e quem compete defender os estatutos, e não entre candidatos (ainda não começou) como aparentemente se quer fazer crer.
Mas é preciso situar a origem desta polémica para a compreender. Para que a culpa não morra solteira ou malcasada.
Nasceu (eventualmente precipitou-se) para ARL em S. Martinho num almoço/convívio “encomendado” que outro fim não tinha (ou não teve) do que “antecipar”, pretendendo colocar JMN sob um facto consumado, para anular o eventual apoio ao espectro de uma candidatura que se perfilava com fortes possibilidades desse apoio pelo PAICV, não do MIS mas de um outro putativo candidato da mesma área político-partidária.
A jogada teve e tem um mentor bem identificado que se mantém escondido, encolhido, quedo e mudo para evitar que dele se fale. E JMN que de tolo nada tem, compreendeu e descodificou de imediato o jogo, reagiu publicamente de forma agressiva (como é seu hábito) e incisiva apontando o dedo e mostrando que é ele o presidente do partido e não outro.
No seguimento, JMN, terá accionado a sua máquina partidária. “Ignorou” a eventualidade da candidatura visada com o almoço/convívio e “providenciou” uma outra do aparelho e, logicamente, próxima dele, com fortes possibilidades de vencer internamente por que de um alto dirigente se tratava com visíveis serviços prestados. Jogava em dois tabuleiros, com propósitos diferentes. Agiu de acordo com os Estatutos do PAICV que estabelecem na alínea e) do nº 2 do seu artigo 48º como competência do Conselho Nacional “Aprovar as propostas de apoio a uma candidatura a Presidente da República e designar o candidato a Primeiro-Ministro” levando os candidatos a submeterem a aprovação das suas candidaturas mediante a apresentação de um projecto do seu exercício da função presidencial.
O órgão máximo – Conselho Nacional – entre dois congressos, portanto colectivo e acima do próprio presidente, para os militantes é insuspeito, e as suas deliberações também o deviam ser para o credibilizar e ao próprio partido.
A questão da desobediência, ou não, de ARL é de foro partidário; e pouco interessaria à sociedade civil não fosse o caso, não de solicitar um apoio mas o de submeter o seu projecto a aprovação do partido que foi rejeitado, ao que se diz, por uma expressiva maioria de votos. Isto significa que a sua candidatura é intencional e aprioristicamente partidária – de uma facção que se julga maioritária e, por isso, se sente injustiçada pelas regras do jogo que acusa de viciadas sem contudo recorrer.
A atitude de ARL seria legítima e até podia ser bem entendida não se tratasse do caso de ele ser um ex-presidente do partido a que continua estranhamente amarrado, por questões estratégicas ou de falta de confiança pessoal e coragem o que o impede de personificar uma verdadeira “candidatura da cidadania” com o sentido que lhe quer atribuir. O seu comportamento fragiliza o seu partido e descredibiliza-o totalmente. E não é prestigiante para ele, pela polémica que envolve.
Mas não confundamos as coisas. A “guerra” não é entre ARL e MIS. Estes são, tão-somente, ilustres representantes dos residentes dos Palácios do Plateau e da Várzea na sua guerra sisuda e fratricida. Todos os outros que por aí saltitam, salvo uma ou outra honrosa excepção, não passam de peões de brega. Ou mesmo figurantes que aproveitam a oportunidade para se porem em bicos dos pés e simularem uma altura e envergadura que na realidade não têm, insinuando-se directa ou indirectamente delfins. Usando, com todo o respeito, uma metáfora corriqueira: Respondem à voz do dono.
Nem MIS nem ARL avançou só porque o quis. Tiveram ambos o aval dos seus mentores. Destes, um escudado no funcionamento orgânico do seu partido que bem soube manobrar, o outro compelido pelas joguetanas que alimentam os seus ódios e vinganças políticas de que é um exímio e compulsivo artífice. Por detrás de tudo isto, também deverá estar o malfadado “Dinheiro de Angola” (porventura já a circular), que muito tem condicionado o voto dos cabo-verdianos.
Em suma, a polémica existente retira a qualquer das candidaturas protagonizadas pelo PAICV as necessárias condições efectivas para o exercício da função presidencial que os tempos actuais exigem. Estão ambas inquinadas ab initio. Uma com uma expectável excessiva sintonia e “colaboração” (não confundir com cooperação que é função presidencial) com o Governo e outra ressabiada e, eventualmente, vingativa, com fortes indícios de vir a negligenciar a indispensável cooperação estratégica.
É inegável que o PAICV se encontra perante uma crise. Ninguém a pode sonegar mais. Quando dirigentes se declaram publicamente não acatar uma deliberação do seu órgão máximo é uma insubordinação que põe em causa a liderança do partido e o normal funcionamento dos seus órgãos. O grupo de dirigentes que assim age, afronta deliberadamente o seu líder. Põem-se e põem-no à prova.
Neste momento fala-se de congresso e do Parlamento e contam-se as espingardas sem medir as consequências reais para o País. Esquece-se que não é de um partido da oposição que se trata mas do partido que suporta o Governo do País através de uma maioria, numa legislatura que mal começou.
Não se trata de um problema semelhante ao do MpD no passado que tinha uma maioria qualificada e passou a maioria absoluta, mantendo a sua legitimidade de governação. Aqui e agora, o desfazer dessa maioria pode relegar o Grupo Parlamentar do PAICV para o 2º lugar e tornar ilegítima ou mesmo “ilegal” a sua permanência no poder provocando precipitadamente novas e onerosas eleições para as quais o País não está financeiramente preparado.
Mas o PAICV como qualquer pessoa ou instituição tem uma génese, um passado e uma história. Considera-se herdeiro do PAIGC. Tem portanto uma longa história. E não consta do seu código genético a confrontação pública ao líder e às deliberações dos órgãos constituídos. Nem os cismas (vide PAIGC na Guiné-Bissau que nunca o aceitou). Mas sim, no passado, os tradicionais processos sumários e fuzilamentos imediatos.
Os tempos são outros. E estes são marcados, no passado recente (pós-independência), pela purga, pelo rolar de cabeças e pela “caça às bruxas” naquilo que normalmente é apelidado de “clarificação” no interior do partido. Depois sim, tudo voltará a ser como dantes com a declaração de que o partido está cada vez mais unido e coeso.
O JMN está num beco sem saída. O mandato do deputado é pessoal. Ou terá de “engolir” os desafios e os impropérios dos “rebeldes” no Parlamento para evitar que se tornem independentes (pouco provável); ou terá de se demitir dando lugar a um outro líder mais consensual para que o PAICV permaneça no poder; ou terão todos de ficar quietinhos sem fazer qualquer onda. A escolha é difícil para as duas facções.
A verdade é que para o PAICV, as presidenciais tornaram-se mais num desafio tormentoso à sua liderança do que a corrida ao sempre sonhado “um presidente, uma maioria, um governo” permanentemente sugerido nas mensagens dos comícios de PP nas presidenciais de 2001. Esperamos todos que haja já bom senso.
A. Ferreira
É deprimente o espectáculo que se vem assistindo das acusações que partem de “tocas” ou do “esgoto” para as “casas de saúde” ou “manicómios”, isto é de “ratos e ratazanas” para “esquizofrénicos e loucos”, ou vice-versa, passando por “répteis” e “mamíferos” insinuando a constituição de um verdadeiro zoo como palco predilecto desses ilustres figurantes. É esta a conformidade da linguagem que se vem utilizando.
A troca de mimos entre os apoiantes de ARL e os de JMN não augura um bom começo de legislatura nem garante a expectativa de tranquilidade de uma maioria absolutamente necessária para atravessar a crise real e global existente.
Mas porquê ARL e JMN e não ARL e MIS? Porque a “guerra” é entre quem personifica a “rebelião” orgânica e quem compete defender os estatutos, e não entre candidatos (ainda não começou) como aparentemente se quer fazer crer.
Mas é preciso situar a origem desta polémica para a compreender. Para que a culpa não morra solteira ou malcasada.
Nasceu (eventualmente precipitou-se) para ARL em S. Martinho num almoço/convívio “encomendado” que outro fim não tinha (ou não teve) do que “antecipar”, pretendendo colocar JMN sob um facto consumado, para anular o eventual apoio ao espectro de uma candidatura que se perfilava com fortes possibilidades desse apoio pelo PAICV, não do MIS mas de um outro putativo candidato da mesma área político-partidária.
A jogada teve e tem um mentor bem identificado que se mantém escondido, encolhido, quedo e mudo para evitar que dele se fale. E JMN que de tolo nada tem, compreendeu e descodificou de imediato o jogo, reagiu publicamente de forma agressiva (como é seu hábito) e incisiva apontando o dedo e mostrando que é ele o presidente do partido e não outro.
No seguimento, JMN, terá accionado a sua máquina partidária. “Ignorou” a eventualidade da candidatura visada com o almoço/convívio e “providenciou” uma outra do aparelho e, logicamente, próxima dele, com fortes possibilidades de vencer internamente por que de um alto dirigente se tratava com visíveis serviços prestados. Jogava em dois tabuleiros, com propósitos diferentes. Agiu de acordo com os Estatutos do PAICV que estabelecem na alínea e) do nº 2 do seu artigo 48º como competência do Conselho Nacional “Aprovar as propostas de apoio a uma candidatura a Presidente da República e designar o candidato a Primeiro-Ministro” levando os candidatos a submeterem a aprovação das suas candidaturas mediante a apresentação de um projecto do seu exercício da função presidencial.
O órgão máximo – Conselho Nacional – entre dois congressos, portanto colectivo e acima do próprio presidente, para os militantes é insuspeito, e as suas deliberações também o deviam ser para o credibilizar e ao próprio partido.
A questão da desobediência, ou não, de ARL é de foro partidário; e pouco interessaria à sociedade civil não fosse o caso, não de solicitar um apoio mas o de submeter o seu projecto a aprovação do partido que foi rejeitado, ao que se diz, por uma expressiva maioria de votos. Isto significa que a sua candidatura é intencional e aprioristicamente partidária – de uma facção que se julga maioritária e, por isso, se sente injustiçada pelas regras do jogo que acusa de viciadas sem contudo recorrer.
A atitude de ARL seria legítima e até podia ser bem entendida não se tratasse do caso de ele ser um ex-presidente do partido a que continua estranhamente amarrado, por questões estratégicas ou de falta de confiança pessoal e coragem o que o impede de personificar uma verdadeira “candidatura da cidadania” com o sentido que lhe quer atribuir. O seu comportamento fragiliza o seu partido e descredibiliza-o totalmente. E não é prestigiante para ele, pela polémica que envolve.
Mas não confundamos as coisas. A “guerra” não é entre ARL e MIS. Estes são, tão-somente, ilustres representantes dos residentes dos Palácios do Plateau e da Várzea na sua guerra sisuda e fratricida. Todos os outros que por aí saltitam, salvo uma ou outra honrosa excepção, não passam de peões de brega. Ou mesmo figurantes que aproveitam a oportunidade para se porem em bicos dos pés e simularem uma altura e envergadura que na realidade não têm, insinuando-se directa ou indirectamente delfins. Usando, com todo o respeito, uma metáfora corriqueira: Respondem à voz do dono.
Nem MIS nem ARL avançou só porque o quis. Tiveram ambos o aval dos seus mentores. Destes, um escudado no funcionamento orgânico do seu partido que bem soube manobrar, o outro compelido pelas joguetanas que alimentam os seus ódios e vinganças políticas de que é um exímio e compulsivo artífice. Por detrás de tudo isto, também deverá estar o malfadado “Dinheiro de Angola” (porventura já a circular), que muito tem condicionado o voto dos cabo-verdianos.
Em suma, a polémica existente retira a qualquer das candidaturas protagonizadas pelo PAICV as necessárias condições efectivas para o exercício da função presidencial que os tempos actuais exigem. Estão ambas inquinadas ab initio. Uma com uma expectável excessiva sintonia e “colaboração” (não confundir com cooperação que é função presidencial) com o Governo e outra ressabiada e, eventualmente, vingativa, com fortes indícios de vir a negligenciar a indispensável cooperação estratégica.
É inegável que o PAICV se encontra perante uma crise. Ninguém a pode sonegar mais. Quando dirigentes se declaram publicamente não acatar uma deliberação do seu órgão máximo é uma insubordinação que põe em causa a liderança do partido e o normal funcionamento dos seus órgãos. O grupo de dirigentes que assim age, afronta deliberadamente o seu líder. Põem-se e põem-no à prova.
Neste momento fala-se de congresso e do Parlamento e contam-se as espingardas sem medir as consequências reais para o País. Esquece-se que não é de um partido da oposição que se trata mas do partido que suporta o Governo do País através de uma maioria, numa legislatura que mal começou.
Não se trata de um problema semelhante ao do MpD no passado que tinha uma maioria qualificada e passou a maioria absoluta, mantendo a sua legitimidade de governação. Aqui e agora, o desfazer dessa maioria pode relegar o Grupo Parlamentar do PAICV para o 2º lugar e tornar ilegítima ou mesmo “ilegal” a sua permanência no poder provocando precipitadamente novas e onerosas eleições para as quais o País não está financeiramente preparado.
Mas o PAICV como qualquer pessoa ou instituição tem uma génese, um passado e uma história. Considera-se herdeiro do PAIGC. Tem portanto uma longa história. E não consta do seu código genético a confrontação pública ao líder e às deliberações dos órgãos constituídos. Nem os cismas (vide PAIGC na Guiné-Bissau que nunca o aceitou). Mas sim, no passado, os tradicionais processos sumários e fuzilamentos imediatos.
Os tempos são outros. E estes são marcados, no passado recente (pós-independência), pela purga, pelo rolar de cabeças e pela “caça às bruxas” naquilo que normalmente é apelidado de “clarificação” no interior do partido. Depois sim, tudo voltará a ser como dantes com a declaração de que o partido está cada vez mais unido e coeso.
O JMN está num beco sem saída. O mandato do deputado é pessoal. Ou terá de “engolir” os desafios e os impropérios dos “rebeldes” no Parlamento para evitar que se tornem independentes (pouco provável); ou terá de se demitir dando lugar a um outro líder mais consensual para que o PAICV permaneça no poder; ou terão todos de ficar quietinhos sem fazer qualquer onda. A escolha é difícil para as duas facções.
A verdade é que para o PAICV, as presidenciais tornaram-se mais num desafio tormentoso à sua liderança do que a corrida ao sempre sonhado “um presidente, uma maioria, um governo” permanentemente sugerido nas mensagens dos comícios de PP nas presidenciais de 2001. Esperamos todos que haja já bom senso.
A. Ferreira
Manipulação da Cidadania ou Sociedade Civil Manipulada?
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Estas presidenciais, se outro mérito não vierem a ter, já tiveram o de desmascarar o exercício do poder pelo PAICV. As acusações mútuas dos apoiantes dos dois candidatos do PAICV, vindas do interior deste partido, inequivocamente insuspeitas, mostram as maquinações e o maquiavelismo não do seu candidato A ou I mas de uma filosofia do exercício do poder inerente ao próprio partido. Afinal o MpD tinha (e tem) razão quando falava do partidarismo, da discriminação, das pressões e dos favorecimentos na máquina do Estado. É o próprio PAICV quem agora no-lo confessa. De forma clara e inequívoca através dos seus militantes. “Zangam-se as comadres descobrem-se as verdades”, diz o povo com razão.
Interessante é, verificar como entre nós existe uma capacidade que diria incomensurável, de deturpar factos e de fazer opinião de forma destorcida da realidade com intenção clara de confundir o eleitor no entendimento de conceitos e de posicionamentos político-partidários com manifestos ecos na comunicação social e com a sua evidente colaboração. Sobretudo quando se avizinham eleições.
Tiro o chapéu à “criatividade” da candidatura de Aristides Lima (AL) que conseguiu transformar o óbvio e natural em algo individualizado e distinto – “candidato da cidadania”
As candidaturas presidenciais por imperativo constitucional são sempre da cidadania. Mesmo a do Inocêncio Sousa (IS) que faz parte de um, legítimo, projecto político partidário é, formalmente, também da cidadania. A do AL só está fora do projecto político do PAICV por deliberação, presumo, “democrática”, dos seus militantes. A “democracia” interna do PAICV na qual, tudo o indica, o candidato AL deixou agora de acreditar, depois de a defender e a praticar afincadamente ao longo de décadas, ao que parece, apenas por não satisfazer os seus desígnios políticos pessoais.
O eufemístico slogan “candidatura da cidadania” apresentado por AL no fundo quer induzir o eleitor de que se trata de uma candidatura da “sociedade civil” o que não condiz em absoluto com a realidade dos factos.
Um homem do aparelho; dirigente do partido; que foi presidente do partido; que ainda muito recentemente era presidente da AN por indicação do seu partido; que se mantém nesse partido, continuando como um dos seus representantes (deputado) na AN; que se submete à votação para «candidato presidencial “oficial” desse (seu) partido»; torna-se, pelo simples facto de ter perdido, ter sido rejeitado, em “candidato da cidadania”? (leia-se “sociedade civil”?) É uma metamorfose dificilmente explicável. Sem dúvida com evidentes traços kafkianos.
Ninguém contesta a legitimidade da sua candidatura e muito menos a sua legalidade. Nem o perfil técnico-político de AL para o desempenho das funções presidenciais. É um bom candidato. Mas convenhamos que é no mínimo extravagante chamar-se à candidatura de um militante; que surge no interior do seu partido – almoço/convívio em S. Martinho; que emerge da luta de facções; e se afirma por ressábio e rebeldia, “Candidatura da Cidadania”. É um slogan sonante mas esvaziado de qualquer conteúdo. É uma manipulação semântica completamente descontextualizada. E por isso tem contornos de uma publicidade enganosa. Diria até que é um forte candidato à extensa e pouco honrosa lista das “caboverduras”.
Candidatura da Cidadania com o sentido e o conteúdo que este recente “léxico” político quer introduzir, isto é, da “sociedade civil” por inteiro, só houve uma em Cabo Verde e com sucesso absoluto – a de Mascarenhas Monteiro. Por razões circunstanciais e de conjuntura dirão alguns. Mas também por notórias razões de carácter e posicionamento político do candidato, acrescentarão outros. Provou-o pela maciça votação que obteve. E não desmereceu. Exerceu a sua magistratura acima dos partidos não promulgando leis inconstitucionais e vetando largas dezenas de diplomas, com muita discrição, sem nunca publicitar nenhum, como é o seu timbre.
Das actuais três candidaturas presidenciais, uma vez que a 4ª, a de Joaquim Monteiro, meu amigo Jack, é de um outsider se ela se vier a confirmar quando o Supremo se pronunciar, a única que pode pré-figurar uma “candidatura da cidadania” no sentido de “sociedade civil” é a de Jorge Carlos Fonseca. Não só não é militante de nenhum partido como não exerce nenhum cargo político e nem sequer aguardou ou condicionou-se a qualquer apoio partidário para se assumir como candidato o que o liberta de disciplinas partidárias, de compromissos estatutários ou outros e de formatação ideológica. O MpD, como já escrevi e não vou agora re-explicar-me, totalmente a contra-corrente e de uma forma pouco lógica e absolutamente não entendível deu-lhe o seu apoio com o qual, obviamente, se congratulou.
Antes de terminar esta brevíssima reflexão, uma coisa posso garantir: não terei saudades nenhumas de “um presidente, uma maioria e um governo” que já se pode considerar de triste memória pois até leis inconstitucionais foram promulgadas contra interesses populares para fazer jeito à maioria e ao governo. E entre AL e IS assenta bem o conhecido e popular provérbio:”Entre marido e mulher ninguém meta a colher”. É um problema interno do partido que derrapou do centralismo democrático da sua configuração marxista-leninista. Nada mais. Quando terminar a zanga darão o dito por não dito atribuindo-lhe o estatuto de “coisas de campanha” e assestarão conjuntamente as baterias no mesmo alvo. Todos. Que ninguém o duvide!
A presidência da república é um cargo político. E encontrar uma pequena diferença política por mais pequena que seja entre AL e IS é mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro. A eventual diferença apenas poderá residir no carácter… E sobre isto não me pronunciarei.
A. Ferreira
Interessante é, verificar como entre nós existe uma capacidade que diria incomensurável, de deturpar factos e de fazer opinião de forma destorcida da realidade com intenção clara de confundir o eleitor no entendimento de conceitos e de posicionamentos político-partidários com manifestos ecos na comunicação social e com a sua evidente colaboração. Sobretudo quando se avizinham eleições.
Tiro o chapéu à “criatividade” da candidatura de Aristides Lima (AL) que conseguiu transformar o óbvio e natural em algo individualizado e distinto – “candidato da cidadania”
As candidaturas presidenciais por imperativo constitucional são sempre da cidadania. Mesmo a do Inocêncio Sousa (IS) que faz parte de um, legítimo, projecto político partidário é, formalmente, também da cidadania. A do AL só está fora do projecto político do PAICV por deliberação, presumo, “democrática”, dos seus militantes. A “democracia” interna do PAICV na qual, tudo o indica, o candidato AL deixou agora de acreditar, depois de a defender e a praticar afincadamente ao longo de décadas, ao que parece, apenas por não satisfazer os seus desígnios políticos pessoais.
O eufemístico slogan “candidatura da cidadania” apresentado por AL no fundo quer induzir o eleitor de que se trata de uma candidatura da “sociedade civil” o que não condiz em absoluto com a realidade dos factos.
Um homem do aparelho; dirigente do partido; que foi presidente do partido; que ainda muito recentemente era presidente da AN por indicação do seu partido; que se mantém nesse partido, continuando como um dos seus representantes (deputado) na AN; que se submete à votação para «candidato presidencial “oficial” desse (seu) partido»; torna-se, pelo simples facto de ter perdido, ter sido rejeitado, em “candidato da cidadania”? (leia-se “sociedade civil”?) É uma metamorfose dificilmente explicável. Sem dúvida com evidentes traços kafkianos.
Ninguém contesta a legitimidade da sua candidatura e muito menos a sua legalidade. Nem o perfil técnico-político de AL para o desempenho das funções presidenciais. É um bom candidato. Mas convenhamos que é no mínimo extravagante chamar-se à candidatura de um militante; que surge no interior do seu partido – almoço/convívio em S. Martinho; que emerge da luta de facções; e se afirma por ressábio e rebeldia, “Candidatura da Cidadania”. É um slogan sonante mas esvaziado de qualquer conteúdo. É uma manipulação semântica completamente descontextualizada. E por isso tem contornos de uma publicidade enganosa. Diria até que é um forte candidato à extensa e pouco honrosa lista das “caboverduras”.
Candidatura da Cidadania com o sentido e o conteúdo que este recente “léxico” político quer introduzir, isto é, da “sociedade civil” por inteiro, só houve uma em Cabo Verde e com sucesso absoluto – a de Mascarenhas Monteiro. Por razões circunstanciais e de conjuntura dirão alguns. Mas também por notórias razões de carácter e posicionamento político do candidato, acrescentarão outros. Provou-o pela maciça votação que obteve. E não desmereceu. Exerceu a sua magistratura acima dos partidos não promulgando leis inconstitucionais e vetando largas dezenas de diplomas, com muita discrição, sem nunca publicitar nenhum, como é o seu timbre.
Das actuais três candidaturas presidenciais, uma vez que a 4ª, a de Joaquim Monteiro, meu amigo Jack, é de um outsider se ela se vier a confirmar quando o Supremo se pronunciar, a única que pode pré-figurar uma “candidatura da cidadania” no sentido de “sociedade civil” é a de Jorge Carlos Fonseca. Não só não é militante de nenhum partido como não exerce nenhum cargo político e nem sequer aguardou ou condicionou-se a qualquer apoio partidário para se assumir como candidato o que o liberta de disciplinas partidárias, de compromissos estatutários ou outros e de formatação ideológica. O MpD, como já escrevi e não vou agora re-explicar-me, totalmente a contra-corrente e de uma forma pouco lógica e absolutamente não entendível deu-lhe o seu apoio com o qual, obviamente, se congratulou.
Antes de terminar esta brevíssima reflexão, uma coisa posso garantir: não terei saudades nenhumas de “um presidente, uma maioria e um governo” que já se pode considerar de triste memória pois até leis inconstitucionais foram promulgadas contra interesses populares para fazer jeito à maioria e ao governo. E entre AL e IS assenta bem o conhecido e popular provérbio:”Entre marido e mulher ninguém meta a colher”. É um problema interno do partido que derrapou do centralismo democrático da sua configuração marxista-leninista. Nada mais. Quando terminar a zanga darão o dito por não dito atribuindo-lhe o estatuto de “coisas de campanha” e assestarão conjuntamente as baterias no mesmo alvo. Todos. Que ninguém o duvide!
A presidência da república é um cargo político. E encontrar uma pequena diferença política por mais pequena que seja entre AL e IS é mais difícil que encontrar uma agulha num palheiro. A eventual diferença apenas poderá residir no carácter… E sobre isto não me pronunciarei.
A. Ferreira