A Psicose das “Cidades”…

domingo, 21 de agosto de 2011


O assunto deve ser recorrente e se calhar, já várias vezes abordado, uma vez que não é já tão recente. Mas acabada de regressar do Fogo, decidi inscrevê-lo no meu “Blog.”
Não sei e nem consigo compreender até hoje o que se passou nas ilustres cabeças do governo, dos legisladores e dos Deputados deste país e desta nação, para transformarem quase todas as vilas e algumas ainda povoados sede de Concelhos, em cidades!
Será que não tiveram ou não têm a noção do que é uma cidade? Isto chega a ser causa de gozo e de gáudio, esta espécie de “loucura colectiva,” qual toque do rei Midas, em tudo transformar em cidade! “loucura colectiva”, repito, embora selectiva, porque oriunda da classe política.
Falo disso com imenso espanto e perplexidade! E mais, falo disso pois tenho muito afecto e respeito à minha antiga Povoação de Igreja nos Mosteiros, ilha do Fogo que “sem mais e nem porquê” se viu da noite para o dia e por força de uma lei esquisitíssima, elevada à categoria de cidade!
Convenhamos que é desprestigiar um antigo povoado que estava a fazer a sua caminhada – em termos de equipamentos e de infra-estruturas – para ser uma vila razoável, sede do Concelho e que sem o mínimo de condições e de critérios urbanísticos para tal, se vê alcandorada em cidade!
Francamente! Não brinquem com a inteligência e o conhecimento do cidadão, meus senhores! A isto chama-se falta de visão urbana e urbanística. Gostaria de realçar que tais atributos vão directamente endossados àqueles que tal determinaram.
Para terminar, volto a repetir: não devem ter noção e não fazem «a mais pálida ideia» do que é uma cidade!

Toda a vigilância é pouca!...

segunda-feira, 15 de agosto de 2011
A união do rebanho obriga
o leão a deitar-se com fome.

Provérbio Africano

“Zangam-se as comadres dizem-se as verdades”. A primeira volta destas eleições presidenciais foi o exemplo mais acabado deste aforismo popular. As acusações de fraude por parte da candidatura de Aristides Lima contra a de Manuel Inocêncio são simplesmente escandalosas e levariam, de imediato, à realização de um inquérito, no mínimo, sumário, com eventuais demissões de membros do Governo, em qualquer País de regime pluralista medianamente sério. A dar crédito à imprensa – muito tímida, inconsistente e parcialmente desmentida – não estariam envolvidos apenas cidadãos comuns, nem os chamados “jagunços”, mas nomes de altos dirigentes do País.

E se é o próprio Chefe de Estado no seu discurso relativo a estas eleições que lança a suspeição, sob a capa de aviso, ao falar de “ambiente de liberdade e livre de quaisquer formas de pressão ou condicionalismos extra-eleitores” numa antevisão do cenário eleitoral, que podemos nós esperar?

Mas também quando o próprio PR, a mais alta autoridade do País, sede da moral institucional, se estribou silenciosamente na mais escandalosa e vergonhosa fraude eleitoral de que há provas no País, assumindo, para o cúmulo dos cúmulos, a posição de vítima – não acredito que não conheça o enquadramento semântico do aforismo – ao dizer que não vale a pena chorar sobre o leite derramado – quem o podia ter dito seria Carlos Veiga – que podemos nós esperar?

Quando o PM deste País numa confrontação directa às leis da República pronuncia-se levianamente junto a uma assembleia de voto em plena decorrência do acto eleitoral ao caso (que nunca provou) de “dinheiro sujo” e fica impune, que podemos nós esperar?

Quando o famigerado ex-director-geral da DGAPE é acusado publicamente de uma estrondosa e vergonhosa fraude eleitoral e, não só fica impune como é sucessivamente promovido faltando apenas a vulgarizada condecoração – o que admira – para a consagração total, que podemos nós esperar?

Quando um juiz do STJ não declara incompatibilidade (moral/ética) num caso de julgamento eleitoral em que ele é implicitamente parte, que podemos nós esperar?

Quando os insuspeitos observadores da CEDEAO recomendam (Que vergonha!)às autoridades (quais?) medidas “contra práticas de intimidação e pressão exercida sobre os eleitores, em particular, no dia da votação” para além de referências a “compra de votos” na Praia e S. Vicente, que podemos nós esperar?

Todo este edifício político-institucional do poder actual em busca de uma total hegemonização (leia-se “ditadura” em democracia) que só as lutas internas não permitiram a sua total consagração, está alicerçado num gigantesco sistema de fraude que estas eleições acabam de confirmar e, quiçá, poderá vir a ratificar.

Perante a máquina montada, muito pouco há a fazer. Não há instâncias que se possam considerar impolutas para se recorrer. Está tudo “corrompido”. O PR não tem moral porque usufrui sem rebuços. O PM não tem também nem moral nem distanciamento porque ele próprio responsável político, moral e material. A justiça auto-mutilou-se: não tem olhos, não tem mãos, nem tem voz. O Parlamento com a maioria silenciada pelos tachos e amordaçada por corrupção é, globalmente, cúmplice. Resta-nos apenas as mal sucedidas manifestações de rua e uma abrangente vigilância dos que querem democracia no País ou uma punição nas urnas (voto em branco ou contra) aos prevaricadores. Ninguém pode abster-se à participação e a uma vigilância permanente. Somos todos responsáveis.

A. Ferreira

A Minha Amiga Firmina

sábado, 13 de agosto de 2011
Há vidas que sem serem propriamente heróicas, merecem ser contadas. Se não no todo, pelo menos parte dela; pois que contém episódios interessantes e ao mesmo tempo reveladores do carácter e da forma de estar na vida da pessoa, não só consigo própria, mas também com os outros.
Assim foi e tem sido a vida da minha amiga Firmina, quem nos verdes anos, emigrou para a Itália, país onde permaneceu durante mais de três décadas.
Hoje ela considera a língua de Dante e a Itália como sua língua e sua segunda terra.
Aí trabalhou como empregada doméstica continuadamente até à reforma numa casa de família – onde ela viu crescer e como acrescenta: “ajudou a criar” os dois filhos do casal – que com ela manteve uma relação amistosa, de tal modo que após o regresso definitivo a Cabo Verde a convidam de dois em dois anos para passar um mês de Verão com eles e retribuem nos intervalos, vindo eles até Cabo Verde visitá-la. De modo que mutuamente as relações são já na actualidade, quase familiares.
Conheço alguns episódios da vida dela, pois que ela mos contou, numa aproximação de amizade já que Firmina e eu frequentamos a mesma paróquia.
Contou-me ela que em criança frequentou uma instituição dirigida por Irmãs religiosas em Santa Catarina, interior da ilha de Santiago. Aí fez a escolarização básica e aprendeu os lavores e a culinária.
Em meados dos anos 60 do século XX, emigrou para Milão com contrato feito com os patrões, os únicos que teve até deixar definitivamente a Itália.
De entre historietas e factos interessantes acontecidos durante a estada no país de acolhimento, reporto um devidamente autorizada para tal fazer pois, longe de mim querer aqui imprimir qualquer sentimento negativo em relação a uma vida laboriosa e honesta como foi e é a da minha amiga Firmina que tanto a orgulha! E isso, na minha opinião, vinda de alguém que me parece ser portadora de uma modéstia e de uma generosidade naturais, sem artifícios.
Recém chegada a Milão, tratou de frequentar um curso nocturno para aprender italiano o que aconteceu com sucesso.
Levava na sua “bagagem” ética, valores que lhe recomendavam que devia cumprir bem as suas obrigações, sem nunca esquecer os seus direitos. Segundo ela, guardou isto como lema que a guiou ao longo dos anos que esteve no estrangeiro.
Ora bem, havia em Milão à época, uma significativa comunidade imigrada, jovem feminina cabo-verdiana (sobretudo oriunda das ilhas de Barlavento) – que tal como a Firmina – era maioritariamente empregada doméstica. Normalmente quase todas se encontravam aos Domingos em locais habituais o que naturalmente acabou por criar laços de forte solidariedade, de amizade entre patrícias que aí se conheceram.
Algumas consideravam-se exploradas pelos patrões que não lhes pagavam o ordenado estipulado no contrato. E mais, até chegavam a reter-lhes os documentos tais como o passaporte e demais papéis para que elas não pudessem reclamar.
Aqui entra a nossa Firmina, que cumpridora das suas obrigações, mas igualmente ciosa dos seus direitos e mais instruída do que a maioria das colegas; transformava-se em perfeita “sindicalista” e numa persistente e acérrima defensora dos direitos das colegas prejudicadas.
Segundo ela, várias vezes foi bater à porta da casa, onde trabalhava a colega mal paga e pedir satisfações aos patrões da patrícia, informando-os de que eles não estavam a cumprir com o que a lei italiana que estipulava em relação ao montante mensal devido. Contou-me que fez isso várias vezes e em algumas delas, foi chamada a polícia que chegou a levá-las (a ela e à colega que defendia) para a esquadra sendo queixosas as patroas. Mas a Firmina que se expressava bem em italiano fazia-se entender muito bem e relatava para o agente policial que ela fora em defesa de uma cidadã estrangeira cujos patrões, não estavam a cumprir com o que assinaram em documento. Acabava quase sempre por ganhar a causa e uma amiga devotada em cada colega que assim defendia.
Fazia isso de forma generosa e arrojada, pois que não devia ser nada fácil a uma empregada doméstica, estrangeira, imigrada e naquela época, ter a ousadia de confrontar patrões da forma como ela o fazia. Alguns chegaram a proibi-la de se abeirar da porta da casa deles para acompanhar a colega que aí trabalhava.
Com tantas intervenções a favor de colegas de trabalho, a minha amiga Firmina ganhou experiência e sabedoria nessa matéria que no fim se tornou conhecida não só dos serviços da emigração, como também dos da segurança social da cidade que já quase a consideravam como uma sindicalista “vera” tal era o empenho com que tratava os assuntos que diziam respeito às cabo-verdianas empregadas domésticas em Milão.
Pois é, tal como disse no início deste escrito há vidas que sem serem heróicas no sentido clássico do termo merecem – com igual mérito – serem reconhecidas como tal.

«Mão à palmatória» …

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Afinal, devo ter sido confiante ou crédula demais no escrito anterior, quando disse que: “pela primeira vez, nesta década,” iria votar sem o fardo de pensar que a “dona fraude iria imperar nos resultados.” Embora o tivesse feito e escrito de boa fé e crente de que tal ia finalmente suceder, tenho de confessar que me enganei. Infelizmente, ainda não foi desta.
Para mal desta democracia e deste país, já são muitas as denúncias insuspeitas vindas a lume, os manifestos indignados, as cartas e os artigos da mesma “família partidária” a denunciar a compra de votos, o que tem sido elucidativo de que vamos continuar com este “pecado capital” que é o de tentar alterar ou impor o que o cidadão tem mais sagrado, que é votar sem qualquer tipo de coacção.
Note-se: desta vez não é apenas a Oposição a queixar-se. As vozes mais ouvidas são oriundas dos que são, eram (?) altas patentes do regime no poder.
O que é certo é que tudo isto confrange e faz-nos sentir envergonhados perante nós próprios e perante a comunidade internacional.
Imaginem o embaraço sentido com um forte “puxão de orelhas” que o relatório dos Observadores nos deu!
Pois bem, o paradoxo de tudo isto é que a maioria dos membros observadores pertencem a países da CEDEAO, onde uma significativa parte vive de golpes e de contra-golpes, onde Chefes de Estado alteram ou mandam alterar leis para se perpetuarem no poder, onde existe na república instituída, quase que explicitamente, o direito de sucessão de pai para filho, como se de monarquia se tratasse. Enfim, onde os Direitos humanos longe estão de ser totalmente respeitados.
Ora bem, foram eles que, com a autoridade adveniente de Observador, escreveram que cá se “compram votos”! Meu Deus a que ponto chegámos! Uma vergonha do tamanho do cosmo…


Desabafo!

domingo, 7 de agosto de 2011
Pela primeira vez, nesta década, fui votar sem a enorme suspeição, sem o pesar antecipado de que a “dona fraude” iria imperar!

E porque é que digo isto? Porque os “mestres” da compra de consciência de eleitores pobres, semi-analfabetos e da diáspora mal esclarecida, os “catedráticos” do voto forçado, não livre, cindiram-se. Hoje estão espalhados entre as duas candidaturas fracturadas. Vão estar atentos e de olho uns nos outros. É que para além de se auto-conhecerem nesta matéria, conhecem-se uns aos outros do tempo em que eram unidos.

Sim, é verdade, desde há muito que não sabia já o que era votar no meu país sem pensar em fraude, em votos de mortos, em votos de ausentes, em duplas inscrições, em rasuras e omissões de nomes nos cadernos eleitorais, em compra de votos, em tomada de bilhetes de identidade, em dinheiro e outras mil formas de vil e de vergonhosa “compra” daquilo que o cidadão tem de mais sagrado, que é a livre escolha do seu candidato e nele votar, sem pressão.

Bem sei que não vai ser a 100%, mas que o nível de fraude desta vez vai diminuir, disto não tenho qualquer dúvida! Só isso, já é um factor de tranquilidade para o cidadão consciente dos seus direitos e deveres.

Como alguém já o escreveu, “a crónica ingenuidade do MPD” estará – nestas eleições presidenciais – desta forma mais salvaguardada pelo adversário. É que desta vez, as reclamações das mesas de voto ou de suspeição de fraude, irão dar entrada, na CNE e/ou nos tribunais em tempo, para serem – esperemos que sim – devidamente apreciadas e julgadas.

Para terminar direi que – se nada de inédito acontecer – qualquer que for o candidato eleito dar-me-ei por satisfeita!

Haja transparência eleitoral!

Jogo Limpo

domingo, 31 de julho de 2011
1. Assistimos – aqueles que tiveram o privilégio de ter, no momento, energia eléctrica – na passada 4ª feira a mais um sensaborão “debate” televisivo sobre as presidenciais. Debate não, porque só em escassos momentos ele se esboçou, mas sim às respostas dos candidatos a determinadas questões. Com o devido respeito e consideração que nos merecem os jornalistas presentes questionamos seriamente o seu papel único – cronometristas. Nada mais fizeram do que dizer aos candidatos que o tempo havia esgotado. Mesmo acerca do tempo Aristides Lima estava completamente perdido e poucas vezes utilizou na íntegra os dois minutos e meio a que tinha direito e que devia saber, porque fruto do acordo entre eles. Os jornalistas não foram sequer capazes de centrar as respostas dos candidatos às questões levantadas (lidas). É o caso (não único), por exemplo, da resposta evasiva de Aristides Lima à pergunta crucial, directa e concisa formulada por um telespectador/internauta sobre a sua participação na reunião do Conselho Nacional do seu partido que elegeu Manuel Inocêncio.

2. A tentativa por parte de Jorge Carlos Fonseca (JCF) de animar o debate através de um “fait divers” – as declarações de José Maria Neves acerca da morte de Cabral – não me pareceu muito feliz, e foi pouco pertinente. Primeiro, porque se trata de uma mensagem directa e exclusivamente dirigida para o interior do PAICV com destinatário identificado; segundo, porque fora desse contexto, o assunto nada tem a ver com as presidenciais; terceiro, porque os pergaminhos – políticos, profissionais, intelectuais e de cidadania – de JCF não se coadunam com o recurso a argumentos e situações menos elevados e descontextualizados; por último, porque desta vez JMN não disse nenhuma inverdade.

3. Amílcar Cabral é uma figura da História Universal e não pertença, “amigo” ou “familiar” de quem quer que seja. E sob este ângulo, falar da morte de Cabral é, por exemplo, como falar da morte de John Kennedy, Patrice Lumumba, Olof Palm ou de outros homens famosos da História barbaramente assassinados. Haverá ao longo dos anos inúmeras teses sobre Amílcar Cabral e a sua Obra, que se diferenciam umas das outras por uma vírgula a mais ou a menos ou uma palavra diferente… Não compreendo a sanha que suscitaram as declarações de JMN.

4. A morte de Amílcar Cabral é tabu (ou trauma) para aqueles que a viveram directamente e não para o apuramento histórico onde o véu se vai desvendando tese após tese. De tal forma é tabu (ou trauma) que nem Aristides Pereira, companheiro e adjunto de Amílcar Cabral se atreveu a “contar” a sua verdade no seu livro endossando-a, imagine-se, ao cubano Óscar Oramas. Como se diz na Guiné: é segredo de barraca de fanado. Aliás, a morte de Amílcar Cabral é hoje, tido como monopólio intelectual de Óscar Oramas, Oleg Ignatiev e José Pedro Castanheira entre poucos outros, e, estranhamente, ninguém de Cabo Verde, da Guiné-Bissau ou do PAIGC não obstante os seus “historiadores” militantes.

5. Não é preciso ser Sherlock Holmes para saber que JMN desta vez até tem razão. Basta lembrar, na sequência da morte de A. Cabral, do número incalculável de “camaradas” que foram fuzilados ou barbaramente espancados até à morte para se inferir que o assunto era fundamentalmente interno. E não se circunscreveu aos assassinos materiais. Portanto dizer que derivam da falta de lealdade e que constitui uma traição é de La Palice. Aliás, é o próprio A. Cabral que numa profética premonição disse:

Se um dia eu for assassinado, sê-lo-ei, provavelmente por um homem do meu povo, do partido, talvez mesmo, da primeira hora.

6. E o que espanta é mais a reacção que veio da oposição. E, francamente, JMN tem aberto tantos flancos para atacar que não vejo necessidade nenhuma de o fazer por figuras gradas da oposição, neste que considero um falso facto político. E não acredito que a nossa classe política, nomeadamente a oposição, tenha sido impulsionada por mimetismo com o “caso Camarate” em Portugal que volta e meia abre processos, para proceder de forma pouco consentânea com a realidade do assassínio de A. Cabral. Ponhamos os pés no chão. Com problemas sérios na agenda do País, empolgar ou mesmo falar da morte de Amílcar Cabral nesta “altura do campeonato”, para além de uma citação histórica, é revelador de uma oposição sem rumo e sem ideias, com pouquíssima capacidade de avaliar o estado real em que nos encontramos e que se agarra a qualquer “fait divers” para simular que está activa e vigilante.

7. Amílcar Cabral foi assassinado em Conacry, há cerca de quatro décadas, e não em Cabo Verde… A sua morte é já, há bastantes anos, um caso de investigação histórica e não criminal. E pode ser referência de qualquer conversa política. Basta situá-lo no seu espaço e tempo para o saber. Pedir contas pela sua morte ou solicitar uma investigação criminal é de uma insensatez política confrangedora. Ou um grotesco farisaísmo. Dissipar energias trazendo a sua morte para o debate político fora do contexto meramente histórico e/ou ideológico é de uma ligeireza assustadora quando o País se confronta com inúmeros problemas graves e determinantes para a sua sobrevivência, bem-estar e futuro.

8. Penso que não devemos dissipar energia entrando na guerra dos outros quando precisamos dela para as nossas batalhas. Devemos escolher criteriosamente os alvos. Por exemplo, a nossa participação na Comissão Permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas não é uma mais-valia a ostentar. Todos os países da CEDEAO já lá estiveram – da Gâmbia à Nigéria passando pela Guiné-Bissau, Serra Leoa ou Burkina Faso. Alguns até duas e três vezes e ninguém viu o prestigio que daí adveio a não ser para determinadas pessoas atingirem os seus fins.

9. Preocupante, e não tive ainda ecos sobre o devido tratamento do assunto, é o grito de alerta dado por Felisberto Vieira:”Só peço jogo limpo”. E di-lo quem tem autoridade para o fazer. Ele conhece muito bem os meandros e o funcionamento do seu partido. Tem sido “general de campanha” de todas as eleições ganhas pelo PAICV, designadamente, as duas últimas presidenciais de triste memória. Jorge Carlos Fonseca que se cuide. Eles conhecem-se e defendem-se. E até pode acontecer que da sua vigilância mútua JCF se beneficie, desenvencilhando-se da crónica “ingenuidade” do MpD neste particular.

10. Voltando ao “debate” não é a resposta àquelas questões que nos levaria a escolher os candidatos. As respostas não significam de per se capacidade, carácter, integridade e descomprometimento político para as cumprir. Temos que ir para além das simples declarações. Temos que analisar cada um dos intervenientes e situá-los. E dos três candidatos elegíveis – o Jack que me perdoe a franqueza – Jorge Carlos Fonseca é aquele que melhor se posiciona para um desempenho com contornos de maior isenção. Não é da oposição formal nem é da situação. E não tem com o Governo nem com o PM qualquer afinidade ou animosidade. Tem portanto distanciamento e posicionamento necessários para ser um bom árbitro e conhecimentos para intervenções cirúrgicas quando necessárias. Dos outros dois, Manuel Inocêncio de Sousa é completamente alinhado. É ele que o diz sem qualquer titubeio. É um candidato integrado no projecto hegemónico do seu partido. Quanto a Aristides Lima é sabido que tem uma guerrilha aberta com o PM. É a essência da sua candidatura. Não hesitou em cindir o seu partido para o benefício do seu projecto político pessoal sem sequer ter exaurido os mecanismos de recurso. Ninguém acredita que ele possa ser um factor de união do País tão necessário para os tempos difíceis que aí vêm. Num quadro absolutamente lógico, com ele na presidência, não é expectável um ambiente de estabilidade, o que seria mau até para a oposição. Contudo, os políticos são como os melões…

A. Ferreira

Carácter e Coerência precisam-se!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"Para conhecermos os amigos
é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça.
No sucesso, verificamos a quantidade e,
na desgraça, a qualidade."

Confúcio



Com a mini, mas importante, revisão Constitucional verificada em Setembro de 1990 visando não a democracia propriamente dita – esta foi construída de facto pelo MpD e Mascarenhas Monteiro – mas a queda do artigo 4º para “abolir” o primado do Partido sobre o Estado mas mantendo substantivamente toda a ideologia e estruturas de poder autoritário, na plena convicção de que a “abertura” não passaria de formalidade para legitimar o poder instituído – tal a presunção – arrastou consigo a imprescindibilidade das eleições presidenciais serem um acto de cidadania, ao consagrar que a apresentação da candidatura presidencial seria da responsabilidade de um número de subscritores/cidadãos-eleitores e não de grupos políticos organizados quer sob a forma de partidos políticos quer sob a forma de outros grupos formalmente organizados ou associações.

Vou ser conciso e breve.

Em 1991, quando se candidataram à presidência da república, Aristides Pereira e Mascarenhas Monteiro, pessoas muito próximas deste último escusaram-se a apoiá-lo sustentando-se não nos perfis dos candidatos para o desempenho do cargo nem no interesse nacional mas na disciplina, lealdade e militância partidárias.

Com alguma dificuldade, mas talvez por pensar que não adiro a partidos políticos por disciplina, coerência e liberdade de consciência, acabei por compreender e aceitar, confesso, com muita relutância, a posição dessas pessoas. O que nunca consegui justificar é a agressividade, a ostentação do apoio ao outro candidato, e a ostensiva e desnecessária animosidade que algumas dessas pessoas então manifestaram. Registei tudo com muito desagrado e, em alguns casos, com grande estupefacção. O tempo passou e tudo acabou… A magnanimidade e a nobreza de carácter de Mascarenhas Monteiro vieram ao de cima e fizeram-no “passar uma esponja” sobre tudo, não obstante a força advinda da expressiva votação – mais de 70% dos votos.

Vinte anos volvidos, olho para a candidatura de Aristides Lima e vejo perfilados a seu lado, muitos, se não a maior parte, desses “amigos” de Mascarenhas Monteiro que na altura alegaram a disciplina, a lealdade e a solidariedade partidárias para o não apoiarem.

Mais tarde, em 1996, quando Mascarenhas Monteiro se submeteu sozinho ao veredicto popular, não porque assim o quisesse mas por cobardia do PAICV sob a liderança de Aristides Lima, este e o seu partido não só não deram qualquer orientação ou mesmo indicação de liberdade de voto – tenho autoridade para o afirmar uma vez que era o mandatário nacional de Mascarenhas Monteiro – como “declararam guerra” ao candidato único, tentando “boicotar” as eleições com a promoção de abstenção, fazendo “boca de urna” nesse sentido, organizando almoços gratuitos e outras actividades no dia da votação com o fito de diminuir a participação e a expressão dos votos assente na filosofia de que era “preciso fidelizar” os militantes. A questão presidencial era para o PAICV um assunto essencialmente partidário.

O que é muito estranho é que esses mesmos “amigos” de Mascarenhas Monteiro, hoje, continuando militantes do mesmo partido e até dirigentes, já não respeitam as orientações desse seu partido, nem se submetem às decisões do seu órgão máximo e, pior, até já dizem que as presidenciais nada têm a ver com os partidos. Eram homens maduros e responsáveis quando utilizaram os argumentos partidários para ostracizar politicamente Mascarenhas Monteiro e até, alguns deles ou quase todos, já tinham sido governantes, dirigentes e responsáveis políticos.

Onde estará a causa de uma rotação de 180 graus na argumentação justificativa? Onde estará a honestidade e a seriedade dos verdadeiros propósitos? Com toda a sinceridade não me atrevo a dizer que é oportunismo e falta de carácter. Ou que seja o cúmulo do fingimento e da hipocrisia política. O certo é que, são “dois pesos e duas medidas”. E não acredito que seja pelo envelhecimento, eventualmente, precoce das artérias!

De todo o modo é preciso ter memória muito curta para despudorada e desavergonhadamente assumir conscientemente tamanha incoerência. Ou então…

A.Ferreira

P.S.: Refira-se, tempestivamente, que, paradoxalmente, toda a campanha contra a candidatura de Mascarenhas Monteiro ao primeiro mandato (1991) assentou-se na sua cordata, pacífica, assumida, já então longínqua e transparente “dissidência” do PAIGC e foi conduzida pelo PAICV com a cumplicidade dos que ontem não o apoiaram com base em fidelidade e lealdade partidárias e hoje estão com ARL sem o mínimo respeito pelas orientações e decisões do seu partido. Haja Coerência e Viva o Carácter!
AF