Malfadadas energia e água (I)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Não existem super-homens, nem super governos. Este governo do Paicv vive tempo de mais a anunciar coisas bonitas, num ritmo frenético e imparável, mas quando se vai ao fundo das coisas, aos resultados, em muitas áreas essenciais o governo falha clamorosamente. A maior bette-noir deste governo é o sector da energia e água. É onde tem passado as maiores agruras ao mesmo tempo que nos acena com milagres futuros.

O povo cabo-verdiano clama por um mínimo de cada um desses bens essenciais – energia e água. No entretanto, vive-se uma situação caótica numa empresa pública detida a 100% pelo Estado. Ao mesmo tempo que a sociedade se manifesta – ainda que timidamente – o governo fixa novo prazo: Fevereiro de 2012. Para uma dita, prometida há muito, resolução do problema.

E o mesmo governo parece esquecer-se do seu pecado original cometido em 2007 com a re-nacionalização da empresa e com a saída da EDP. Claro que encontrar razões atrás é sempre muito fácil e é outra forma de a culpa morrer solteira, que é outro nome para um comportamento corriqueiro em CV.

Este governo, o governo do Paicv que caminha para 11 anos de governação ininterrupta, é o primeiro e principal responsável pela situação de carência em que vive a população à cata desses dois bens básicos. São bens em que importa o Estado garantir mínimos, no acesso e no fornecimento. E são uma evidência as dificuldades, os problemas, as complicações, o descaso em que temos vivido neste últimos longos anos.

Em momento mais oportuno, poder-se-á revisitar o que para alguns terá sido a fonte de todos os males actuais da empresa: a privatização. É visto como se a partir de uma palavra mágica – privatização – todos os males do mundo pudessem esvair-se. Neste momento e analisando a realidade mais próxima, importa ver o trajecto de 2007 até ao final deste ano da graça de 2011. E este período, para não ser exagerado, é um período de uma confusão total. Diga-se que os erros cometidos antes de 2007 no processo EDP, cujos donos foram convidados a abandonar o país através de uma das nossas muitas praias, também contribuíram e muito para a difícil situação em que vivemos.

O Estado ao assumir a empresa, recebeu-a em difícil situação económica e financeira com o agravante da assunção de um aval a um empréstimo obrigacionista de 4Mcontos, cujos juros têm sido pagos desde então e cuja 1ª prestação de capital de 1,3Mcontos vence no inicio de 2012. Ao mesmo tempo o Estado “comprou” problemas futuros graves tendo ficado com a responsabilidade de fazer os investimentos necessários na produção e distribuição, que são de grandes e elevados montantes.

Por este ser um tema recorrente e de sofrimento permanente, aparecem sempre muitas vozes. E como se sabe cada cabeça sua sentença. Mas convenhamos, ele há cada argumento: uns é porque somos nós, a sociedade, que não pagamos as facturas; outros são porque fazemos ligações clandestinas; outros ainda porque furtamos energia. São comportamentos condenáveis, sem dúvida, mas esconder-se atrás deles para não se assumir as responsabilidades em termos da condução da política energética e de água, é de uma tremenda desfaçatez … Fala-se por exemplo que a Electra precisa de 150mContos por semana para combustível. Ah é? E porque é que a empresa de logística prevista desde 2004 ainda não saiu do plano das intenções? Ou seja, nem chegou ao papel. E isto representaria economias importantes na estrutura de custos da empresa. E tendo o peso que tem nos custos, o preço do combustível é fixado administrativamente pelo próprio governo (não mencionar a ARE é deliberado), o que quer dizer que essa responsabilidade também lhe cabe.

E mesmo nas algumas boas ideias que também existem, em abono da verdade, como p.ex. a introdução das energias renováveis, a situação complica-se com as opções feitas – o caso mais gritante são os parques voltaicos de Santiago, Sal e Boavista, em que se escolheu uma tecnologia não madura e ainda por cima menos eficiente. E porque entrou na sua própria armadilha quando re-nacionalizou a empresa em 2007, cujo maior beneficiário foi a EDP que se libertou do compromisso de investimento de 18Mcontos e ainda encaixou 4Mcontos num negócio onde poderia perder 7Mcontos. E aí o governo ficou com a “criança nos braços”. Enfezada, debilitada, sem estrutura, quanto mais músculo financeiro. Enfim, uma dor de cabeça daquelas! E podemos concluir hoje que o governo não teve consciência do que tinha em mãos. Se calhar ainda não a tem na totalidade.

E nós outros? Os que parecem mais se indignar, pelo menos em certos fóruns, na verdade são uns privilegiados. A maioria da população sofre, e muito, com a ausência de luz e água, principalmente este último bem básico que chega ainda de forma racionada, a conta-gotas, a essa maioria. E como é que fazemos para que em 1º lugar o governo assuma as suas responsabilidades porque elas vão também desabar sobre nós, através dos impostos ou de divida futura do Estado? É que só depois disso, só depois do governo assumir os seus erros enormes e a totalidade das suas responsabilidades, poderemos aceitar que se trata de um problema complexo, difícil de resolver, e não com passes de mágica, como tem este governo do Paicv tentado fazer. Necessitará pois, por muitos anos, de investimentos públicos significativos. Só então aceitaremos datas que sejam razoáveis para atenuar o problema, ao mesmo tempo que deveremos conhecer resposta às seguintes questões:

1. Quais são os capitais necessários para fazer a reestruturação económica e financeira da Electra?

2. Quanto capital vai ser preciso injectar?

3. Como vai o governo criar, a jusante, as bases de operação da empresa em termos do ambiente regulatório, do preço de combustível, da empresa de logística…?

4. Depois de conhecer resposta aos três pontos anteriores há que fazer com que a gestão da empresa se ponha a fazer pela vida, a tratar do seu trabalho de casa em minimizar avarias, em conseguir distribuir o que produz e em cobrar o que distribui.

E só isso poderá trazer alguma luz ao fim do túnel na resolução deste grave problema que Cabo Verde atravessa. Mas não queremos mais manipulações nem queremos mais mistificações. Dizemos um veemente BASTA! Queremos respeito, transparência, verdade e trabalho. Muito trabalho!

Paulo Figueiredo

Registo sem glória?

sábado, 8 de outubro de 2011
Contaram-me, não ouvi e nem vi. Andava eu na pátria de Dante Allegheri em turismo histórico pela bela Itália.
Contaram-me que o nosso PM terá discursado em crioulo, em língua cabo-verdiana na sessão de Outubro das Nações Unidas.
Não sei os motivos que o terão levado a usar a sua língua materna de uso interno, no plenário internacional, quando ele possui, sobretudo para essa finalidade, a nossa também língua portuguesa que é pertença de uma vasta comunidade.
Se foi para “colocar” Cabo Verde, em algum roteiro exótico, não tenho tanta certeza que ele o terá conseguido, visto que hoje o investimento e o turismo procuram destinos que falam algum idioma mais global…
Resultado: as delegações presentes de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal, numa palavra e ironicamente, a CPLP, saíram da sala, pois nada entendiam da fala do orador, com a agravante de não ter sido providenciado qualquer serviço da tradução do crioulo para o português.
Duma assentada o PM cabo-verdiano criou alguns anti-corpos com o seu exotismo. Pois o facto de a CPLP o não ter percebido é no mínimo bizarro, pois ele (o PM cabo-verdiano) é portador da língua comum, base da fundação da grande instituição que historicamente une os países e os povos que a falam, a escrevem e são nela escolarizados.
Será que ao PM cabo-verdiano faltou a noção de escala e de contexto da língua cabo-verdiana ou do crioulo ao nível global? Será que ele incluiu também a tremenda e a estrutural dependência deste pequenino país?
Fica aqui este registo … sem glória.

Uma tarde diferente na Assembleia Nacional…

terça-feira, 20 de setembro de 2011
Decorriam os finais dos anos 90. Havia sido decidido em Conselho de Administração da Assembleia Nacional, prover o edifício de estruturas adequadas que permitissem a entrada e a circulação no interior da casa parlamentar de cidadãos portadores de deficiência.

Ora bem, rampas exteriores e interiores prontas e colocadas, acordou-se com a Associação Nacional dos Deficientes de que a partir da tarde desse dia, já poderia informar os seus associados de que a Assembleia Nacional estava já em condições de os acolher para uma visita.

E foi assim que - nessa tarde a que chamei “diferente” no título deste escrito - ao entrar na Assembleia Nacional para me dirigir ao gabinete, vejo um movimento desusado até aí, de muitas cadeiras de rodas e de caras alegres dos seus ocupantes e algumas agradavelmente surpreendidas pelo à-vontade com que se movimentavam pela primeira vez, no interior do Parlamento de que apenas conheceriam o exterior.

Descarregados os documentos na secretária e verificados os mais urgentes a tratar, saí do gabinete e dirigi-me ao balcão para contemplar o movimento em baixo, no grande hall, por onde circulavam os visitantes especiais desse dia em direcção ao salão nobre. Debrucei-me para melhor contemplar, quando senti uma mão atrás de mim que apertava a minha mão em silêncio. Virei-me e deparei-me com o Presidente da Associação Nacional dos Deficientes, o Eng. David Cardoso, que continuava a apertar-me a mão sem pronunciar palavra alguma e os nossos olhares encontraram-se. Senti que uma espécie de emoção muito forte inundava-me e que as lágrimas já estavam a espreitar…

Lá ficámos uns segundos sem conseguir articular qualquer som de parte a parte e pensei comigo própria sem conseguir expressá-lo: “Como pequenas coisas feitas com determinação para bem servir, conseguem fazer uma enorme diferença!”

Daquela forma tinha a casa parlamentar cabo-verdiana dado um passo importante no cumprimento da lei das acessibilidades que seria proximamente ou, fora então recentemente aprovada, já não me recordo exactamente a ordem dos procedimentos. Só sei que essa tarde ficou-me memorável por ter presenciado a satisfação estampada nos rostos desses visitantes que pela primeira vez puderam penetrar no interior do Palácio da Assembleia Nacional.

A minha ira contra a Electra e o Bilinguismo entre nós…

sábado, 10 de setembro de 2011
Reparando no título do meu escrito, ele mais parece resultado de alguma insanidade lógica do que outra coisa.
Sim, o que tem a ver o bilinguismo com a falta de energia de que a nossa cidade capital vem sendo vítima? Sim, que tem a ver uma coisa com outra?...
Ora bem, aparentemente nada de semelhante os aproxima, os dois temas. O problema, ou melhor, o dilema foi meu; se havia de desabafar a minha ira vulcânica sobre o incómodo, o desconforto e os estragos que me vêm sendo provocados devido aos cortes frequentes de energia, para não dizer já sistemáticos, com “picos” de 13 (treze) horas seguidas, na minha zona; ou, se havia de discorrer um pouco sobre o bilinguismo no contexto actual das duas línguas cabo-verdianas.
Mas se me permitem, abro um parêntesis para o desabafo contra a Electra, correndo embora o risco, de ficar a meio do texto…se faltar a electricidade neste ínterim.
Sempre vou dizendo que chega a ser uma forma de violência cívica exercida sobre o cidadão que paga religiosamente as suas contas de luz, esta justificação já estafada e com contornos de círculo vicioso de que a Electra é “obrigada” a cortar a energia aos que têm as suas contas em dia, aos que cumprem com as suas obrigações, por causa da falta de receitas para comprar combustível, dada a percentagem elevada dos habitantes da Praia que roubam electricidade (os quais nunca sofrem cortes de luz e que até se gabam e se ufanam disso para quem os quiser ouvir)?!
Convenhamos que isso chega a ser simplesmente insuportável!
E então? Meus senhores? Não conseguimos resolver isto?
Interrogo-me sobre o que fazem os responsáveis? Será que estão a trabalhar? A gerir? A inspeccionar? A procurar solucionar os problemas? Ao menos os do dia-a-dia? Não há uma programação para os “cortes” na qual o cliente da Electra ficasse ou fosse minimamente avisado?... A exemplo do que fazem no Mindelo? Por onde param na capital os engenheiros/gestores que determinam os momentos, as horas de corte ao fornecimento de energia às diferentes zonas da cidade da Praia? Os aparelhos eléctricos domésticos estragam-se com a violência desse selvático processo de interrupção de energia e ninguém é por isso responsabilizado!?
A sensação com que infelizmente se fica, é que pouquíssimo se está a laborar neste particular, para se resolver tão grave problema! Que é a falta de luz e também de água em alguns bairros, no maior agregado populacional das ilhas.
A impressão que o cidadão tem de grande parte dos altos responsáveis do país (as excepções, se as há, já são uma espécie em extinção rápida) é que eles, uma vez chegados ao gabinete, sentam-se pachorrentamente em frente do computador (têm energia assegurada pelos geradores do serviço) – desligam-se do resto que é a sua obrigação primeira – a ver, a escutar, a jogar, a ouvir programas outros, do que realmente a trabalhar para o fim para que foram nomeados, a tentar soluções para o sector sob sua tutela e responsabilidade. E sobretudo, sem corresponder (o trabalho produzido) à proporção do que ganham mensalmente, com o dinheiro dos Contribuintes que somos todos nós!
Não pode ser! Vamos exigir que trabalhem! É o mínimo que se lhes pede! Que trabalhem! Por favor! Trabalhem para este país! Este país que não é auto-sustentável e que tem gravíssimos problemas estruturais e de subsistência!
Tentem, mas tentem mesmo, resolver, solucionar de vez, este gravissímo problema.
E não é que com esta conversa toda acabei por me alongar e me desviar do tema que o título do texto anunciou?
Fecho o parêntesis e se calhar o escrito também e voltarei com o próximo, desta feita versando alguns aspectos do fenómeno bilingue entre nós.

Droga em casa; venda à porta do Liceu…

domingo, 4 de setembro de 2011
Esta é uma pequena e trágica história – que ouvi contar, não há muito tempo – de uma mãe de família (monoparental e disfuncional) do Bairro da Várzea na Praia
Vou narrá-la de forma curta e sem floreados, pois que, por mais volta que eu lhe pretenda dar ela é cruel de mais para que a sua narração comporte qualquer eufemismo.

Pois bem, a senhora tinha ou, ainda tem como actividade de sustento familiar, a venda de substâncias alucinogénias (droga) à porta do Liceu. Guardava o produto em casa, escondido dos filhos, de idades próximas das dos seus clientes…

Mas chega um dia em que dois dos filhos mais crescidos, um rapaz e uma menina adolescentes, descobrem o que a mãe vendia diariamente à porta de um estabelecimento de ensino. Resolvem provar o produto. Tomam-lhe algum gosto e passam a roubar e a usar em casa alguma porção da destinada à venda.

Nesse ínterim, a mãe foi-se apercebendo de que algo andava mal com os filhos pois que revelavam preocupantes alterações comportamentais tanto em casa, com na rua. Além do mais, ela já tinha intuído também que o produto para venda estava a ser domesticamente subtraído.

Descoberto tudo, entre gritos, zangas e ralhos, acudiram alguns vizinhos aos quais, – em grande pranto e berreiro – a vendedora de droga a adolescentes contou a desgraça que lhe caiu em casa.

Ora bem, entre comiserações e palavras de circunstâncias ditas por alguns dos presentes, sobressaiu uma vizinha que – sem papas na língua e bem colérica – lhe atirou:
- Bem feita para ti! Não andas a desgraçar os filhos dos outros? Ou não pensaste que o que estás a fazer podia cair também nos teus filhos?... - (traduzido do crioulo em que foi originalmente dito)

Sem mais comentários!

Moral da história? A existir e se é que se pode dizer assim, cada um retire a que achar correcta.

UM SUSPIRO DE ALÍVIO

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Há mais de uma semana que terminaram as eleições presidenciais. Muito se tem escrito… E com alguma oportunidade e uma certa clareza, na minha óptica, é claro. O assunto está praticamente exaurido. Pouco há a dizer. Deixo aqui o registo muito breve da minha perspectiva.

Todos nós, os que nos consideramos democratas, respirámos de alívio com a eleição de JCF. O espectro de um regime totalitário com máscara democrática perfilava-se no horizonte. O que estava em causa não era um presidente, uma maioria, um governo. É natural e legítimo que qualquer partido político queira ter essa pretensão. Não está a ser honesto o militante que diz o contrário. Quando se disputa é para ganhar. Mas, parece-me, que não é recomendável, em democracia, que tal aconteça, o que só por si, é uma forte razão para que as presidenciais não sejam partidarizadas.

E ainda mais quando a personalidade que encarna o regime é politicamente sufocante, vaidoso e arrogante, como é o nosso caso. Com a agravante de ser, intelectualmente, pouco honesto.

A experiência que vínhamos vivendo, por culpa dos dois protagonistas – PR e PM – de modo algum era encorajadora. De tal forma a não era, que com a vitória expressiva e inequívoca de JCF muita boa gente celebrou mais a derrota do seu adversário do que a sua própria vitoria.

E perante os factos, não me venham agora dizer que o povo mostrou maturidade quando há escassos seis meses esse mesmo povo patenteou uma confrangedora infantilidade da qual iremos pagar não só ao longo dos próximos cinco anos como através de várias gerações mais novas. É que a maturidade não se ganha com um estalar de dedos. Nem é fruto de uma única eleição. Tenhamos pois paciência que havemos de lá chegar. É preferível dizer-se que, desta vez, o povo votou bem, acertou.

JCF e o MpD ganharam a primeira volta das eleições. É esse o seu fiel eleitorado. Não nos iludamos querendo fixá-lo no da 2ª volta. Os resultados “adicionais” da segunda volta são um misto de rejeição, de raiva, de medo e também, naturalmente, de algum apoio. E foi, como obviamente se depreende, para uma boa parte dos eleitores, uma segunda escolha que não há nas outras eleições – legislativas e autárquicas.

É esse eleitorado flutuante, normalmente maduro, que acorreu à segunda volta e cuja dimensão é uma incógnita, é que é necessário conquistar, ao mesmo tempo que se fidelizam os simpatizantes convictos – os da 1ª volta. Para isto é necessário muito trabalho no terreno, muita verdade no discurso e muita seriedade nos actos, para os quais, espero, a oposição se terá despertado.

Nós, os menos jovens, temos ainda bem presente as eleições presidenciais em Portugal de 1986, em que Mário Soares foi vencedor na segunda volta com 50,7% dos votos. Na primeira volta registava-se 25,1% para Soares e 45,8% para Freitas do Amaral. Ficou célebre, na altura, a recomendação de A. Cunhal aos militantes do PCP: “Tapem a cara ao homem, e ponham um X à frente” (leia-se Soares). E quando foi confrontado com o voto do seu partido em Soares, respondeu: ”Não, não votámos nele, votámos contra a direita”. Isto é, num mal menor.

Não quero de maneira nenhuma diminuir o mérito de JCF e do MpD, que pela primeira vez em mais de dez anos saboreia uma vitória nacional. Que ambos bem mereceram. O primeiro pelo seu esforço e pelo seu querer e crer e o segundo pelo trabalho de formiguinha e de empenhamento desenvolvido no terreno, sobretudo pelo seu incansável líder. Curiosamente, foi na diáspora, que JCF considera o terreno de vocação específica das eleições presidenciais – chegou a escrevê-lo – que ele foi derrotado a par desse caso estudo que é o Fogo.

Estamos todos muito contentes e felizes, mas não nos devemos embandeirar em arco. Foi uma grande vitória e, pela primeira vez, desde há mais de uma década não paira no Palácio de Plateau o fantasma da fraude, o que confere ao novo PR moral e autoridade para o combater com a veemência que o "fenómeno" exige, nobilitando a política e a classe política que carecem de ética e de seriedade e, como consequência, de credibilidade.

O que estas eleições também trouxeram de importante é o reconhecimento público pelos próprios militantes do PAICV da fraude por eles “instituída” e instalada com que convivemos e da qual impunemente usufruíram (Covoada, Baluarte, Mãe Joana, entre os casos mais emblemáticos) ao longo desta última década. E quando alguém lá de dentro farisaicamente e com muito oportunismo diz que só agora tomou consciência da ocorrência é para se lhe perguntar onde é que andou estes anos todos? Se não escuta rádio, não lê jornais nem vê televisão?

Ninguém duvida que JCF fará uma boa presidência. Tem todas as condições se for coerente e consequente com as suas próprias palavras e se subordinar ao rigor disciplinar dos julgamentos políticos (e não só!) das suas análises enquanto analista político e social em que se subentendia a velha máxima da “Mulher de César” e que agora esperamos venha a estar presente em todas as nomeações, designações que partam dele ou venham a carecer do seu aval. Não queremos ver mais no nosso País em altos postos da hierarquia do Estado, por nomeação, gente acusada de imoralidade, com processos judiciais de fraude, roubo, falsificações e outras falcatruas.

De momento, a fasquia está baixíssima e não pode servir de referência. JCF herda uma presidência para esquecer – pálida, medíocre e folclorista. E para o cúmulo, acusada de ser a principal instigadora ou, no mínimo, a eminência parda geradora, dos enormes conflitos que grassam no interior do PAICV.

Pior, não era possível…

A. Ferreira

A Língua em tempo de Campanha Presidencial…

domingo, 28 de agosto de 2011


Poderá parecer óbvio e um pouco “banal”, (relevem-me esta vulgaridade expressiva) o tema que aponta o título deste escrito. Embora saiba que em tempo de campanha “tudo se joga” na saudável “caça ao voto” – quando ela é saudável – ou no convencimento do eleitor.

Tudo isto para dizer o seguinte: foi interessante ver escrito e escutar nas quatro candidaturas – nos discursos dos seus candidatos, nos tempos de antena, nas entrevistas, nos cartazes expostos – duas variantes do crioulo ou da língua cabo-verdiana e a língua portuguesa.

Sobre esta última foi notório que todos os candidatos a falam e a dominam com muito à-vontade e fluência. Não vá sem acrescentar que essa mesma fluência e à-vontade em língua portuguesa foram igualmente visíveis e extensivos aos mandatários respectivos e a todo o “staf” das candidaturas que esteve mediático durante o período referido.
O que apreciei positivamente foi a naturalidade com que – em circunstâncias que a pediam – se expressavam na nossa língua segunda.
Nota positiva e merecida vai também para os Jornalistas que fizeram a cobertura – em língua portuguesa – da noite da votação na televisão nacional. Expressaram-se sem ambiguidades, sem confusões e com bom ritmo para os telespectadores, quer para os das ilhas quer para os da Diáspora, com clareza, que acredito que foram bem entendidos por todos os que os escutaram.

Outra curiosidade foi a comunicação em crioulo feita na comunicação social – durante o período eleitoral presidencial – foram maioritariamente utilizadas duas variantes, a de Santiago, quando a comunicação era dirigida às populações das ilhas do sul e a variante de S. Vicente quando essa mesma comunicação eleitoral era destinada à comunidade de eleitores das ilhas do norte. E isto, quer sob forma oral, quer sob forma escrita.

Podem-me ripostar: “Ora isso é óbvio e se calhar de La Palisse...”

Pois bem, não contrariarei o vosso raciocínio. Apenas acrescentarei que na minha opinião, isto revela uma vez mais que os falantes cabo-verdianos são depositários de uma variedade linguística, de uma riqueza comunicativa que vale a pena preservar sem tentar forçar qualquer tipo de homogeneização quer escrita, quer oral, o que acabaria por ser redutora e empobrecedora das variantes de que se compõe a língua cabo-verdiana ou o nosso crioulo.
A finalizar, faltou-me anotar o interessante que seria observar as variantes do crioulo – com “empréstimos,” quer de vocábulos, quer de construções frásicas, das línguas do país de acolhimento respectivo – e das línguas desses mesmos países, através dos quais se teriam comunicado os activistas e os eleitores da nossa Diáspora, durante a campanha eleitoral presidencial. Mas a isso não me abalanço, pois que tal não presenciei.