Criança/versus/marginalidade

terça-feira, 24 de janeiro de 2012
A medo embora, retomei a minha marcha matinal tão saudável e que há já algum tempo a não vinha fazendo! Digo a medo…pois tem sido isso um dos mais fortes factores que me tem condicionado – e acredito que a muitas mais pessoas – a não fazer a caminhada madrugadora e que tão bem faz ao físico e à mente.
Mas infelizmente, com os assaltos perigosos a que estamos sujeitos em plena via pública, têm feito com que sintamos simplesmente atemorizadas em pôr o pé fora de casa. Os bandidos, os chamados «thugs» dominam ultimamente a cidade. Assenhorearam-se dela de uma forma aterradora.
De tal forma que nós, sobretudo as mulheres, estamos à mercê deles, da sua brutalidade e dos seus constantes roubos. O pior é que cada vez são mais novos (em idade) os delinquentes, os marginais. E tudo isto sem vislumbre de qualquer defesa pública.

Tornou-se lugar comum fazer-se o balanço dos acontecimentos, no final de cada ano e estando nós ainda nos começos de um novo ano, penso que vou a tempo ainda de também me juntar aos que o fazem com alguma reflexão.
Daí que, gostaria de focar, de centrar o meu balanço, se é que o posso chamar assim, em alguns aspectos que considero nefastos para o desenvolvimento da cidadania, (palavra de longuíssimo alcance!) melhor dito, do cidadão
Antes, esclarecer que não estou pessimista. Nada é disso que se trata. Estou triste e preocupada. Dito em linguagem prosaica, gostaria de parecer apenas realista. Mas a situação é bem grave!
Ora bem, o título deste escrito relembra-me que a intenção dele era focar o tema sobre a criança/versus/marginalidade.
Infelizmente apercebo-me de que há muita coisa que não está certa. Há muita coisa que nos parece que piorou. Há ainda muita coisa má a qual não se está a prestar a atenção devida. E o mais grave de tudo, é que todas estas coisas graves acontecem no dia-a-dia, entre nós, bem perto de nós e não se tem delas ainda, a verdadeira consciência dos gravíssimos danos que causam constantemente à vida do cidadão, à nossa sociedade.
Uma delas, e das mais graves é a situação das crianças que vagueiam pelas ruas da cidade, abandonadas à sua sorte, em idades e em horas que no mínimo, deviam estar ou em casa, ou na escola.
Abandonadas, entregues à sua sorte. Pedindo dinheiro e comida às portas das lojas, dos supermercados, do mercado, dos recintos de vendas, enfim em espaços onde normalmente circula muita gente.
A pergunta que se nos põe imediatamente é: «Onde estão os pais destas
crianças?» «Por onde anda quem ao mundo as trouxe e quem delas devia cuidar?» Sim, esta é a primeira questão que assoma ao pensamento, naturalmente, de quem também é mãe ou pai, ou responsável, por outras crianças de idades similares às que estão na rua vagabundeando.
Para quando uma iniciativa legislativa, ou lei, firme, forte e directa contra tal acto, punindo, sim, punindo e responsabilizando progenitores que trazem seres humanos ao mundo que deles não cuidam e que os tratam como crias animais que são enxotados para rua logo pela manhã, e nela os deixam ficar o dia todo.
O que esperar dessas crianças em termos positivos se são excluídas, marginalizadas bem cedo pelos próprios pais?
Mas para gente adulta irresponsável e se calhar também, alguma inimputável, que deita ao mundo seres e os atira para o meio da rua; tem de haver leis e instituições capacitadas para travar, proteger e cuidar desta catástrofe social.
Para quando uma verdadeira política demográfica e de natalidade responsável?
Será que uma comunidade cristã, solidária e civilizada poderá tolerar isto?
Não! Não podemos continuar a viver com este estado de coisas!
Estes meninos que hoje vagabundeiam na rua estão a “formar-se” em «gangs», em marginalidade e em delinquência.
Esta é a crua realidade que diariamente se consolida e será igualmente o desgraçado futuro deles. A rua para eles, que outras referências ou valores não têm, é uma “escola” de aprendizagem maligna. É exactamente uma forja, uma oficina de futuros marginais, «thugs» e criminosos que hoje (resultado também disso) atormentam a cidade da Praia.
Vamos tentar, com mais determinação, empreender acções com objectivos bem claros e direccionados à criança vagabunda, sem culpa…
Tiremo-la da rua! Aí não é, de certeza, lugar de criança alguma!

DESCONCERTO OU ATÁVICA PREGUIÇA HISTÓRICA?...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Isto de atribuir patronos e de dar nomes às infra-estruturas sociais, educativas, económicas entre outras, é sempre daquelas situações delicadas e, por vezes, complexas, que merecem muita ponderação, e se for caso disso, uma auscultação à comunidade local ou mesmo nacional.

Infelizmente, actualmente, a geração política que nos representa dá-se muito mal com a História de Cabo Verde. Ou, melhor dito, intencionalmente ou não, não se informa devidamente sobre ela. Ou então, há ainda “fantasmagorias” que a faz pensar – no meio, há excepções é claro! - que os ditos heróis ou cidadãos ilustres só começaram a aparecer, ou só foram “gerados,” pós-independência ou, indo um pouquito mais longe, com a guerra travada no Continente africano para as independências. Claro, que não abrange a todos. Volto a distinguir as honrosas excepções que sabem que tivemos sempre ao longo do tempo, muitos antepassados cujos feitos devidamente contextualizados, só nos orgulham e isto, desde que Cabo Verde se tornou nação. Até parece haver uma patológica preguiça de ir para além do imediato!

Vem tudo isto a propósito do nome dado recentemente ao aeroporto da Praia.

Antes de referir ao tal desconcerto ou uma oportunidade perdida, a que alude o título deste escrito, abro um pequeno parêntesis para declarar que o nome: Nelson Mandela é-me completamente simpático. E digo isto porquê? Porque eu não sou de ídolos. Não perfilho e nem gosto de idolatrar. Mas de entre os chamados grandes do Continente africano, reservo a minha total empatia a Nelson Mandela. Logo, o juízo que se segue é insuspeito. Fecho o parêntese.

Ora bem, estou entre aqueles que comungam da ideia de que os nomes atribuídos às infra-estruturas nacionais devem conter também alguma História, alguma memória fundamentada e aparentada, se não, ao menos, muito próxima da origem, da natureza e da finalidade desse mesmo equipamento socioeconómico e que justifique tal nome.

Daí, achar que o nome que melhor se adequava ao aeroporto da Praia fosse, por exemplo, o do saudoso cidadão Joaquim Ribeiro, que foi bem conhecido no nosso meio como Quinquim Ribeiro.

Não obstante Quinquim Ribeiro ser uma figura com reconhecida e relevante intervenção em várias áreas da nossa sociedade, daí umas pequenas homenagens, já prestadas, é no entanto, na aviação civil cabo-verdiana que ela – a intervenção – me parece ser mais marcante. Foi ele quem deu os primeiros e os fundamentais passos na aeronáutica civil e comercial aqui na Cidade da Praia. E já para não falar no impulso que deu na construção de outros aeródromos nas ilhas, ditas então, periféricas, na sua obstinada e louvável teimosia em ligar as ilhas por via aérea.

Não esquecer que os TACV originaram-se, aproveitaram-se e desenvolveram-se a partir do Aeroclube fundado por Joaquim Ribeiro nos idos anos 50 do século XX, aqui na Praia. Foi sob a liderança de Joaquim Ribeiro que chegaram à nossa capital as primeiras aeronaves que permitiram a ligação rápida e em alternativa aos pequenos barcos de cabotagem que faziam a ligação marítima.

Creio, muitos que com ele trabalharam e privaram, felizmente ainda vivos, e podem melhor do que eu sobre isso testemunhar.

Mas recordo Joaquim Ribeiro, numa interessante entrevista que me concedeu nos anos oitenta, para a Revista «Magma» de que eu era colaboradora, descrever, muitos factos e peripécias bem interessantes por que passou a consolidação da aviação civil em Cabo Verde.

De entre as peripécias e as dificuldades vividas, mas também os êxitos alcançados, destaco uma historieta que me deliciou ouvir, talvez por haver nela algum romantismo envolvido, o que vai bem com o meu espírito.

Contou-me Joaquim Ribeiro que quando se dá a transição do Aero-Clube da Praia para a criação dos TACV, houve necessidade de se contratar um piloto com a experiência e a competência necessárias de modo a assegurar os voos comerciais que se iniciariam então, definindo um perfil onde se incluiria não só a coragem como um certo espírito de aventureiro. Com esse propósito foi ele encarregado de se deslocar a Portugal. Feitos os contactos, obteve a informação de um nome, Hamilton, piloto da Força Aérea então a prestar serviço militar numa das bases portuguesas, que reunia os predicados que ele exigia.

Mas havia um óbice, o piloto referenciado estava em prisão militar. E qual tinha sido o delito?

Ora bem, havia sido impedido de sair num de fim-de-semana devido a um exercício que de repente surgira, e tinha a namorada à espera dele. Vai daí, no fim do exercício, quando já regressava à base, desvia-se e aterra junto à Praça ou Jardim da cidade onde morava a amada. Castigado, seria liberto se ele aceitasse o repto de Joaquim Ribeiro e se este assinasse um documento afiançador.

Resumido, e assim feito, veio o piloto Hamilton viver em Cabo Verde. Terá sido o primeiro piloto dos TACV. E por aqui ficou, creio eu, até se reformar das lides aéreas e gozou de muito boa fama enquanto profissional.

Pois bem, o nome de Joaquim Ribeiro merecia essa grande distinção como pioneiro da aeronáutica civil em Cabo Verde e, quiçá, "criador" da primeira infra-estrutura aeroportuária da Praia – Aeródromo da Praia – embrião do Aeroporto da Praia.

Ele foi sem dúvida um pioneiro nas ligações aéreas inter-ilhas e que depois se internacionalizaram aproveitando primeiro o Aeroporto do Sal como placa giratória, depois autonomizando.

Voltando ao título deste texto: não terá sido uma oportunidade perdida de se homenagear, como deve ser, um grande cidadão cabo-verdiano?

Estou em crer que sim… Ou, em última instância, não merecia também a cidade da Praia, esta homenagem?

A razão das coisas ou um “trabalho” para as mentes?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Quando éramos jovens e ainda estudantes universitários em Portugal nos idos meados dos 60 e inícios da década de 70 do século XX, costumávamos dizer, meio a brincar, que a então polícia política do regime não seria muito atenta, ou iria para a cama cedo, pois que, para nós, entre outras leituras, ela, a polícia política de Salazar, não escutava com atenção alguns programas que passavam depois das 23 horas, na então Rádio Clube Português, ou na Rádio Renascença. Recordo-me, por exemplo do “PBX” e da “XXIII Hora” entre alguns outros bons programas radiofónicos que eram escutados alta noite, pois que traziam conteúdos de análise e de crítica ao regime salazarista, normalmente de forma subtil, metafórica mas bem expressiva e entendível.
Ora bem, tudo isso veio-me à mente, ao revisitar o escritor americano, oriundo dos Estados Unidos, Sinclair Lewis, o primeiro Nobel da Literatura, (1930) daquele país.
Da leitura do seu famoso romance, «Babbitt» ressalta em linhas pormenorizadas, a construção dos valores sociais, que são caros à classe média estadunidense.
Através de alguma ironia, é certo, mas uma ironia que não disfarça e nem apaga aquilo que, para ele, a sociedade americana elegeu como símbolos mais fortes e estruturantes do seu país. O autor mostra a suprema admiração pelo conforto, pela modernidade, contrastando-os com o apego europeu aos seus monumentos e valores do passado e a sua determinação em conservá-los.
Para além disso, “Babbitt” (nome também da personagem protagonista que encarna o protótipo social estadunidense de então) enaltece o espírito empreendedor mas igualmente, um exacerbado belicismo, potenciado pelo convencimento da superioridade rácica (WASP), e assente num feroz anti-comunismo primário, muito bem caracterizados e desenhados na construção das diversas personagens que povoam o romance.
Se é certo que na parte final do romance, há uma quase reviravolta na forma de estar social do protagonista do livro quando é preso por uxoricídio, «Paul» o melhor amigo dele.
Não é menos certa que o enredo nos leva a verificar que, embora iniciada, a reviravolta comportamental do protagonista do romance não chega a vingar-se pois, «Babbitt» volta ao princípio. Pressionado de todos os lado por onde se movimentava, não só pela família, como também pelo seu grupo de amigos dos clubes da alta-roda que frequentava na sua cidade; ele retomou o seu comportamento de antes, e voltou a fazer o que era expectável que todos os da sua condição social/económica fizessem.
O final não vai contra a corrente e é bem à maneira “americana”.
Há algo que eu gostava de destacar na arte de escrever de Sinclair Lewis: a sua construção primorosa e acabada das personagens. Ele não deixa nada de fora. O leitor visualiza quase que integralmente, cada personagem no seu dia-a-dia, nos tiques, nos gestos e nas atitudes mais intimistas e particulares. Nisso, o escritor é magistral!
Em resumo, o que fica para o leitor e como sempre, extraído dos romances e dos filmes americanos com forte tradição que remonta aos anos 20, 30, 40 e 50 do século XX, é a apologia do: “American’s dream!”
Voltando ao princípio deste escrito, ao que foi referido no primeiro parágrafo e de uma forma, que diria, comparativa, custa entender nos dias de hoje, visto o resultado ideológico conseguido com o elogio cinematográfico e literário do “eldorado” que os perseguidos pelo famigerado “macartismo” (em inglês McCarthyism de Joseph McCarthy) dos anos 50, tenham sido precisamente muitos dos grandes cineastas e escritores de então, ao tê-los considerados como “comunistas” e implicitamente “anti-americanos,” excepção feita ao genial Charlie Chaplin, (que teve de se mudar para a Europa. Aliás, o próprio Sinclair Lewis fugiu para Roma, onde viria a morrer um ano depois, para escapar a implacável perseguição de Joseph McCkarty e seus homens).
E foi de facto, Charlie Chaplin quem realmente gozou e ironizou esses mesmos valores, ultrapassando o âmbito estritamente americano ao imprimi-los de uma forma magistral e verdadeiramente genial na cinematografia, numa perspectiva mais global, mais universal.
Ironia e sarcasmo retomados mais modernamente nos filmes de Woody Allen, indo até ao formato "documentário” de Michael Moore.
Volto a repetir, das minhas leituras dos romances e da visão dos filmes norte-americanos há, regra geral, um grande fundo apologético do «american way of life» (“modelo de vida americano”). Logo, fomentado e alimentado pelos seus intelectuais que tiveram enorme contributo na sua divulgação e implantação. É a globalização.

Agressora? Versus Agredido? Eis a questão…

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
De facto, estou a chegar à conclusão que desde que o ano iniciou só tenho escrito sobre assuntos que se relacionam de alguma forma, com a violência.
Na realidade, os temas que se me têm aflorado à mente ultimamente, estão ocupados com este motivo que se tem sobreposto aos restantes…
De novo, para relatar mais um caso. Após o dia do Ano Novo, a minha Empregada faltou no primeiro dia útil ao serviço. Pensei eu: «Oxalá a justificação faça sentido, pois não gostaria que fosse por “ressaca” das festas o que não abona o bom profissional que julgo que ela seja!»Quando ela retoma o trabalho, contou-me justificando a ausência: «Estive na cadeia. Agredi o meu ex-companheiro, pai dos meus filhos que me apareceu à porta de casa, no fim do ano, meio bêbado, a querer dar ordens, a querer bater-me e no nosso filho mais velho. Ele não tem moral, pois nada dá aos filhos. Não se preocupa com eles ao longo do ano: se comem, se vão à escola, se têm saúde e não pergunta sequer quem lhes custeará tudo isto?»
Perdeu a cabeça, reconheceu a agressora, pois que farta estava ela de ser ofendida pelo pai dos filhos quando mandava um deles recordar-lhe de que ele era o pai deles tinha obrigações a cumprir com os filhos e ele, em resposta, lhes dizia para a mãe “arranjar um outro homem que a sustentasse a ela e aos filhos”. Indignada, revoltada e muito ofendida; vai daí, atirou-lhe com algo contundente à cabeça que o feriu. Resultado: foi ela presa pela polícia.
É certo que só conheço um lado da história, ou melhor: só ouvi uma parte. Mas a verdade é que não é de todo inverosímil. Acontecem casos similares no dia-a-dia desta sociedade pobre e violenta.
Embora nenhuma agressão ou justiça por mão própria possa ser cabalmente justificável, pois ela sempre se poderia ter queixado dele às autoridades, tive realmente pena, dó cristão, da família dela ou, do tipo de família que ela representa.
Monoparental, completamente disfuncional, pobre ou quase isso. Os filhos dependendo literalmente e apenas do trabalho da mãe. O pai, o progenitor, um ser auto – eclipsado da responsabilidade familiar.
Enfim, tudo do mais negativo socialmente reflectido e que infelizmente se passa entre nós. O caso dela não é excepção, tornou-se regra nesta nossa sociedade, sobretudo na camada mais vulnerável no sentido abrangente.
Os descendentes, sem disso ter culpa, serão os cidadãos do amanhã...

S.O.S. Tire-se a Criança da rua!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Antes de mais os votos de um bom 2012, para todos, com muita saúde, paz e afecto.
Espero que este ano se veja menos meninos na rua. Que este novo ano traga algo de mais substantivo e eficaz para se retirar a criança da rua!
Tirá-la das portas dos supermercados, das lojas e dos recintos de venda. Perguntar, indagar, procurar pelo pai, pela mãe, pela família ou por quem se responsabilize por essa criança que está na rua de manhã à noite, que não vai à escola em idade escolar, que está sem cuidados mínimos devidos a um ser em formação e que se pressente que nela eventualmente se estará a forjar um futuro delinquente, um marginal, um “thug” infernal, em suma, um bandido!
Não, não podemos tolerar isso! É o futuro do cidadão que está em jogo. É uma vida que se perde e que podia ter tido outro destino.
A família é a primeira responsável pela criança que trouxe ao mundo! Todos sabemos bem isto. Há que ser altamente responsabilizada se não cumpre com uma obrigação e um dever dos mais sagrados e cívicos que existem!
Mas o Estado também, através do sector que cuida da criança e da família, deve agir com mais firmeza, na defesa da criança. Não há votos que valham se continuarmos com tantas crianças em insegurança! Bem sei que existem algumas instituições públicas de acolhimento de crianças em risco, embora insuficientes para acudir ao número crescente delas.
É triste assistir a um tal fenómeno numa sociedade que pretende erigir cidadãos responsáveis, como o mais alto desígnio da nação.
As nossas leis devem começar por punir quem transgrida, deixando ao “Deus dará,” abandonando ou, mesmo mandando para a rua, à sua inteira sorte. Melhor dito: inteira desdita, um ser indefeso.
E isto é o dia-a-dia na cidade onde vivo. É vê-las, as crianças abandonadas, pelas ruas, logo pela manhã, sem destino, pedindo dinheiro e comida a quem passe por perto.
Por outro lado, gostaria de ver implantada nestas ilhas, uma verdadeira política de controlo de natalidade para se responsabilizar de facto, os progenitores. Com leis a sério sobre a matéria.
Enquanto se continuar a trazer ao mundo seres sem serem minimamente queridos ou desejados, sem terem progenitores que olhem por eles e que cuidem deles, sem serem capazes de os sustentar, mandando-os para a rua, enxotando-os porta fora, como se fossem crias animais; enquanto se mantiver este estado de coisas, a nossa sociedade estará enferma. Doente, inquinada e muito mal.
Basta de irresponsabilidade parental! É uma grande chaga social.
Que 2012 seja um ano em que se inicie de facto, o processo de retirada das crianças da rua. São os meus mais veementes e os mais sinceros votos para o novo ano!

Um Grande Apelo!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Antes de mais peço encarecidamente aos caros “bloguistas,” companheiros da “blogosfera” que difundam este apelo, ou escrevam outro de teor similar, pois é grave o problema.
Pertenço ao grupo de cidadãs que vive hoje em dia, com medo de sair à rua a pé, para ir às compras, para visitar familiares e amigos, ou simplesmente, para fazer a marcha bem recomendada a favor da saúde.
E digo isto porquê? Porque vivo numa cidade de alto risco – a cidade da Praia.
Faço parte de um significativo grupo de cidadãs que sai de casa temerosa, receosa e preocupada com a integridade física; se a trará intacta de volta ao lar, ou se não será maltratada; ou não ficará nas mãos de marginais e de bandidos que pululam com um à-vontade simplesmente espantoso, por qualquer rua ou esquina da Capital.
Raros são os dias em que se não tem notícia de mulheres amigas, conhecidas ou não que são assaltadas e magoadas, por vezes severamente, ou mesmo mortas por marginais em plena via pública!
Os bandidos, os assaltantes, os chamados “thugs” tomaram conta dos bairros residenciais desta cidade. São eles os que assaltam sobretudo, as mulheres.
Ferem-nas, matam-nas, deixam-nas com sequelas para o resto da vida para sacar-lhes insignificâncias – carteira, telemóvel, dinheiro, jóia ou outros objectos.
Sim, todos os bairros da cidade – capital são de alto risco! Do Palmarejo, a Achada Santo António, passando pelo Ténis, Monteagarro, indo até à Fazenda, a Achadinha, ou centrando no “Plateau”. Em suma, todas as ruas são de risco para qualquer mulher que ande a pé nesta cidade, infelizmente com igual relevo para qualquer sítio que ela pise.
Faço este apelo às autoridades policiais desta cidade que elejam como prioridade das prioridades, a segurança dos cidadãos, no caso, das cidadãs – os alvos preferenciais dos delinquentes que andam à solta nas ruas da cidade! Que reforcem a chamada polícia de “giro” que a gente a veja a circular perto dos nossos bairros, das nossas ruas. Que saiam dos gabinetes, quanto antes!
Um grande Basta! A esta triste estatística que coloca o homicídio como uma das primeiras causas de morte na cidade da Praia e nos seus arredores.
Infelizmente, pelas minhas contas, e a cada fim-de-semana nesta cidade corresponde a dois ou três homicídios. Para onde vamos?!
Por último, um apelo aos Políticos nacionais: não façam demagogia com bandidos.
A reinserção social, que é coisa outra, ela é muito necessária e fortemente desejada na nossa sociedade de tantas carências. Mas atenção, só surtirá efeito num quadro próprio e adequado.
Isto é, com trabalho técnico específico e direccionado ao objectivo, nomeadamente, com o envolvimento de Assistentes sociais e religiosos, de Psicólogos, entre outros. De contrário, qualquer intromissão demagógica de confraternização com delinquentes, soa mesmo a demagogia muito, muito óbvia e sem qualquer efeito transformador ou positivo para os transgressores ou para a sociedade.
A terminar mesmo, reitero e agradeço antecipadamente aos caros companheiros da blogosfera, que façam a difusão deste ou, de outros apelos similares no sentido de conseguirmos uma voz maior e indignada contra este flagelo que se está a alastrar-se na cidade da Praia.

P.S. : E não me venham dizer que não é possível ou que é muito difícil. Rudy Giuliani, numa cidade de quase 20 milhões de habitantes – Nova Iorque – reduziu a criminalidade em 57% e os homicídios em 65% tornando-a durante o seu reinado numa das cidades mais seguras do mundo. Podem argumentar que ele possuía meios. Concordo. Mas se os responsáveis políticos nacionais, a comunidade, elegerem esta tragédia citadina chamando-lhe isto mesmo, estou certa de que se conseguirá uma estratégia eficaz de combate à criminalidade de rua e de segurança dos cidadãos.

Agustina Bessa-Luís – uma Autora de peso…

terça-feira, 29 de novembro de 2011
Ler Agustina Bessa-Luís é sempre um prazer renovado.

Isto dito assim, serve-me de pretexto, não para falar do último livro desta imensa e excelente autora portuguesa – de uma escrita profundamente reflectida e filosófica – mas sim, para trazer aqui o que me fica da revisitação feita, volta que não volta, aos romances dela.

Desta feita a vez coube ao «O Princípio da Incerteza – Jóia de Família» editada em 2001.

Um fabuloso enredo, um luxo de recriação sociológica da região e da cidade do Porto, e uma extraordinária capacitação psicológica conseguida na construção comportamental das personagens que a intriga do livro comporta e que deixa o leitor extasiado.

A verdade é que a tensão, a polifonia e a dramaticidade desta narrativa adensa-se, aprofunda-se também, à medida que se dão os encontros e o conhecimento mais completos do leitor com toda a panóplia bem urdida das acções e das personagens do livro.

Um pouco na esteira daquilo de que ela mune muitos dos seus romances, a autora reconstituiu também neste, memórias – ficcionando-as é certo – memórias de um tempo histórico em que o passado ganha maior espaço, num Porto cheio de brios, de tradições, de secretismos, do insinuado (nas falas das personagens) mais do que o enunciado; dos seus sítios, das suas quintas e dos altos muros que protegem a sua gente. Alguma, de ascendência afidalgada; outra parte, burguesa abastada em vinhas e em culturas agrícolas; outra ainda, industrial e industriosa, de fábricas prósperas algumas e também dona de algumas decadentes; e também de homens e de mulheres do povo pobres do Douro imenso, em que alguns destes últimos reconhecem e distinguem nos seus patrões aqueles que são ou não, possuidores daquilo que definem como uma alma cívica e de valores (…).

Sobre a cidade informa-nos o narrador do romance: «Conhecer o Porto não é coisa de agências de viagens. Nem de escritores também, Camilo Castelo Branco fez muito mal ao Porto mostrando-o como uma fortaleza de brasileiros e um alegrete de mulheres vestidas de seda cor de pulga e apaixonadas por uma sobrecasaca. Não é assim…O Porto teve cidadelas, bairros, demarcações e verdadeiros círculos de cultura (…)»

Trata-se de uma história de “procura de caminhos na vida,” de maldição, de expiação, de redenção, de amor/desamor/ódio, de paixões, de vícios, de lealdade por vezes canina, por que passam as diversas personagens que encarnam as diferentes franjas sociais da cidade e dos seus arredores.

A família como esteio social mais forte, para o bem e para o mal, da sociedade nortenha no geral, e portuense em particular, simboliza quase sempre na obra de Agustina e com muita acuidade em «O Princípio da Incerteza – Jóia de Família» – tal como o fora em «Os Meninos de Ouro» «A Corte do Norte», «Vale Abraão» ou, mesmo anteriormente, em «Sibila» – o que de mais telúrico, de mais permanente e de mais transcendente, urde e cimenta a narrativa desta autora.

E muitas vezes, são elas, as famílias, as verdadeiras detentoras de poder na sua globalidade e do Poder na sua especificidade político/económico.

Tanto assim é, que mais do que o protagonismo singularizado nas personagens: António Clara, Camila, Vanessa, Touro Azul, ou na perspicaz governanta Celsa Adelaide. É o colectivo familiar de cada uma delas (os Matos Albergaria, os Roper, os Aurelianos) é que, de facto, protagoniza o romance.

Para além disso, e sobre tudo o resto, Agustina sabe contar história (s) de forma enleada, entretecida em sequências que prendem, seduzem e encantam o seu leitor.

No fundo, os livros de Agustina Bessa-Luís “assumem” em pleno, “a atitude narrativa” - como caracteriza Maria Alzira Seixo, conhecida ensaísta portuguesa – da verdadeira história ficcional.

Foi desta plena e assumida atitude e construção narrativa que emergiu: «O Princípio da Incerteza – Jóia de Família» o livro de Bessa-Luís que voltei a ler com redobrado prazer.