Elas Contam e a escrita no feminino…

sábado, 31 de março de 2012
A propósito do mês de Março, mês da mulher, a Associação Cabo-verdiana em Lisboa, realizou um interessante ciclo de actividades culturais em que foram ouvidas conferências sobre a escrita literária e científica no feminino e em que também homenageadas, mulheres escritoras.

Neste âmbito, fui convidada pelo Coordenador cultural da referida Associação, o poeta José Luís Hopffer Almada para um dos painéis constantes do ciclo de palestras, para falar sobre a escrita de Maria Helena Spencer e apresentar a colectânea «Elas Contam…».

Devo esclarecer que a referida colectânea foi publicada e apresentada na Praia, em 2008, de modo que se tratou mais de uma representação, embora para uma audiência diferente.

Não tive a pretensão de esgotar ou de incluir todas as contistas, apenas pretendi no livro ter uma amostra mediana das nossas mulheres contistas.

Com efeito, a ficção que nos ocupou neste volume foi o conto literário, herdeiro afinal, em larga medida, do conto oral, o mais antigo se não dos mais antigos géneros literários que a humanidade conhece, anterior à própria escrita.
No caso desta colectânea são já contos classificados pela escrita literária, integrados como um dos géneros da Literatura.

São vinte e cinco os contos seleccionados e coligidos no volume, contos esses saídos da pena de onze Contistas diferentes na sua forma de contar, mas com alguns denominadores comuns que eu aliás notifico na Nota de Abertura do volume.

Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu entretanto; algumas boas como possivelmente, novos contos publicados; outras nada boas, como foi o desaparecimento físico de três das autoras presentes na Colectânea, Maria Helena Spencer, Leopoldina Barreto e Maria Margarida Mascarenhas. Sobre esta última Contista, transcrevo uma passagem da carta que dela recebi, quando eu estava ainda a organizar o volume, a concordar com a proposta da resenha biográfica que figuraria na Colectânea e com a escolha dos Contos. «(…) Achei curiosa a selecção que não tem sido dos mais referidos, mas que devido às malhas que o tempo tece, serão os que se encontram mais sintonizados com a MMM de hoje. A condição feminina em Cabo Verde foi e continua a ser um factor de indignação para mim (…). Fim de citação.

Qual terá sido o «mobile» que me levou a distinguir Contistas, mulheres?
Ora bem, já repararam, que as correntes literárias nacionais são masculinas? Vejam, por exemplo: «Claridade», «Certeza» sempre no masculino em termos de autores.

Costumo observar isto meio a brincar, meio a sério… Poderia até citar dois casos que eventualmente exceptuarão a regra: o de Orlanda Amarilís que vem da Academia «Cultivar» do Mindeloe de onde saíram quase todos os escritores e poetas do movimento «Certeza» os quais escreveram e publicaram quase tudo, nas décadas de 40 /50, do séc. XX. A nossa Contista aproxima-se dos participantes do referido movimento literário, mais em termos históricos ideológicos, do que em publicação coeva, uma vez que ela só publicaria os seus contos na década de 70. O outro caso sim, foi de paridade, o da poetisa Yolanda Morazzo que participou e publicou os poemas, ao lado da contra parte masculina no «Suplemento Cultural» (do Boletim Cabo Verde) em 1958.

Porém, garanto-vos que não me norteou qualquer motivação com sentido de exclusão, ou seja a oposição feminina versus masculina em termos de escrita literária. Não, não foi este o motivo ou o “animus” fundamental que conduziu a reunião dos Contos.

Foi mais um reconhecimento de que as mulheres contistas deviam ser distinguidas num conjunto que valorizasse (passe a pretensão) o seu trabalho ficcional.

Os Contos presentes na colectânea espelham afinal, mais de uma geração de mulheres contistas. Cada uma na sua singularidade, com o seu estilo e mais do género “cada um(a) é seus caminhos” tomando de empréstimo um verso do poeta português António Gedeão, são aqui conclamadas e reunidas num cruzar e num inte-cruzar contínuo das suas heranças sociais e culturais para narrar histórias várias. Fundamentalmente, histórias da condição humana, com algum realce para a de mulheres. Tudo isso com arte de ficcionista.

A narração de cada história como que remete para/e sintoniza o leitor no universo das ilhas, universo esse reflectido na intertextualidade cultural, com as suas marcas de época, de tempo, de ambiências sociais humanas e do tempo histórico do Arquipélago, confluindo de modo particularizado no texto de cada uma das autoras.

Também vale dizer, que se pretendeu, com a selecção dos contos, aflorar interrogativamente algumas hipóteses, tais como: até que ponto convergem tematicamente os contos escolhidos? Em que consiste esta eventual convergência? O ponto central das histórias aqui reunidas versa a mulher? A condição da mulher entre nós? Apenas isso? Ou as histórias são mais abrangentes? Observam o mundo das ilhas dentro e fora delas. Creio que se verificam todas essas condições nos contos selecionados.

Outra questão que se me pôs sempre de forma interrogativa, serão estas escritoras ou parte delas “parentes,” “próximas” afastadas da Claridade? Da Certeza? Comungam elas dos mesmos caminhos, credos, e tons perseguidos e percorridos por outros contistas cabo-verdianos anteriores ou, pelo contrário, elas serão outra voz? Uma voz à parte? Uma voz diversa? Diferenciada na sua maneira de narrar? Foram algumas das questões que me ocorreram quando coligia os contos.

O critério da ordenação dos Contos obedeceu ao ano da publicação, isto é, do mais antigo ao mais recente incluído na Colectânea. É assim que o leitor tem como mais antigo o conto intitulado: Num Baile de Maria Adelaide das neves, retirado do Almanaque de Lembranças, publicado em 1889.

Depois seguem-se os contos de Maria Helena Spencer, Maria Margarida Mascarenhas e Haydeia Avelino Pires, dados à estampa no antigo Boletim Cabo Verde das décadas de 50/60 do século XX, cruzando caminhos com os Contos de Orlanda Amarílis dos anos setenta, de Maria Isabel Barreno e os de Fátima Bettencourt, de Dina Salústio, Ivone Lopes e de Leopoldina Barreto dos anos noventa e indo até aos da Camila Mont-Rond, publicados em 2001.

Voltando ao título deste escrito e para finalizar, direi que afinal, há já um longo arco do tempo que “Elas contam,” escrevendo sobre as gentes das ilhas, de fora delas e sobre as gentes das ilhas vivendo nelas.

As mágoas da D. Lú…

quarta-feira, 28 de março de 2012
Aqui há dias, num Domingo qualquer, procurava eu um salão de cabeleireiro pois, sentia-me necessitada de melhor arranjo exterior…

Bem sei que o Domingo é dia santo e de descanso para nós cristãos. Mas guardava uma secreta esperança de que haveria de encontrar um aberto e perto de casa, em Oeiras. Eis que vejo um. Entrei e a dona, cabeleireira de profissão, uma patrícia. Mais precisamente oriunda da região do Tarrafal, Santiago. Aliás, como a maior parte dos imigrantes cabo-verdianos que aqui vivem e trabalham em Oeiras.

Conversa vai, conversa vem, estabeleceu-se uma boa empatia entre as duas e a Lú, assim se me apresentou, contou-me como cá chegou…

Corria o ano de 1974, mais precisamente o mês Julho durante a conturbada fase de transição para a independência das ilhas de Cabo Verde com os mandantes do PAIGC e os militares a fazerem prisões a homens que eventualmente, estivessem contra a unidade Guiné, Cabo Verde, não obstante muitos se tivessem declarado ser pela independência. Aliás, do mesmo modo que também prendiam os considerados latifundiários, não alinhados com eles, retirando-lhes as terras. Foi um período histórico bem confuso e de muitos desmandos.

Ora bem, o pai da nossa cabeleireira - esta na altura com treze anos - era empregado/trabalhador, nas então propriedades do conhecido Eng. Almeida Henriques, em Santa Cruz. O grande leito da Ribeira Seca, terrenos junto a foz, de frondosas e belas bananeiras que se vêm extinguindo, com escassos vestígios nos dias de hoje.

E continuou a minha narradora:

Uma manhã de Julho do referido ano, saiu o progenitor para ir trabalhar como era a sua rotina diária. Quando o filho mais velho, ao meio-dia, lhe foi levar o almoço a mando da mãe, soube que o pai havia sido preso nessa manhã. Preso porquê? Era a angustiante interrogação posta pela família. Por trabalhar para o patrão. Apenas isso. Fora a justificação dada.

Segundo a minha relatora, foram tempos de grande sofrimento, de enormes privações em casa e em que ela via a mãe a chorar diariamente, os oito irmãos menores, ela incluída, sem o amparo e sem o sustento do pai.

Enfim, um quadro trágico que a marcou, segundo ela, para o resto da vida…
Os dias foram-se arrastando, até que numa certa noite dos finais do mês de Maio do ano seguinte, uma pessoa amiga do pai lhes bateu à porta para comunicar que iriam juntar-se ao progenitor em Portugal e que se preparassem, pois ele havia-lhes comprado a passagem e que deveriam partir na madrugada seguinte para o Sal e aí apanhar o avião para Lisboa. Tudo muito à pressa. Com muita barafunda. Recorda-se ela de que nessa noite já não dormiram. A casa encheu-se de vizinhos e de familiares em alto choro como se a partida e a “morte” os tivessem visitado ao mesmo tempo…

Anos transcorreram. A família fixou-se em Oeiras. A minha cabeleireira só voltou à terra natal, trinta anos depois.

Finalizou as suas mágoas passadas com duas notas tristes que guardadas lhe ficaram: a primeira, o facto de o pai pouco tempo depois de ter sido libertado, já em Portugal para onde os prisioneiros do já considerado, Tarrafal II, haviam sido entretanto transferidos, ter adoecido e falecido alguns meses depois da reunião da família; a segunda, a angústia que lhe ficou pois queria agradecer, pessoalmente, o benfeitor que os tirou de lá para os juntar ao pai. Só que quando ela retornou a Santiago e por ele procurou, teve o triste conhecimento de que o seu bom “samaritano” já não pertencia a este mundo.

Retalhos de vida? Sim. Mas não deixam de ser também pequenas páginas da nossa História mais recente.

Fenómenos de descrioulização? Ou de novo o “Crioulês”?

quarta-feira, 7 de março de 2012
Aprecio o programa televisivo «Conversa em Dia» conduzido pela Jornalista Margarida Fontes. Regra geral, quando o tema me interessa e a ocasião propicia, vejo-o e escuto-o.
Aqui há dias foi uma dessas ocasiões. O tema versava “Língua Materna” e bem intencional, pois que, se assinalava com o referido programa, o Dia Internacional da Língua Materna.
Dos três convidados, dois são conhecidos especialistas do nosso Crioulo cabo-verdiano e o outro convidado, embora do ramo das ciências ditas exactas e que se apresentou nessa qualidade em que a transversalidade linguística e outras, também faculta. Aliás, no dizer de Georges Mounin, a Linguística é: «a ciência – piloto das ciências humanas» e que interpela etnólogos, filósofos, sociólogos, psicanalistas, estetas, críticos, entre outros cientistas.
De qualquer forma, e em relação a este último participante do painel do programa em apreço, é na minha perspectiva, igualmente, um estudioso e um atento observador dos fenómenos por que passam as Línguas cabo-verdianas.
Apraz-me registar que qualquer deles esteve bem nas posições expendidas. Destas, algumas, já expectáveis, outras, interessantemente em mudança de paradigma conceptual, o que só abona o estudioso das questões complexas, diversas e mutáveis que desafiam as nossas duas línguas vivas, faladas e escritas entre nós.
Em jeito de resumo, diria que cada um dos intervenientes defendeu posições a sua opinião (ideia, pensamento) com a lógica e o conhecimento respeitáveis de quem sabe e se debruça sobre a matéria.
Mas eis que o meu interesse de ouvinte, acabou por se centrar, surpreendentemente, no modo como se expressaram – falaram em Crioulo – os dois especialistas do Crioulo, já que o outro convidado do programa, aludindo ao bilinguismo de que se compõe estas ilhas, fez questão em se expressar nos dois veículos linguísticos, (o português e o crioulo).
Efectivamente, pude degustar algumas passagens fabulosas, saborosas, em que o já considerado “pecado” da descrioulização ou, o que jocosamente, chamamos de “crioulês,” estiveram bem presentes e fizeram-se ouvir com intensidade em toda a sua extensão.
Digo, “considerado pecado” de descrioulização, pois que para mim, se trata tão-somente de um fenómeno natural no processo diacrónico da prática alargada, sobretudo, da oralidade do crioulo cabo-verdiano deste tempo de globalização. Resultado natural também do seu enriquecimento e do seu apetrechamento vocabulares, de rápida e constante troca, de contaminação e influência comunicativas, de maior alfabetização e literacia do próprio falante do crioulo. Tudo isto vem fazendo com que a aproximação à matriz da língua portuguesa do século XX/XXI seja notável!
Para encurtar caminho, tomo a liberdade de aqui transcrever, com a devida vénia aos seus autores, procurando enquadrá-las contextualmente, algumas dessas passagens escutadas e absorvidas, durante a exposição oral dos dois Linguistas do Crioulo cabo-verdiano, em defesa da oficialização do mesmo e da pertinência do ALUPEC em se constituir seu representante gráfico, entre outras matérias afins.
A determinada altura, um dos participantes, questionado sobre os focos de resistência e de alguma rejeição que existem sobre a aceitação do ALUPEC, respondeu em crioulo, da forma que a seguir transcrevo:
« (…) Em trinta anos de independência é o único projecto de escrita de incidência etimológica e de base fonológica, sistemático, consistente e abrangente…Tudo estudo académico qui fazedo utiliza Alupec, o que ta demonstra que é reconhecido o valor e a funcionalidade de alupec enquanto consistente e sistemático pa aprende todas as regras de escrita (…)» (Fim de transcrição).
Mais à frente, interrogado sobre as causas de tão pouca produção literária em crioulo, o mesmo inquirido, sempre em crioulo, explicou-se:
«(…) ‘m ta tomá palavra apenas pa fazê um ponte sobre o porquê que tem tão pouca produção literária em cabo-verdiano. Se o português e crioulo desenvolvessem harmoniosamente ca tinha esse problema (…)» (Fim de transcrição).
Mantendo este registo de oralidade em crioulo, uma outra intervenção a propósito de como a UNI-CV, vem praticando a didáctica do ensino do cabo-verdiano, e também como celebrou a efeméride, (Dia da Língua Materna) eis o que se ouviu da outra participante:
«Em termos de proposta, nu tem um programa amplo com um metodologia adequada (…) É claro que o processo bilingue é transitivo, no caso de Cabo Verde até que não seria errado (…) Nesta fase é mais a nível académico qui tem que ser feito um experimentação pa sabê se ALUPEC é eficaz ou não. (…)«…» A UNI-CV tem um vasto programa e teve a iniciativa de convida outras universidades para diversas actividades, durante o dia. Para além disso, à tarde nu ta retôma com uma conferência linguística, e em S. Vicente nu tem previsto um Mesa-Redonda. (…)” «Nu tem como projecto mais recente, um projecto de Língua gestual, aliás é compreensível, digamos, nu tem já um comunidade razoável de jovens com necessidade de língua gestual, pa integra na mundo de trabalho (…)» (Fim de transcrição).
Voltando ao primeiro inquirido crioulista, a propósito das questões que se levantam a esta problemática, ele avançou:
(…) O próprio Ministério da Educação mestê faze uma reflexão profunda. O problema fundamental é os professores. (…) Há necessidade de efectivamente se fazer um estudo a curto, a médio e a longo prazo» (…) (Fim de transcrição)
Creio que as falas escutadas, e aqui transcritas, não carecem, no meu entender, de qualquer tradução para um falante da língua portuguesa.
Acresce que a oralidade do Crioulo de Cabo Verde, na boca do cabo-verdiano com significativa escolaridade, apresenta-se por vezes, como que “decalcado” da língua portuguesa actual – quando se trata de matéria técnica ou científica – em que apenas a entoação, o “sotaque,” alguns eventuais elementos de ligação frásica, de conectores conjuncionais, preposicionais e enfáticos nos remetem para o crioulo.
É um fenómeno deveras interessante!
Mas atenção: Trata-se aqui neste escrito, apenas – volto a repetir – ressaltar um fenómeno há muito previsto e esperado na evolução da língua viva e materna dos cabo-verdianos.
E mesmo, mesmo a fechar coloco a seguinte questão: Será que a representação gráfica, isto é, a escrita do nosso Crioulo, pretendida com o ALUPEC estabeleceria a fronteira diferenciadora entre as duas Línguas da mesma família e poria termo à “malfadada” descrioulização?

THE RULE OF THE LAW – O PRIMADO DA LEI

sábado, 3 de março de 2012
Não sou assíduo de nenhum jornal digital. Isto faz com que me escapem várias notícias importantes devido a provisoriedade das suas exposições. Presumo que alguns textos não resistem mais de 24 horas. E, sinceramente, são tantos os jornais digitais (incluo blogs) que não tenho tempo para os visitar diariamente todos e muito menos suficiente curiosidade intelectual para me recorrer de forma sistemática aos arquivos, o que só faço quando alguém mo recomenda.

Mas tive a oportunidade de ler um texto que me causou algum desconforto não, certamente, pelo discurso escorreito e bem articulado (também já causa estranheza!) mas pelo seu conteúdo impactante e algo vergonhoso para os visados pela frontalidade vernácula com que é apresentado. Julgo que a questão não é nova – uma casa (vivenda) não se constrói em dois dias.

Por motivos que acima aludi e pelo meu distanciamento voluntário (não afastamento) da coisa política ainda não tinha tido conhecimento do facto. Trata-se da mensagem do editorial do “Liberal “ de 23 de Fevereiro último, sobre um assunto, ao que parece, recorrente para esse jornal.

Antes de expor as razões do meu assombro vou partilhar com os eventuais leitores deste meu texto que ainda o não tenham lido (o editorial), apenas um parágrafo cujo conteúdo me causou uma profunda indignação pela passividade desta sociedade, sobretudo a política, pela inépcia dos principais actores políticos designadamente da oposição e pelo cínico e deleitoso sorriso que vislumbro nos infractores pela virtual ausência de instrumentos legais (não éticos nem políticos) para o seu combate a que se acrescem a negligência e o parcialismo das (in)competentes autoridades judiciais.

Vou citar: “Como já tivemos ocasião de referir [“Democracia contra salteadores”], parece que na 26ª democracia do mundo se convive bem com a trapaça, a corrupção e mesmo a mais descarada roubalheira. Aludimos, então, ao caso do próprio Primeiro-ministro que, descaradamente, ocupou terreno do Estado, aceitou como prenda uma casa e utilizou fundos do tesouro para acorrer às dificuldades financeiras de uma “amiga especial”, entre outros expedientes nunca justificados e publicamente conhecidos. E isto ao mesmo tempo que JMN tem sempre a boca cheia de supostos princípios éticos e auto-elogios de seriedade.” (Fim de citação. O negrito é meu).

Como se não bastasse o conteúdo transcrito, o articulista refere-se também, na esteira deste estado de coisas, a outros protagonistas deste governo de que me escuso de abordar. Para o meu desgosto, chega-me e sobra-me o Primeiro-ministro. Se ele o pode fazer porque não há-de um director-geral ou ministro fazer o mesmo? Receber como prenda apartamentos, carros ou mesmo milhões em dinheiro.

Parece que tudo é legal neste permissivo país no meio do mar semeado.

Confesso ter tido, e ainda a tenho, dificuldade em acreditar que o PM do meu País tenha recebido de PRENDA (!!!) uma casa, ainda por cima construída em terreno do Estado. Pela maneira como o assunto é posto, enrolado em “corrupção”, “trapaça”, “descarada roubalheira” entre outros enfeites, não posso imaginar que tenha sido de um parente muitíssimo próximo que lha ofereceu por um dos seus aniversários mas provavelmente de um “amigo” como sinal de agradecimento por um relevante serviço que lhe tenha prestado ou de que espera ele venha a prestar. Ele há-de haver uma razão, real ou conjecturada, bastante plausível. Há prebendas que só os nossos pais (para eles a justiça impõe regras) ou irmãos ricos estão autorizados a dar-nos.

Não deixo de me inclinar perante a inteligência, a “sagesse” e a generosidade do “benemérito” nem de me acabrunhar com a ingénua ingenuidade do meu PM em pensar que também nós – a sociedade civil – achamos que se trata de um acto inocente, de uma desinteressada “prenda”.

Mas se a prenda pode ser “legal”, o que eu, sinceramente, duvido, já a ocupação, por um PM, de um terreno do Estado, pertencente a uma instituição, para a construção de casa própria configura uma flagrante ilegalidade, um abuso de poder.

É o que dá a impunidade? Pessoas julgarem que estão acima da lei em países que se dizem democráticos e se consideram estados de direito?

Quem é que já se esqueceu do célebre episódio de “dinheiro sujo”? O que é que lhe aconteceu? NADA.

E eu a lembrar-me que em pleno século XVII, um rei, Carlos I de Inglaterra, foi executado a mando do Parlamento por abuso de poder, por ignorar o primado da lei que impõe que ninguém, em circunstância alguma, esteja acima dela – The rule of de law. Isto sem referir, mais proximamente, à resignação compulsiva do Presidente Nixon pelas mesmas motivações.

De repente remeti-me aos alvores da 2ª república em que tivemos a visita de um ilustre político estado-unidense. Era secretária de estado uma pessoa que me é muito cara e que fora incumbida de “acompanhar” esse político.

Quando andava à procura de uma prenda condigna, em conformidade com o estatuto do convidado, foi avisada pela Embaixada dos EUA que o valor da prenda não podia ultrapassar os 50 dólares (!!!). Imagine-se, cinquenta dólares! Ao aludido político estava-lhe vedado, como tal, aceitar prendas acima desse valor…

Não me preocupo em saber se esse tecto foi alterado mas em registar com muito agrado a sua existência, ainda que o seu valor fosse cem vezes superior.

É claro que no nosso ordenamento jurídico não pode existir um “plafond” nos mesmos moldes qualquer que seja o valor. Os nossos legisladores, estes, parece, preferem o vazio, espaço a que atribuem a sinonímia da liberdade, dando ao político a faculdade de usar a sua sensatez ou o seu livre arbítrio, para "distinguir" entre uma simbólica lembrança e um subreptício suborno. E a ocasião não fará o ladrão, contrariando o ditado popular, mas revelá-lo-á, seguramente.

Isto, porque alguns dos nossos influentes governantes, felizmente poucos, enredam as suas escabrosas maquinações em teias fictícias a que chamam “diplomacia” e, por vezes, mais pomposamente “diplomacia económica” no sentido de obter vantagens financeiras pessoais, alimentar a clientela e satisfazer as suas mesquinhas aspirações de poder.

Quanto à casa do PM, a ser tudo verdade – nesta fase muito poucas são as razões para se duvidar – e tendo sido construída em terreno de Estado, espero que ele siga as nobres peugadas do seu mais ilustre conterrâneo vivo, que ao deixar a presidência da república em 2001, doou, de imediato, todas as prendas que recebera ao longo dos dez anos no desempenho dos dois mandatos que o povo lhe conferira, ao concelho de Santa Catarina para a criação de uma casa-museu.

É assim que procedem os verdadeiros Homens de Estado.

A. Ferreira

Plágio Afectivo?...

sábado, 25 de fevereiro de 2012
Contou-me a minha querida amiga Neusa Monteiro Freitas um episódio que já tem seguramente cinco décadas. Passou-se com ela ainda aluna, em Mindelo, S. Vicente.
Um certo dia, a professora de português entrou na sala de aula e pediu à turma que fizesse uma redacção sobre o tema: «Portugal».
À minha amiga, isso pareceu-lhe algo demasiado vago e muito complicado para uma redacção. Auto-questionou-se o que é que sobre isso saberia escrever? Uma espécie de aflitiva interrogação e de nervosismo apossaram-se da aluna.
Antes de continuar a historieta, sobre a qual me encontro devidamente autorizada a reportar, pois como disse a autora dela, hoje em dia ela já conta isso como quase anedota, devo abrir um parêntesis para situar melhor o leitor.
Estava-se bem nos inícios dos anos 60 do século XX e a PIDE, a polícia política de Salazar tinha vindo para Cabo Verde. Mal chegados a S. Vicente foram à procura do renomado compositor de mornas Jorge Fernandes Monteiro, também conhecido por Jotamonte ou Jorge Cornetim.
E porquê o interesse da PIDE pelo pai da minha amiga? Porque naquela altura, a morna intitulada: «Fidjo Maguado» (Filho Magoado) cujos versos aqui transcrevo parcialmente:
«Nha Terra bô ca ta imaginá
Tristéza q’ mi bo fidjo ‘m ta senti/
Ora qu’m tôdjá-bo ta sofrê
Nha alma ca ta podé resisti

Ma tem fé na No S’nhor
qu’ êss trsteza ês dor
sofrimento profundo
que ca tem ôto na mundo/
el ta cabâ um dia
pa nu sinti lígria/
pa nô podê vivê
Sim c’mâ tude gente ta q’ rê (…)»
(tradução aproximada: «Minha terra, tu não podes imaginar a tristeza que eu, teu filho sinto quando te vejo a sofrer, a minha alma não consegue aguentar! Mas tenho fé em Nosso Senhor, que toda esta tristeza, esta dor, sofrimento profundo que no mundo não há igual há-de conhecer o fim, um dia, para sentirmos alegria e viver como toda a gente gostaria de viver (...)
Pois bem, a morna havia sido adoptada como indicativo (hino de abertura e de fecho) das emissões da “Rádio Libertação” do PAIGC, em Conacri, partido que se encontrava na altura em guerra com Portugal pelas independências da Guiné e de Cabo Verde.
O autor, mesmo tendo provado que, enquanto compositor, fizera a inscrição da dita morna na Sociedade de Autores em Portugal, muito antes do início luta do PAIGC, a PIDE não o deixava em paz, convencida como estava de que a música lhe fora encomendada.
Então, um pouco para se demarcar de algo de que ele não tinha tido a culpa e que nem podia controlar, compôs a seguinte canção que depois ofereceu às escolas e aos Liceus para as aulas da disciplina de Canto Coral, de que ele era também um dos professores. Vai aqui reproduzida a letra. Espero que a memória não me traia, tentarei transcrever os versos, embora apenas parcialmente:
«Portugal continua sem cessar
A ser um grande país de liberdade
E enquanto existir um Salazar
Mostrará sempre que ela é uma realidade

Portugal terra de paz
Portugal guiado por DEUS
Será sempre um país de liberdade
São os sinceros votos meus (…)»

A filha que já andava com a letra da canção copiada num dos seus cadernos da escola, muito antes da sua plena divulgação, não esteve com rebuços e a redacção dela a toda a página (em prosa) foi exactamente a letra da canção do que o pai havia recentemente composto. Fecho o parêntesis.
Mas feito isto e entregue o trabalho à professora, sobreveio o medo de que fosse descoberto o plágio e que ela fosse castigada.
Chega o dia da entrega das referidas redacções corrigidas, a Neusa vê a turma toda a receber e ela… nada. O coração agitou-se e o temor de que havia sido apanhada aumentou.
Eis que no fim da distribuição, a professora abeira-se dela e diz-lhe toda embevecida: «Querida Neusa a tua redacção está tão bem feita, tão tocante, que resolvi guardá-la como recordação!» E hoje, a minha amiga ri-se às gargalhadas quando se lembra da história sobre a qual não se atreveu a dizer em casa ao pai. Pois, segundo ela, se para a professora fora interessante, pois nada descobrira, do pai ela havia de receber uma boa reprimenda pelo descaramento.
E já agora, para finalizar e um pouco também em jeito de memória, recordo o que me contou o saudoso maestro Jorge Monteiro, então professor de música no Liceu do Sal nos finais dos anos 70. Disse-me que se havia inspirado para compor a morna «Fidjo Maguado» no ambiente decadente de miséria e de desemprego por que passava a ilha de S. Vicente com a desactivação dos depósitos de carvão e o declínio do belo e então movimentado Porto Grande do Mindelo.

UM POLÍTICO ASSUME E ASSUME-SE!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
A conversa reinante ao longo destas últimas semanas, em todos os espaços públicos e privados em que amigos se encontram, ainda é, incontornavelmente, por um lado, a tirada erudita e culta do PM em considerar o povo cabo-verdiano agressivo e afeito à violência devido, segundo ele, de entre outras causas das quais ressalta, imagine-se, uma vivência infantil de “piratinha”, a uma herança escravocrata na origem da formação da nossa sociedade, que ainda perdura; e por outro, as extemporâneas “confissões” de Aristides Pereira. Qualquer destes dois assuntos já foi de tal forma escalpelizado nos media, impressos e digitais, que estou seguro que nada de novo acrescentarei ao muito que já foi dito. Apenas mais um sintético registo.

1. O PM confunde, à boa maneira de uma boa parte dos paicvistas, o espaço de tempo correspondente ao seu governo com a história de Cabo Verde; igualmente confunde as escaramuças pontuais e previsíveis – antigamente tomavam-se medidas preventivas – das festas populares com a violência permanente e a insegurança generalizada. Talvez ele não consiga destrinçar entre a violência e o sentimento de revolta, a indignação. Esta sim, tem sido permanente. A este propósito, será oportuno e esclarecedor citar um famoso escritor português, conhecido como homem firme e honrado, com a coluna vertical bem direita – Miguel Torga – ao contrário de muitos políticos e pseudo homens de cultura que por aí pululam que já nascem com ela bem torta e sem perspectivas de a endireitarem (cito):

"É um fenómeno curioso:
O país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados
" (Fim de citação)

Torga, embora dirigindo-se a uma outra comunidade e num outro tempo, acaba de sintetizar aquilo que o nosso PM classifica de violência congénita.

Para abreviar este assunto que suscitou grande alvoroço e potenciou a indignação nacional, apenas desafio o PM a responder ao seguinte: Que povo violento (mesmo moderadamente) aceitaria ordeira e pacificamente um presidente da república, “eleito” por uma diferença de 12 (doze) votos provados fraudulentos pelos tribunais? Por muito menos, tem havido banhos de sangue no nosso continente. Ou não é assim, senhor PM?

O que aconteceu, é que o PM, na sua missão de bombeiro político, acorrendo a todos os fogos do seu governo sociopoliticamente incendiário, quis apagar mais um, pelos vistos de forma atabalhoada e infeliz, este , provocado por um abaixo-assinado de centenas de mulheres (principais alvos) da Cidade da Praia a queixarem-se contra a violência urbana generalizada que pondo em risco a sua integridade física e a sua vida, condiciona e constrange o seu comportamento social e o seu modus vivendi com a perda inquestionável da sua liberdade de acção. Outros movimentos ou movimentações, provenientes das igrejas cristãs e da própria Câmara da Praia, têm-se igualmente expressado.

À manifesta incompetência e incapacidade do Governo em encontrar uma solução responde o PM, irresponsavelmente, endossando a violência a um suposto código genético da sociedade cabo-verdiana. Uma verdadeira falta de respeito e de consideração ao povo que o elegeu e a que diz pertencer.

2. Também algumas das recentes “confissões” de Aristides Pereira (AP), reveladas após a sua morte, têm sido motivo de conversa e de comentários vários. Não só pelo seu conteúdo, controverso, porque mexe com o bom-nome e a dignidade das pessoas mas também pela sua questionável (in)oportunidade.

A luta para a independência terminou há umas décadas. Pode-se aceitar que o contexto da guerra obrigava-o a conviver com todos aqueles que ele classifica como cara-de-pau – cínico, hipócrita, carreirista, sem escrúpulos, cúmplices de assassínios, etc. etc. Mas na pós-independência bem podia ter-se demarcado de todos eles e assumido as suas responsabilidades de chefe da “tribo” que sempre comandou, separando o trigo do joio. Não o fez e parecia sentir-se cada vez mais acomodado e confortável com o usufruto da condição de patriarca.

AP está já na História de Cabo Verde. É assim a História: uma vez entrado nunca mais de lá se sai. A não ser em regimes totalitários comunistas em que o nome fica proibido de ser pronunciado e, juntamente com a imagem, retirado de todos os documentos. Mas estar na História nem sempre é pelos melhores motivos. Não é o caso de AP. Mas os menos jovens, da minha geração, e com a 4ª classe, sabem que de Egas Moniz a Miguel de Vasconcelos, vai um longo espectro entre um Homem e um ser humano, segundo a História de Portugal.

AP não poupou nenhum dos seus colaboradores mais próximos. Não hesitou em acusar aquele que foi o seu 2º durante, pelo menos, 15 longos anos de homem sem escrúpulos, cego pelo poder e sedento de protagonismo, minorando ou mesmo destituindo as suas pretensões, pelo seu tipo de calculismo, de algum patriotismo e de espírito de missão. A um outro, seu compadre, ironicamente por sua própria iniciativa (quando se esperava o inverso) configurou-o como homem autoritário, violento e intolerante de entre outros enquadramentos menos dignos. Aos jovens turcos de então (anos 80/90), hoje nossos governantes, classificou-os de uma “cambada” de empedernidos anti-democratas, oportunistas e carreiristas. E no meio disto tudo, declara-se amicíssimo de um que diz ter conhecido antes de conhecer Cabral mas, todos bem o sabem que, por actos e omissão, quão mal o tratou em Conacry. E nunca levantou um dedo em sua defesa, bem pelo contrário, fazia coro pelo silêncio, quando aquele era atacado e vilipendiado. Enfim, lixívia para todos os gostos, dando crédito aos que defendem que a história contada só pelo próprio é, sob vários aspectos, uma História sob suspeita.

AP sabia que a maior parte das suas declarações “póstumas” não constitui nenhuma novidade. Mais, que ia ao encontro daquilo que toda a gente pensava mas só alguns o diziam. Tinha, pois, plena consciência de que as suas “não novidades” ditas por ele se transformariam em polémica alargada e poriam em causa uma certa auréola que envolvia os “vindos da Guiné”, na terminologia de um meu amigo, revelando a sua generalizada mediocridade, com a autoridade de quem na verdade devia tê-la. Portanto, a grande surpresa é apenas o facto de terem sido ditas por ele, AP, − um homem discreto, parco de palavras e de ideias, distanciado e que escondia as suas insuficiências por detrás da sua simplória e mal-disfarçada arrogância − o mais consagrado e respeitado dos “compagnons de route” de Amílcar Cabral. Por isso surpreendeu…

Sobre a morte de AC era preferível continuar calado. Nada disse no seu livro “Meu testemunho – Uma Luta. Um Partido, dois Países” em quase mil páginas, remetendo tudo para o embaixador de Cuba, Óscar Oramas, o que é apenas ridículo pelas funções que sempre ocupou no PAIGC e porque na altura do assassínio de AC era ele o responsável pela segurança do partido. Uma fuga às responsabilidades, quiçá, por reconhecer negligência e trágica falha por parte dos serviços de segurança que ele chefiava, não obstante os claros e preocupantes sinais que irradiavam de vários quadrantes.

Acusar uma militante, insidiosamente, de alguma cumplicidade, porque sabia do complot por viver na altura com um “implicado” no assassínio de A. Cabral, dá para pensar. Conferir o estatuto de implicado, mesmo que corresponda à realidade, não pode ser feito pelo mais alto dirigente da organização, sem que tivesse agido em conformidade. É que esse homem “implicado”, que se saiba, nunca foi julgado nem condenado, como muitas centenas de outros que foram espancados e esfaqueados (catana) até a morte e sumariamente fuzilados; e seria no ano seguinte, esse “implicado”, tão simplesmente, o procurador-geral da república no governo de Luis Cabral, na vigência dele, AP, como Secretário-geral do PAIGC.

O campo de especulação do assassínio de AC é um autêntico lodaçal. O CC da URSS (KGB) havia já comunicado a tramóia à direcção do PAIGC; Sekou Touré na manhã do próprio dia do assassínio mandou avisar (2 emissários de alto nível, um deles, o embaixador em Dakar); AP recebe um emissário vindo de Boé no próprio dia da morte dando-lhe conta da conspiração; e segundo Óscar Oramas das mais de 600 pessoas que trabalhavam em Conacry cerca de 400 sabiam que estava algo em preparação. Não faz sentido nenhum, insinuar que só uma única pessoa podia ter tido conhecimento da conspiração. Ainda que pudesse ser verdade, é uma nota despropositada e de má-fé. A história está muito mal contada. Sobretudo quando se endossa, muito comodamente, tudo às autoridades coloniais, de acordo com o 1º comunicado do PAIGC sobre o assunto feito 3 semanas depois do assassínio.

Mas que interesses teriam movido Aristides Pereira para, na hora da sua morte, ou melhor, nos últimos anos da sua vida, rebelar-se contra os seus camaradas de tantas e múltiplas cumplicidades?

Um grande amigo meu, respondeu-me: Quis ser Pilatos! E eu repliquei: Pilatos só lavou as mãos…

Na verdade o que parece é que AP quis lavar-se de algumas das “imundícies” que atribuem e ensombram o PAIGC/CV. Escolheu as mais pequenas e fê-la de forma pequena – pouco elegante e muito pouco digna. Como sói dizer-se: ficou muito mal na fotografia. Podia ter focalizado mais os factos e menos as pessoas. Como por exemplo, falar (verdade) do massacre que se seguiu ao assassínio de Cabral, do assassínio frio dos três majores portugueses, do fuzilamento de centenas de guineenses após a independência sem qualquer julgamento, sendo ele secretário-geral, das prisões arbitrárias, mortes e perseguições antes e depois da independência de Cabo Verde no quadro da unidade, etc. etc.

De todo o modo, como alguém já o disse: foi aberta a caixa de Pandora…

Mas atenção: Não é louvável o “timing” que AP escolheu para fazer as suas “confidências”. Devia tê-las publicado em vida, e aí mereceria seguramente o aplauso da generalidade dos cabo-verdianos pela coragem, frontalidade e pela contribuição dada à História do País e da Luta para as independências. E não lhe faltaram oportunidades nos seus quase 88 anos de vida. Ou então, seria recomendável seguir o exemplo de outros políticos que só permitem que os seus arquivos pessoais sejam abertos algum tempo (5 anos no caso de Kissinger) depois do seu falecimento.

“Um político assume-se” é o título do último livro de Mário Soares. Bastante sugestivo para as declarações postumamente publicadas de AP. Por antinomia. Antes de político é-se homem. E um Homem só o é, quando assume e se assume. E isto só se faz em vida!

A. Ferreira

De novo o Acordo do nosso desacordo…

domingo, 12 de fevereiro de 2012
Apreciei o Editorial de um dos números do «Jornal de Angola» sobre a matéria que assinalei em título neste escrito.
Por certo o conteúdo do Editorial referido – note-se: trata-se de um editorial e não de um Artigo de opinião – já é nesta altura, do conhecimento de muitos leitores. Mesmo assim não resisto transcrever alguns parágrafos do mesmo por os achar um bom convite à reflexão sobre o que estamos a fazer e o que queremos fazer com a nossa Língua, a portuguesa.
A determinada altura, e numa crítica forte e construtiva ao novo Acordo Ortográfico, o texto diz o seguinte: «Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios…» E continua: «Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às leis do mercado, os afecto não são transaccionáveis»em>Na mesma linha de pensamento, o editorialista acrescentou algo que considerei de elevada importância para entendermos como o “facilitismo” linguístico no caso, orientou determinadas alterações introduzidas no dito Acordo Ortográfico: …E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português. Os que sabem mais têm o dever sagrado de passar a sua sabedoria para os que sabem menos…E termina esta verdadeira sentença de uma forma notável: «nunca descer ao seu nível porque é…Batota» Bem pensado! É mesmo disso que se trata. Ao invés de quem mais sabe, tentar elevar o nível académico e do saber a quem ainda menos sabe, ou está em plena formação, ao invés disto, e na sua prática pseudo – pedagógica ou didáctica, “desce” ao nível do aprendente, “facilitando-lhe” um conhecimento que talvez ficará “pobre e redutor,” no caso em apreço, em termos de escrita e da fala da sua (do aprendente) língua.
Mas ainda há mais dados interessantes vertidos no mesmo Editorial, que valem a pena ser transcritos: «Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a língua portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige…»Concordo, subscrevo-o e recomendo-o. Oportuno Editorial!