Nos 101 anos do nascimento de Maria Helena Spencer
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Nunca me canso de voltar à escrita de Maria Helena Spencer. Ela é na minha opinião, uma das mais profundas e completas autoras das Letras cabo-verdianas. Aliás, tudo ou quase tudo, o que esta excelente cronista e ficcionista escreveu é de boa e de agradável leitura. Senhora de uma prosa deliciosa, foi colaboradora por uma boa dezena de anos no único periódico regular e mensal então existente e publicado na Imprensa da Praia, o Boletim «Cabo Verde» (1949-1964).
Pois bem, falar hoje de Maria Helena Spencer é já falar do seu rico e muito prestigiado legado escrito, daquilo que ela nos deixou, não só enquanto contista, como também enquanto jornalista.
Da sua obra, parte dela, até poderia acrescentar, parte significativa dos seus escritos encontra-se compilada, desde 2005. Mas manda a verdade que seja dita que faltam ainda por compilar outras peças escritas desta excelente autora, dispersas e insertas no antigo Boletim «Cabo Verde». Digo isto, porque a colectânea «Contos Crónicas e Reportagens» pretendeu ser tão-somente, uma amostragem qualitativa da escrita vária de Maria Helena Spencer e os textos seleccionados – com um timbre subjectivo, vale sempre dizê-lo – foram considerados os mais ilustrativos da tipologia da escrita diversificada desta Contista, Jornalista, que abrange a Entrevista, a Reportagem, a Crónica e ao Conto. Estou convicta de que a escrita desta autora pede outras abordagens, ou melhor, outras análises que destacassem com critérios, a diversificação dos seus escritos.
Apenas uma rápida informação biográfica de Maria Helena Spencer Santos, que assinava muitos dos textos publicados no «Cabo Verde» apenas com a as iniciais MHS. Nasceu na cidade da Praia, em 1911 e faleceu na cidade de Faro em 2006, aos 95 anos de idade. Fez os estudos primários na Praia, parte do Secundário no Colégio das Doroteias em Sintra e findou o Curso Complementar dos Liceus no antigo Liceu Infante D. Henrique em Mindelo, S. Vicente. Foi Professora primária na ilha da Brava, funcionária dos CTT na Praia aí viveu até meados dos anos 60 do século XX. Colaboradora permanente do Boletim «Cabo Verde» e, curiosamente ganhava o seu sustento também como modista – segundo me contaram alguns familiares e amigas dela – fazia belos e artísticos vestidos de noiva.
Dos meus registos, Maria Helena Spencer deve ter sido, creio eu, a primeira Jornalista em Cabo Verde, encartada, isto é, com licença para exercer a profissão. Posto assim de forma abreviada e informal, eis a biografia de Maria Helena Spencer, passo agora à sua faceta de Contista.
A estrutura das narrativas de MHS, tende para a do conto clássico, se assim me é permitido expressar, isto é, vamos encontrar em muitas delas, enformando o conteúdo: o jogo do bem e do mal, as indagações e as angústias existenciais do homem e da mulher, no caso, cabo-verdianos, as interacções respectivas com o seu meio, a sua sociedade. Vamos também encontrar nos contos desta autora, sugeridas ou explicitadas, as contradições da natureza humana, a espiritualidade cristã da autora aparece bem vincada, bem acentuada em muitos textos ficcionistas e ensaísticos desta escritora. Outra marca da autora é a intertextualidade entre a sua escrita jornalística e a sua escrita literária. Os termos, quando necessários, são pesquisados na sua semântica e contextualizados na história a narrar. O leitor apercebe-se desta contaminação, em alguns contos.
Seria igualmente bom realçar, que um dos temas bem caros à prosa ficcional da MHS é a emigração. Embora fosse um tema já consagrado na então pujante literatura do Arquipélago. Para esta autora, o fenómeno da emigração é, regra geral, problemático porque quase sempre desestruturador de laços familiares. As mais das vezes, mal sucedida e não revelada aos que ficaram nas ilhas. São os casos, para exemplificar, narrados nos contos: «O Regresso», «O Meu Irmão Branco» «O Homem do Leme», cujos enredos dão conta ao leitor, da forma como autora aborda esta temática fulcral que vem da considerada antiga literatura cabo-verdiana.
A escrita de MHS, sobretudo as suas crónicas revelam-na como alguém - embora preocupada com os problemas sociais - possivelmente optimista, crente na vida, alegre. Aliás, ela expressa isso de forma clara, quando, por exemplo, evoca elogiando num texto, a poesia e as cantigas alegres e satíricas de Jorge Pedro Barbosa, poeta e filho do grande poeta Jorge Barbosa, para as contrastar com algum melancólico pessimismo inscrito na literatura da época.
Daí que, julgo eu, que ela tivesse resistido muito tempo para escrever sobre um tema então recorrente, porque muito real e presente para os nossos escritores e poetas das ilhas desse tempo e que teve uma incontornável dimensão na produção literária de quase todos eles. Refiro-me à fome e à seca. Eis que nos anos sessenta do século passado, MHS, abalança-se e escreve sobre isso um Conto simplesmente genial: «Uma História Entre Muitas» Trata-se efectivamente duma saga densamente dramática e extraordinariamente envolvente, que não deixa ninguém que o leia indiferente. De facto, este Conto é no meu ponto de vista de leitora, um dos melhores trechos descritivos e narrativos da grande tragédia que amiúde visitava as ilhas. A narradora é uma mulher, Marina, oriunda do interior da ilha de Santiago, quem, no crescendo dramático e comovente, narra na primeira pessoa a sua história, dando realismo e verosimilhança à história da família que de bons anos de colheitas, de festas fartas e típicas do interior da ilha, passa à penúria, à miséria mais abjecta em que a morte é parte grotesca desta imensa tragédia.
É de leitura obrigatória, recomendo-vos. Quem queira conhecer a capacidade narrativa desta escritora, deve ler «Uma História Entre Muitas».
Volto a repetir, a narrativa é simplesmente genial!
Para terminar, gostaria de reafirmar que a escrita de Maria Helena Spencer não se confina à ficcional. Ela foi com igual mérito Jornalista, autora de excelentes textos ensaísticos e de opinião sobre temas sociais, históricos variados que preocupavam Cabo Verde da época.
As Crises Político-Militares na Guiné-Bissau: Causas, problemas e Soluções [i]
sexta-feira, 11 de maio de 2012
O golpe de estado na Guiné-Bissau do passado dia 12 de Abril (mais um), não surpreendeu verdadeiramente ninguém minimamente avisado porque fora anunciado (insinuado) na véspera, por Kumba Yalá à cabeça dos Cinco – os que contestaram os resultados das eleições presidenciais – na sua conferência de imprensa então realizada.
Ao reiterar o que antes afirmara da sua não participação na 2ª volta (eleições presidenciais) Kumba Yalá disse expressamente que não haveria a 2ª volta, deixando entender que o processo eleitoral seria interrompido.
Na sequência desse golpe, as reacções não se fizeram esperar. Registe-se o forte e contundente comunicado da CPLP que deu o mote às demais organizações internacionais, para a condenação inequívoca do golpe ao mesmo tempo que exigiam todas – organizações internacionais – o regresso imediato à ordem constitucional. No mesmo sentido, e com a mesma veemência, antecipando as próprias resoluções do Conselho de Segurança, foi a voz do Secretário-Geral das Nações Unidas Ban-Ki Moon. A CEDEAO, com a ambiguidade e a inconsequência que se lhe conhecem, “condena” o golpe mas presta-se de seguida a legitimá-la através de negociações generosas sempre em benefício e impunidade dos golpistas sustentadas com o argumento de que é preciso evitar “banhos de sangue”. No fundo a CEDEAO não tem moral para condenar quaisquer golpes porque com mais ou menos “nuances” ela se edifica sob fundações golpistas.
De entre as inúmeras reacções populares e dispersas por todos os cantos em que exista um guineense, e não só, pois até a longínqua e poderosa China se manifestou por mais de uma vez, destaco uma que se realizou no Centro de Estudos e Estratégia do Ministério dos Negócios Estrangeiros sob a forma de um debate subordinado ao tema “AS CRISES POLÍTICO-MILITARES NA GUINÉ-BISSAU: CAUSAS, PROBLEMAS E SOLUÇÕES” para o qual fui convidado como “Animador do Debate”. Levei à letra o meu papel e propus-me apresentar à audiência o quadro em que se desenrolava toda a espiral de violência que grassa a Guiné-Bissau desde os primórdios da ocupação do seu território, até os nossos dias, com especial ênfase para estes últimos anos, pretendendo desta forma descrever o cenário em que se deveria processar o debate.
Da cronologia dos acontecimentos que tem inicio com a chegada dos portugueses – meados do século XV - salientei os marcos mais relevantes da História recente da Guiné-Bissau no quadro da violência, detendo-me para uma análise mais cuidada naqueles que, em meu entender, são mais representativos para a compreensão do fenómeno.
Da resistência “armada” à ocupação colonial, de carácter étnico (papeis, balantas, beafadas, felupes e outras) e circunscrito ao chão de cada etnia que termina nos finas dos anos 30 do século passado (vide quadros)
passando pela resistência política em que foram precursores a Liga Guineense (1910 – 1915), o Partido Socialista (1948) e o MING (1955) mas também protagonizada por um enxame de partidos políticos nacionais:
FNLG (Frente de Libertação da Guiné)
MLG (Movimento de Libertação da Guiné)
PDG (Partido Democrático da Guiné-Bissau)
PELUNDENSE (formado apenas por manjacos de Pelundo)
PLG (Partido de Libertação da Guiné)
UNGP (União dos Naturais da Guiné Portuguesa)
UPG (União Popular da Guiné)
UPLG (União Popular de Libertação da Guiné Portuguesa)
e supranacionais:
FGICV (Federação da Guiné e das Ilhas de Cabo Verde)
FLGC (Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde)
FUL (Frente Unida de Libertação da Guiné e Cabo Verde)
MLGC (Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde)
MLGCV (Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde)
PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde)
a maior parte de vida muito efémera, mas todos afastados da luta para a independência pelo génio diplomático de Amílcar de Cabral que acaba por fazer reconhecer pela comunidade internacional o PAIGC como o único e legítimo representante dos povos da Guiné e Cabo Verde. O PAIGC torna-se deste modo no alfa e no ómega da questão. É no PAIGC que nascem as causas e estou convencido que é com o PAIGC que se encontrará a solução. Se não, vejamos:
1. Em 1963, o PAIGC dá início à luta armada. E pela primeira vez na história da Guiné, um balanta, um papel, um mandinga, um fula, um felupe ou um anónimo qualquer de qualquer outra etnia está disposto a lutar e a morrer não especificamente pelo seu “chão” mas por toda a Guiné, pelo “chão” do outro, pelo chão comum.
2. A luta armada conduzida pelo PAIGC ao pôr em mãos impreparadas e mentes pouco esclarecidas um instrumento de matar permitiu que o terror, o abuso de autoridade, o desrespeito e mesmo o barbarismo se espalhassem de forma tão epidémica que Amílcar Cabral teve necessidade urgente de convocar uma reunião de quadros conhecida por “Congresso de Cassacá”, para pôr cobro aos desmandos dos então senhores da guerra que se apresentaram nessa reunião fortemente armados e escoltados. Teve AC de fazer apelo à toda a sua diplomacia para evitar que ali mesmo se operasse um banho de sangue. Dessa reunião, para além da criação das FARP, uma forma de controlar, disciplinar e balizar a violência, saíram importantes orientações que determinaram o rumo do PAIGC. O pós-congresso gerou ajustes de contas e um banho de sangue, até então sem precedentes.
3. A violência não terminou porque a luta armada é, de per se, uma violência. Processos sumários continuaram e condenações à morte por fuzilamento não eram raras.
4. O PAIGC era minado por intrigas e conspiraçõezitas internas, é bom reafirmá-lo, que culminaram com o assassínio de Amílcar Cabral em 1973.
5. O assassínio de Amílcar Cabral espoletou uma vaga de execuções sumárias de carácter sangrento e generalizado com denúncias seguidas logo de execuções, sem julgamentos, para evitar, ao que se diz, o seu (das denúncias) efeito boomerang. O envolvimento de dirigentes de topo, da Guiné, era de tal forma abrangente que, falam rumores sustentados, que foi preciso a intervenção do arguto e atento Presidente Samora Machel que tinha na comissão de inquérito, o seu braço direito Aquino Bragança, a alertar que se se continuasse com as execuções ficar-se-ia sem gente para continuar a luta tal era a abrangência dos implicados. Isto fez com que muitos dos eventuais “implicados” fossem ignorados para não decepar a estrutura da luta armada.
6. Ainda no ano de 1973, mais propriamente a 24 de Setembro, a Guiné-Bissau declara a sua independência que será reconhecida de jure pela potência colonizadora em Setembro de 1974 depois de dezenas de outros países já o terem o feito. Foi a 1ª vez em África, pelo menos na ao Sul de Sahara, que uma independência não é “concedida” mas sim reconhecida pela potência colonizadora.
7. Em 25 de Abril de 1974 acontece o Golpe de Estado em Portugal que ficou conhecido pela Revolução dos Cravos pondo fim a uma ditadura que durava quase 50 anos.
8. Pouco tempo depois do Golpe de 25 de Abril, o PAIGC instala-se oficiosamente em Bissau, e assiste-se a uma onda de “raptos” seguidos de fuzilamentos no mato de indivíduos que haviam abandonado o PAIGC, e se encontravam em Bissau, e de outros que eram acusados de colaborar com o “colon”. Nem sequer havia julgamentos. Uma “brigada” composta por uma suposta gente na clandestinidade ávida de mostrar serviço apontava-os e localizava-os não se sabe com que critério. Eram levados e fuzilados. Quando se perguntava por um fulano, que se supunha nessa situação, a resposta era: Partido lêba’l! (O Partido levou-o!) As coisas passavam-se à calada da noite e sob a cumplicidade silenciosa de todos. Tudo era permitido ao PAIGC, inclusive tirar vida aos seus concidadãos, por simples decisão dos seus dirigentes e sem que tivesse de prestar quaisquer justificações públicas.
9. A entrada do PAIGC após o reconhecimento de jure fora deveras triunfal. O mundo inteiro rendia-se à gesta dos obreiros da independência. E os guineenses orgulhosos dos seus combatentes reverenciavam-se humilde e generosamente perante eles. Entregaram-se de alma lavada e de corpo inteiro ao anunciado projecto da (re)construção nacional. Acreditaram todos, com raríssimas excepções, que aqueles que foram capazes de levar de vencida, com todo o brilhantismo que se lhes reconhece, um exército europeu, também poderiam ser competentes para gerir o País. Tanto mais que anunciavam em grandes parangonas a chegada do “Homem Novo forjado na luta” prenhe de virtudes e convicções nacionalistas.
10. O sucesso da luta embriagou o PAIGC e cegou os seus dirigentes. Declaram guerra à uma indefesa e descuidada (politicamente) sociedade de “civis” e não só decretaram o seu desaparecimento, como arrogantemente dispensaram a sua participação como cidadãos de pleno direito no processo da (re)construção nacional. Um amigo meu, a este propósito, e comentando um artigo que eu escrevera, disse:
“Para o cúmulo disso tudo, o que está a atrasar o país é que introduziram na vida social guineense um elemento perturbador que é a divisão entre os que fizeram a luta, «os melhores filhos», que a si arrogam tudo, e os que já cá estavam que lhes devem prestar vassalagem e a nada têm direito.”
11. O governo instalou-se em Bissau após o reconhecimento de jure por parte de Portugal. Os ministros eram chamados “comissários” e ao primeiro-ministro “comissário principal”. Logo nos primeiros sinais verificamos que estávamos perante gente incapaz e incompetente para gerir um país. Arrogantes e com tiques autistas para esconder as enormes insuficiências e total impreparação; e a culminar uma moral muito duvidosa dado o comportamento perante a sociedade.
12. O período desse governo foi de seis anos (1974 – 1980). Teve o privilégio e o benefício de ter sido o governo que maior ajuda per capita recebeu no mundo inteiro. Desbaratou-a completamente em projectos megalómanos decididos de forma acéfala e autocrática. Sobre este período escrevi num artigo de opinião:
“O novo poder que se instalou em Bissau (1974), não escondia o seu carácter repressivo, autoritarista, intimidatório e revanchista. O medo e a intolerância instalaram-se. O ajuste de contas havia já substituído a reconciliação mesmo antes da sua instalação (do poder) com desaparecimentos misteriosos e execuções sumárias. Algumas ocorrências e mortes, designadamente a do Primeiro-Ministro Francisco Mendes (Chico Té) encontram-se até hoje envoltas em profundos enigmas e mistérios. A debandada dos quadros e de toda uma administração com o seu “know how“ processava-se de forma assustadora criando um negligenciado vazio real na Administração do Estado, de efeitos não devidamente dimensionados e sopesados e, por isso, arrogantemente desprezados pelas novas autoridades. Os projectos megalómanos pontificavam-se como verdadeiros elefantes brancos desbaratando a eito toda a ajuda da cooperação internacional; sinais exteriores de riqueza exibiam-se denunciando na mesma medida um certo novo-riquismo e o despontar despudorado da corrupção; os bens essenciais escasseavam; o peso, moeda nacional, depreciava-se a um ritmo acelerado agravando o já muito débil poder de compra; e a economia degradava-se a uma taxa galopante. A insatisfação era total.”
13. Perante o cenário descrito, que talvez peque por defeito, pois funções de director-geral de importantes empresas públicas chegaram a ser exercidas por autênticos analfabetos cujo único curriculum era ter participado na luta para a independência, rumores permanentes percorriam toda a cidade de Bissau sobre a iminência de um golpe de estado. O que variava era apenas a identidade do seu eventual autor que oscilava entre 2 a 3 nomes;
14. A 14 de Novembro de 1980, Nino Vieira consuma aquilo que todos esperavam pondo fim a esse governo, do qual ele era primeiro-ministro, através daquilo a que chamou “Movimento Reajustador”. Suspende a Assembleia Nacional e cria o “Conselho da Revolução”.
15. Foi na sequência desse golpe que aparecem as valas comuns com algumas centenas de cadáveres, pondo a descoberto a máscara humanística do PAIGC e que pela sua gravidade e dimensão humana e no quadro do sistema de funcionamento do PAIGC – estrutura marxista-leninista – não se podem alhear, como bem o tentaram, os seus dirigentes de topo (ainda em Unidade) em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. Todos “sabiam” e foram igualmente responsáveis. A este respeito um outro articulista depois de confirmar o quadro descrito no ponto 12, acrescentava:
“O que não sabíamos (nem podíamos imaginar) era que nessa altura o regime já tinha embarcado num projecto criminoso para o qual não havia volta. Nesse preciso momento Guineenses estavam a matar Guineenses e a enterrá-los em valas comuns em Jugudul, Cumeré, e outros sítios, num genocídio que nem os colonialistas nos seus mais criminosos sonhos ousaram apenas imaginar.”(Fim de transcrição)
16. Com o golpe de 14 de Novembro na Guiné, Cabo Verde apressou-se, num gesto pleno de oportunismo e imediatismo, a romper com o processo de Unidade que tantas vítimas gerara na Guiné e em Cabo Verde tendo até estado nas especulações quanto às causas próximas do assassínio de Amílcar Cabral. De ambos os lados, as congratulações superaram de longe as lamentações que não passaram, na maior parte dos casos, de algum decoro e de puras formalidades.
17. O chamado “Movimento Reajustador” mostrou logo a sua verdadeira face e fez desvanecer toda a esperança que nele se havia depositado de promover a concórdia nacional e “reajustar” aquilo que se considerava desvio da linha orientadora do PAIGC. Liberto da ala cabo-verdiana do PAIGC, o que foi fortemente aclamado pelos quadros “lutistas” ávidos de afirmação num ambiente de vazio, nasce um corpo de “nacionalistas guineístas” que se apressa a depurar a já muito débil administração do estado através de autêntica caça às bruxas com o beneplácito do poder instituído e dos seus acólitos. O aparelho repressivo é aperfeiçoado e a debandada dos quadros técnicos, sobretudo, de origem cabo-verdiana é praticamente geral. A incompetência e a iliteracia tomam conta do próprio governo; a desilusão e a decepção regressam com o mesmo fulgor dos primórdios da independência.
18. Nino Vieira tendo enveredado pelo mesmo caminho do seu antecessor, e temendo que lhe acontecesse o que ele próprio havia feito, engendrou a sua eternização no poder, com a eliminação de todos aqueles que com o prestígio também de antigos combatentes, fonte da sua legitimação, lhe podiam fazer frente. Uma figura despontava e impunha-se pela sua postura de discrição, honestidade, fino trato, sensatez e clarividência, tanto entre aqueles que de perto trabalharam e trabalhavam com ele, como em toda a sociedade guineense – Paulo Correia.
19. É assim, que:
i. A 17 de Outubro de 1985 , uma alegada intentona “balanta” para derrubar Nino Vieira foi atribuída a Paulo Correia que no seu seguimento foi “julgado” e condenado à morte com mais 5 (Binhanquerem na Tchuda, Braima Bangura, , N’Baná Sambú, Pedro Ramos, e Viriato Pam) de entre mais de meia centena de acusados. Outros 5 terão perdido a vida na prisão (Agostinho Gomes, B’nhate na Biate, Foré na ‘Mbitna, João da Silva e Zacarias António Pereira). Processa-se a partir desta data uma autêntica antropofagia entre os dirigentes do PAIGC que se vêem privados por eliminação física dos seus mais proeminentes quadros da luta armada.
ii. A 7 de Junho de 1997 uma tentativa de golpe de estado levada a cabo por uma “Junta Militar” chefiada por Ansumane Mané, ex-CEMGFA, deposto uma semana antes por alegado envolvimento no tráfico de armas com os rebeldes de Casamança, gera uma guerra civil.
iii. A guerra civil fez engrossar de forma desmesurada e incontrolada as fileiras do exército com “recrutamento” de jovens voluntários potenciando os problemas já existentes de sobredimensionamento artificial complicando ainda mais as necessárias e indispensáveis reformas e estruturação das Forças Armadas.
iv. A 7 de Maio de 1999 Nino Vieira é deposto. Parte para o exílio depois de obrigado a renunciar o cargo de PR que é assumido interinamente, nos termos da Constituição, pelo Presidente da ANP, Malam Bacai Sanhá pondo fim a uma guerra civil de 11 meses.
v. Em Julho de 1999, processam-se importantes emendas na Constituição: Abolição da pena de morte; limitação de mandatos de presidente da república a dois; estabelecimento de que os principais titulares de cargos de estado têm que ser guineenses, filhos de pais guineenses.
vi. A 16 de Janeiro de 2000, Kumba Yalá, do PRS, vence as eleições presidenciais contra o candidato do PAIGC, Malam Bacai Sanhá. Com a eleição de Kumbá Yalá as funções presidenciais perderam dignidade e respeito devido a postura histriónica do presidente potenciada com actos caricatos e indignos para a imagem interna e externa do País. Mas o mais grave é a tentativa de “balantização” do exército com a elevação a patentes de comando de muitos militares.
vii. O acto de promoção por parte do PR desagradou o então CEMGFA, Ansumane Mané, que numa atitude pública e mediática provocatória, insensata e humilhante para os protagonistas processou de forma arrogante a retirada, pelas suas próprias mãos, das patentes que tinham sido conferidas a esses militares.
viii. A 30 de Novembro de 2000 é assassinado Ansumane Mané, de forma bárbara, ao que parece depois de ele se ter entregado, estando ainda por desvendar os autores e as verdadeiras razões do seu assassínio.
ix. A 14 de Setembro de 2003, Kumba Yalá, através de um golpe comandado por Veríssimo Seabra, então CEMGFA, à frente de um “Comité Militar”, é deposto. Renuncia formalmente 3 dias depois, tendo sido substituído pelo empresário Henrique Pereira Rosa.
x. A 6 de Outubro de 2004, Veríssimo Seabra, CEMGFA, é assassinado supostamente por um levantamento dos militares que tinham estado na Libéria como força de interposição, aparentemente, por corrupção ligada à questão salarial.
xi. A 24 de Julho de 2005 Nino Vieira volta ao poder através de eleições, demite o governo de Carlos Gomes, Jr. (discricionariedade que gera polémica constitucional) e nomeia em seu lugar Aristides Gomes (1 de Novembro de 2005) que é deposto através de uma moção de censura em 19 de Março de 2007. Carlos Gomes regressa ao poder em Dezembro de 2008 através de eleições ganhas pelo PAIGC com larga maioria.
xii. A 1 de Março de 2009, Tagma na Waié, CEMGFA, é assassinado através de um atentado bombista que, dadas a sofisticação, técnica e precisão utilizadas, dizem uns, ter a assinatura dos narcotraficantes estrangeiros não obstante também ele, Tagma, ser acusado de controlar uma das várias redes militares de narcotráfico; dizem outros, que é obra de especialistas militares estrangeiros. Acontece que Tagma na Waié previa o seu assassínio e apontava o seu futuro autor, pelo menos moral. Tinha deixado uma mensagem aos seus camaradas de armas: “Se ele me matar de manhã, matem-no à noite”. A este propósito um amigo meu escreveu: “Talvez tenha sido a primeira vez que um morto mata um vivo.”
xiii. A 2 de Março de 2009, cumpria-se rigorosamente as ordens de ex-CEMGFA, com o assassínio de Nino Vieira que se diz ter sido uma mistura de tiros e catanadas da forma mais selvagem e bárbara que se possa imaginar. Dizem uns, por gente ligada a Zamora Induta a mando do PM Carlos Gomes, Jr. e outros que a operação fora levado a cabo por membros do Batalhão de Mansôa que se encontrava sob o comando de António Injai que:
“Uma semana antes Indjai assinara em Bissau, perante uma comissão composta pelo Primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, CEMGFA, Zamora Induta, Procurador-Geral da República e o Presidente, um documento onde reconhecia estar envolvido numa operação de narcotráfico que ocorrera no aeródromo de Cufar, sul da Guiné, desmantelada «in extremis» pelos militares de Zamora Induta. Na mesma ocasião ficou estabelecido que António Indjai seria automaticamente exonerado do cargo de número dois das forças armadas e partiria para Cuba, oficialmente, em «tratamentos médicos».” (Fim de transcrição)
xiv. A 5 de Junho de 2009 são assassinados Baciro Dabó, candidato às presidenciais e Helder Proença (Político dinâmico, ex-Ministro da Defesa de Nino Vieira). Sobre o assassínio de Baciro Dabó, escreve um analista num artigo intitulado “Figuras de Narcotráfico na Guiné-Bissau:
“Pedra basilar de todo o fenómeno do narcotráfico na Guiné-Bissau foi Baciro Dabó. assassinado na madrugada de 5 de Junho de 2009 em mais uma alegada tentativa de Golpe de Estado a assolar a ex-colónia portuguesa. Baciro Dabó ocupou entre 2006 e 2008 as pastas de Secretário de Estado da Ordem Pública e posteriormente de Ministro da Administração Interna. Em final de 2008, e não obstante o avolumar de suspeitas internacionais de envolvimento no narcotráfico, Baciro foi nomeado Ministro da Administração Territorial.”
“Mas a transformação da Guiné – Bissau em Narco-Estado não foi trabalho exclusivo de Baciro Dabó. Apesar do lugar central que desempenhou, Baciro teve a conivência e o apoio das principais figuras do Estado Guineense, desde políticos, militares a empresários e deputados, alguns deles ainda em funções.
Nino Vieira, o ex- Presidente da República Guineense assassinado a 2 de Março de 2009, ocupou um lugar central em todo este processo.”
xv. Bacai Sanhá é eleito Presidente da República a 28 de Junho de 2009 vencendo Kumba Yalá numa 2ª volta.
xvi. A 1 de Abril de 2010, uma tentativa de golpe de estado conduzida pelo vice-CEMGFA, Gen. António Injai e pelo Alm. Bubo na Tchuto, detém o PM Carlos Gomes, Jr. com ameaça de morte, caso houvesse reacção popular de apoio bem como o seu CEMGFA, Alm. Zamora Induta. O silêncio inicial do então-Presidente da República, Malam Bacai Sanhá, foi notória e a sua condenação tímida e tardia foi grave, sobretudo ao classificar a ocorrência como um “pequeno problema entre militares”. Mas mais grave ainda foi o facto do autor do atentado ter sido, por ele, nomeado no seguimento do seu acto a CEMGFA tal como reivindicava apesar do aviso americano através de um comunicado transmitido da sua embaixada em Dakar:
“É impossível para os EUA contribuir para o processo de reforma da segurança e da defesa se essas pessoas, ou outros implicados no tráfico de estupefacientes, forem nomeados ou permanecerem em postos de responsabilidade nas forças armadas”, acrescentando em outro passo:
É “imperativo” que o chefe das Forças Armadas – que deve ser nomeado em breve pelo Presidente da República, Malam Bacai Sanhá – não esteja “implicado nos acontecimentos de 01 de abril”, evocando implicitamente o major-general António Indjai.
“O governo americano espera trabalhar com as autoridades guineenses para desalojar as pessoas que ocupam funções oficiais e que se servem do seu poder para facilitar o tráfico de estupefacientes”.
Ainda no decorrer deste caso e sobre o Alm. Bubo na Tchuto, seu cúmplice, escreve um analista:
“No dia 1 de Abril, soldados leais a Bubo Na Tchuto entraram no edifício da ONU e resgataram-no , enquanto detinham o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior e o Chefe do Estado-Maior General, almirante Zamora Induta.
“Bubo Na Tchuto é a força por trás de todas as outras forças”, disse à reportagem o director político da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Abdel Fatau Musah. “O facto de ele estar a controlar as coisas é muito desagradável”.
xvii. Malam Bacai Sanhá morre em França a 9 de Janeiro de 2012 e as eleições presidenciais para a sua substituição têm lugar a 18 de Março de 2012, data que buscava o cumprimento de um preceito constitucional e tinha a concordância de todos os partidos e de todos os putativos candidatos avisados da desactualização dos Cadernos Eleitorais e da impossibilidade de os regularizar nesse lapso de tempo.
xviii. O decorrer das eleições e os resultados da 1ª volta não deixaram qualquer dúvida aos observadores internacionais que se pronunciaram e a diferença de votos entre os candidatos também não deixava espaço para a reclamação posteriormente engendrada. O peso das eventuais irregularidades, seria insignificante para alterar o curso normal das eleições. E a existirem seria mais fácil encontrarem-se entre o 2º e o 3º classificados do que entre o 1º e os outros. (vide quadro)
xix. A iminência de uma derrota anunciada na 2ª volta por parte da oposição levou que o seu mais bem classificado candidato, por coincidência da etnia balanta, um ex-presidente, eterno contestatário e pertencente ao maior partido da oposição “manipulasse” – só assim se compreende – os outros que se lhe seguiam e os levasse de forma absolutamente inconsequente a se lhe juntarem no coro de protestos.
xx. No dia 11 de Abril os 5 candidatos mais votados depois de Carlos Gomes, Jr, encabeçados por Kumba Yalá, seu porta-voz, dão uma conferência de imprensa, em que o porta-voz afirma que não só ele não compareceria à 2ª volta, como ela, a 2ª volta, não se iria realizar, num anúncio claro de interrupção do processo eleitoral.
xxi. No dia 12 de Abril, dá-se o golpe de estado, com a detenção de PR interino, Raimundo Pereira, e do candidato Carlos Gomes, Jr. (PM com funções suspensas e destacado 1º classificado na 1ª volta) de entre outros importantes membros do Governo.
20. Registe-se que esta onda de violência que vem desde o início da luta armada, não pode ser atribuída a este ou aquele actor político-militar em especial, mas a uma cultura de violência interiorizada e que se manifestou na luta pelo poder.
21. O mais estranho é que os que matam são do PAIGC e os que morrem também o são num ritual de antropofagia sem precedentes. O PAIGC ontem, um partido de heróis; o PAIGC hoje um partido de assassinos. É uma triste e deprimente constatação.
22. O sonho de Cabral do seu PAIGC gerar um “homem novo forjado na luta” com princípios e valores bem sintonizados com o respeito pela dignidade do Homem e defesa do humanismo e da humanidade foi completamente defraudado pela metamorfose que esse homem sonhado e idealizado terá sofrido, surgindo como o mais acabado homo belicus, perito na arte de matar.
23. E Amílcar Cabral, homem inteligente e arguto, tinha plena consciência da limitação e incapacidade dos seus homens para o exercício de tarefas fora do contexto “militarista”. E advertiu-os, embora sem sucesso, que a luta não era um investimento em proveito próprio, ao preconizar o encontro de Ensalmá da forma como o faz:
“A Luta que levamos a cabo com a arma na mão para tirar os tugas do nosso chão, para a nossa Independência, é o programa mínimo que estamos a cumprir. Não pensem que vamos todos mandar em Bissau. Para aquele que era mecânico, electricista, pescador, agricultor quando entrou na Luta, irão ser criadas condições para ele continuar a sua actividade e viver o seu estatuto de combatente da liberdade da pátria. A nossa Independência termina em Ensalmá. Ela vai ser entregue à gente que virá ao nosso encontro para a assumir. Essa gente é que irá começar a cumprir o Programa Maior que é compor a terra, tarefa maior e mais complicada.” (O negrito é meu)
24. Cabral falhou redondamente na formação do “Homem Novo”. E tinha a consciência do “monstro” que estava a criar. Os seus sucessores mostraram-se medíocres, mesquinhos, estreitos de espírito (narrow mind) e algo oportunista tirando proveito da parte mais superficial da sua filosofia que era a incitação ao cumprimento de um programa mínimo – Independência dos territórios da Guiné e de Cabo Verde – que exigia sobretudo engenho militar e mais não era do que uma etapa mínima da luta de libertação no qual ainda continuamos fortemente empenhados e como ele diz, não podia ser feita nem liderada só pelos participantes da 1ª etapa que para tal faltava-lhes o “know how”.
25. A ganância, a arrogância e um certo autismo apoiados apenas e tão-somente no poder das armas falaram mais alto.
26. E enquanto o Encontro de Ensalmá não acontecer para que interiorização da força do saber e da razão suceda à força das armas, os golpes não pararão. E só o PAIGC pode operar esta inversão porque foi ele que o criou. Todos os principais protagonistas, em todos os golpes ou tentativas, são do PAIGC. Um outro importante denominador comum é a encorajadora IMPUNIDADE de que os autores dos golpes e das tentativas sempre se beneficiaram. E é sobre este aspecto que alguém num longo trabalho tipo ensaio deixa as seguintes interrogações:
“Quem foram os assassinos de Robalo, Nicandro Pereira Barreto, Ansumane Mané, Veríssimo Correia Seabra, Domingos Barros, Lamine Sanha e outros? Quem foram os responsáveis pela vala comum descoberta após golpe de 1980 que derrubou Luis Cabral? Quem foram os traficantes de armas que deram origem à guerra civil na Guiné-Bissau? Quando é que serão julgados os políticos e militares suspeitos de Narcotráfico? Porque Bubo na Tchuto não foi julgado pela acusação de tráfico de droga e pela acusação da tentativa de golpe de estado? Porque é que Intchami Yalá não foi julgado pela tentativa de golpe? Quem foi o responsável pelo desaparecimento de 500 quilos de cocaína apreendidos e guardados no tesouro Público? Quem foram os assassinos de Tagma na Waié e João Bernardo Vieira? (fim de trancrição)
27. O último golpe, o de 12 de Abril, merece uma atenção mais cuidada, embora não caiba nesta minha tarefa – animar o debate – analisá-lo em pormenor. Vamos retomá-lo – o golpe de 12 de Abril – para continuar o que no início dissemos:
i. Os autores do golpe, não conseguem justificá-lo. Atribuem-no à presença das forças angolanas – um pequeno contingente de cerca de 200 homens – no território, como ameaça para as forças armadas (mais de 4.000 homens) e a uma carta da qual só apresentam uma eventual minuta, do PM para o Secretário-Geral das Nações Unidas solicitando uma força de interposição (estabilização).
ii. A 1ª justificação visava obter o apoio popular através do apelo ao sentimento nacionalista contra um “invasor” estrangeiro (funcionou outrora) e a 2ª que se tratava de “agressão” contra as FA, ameaçadas de controlo e extinção, feita nas suas costas e contra a sua vontade porque, justificam, a Guiné não está em guerra.
iii. As verdadeiras motivações continuam por “desvendar” uma vez que as apresentadas não colheram. E um dado imediato é o impedimento da realização da 2ª volta das eleições presidenciais na data aprazada.
iv. Reivindicam para o “regresso” aos quartéis, a criação de um Conselho Nacional de Transição; nomeação de um novo Presidente da República e de um novo Primeiro-Ministro; Eleições legislativas e presidenciais, em simultâneo, num prazo de dois anos; manutenção, obviamente, das chefias militares; recusa de qualquer solução que inclua o regresso de Raimundo Pereira e Carlos Gomes, Jr. às suas funções de Presidente da República interino e Primeiro-Ministro, respectivamente. Regresso dos militares às casernas.
v. Pergunta-se: Que legitimidade têm os militares para interromper a ordem constitucional democraticamente instalada e impor a sua vontade?
vi. As reacções internas e externas não se fizeram esperar.
vii. Tiveram, os golpistas, um tímido mas declarado apoio inicial da parte dos cinco candidatos que contestavam os resultados eleitorais de que falamos atrás – depois deram o dito por não dito – bem como de algumas forças políticas da oposição e condenação de toda a população e das organizações internacionais e de todo o mundo, destacando-se a veemência e contundência da CPLP, da União africana, do Secretário-Geral das Nações Unidas, do Conselho de Segurança, da União Europeia que exigiram o retorno imediato e incondicional à ordem constitucional e sanções aos golpistas. A CEDEAO condenou-o ao mesmo tempo que se apressava em pactuar ao propor negociar uma solução.
viii. O Governo da Guiné-Bissau falava em todos os fóruns com a legitimidade e a autoridade que a legalidade internacional lhe conferia, através do seu representante para política externa – Ministro das Relações Externas. Um erro que os golpistas cometeram e que lhes custou a veemência, a firmeza e a constância do discurso de condenação em todas as frentes bem como a inquestionável solidariedade internacional.
ix. A solução encontrada pela CEDEAO, que se tem mostrado incapaz de todo, de resolver este tipo de problema, não representava nem de perto nem de longe, a tolerância zero estipulada pela organização, pois contemplava os interesses dos golpistas ignorando o governo legítimo, democraticamente eleito e indo mais longe ao cercear, para agradar os golpistas, o acesso ao poder de alguns dirigentes do PAIGC ao invocar que o presidente e o PM interinos não poderiam candidatar-se às eleições que ela (CEDEAO) preconizava. Em conclusão: Não há memória da CEDEAO ter resolvido um golpe de estado em que os golpistas não fiquem incólumes e o golpe, de forma directa ou encoberta, legitimado.
x. Como era de esperar, o PAIGC, uma vez mais firme nas suas posições de reposição da ordem constitucional, rejeitou liminarmente a recomendação proposta pela CEDEAO, pois representava na realidade legitimação do golpe e um pacto com os golpistas para os quais não havia sanções.
xi. Os interesses que gravitam à volta da CEDEAO são vários e de vária índole. Por comodidade e algum decoro apenas os caracterizamos como sendo uns de carácter endógeno, outros exógenos em relação à própria região. Quer uns quer outros, todos à volta daquilo que podemos sintetizar como interesses hegemónicos na região e, de passagem, algum ressabiamento.
xii. A UA e UE tomaram medidas concretas. A primeira suspendendo de imediato a Guiné-Bissau da Organização enquanto a segunda fechava as suas fronteiras aos golpistas, ambas exigindo o retorno à ordem constitucional.
xiii. A firmeza do PAIGC tem sido nota dominante. Não abdicar minimamente dos seus direitos constitucionais. A procissão ainda vai no adro e é nesta firmeza e defesa de princípios que, a meu ver, estará a solução política, não direi definitiva mas duradoura, dos golpes de estado. Deverão ser procurados procedimentos complementares. A luta armada terminou há 40 anos. Uns poucos, muito poucos, são os militares ainda vivos, com verdadeiro e legítimo estatuto de antigos combatentes para a independência nacional, isto é, oriundos da luta armada. E é para eles, só para eles, que se deve procurar afincadamente uma saída militar, diria, humanista, condigna.
iv. A questão do narcotráfico deve ser vista e tratada numa óptica global. Só a Guiné-Bissau por si só, não tem meios, nem humanos, nem materiais nem financeiros para resolver o problema.
xv. Feita esta panorâmica da espiral de violência na Guiné-Bissau, que vem desde os tempos da luta armada, penso que estão criadas condições minimalistas para um debate sobre AS CRISES POLÍTICO-MILITARES NA GUINÉ-BISSAU: CAUSAS, PROBLEMAS E SOLUÇÕES, tema proposto pelo Centro de Estudo e Estratégias do MNE. Não se trata, obviamente, de uma palestra que exigiria uma outra abordagem, mas sim de uma nota introdutória, de um auxiliar de memória, dos parâmetros que devem nortear o debate. Não há posições acabadas, mas apenas tópicos para reflexão.
_________________
[i] Tema do debate para o qual fui convidado para “Animador”
[ii] Amilcar não poderia exercer nenhum cargo do poder de estado na Guiné-Bissau sendo filho de pais cabo-verdianos.
[iii] Bubo na Tchuto encontrava-se escondido nas instalações da Representação das NU em Bissau depois de ter regressado da Gâmbia para onde fugira para não ser preso por acusação de narcotráfico.
Nas palavras dos outros... Ou as "32 declarações de amor à Língua portuguesa"
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Achei deveras interessante o facto do Jornal de Letras ter pedido – para o número especial comemorativo dos seus trinta e dois anos de existência – aos colaboradores habituais e a diversas personalidades do mundo cultural da lusofonia (num total de 32) que prestassem depoimento sobre o seu amor à Língua comum.
Antes de iniciar as transcrições dos excertos das “declarações de amor” será de toda a justeza referir que o Jornal de Letras é uma referência e destacada, no mundo cultural português em particular, e no da lusofonia em geral. E isto deve-se não só à qualidade dos artigos nele publicados, pelas informações que dá aos leitores interessados nas letras e nas artes em língua portuguesa, como também, pelo enorme mérito e empenho do seu Director, José Carlos Vasconcelos. Embora atrasadas, pois que foi em Março, daqui envio as minhas felicitações ao JL, acrescentando: obrigada pela boa leitura de tantos anos! Desejos de longos anos ao serviço da cultura.
Posto isto, reentremos naquilo que o título deste escrito pretende. Ora bem, com a devida vénia e pedido de autorização aos seus autores, transcrevo aqui, algumas das Declarações de Amor à Língua portuguesa proferidas por nomes conhecidos, sonantes e já consagrados no mundo cultural da lusofonia.
O que me apetecia mesmo era transcrevê-las todas, pois qualquer delas, a seu jeito e a seu modo, está amoravelmente dedicada à querida Língua, ou não fossem elas, declarações de amor! Não podendo ser, tive de apelar à dita selecção, embora sempre subjectiva, pois que abarca algumas e deixa de fora outras de igual mérito, que pretende ser uma amostra diversificada de origens dos falantes da mesma língua. Aqui vão elas:
Manuel Alegre,conhecido poeta português, chama à LP, a música secreta» e a determinada altura escreve: “Há na minha língua uma página chamada Atlântico, onde há sempre uma viagem que não acaba até outros mares e outros poemas. (…) Nas suas harmonias, nas suas dissonâncias, nas suas vogais azuis e verdes e nas suas consoantes sibilantes. Tem a cor do mar e o assobio do vento. Amo essa cor, esse assobio, esse murmúrio. E o cheiro a alga e sal (…)”
Pepetela, escritor angolano, numa interessante metáfora de amor á Língua diz: “ Leite. Língua. Leite materno. Língua materna. Os primeiros sabores, os primeiros sons. Do primeiro leite, se parte para o gosto dos outros. Também do da primeira língua se continua noutras. Em alguns casos. Nós normalmente temos a língua que ouvimos da mãe e a que ouvimos de quem nos dá colo, veste e leva a passear. Ou a que ouvimos na rua. Nem sempre coincidem (…) vários registos (…) sons que no princípio se misturam mas que, a momento dado, sabemos separar. (…)”
Onésimo Teotónio Almeida, açoriano, professor na Universidade de Brown, EUA, ficcionista, cronista e ensaísta português, escreve na sua declaração à Língua portuguesa que ele chamou de: “Acordo pré-nupcial”, o seguinte: “ (…) Como de aceitares um encontro para assinarmos este acordo em que gostaria de declarar que sim, te amo, desde que não alimentes ciúmes, nem me acuses de te amar só por causa da portugalidade, brasilianidade, ou lusafricanidade para que me abre o teu visual. (…)”.
Carlos Quiroga, galego ficcionista, poeta e professor Na Universidade de Santiago de Compostela, declara-se da seguinte forma: “(…) eu canto caetanamente o gosto de te sentir a roçar a língua de Camões”(…).
Germano Almeida, cabo-verdiano, ficcionista, afirma a sua ligação à LP, retratando bem o seu ambiente linguístico: (…) eu cresci alimentado por ambas (a língua portuguesa e a cabo-verdiana) sem nunca diferenciar qual das duas era mais suculenta pois que as usava indiferentemente, e por isso ambas fazem parte do que eu sou, razão por que não quero viver sem nenhuma delas, sei que perder uma me amputaria em metade. (…)”.
Nélida Pinõn, brasileira, ficcionista, na sua poética declaração de “amor tenaz” à LP, reitera a determinada altura: “(…) Esta língua, que é prólogo e epílogo, faz meu corpo existir. Com ela viajo pelo mar do destino. Já pelas manhãs, ela em pessoa abre as cortinas da representação cénica do mundo e assopra-me baixinho a fina aragem do mistério. (…)”.
De Timor, chega a declaração nas palavras de Luís Cardoso, ficcionista: “(…) Falar da língua portuguesa é também falar daqueles que um dia a utilizaram nas montanhas de Timor para expressarem os seus sentimentos por todo o drama que estavam vivendo. Creio que sabiam o peso exacto de cada palavra e do seu alcance (…)”.
Bem gostaria de continuar a transcrever aqui, mais dessas realmente belas declarações de amor feitas á língua comum, escritas por gente que a ama e que compôs com os seus escritos o número de 21Março/3 Abril do Jornal de Letras. Mas acontece que o meu espaço deve ser limitado.
Para terminar escolhi a declaração de um ficcionista mais jovem, angolano, Ondjaki. Ele dirige-se à língua portuguesa denominando-a de “Nome plural,”: >“(…) hoje que te escrevo, senhora dona língua portuguesa, esse teu nome plural…; de ti fizemos também corpo criativo – “língua desportuguesa”…e com o carinho que te temos, se fosses uma velhinha acariciava-te as mãos e beijava-te os olhos mas ah! Se habitasses um corpo de uma mulher madura dessas a que o sabor se pressente de olhos quietos, então confesso que a noite seria de amor, estranho amor, amor profundo (…)”
E assim, com as palavras dos outros, mas como quase nossas as sentimos também, se fecha este texto.
Elas Contam e a escrita no feminino…
sábado, 31 de março de 2012
A propósito do mês de Março, mês da mulher, a Associação Cabo-verdiana em Lisboa, realizou um interessante ciclo de actividades culturais em que foram ouvidas conferências sobre a escrita literária e científica no feminino e em que também homenageadas, mulheres escritoras.
Neste âmbito, fui convidada pelo Coordenador cultural da referida Associação, o poeta José Luís Hopffer Almada para um dos painéis constantes do ciclo de palestras, para falar sobre a escrita de Maria Helena Spencer e apresentar a colectânea «Elas Contam…».
Devo esclarecer que a referida colectânea foi publicada e apresentada na Praia, em 2008, de modo que se tratou mais de uma representação, embora para uma audiência diferente.
Não tive a pretensão de esgotar ou de incluir todas as contistas, apenas pretendi no livro ter uma amostra mediana das nossas mulheres contistas.
Com efeito, a ficção que nos ocupou neste volume foi o conto literário, herdeiro afinal, em larga medida, do conto oral, o mais antigo se não dos mais antigos géneros literários que a humanidade conhece, anterior à própria escrita.
No caso desta colectânea são já contos classificados pela escrita literária, integrados como um dos géneros da Literatura.
São vinte e cinco os contos seleccionados e coligidos no volume, contos esses saídos da pena de onze Contistas diferentes na sua forma de contar, mas com alguns denominadores comuns que eu aliás notifico na Nota de Abertura do volume.
Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu entretanto; algumas boas como possivelmente, novos contos publicados; outras nada boas, como foi o desaparecimento físico de três das autoras presentes na Colectânea, Maria Helena Spencer, Leopoldina Barreto e Maria Margarida Mascarenhas. Sobre esta última Contista, transcrevo uma passagem da carta que dela recebi, quando eu estava ainda a organizar o volume, a concordar com a proposta da resenha biográfica que figuraria na Colectânea e com a escolha dos Contos. «(…) Achei curiosa a selecção que não tem sido dos mais referidos, mas que devido às malhas que o tempo tece, serão os que se encontram mais sintonizados com a MMM de hoje. A condição feminina em Cabo Verde foi e continua a ser um factor de indignação para mim (…). Fim de citação.
Qual terá sido o «mobile» que me levou a distinguir Contistas, mulheres?
Ora bem, já repararam, que as correntes literárias nacionais são masculinas? Vejam, por exemplo: «Claridade», «Certeza» sempre no masculino em termos de autores.
Costumo observar isto meio a brincar, meio a sério… Poderia até citar dois casos que eventualmente exceptuarão a regra: o de Orlanda Amarilís que vem da Academia «Cultivar» do Mindeloe de onde saíram quase todos os escritores e poetas do movimento «Certeza» os quais escreveram e publicaram quase tudo, nas décadas de 40 /50, do séc. XX. A nossa Contista aproxima-se dos participantes do referido movimento literário, mais em termos históricos ideológicos, do que em publicação coeva, uma vez que ela só publicaria os seus contos na década de 70. O outro caso sim, foi de paridade, o da poetisa Yolanda Morazzo que participou e publicou os poemas, ao lado da contra parte masculina no «Suplemento Cultural» (do Boletim Cabo Verde) em 1958.
Porém, garanto-vos que não me norteou qualquer motivação com sentido de exclusão, ou seja a oposição feminina versus masculina em termos de escrita literária. Não, não foi este o motivo ou o “animus” fundamental que conduziu a reunião dos Contos.
Foi mais um reconhecimento de que as mulheres contistas deviam ser distinguidas num conjunto que valorizasse (passe a pretensão) o seu trabalho ficcional.
Os Contos presentes na colectânea espelham afinal, mais de uma geração de mulheres contistas. Cada uma na sua singularidade, com o seu estilo e mais do género “cada um(a) é seus caminhos” tomando de empréstimo um verso do poeta português António Gedeão, são aqui conclamadas e reunidas num cruzar e num inte-cruzar contínuo das suas heranças sociais e culturais para narrar histórias várias. Fundamentalmente, histórias da condição humana, com algum realce para a de mulheres. Tudo isso com arte de ficcionista.
A narração de cada história como que remete para/e sintoniza o leitor no universo das ilhas, universo esse reflectido na intertextualidade cultural, com as suas marcas de época, de tempo, de ambiências sociais humanas e do tempo histórico do Arquipélago, confluindo de modo particularizado no texto de cada uma das autoras.
Também vale dizer, que se pretendeu, com a selecção dos contos, aflorar interrogativamente algumas hipóteses, tais como: até que ponto convergem tematicamente os contos escolhidos? Em que consiste esta eventual convergência? O ponto central das histórias aqui reunidas versa a mulher? A condição da mulher entre nós? Apenas isso? Ou as histórias são mais abrangentes? Observam o mundo das ilhas dentro e fora delas. Creio que se verificam todas essas condições nos contos selecionados.
Outra questão que se me pôs sempre de forma interrogativa, serão estas escritoras ou parte delas “parentes,” “próximas” afastadas da Claridade? Da Certeza? Comungam elas dos mesmos caminhos, credos, e tons perseguidos e percorridos por outros contistas cabo-verdianos anteriores ou, pelo contrário, elas serão outra voz? Uma voz à parte? Uma voz diversa? Diferenciada na sua maneira de narrar? Foram algumas das questões que me ocorreram quando coligia os contos.
O critério da ordenação dos Contos obedeceu ao ano da publicação, isto é, do mais antigo ao mais recente incluído na Colectânea. É assim que o leitor tem como mais antigo o conto intitulado: Num Baile de Maria Adelaide das neves, retirado do Almanaque de Lembranças, publicado em 1889.
Depois seguem-se os contos de Maria Helena Spencer, Maria Margarida Mascarenhas e Haydeia Avelino Pires, dados à estampa no antigo Boletim Cabo Verde das décadas de 50/60 do século XX, cruzando caminhos com os Contos de Orlanda Amarílis dos anos setenta, de Maria Isabel Barreno e os de Fátima Bettencourt, de Dina Salústio, Ivone Lopes e de Leopoldina Barreto dos anos noventa e indo até aos da Camila Mont-Rond, publicados em 2001.
Voltando ao título deste escrito e para finalizar, direi que afinal, há já um longo arco do tempo que “Elas contam,” escrevendo sobre as gentes das ilhas, de fora delas e sobre as gentes das ilhas vivendo nelas.
Neste âmbito, fui convidada pelo Coordenador cultural da referida Associação, o poeta José Luís Hopffer Almada para um dos painéis constantes do ciclo de palestras, para falar sobre a escrita de Maria Helena Spencer e apresentar a colectânea «Elas Contam…».
Devo esclarecer que a referida colectânea foi publicada e apresentada na Praia, em 2008, de modo que se tratou mais de uma representação, embora para uma audiência diferente.
Não tive a pretensão de esgotar ou de incluir todas as contistas, apenas pretendi no livro ter uma amostra mediana das nossas mulheres contistas.
Com efeito, a ficção que nos ocupou neste volume foi o conto literário, herdeiro afinal, em larga medida, do conto oral, o mais antigo se não dos mais antigos géneros literários que a humanidade conhece, anterior à própria escrita.
No caso desta colectânea são já contos classificados pela escrita literária, integrados como um dos géneros da Literatura.
São vinte e cinco os contos seleccionados e coligidos no volume, contos esses saídos da pena de onze Contistas diferentes na sua forma de contar, mas com alguns denominadores comuns que eu aliás notifico na Nota de Abertura do volume.
Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu entretanto; algumas boas como possivelmente, novos contos publicados; outras nada boas, como foi o desaparecimento físico de três das autoras presentes na Colectânea, Maria Helena Spencer, Leopoldina Barreto e Maria Margarida Mascarenhas. Sobre esta última Contista, transcrevo uma passagem da carta que dela recebi, quando eu estava ainda a organizar o volume, a concordar com a proposta da resenha biográfica que figuraria na Colectânea e com a escolha dos Contos. «(…) Achei curiosa a selecção que não tem sido dos mais referidos, mas que devido às malhas que o tempo tece, serão os que se encontram mais sintonizados com a MMM de hoje. A condição feminina em Cabo Verde foi e continua a ser um factor de indignação para mim (…). Fim de citação.
Qual terá sido o «mobile» que me levou a distinguir Contistas, mulheres?
Ora bem, já repararam, que as correntes literárias nacionais são masculinas? Vejam, por exemplo: «Claridade», «Certeza» sempre no masculino em termos de autores.
Costumo observar isto meio a brincar, meio a sério… Poderia até citar dois casos que eventualmente exceptuarão a regra: o de Orlanda Amarilís que vem da Academia «Cultivar» do Mindeloe de onde saíram quase todos os escritores e poetas do movimento «Certeza» os quais escreveram e publicaram quase tudo, nas décadas de 40 /50, do séc. XX. A nossa Contista aproxima-se dos participantes do referido movimento literário, mais em termos históricos ideológicos, do que em publicação coeva, uma vez que ela só publicaria os seus contos na década de 70. O outro caso sim, foi de paridade, o da poetisa Yolanda Morazzo que participou e publicou os poemas, ao lado da contra parte masculina no «Suplemento Cultural» (do Boletim Cabo Verde) em 1958.
Porém, garanto-vos que não me norteou qualquer motivação com sentido de exclusão, ou seja a oposição feminina versus masculina em termos de escrita literária. Não, não foi este o motivo ou o “animus” fundamental que conduziu a reunião dos Contos.
Foi mais um reconhecimento de que as mulheres contistas deviam ser distinguidas num conjunto que valorizasse (passe a pretensão) o seu trabalho ficcional.
Os Contos presentes na colectânea espelham afinal, mais de uma geração de mulheres contistas. Cada uma na sua singularidade, com o seu estilo e mais do género “cada um(a) é seus caminhos” tomando de empréstimo um verso do poeta português António Gedeão, são aqui conclamadas e reunidas num cruzar e num inte-cruzar contínuo das suas heranças sociais e culturais para narrar histórias várias. Fundamentalmente, histórias da condição humana, com algum realce para a de mulheres. Tudo isso com arte de ficcionista.
A narração de cada história como que remete para/e sintoniza o leitor no universo das ilhas, universo esse reflectido na intertextualidade cultural, com as suas marcas de época, de tempo, de ambiências sociais humanas e do tempo histórico do Arquipélago, confluindo de modo particularizado no texto de cada uma das autoras.
Também vale dizer, que se pretendeu, com a selecção dos contos, aflorar interrogativamente algumas hipóteses, tais como: até que ponto convergem tematicamente os contos escolhidos? Em que consiste esta eventual convergência? O ponto central das histórias aqui reunidas versa a mulher? A condição da mulher entre nós? Apenas isso? Ou as histórias são mais abrangentes? Observam o mundo das ilhas dentro e fora delas. Creio que se verificam todas essas condições nos contos selecionados.
Outra questão que se me pôs sempre de forma interrogativa, serão estas escritoras ou parte delas “parentes,” “próximas” afastadas da Claridade? Da Certeza? Comungam elas dos mesmos caminhos, credos, e tons perseguidos e percorridos por outros contistas cabo-verdianos anteriores ou, pelo contrário, elas serão outra voz? Uma voz à parte? Uma voz diversa? Diferenciada na sua maneira de narrar? Foram algumas das questões que me ocorreram quando coligia os contos.
O critério da ordenação dos Contos obedeceu ao ano da publicação, isto é, do mais antigo ao mais recente incluído na Colectânea. É assim que o leitor tem como mais antigo o conto intitulado: Num Baile de Maria Adelaide das neves, retirado do Almanaque de Lembranças, publicado em 1889.
Depois seguem-se os contos de Maria Helena Spencer, Maria Margarida Mascarenhas e Haydeia Avelino Pires, dados à estampa no antigo Boletim Cabo Verde das décadas de 50/60 do século XX, cruzando caminhos com os Contos de Orlanda Amarílis dos anos setenta, de Maria Isabel Barreno e os de Fátima Bettencourt, de Dina Salústio, Ivone Lopes e de Leopoldina Barreto dos anos noventa e indo até aos da Camila Mont-Rond, publicados em 2001.
Voltando ao título deste escrito e para finalizar, direi que afinal, há já um longo arco do tempo que “Elas contam,” escrevendo sobre as gentes das ilhas, de fora delas e sobre as gentes das ilhas vivendo nelas.
As mágoas da D. Lú…
quarta-feira, 28 de março de 2012
Aqui há dias, num Domingo qualquer, procurava eu um salão de cabeleireiro pois, sentia-me necessitada de melhor arranjo exterior…
Bem sei que o Domingo é dia santo e de descanso para nós cristãos. Mas guardava uma secreta esperança de que haveria de encontrar um aberto e perto de casa, em Oeiras. Eis que vejo um. Entrei e a dona, cabeleireira de profissão, uma patrícia. Mais precisamente oriunda da região do Tarrafal, Santiago. Aliás, como a maior parte dos imigrantes cabo-verdianos que aqui vivem e trabalham em Oeiras.
Conversa vai, conversa vem, estabeleceu-se uma boa empatia entre as duas e a Lú, assim se me apresentou, contou-me como cá chegou…
Corria o ano de 1974, mais precisamente o mês Julho durante a conturbada fase de transição para a independência das ilhas de Cabo Verde com os mandantes do PAIGC e os militares a fazerem prisões a homens que eventualmente, estivessem contra a unidade Guiné, Cabo Verde, não obstante muitos se tivessem declarado ser pela independência. Aliás, do mesmo modo que também prendiam os considerados latifundiários, não alinhados com eles, retirando-lhes as terras. Foi um período histórico bem confuso e de muitos desmandos.
Ora bem, o pai da nossa cabeleireira - esta na altura com treze anos - era empregado/trabalhador, nas então propriedades do conhecido Eng. Almeida Henriques, em Santa Cruz. O grande leito da Ribeira Seca, terrenos junto a foz, de frondosas e belas bananeiras que se vêm extinguindo, com escassos vestígios nos dias de hoje.
E continuou a minha narradora:
Uma manhã de Julho do referido ano, saiu o progenitor para ir trabalhar como era a sua rotina diária. Quando o filho mais velho, ao meio-dia, lhe foi levar o almoço a mando da mãe, soube que o pai havia sido preso nessa manhã. Preso porquê? Era a angustiante interrogação posta pela família. Por trabalhar para o patrão. Apenas isso. Fora a justificação dada.
Segundo a minha relatora, foram tempos de grande sofrimento, de enormes privações em casa e em que ela via a mãe a chorar diariamente, os oito irmãos menores, ela incluída, sem o amparo e sem o sustento do pai.
Enfim, um quadro trágico que a marcou, segundo ela, para o resto da vida…
Os dias foram-se arrastando, até que numa certa noite dos finais do mês de Maio do ano seguinte, uma pessoa amiga do pai lhes bateu à porta para comunicar que iriam juntar-se ao progenitor em Portugal e que se preparassem, pois ele havia-lhes comprado a passagem e que deveriam partir na madrugada seguinte para o Sal e aí apanhar o avião para Lisboa. Tudo muito à pressa. Com muita barafunda. Recorda-se ela de que nessa noite já não dormiram. A casa encheu-se de vizinhos e de familiares em alto choro como se a partida e a “morte” os tivessem visitado ao mesmo tempo…
Anos transcorreram. A família fixou-se em Oeiras. A minha cabeleireira só voltou à terra natal, trinta anos depois.
Finalizou as suas mágoas passadas com duas notas tristes que guardadas lhe ficaram: a primeira, o facto de o pai pouco tempo depois de ter sido libertado, já em Portugal para onde os prisioneiros do já considerado, Tarrafal II, haviam sido entretanto transferidos, ter adoecido e falecido alguns meses depois da reunião da família; a segunda, a angústia que lhe ficou pois queria agradecer, pessoalmente, o benfeitor que os tirou de lá para os juntar ao pai. Só que quando ela retornou a Santiago e por ele procurou, teve o triste conhecimento de que o seu bom “samaritano” já não pertencia a este mundo.
Retalhos de vida? Sim. Mas não deixam de ser também pequenas páginas da nossa História mais recente.
Bem sei que o Domingo é dia santo e de descanso para nós cristãos. Mas guardava uma secreta esperança de que haveria de encontrar um aberto e perto de casa, em Oeiras. Eis que vejo um. Entrei e a dona, cabeleireira de profissão, uma patrícia. Mais precisamente oriunda da região do Tarrafal, Santiago. Aliás, como a maior parte dos imigrantes cabo-verdianos que aqui vivem e trabalham em Oeiras.
Conversa vai, conversa vem, estabeleceu-se uma boa empatia entre as duas e a Lú, assim se me apresentou, contou-me como cá chegou…
Corria o ano de 1974, mais precisamente o mês Julho durante a conturbada fase de transição para a independência das ilhas de Cabo Verde com os mandantes do PAIGC e os militares a fazerem prisões a homens que eventualmente, estivessem contra a unidade Guiné, Cabo Verde, não obstante muitos se tivessem declarado ser pela independência. Aliás, do mesmo modo que também prendiam os considerados latifundiários, não alinhados com eles, retirando-lhes as terras. Foi um período histórico bem confuso e de muitos desmandos.
Ora bem, o pai da nossa cabeleireira - esta na altura com treze anos - era empregado/trabalhador, nas então propriedades do conhecido Eng. Almeida Henriques, em Santa Cruz. O grande leito da Ribeira Seca, terrenos junto a foz, de frondosas e belas bananeiras que se vêm extinguindo, com escassos vestígios nos dias de hoje.
E continuou a minha narradora:
Uma manhã de Julho do referido ano, saiu o progenitor para ir trabalhar como era a sua rotina diária. Quando o filho mais velho, ao meio-dia, lhe foi levar o almoço a mando da mãe, soube que o pai havia sido preso nessa manhã. Preso porquê? Era a angustiante interrogação posta pela família. Por trabalhar para o patrão. Apenas isso. Fora a justificação dada.
Segundo a minha relatora, foram tempos de grande sofrimento, de enormes privações em casa e em que ela via a mãe a chorar diariamente, os oito irmãos menores, ela incluída, sem o amparo e sem o sustento do pai.
Enfim, um quadro trágico que a marcou, segundo ela, para o resto da vida…
Os dias foram-se arrastando, até que numa certa noite dos finais do mês de Maio do ano seguinte, uma pessoa amiga do pai lhes bateu à porta para comunicar que iriam juntar-se ao progenitor em Portugal e que se preparassem, pois ele havia-lhes comprado a passagem e que deveriam partir na madrugada seguinte para o Sal e aí apanhar o avião para Lisboa. Tudo muito à pressa. Com muita barafunda. Recorda-se ela de que nessa noite já não dormiram. A casa encheu-se de vizinhos e de familiares em alto choro como se a partida e a “morte” os tivessem visitado ao mesmo tempo…
Anos transcorreram. A família fixou-se em Oeiras. A minha cabeleireira só voltou à terra natal, trinta anos depois.
Finalizou as suas mágoas passadas com duas notas tristes que guardadas lhe ficaram: a primeira, o facto de o pai pouco tempo depois de ter sido libertado, já em Portugal para onde os prisioneiros do já considerado, Tarrafal II, haviam sido entretanto transferidos, ter adoecido e falecido alguns meses depois da reunião da família; a segunda, a angústia que lhe ficou pois queria agradecer, pessoalmente, o benfeitor que os tirou de lá para os juntar ao pai. Só que quando ela retornou a Santiago e por ele procurou, teve o triste conhecimento de que o seu bom “samaritano” já não pertencia a este mundo.
Retalhos de vida? Sim. Mas não deixam de ser também pequenas páginas da nossa História mais recente.
Fenómenos de descrioulização? Ou de novo o “Crioulês”?
quarta-feira, 7 de março de 2012
Aprecio o programa televisivo «Conversa em Dia» conduzido pela Jornalista Margarida Fontes. Regra geral, quando o tema me interessa e a ocasião propicia, vejo-o e escuto-o.
Aqui há dias foi uma dessas ocasiões. O tema versava “Língua Materna” e bem intencional, pois que, se assinalava com o referido programa, o Dia Internacional da Língua Materna.
Dos três convidados, dois são conhecidos especialistas do nosso Crioulo cabo-verdiano e o outro convidado, embora do ramo das ciências ditas exactas e que se apresentou nessa qualidade em que a transversalidade linguística e outras, também faculta. Aliás, no dizer de Georges Mounin, a Linguística é: «a ciência – piloto das ciências humanas» e que interpela etnólogos, filósofos, sociólogos, psicanalistas, estetas, críticos, entre outros cientistas.
De qualquer forma, e em relação a este último participante do painel do programa em apreço, é na minha perspectiva, igualmente, um estudioso e um atento observador dos fenómenos por que passam as Línguas cabo-verdianas.
Apraz-me registar que qualquer deles esteve bem nas posições expendidas. Destas, algumas, já expectáveis, outras, interessantemente em mudança de paradigma conceptual, o que só abona o estudioso das questões complexas, diversas e mutáveis que desafiam as nossas duas línguas vivas, faladas e escritas entre nós.
Em jeito de resumo, diria que cada um dos intervenientes defendeu posições a sua opinião (ideia, pensamento) com a lógica e o conhecimento respeitáveis de quem sabe e se debruça sobre a matéria.
Mas eis que o meu interesse de ouvinte, acabou por se centrar, surpreendentemente, no modo como se expressaram – falaram em Crioulo – os dois especialistas do Crioulo, já que o outro convidado do programa, aludindo ao bilinguismo de que se compõe estas ilhas, fez questão em se expressar nos dois veículos linguísticos, (o português e o crioulo).
Efectivamente, pude degustar algumas passagens fabulosas, saborosas, em que o já considerado “pecado” da descrioulização ou, o que jocosamente, chamamos de “crioulês,” estiveram bem presentes e fizeram-se ouvir com intensidade em toda a sua extensão.
Digo, “considerado pecado” de descrioulização, pois que para mim, se trata tão-somente de um fenómeno natural no processo diacrónico da prática alargada, sobretudo, da oralidade do crioulo cabo-verdiano deste tempo de globalização. Resultado natural também do seu enriquecimento e do seu apetrechamento vocabulares, de rápida e constante troca, de contaminação e influência comunicativas, de maior alfabetização e literacia do próprio falante do crioulo. Tudo isto vem fazendo com que a aproximação à matriz da língua portuguesa do século XX/XXI seja notável!
Para encurtar caminho, tomo a liberdade de aqui transcrever, com a devida vénia aos seus autores, procurando enquadrá-las contextualmente, algumas dessas passagens escutadas e absorvidas, durante a exposição oral dos dois Linguistas do Crioulo cabo-verdiano, em defesa da oficialização do mesmo e da pertinência do ALUPEC em se constituir seu representante gráfico, entre outras matérias afins.
A determinada altura, um dos participantes, questionado sobre os focos de resistência e de alguma rejeição que existem sobre a aceitação do ALUPEC, respondeu em crioulo, da forma que a seguir transcrevo:
« (…) Em trinta anos de independência é o único projecto de escrita de incidência etimológica e de base fonológica, sistemático, consistente e abrangente…Tudo estudo académico qui fazedo utiliza Alupec, o que ta demonstra que é reconhecido o valor e a funcionalidade de alupec enquanto consistente e sistemático pa aprende todas as regras de escrita (…)» (Fim de transcrição).
Mais à frente, interrogado sobre as causas de tão pouca produção literária em crioulo, o mesmo inquirido, sempre em crioulo, explicou-se:
«(…) ‘m ta tomá palavra apenas pa fazê um ponte sobre o porquê que tem tão pouca produção literária em cabo-verdiano. Se o português e crioulo desenvolvessem harmoniosamente ca tinha esse problema (…)» (Fim de transcrição).
Mantendo este registo de oralidade em crioulo, uma outra intervenção a propósito de como a UNI-CV, vem praticando a didáctica do ensino do cabo-verdiano, e também como celebrou a efeméride, (Dia da Língua Materna) eis o que se ouviu da outra participante:
«Em termos de proposta, nu tem um programa amplo com um metodologia adequada (…) É claro que o processo bilingue é transitivo, no caso de Cabo Verde até que não seria errado (…) Nesta fase é mais a nível académico qui tem que ser feito um experimentação pa sabê se ALUPEC é eficaz ou não. (…)«…» A UNI-CV tem um vasto programa e teve a iniciativa de convida outras universidades para diversas actividades, durante o dia. Para além disso, à tarde nu ta retôma com uma conferência linguística, e em S. Vicente nu tem previsto um Mesa-Redonda. (…)” «Nu tem como projecto mais recente, um projecto de Língua gestual, aliás é compreensível, digamos, nu tem já um comunidade razoável de jovens com necessidade de língua gestual, pa integra na mundo de trabalho (…)» (Fim de transcrição).
Voltando ao primeiro inquirido crioulista, a propósito das questões que se levantam a esta problemática, ele avançou:
(…) O próprio Ministério da Educação mestê faze uma reflexão profunda. O problema fundamental é os professores. (…) Há necessidade de efectivamente se fazer um estudo a curto, a médio e a longo prazo» (…) (Fim de transcrição)
Creio que as falas escutadas, e aqui transcritas, não carecem, no meu entender, de qualquer tradução para um falante da língua portuguesa.
Acresce que a oralidade do Crioulo de Cabo Verde, na boca do cabo-verdiano com significativa escolaridade, apresenta-se por vezes, como que “decalcado” da língua portuguesa actual – quando se trata de matéria técnica ou científica – em que apenas a entoação, o “sotaque,” alguns eventuais elementos de ligação frásica, de conectores conjuncionais, preposicionais e enfáticos nos remetem para o crioulo.
É um fenómeno deveras interessante!
Mas atenção: Trata-se aqui neste escrito, apenas – volto a repetir – ressaltar um fenómeno há muito previsto e esperado na evolução da língua viva e materna dos cabo-verdianos.
E mesmo, mesmo a fechar coloco a seguinte questão: Será que a representação gráfica, isto é, a escrita do nosso Crioulo, pretendida com o ALUPEC estabeleceria a fronteira diferenciadora entre as duas Línguas da mesma família e poria termo à “malfadada” descrioulização?
Aqui há dias foi uma dessas ocasiões. O tema versava “Língua Materna” e bem intencional, pois que, se assinalava com o referido programa, o Dia Internacional da Língua Materna.
Dos três convidados, dois são conhecidos especialistas do nosso Crioulo cabo-verdiano e o outro convidado, embora do ramo das ciências ditas exactas e que se apresentou nessa qualidade em que a transversalidade linguística e outras, também faculta. Aliás, no dizer de Georges Mounin, a Linguística é: «a ciência – piloto das ciências humanas» e que interpela etnólogos, filósofos, sociólogos, psicanalistas, estetas, críticos, entre outros cientistas.
De qualquer forma, e em relação a este último participante do painel do programa em apreço, é na minha perspectiva, igualmente, um estudioso e um atento observador dos fenómenos por que passam as Línguas cabo-verdianas.
Apraz-me registar que qualquer deles esteve bem nas posições expendidas. Destas, algumas, já expectáveis, outras, interessantemente em mudança de paradigma conceptual, o que só abona o estudioso das questões complexas, diversas e mutáveis que desafiam as nossas duas línguas vivas, faladas e escritas entre nós.
Em jeito de resumo, diria que cada um dos intervenientes defendeu posições a sua opinião (ideia, pensamento) com a lógica e o conhecimento respeitáveis de quem sabe e se debruça sobre a matéria.
Mas eis que o meu interesse de ouvinte, acabou por se centrar, surpreendentemente, no modo como se expressaram – falaram em Crioulo – os dois especialistas do Crioulo, já que o outro convidado do programa, aludindo ao bilinguismo de que se compõe estas ilhas, fez questão em se expressar nos dois veículos linguísticos, (o português e o crioulo).
Efectivamente, pude degustar algumas passagens fabulosas, saborosas, em que o já considerado “pecado” da descrioulização ou, o que jocosamente, chamamos de “crioulês,” estiveram bem presentes e fizeram-se ouvir com intensidade em toda a sua extensão.
Digo, “considerado pecado” de descrioulização, pois que para mim, se trata tão-somente de um fenómeno natural no processo diacrónico da prática alargada, sobretudo, da oralidade do crioulo cabo-verdiano deste tempo de globalização. Resultado natural também do seu enriquecimento e do seu apetrechamento vocabulares, de rápida e constante troca, de contaminação e influência comunicativas, de maior alfabetização e literacia do próprio falante do crioulo. Tudo isto vem fazendo com que a aproximação à matriz da língua portuguesa do século XX/XXI seja notável!
Para encurtar caminho, tomo a liberdade de aqui transcrever, com a devida vénia aos seus autores, procurando enquadrá-las contextualmente, algumas dessas passagens escutadas e absorvidas, durante a exposição oral dos dois Linguistas do Crioulo cabo-verdiano, em defesa da oficialização do mesmo e da pertinência do ALUPEC em se constituir seu representante gráfico, entre outras matérias afins.
A determinada altura, um dos participantes, questionado sobre os focos de resistência e de alguma rejeição que existem sobre a aceitação do ALUPEC, respondeu em crioulo, da forma que a seguir transcrevo:
« (…) Em trinta anos de independência é o único projecto de escrita de incidência etimológica e de base fonológica, sistemático, consistente e abrangente…Tudo estudo académico qui fazedo utiliza Alupec, o que ta demonstra que é reconhecido o valor e a funcionalidade de alupec enquanto consistente e sistemático pa aprende todas as regras de escrita (…)» (Fim de transcrição).
Mais à frente, interrogado sobre as causas de tão pouca produção literária em crioulo, o mesmo inquirido, sempre em crioulo, explicou-se:
«(…) ‘m ta tomá palavra apenas pa fazê um ponte sobre o porquê que tem tão pouca produção literária em cabo-verdiano. Se o português e crioulo desenvolvessem harmoniosamente ca tinha esse problema (…)» (Fim de transcrição).
Mantendo este registo de oralidade em crioulo, uma outra intervenção a propósito de como a UNI-CV, vem praticando a didáctica do ensino do cabo-verdiano, e também como celebrou a efeméride, (Dia da Língua Materna) eis o que se ouviu da outra participante:
«Em termos de proposta, nu tem um programa amplo com um metodologia adequada (…) É claro que o processo bilingue é transitivo, no caso de Cabo Verde até que não seria errado (…) Nesta fase é mais a nível académico qui tem que ser feito um experimentação pa sabê se ALUPEC é eficaz ou não. (…)«…» A UNI-CV tem um vasto programa e teve a iniciativa de convida outras universidades para diversas actividades, durante o dia. Para além disso, à tarde nu ta retôma com uma conferência linguística, e em S. Vicente nu tem previsto um Mesa-Redonda. (…)” «Nu tem como projecto mais recente, um projecto de Língua gestual, aliás é compreensível, digamos, nu tem já um comunidade razoável de jovens com necessidade de língua gestual, pa integra na mundo de trabalho (…)» (Fim de transcrição).
Voltando ao primeiro inquirido crioulista, a propósito das questões que se levantam a esta problemática, ele avançou:
(…) O próprio Ministério da Educação mestê faze uma reflexão profunda. O problema fundamental é os professores. (…) Há necessidade de efectivamente se fazer um estudo a curto, a médio e a longo prazo» (…) (Fim de transcrição)
Creio que as falas escutadas, e aqui transcritas, não carecem, no meu entender, de qualquer tradução para um falante da língua portuguesa.
Acresce que a oralidade do Crioulo de Cabo Verde, na boca do cabo-verdiano com significativa escolaridade, apresenta-se por vezes, como que “decalcado” da língua portuguesa actual – quando se trata de matéria técnica ou científica – em que apenas a entoação, o “sotaque,” alguns eventuais elementos de ligação frásica, de conectores conjuncionais, preposicionais e enfáticos nos remetem para o crioulo.
É um fenómeno deveras interessante!
Mas atenção: Trata-se aqui neste escrito, apenas – volto a repetir – ressaltar um fenómeno há muito previsto e esperado na evolução da língua viva e materna dos cabo-verdianos.
E mesmo, mesmo a fechar coloco a seguinte questão: Será que a representação gráfica, isto é, a escrita do nosso Crioulo, pretendida com o ALUPEC estabeleceria a fronteira diferenciadora entre as duas Línguas da mesma família e poria termo à “malfadada” descrioulização?
THE RULE OF THE LAW – O PRIMADO DA LEI
sábado, 3 de março de 2012
Não sou assíduo de nenhum jornal digital. Isto faz com que me escapem várias notícias importantes devido a provisoriedade das suas exposições. Presumo que alguns textos não resistem mais de 24 horas. E, sinceramente, são tantos os jornais digitais (incluo blogs) que não tenho tempo para os visitar diariamente todos e muito menos suficiente curiosidade intelectual para me recorrer de forma sistemática aos arquivos, o que só faço quando alguém mo recomenda.
Mas tive a oportunidade de ler um texto que me causou algum desconforto não, certamente, pelo discurso escorreito e bem articulado (também já causa estranheza!) mas pelo seu conteúdo impactante e algo vergonhoso para os visados pela frontalidade vernácula com que é apresentado. Julgo que a questão não é nova – uma casa (vivenda) não se constrói em dois dias.
Por motivos que acima aludi e pelo meu distanciamento voluntário (não afastamento) da coisa política ainda não tinha tido conhecimento do facto. Trata-se da mensagem do editorial do “Liberal “ de 23 de Fevereiro último, sobre um assunto, ao que parece, recorrente para esse jornal.
Antes de expor as razões do meu assombro vou partilhar com os eventuais leitores deste meu texto que ainda o não tenham lido (o editorial), apenas um parágrafo cujo conteúdo me causou uma profunda indignação pela passividade desta sociedade, sobretudo a política, pela inépcia dos principais actores políticos designadamente da oposição e pelo cínico e deleitoso sorriso que vislumbro nos infractores pela virtual ausência de instrumentos legais (não éticos nem políticos) para o seu combate a que se acrescem a negligência e o parcialismo das (in)competentes autoridades judiciais.
Vou citar: “Como já tivemos ocasião de referir [“Democracia contra salteadores”], parece que na 26ª democracia do mundo se convive bem com a trapaça, a corrupção e mesmo a mais descarada roubalheira. Aludimos, então, ao caso do próprio Primeiro-ministro que, descaradamente, ocupou terreno do Estado, aceitou como prenda uma casa e utilizou fundos do tesouro para acorrer às dificuldades financeiras de uma “amiga especial”, entre outros expedientes nunca justificados e publicamente conhecidos. E isto ao mesmo tempo que JMN tem sempre a boca cheia de supostos princípios éticos e auto-elogios de seriedade.” (Fim de citação. O negrito é meu).
Como se não bastasse o conteúdo transcrito, o articulista refere-se também, na esteira deste estado de coisas, a outros protagonistas deste governo de que me escuso de abordar. Para o meu desgosto, chega-me e sobra-me o Primeiro-ministro. Se ele o pode fazer porque não há-de um director-geral ou ministro fazer o mesmo? Receber como prenda apartamentos, carros ou mesmo milhões em dinheiro.
Parece que tudo é legal neste permissivo país no meio do mar semeado.
Confesso ter tido, e ainda a tenho, dificuldade em acreditar que o PM do meu País tenha recebido de PRENDA (!!!) uma casa, ainda por cima construída em terreno do Estado. Pela maneira como o assunto é posto, enrolado em “corrupção”, “trapaça”, “descarada roubalheira” entre outros enfeites, não posso imaginar que tenha sido de um parente muitíssimo próximo que lha ofereceu por um dos seus aniversários mas provavelmente de um “amigo” como sinal de agradecimento por um relevante serviço que lhe tenha prestado ou de que espera ele venha a prestar. Ele há-de haver uma razão, real ou conjecturada, bastante plausível. Há prebendas que só os nossos pais (para eles a justiça impõe regras) ou irmãos ricos estão autorizados a dar-nos.
Não deixo de me inclinar perante a inteligência, a “sagesse” e a generosidade do “benemérito” nem de me acabrunhar com a ingénua ingenuidade do meu PM em pensar que também nós – a sociedade civil – achamos que se trata de um acto inocente, de uma desinteressada “prenda”.
Mas se a prenda pode ser “legal”, o que eu, sinceramente, duvido, já a ocupação, por um PM, de um terreno do Estado, pertencente a uma instituição, para a construção de casa própria configura uma flagrante ilegalidade, um abuso de poder.
É o que dá a impunidade? Pessoas julgarem que estão acima da lei em países que se dizem democráticos e se consideram estados de direito?
Quem é que já se esqueceu do célebre episódio de “dinheiro sujo”? O que é que lhe aconteceu? NADA.
E eu a lembrar-me que em pleno século XVII, um rei, Carlos I de Inglaterra, foi executado a mando do Parlamento por abuso de poder, por ignorar o primado da lei que impõe que ninguém, em circunstância alguma, esteja acima dela – The rule of de law. Isto sem referir, mais proximamente, à resignação compulsiva do Presidente Nixon pelas mesmas motivações.
De repente remeti-me aos alvores da 2ª república em que tivemos a visita de um ilustre político estado-unidense. Era secretária de estado uma pessoa que me é muito cara e que fora incumbida de “acompanhar” esse político.
Quando andava à procura de uma prenda condigna, em conformidade com o estatuto do convidado, foi avisada pela Embaixada dos EUA que o valor da prenda não podia ultrapassar os 50 dólares (!!!). Imagine-se, cinquenta dólares! Ao aludido político estava-lhe vedado, como tal, aceitar prendas acima desse valor…
Não me preocupo em saber se esse tecto foi alterado mas em registar com muito agrado a sua existência, ainda que o seu valor fosse cem vezes superior.
É claro que no nosso ordenamento jurídico não pode existir um “plafond” nos mesmos moldes qualquer que seja o valor. Os nossos legisladores, estes, parece, preferem o vazio, espaço a que atribuem a sinonímia da liberdade, dando ao político a faculdade de usar a sua sensatez ou o seu livre arbítrio, para "distinguir" entre uma simbólica lembrança e um subreptício suborno. E a ocasião não fará o ladrão, contrariando o ditado popular, mas revelá-lo-á, seguramente.
Isto, porque alguns dos nossos influentes governantes, felizmente poucos, enredam as suas escabrosas maquinações em teias fictícias a que chamam “diplomacia” e, por vezes, mais pomposamente “diplomacia económica” no sentido de obter vantagens financeiras pessoais, alimentar a clientela e satisfazer as suas mesquinhas aspirações de poder.
Quanto à casa do PM, a ser tudo verdade – nesta fase muito poucas são as razões para se duvidar – e tendo sido construída em terreno de Estado, espero que ele siga as nobres peugadas do seu mais ilustre conterrâneo vivo, que ao deixar a presidência da república em 2001, doou, de imediato, todas as prendas que recebera ao longo dos dez anos no desempenho dos dois mandatos que o povo lhe conferira, ao concelho de Santa Catarina para a criação de uma casa-museu.
É assim que procedem os verdadeiros Homens de Estado.
A. Ferreira
Mas tive a oportunidade de ler um texto que me causou algum desconforto não, certamente, pelo discurso escorreito e bem articulado (também já causa estranheza!) mas pelo seu conteúdo impactante e algo vergonhoso para os visados pela frontalidade vernácula com que é apresentado. Julgo que a questão não é nova – uma casa (vivenda) não se constrói em dois dias.
Por motivos que acima aludi e pelo meu distanciamento voluntário (não afastamento) da coisa política ainda não tinha tido conhecimento do facto. Trata-se da mensagem do editorial do “Liberal “ de 23 de Fevereiro último, sobre um assunto, ao que parece, recorrente para esse jornal.
Antes de expor as razões do meu assombro vou partilhar com os eventuais leitores deste meu texto que ainda o não tenham lido (o editorial), apenas um parágrafo cujo conteúdo me causou uma profunda indignação pela passividade desta sociedade, sobretudo a política, pela inépcia dos principais actores políticos designadamente da oposição e pelo cínico e deleitoso sorriso que vislumbro nos infractores pela virtual ausência de instrumentos legais (não éticos nem políticos) para o seu combate a que se acrescem a negligência e o parcialismo das (in)competentes autoridades judiciais.
Vou citar: “Como já tivemos ocasião de referir [“Democracia contra salteadores”], parece que na 26ª democracia do mundo se convive bem com a trapaça, a corrupção e mesmo a mais descarada roubalheira. Aludimos, então, ao caso do próprio Primeiro-ministro que, descaradamente, ocupou terreno do Estado, aceitou como prenda uma casa e utilizou fundos do tesouro para acorrer às dificuldades financeiras de uma “amiga especial”, entre outros expedientes nunca justificados e publicamente conhecidos. E isto ao mesmo tempo que JMN tem sempre a boca cheia de supostos princípios éticos e auto-elogios de seriedade.” (Fim de citação. O negrito é meu).
Como se não bastasse o conteúdo transcrito, o articulista refere-se também, na esteira deste estado de coisas, a outros protagonistas deste governo de que me escuso de abordar. Para o meu desgosto, chega-me e sobra-me o Primeiro-ministro. Se ele o pode fazer porque não há-de um director-geral ou ministro fazer o mesmo? Receber como prenda apartamentos, carros ou mesmo milhões em dinheiro.
Parece que tudo é legal neste permissivo país no meio do mar semeado.
Confesso ter tido, e ainda a tenho, dificuldade em acreditar que o PM do meu País tenha recebido de PRENDA (!!!) uma casa, ainda por cima construída em terreno do Estado. Pela maneira como o assunto é posto, enrolado em “corrupção”, “trapaça”, “descarada roubalheira” entre outros enfeites, não posso imaginar que tenha sido de um parente muitíssimo próximo que lha ofereceu por um dos seus aniversários mas provavelmente de um “amigo” como sinal de agradecimento por um relevante serviço que lhe tenha prestado ou de que espera ele venha a prestar. Ele há-de haver uma razão, real ou conjecturada, bastante plausível. Há prebendas que só os nossos pais (para eles a justiça impõe regras) ou irmãos ricos estão autorizados a dar-nos.
Não deixo de me inclinar perante a inteligência, a “sagesse” e a generosidade do “benemérito” nem de me acabrunhar com a ingénua ingenuidade do meu PM em pensar que também nós – a sociedade civil – achamos que se trata de um acto inocente, de uma desinteressada “prenda”.
Mas se a prenda pode ser “legal”, o que eu, sinceramente, duvido, já a ocupação, por um PM, de um terreno do Estado, pertencente a uma instituição, para a construção de casa própria configura uma flagrante ilegalidade, um abuso de poder.
É o que dá a impunidade? Pessoas julgarem que estão acima da lei em países que se dizem democráticos e se consideram estados de direito?
Quem é que já se esqueceu do célebre episódio de “dinheiro sujo”? O que é que lhe aconteceu? NADA.
E eu a lembrar-me que em pleno século XVII, um rei, Carlos I de Inglaterra, foi executado a mando do Parlamento por abuso de poder, por ignorar o primado da lei que impõe que ninguém, em circunstância alguma, esteja acima dela – The rule of de law. Isto sem referir, mais proximamente, à resignação compulsiva do Presidente Nixon pelas mesmas motivações.
De repente remeti-me aos alvores da 2ª república em que tivemos a visita de um ilustre político estado-unidense. Era secretária de estado uma pessoa que me é muito cara e que fora incumbida de “acompanhar” esse político.
Quando andava à procura de uma prenda condigna, em conformidade com o estatuto do convidado, foi avisada pela Embaixada dos EUA que o valor da prenda não podia ultrapassar os 50 dólares (!!!). Imagine-se, cinquenta dólares! Ao aludido político estava-lhe vedado, como tal, aceitar prendas acima desse valor…
Não me preocupo em saber se esse tecto foi alterado mas em registar com muito agrado a sua existência, ainda que o seu valor fosse cem vezes superior.
É claro que no nosso ordenamento jurídico não pode existir um “plafond” nos mesmos moldes qualquer que seja o valor. Os nossos legisladores, estes, parece, preferem o vazio, espaço a que atribuem a sinonímia da liberdade, dando ao político a faculdade de usar a sua sensatez ou o seu livre arbítrio, para "distinguir" entre uma simbólica lembrança e um subreptício suborno. E a ocasião não fará o ladrão, contrariando o ditado popular, mas revelá-lo-á, seguramente.
Isto, porque alguns dos nossos influentes governantes, felizmente poucos, enredam as suas escabrosas maquinações em teias fictícias a que chamam “diplomacia” e, por vezes, mais pomposamente “diplomacia económica” no sentido de obter vantagens financeiras pessoais, alimentar a clientela e satisfazer as suas mesquinhas aspirações de poder.
Quanto à casa do PM, a ser tudo verdade – nesta fase muito poucas são as razões para se duvidar – e tendo sido construída em terreno de Estado, espero que ele siga as nobres peugadas do seu mais ilustre conterrâneo vivo, que ao deixar a presidência da república em 2001, doou, de imediato, todas as prendas que recebera ao longo dos dez anos no desempenho dos dois mandatos que o povo lhe conferira, ao concelho de Santa Catarina para a criação de uma casa-museu.
É assim que procedem os verdadeiros Homens de Estado.
A. Ferreira

