Evocando Manuel Ferreira…

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um pouco na esteira daquilo que afirmava recentemente o texto do Jornalista Nuno Rebocho, publicado no Liberal, jornal online, a propósito do valor e do lugar que Manuel Ferreira ocupa na historiografia literária africana de Língua e de Expressão portuguesa, eis-me também a pretender evocar neste escrito, essa referência incontornável, que foi Manuel Ferreira quando falamos sobre a  crítica literária cabo-verdiana.

Com efeito Manuel Ferreira pertence ao “escol,” isto é, à parte mais distinta de estudiosos e analistas da Literatura e da Cultura cabo-verdiana que vem desde inícios do século XX em que o colocaria ao lado de: Augusto Casimiro (1889-1967), José Osório de Oliveira (1900-1964), Félix Monteiro (1910-2000), Francisco Tenreiro (1921-1963), Alfredo Margarido (1928-2010), Arnaldo França e mesmo alguns outros nomes ilustres que embora se tivessem distinguido mais na arte de criar poesia e ficção, não deixaram de ser também profundos estudiosos e conhecedores da cultura a que pertenciam. Tais foram os casos de: Baltazar Lopes da Silva (1907-1989), Manuel Lopes (1907-2005) Gabriel Lopes da Silva Mariano (1924-2000) Henrique Teixeira de Sousa (1919-2006), entre outros.
 Voltando a Manuel Ferreira, ele nasceu em Gândara de Olivais, Leiria, Portugal em 1917 e faleceu em Linda -A – Velha, Oeiras, em 1994.
Do seu percurso de vida, destacam-se algumas etapas que o ligaram fortemente ao Arquipélago. Desde logo, o cumprimento do serviço militar em S. Vicente de 1941 a 1947. Nesse ínterim, conhece a contista cabo-verdiana, Orlanda Amarílis, com quem contrai matrimónio. Frequentou a «Academia Cultivar» de Mindelo. Igualmente, ainda em Mindelo, Manuel Ferreira pertenceu ao grupo do movimento «Certeza» e conviveu com os grandes nomes da «Claridade». Enfim, abraçou de forma inequívoca, a causa da Literatura cabo-verdiana.
Daí que a «Aventura Crioula», publicada em 1967, com uma 2ª edição revista e aumentada em 1973, seja uma das mais importantes obras deste autor, sobre a fenomenologia cultural e literária cabo-verdiana. Obra de consulta, diria obrigatória, para o interessado que queira perceber em pormenor os pontos de partida e de chegada da criação poética e ficcional destas ilhas.
Em termos de estudos críticos literários – que não foram poucos – Manuel Ferreira dá-nos no seu «Reino de Caliban I» 1975, uma panorâmica cuidada dos escritores e dos poetas mais distintos da cena literária nacional.
Mas Manuel Ferreira não se quedou apenas como crítico e estudioso da nossa Literatura, ele também foi criador dela. São disso exemplos, os contos: «Morna» 1948, e «Morabeza» 1958, e os romances: «Hora de Bai» 1962, e «Voz de Prisão» 1973. Qualquer das obras aqui mencionadas espelha bem a profunda ligação e o grande conhecimento que ele tinha e detinha da terra, da sociedade e das gentes crioulas.
Mais tarde, nos meados dos anos 70 do século XX, Manuel Ferreira lecciona na Faculdade de Letras de Universidade Clássica de Lisboa a então recém-criada cadeira de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, que frequentei como aluna.
Boas e gratas recordações ficaram-me do professor, dos trabalhos realizados e do grau de exigência que ele punha na nossa pesquisa ensaística sobre a prosa e a poesia das ilhas.
Por tudo isto, e o mais que ficou por dizer, temos em Manuel Ferreira um ensaísta marcado pela experiência vivenciada, interiorizada e reelaborada da cultura  produção literária das ilhas.
Para não ser muito longo o escrito, o qual ficou muito aquém daquilo que deveria e quereria dizer, termino reiterando que Manuel Ferreira é para a historiografia literária cabo-verdiana, sem qualquer favor, um insigne estudioso e uma incontornável referência.

As Autárquicas em Cabo Verde – uma abordagem

terça-feira, 19 de junho de 2012
É absolutamente pacífico que um dos maiores ganhos do advento da democracia é a criação de autarquias, isto é, da administração local autónoma. Pena é que o Governo do PAICV na sua ânsia de ganhar votos, e não de governar, em vez de se preocupar com a criação e implantação de autarquias infra-municipais, demagogicamente e por uma certa abulia, optou por “instalação” de mais municípios chegando ao absurdo de atribuir categoria de cidade a todas as capitais de município, pervertendo e corrompendo os parâmetros-base definidores do conceito de cidade. Com esta inversão – mais municípios em vez de freguesias – perdem-se seguramente as sinergias, dissipam-se meios humanos e materiais e reduzem-se a descentralização e as possibilidades de desconcentração administrativas sem outra vantagem se não o jogo partidário que se mede em número de municípios que cada um exibe. E neste jogo perverso e inconsequente, Praia, São Lourenço dos Órgãos e Santa Catarina do Fogo, p. e., têm todos o mesmo peso.
Normalmente não se dá muita atenção às eleições autárquicas. Mas elas são, ao que parece, muito mais importantes do que se mostram. Representam na realidade uma muito maior aproximação àqueles que nos “governam” directamente, condicionando, relativamente, muito mais o nosso dia-a-dia do que as legislativas ou as presidenciais sem beliscar a supremacia e o estatuto destas duas últimas com a sua abrangência nacional e carácter supra-territorial, uma vez que se dirigem também à nossa emigração.
Mas as autárquicas também têm particularidades que lhes garantem uma ampla representatividade no espaço da sua jurisdição pelo facto do universo dos seus eleitores englobarem os estrangeiros residentes, obviamente, dentro de determinados - compreensíveis - condicionalismos. Por outro lado, permitem a existência de candidaturas não partidárias, de cidadãos-eleitores, tal como as presidenciais e ao contrário das legislativas, abrindo o leque à efectiva participação de toda a sociedade civil.
A experiência tem demonstrado que, quer por uma questão de capacidade organizativa, quer por falta de meios financeiros, quer, ainda, pelo chamado “voto útil” poucas são, ou foram, as listas de independentes que tiveram sucesso sem o respaldo de um dos dois grandes partidos políticos.
Por aquilo que se disse, as eleições autárquicas acabam por se revestir, quase sempre, de um cunho fortemente partidário, seja pelo engajamento dos partidos políticos nas campanhas, seja no voto no candidato que é conduzido, quase sempre, mais com base na fidelidade político-partidária do que por convicções ou interesses comunitários, prescindindo-se desta forma da condição de munícipe em benefício da de militante partidário ou mesmo simpatizante, quando fanático.
É neste quadro dominado e sufocado pelos partidos políticos que se torna difícil encontrar candidatos verdadeiramente independentes e, quando aparecem, é marcadamente reduzida a sua taxa de sucesso. De uma maneira geral nascem, directa ou indirectamente, dentro da sua própria organização político-partidária por desavenças ou amuos e raramente como verdadeiros movimentos de cidadãos-munícipes.
Retomemos o empenhamento dos partidos políticos nas eleições autárquicas. Ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer, os municípios não podem ter todos o mesmo peso político. Praia, S. Vicente, Sal e Santa Catarina de Santiago apesar da fragmentação que se operou no mapa autárquico, são ainda aqueles que pela sua dimensão populacional e interesse económico mais importância têm no contexto nacional.
Daí que se esperava que os partidos políticos jogassem nesses principais municípios, com especial ênfase para a capital do País, os seus pesos pesados, isto é, aqueles que se destacaram quer na esfera governamental pelo seu desempenho quer na esfera partidária pelo seu posicionamento e actividades desenvolvidas quer na sociedade pela sua postura moral – decoro, honestidade, integridade e seriedade. Não é uma questão meramente institucional mas de reconhecimento do trabalho feito, de protagonismo político e de imagem pública. Até por uma questão de respeito e consideração por esses munícipes.
Com o mesmo integral respeito que tenho por todos os candidatos não me parece que o PAICV e o MpD dispensem sempre a esses municípios os seus políticos de topo que possuam cumulativamente o perfil que atrás referi. Infelizmente, salvo raras excepções, os políticos de topo na oposição autárquica vêem nas câmaras emblemáticas mais um crematório político – devido ao confronto directo e personalizado – que procuram evitar a todo o custo, do que um posto de prestígio e de honroso e benéfico exercício de cidadania no confronto de ideias e programas e uma oportunidade de servir (não servir-se). Têm medo do sufrágio popular e do jogo democrático no qual só se submetem quando as hipóteses de ganhar são elevadas. E, por isso, a função de presidente de câmara não é suficientemente prestigiada embora muito desejada...
Não incluo UCID e o PTS nesta análise porque não só não são partidos da área da governação como ainda têm um carácter vincadamente “regional” e a sua presença fora do seu “habitat natural” é apenas um ensaio para um futuro alargamento do seu território político.
Compreendo que para aqueles que se recandidatam e tenham trabalho feito – qualidade e quantidade função do tempo – os critérios sejam algo diferentes mas não é por isso que as minhas observações perdem validade.
Uma outra perspectiva é a que diz respeito aos dinossauros, aqueles que se querem eternizar no poder com a vã vaidade de se julgarem missionados ou sobredotados. Democracia significa competência, mérito, mas significa também alternância. E nenhuma estrutura pública que não tenha a capacidade de se renovar poderá avançar. E muitos desses dinossáurios – felizmente que é uma espécie em extinção – têm-se mostrado esgotados na sua criatividade, arrogantes na sua postura e demasiado modestos e ineficazes na procura das verdadeiras soluções de que padecem os seus municípios. Move-lhes apenas o apego ao poder. Acomodam-se, rotinam-se e transformam-se em verdadeiros funcionários públicos (no mau sentido) esquecendo-se que a vereação é uma função política e não uma profissão. E o mais grave, é que são acompanhados neste seu exercício de egocentrismo delirante pelos seus próprios partidos que não se acautelam e se mostram incapazes de uma visão estratégica que permita a preparação atempada dos seus substitutos por um programado e cirúrgico rejuvenescimento das listas e um “contrato” de apoio.
Por último a questão do “voto útil”. É um conceito polémico e subjectivo. Não votar por convicção mas para evitar um mal maior. É um voto baseado em conjecturas e num cálculo de probabilidades sobre elas que normalmente não tem consistência. Não é um fenómeno apenas cabo-verdiano mas global e tem como uma das consequências a bipolarização política. Felizmente que não é muito usual nas autárquicas.
Esperemos, que todos aqueles que não são militantes de partidos políticos, que não tenham obrigações partidárias, e é, felizmente, a grande maioria, que votem em consciência, no candidato que lhes ofereça garantia de dedicação e muito trabalho numa gestão urbana que assegure o progresso do município e a melhoria do bem-estar dos munícipes.
A. Ferreira

Ainda e à volta do Acordo (?) Ortográfico

quarta-feira, 13 de junho de 2012



Na minha opinião, pois que com alguma frequência venho pensando no enorme desconcerto trazido com o já polémico Acordo Ortográfico, acho que ele não vai vingar. Ainda que com ratificações já feitas pela maior parte dos parlamentos que falam português. E digo isto porquê? É basta ler, escutar o que diariamente ou quase isso, tem vindo a lume, nos meios de comunicação social, em teses e textos publicados e difundidos na “Net,” em petições e abaixo-assinados a circular pelos nossos computadores sobre esta matéria, para se aquilatar o grau de descontentamento e de desacordo que pairam sobre a mesma.

A última que li foi a notícia de uma providência cautelar interposta pela Academia brasileira de Letras, creio eu – não conheço o texto – para suster os efeitos do dito Acordo Ortográfico.

Se a hipótese de alguma “bondade” havia ou houve no seu objectivo inicial e último, que seria o de harmonizar, o de aproximar ou tornar igual, a escrita de determinadas palavras nos dois países, Portugal (“mátria” primeira da Língua portuguesa) e o Brasil (maior número de falantes da mesma) para tornar mais igual as duas variantes da nossa Língua comum; essa hipótese inicial que depois se alargou e abarcou os outros países que falam o português, acabou por ruir, por não se ter concretizado e ainda por cima  tem encontrado fortíssimas rejeições de ambos os lados, (Brasil e Portugal) e porque não dizê-lo também,  resistências e recusas de numerosos falantes da língua portuguesa, oriundos dos países da CPLP. (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Veja-se o caso de Angola.

Eu continuo a chamá-lo de: “o Acordo do nosso desacordo.”

A Língua portuguesa possui uma identidade visual, estética e histórica na sua representação escrita que a torna única, legível e reconhecida por nós, ou melhor, para cada de nós, seus falantes/utentes. E isto nas suas diversas variantes. Essa identidade visual e estética da escrita em língua portuguesa firma-se e afirma-se em bases etimológicas, fonéticas e gráficas, que cada aprendente ou falante materno vai interiorizando, memorizando, automatizando em anos e anos de prática.

Com isto, não quero dizer que a língua não evolua, não se modifique. Não, ela passou, passa e continuará a passar, por inúmeras transformações e inovações como organismo vivo que é e como património socializado por comunidades que a vão modificando ao longo do tempo.

Vamos chamar a isto, um processo natural. Há também a convencionalidade que surge pelo meio desse processo “natural” com uma lógica de necessidade que os falantes aceitam e absorvem para o enriquecimento ou para a inovação da língua. Tudo isto é válido para a Língua portuguesa.


Ora bem, uma das questões que quase torna “caricata” (releve-se esta classificação talvez um pouco exagerada…) a alteração mais visível do actual Acordo Ortográfico situa-se à volta da queda, da supressão na escrita, das chamadas consoantes mudas inter-vocálicas.

Vou exemplificar: eu escrevo e/ou pronuncio directo, director, espectador, excepção, recepção, actor, actriz, óptima e por aí fora… os exemplos seriam infindáveis. Em todas estas palavras eu abro a vogal, a que precede a consoante c exactamente por causa dela. Ao abrir a vogal faço a diferença e sei por que a faço. Eu recuso-me a dizer: “espetador” que me parece vir mais (semanticamente) de “espeto” ou mesmo de “espetar” e que nada tem a ver com espectador, aquele que assiste a um espectáculo (em que também “abro” a vogal).

Mas até aqui, até poderia ser contrariada com o argumento de que a regra para a supressão das consoantes ditas mudas, seria igual e geral para todas as variantes da Língua portuguesa. Contrariada embora, teria de aceitar. Mas nada disso aconteceu. Vejamos um pequeno exemplo: a variante do Brasil escreve e pronuncia o p da palavra recepção, continuará a fazê-lo com a permissão e a consagração do Acordo.

Nós, que escrevemos na variante do português europeu teremos de suprimir as ditas consoantes, ainda que pronunciemos bem abertas as palavras que as contém e por causa delas. Vejo nisso algum contra-senso…

É certo que na nossa variante, continuaremos a escrever e a pronunciar facto,  sinónimo de caso, de uma realidade, e não fato,  que para nós significa conjunto de peças de vestuário. Enquanto que para o falante brasileiro, não se põe, a ambiguidade fonética/semântica com o mesmo vocábulo.

Mas o que já está a acontecer com os alunos em início de escrita da nossa variante, e até já aparece em legendas de rodapé, é a confusão da representação gráfica do vocábulo facto com a do vocábulo fato.

E como estes, outros exemplos existirão, que justificam e agora sim, o enorme desacordo que sucede com este Acordo Ortográfico.

Volto a repetir, veja-se o caso de Angola, que é bem ilustrativo de uma firme recusa em aderir, ou em ratificar semelhante “desaire” da escrita da Língua comum.

Para finalizar, devo acrescentar que alguma opinião aqui expressa, até pode ser tomada ou interpretada como problema de geração. Aceito-a e acrescento e porque não?...A minha geração tem também valores muito interessantes, a preservar. (risos)



Guiné-Bissau – De Estado Falhado a vil Humilhação

terça-feira, 5 de junho de 2012

Num dos serviços noticiosos da RDP ÁFRICA escutei que o Embaixador de Portugal na Guiné-Bissau dera uma entrevista em que afirmava, de entre outras coisas, que a Guiné-Bissau é um “Estado Falhado”. Profissionalmente, ele sabe muito bem o que é um “estado falhado”; e dispõe, seguramente, de dados suficientes para sustentar a sua conclusão.

Não me surpreendeu totalmente, mas fiquei indignado e intimamente revoltado com todos aqueles que foram capazes de conduzir o país a esta situação; e tive uma dor e uma mágoa incalculáveis.

Sabia, e sei, (quem o não sabe?) que as coisas não vão lá muito bem para aqueles lados; mas chegar a ser classificado de um “Estado Falhado” nunca esperei ouvi-lo de insuspeitas – Portugal não tem faltado com apoios de toda a ordem – autoridades político-diplomáticas.

Fui transportado a um passado de cerca de 38 anos e lembrei-me do triunfalismo, que nos orgulhava a todos, com que o PAIGC – estava acima do Estado, dizia-se – se instalara e das conversas que nós, a Ondina e eu, tínhamos com o meu “Velho” em Bissau acerca do futuro do País.

Dizia ele: Isto vai ficar, e em pouco tempo, como Conacry (Guiné-Conacry ao tempo era o paradigma de um estado falhado, até para o próprio PAIGC). Vocês vão ver! E nós contrapúnhamos com a veemência e a “sabedoria” da nossa juventude na qual, se calhar, estava subjacente a “arrogância” de uma certa literacia política forjada nos meios académicos. E só parávamos por respeito e consideração não sem esboçar um sorriso malicioso que eles, minha Mãe, inclusive, bem captavam. E ele insistia: Podem rir, vocês ainda um dia me darão razão e é pena que eu não estarei aqui para presenciar a vossa resignação. E ele acrescentava quase sempre: Até gostaria de nunca vir a ter razão!

Era um assunto recorrente e bastas vezes abordado sob os mais diversos ângulos.

Como ele sabia o que dizia!... Aliás, o tempo vem demonstrando quão bem ele conhecia a (in)capacidade dos obreiros da Independência para os tempos posteriores.

Não tardou a chamar-nos atenção da qualidade da transformação urbana que se ia operando, dos aspectos físicos da cidade de Bissau – ruas esburacadas, candeeiros públicos sem lâmpadas, lixo na rua, vendedores ambulantes por todo o lado – dos tiques autistas dos dirigentes do PAIGC e das “asneiras”, no seu ponto de vista, que se vinham cometendo não apenas no quadro das liberdades e garantias individuais sobre as quais tinha vivências que não lhe permitiam ter a mais pequena dúvida sobre o comportamento dos “camaradas” mas sobretudo sob o ponto de vista desenvolvimentista em que tinha de memória as estatísticas coloniais que ostentava pondo em causa e contestando abertamente aquilo que depois se provaram ser elefantes brancos.

A situação degradou-se de tal forma que se fez o 14 de Novembro. Uma réstia de esperança colectiva terá renascido no já “cansado” povo guineense.

Ele voltou a advertir-nos: Não tenham ilusões! Nada vai mudar!... Nem sequer as moscas porque eles são todos farinha do mesmo saco. E se calhar até vai piorar. E dizia-o de forma tão desabrida – já não tinha idade para ter medo, se é que alguma vez o teve – que criou situações bem embaraçosas para a família que, para encurtar palavras, direi, que nem uma pequena reforma lhes foi concedida depois dos longos anos de Conacry “aguentando” a luta e de Bissau na pós-independência. E nunca, mas nunca, se lamentaram!...

Os que o ouviam muniam-se de um presunçoso paternalismo a que juntavam, porque não reconhecê-lo, algum carinho, e rematavam: Ao Tio Armindo a gente releva sempre as suas palavras!...

O espectro de um “estado falhado” continuou a perseguir-nos a memória durante todos estes anos não obstante termos recusado sempre a aceitá-lo. Mas pelos vistos é hoje uma triste e dolorosa realidade.

O “Velho” falava das insuficiências mas também das virtudes. E de entre estas fazia sobressair o orgulho, a altivez e a irreverência dos povos (ele distinguia-os) da Guiné na sua grande maioria. E não era preciso dizê-lo. A História da Guiné desde os tempos longínquos da ocupação dos portugueses é muito eloquente sobre estes aspectos.

Por tudo isto, fiquei, e não acredito que um só filho da Guiné, ou seu amigo, com um mínimo de orgulho de o ser, não se tivesse sentido humilhado quando um ministro dos negócios estrangeiros da Nigéria foi a Guiné, chão onde sangue de verdadeiros heróis corre há séculos e onde mora a irreverência e o orgulho de gente indomável, NOMEAR o seu PRESIDENTE da república.

Esperei assistir a tudo mas esta nem o meu “Velho” nas suas mais cépticas conjecturas teria sequer imaginado – Guiné-Bissau, de estado falhado a vil humilhação provocada por uma “junta” de militares que interrompendo um processo democrático, que seguia os seus trâmites dentro do quadro constitucional, por razões que classificou de “nacionalistas” ou “justicialistas” se submete e faz rebaixar o povo a aceitar um presidente, ainda que interino, nomeado por um ministro nigeriano.

Afinal o meu “Velho” estava entre os poucos que partilhavam das preocupações e subtis advertências de Amílcar Cabral no que concerne à capacidade dos “rapazes” para a (re)construção do País.

Hoje, tenho a certeza que aqueles que “relevavam” paternalistamente as suas palavras, dirão, quiçá com alguma mágoa: Afinal, o Tio Armindo é que tinha razão!

Quem, há 38 anos, poderia tal imaginar?

A. Ferreira



O que os adultos dizem…e como as crianças o percebem!

domingo, 3 de junho de 2012
Vai aqui uma historieta que se terá passado na bela cidade do Mindelo, há seguramente três décadas. Portanto, julgo poder narrá-la pelo tempo já decorrido, com direito a perdão por alguma eventual indiscrição, pois que da minha parte, não houve, e nem há, qualquer intenção de ser menos correcta ou mesmo ofensiva, para com as partes nela envolvidas.
Ainda mais que a historieta decorre de uma iniciativa com bons propósitos em que as protagonistas eram crianças. Só me podia merecer simpatia.
Posta e justificada deste modo, vamos à história que não deixa de ser engraçada e igualmente reveladora daquele espírito muito “gozão” que enforma o perfil brejeiro do típico mindelense.
Foi-me contada por uma amiga muito querida de longa data.
Ora bem, estava-se nos finais dos anos setenta, anos esses que delimitaram um período em que o famoso carnaval de Mindelo conheceu algum impasse por eventual falta de meios para os blocos carnavalescos desfilarem.
Então, perante tal perspectiva com a festa maior da cidade, há da parte de uma animadora na época do carnaval infantil, a decisão de reunir algumas crianças, filhas de pais amigos e conhecidos dela e organizar, ao menos, um grupo carnavalesco com elas.
Acrescentou a minha narradora, de que ela própria levava a irmã mais nova, na altura com cerca de 9-10 anos, aos ensaios do dito grupo. Este não tinha nome, mas entre os seus elementos era chamado de «Mamã eu quero…» pela conhecida música brasileira que lhe marcava o desfile.
Iam os ensaios dos pequenos da cidade a bom ritmo, quando surgiu em cena, uma outra conhecida animadora do “rei Momo” mindelense que, numa atitude crítica, teria dito – em alto e bom som – que não podia ser, «que aquilo era um grupo de “elite”» (fixe-se o termo, pois mais adiante aparecerá transfigurado) Então? E as crianças dos arrabaldes? Das faldas da cidade? Não teriam elas também direito a carnaval? Defendia acaloradamente a recém-chegada à ribalta carnavalesca. 
Instalou-se a troca de argumentos comuns nesses momentos, e a dita crítica da existência apenas de um grupo de meninos urbanos, organizou um outro grupo de crianças, muito à pressa, oriundas dos arredores da cidade.
Pois bem, o termo com que fora classificado o grupo dos meninos da cidade, “elite”, dito e repetido várias vezes publicamente e possivelmente pelos meios da comunicação social de então, fora escutado pelas crianças e então elas interpretaram-no da seguinte forma: os meninos da cidade, foram intitulados de grupo «Litre» (litro) e ao dos meninos dos arredores de Mindelo, chamaram-no: «mei litre». (meio litro)
Veja-se como do som da palavra “elite” se transformou comicamente em crioulo e na variante de S. Vicente, e conduzindo à corruptela da palavra mas não do semântico socialmente estabelecido pelas próprias crianças.
O que os adultos dizem e como as crianças o entendem!

O Amor nas Parábolas de Cristo

terça-feira, 29 de maio de 2012
Sempre que releio a parte do evangelho bíblico que exorta o amor ao próximo sensibilizo-me fortemente e mais me convenço de que os fundamentos do cristianismo que Jesus pregou nas suas parábolas, ao tempo predicantes – porque inseridas em ambiência historicamente de muita injustiça e de violência – assentam pilares exactamente nisso: no amor, através de dois dos seus maiores mandamentos.
É sabido e pacífico de que os dez mandamentos são preceitos que vinham já da célebre e antiga Tábua de Moisés e que eram a Lei para os judeus. No entanto, os dois mandamentos sobre o amor e a aceitação do próximo ganharam (na boca do Nazareno) nova interpretação, uma releitura mais enfatizada. Para além de renovada persuasão e reiteração à sua prática interiorizada, fez também depender deles, subordinando, os restantes preceitos inseridos na mesma tábua.
Daí que, ao comparar o que sobre isso nos informaram e foram transcritas para o documento magno, a Bíblia, os quatro evangelistas maiores: João, Lucas, Marcos e Mateus, impulsionaram a escrita deste pequeno texto.
Como transmissores que foram da doutrina e do legado deixado por Cristo, assemelham-se naturalmente no conteúdo, diferindo embora, na forma e no estilo de os recontar. Observemos pois os diversos matizes, da mesma realidade:
 Em S. Mateus:(Mt 23, 34-40) «O mandamento do Amor Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo. E um deles, que era legista, perguntou-lhe: Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas».
Na mesma linha, o evangelista S. Marcos (Mc 12, 28-34) reconta este trecho da vida de Jesus: « Aproximou-se dele um escriba que os tinha ouvido discutir e, vendo que Jesus lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: «qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: (…) amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.» (…)
São Lucas, que segundo os biógrafos, fora “médico e seguidor de Paulo, teria um evangelho mais próximo da mentalidade do homem moderno” pontua neste capítulo através da seguinte versão (Lc 10, 25-28):
. «Levantou-se então, um doutor da Lei e perguntou-lhe para o experimentar: – Mestre, que hei-de de fazer para possuir a vida eterna? – Disse-lhe Jesus: – Que está escrito na Lei, Como lês?
O outro respondeu: – Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe Jesus: - Respondeste bem; faz isso e viverás.»
 São João remata com “chave de ouro” a sua versão, pois que acaba por fazer uma simbiose, uma fusão dos dois mandamentos sobre o amor, num único.
Eis o que nos diz (Jo 14, 34-36): «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto, é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros».
A juntar tudo isto, ouso interrogar se não foi também a influência da prática e da sensibilidade afectiva mais perceptível na mulher, e sabemos historicamente, que os ouvintes, os seguidores, mais constantes, mais atentos e que mais rodearam JC foram exactamente mulheres e que Ele as ouviu também. Se isso não terá acrescentado à sua formação espiritual, maior consistência para destacar e considerar de entre os preceitos em vigor, o Amor partilhado entre os Homens, como pilar da religião que deixou.
Não haverá muito mais a acrescentar, na pretensão deste escrito. As interpretações são e serão sempre leituras diferentes de sujeitos diferentes e até, leituras outras do mesmo sujeito, em períodos diversos da sua formação e da sua vida.
Daí que, para concluir, diria que da minha leitura, sobre o amor nas parábolas bíblicas em termos de conceito e de prática requeridos e acentuados por Jesus é que fizeram e continuam a fazer a grande diferença. Não apenas a cronológica – entre o AC (Antes de Cristo) e o DC (Depois de Cristo) – mas também do reforço de um entendimento mais ontológico do ser-se cristão.

Nos 101 anos do nascimento de Maria Helena Spencer

quarta-feira, 16 de maio de 2012



Nunca me canso de voltar à escrita de Maria Helena Spencer. Ela é na minha opinião, uma das mais profundas e completas autoras das Letras cabo-verdianas. Aliás, tudo ou quase tudo, o que esta excelente cronista e ficcionista escreveu é de boa e de agradável leitura. Senhora de uma prosa deliciosa, foi colaboradora por uma boa dezena de anos no único periódico regular e mensal então existente e publicado na Imprensa da Praia, o Boletim «Cabo Verde» (1949-1964).

Pois bem, falar hoje de Maria Helena Spencer é já falar do seu rico e muito prestigiado legado escrito, daquilo que ela nos deixou, não só enquanto contista, como também enquanto jornalista.

Da sua obra, parte dela, até poderia acrescentar, parte significativa dos seus escritos encontra-se compilada, desde 2005. Mas manda a verdade que seja dita que faltam ainda por compilar outras peças escritas desta excelente autora, dispersas e insertas no antigo Boletim «Cabo Verde». Digo isto, porque a colectânea «Contos Crónicas e Reportagens» pretendeu ser tão-somente, uma amostragem qualitativa da escrita vária de Maria Helena Spencer e os textos seleccionados – com um timbre subjectivo, vale sempre dizê-lo – foram considerados os mais ilustrativos da tipologia da escrita diversificada desta Contista, Jornalista, que abrange a Entrevista, a Reportagem, a Crónica e ao Conto. Estou convicta de que a escrita desta autora pede outras abordagens, ou melhor, outras análises que destacassem com critérios, a diversificação dos seus escritos.

Apenas uma rápida informação biográfica de Maria Helena Spencer Santos, que assinava muitos dos textos publicados no «Cabo Verde» apenas com a as iniciais MHS. Nasceu na cidade da Praia, em 1911 e faleceu na cidade de Faro em 2006, aos 95 anos de idade. Fez os estudos primários na Praia, parte do Secundário no Colégio das Doroteias em Sintra e findou o Curso Complementar dos Liceus no antigo Liceu Infante D. Henrique em Mindelo, S. Vicente. Foi Professora primária na ilha da Brava, funcionária dos CTT na Praia aí viveu até meados dos anos 60 do século XX. Colaboradora permanente do Boletim «Cabo Verde» e, curiosamente ganhava o seu sustento também como modista – segundo me contaram alguns familiares e amigas dela – fazia belos e artísticos vestidos de noiva.

Dos meus registos, Maria Helena Spencer deve ter sido, creio eu, a primeira Jornalista em Cabo Verde, encartada, isto é, com licença para exercer a profissão. Posto assim de forma abreviada e informal, eis a biografia de Maria Helena Spencer, passo agora à sua faceta de Contista.

A estrutura das narrativas de MHS, tende para a do conto clássico, se assim me é permitido expressar, isto é, vamos encontrar em muitas delas, enformando o conteúdo: o jogo do bem e do mal, as indagações e as angústias existenciais do homem e da mulher, no caso, cabo-verdianos, as interacções respectivas com o seu meio, a sua sociedade. Vamos também encontrar nos contos desta autora, sugeridas ou explicitadas, as contradições da natureza humana, a espiritualidade cristã da autora aparece bem vincada, bem acentuada em muitos textos ficcionistas e ensaísticos desta escritora. Outra marca da autora é a intertextualidade entre a sua escrita jornalística e a sua escrita literária. Os termos, quando necessários, são pesquisados na sua semântica e contextualizados na história a narrar. O leitor apercebe-se desta contaminação, em alguns contos.

Seria igualmente bom realçar, que um dos temas bem caros à prosa ficcional da MHS é a emigração. Embora fosse um tema já consagrado na então pujante literatura do Arquipélago. Para esta autora, o fenómeno da emigração é, regra geral, problemático porque quase sempre desestruturador de laços familiares. As mais das vezes, mal sucedida e não revelada aos que ficaram nas ilhas. São os casos, para exemplificar, narrados nos contos: «O Regresso», «O Meu Irmão Branco» «O Homem do Leme», cujos enredos dão conta ao leitor, da forma como autora aborda esta temática fulcral que vem da considerada antiga literatura cabo-verdiana.

A escrita de MHS, sobretudo as suas crónicas revelam-na como alguém - embora preocupada com os problemas sociais - possivelmente optimista, crente na vida, alegre. Aliás, ela expressa isso de forma clara, quando, por exemplo, evoca elogiando num texto, a poesia e as cantigas alegres e satíricas de Jorge Pedro Barbosa, poeta e filho do grande poeta Jorge Barbosa, para as contrastar com algum melancólico pessimismo inscrito na literatura da época.

Daí que, julgo eu, que ela tivesse resistido muito tempo para escrever sobre um tema então recorrente, porque muito real e presente para os nossos escritores e poetas das ilhas desse tempo e que teve uma incontornável dimensão na produção literária de quase todos eles. Refiro-me à fome e à seca. Eis que nos anos sessenta do século passado, MHS, abalança-se e escreve sobre isso um Conto simplesmente genial: «Uma História Entre Muitas» Trata-se efectivamente duma saga densamente dramática e extraordinariamente envolvente, que não deixa ninguém que o leia indiferente. De facto, este Conto é no meu ponto de vista de leitora, um dos melhores trechos descritivos e narrativos da grande tragédia que amiúde visitava as ilhas. A narradora é uma mulher, Marina, oriunda do interior da ilha de Santiago, quem, no crescendo dramático e comovente, narra na primeira pessoa a sua história, dando realismo e verosimilhança à história da família que de bons anos de colheitas, de festas fartas e típicas do interior da ilha, passa à penúria, à miséria mais abjecta em que a morte é parte grotesca desta imensa tragédia.

É de leitura obrigatória, recomendo-vos. Quem queira conhecer a capacidade narrativa desta escritora, deve ler «Uma História Entre Muitas».

Volto a repetir, a narrativa é simplesmente genial!

Para terminar, gostaria de reafirmar que a escrita de Maria Helena Spencer não se confina à ficcional. Ela foi com igual mérito Jornalista, autora de excelentes textos ensaísticos e de opinião sobre temas sociais, históricos variados que preocupavam Cabo Verde da época.