Ah! O Bacalhau!...
terça-feira, 30 de abril de 2013
A expressão que intitula este escrito inspirou-se na recente leitura do livro homónimo, «O Bacalhau, na vida e na cultura dos Portugueses» de Marília Abel e Carlos Consiglieri.
Resumidamente, o livro apresenta ao leitor através de uma viagem no tempo e no grande espaço então português, as diversas formas que os escritores, jornalistas, caricaturistas, gente da escrita e do pensamento incluíram e descreveram nos seus textos (em que a sinestesia não faltou) o chamado “fiel amigo.” De entre os famosos conhecidos, lugar destacado para Eça de Queirós (1845-1900) que o celebrizou sem reservas.
O livro também nos mostra como este peixe, pertencente à ordem dos “gadus” entrou na cozinha e nas receitas domésticas africana e oriental, levado pelos portugueses que o não dispensavam nessas paragens e a constância com que o solicitavam à então Metrópole.
O bacalhau está de tal maneira enraizado na cultura portuguesa que compõe provérbios, ditos e expressões populares. Interessante é que começou por ser comida de pobre e só mais tarde, no séc. XVIII é que passou às mesas abastadas.
De tudo isso nos dá conta o livro em apreço. Valeu a leitura.
Ora bem, a pretexto disto, veio-me à lembrança, um episódio que se passou no ano 2000, quando me desloquei ao Brasil, mais precisamente ao Rio Grande do Sul, para aí assistir à formatura do meu filho, “colação de grau” no dizer brasileiro.
Abro aqui um pequeno parêntesis: Espero que ele (o meu filho) não se zangue se ler isto. É demasiado discreto, para este tipo de narrativa. Não sai à mãe… Fecho o parêntesis.
A semana da minha chegada coincidiu com a última das actividades da turma dos finalistas do curso de medicina desse ano. Chamam-na ou, chamaram-na se a memória não me falha, “a semana da saudade.” Poética a designação. Os formandos andaram quase sempre todos juntos, diariamente em celebrações, convívios, entre outras formas de selar e zelar a camaradagem, a amizade firmadas ao longo do percurso universitário; o fim de uma etapa da vida e a separação prevista, pois que cada um havia de seguir o seu caminho.
Pois bem, coube ao meu rapaz oferecer um almoço na casa que ele ocupava com outros dois colegas. Sabedora dessa parte do programa, eu havia levado de Lisboa uma razoável quantidade de bacalhau, mais o azeite, pois que me fora recomendado assim fazer.
De permeio e em jeito de “intermezzo” recordo as recomendações do meu irmão mais velho, e então quadro da TAP, que me disse na altura: “Atenção, se te abrem a bagagem em S. Paulo e te retiram o bacalhau, assegura-te que o inutilizam na tua presença… (e a brincar) ou, então vai ser um bom pitéu na mesa deles…”
Lá fui eu receosa se tinha de alterar ou não, a ementa do almoço do meu finalista. Não vá sem confessar que não possuo grandes dotes culinários, (Felizmente, casei-me com um cozinheiro de “mãos cheias,” como sói dizer-se) mas um bacalhau cozido, sempre lá o vou fazendo e, penso que a preceito.
Passei a luz verde alfandegária paulista e cheguei ao destino com o “fiel amigo” são e…sobretudo, salvo!
Fez-se a refeição convivial. Alegre e ruidosa como normal naquelas circunstâncias. E o interessante foi a unanimidade havida em torno do prato principal: “Ah! Nada como um bom bacalhau!” E isto vindo de papilas gustativas brasileiras, angolanas e cabo-verdianas que participaram do almoço. Um dos finalistas, angolano, por sinal o mais velho da turma, virou-se para mim e com ar sorridente, saiu-lhe esta: “minha senhora, isto (referindo-se ao bacalhau) é o verdadeiro cimento que nos une…não há dissonâncias. Ah!Ah!Ah!”(gargalhou ele ruidosamente)
Nos dias subsequentes, e como havia sobrado muito bacalhau. Afinal levara mais do que eu própria julgava, variei a forma de o confeccionar e assim comemos bacalhau por mais dois dias. Coincidência ou não, abeirando-se a hora da refeição, soava a campainha da porta. Os rapazes da casa, não sem antes resmungar, exclamavam: “mas que pontaria! Bem na hora do almoço!” E, ao abrir a porta, diziam ao recém-chegado a brincar: “…bacalhau acabou!”
Eu, presenciava tudo isto, deliciada e bem contente, pelo sucesso do meu bacalhau que, afinal, não me deixara ficar mal!
O saber ser do professor… Salvé 23 de Abril!
terça-feira, 23 de abril de 2013
Hoje é o Dia do Professor cabo-verdiano que tem como patrono a figura incontornável da cultura nacional, Baltazar Lopes da Silva, que completaria hoje 106 anos sobre o seu nascimento.
Nunca me canso de bem-dizer a escolha da data para se celebrar o dia do professor nestas ilhas! Ainda bem que assim foi. É que Baltazar Lopes da Silva para além de poeta, romancista, contista e também renomado filólogo, foi professor e Reitor por muitas décadas do distinto Liceu de Gil Eanes em S. Vicente. Professor que marcou muitas gerações de alunos.
A juntar a isto tudo ele foi igualmente, Advogado de defesa de algumas causas dos deserdados da sorte. Lembremo-nos que ele era licenciado em Letras e em Direito pelas faculdades respectivas da Universidade de Lisboa.
Sobre esta notável e ímpar figura da História cabo-verdiana do século XX, muito sobre ela vêm escrevendo, pesquisando e descobrindo a profunda riqueza literária e humanística que nos legou, não só pela forma como caracteriza aquilo que comummente se designa por “caboverdianidade”, como também pela beleza estética e temática da sua escrita ficcionista e poética.
Comemora-se o dia do Professor cabo-verdiano! E na sua esteira impõe também uma reflexão, ainda que breve, sobre o nosso ensino, sobre o perfil do docente e sobre o papel da escola na vida da criança e dos adolescentes, estes sobre quem, a instituição escolar exerce uma enorme e muitas vezes marcante influência transformadora em fases fundamentais das suas vidas.
Faço votos que nas escolas e com os professores do ensino público e do ensino privado este dia seja condignamente comemorado.
Gostaria de poder preencher esta pequena e brevíssima reflexão com palavras e juízos que demonstrassem confiança e alegria sobre este pilar (o ensino) tão precioso e, diria, vital para qualquer sociedade! Infelizmente não vai ser assim.
Sobre o nosso ensino e o que sobre ele se percebe hodiernamente, merece-nos uma grande apreensão e preocupação naquilo que consideramos serem alguns desvios, desleixos, facilitismos e, sobretudo, alguma ignorância pedagógica e científica que o vem contaminando e minando os seus alicerces que deveriam ser os de uma verdadeira fortaleza.
Verifica-se entre os alunos (falo no geral, as excepções não são matéria principal deste escrito) e para mal dos nossos pecados, uma incultura e uma falta dos saberes, que são de arrepiar! Pois bem, estas ferramentas deviam ter sido adquiridas ao longo das etapas escolares e dos patamares académicos. A questão que se põe: por que razão tal não está a suceder?
Antes de prosseguir, abro aqui um curto parêntesis para dizer o seguinte: numa abordagem que se pretende com alguma ética, não é correcto comparar gerações, por todas as razões que lhes estão inerentes, atribuindo valorizações e desvalorizações a uma e/ou a outra. Fecho o parêntesis.
É que por vezes apanho-me a pensar que a geração muito anterior, relativamente e em igualdade de escolaridade, é mais culta e sabedora do que a que se vem formando actualmente nas instituições de ensino, quer secundárias, quer superiores nestas ilhas. E isto revolta-me, pois não deveria estar a acontecer!
Se por um lado, em Cabo Verde a tecnologia de informação e mesmo de alguma formação – próprios da época actual – ainda não estão tão disponíveis e nem são tão abrangentes à nossa camada estudantil, como em outras paragens mais desenvolvidas o que vale dizer que ainda a maior parte dos nossos alunos, espera e conta muito com o que a escola lhe dá em termos do saber e do saber fazer.
Por outro lado, trata-se de uma geração em que uma parte dela tem acesso a meios de tecnologia de informação e de formação que a geração anterior, nem sonhava que existissem.
Nesta conformidade e contexto, ainda por equilibrar, o papel do professor bem preparado – pois é isso mesmo que qualquer encarregado de educação, deseja que os filhos tenham na sala de aula – ganha uma importância que não me inibo de classificar de transcendente.
Trata-se de um perfil que deve poder aliar a pedagogia escolar e social com a ciência específica da disciplina que ensina. É este perfil, no geral, que nos está a falhar e a escassear para uma correcta postura docente e uma praxis adequada na transmissão de conhecimentos, para que se atinja o essencial no sistema de ensino que é a sua qualidade.
A ausência deste perfil (de professor) é também responsável por esta espécie de desastre, perdoem-me a dureza da expressão, que vem acontecendo no interior da escola, de que tanto se fala, com graves reflexos na edificação do ser social e laboral que ela tem a seu cargo.
Estaria a ser injusta se deixasse todos os males da escola por cima dos ombros do professor. Não, não seria de todo justo! Há outros co-agentes ou suportes que concorrem com similar paridade para que os objectivos educativos e formativos cheguem a bom porto. Desde logo, a organização e a gestão do sector educativo no seu todo, a parceria escola/sociedade, entre outros.
Caberia aqui destacar o papel da família enquanto responsável primeira pelo ser que ao mundo trouxe e que em Cabo Verde com particular acuidade, devia ser alertada com frequência e com constância maiores pela sua, diria, negligência e facilidade com que descura a transmissão de algum saber estar, de alguma boa educação caseira aos filhos em idade escolar.
A chamada disfuncionalidade familiar, o abandono parental e a já significativa inexistência de família nuclear estruturada, são infelizmente, os grandes causadores entre nós, dos males que se projectam na escola e se reflectem na sociedade actual e vindoura.
Para finalizar, e por ser o Dia do Professor, um dia de todo especial para este servidor específico, alguns deles, e já estamos a entrar no campo das excepções, muitas vezes também dedicados e abnegados à sua profissão, gente capaz e que não obstante as imensas carências de material bibliográfico, laboratorial e outros, com que se deparam no seu dia-a-dia de trabalho, se empenham em ser bons profissionais. Para eles uma palavra de apreço.
Incapacidade de Interpretação?...
segunda-feira, 25 de março de 2013
O título deste escrito inscreve-se
a propósito do texto recentemente publicado neste “Blog” e intitulado: “Legalidade, Legitimidade & Sociedade
Civil” para o qual convido o leitor do Coral
Vermelho, a uma leitura serena, pois que se tratou de uma análise
especulativa em que o autor pretendeu colocar como centro da alternância
democrática, o “poder de veto” que possui a oposição. Em resumo, à nossa
oposição com representação parlamentar e sempre putativo executivo próximo, traz
na sua força política dada pelo voto popular, essa capacidade de dizer ao
governo actual (à situação) de que, por exemplo, quando for poder, poderá
derrogar, alterar tal lei, tal dispositivo normativo que está a ter um efeito
perverso para o cidadão. Outro tema desenvolvido no referido texto foi o da
diferença entre a legalidade e a legitimidade pelo uso e por vezes pelo abuso que
o partido no poder faz da “sua maioria”. Tão simples como isto! Em suma, um
texto de todo em todo, de análise, reitero.
Vai daí, meus senhores,
desataram alguns leitores em insultos e numa verborreia descompensada que me
levaram a pensar, em duas possibilidades, quiçá justificáveis por tal atitude,
mas qual delas a pior.
A primeira, ou esta gente
(que comentou a despropósito) deixou de entender, de compreender e de
interpretar a língua portuguesa de vez, ou então, a segunda, não leram o dito
texto e seguiram o primeiro “comentador” qual rebanho ignaro! Que tristeza!
Perderam em qualquer das circunstâncias, uma hipótese interessante de se
informarem.
Volto a repetir que fiquei altamente perplexa
e preocupada com a incapacidade de interpretação de determinados leitores que
sem cuidarem de perceber o conteúdo do texto, desataram em descontextualizados
comentários recheados de impropérios grotescos e obscenos, sem qualquer nexo ou
lógica discursivos.
Como professora que fui, (se
calhar nunca se deixa de ser) confesso que me entristece ver escrito, este tipo
de comentários incompreensíveis. Revelam infelizmente que o raciocínio cognitivo
e o que se classifica de dedutivo/ analítico andarão muito em baixo na mente de
alguma da nossa gente escolarizada!
Não vá sem acrescentar que
tenho vindo a notar que “baixou” e muito, o nível intelectual, com relação à
idade e ao patamar de escolaridade entre a novel geração. Um exemplo disto verifiquei-o
eu em sessões lectivas, numa instituição de ensino superior e com uma turma que
estava a leccionar pela primeira vez e já em fase final da minha docência
activa. A determinada altura, pedi a cada aluno que escolhesse a seu gosto um
livro para ler e fazer uma recensão crítica. Acreditem que mais de metade da
turma escolheu um livro infanto/ juvenil da colecção dos “Cinco” ou similar! E
isto, entre jovens, alguns de maioridade e já no 2º ano do curso! Ou seja,
nenhum deles foi capaz de ler e de analisar, um romance a sério, ou um livro de
contos ou de poemas, ou ainda de outro género. Altamente preocupante! Claro que
existem excepções! Mas lá está, infelizmente são cada vez mais raras.
De qualquer modo, tudo isto é confrangedor
para gente da minha geração com alguma literacia.
Ah! Já me ia esquecendo, uma
nota “en passant” para os que teimam em ver-me “candidata” a cargo presidencial.
Agradeço mas não estou minimamente interessada. Deixei a política activa em
2000 e por ela passei como missão cívica. Respeito os que estão nela, mas não
os invejo. Bem pelo contrário, não queria e nem desejaria estar-lhes na “pele”
como sói dizer-se. Considero-me uma cidadã e uma mulher bem realizada. Pertenço
hoje a um clube fantástico: O das avós! Invento e conto imensas histórias aos
meus netos. Colaboro com instituições de solidariedade social; ajudo com
prazer, alguns estudantes com teses de final de curso. Cuido com amor da casa e
das plantas. Leio, escrevo, canto, nado e passeio. A minha família, os meus
amigos e os meus antigos alunos mimam-me muito! Sinto-me privilegiada.
Bem o meu escrito já vai
longo e não foi essa a intenção primeira; apenas quis, com isto manifestar o
meu espanto pela manifesta incapacidade de leitura, de interpretação e de
crítica de alguns leitores que subscreveram tão inopinados e incorrectos comentários,
com relação ao texto: “ Legalidade,
Legitimidade e Sociedade Civil” aqui publicado.
Por último, uma sugestão
amistosa para os referidos leitores: se têm pretensões críticas, o que não é
mau, estudem, leiam, informem-se e, sobretudo, cuidem da linguagem! Após isto,
comentem.
Um esclarecimento necessário
sexta-feira, 22 de março de 2013
As
mentes grandes discutem ideias;
as
médias coisas;
e
as pequenas pessoas.
Kalil Gibran
Estou
fora do País e, normalmente, não costumo escrever nestas circunstâncias.
Acontece porém, que recebo de um bom amigo de longa data, um “e-mail” com a
seguinte mensagem (transcrevo a parte que interessa):
“Caro Armindo: o que é que fizeste para merecer
tamanhos insultos? Estou convencido que isso somente poderia vir de pessoas que
não conhecem nem a tua pessoa e nem o teu percurso. Eu não intervim porque não
vi o teu comentário ou artigo publicado a respeito...
Um rijo abraço,
Luiz.”
É
óbvio que fiquei estupefacto porque não me lembrava de ter escrito qualquer
texto alusivo ao actual Presidente da República e mesmo que o tivesse feito,
sei que ele como democrata sabe que não está acima da crítica honesta e respeitosa
que é a que normalmente faço. E por isso remeti ao meu amigo a seguinte
mensagem:
“Meu caro Luiz, só hoje abri
o meu “e-mail” e não sei rigorosamente nada do que falas. Onde é que fui
insultado? Não escrevi para nenhum jornal… E a propósito de quê é que fui
insultado? Agradecia que me informasses.
Um abraço.”
O
meu amigo, presto como sempre, não tardou a enviar-me o endereço do sítio de onde
ele tivera conhecimento da notícia avisando-me de que tinha sido por interposta
pessoa, bem como dos tais comentários que a acompanhavam.
Fiquei
indignado. Muito indignado mesmo! Mas muito menos com as inúmeras baboseiras e
aleivosias proferidas a meu respeito do que com a petulante ignorância dos seus
autores. Concluí, (não era difícil) que só podia ter provocado essa onda de cretinice,
o meu último texto no “Coral-vermelho” – “Legalidade, Legitimidade &
Sociedade Civil”. E fui revisitá-lo. A única, sublinho, única, alusão ao
presidente da república – de forma abstracta – é a que a seguir transcrevo:
“Igualmente, um presidente
da república que jura cumprir a Constituição e ignora-a negligenciando os seus
deveres ao promulgar, deixar passar dolosamente – porque previamente avisado
para essa eventualidade – leis inconstitucionais para nítido benefício do
governo ou do partido que lhe é politicamente próximo, continua a ser legal mas
não legítima a sua titularidade por faltar à palavra, por deliberadamente não
honrar um juramento.”
Do
texto que NÃO LERAM (ler não é juntar letras para fazer palavras) e como tal
não podiam compreender, tiraram conclusões abusivas e absurdas, seguramente a
mando ou orientação de alguém não próximo do actual PR para quem, se houver
carapuça, esta não lhe serviria.
Como
puderam de um texto tão abstracto e impessoal do qual nenhuma linha se ajustava
ao actual PR, tirar tão cruel e descabida conclusão?
Fiquei
muito triste com a confrangedora iliteracia política e literária dos autores
dos comentários. Uma desilusão!... Felizmente que ela é circunscrita a meia
dúzia de indivíduos que nem sequer tem consciência da sua imbecilidade.
Mas
como quem cala consente, depois de enviar um e-mail ao meu amigo
agradecendo-lhe a solidariedade, redigi uma mensagem para o jornal que não tinha
tido suficiente cuidado em moderar convenientemente os comentários, pois se o
tivesse feito teria verificado que esses comentários NADA tinham a ver com o
texto publicado.
Transcrevo
a seguir o texto enviado ao jornal a título de comentário:
"Sou ARMINDO FERREIRA e não me escondo
atrás de pseudónimos. Sou da Guiné-Bissau filho de emigrante cabo-verdiano como
muitos o são de outras paragens. Acabo de ler, porque um bom amigo me chamou
atenção para o facto, umas bacoradas a meu respeito. Estive hesitante se devia
ou não responder, tal é a baixeza e a gratuitidade dessas obscenidades.
Em primeiro lugar não sei a que propósito vem o meu
nome, porque não citam o contexto nem o propósito, o que de per se já denota uma falta de
respeito pelos direitos e liberdades individuais. Tudo leva a crer que seja por
má-fé, ignorância ou, quiçá, um péssimo domínio da língua portuguesa. Numa
palavra: Se leram alguma coisa não compreenderam nada, pois não sabem
minimamente o que estão a dizer. Por isso não perco muito mais tempo.
Para finalizar quero deixar claro que:
1 – Não sou, nem nunca fui do PAICV – nem simpatizante
e, muito menos, militante;
2 – O meu Presidente é o Dr. Jorge Carlos Fonseca,
eleito de forma clara, transparente e inequívoca como já o afirmei num dos meus
textos;
3 – Uma vez que se referem à Constituição, tanto
quanto eu sei (não leio jornais digitais com assiduidade) até agora, não
conheço nenhum conflito (no TC) entre o PR e a Constituição pelo que deduzo que
ele tem vindo a ser um rigoroso guardião da Constituição que ele ajudou a
elaborar;
4 – Quantos às vossas ameaças, peço-vos muito
encarecidamente, que como democratas que pretendem ser, e porque estamos num
estado de direito democrático, que as denunciem e divulguem de forma clara e
provada cumprindo o vosso papel de democratas, porque se o não fizerem
assumidamente não passarão de reles covardes e mentirosos. Como diz o
povo: Quem não deve não teme!”
Em jeito de
fecho, acresço que continuo a aguardar que esses energúmenos aprendam a LER português
para comentar e criticar adequadamente os meus textos e que concretizem a
ameaça que fizeram quanto à minha conduta moral, civil e criminal, mas desta
feita sem pseudónimos e com provas, mostrando-se menos mentirosos, covardes e
desonestos do que quando garatujaram as suas enormidades.
A.Ferreira
Legalidade, Legitimidade & Sociedade Civil
domingo, 3 de março de 2013
O
Governo tem sido autoritário usando e abusando da sua maioria. Nada tem de
ilegal esse comportamento. Não é contudo legítimo ele pensar que ele, e só ele
e a sua maioria têm sempre razão e agirem sempre como se assim fosse. A maioria
não é o todo, e a democracia tem regras que nem sempre se regem pela aritmética
parlamentar.
Numa
democracia representativa como a nossa, o eleito assume implicitamente um
conjunto de compromissos feitos de viva voz – nos
comícios, nas entrevistas na comunicação social, nos debates, nas reuniões
públicas com as forças vivas da sociedade – ou constantes do seu programa a que
se obriga a cumprir. E o dever do cumprimento desses compromissos é tanto maior
quanto maior for a ausência de uma sociedade civil autêntica e actuante. O
incumprimento, no fundamental, das promessas eleitorais, sem o aparecimento de
verdadeiras novas e imprevisíveis circunstâncias impeditivas torna o eleito
ilegítimo, porque fraudulento e desonesto.
Igualmente,
um presidente da república que jura cumprir a Constituição e ignora-a
negligenciando os seus deveres ao promulgar, deixar passar dolosamente – porque
previamente avisado para essa eventualidade – leis inconstitucionais para
nítido benefício do governo ou do partido que lhe é politicamente próximo,
continua a ser legal mas não legítima a sua titularidade por faltar à palavra,
por deliberadamente não honrar um juramento.
A
legalidade e a legitimidade devem andar de mãos dadas. E embora se sobreponham
quase sempre, a fronteira é clara e distinta.
A
legitimidade não é pois um problema jurídico mas sim político e comportamental.
E desta forma a sua perda – falta de legitimidade – configura formulação de
políticas contrárias aos compromissos assumidos e aos interesses mediatos dos
eleitores ou um comportamento que não se coaduna com a dignidade da função.
Quando
a legitimidade se incompatibiliza com a legalidade a palavra pertencerá à
sociedade civil que normalmente exterioriza a sua insatisfação ou mesmo indignação
através de manifestações de rua, redes sociais da internet entre outras,
enquanto aguarda a chamada às urnas. A legalidade, por sua vez, é um problema
dos tribunais que deve merecer tratamento e julgamento imediatos.
A ausência de uma sociedade civil forte no
nosso país deve-se, entre outras razões, a omnipresença dos partidos políticos nessas
organizações e/ou iniciativas que de modo directo ou indirecto, subtil ou
declarado pretende sempre controlá-las, condicionando-as ou orientando-as para
os seus propósitos. Isto faz com que qualquer acção ou actividade da sociedade
civil “traga”, à partida à colação, uma grande conotação política que
popularmente vem sendo medida pelas colorações político-partidárias dos seus
promotores. Este preconceito ou desconfiança está de tal forma enraizado no
imaginário colectivo que até os próprios promotores procuram escamoteá-lo com a
introdução de um ou outro elemento mais “soft” de outra cor mesmo quando este não
esteja nos seus propósitos ou não reúna suficientemente as condições inerentes
para tomar parte no evento ou na organização. Raramente se tem fugido a este
figurino.
Ultimamente
registaram-se com satisfação movimentações cibernéticas cobrindo áreas tão sensíveis,
e daí a sua importância, como a corrupção e a regionalização. Sobre elas
circularam petições e subscrições na net. Creio que todos estarão de acordo com
os princípios que norteiam e nortearam essas petições.
O
que não me parece legítimo (não ilegal) é que se façam circular listas de onde
impendem mal disfarçadas “condenações”, por citação em contexto, de pessoas que
nunca foram sequer arguidas quanto mais julgadas e muito menos condenadas com
trânsito em julgado.
O
bom nome de quem quer que seja – amigo ou inimigo, adversário ou
correligionário – não pode ser posto em causa perante que pretexto ou propósito
for sob pena de incorrermos num julgamento e condenação mediáticos ou populares
configurando um atentado ao estado de direito democrático onde impera a
presunção de inocência. Não é sensato e não se compagina com o espírito e as
boas intenções que normalmente presidem as iniciativas desse género.
Todos
os assuntos que digam respeito ao povo cabo-verdiano devem ser discutidos. E
não se pode estar, a priori,
categoricamente pró ou contra – embora tenhamos os nossos sentimentos – sem os
dissecar cumulativamente nos planos social, económico e político, entre outros.
Balançar bem os custos, os benefícios e as alternativas. Não com retórica mas
com cálculos, propósitos nacionais e honestidade intelectual. E ter sempre
presente que temos uma economia com uma forte componente de reciclagem de
donativos – dependente de doações e do exterior – o que nos aconselha a não transformar
o nosso País numa feira das vaidades, cada um exibindo e guardando a sua
capelinha. E neste contexto não podemos ter veleidades de criar estruturas,
instituições ou ter qualquer actividade ou iniciativa para depois estender a
mão para que nos ajudem a executá-las ou a sustentá-las.
Voltando ao assunto com que iniciei este texto – a “ditadura” da maioria – a oposição política, parlamentar ou não, e os amantes da democracia também têm a sua quota-parte neste estado de coisas. O governo escuda-se na legalidade e compreende-se. Compete à oposição e à sociedade civil fazer ver o governo que na política a legitimidade é uma componente tão relevante quanto a legalidade. Não vale apenas decidir no quadro legal. Este é sempre necessário mas não é suficiente. É igualmente importante que a decisão legal, por acção ou por omissão, seja legítima. Que vá ao encontro das promessas e dos programas eleitorais e seja em benefício da qualidade de vida e dos anseios dos cidadãos.
Mas a principal responsabilidade pela contenção institucional dos excessos do governo é da oposição no seu todo. E neste contexto a maior fatia vai com certeza para os partidos com representação parlamentar com especial relevo para o MpD como partido de alternância governativa. E por este facto é o único que tem, como já disse alguém, o “direito de veto”. Este direito, pertencente aos partidos da alternância governativa, consubstancia-se em assunções claras e declaradas de políticas alternativas, formulando postulados do género:
“Quando for governo vou revogar a lei neste sentido.” “Quando ganhar as eleições, esta lei que hoje aqui foi aprovada por vós, será derrogada por nós, pelo mal que causa aos cabo-verdianos.” “Logo que assumamos o governo esta lei será removida, pelo efeito perverso que à nossa sociedade causa.
Voltando ao assunto com que iniciei este texto – a “ditadura” da maioria – a oposição política, parlamentar ou não, e os amantes da democracia também têm a sua quota-parte neste estado de coisas. O governo escuda-se na legalidade e compreende-se. Compete à oposição e à sociedade civil fazer ver o governo que na política a legitimidade é uma componente tão relevante quanto a legalidade. Não vale apenas decidir no quadro legal. Este é sempre necessário mas não é suficiente. É igualmente importante que a decisão legal, por acção ou por omissão, seja legítima. Que vá ao encontro das promessas e dos programas eleitorais e seja em benefício da qualidade de vida e dos anseios dos cidadãos.
Mas a principal responsabilidade pela contenção institucional dos excessos do governo é da oposição no seu todo. E neste contexto a maior fatia vai com certeza para os partidos com representação parlamentar com especial relevo para o MpD como partido de alternância governativa. E por este facto é o único que tem, como já disse alguém, o “direito de veto”. Este direito, pertencente aos partidos da alternância governativa, consubstancia-se em assunções claras e declaradas de políticas alternativas, formulando postulados do género:
“Quando for governo vou revogar a lei neste sentido.” “Quando ganhar as eleições, esta lei que hoje aqui foi aprovada por vós, será derrogada por nós, pelo mal que causa aos cabo-verdianos.” “Logo que assumamos o governo esta lei será removida, pelo efeito perverso que à nossa sociedade causa.
Meus
senhores tenham isso bem presente na feitura de leis, de forma a garantir-lhes
alguma perenidade! Leis que não sejam apenas apresentadas com fins imediatos e,
por vezes, ostensivamente eleitoralistas”.
Isto
levaria a maioria a pensar na transitoriedade da sua lei e a procurar, por um
lado, uma melhor e mais profunda reflexão na sua elaboração, ponderando os seus
efeitos presentes e futuros, por outro lado, promoveria um consenso duradouro
para o seu próprio bem e para o do País.
Creio ser ponto assente que este papel é dos legados mais significativos de qualquer oposição que se preze. Isto é, um papel que não se queda, ou não se esgota em criticar e em opor-se sempre que a situação os mereça mas é sobretudo, o de convidar o governo de forma permanente, a meditar sobre a passageira e transitória legalidade detida e que um “amanhã” virá mais cedo do que se possa conjecturar.
O
que o MpD não pode continuar a fazer é declarar-se apenas contra, mesmo
argumentando brilhantemente das razões que o levam a fazê-lo sem assumir
claramente a sua posição de veto, isto é, a alternativa como partido da
alternância, sem qualquer complexo de dar “dicas” à situação o que a população
aprecia, regista e agradece.
A.Ferreira
O Valor da Língua Oficial
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Vem isto a propósito daquilo que pude perceber das notícias que circularam sobre os condicionalismos impostos à selecção de futebol de Cabo Verde relativamente à nossa Língua oficial, na sua comunicação com a imprensa internacional presente nos jogos da CAN 2013, realizada na África do Sul.
Não vá sem acrescentar que achei interessante e prestigiante para os «Tubarões Azuis», o facto de se terem recusado a comunicar-se com os Jornalistas que não fosse em português, à semelhança de todas as outras selecções, cujos integrantes são falantes do francês e do inglês
Dito deste modo, surpreende que os «Tubarões Azuis» tivessem sido impedidos de se expressar – com os jornalistas que aí ocorreram por ocasião dos jogos de futebol – na sua língua oficial.
Embora não esteja na posse de todos os dados que conformaram este episódio, uma vez que desconheço, as razões que lhe estiveram na origem, nomeadamente, se a interdição partiu da organização da CAN, (o que estranha dado que a LP é uma das línguas da UA (Unidade Africana) ou se do país organizador e acolhedor dos jogos. No entanto não deixa de ser perturbador, no mínimo, que tal impedimento tenha existido.
No meio de tudo isto, vale destacar e registar o comportamento linguístico dos nossos jogadores que queriam comunicar sim, mas na sua língua, em igualdade de circunstância dos outros jogadores, que o puderam fazer nas respectivas línguas oficiais. Apreciei.
A isto se chama também de dignidade linguística!
Mais apreciei o facto de os Jornalistas, alguns, terem declarado que da próxima iriam estar preparados, aprendendo o português, pois a presença de Moçambique, a de Angola, já habitual e a de Cabo Verde que se lhes juntou em 2013, demonstrava e confirmava o peso da Língua portuguesa na CAN, fenómeno a que se deveria prestar atenção. O que nos remete para o valor da Língua oficial, para os seus falantes.
Vejam que até nisso, os «Tubarões Azuis» marcaram presença.
Ponte da Ribeira d’Agua ou Ponta do Iceberg?
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Estava para nada dizer sobre a queda da ponte na Boa Vista. Todavia, ao ler as declarações da Ministra das Infra-estruturas e Economia Marítima sobre essa ocorrência achei que devia desabafar.
Nenhuma obra de engenharia é eterna. Nem as faraónicas pirâmides do Egipto que foram edificadas com essa finalidade. Haverá sempre um horizonte temporal condicionado à natureza da obra, à taxa de utilização, ao desgaste do material, ao período de recorrência da amplitude de determinados fenómenos naturais e ao custo intimamente associado a este parâmetro pelas medidas de segurança a tomar.
Mas justificar o que se passou na Boa Vista com um simples “não é a primeira vez que uma ponte cai em Cabo Verde” parece-me de uma ligeireza que roça o ridículo.
A Ministra das Infra-estruturas não é engenheira nem tem qualquer conhecimento técnico da gestão do sector e não era necessário que a fosse nem que o tivesse para o desempenho das suas funções políticas. Mas a sensatez e o respeito pelos outros e por si própria, indispensáveis para o exercício dessas funções aconselham uma contenção ou uma elevação de linguagem sob pena de menorizar a inteligência dos cabo-verdianos aos quais deve a circunstância de se encontrar nesse lugar.
Na sua suprema superficialidade e fluida demagogia, a ministra vai mais longe, e com alguma infelicidade, ao trazer à colação o que classificou de queda da Ponte de S. Jorge partidarizando, ao falar do Governo do MpD, pretendendo desta forma transpor para a luta partidária uma outra ocorrência – a da Ponte da Ribeira d’Água – cujo carácter político ultrapassa de longe o âmbito estritamente partidário para se situar na esfera nacional, de cidadania, de civilidade, com forte apelo à intervenção imediata da Procuradoria-Geral se estivermos num País sério.
Digo infelicidade por que certamente foi pessimamente informada quanto ao que aconteceu na ponte, então ainda em construção, de São Jorge, no tempo do governo do MpD. E no ministério terá certamente gente bem informada para lhe contar a história. Nenhuma relação poderá existir entre as duas situações.
Uma coisa é um inquérito – técnico – interno aberto a uma ocorrência na construção de uma obra ainda sob total responsabilidade da empreiteira e outra, bem diferente, é o inquérito global ao colapso de um equipamento público cuja garantia expirara o prazo e sob total responsabilidade do Estado. O dever da publicitação não é, nem poderá ser, igual como pretende e insinua a ministra dizendo que é a primeira vez que tal acontece.
Abro um parêntese para dizer que é preciso acabar de vez com a síndrome da virgindade de que padece este governo quando sem se debruçar sobre o historial de qualquer assunto vangloria-se com “é a primeira vez que” com um deslumbramento pacóvio ignorando o efeito boomerang das suas palavras, pois dos quase 38 anos de governação só, e apenas, 10 não pertencem ao actual partido do Governo. Fecho o parêntese.
A Srª Ministra parece sentir-se confortada e feliz com a ilusão de que a ponte de S. Jorge também caiu. Tire daí o seu cavalinho da chuva. Em S. Jorge não caiu ponte nenhuma. Houve sim danos e não queda. Danos na ponte nem sempre são quedas embora quedas sejam sempre danos levados ao extremo. Não se trata de um jogo semântico de palavras. É apenas objectividade. Informe-se bem e depois fale. Não houve, na circunstância, reconstrução mas sim arranjos.
Mas voltando à Ribeira d’ Água, à Boavista, parece que a Srª Ministra ainda não leu o relatório do inquérito. E se o leu não percebeu em absoluto o essencial e o fundamental do seu conteúdo. Porque se tivesse entendido não faria afirmações tão patéticas como “Cabo Verde ainda não está preparado nem estará tão cedo para fazer tudo, com total perfeição e livre de erros”. Uma grande tirada, não há dúvidas! Uma conclusão que faz jus à do senhor La Palice. Só que nada tem a ver com a queda da ponte.
É que estamos a falar, ao nível de construção civil de uma “ponteca”. De uma “obreca” cuja dimensão, há milhares de anos já era uma brincadeira para os romanos. Se calhar, nessa altura, se caísse alguma em condições idênticas, o senador responsável pela pasta pediria de imediato a sua demissão, mas não sem antes mandar prender o mestre de obras.
Acontece é que a Srª Ministra ainda não percebeu que já não é a queda da ponte que está em causa não obstante a sua gravidade, e que só por um feliz acaso não provocou directamente vítimas mortais. É, efectivamente, o conjunto de irregularidades e de ilegalidades de toda a ordem – administrativas, técnicas, económicas, financeiras, procedimentais, entre outras – que envolveram a concepção, a construção e a queda dessa ponte e que vieram à tona por via desta última.
O Governo de Cabo Verde ainda não percebeu que estamos num Estado de Direito e que tem o dever e a obrigação de respeitar escrupulosamente as leis da República e prestar contas ao País.
As insuficiências estritamente técnicas são contas de um outro rosário. E estas, e apenas elas, estiveram envolvidas no incidente – execução e não concepção, projecto ou procedimentos – que ocorreu em S. Jorge dos Órgãos.
Mas não chocou o Governo o facto de uma curiosa rubrica, que ninguém sabe ao certo o que é, denominada “montagem financeira” esteja orçada em mais de 19 mil contos?
Não estranhou o Governo que ao pedido do orçamento da ponte a empreiteira tenha apresentado um quadro bizarro e, de certa forma, insultuoso intitulado PREÇO DE VENDA DA ESTRADA DE SAL-REI com 7 itens e em que nenhum deles é “betão hidráulico” material de que em princípio seria construída a ponte?
Não se surpreendeu o Governo que uma obra pública tenha sido feita sem contrato e sem qualquer tipo de orçamento?
Não vou listar o chorrilho de irregularidades e de ilegalidades que transformam o Processo (virtual) da Empreitada da Construção da Ponte de Ribeira d’Água num autêntico TRATADO DE IRRESPONSABILIDADE PÚBLICA de autoria exclusiva deste Governo.
O Governo de Cabo Verde através do seu membro responsável pela área das infra-estruturas ao dizer que “não é a primeira vez que uma ponte cai em Cabo Verde” e que “Cabo Verde ainda não está preparado nem estará tão cedo para fazer tudo, com total perfeição e livre de erros” referindo-se à queda da ponte, pôs em causa a capacidade técnica dos engenheiros cabo-verdianos e de toda equipa técnica do ministério dando largas a uma perigosa e humilhante abrangência.
Conheci de perto quase todos os profissionais do ministério que se ocupa das infra-estruturas, pelo menos os mais antigos, na dupla situação de colegas e de coordenador das suas actividades. Tenho para mim, que são na sua quase totalidade profissionais sérios, empenhados, que conhecem a sua profissão e dominam as leis e os procedimentos que envolvem as empreitadas públicas.
O anátema que ora foi lançado de forma generalizada sobre o ministério das infra-estruturas e a consciência nacional de que a Ponte da Ribeira d’Água é apenas a Ponta do Iceberg de um sistema corrupto e incompetente que grassa no ministério das infra-estruturas, impõem um esclarecimento público para que não se misture o trigo com o joio.
E isto só se consegue submetendo todas as grandes obras realizadas nos últimos 20 anos sobre as quais haja a mais pequena suspeita de graves irregularidades a um rigoroso escrutínio e a uma análise clarificadora dos procedimentos. Só assim se pode atribuir o carácter de excepcionalidade ao processo da ponte da Ribeira d’Água e resgatar o prestígio do Ministério das Infra-estruturas bem como o estatuto de boa governança do País tão necessário neste ano de crise generalizada.
Aqui fica o repto.
A. Ferreira