Grinhassim, não

domingo, 9 de junho de 2013
A empresa de sistematização, formalização e modernização do Crioulo de Cabo Verde terá chegado a um momento crucial, suscitando discursos veementes, umas vezes, com um certo lirismo, distante da realidade, outras, com manifesta agressividade verbal e ideológica, incompatível com essa mesma realidade.

Mas uns e outros − quase sempre fundamentados mais em aspectos psicológicos, afectivos e políticos do que meramente linguísticos − convocam uma comunicação de maior qualidade por parte do Poder Político.

Nesse contexto, e perante o risco de a língua se transformar num palco de mudanças inconsequentes e de fracturas sociais a prazo, cabe às entidades públicas dar os esclarecimentos que possam alimentar correctamente o debate.

Para tal, conviria identificar as verdadeiras questões que incidem, fundamentalmente, sobre três etapas do processo de definição de uma política linguística.
 
Literalização  − um imperativo presente
 
Mostra-nos a História que a passagem à escrita de uma língua, tradicionalmente, oral é o primeiro passo rumo à sua própria perenidade.
Assim, no caso do Crioulo de Cabo Verde, foi instituído um alfabeto que resultará no sistema de escrita da língua, depois de normalizado e de terem sido estabelecidas as regras ortográficas.

Se esse trabalho de grande qualidade técnica marca o ponto de partida do percurso para o Caboverdiano aceder ao estatuto de língua escrita, a sua socialização foi reveladora de uma comunicação deficiente. De facto, a opção de trazer a público todo um trabalho de laboratório, a começar pelo próprio nome − o famigerado acrónimo ALUPEK − funcionou como um espantalho.

O carácter inovador terá sido interpretado por uma faixa da população alfabetizada noutros sistemas como uma desconsideração pela dimensão histórico-etimológica da Língua Caboverdiana, na sua relação genética com o Português.

Por outro lado, soluções dificilmente compreensíveis pelo senso comum, como a heterografia − que teria exigido maior informação e uma formação mais aturada − traduziram-se num mal-estar de uma parte significativa da população.

A temática que viria, finalmente, a transformar-se em catarse colectiva, deu origem mesmo à criação caricatural de dois campos antagónicos – os Prokapa e os Anticapa, tendo estes sacrificado o K, o elemento mais marcadamente diferente.

Acresce a isso o sentimento de que, na realidade, o alfabeto seria a alavanca para levantar outro problema, o da língua-padrão.

Perante esse estado de tensão, é recomendável que seja, agora, avaliada a disponibilidade da colectividade para utilizar o sistema gráfico, o que, a não se verificar, poderá perigar a fase de difusão do mesmo, assim como a sua introdução no ensino.

Padronização – um pretérito imperfeito
 
Talvez seja esta a questão que mais divide a opinião pública. Creio que por duas ordens de razão.
A primeira terá a ver com uma abordagem que, baseada em generalidades teóricas, na realidade, cria argumentos que prejudicam a causa que se pretende defender. Um exemplo é a opção pela variante de Santiago, implicitamente, tomada como referência, o que terá sido uma escolha metodológica, mas apresentada como um axioma.

Na verdade, o facto de ser a variante, talvez, mais estudada e descrita não lhe confere por si só qualquer forma de primazia. Antes, obriga as autoridades a apoiar as comunidades científica e universitária na descrição das outras variantes e na realização de estudos, nomeadamente, comparativos.

O único primado deverá ser o da prudência na tomada de decisões que não se querem simplistas, nem precipitadas.

A segunda tem a ver com a escolha de um discurso de substituição que se organiza em torno do eixo da reivindicação identitária, um autêntico discurso do tempo da outra senhora. A reacção popular foi à medida do apelo, em que cada um se terá sentido atingido na sua singularidade e identidade.

Quando, inicialmente, se faz depender a unificação gráfica da opção por um dos dialectos como padrão, uma larga faixa da população, da inteligentsia ao cidadão comum, reage com desconfiança e vê um objectivo dissimulado que seria o de diferenciar uma variante (a de Santiago) para a transformar em língua nacional.

Para agravar o já delicado estado de coisas, o Poder Político, agora, canta a palinódia − afinal, a opção por um dialecto como padrão não é primordial e poderá ser feita mais tarde, após a oficialização − o que suscita perplexidade, no mínimo.

A padronização é uma construção, não é natural nem será espontânea – donde a necessidade de critérios objectivos e explícitos.

O critério histórico-linguístico, por exemplo, levantará questões como: − qual o dialecto mais representativo, desse ponto de vista? O de Santiago, onde o Crioulo terá tido origem, a partir de línguas africanas em contacto com o Português, pelo que essa primeira versão será a matriz que se desdobrou em módulos periféricos? Ou o de São Vicente que, na sua qualidade histórica de Crioulo Caboverdiano de segunda geração, se elaborou a partir da activação de ocorrências inovadoras as quais contribuíram para a emergência de uma estrutura com maior autonomia relativamente às línguas-base?

Quanto à escolha de um critério demográfico, deverá ser demonstrado como tal opção se enquadra na lógica da construção do país moderno, respeita os ideais da Nação e corresponde a uma opção colectiva e não a um princípio autista e redutor.

Finalmente, o Estado terá que dizer que língua-padrão vai usar na sua relação com os cidadãos. Trata-se neste caso, também, de bonne gouvernance.
Conclui-se, pois, da necessidade de recentrar o debate e de privilegiar uma lógica inclusiva e legítima.
Oficialização – um condicional futuro
 
O Estado tem o compromisso constitucional de adoptar o Caboverdiano como língua co-oficial.
O Poder Politico, ao asserir da imperatividade de tal medida, dá indícios de que a oficialização deverá concretizar-se num horizonte temporal próximo.

Ou seja, foi anunciado o problema − a necessidade de uma oficialização acelerada da Língua Caboverdiana, − mas não o essencial, na medida em que não se respondeu à questão política que é a de saber como proceder.

Ao Estado incumbe a responsabilidade de ponderar a viabilidade de tal opção. Para o que deve abandonar a representação dogmática da oficialização, em benefício de uma politica linguística coerente. Porque, se a aspiração é legítima, a reivindicação romântica não nos protege da possibilidade do seguinte paradoxo.

A revisão da Constituição da República de 1999 foi um momento de grande carga simbólica para a Língua Caboverdiana, em que, pela primeira vez na história do país, ela foi reconhecida, a esse nível, como uma entidade social e cultural. Apesar de confirmar, explicitamente, o seu monolinguismo − a língua oficial é o Português − o Estado comprometia-se a defender e a preservar o património linguístico na sua integralidade.

No momento actual, em que nos encontramos ainda num estádio caracterizado por uma escrita incipiente e pela ausência de língua-padrão a ser utilizada pelo Estado na sua relação com cidadãos, a oficialização teria, a meu ver, o efeito perverso de atribuir à Língua Caboverdiana uma função acessória e um lugar secundário no ambiente linguístico nacional.

Tendo em conta o carácter, originalmente, burocrático da escrita e porque uma “língua oficial” é a dos actos e das intervenções públicas, a questão que ocorre é: − como abstrair-se de o Caboverdiano ser uma língua não escrita?

Aduzir o argumento de que não se pode aguardar pela prévia fixação da escrita e pela padronização é invalidar o argumento enquanto tal. Se não se sabe quando é que o Caboverdiano poderá ser língua oficial, isto é, vector de comunicação do Estado com os cidadãos, por que decidir por uma oficialização condicional?

É certo que o Estado poderá arrogar-se de um adiamento para a efectiva utilização da Língua Caboverdiana, nomeadamente, no ensino e na administração pública. O que significará que, durante esse tempo, obrigatoriamente indefinido, o Português será a língua do ensino, do trabalho, do poder, da lei... O Caboverdiano, em contrapartida, terá uma função de língua prosaica, do quotidiano, do coração. Afinal, a que tem hoje, com a diferença de isso não estar na lei.

Corremos, pois, o risco, muito provável, de oficializar mas manter o status quo, com a circunstância agravante de pronunciar um anátema contra a Língua Caboverdiana, cuja representação, sobretudo na mente dos mais novos, será a de um sistema linguístico que não está ao mesmo nível da outra língua co-oficial.

De acordo com a teoria linguística, a realidade sociolinguística em Cabo Verde caracteriza-se por uma situação de diglossia. Uma faixa da população é, estruturalmente, crioulófona enquanto que o conhecimento e a prática do Português não são universais, nem uniformes.

Quanto aos apologistas da oficialização acelerada, para justificar a urgência, avançam diversos argumentos: liberdade de expressão, direitos humanos, afirmação da identidade, salvaguarda do património, justiça social, entre outros.

Dois deles – 1. Uma faixa da população não é, efectivamente, lusófona. 2. A Constituição da Republica torna imperativa a oficialização do Caboverdiano – baseiam-se em dados verificáveis e autorizam uma leitura cruzada.

Se isolarmos os possíveis encadeamentos causais, que ilações válidas podem ser retiradas, à luz do que prevê a Constituição da República?

Que o acesso ao Português, através, nomeadamente, do seu estudo e aprendizagem,  deve ser garantido a toda a população, logo à faixa exclusivamente, crioulófona também, de modo a que cada cidadão possa cumprir o dever constitucional de conhecer as línguas oficiais – apenas o Português, por ora, mas também o Caboverdiano, posteriormente.

A condição é que esse dever seja  exercido sem prejuízo para o direito, igualmente constitucional, de usar o Caboverdiano nas situações previstas, isto é, em contextos que não exijam o uso da,  ainda única, língua oficial - o Português.

Pelo que, se há urgência, esta é a de adiar a oficialização do Caboverdiano. É o futuro linguístico que está em causa.

Do alto dos seus mais de quinhentos anos, a Língua Caboverdiana obriga-nos a adoptar uma abordagem liberta de imediatismos e de triunfalismos.

E as gerações vindouras agradecerão, certamente.

Kinshasa, Junho de 2013
Dulce Lush Ferreira Lima
 
 
 
 
 
 
 

Dois novos livros do poeta Arménio Vieira...

sexta-feira, 7 de junho de 2013
A moderna (A actual, será mais precisa…) poesia em Língua portuguesa deve e muito a este poeta que se dá pelo nome de Arménio Vieira.

Senhor de uma cultura portentosa, Arménio Vieira dá-se ao luxo de “jogar” de “brincar” de construir “trocadilhos” poéticos com essa cultura imensa que possui, pois que a foi adquirindo ao longo dos anos, não só de boa leitura, da qual como que extraiu a essência filosófica, como também de mundividências experimentadas e teorizadas por um observador de todo especial. Para além de aliar a isso, a poesia que parece que lhe é inata.

Munido com estas preciosas “ferramentas” chamemo-las assim, mais a estilística que ele auto-recria em estética própria e original, com isto tudo interligado e interdependente o poeta configura os seus poemas-textos, que nos deliciam.

Costumo dizer que o poeta – galardoado em 2009 com o Prémio Camões (a maior distinção literária instituída para os escritores e poetas de Língua portuguesa) – nasceu na cidade da Praia, cabo-verdiano de origem e de vivência e, (aqui também caberia um “mas”) de pena universalista.

Sim, os textos de Arménio Vieira, quer sejam em poemas ou em prosa e esta última é quase sempre poética, fazem jus a este “universal” que existe no seu ser poeta.

A sua formação poética e cultural, revela-se quase toda “bebida” na cultura dita europeia ocidental, transfigurada e contextualizada nas ilhas desta “macaronésia” atlântica sempre indecisa e adiada.

Foi isso que sucedeu e o registo do poeta encontra-se nos seus dois últimos livros, «O Brumário» e «Variações Do Brumário» recentemente apresentados na Cidade da Praia, na Biblioteca Nacional.

Valem a pena! A sua leitura é imperdível!

Ao poeta Arménio Vieira as minhas sinceras felicitações por mais esta dádiva à Literatura em Língua portuguesa e à cultura cabo-verdiana.





Natural da Ilha do Fogo e Herói da 2ª Grande Guerra Mundial

sábado, 1 de junho de 2013


Esta é a sua a história, a do nosso herói de nome, Manuel Ernesto da Silva Araújo Avelino que se tornou herói – para a Europa Aliada nesse grande conflito bélico provocado pela Alemanha e – particularmente para a Holanda, país onde viveu, trabalhou e morreu em 1980, aos 81 anos de idade.

Mas para que todo o ritual do querer contar uma história seja cumprido, devemos começar pelo princípio.

Manuel Ernesto era filho de Manuel André Avelino e de Luzia da Silva Araújo Avelino, naturais e residentes no Fogo nos idos e finais do séc. XIX e inícios do séc. XX. Nasceu em S. Filipe, na ilha do Fogo a 16 de Setembro de 1898 e foi baptizado na igreja de N.ª Sr.ª da Conceição.

Como quase todas as crianças daquela época, Manuel Ernesto brincou, jogou e correu arco nas ruas e nos becos da então Vila de S. Filipe. Aí também frequentou a escola primária. Aprendeu a nadar e enfrentava com denodo, as ondas bravias e altivas das praias de «Fonte Bila», «Praia de Nossa Senhora» e da «Barca-Baleeira», tornado mais tarde, cais Vale dos Cavaleiros.

Abro aqui um pequeno parêntesis, para reiterar o que costumo dizer amiúde, que é o seguinte: quem aprendeu a nadar naquele beira-mar de respeito e naquelas vagas alterosas e desafiadoras da ilha do Fogo, se aprendeu de facto, fica bom nadador para o resto dos seus dias. Fecho o parêntesis.

Destemido e corajoso desde muito miúdo, assim o descreveu – à filha Anita, a minha informante, sobrinha de Manuel Ernesto e sobre quem adiante falarei – a irmã do herói, a D. Maríinha, Maria Martina Avelino de Pina já falecida e a mais nova dos irmãos.

Todos membros da família Avelino Henriques, bem conhecida no Fogo.

Manuel Ernesto Avelino cedo ficou órfão, primeiro do pai e logo a seguir da mãe. Tal como os outros irmãos foi criado por familiares, tias do lado materno que deles cuidaram e, no caso de Manuel Ernesto, quando completou 14 anos de idade, seguiu para Lisboa ao cuidado de um tio, o comandante Guidão Avelino.

Mais tarde, o irmão mais velho mandou-o para a Holanda. Ali fixado, trabalhou a bordo de um barco de marinha mercante Colômbia da Companhia de navegação holandesa KNSM.

Com o advento da 2ª Grande Guerra Mundial, e em 1941, o barco Colômbia foi requisitado, transformado e equipado como barco de guerra. Manuel Ernesto transformou-se também em marinheiro de guerra. O barco servia de transporte de armamento para os submarinos holandeses que lutavam contra os agressores e invasores alemães.

Ora bem, aconteceu que na primavera de 1943, em plena viagem da antiga Ceilão, Sri Lanka, para a África do Sul e já perto da cidade do Cabo, o barco Colômbia foi atacado com torpedos por um submarino alemão que o destroçou, afundando-o, mas antes, uma corveta inglesa veio em socorro e conseguiu fazer debandar o submersível atacante. A tripulação em perigo de naufrágio consegue baixar apenas uma das baleeiras salva-vidas em que embarcou também o nosso patrício. A meio caminho, Manuel Ernesto olhou para trás e viu que os companheiros que ficaram naquilo que ainda restava do enorme Colômbia, não conseguiam fazer descer – porque demasiado amarradas, emaranhadas e com o barco já em processo de afundamento – as restantes baleeiras salva-vidas. Sem hesitar, ele regressou a bordo, ajudou as manobras com sucesso, embarcou quase todos os colegas inclusivamente o comandante, e saltou para o mar no último minuto antes do barco submergir por completo no oceano. Nadou um pedaço de mar frio, mas os colegas vieram apanhá-lo numa das baleeiras.

Regressado à Holanda e tornado publico o acto heróico de Manuel Ernesto Avelino, pois conseguira salvar mais de 300 tripulantes; a rainha Guilhermina, na altura exilada por causa da guerra, na Inglaterra, reconheceu-lhe o feito e condecorou-o ainda em 1943, com a Cruz de Mérito através do Decreto-Real nº 21. Posteriormente, em 1947 e já com a Europa em paz, foi-lhe conferida a Cruz de Guerra da Holanda.

Estes são os factos notáveis da história deste foguense que casou com uma holandesa em 1929 e a quem foi dada a nacionalidade holandesa em 1947. Teve três filhos e viveu na cidade de Brielle, onde faleceu a 8 de Julho de 1980.

Em 2013, a cidade holandesa que o acolheu, atribuiu o nome de Manuel Ernesto Avelino a uma praça através de uma placa alusiva a este herói holandês de origem cabo-verdiana.



Nota Final – Afinal, como chegou ao meu conhecimento esta história tão bonita? Uma tarde destas veio visitar-me a minha amiga e familiar Anita – de seu nome completo, Nilda Anita Avelino de Pina Delgado, como já referi sobrinha de Manuel Ernesto Avelino e sanfilipense de quatro costados. Foi quem me contou a história do tio e foi quem também me lançou o desafio de fazermos aqui nas ilhas alguma divulgação da história de vida desse seu ascendente pelo lado materno e que a cidade-berço de um herói da Segunda Grande Guerra Mundial, pudesse assim também lembrá-lo através de algum topónimo (rua ou largo) e até sugeriu o Largo conhecido em S. Filipe como “Meia-laranja”, pois aí se encontrava a casa onde terá nascido Manuel Ernesto. Aliei-me à iniciativa com imenso prazer onde se juntou também algum orgulho antigo e muito vulcânico!

A minha amiga Anita trouxe com ela alguns documentos retirados do “Blogue” «Arrozcatum» de Zito Azevedo a quem mais uma vez agradeço os dados que lançou para a blogosfera, permitindo assim, o conhecimento para muitos de nós leitores, com a divulgação que fez da história deste generoso e valente cabo-verdiano.

Fica o repto lançado à edilidade da S. Filipe que nos quer parecer ser agora mais inclusiva e menos complexada em relação aos filhos e às figuras ilustres de S. Filipe de outrora.

O Brasil no imaginário literário cabo-verdiano…

sexta-feira, 24 de maio de 2013


O título do texto e o seu conteúdo foram-me “sugeridos” pela mensagem recente que recebi da ilustre ensaísta e professora brasileira, Simone Caputo, conhecida entre nós pelo seu genuíno e confessado interesse pela Literatura cabo-verdiana sobre a qual, aliás, tem vindo a analisar com profundidade, quer nos textos de sua autoria, quer nas orientações de teses que tem dirigido na Universidade de São Paulo (USP).

Apenas para citar – de entre os muitos textos críticos desta autora – destaco o excelente trabalho que Simone Caputo elaborou sobre um dos nossos poetas maiores, Daniel Filipe. (Daniel Damásio Ascensão Filipe -Boavista, 1925/Lisboa, 1964).

Ora bem, a remetente informava-me no seu “e-mail” que estava “ (…) preparando uma antologia com textos (alguns inéditos) de escritores cabo-verdianos que incluam o Brasil em sua temática ou imagética. Poderíamos contar com um texto seu? (…)”

E eu dou por mim a responder-lhe da seguinte forma: “ (…) Interessante é que tenho para mim, que a alusão, a inclusão do Brasil já foram muito mais intensos e visíveis na poesia, na prosa e mesmo no cancioneiro folclórico cabo-verdianos de outrora, do que nos textos dos dias de hoje, contrariando até um pouco, o que era lógico suceder, uma vez que hodiernamente os contactos são muito mais frequentes, prolongados e duradouros. (…)”

Por outro lado, cogitei, se é verdade que os contactos, as deslocações de cabo-verdianos ao Brasil aumentaram exponencialmente de há mais de duas décadas a esta parte, não só em termos de turismo e de negócio com as ligações aéreas directas para Fortaleza, como também, a ida de estudantes destas ilhas, que nas diferentes cidades e estados brasileiros têm feito os seus estudos superiores.

Logo, o contacto e o conhecimento da parte cabo-verdiana do Brasil, das suas gentes e cultura, tornaram-se maiores e mais reais.

No entanto, não é menos verdade, e quer me parecer que a atracção pelo Brasil na escrita poética e ficcionista cabo-verdiana, já conheceu o seu tempo, outrora, que não agora.

Se não vejamos, remontando aos versos e aos textos de Januário Leite, (1865-1930) Eugénio Tavares, (1867-1930) Pedro Cardoso, (1890-1942) José Lopes (1872-1962) entre outros, para falarmos dos mais antigos; neles encontraremos mais do que uma vez, citado sob várias formas, algum “feitiço” que o Brasil sobre eles exercia, mesmo sem terem pisado as chamadas terras de “Vera Cruz”.

Em 1923, num poema intitulado: «Homenagem», Pedro Cardoso escreve a determinada altura: “ (…) As plagas do Brasil, eu quero em verso…// O Atlântico transpondo, sonhadora / No ubérrimo país de Santa Cruz (…) Fim de transcrição.

Mas já antes destes grandes vates da lírica cabo-verdiana, folheando o «Almanch Luso – Africano» (1899) e a começar pela própria dedicatória, lemos o seguinte: “Dedicado à Juventude de Portugal, Brasil e das Colónias Portuguezas». O seu Director António Manuel da Costa Teixeira, mais conhecido como Cónego Teixeira, era natural da ilha de Santo Antão (1865-1919). Para além dos textos dos colaboradores e que mencionam o grande país sul-americano, do correio literário que o Director do Almanaque compilava transcrevemos um deles bem ilustrativo: “Brasil. – Excedeu toda a nossa espectativa o enthusiastico acolhimento que a inteligente, symphatica, e nobre província litteraria brasileira nos tem manifestado, já em cartas demasiado lisonjeiras, já nas remessas de numerosos e variados artigos para o «Luso – Africano». A todos, o nosso eterno e cordeal agradecimento» Fim de transcrição.

Logo, de há muito, para não dizer, dos primórdios da Literatura cabo-verdiana, que o Brasil surge com alguma frequência, na imprensa do Arquipélago não só em colaborações escritas, como no caso do Almanaque, como também, no imaginário da escrita ficcionista e poética das ilhas.

Mas é sem dúvida na pena dos poetas e dos escritores do mais célebre movimento cultural cabo-verdiano, «Claridade» (1936), que esse imaginário “Brasil” (mais imaginado do que real ou vivido) atinge o pináculo, na nossa escrita literária.

Eis o que disse em 1956, um dos seus fundadores, Baltasar Lopes da Silva, (1907 -1989) justificando o aparecimento da revista «Claridade»: “ O que se impunha era pensar o nosso problema, isto é o problema de Cabo Verde, preocupava-nos sobretudo o problema da formação social destas ilhas, (…) Ora aconteceu que por aquelas alturas (década de 30 d0 séc. XX) nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que considerámos essenciais pro doma nostra. Na ficção, o José Lins do Rego d’ O Menino de Engenho e do Banguê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rebelo d’O Caso da Mentira que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um “alumbramento” a Evocação do Recife de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas a minha vila da Ribeira Brava, na ilha de S. Nicolau (…).” Fim de transcrição.

Na esteira desse importante depoimento, o ensaísta e escritor Manuel Ferreira (1917-1994) – que foi um dos pioneiros na análise deste fenómeno sociológico/literário/afectivo dos intelectuais cabo-verdianos em relação ao Brasil – afirmou no seu utilíssimo ensaio, «Aventura Crioula» publicado em 1968, com prefácio de Baltazar Lopes da Silva, datado de 1965, num capítulo intitulado: “a «Claridade» e a Literatura brasileira» – concluiria o seguinte: “…Eis que para tanto havia um país que podia dar uma ajuda. Um país semelhante nas estruturas, semelhante na sua formação social, semelhante no seu contexto racial. Esse país outro não era que o Brasil – e nessa altura já com vários romancistas, poetas, sociólogos, capazes de servirem de catalisadores às energias acumuladas pelos intelectuais cabo-verdianos, mais atentos e dispostos à reformulação cultural.” Fim de transcrição.

Um outro ensaísta de muito mérito entre nós, Arnaldo França nas suas recomendadas: «Notas sobre Poesia e Ficção cabo-verdianas» separata ao «Boletim Cabo Verde», 1962, escreveu a determinado passo, referindo-se a essa influência e citando Baltasar Lopes da Silva:

É comum falar-se, e, sob aspectos mais diversos com inteira razão, o quanto a geração da «Claridade» deve ao modernismo brasileiro. Diz Baltasar Lopes, um dos fundadores da revista e o seu principal animador neste último quarto de século decorrido, referindo-se à ficção e à poesia brasileiras que elas revelavam: «um ambiente, tipos, estilos, formas de comportamento, defeitos, virtudes, atitudes perante a vida, que se assemelhavam aos das ilhas, principalmente naquilo que as ilhas tinham de mais castiço e de menos contaminado. Esta identidade ou quase identidade de sub-jacências não pode ser deturpação de escritores, ficcionistas e poetas aliteratados; ela deve corresponder a semelhanças profundas de estrutura social, evidentemente com as correcções que outros factores, uns iniciais, outros supervenientes exigem».” Fim de transcrição.

Ora estavam assim lançados no “chão” da nova criação literária cabo-verdiana, um dos mais significativos pretextos e pré-textos para o novo caminho que se seguiu a partir de então.

Daí que não admire que os textos dos mais destacados nomes do citado movimento, Jorge Barbosa (1902 – 1971) e Osvaldo Alcântara, pseudónimo poético do já citado romancista Baltazar Lopes da Silva e Manuel Lopes (1907 – 2005) imaginassem, transfigurassem, efabulassem e recriassem o “seu Brasil” em variados tons e formas, geográfico, paisagístico, social e cultural, em viagens imaginadas e poéticas.

Para corroborar isto, comecemos com Jorge Barbosa que numa sincera declaração de amor, com contornos apologéticos, intitulado: “Você Brasil” para o Poeta Ribeiro Couto” se lhe dirigiu, versando: – “Eu gosto de Você Brasil” / Porque Você é parecido com a minha terra // (…) E o seu povo parece-se com o meu / que todos eles vieram de escravos, com cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros. // É o seu falar português que se parece com o nosso falar / ambos cheios de um sotaque vagaroso // (…) Eu desejava fazer-lhe uma visita/ mas isso é cousa impossível // Queria ver de perto as cousas espantosas que todos/ me contam de Você / assistir aos sambas no Morro / estar nessas cidadezinhas do interior / que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura // (…) Havia então de botar uma fala / ao poeta Manuel Bandeira / de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima/ para ver como é que a Poesia receitava / este meu fígado tropical bastante cansado (…)”

Depois continua:

(…) Gosto dos seus sambas, Brasil das suas batucadas/ dos seus catarretês, das suas toadas de negros / caiu no gosto da gente de cá/ que os canta e dança e sente // (…) As secas do Ceará são as nossas estiagens.”

Osvaldo Alcântara continua esta temática que tem o Brasil como musa inspiradora, no título do poema: «Saudade no Rio de Janeiro»; também nos versos: (…) “o meio-tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia” do poema «A Serenata». Do mesmo modo, evoca:(…) Vou pedir para o Rio / Ladeira de João Homem / uma cuíca e um reco-reco / vou namorar, vou cantar samba (…)” no poema «Rapsódia da Ponta-de-Praia».

O poeta reafirma o seu conhecimento profundo e a sua ligação à então moderna poesia brasileira ao criar os poemas do ciclo do «Itinerário de Pasárgada» em que a influência e a intertextualidade de Manuel Bandeira ressurgem e com todo o esplendor poético de Osvaldo Alcântara.

Retomando Jorge Barbosa que foi quem mais “fiel” se manteve à sua musa Brasil, recorda no poema “Viagens” In: «Caderno de Um Ilhéu»

“ (…) Lembro as viagens que fazia nos paquetes da Blue Star quando / escalavam o porto da ilha de S. Vicente / Eram viagens que não passavam nunca do cais / mas punham um alvoroço bem grande no meu coração. // Ora seguia rumo à Europa / Hamburgo, Paris, Londres…/ Ora para Cuba, México, Argentina…// Mas para o Rio de Janeiro é que ia sempre de preferência (...)”

Mais tarde, e a propósito deste poema, a saudosa ensaísta portuguesa Elsa Rodrigues dos Santos, (1939 – 1912) no seu primoroso livro, «As Máscaras Poéticas de Jorge Barbosa e a Mundividência Cabo – Verdiana», publicado em 1989, elucida-nos da seguinte forma: “Esta  afirmação  (“Mas para o Rio de Janeiro é que ia a nossa preferência”) associa-se a um conjunto constituído por «Inédito de Jorge Barbosa» enviado em carta a Jaime de Figueiredo (1905 – 1974): «carnaval do Rio de Janeiro eu te vejo, eu te sinto» e três longos poemas do capítulo IV do Caderno de Um Ilhéu, que constituem um epistolário para o Brasil: «Carta para Manuel Bandeira» onde é expressa a admiração pelo poeta e o desejo em conhecê-lo. «Carta para o Brasil ao cuidado de Gilberto Freyre, inscrevendo-se no mesmo teor só mudando o destinatário.

“ (…) Estou a ver-me entrando no Guanabara /para essa visita finalmente / que eu tenho há muito tempo / guardado no meu desejo! (…).” Fim de transcrição.

É este imaginário afectuoso e lírico pelo Brasil que pontua de forma distinta e intensa os belos e ritmados versos de Jorge Barbosa.

Manuel Lopes, romancista já aqui citado e oriundo igualmente do movimento «Claridade», no seu conhecido romance, «Chuva Braba», quando a seca desespera o protagonista Mané Quim, este toma a decisão de emigrar (final do enredo) e o país escolhido foi exactamente o Brasil.

Do mesmo modo e perpassando pelo nosso cancioneiro folclórico, nos seus géneros musicais mais divulgados, como as mornas, as coladeiras e nas chamadas marchinhas feitas em intenção dos blocos do Carnaval; vamos encontrar os nossos trovadores populares a cantarem o Brasil, em inúmeras composições, de forma sempre amorável e procurando as similitudes com as ilhas, salvaguardadas as dimensões.

Abro aqui um parêntesis, para um breve comentário. O interessante é que quando analisada e/ou comparada a fenomenologia da emigração cabo-verdiana para as diversas paragens do mundo, o caso do Brasil sai completamente fora do figurino ou, do formato tido como normal, daquilo que foi o tipo de comportamento esperado do emigrante cabo-verdiano que partiu à procura de vida melhor para si e para os seus e que demandou os Estados Unidos, a Holanda, a França, a Argentina, S. Tomé e Príncipe e mesmo a ida, após da independência do Arquipélago, de numerosos cabo-verdianos para Portugal, entre outras paragens da Europa.

É que em quase todos os casos existe sempre o «Torna-viagem» há sempre testemunhos regressados, memórias trazidas que deixam lastro e fazem história, para o bem ou para o mal, na recriação literária romanesca cabo-verdiana.

Os exemplos abundam e o tema emigração constituiu-se como um dos grandes textos da nossa poética e da nossa prosa ficcionista.

Interessantemente, o caso da emigração para o Brasil teve ao longo do tempo, todo o contorno de uma emigração “amnésica.” Faço-me entender, não houve o “regressado” que noticiasse o que lá viveu, contrariamente ao “Brasileiro” tão presente nas obras dos escritores portugueses, ou ao “americano” protagonista de muitos contos e romances cabo-verdianos; ou mesmo, o “holandês” que fez as delícias da nossa canção brejeira e satírica, e já aqui referida, a coladeira.

Da América do Sul, e em quase excepção, é apenas o imigrante na Argentina que regressa a Mindelo, ilha de S. Vicente, como protagonista no romance de Nuno de Miranda: «Cais de Pedra».

Ainda e dentro do caso da emigração destas ilhas para o Brasil, desde logo, as crónicas do tempo, (orais, sobretudo) informavam-nos que uma vez lá chegado, o nosso patrício até se esquecia da família que ficara nas ilhas. Regra geral, não escrevia e nem dava mais notícias! Sucedia uma espécie de “corte” com a terra de origem.

E isto levou um amigo meu a perguntar-me se se podia verdadeiramente falar-se de “emigração,” quando falávamos do caso da ida do cabo-verdiano para o Brasil “in illo tempore” e se se podia igualmente deduzir com isso a existência de uma coeva “comunidade cabo-verdiana” no Brasil.

Para fechar este comentário, vale acrescentar que só viríamos a ter realmente “notícias” dos imigrados lá, em  meados e finais dos anos 70 do séc. XX com a independência do Arquipélago, e a consequente criação de estruturas diplomáticas entre os dois países. Fecho o parêntesis.

Em jeito de finalização deste escrevinhar que me parece já ir longo, reiteraria aquilo que me parece ser o mais aproximado dessa ligação/afectiva/literária/sociológica de Cabo Verde de outrora para o Brasil também de então. Acredito, sem muita margem de errar, embora permanecendo sempre dentro das reservas que a estes casos são naturalmente impostas; de que foram os poetas e os escritores da «Claridade», os amantes românticos de um Brasil, que realmente os inspirou e que também e de alguma forma, foi por eles imaginado e recriado para as suas páginas literárias. Permanecem testemunhos inequívocos. A historiografia literária cabo-verdiana registou-os.

Mas mesmo, mesmo para fechar o texto, gostaria de reiterar também a minha homenagem à ensaísta Simone Gomes Caputo pelo que tem vindo a fazer no Brasil em prol da Literatura cabo-verdiana.









Pequena Adenda ao texto “…A pedonal à Beira-mar”

sábado, 18 de maio de 2013


De uma leitora muito especial, Dulce Lush Ferreira Lima, recebi o comentário a seguir transcrito, citando apenas as partes que nos interessará certamente, e em que ela sugere uma alternativa à solução do problema, na opinião dela mais prática e eventualmente mais viável para que os utentes diários da nosso “calçadão” marítimo, consigam ter o seu espaço limpo e arranjado, para a ginástica, a marcha, a corrida e para o passeio que tão bem nos faz a todos!

Aqui vai o comentário:

(…) A intenção inspirada pela Magda e expressa no teu ultimo “post” é louvável, sem dúvida. Mas a ideia parece-me problemática , pelo que se segue.

(…)

…Como sabemos, infelizmente é esse o quotidiano de, pelo menos, centenas de famílias, pessoas que, mesmo aí ao lado do passeio, não têm o direito de fazer a mais pequena actividade diária sem ter como acompanhantes o lixo, os odores fétidos, a insegurança, etc., etc., etc.

(…) Assim sendo, e sem cair na demagogia fácil, a CMP, (Câmara Municipal da Praia) neste caso, que se quer atenta, também tem o dever de ser justa sensível. E como privilegiar uma única infra-estrutura necessária e importante quando tantas outras vitais, (…) que não poderão receber o mesmo tratamento? Como intervir? (…) Essa dificuldade em encontrar o equilíbrio entre as duas situações é a brecha por onde entra a minha observação.

(…) Segundo, uma contribuição privada para uma res publica, sim, parece à partida uma solução possível. Mas, e apenas, se forem respeitadas todas as regras que não me parece ser o caso de um pouco transparente e aleatório peditório. Creio (e espero!) que a lei não o permitirá.

(…) Assim sendo, e para que a iniciativa seja completa, justa e, verdadeiramente, cívica, creio que seria melhor ideia que os utentes do passeio, com a generosidade que certamente os caracterizará – a julgar pela “mens sana” que o “corpus sano” leva a pressupor – sacrificassem uma hora de bem estar pessoal para se reunirem e encontrarem a melhor forma de operacionalizar a contribuição. E que, isso feito, pedissem autorização à CM para a intervenção.

O que achas? Com tal observação?

Muitos beijinhos e votos de uma noite repousante.

Dulce







Um episódio interessante…

quinta-feira, 16 de maio de 2013
"Gertrudes Ferreira Lima (Século XIX) Poetisa portuguesa; natural de Santo Antão (Cabo Verde). Estudou no Colégio das Ursulinas, de Coimbra. Colaborou no Almanaque Luso Africano (1895) e, também no Almanaque das Lembranças. Usou o pseudónimo de Humilde Camponesa – in Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis da Lello & Irmão – Editores – Porto."

"Pico da Cruz fica "em cima " do Paúl que é então um vale, mas nós ali só tivemos a "Humilde Camponesa" ou Obscura Paulense (Gertrudes Ferreira Lima) que assim assinava os seus poemas (sonetos). Era bastante independente e embora a sua produção poética tenha sido escassa era considerada uma igual por Januário Leite e José Lopes e outros poetas residentes na Ilha. Também essa minha prima era por assim dizer, uma ave rara em ilha de machistas. Conheceu pessoalmente João de Deus e gabava-se de ter sido a primeira a utilizar a sua cartilha de ensino.

Sendo uma intelectual numa altura em que as mulheres não brilhavam nas letras, isto, se atraiu a admiração dos homens da época pelo seu intelecto, pela beleza das suas declamações, também afastou os possíveis pretendentes. Na altura deviam pensar casar com mulher que sabe mais do que eu, safa! Mas ela não se deu por vencida nem se deu por humilde nem humilhada. Acabou por casar já com cerca de sessenta anos com um marido uns quinze anos mais novo. Nunca me contaram nada mas imagino o falatório e o escândalo que terá sido."

João Manuel Oliveira


Este pequeno e elucidativo trecho, chegou-me às mãos, já há muito tempo, via minha prima, Maria de Lourdes Chantre, autora da «Cozinha de Cabo Verde», a nossa querida Lourditas, com sempre foi e é tratada na família. Filha do tio Leça, um mindelense bem conhecido, Manuel Ribeiro de Almeida – contou-me a Lourditas que o pai dela se referia a Gertrudes Ferreira Lima como “prima Tudinha” – um dos donos, (juntamente com o irmão Raul Ribeiro) e Director do famoso «Notícias de Cabo Verde» (1931-1962) jornal privado, independente, que marcou a sua época, por várias razões, nomeadamente, para aqueles ligados às Letras, pelo facto de ter albergado, sem reservas o «Seló – Página dos Novíssimos» 1962, movimento percebido também como uma tentativa dos então jovens poetas, de ter voz e esta ser ouvida.

(Um aparte: Isto é mesmo típico de ilhéu cabo-verdiano, vejam as “voltas familiares” que já dei com informações suplementares para situar o leitor!...Ah! Ah! Ah! Tipicamente nosso!)

Mas voltando ao trecho acima transcrito – com a devida vénia ao seu autor e um pedido de autorização, o Historiador João Manuel Oliveira, santantonense e há muitos anos, professor/investigador em Macau – não resisto a (re) publicá-lo, pelo que do seu conteúdo se percebe, e como ilustra uma época e um contexto espacial em relação à mulher dita intelectual.

Lembro-me que entrei em “contacto,” com os textos da poetisa Gertrudes Ferreira Lima, diria que pela primeira vez, e sem correr muito risco de errar, nos idos anos finais da década de 70 de século XX, para “ferramenta” profissional, isto é, necessitei dela para preparar as minhas aulas de Literatura cabo-verdiana. E dos primeiros textos que li na altura, um foi dedicado “Ao meu intelligente compatriota Viriato Gomes da Fonseca (Distincto tenente d’artilharia…”

Abro aqui um pequeno parêntesis, para recordar que Viriato Gomes da Fonseca, ascendente ou se entronca nos muitos “Fonseca” de Santo Antão nos quais me incluo pelo lado materno, era militar que frequentava ou prestava serviço na corte portuguesa e por quem a Rainha D. Amélia, (1845-1945) viúva do rei D Carlos (regicídio de 1908), tinha muita estima e a quem ofereceu um “stradivarius,” violino que ele guardou com imenso brio e que segundo informações históricas, já promovido a general, levou-o na sua bagagem para Santo Antão, onde tocava em convívios familiares. Fecho o parêntesis.

Retomando o à-vontade da poetisa em dedicatórias de muitos dos seus poemas, aos homens do seu círculo de Letras e de amizade, há também um poema, «Bem Haja» dedicado ao “Meu digno presbítero António Manuel da Costa” e anteriormente, ainda em Lisboa, estudante do curso do magistério primário, escreve um poema muito autobiográfico e a “Pedido de Júlio Dumont” como aponta em jeito de dedicatória.

Ora bem, isto prova que a “Humilde Camponesa,” seu pseudónimo poético, não tinha qualquer melindre em fazer dedicatórias poéticas à sua contra-parte masculina. Já outro tanto não diria dos seus pares masculinos, ilustres homens da pena e com alguns deles privou ela em Santo Antão, como bem se refere o texto de João Manuel Oliveira. Pois bem, não me recordo de ter lido qualquer poema ou prosa, dos mesmos, dedicados à nossa poetisa… Se encontrar, prometo que volto atrás…

Com uma ressalva, encontra-se num dos números do antigo Almanaque de Lembranças, em 1903, um resenha crítica intitulada «Caboverdianos Illustres» assinado abreviadamente: “C. L. (Cabo Verde)” e que menciona a poetisa santantonense, entre outros nomes de escritores e de poetas, da seguinte forma: «D. Gertrudes Ferreira Lima (Humilde Camponesa) é uma mimosa e inspirada poetisa que tem colaborado n’este Almanach com o pseudonymo de Humilde Camponez. Seus versos são harmoniosos e sentimentaes. Grande admiradora de João de Deus, a Humilde Camponeza, professora distincta, foi quem primeiro ensinou pelo methodo do grande pedagogo, preenchendo assim uma enorme lacuna no ensino das primeiras letras infantis… ( …)» Fim de transcrição.

Posto isto, e em jeito de finalização, achei interessante a informação (social/mundana, mas igualmente histórica) que o meu amigo João Manuel Oliveira nos deu sobre o perfil desta cabo-verdiana ilustre, seleccionada já como um, dos muitos nomes imortais, para patrono de uma das cadeiras da futura e esperemos que efectivada brevemente, Academia cabo-verdiana de Letras.






…A pedonal à beira-mar…

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Recebi de uma leitora, por sinal de uma jovem amiga, a Dra. Magda Barbosa Vicente, o apelo que adiante transcrevo. Embora a autora me tivesse pedido que o texto dela fosse apenas para me inspirar e para sobre o tema preparar um “post”. Pensei que o melhor seria (pedindo-lhe daqui a permissão) transcrever para o Coral-vermelho, a mensagem original, pois concordo com o que nela vem explanado e bem, sobre o nosso passeio de marcha, “calçadão” na versão brasileira, que, creio, estimado, (ou devia ser) por aqueles que o frequentam diariamente para a marcha e para a ginástica, tão necessárias ao nosso bem-estar físico e mental.

Com efeito, há necessidade e alguma premência que se façam obras para a melhoria daquela zona tão aprazível ou, no mínimo, que se cuide da preservação e manutenção desse património tão útil e aprazível do munícipe praiense. O que nos é dado a ver de perto nada tem de belo, bem pelo contrário, a terra, os pedregulhos e o lixo que se amontoam e que ladeiam o passeio extenso, as encostas adjacentes que formam enseadas com o mar à vista e onde muita gente aproveita para piqueniques e mergulhos; poderiam ser limpas e melhoradas.

A sugestão de uma contribuição cívica de todos nós que usamos o local para passeios e exercício físico pode muito bem ser aproveitada pelas autoridades municipais que gerem o grande passeio, e assim promover algumas benfeitorias que tão bem serviriam os munícipes!

Para estes últimos, uma palavra (aliás chamada de atenção feita pela autora do texto que a seguir devem ler): cuidemos da pedonal à beira-mar, estimemo-la e não permitamos que a maltratem com o lixo resultante de convívios e de excrementos de animais.

Um agradecimento à Dra. Magda pela sugestão e pela alegria e o enorme prazer que me dá de participar neste espaço que é também dos amigos que é o “coral-vermelho”: Tal como prometido aqui vai o texto recebido:

...“Tendo em conta que tem um blog (que muito aprecio e que há muito está guardado nos meus favoritos) de assuntos diversos e, tendo em conta que não tenho esse dom abençoado da escrita, «aproveito-me» de si para lhe propor um tema para um post:

-O estado degradante da nossa pedonal, «à beira mar plantada», para os praticantes do revigorante e saudável footing.

Fico com pena de todos nós que a frequentamos. É, não vale só a brisa do mar, as ondas, os magníficos «pores-do-sol», isso tudo é de graça, basta sensibilidade para os apreciarmos. Mas, e o resto? Principalmente, aquilo que é consequência de acções e dos comportamentos humanos, ou melhor de munícipes que afinal não sabem como viver numa cidade: o lixo que se acumula nas bermas e nas praias depois de um dia de «tcholdra», os entulhos de obras, o mato selvagem que ficou desde de quando choveu, as matilhas de cães vadios e rançosos e, para completar este quadro, as bostas de vaca em todos os seus estados possíveis e imaginários.

Gostaria de ver a nossa pedonal embelezada e reabilitada, ladeada de coqueiros e banquinhos colocados de frente para o mar e, principalmente, livre de todos os odores orgânicos que não fosse a maresia.

Mas, lá está, isso acarretaria custos, afinal estamos em tempo de crise, Cabo Verde é um País pobre, o nosso município também é pobre e, blá, blá, blá, que o resto já sabemos de cor. Então, e se pelo menos propuséssemos ao nosso Presidente da Câmara (que aliás também é um frequentador assíduo e, será que desatento…?) que com um Caterpillar varresse todo o lixo? Ok, é preciso que os munícipes participem nos custos? Que a Câmara faça um peditório juntos de todos os utentes desta importante infra estrutura (ahahah) nas horas de ponta, talvez o montante recolhido pagasse uma hora de aluguer do Caterpillar, simples, não????

Espero tê-la inspirado com este tema.

Um abraço, Magda”