“Aqui D’El-Rei!” Ou o direito à indignação!

sábado, 22 de junho de 2013


Na ilha de Santo Antão, a sabedoria popular consagrou uma expressão muito precisa e que vai ilustrar o caso que aqui narro: “ Eu não temo a Justiça! Do que eu tenho medo é da Injustiça!” E na minha ilha (a do vulcão) ficou do tempo antigo, (do tempo da monarquia portuguesa) a expressão: “Ah! CadiRé” que traduzida para a Língua portuguesa é o título deste escrito. Expressão aliás, sempre gritada de mãos postas na cabeça, pelas mulheres e pelos homens do povo, quando se tratava de uma situação de desespero ou muito má mesmo. “Aqui d’el-rei!” como resultado do meu estado de alma!

Pois é, perante tamanha impotência, e desproporcional prepotência da situação que vivenciei, foi isso, ou quase isso, ou então qualquer coisa muito parecida que me apeteceu soltar – tal foi a minha indignação! – Quando, recentemente (Junho de 2013) recebi do Tribunal Fiscal e Aduaneiro de Sotavento do Tribunal um auto notificatório.

Mas vamos por partes. Passo a contar o que parece ser surreal, mas que de facto aconteceu.

Em finais do séc. XX, mais exactamente em 1999, o Conselho Administrativo da Assembleia Nacional, órgão colegial e solidário em termos de responsabilidade decisória – lembrar aqui que a execução das decisões teria de ser ratificada ou não, pela Plenária dos Deputados – o CA da A. N. concedeu a quantia de cem mil escudos, montante previsto e autorizado pelo Orçamento Privativo da A. N. na rubrica representações, aos trabalhadores da chamada Casa Parlamentar, para o convívio do Dia do Trabalhador, 1º de Maio. Note-se que quando digo trabalhadores, excluo os eleitos, e refiro-me especificamente ao pessoal administrativo e auxiliar do quadro da Assembleia Nacional. Era já uma tradição que vinha do antecedente e que, a então administração da Assembleia Nacional continuou, comparticipando parcialmente o convívio dos seus trabalhadores.

Aliás, do próprio Acórdão emanado do Tribunal de Contas em 2005, ficou provado que se havia cumprido uma ordem, e tendo ficado também provado que não houve qualquer apropriação indevida, tratando-se de um acto administrativo autorizado, lícito e devido. Mas adiante!

Entrados no séc. XXI, em 2013, (catorze anos já decorridos) fomos obrigados, todos os membros do antigo Conselho Administrativo, através do já referido Acórdão, a repor solidariamente, a quantia concedida em 1999, para a celebração do Dia do Trabalhador.

Não deixa de ser curiosa a celeridade no tratamento do processo (entre o Acto e o Auto) tal que apeteceu parafrasear, o título do célebre romance de Erich Maria Remarque, “…Houve tempo para amar! E houve tempo para morrer!”

Já agora, e se me for permitido, abro aqui um pequeno parêntesis, para transcrever – por ter achado interessante – um trecho da prosa lida na parte multada Tribunal de Contas, e que vem exarado no Acórdão condenatório:” Os responsáveis reconhecem que a despesa de concessão do montante de 100.000$00 (cem mil escudos) como apoio financeiro à comissão organizadora do convívio das festas de fim de ano (…) Fim de transcrição. (O sublinhado é meu).

Ora tanto quanto posso afirmar, nunca se atribuiu qualquer centavo aos funcionários administrativos da Assembleia Nacional, durante a gestão 1996 -2000, para as “festas de fim de ano” Tratar-se-á eventualmente de um lapso prosódico? Mas adiante, que nem sequer isso é importante! Apenas achei graça ao pouco cuidado e rigor semântico e formal. A celebração era de facto o 1º de Maio, Dia do Trabalhador. Fecho o parêntesis.

Chegados a este ponto, embora inconformados, mas resignados, limitámo-nos a cumprir aquilo a que fôramos obrigados e assim o fizemos.

Com efeito, paguei em Março pp. a parte que me coube nesta coima colectivamente assumida como manda a lei. Isto é, depositei na Conta da Assembleia Nacional, o montante devido e fiz prova disso, entregando pessoalmente no Tribunal Fiscal e Aduaneiro de Sotavento, o respectivo recibo do depósito bancário efectuado.

Mas de entre os membros do CA da A. N. – Todos devidamente identificados – houve alguém que não cumpriu com o que nos fora imposto.

Vai daí, e sem cuidar desta falta – como presumo, mandam os ditames da judiciosa aplicação da justiça – o Tribunal, da lista dos membros do Conselho Administrativo da A. N. escolheu-me a mim e toca de (re) multar, agora executada e ordenada a pagar de novo a mesma quantia que já havia pago e acrescidas das custas do processo, mais a chamada de atenção de que se no prazo tal, não cumprisse o pagamento, sofreria tais e tais procedimentos tidos por legais, etc. e tal.

Todo este arrazoado, sem explicitar “os porquês” no interior do texto.

Li e reli todo o processo para verificar onde eu havia faltado à minha obrigação de reposição. E nada vi com lógica que me coagisse a duplicar o pagamento.

Procurei os critérios ou então, alguma justificação fundamentada que me impusesse a condição de replicar o montante e a obrigação já cumprida. Nenhuma satisfação, apenas a impositiva e a definitiva intimação textual de pagar…o que já não devia!

Mas mais, no Ofício apenso ao mesmo processo e dirigido ao Tribunal Fiscal e Aduaneiro de Sotavento, a 25 de Março deste ano e a propósito da matéria; a Procuradoria da República da Comarca da Praia requereu o seguinte que transcrevo na parte que interessa:

(…) Em que os ora executados foram condenados solidariamente a efectuarem a reposição do montante de (100.000$00) cem mil escudos, nos cofres da Assembleia Nacional” (o sublinhado é meu). E continua: “ (…) apenas, fizeram a reposição de 85.712$00 pelo que se encontra em dívida o montante de 14.288$00 (…) Nestes termos se requer a Vª. Ex.ª que se proceda a penhora dos bens que lhes (o sublinhado é de novo meu, para demonstrar o complemento indirecto no plural, referido aos membros do CA da A. N.)...forem encontrados e de preferência, ao abrigo do artigo 104 do CCJ por descontos nos seus vencimentos (...)”. Fim de transcrição. O que reforça a ideia de responsabilidade solidária, a que estava obrigada o colectivo dos membros do Conselho Administrativo da A. N.

O que me pareceu surreal em todo este processo e que eu gostaria de acentuar, destacando é o seguinte: em acção declarativa fomos condenados solidariamente (o colectivo dos membros do Conselho Administrativo) à reposição da referida quantia, e em acção executiva o único condenado fui eu! Bizarro! No mínimo…

Para finalizar, reitero que o problema, da minha análise, não está tanto em termos da quantia a que fui de novo, condenada a pagar. O drama da minha reflexão é o princípio de justiça e do mais elementar que no caso não foi aplicado e que põe em causa os meus direitos, a dignidade e bom-nome enquanto cidadã, por um “crime” que não cometi e que convocou a minha mais genuína indignação!

«O Brumário» e «Derivações do Brumário» de Arménio Vieira. Texto de apresentação dos dois volumes na ilha do Sal.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Apresentar Arménio Vieira é sempre um prazer. Trata-se de um velho e bom amigo, para além de termos sido colegas de trabalho. A acrescentar a isto, é também uma grande honra, trazer ao leitor salense, os dois últimos volumes de poesia de tão grande poeta!

Ora bem, a sua poesia e a sua ficção de há muito ultrapassaram as nossas fronteiras geográficas e culturais e hoje são pertença não só da cultura cabo-verdiana, como da literatura lida, estudada e analisada em Língua portuguesa, no espaço da lusofonia, como ainda traduzidas para outras línguas e culturas.

Costumo dizer que o poeta – galardoado em 2009 com o Prémio Camões (a maior distinção literária instituída para os escritores de Língua portuguesa) – nasceu na cidade da Praia, cabo-verdiano de origem e de vivência e, (aqui também caberia um “mas”) de pena universalista.

Sim, os textos de Arménio Vieira, quer sejam em poemas ou em prosa e esta última é quase sempre poética, fazem jus a este “universal” que existe e que caracteriza o seu ser poeta.

Com efeito, a sua formação poética, cultural e histórica – na minha opinião, opinião aliás, de uma leitora aficionada dos textos – poemas de Arménio Vieira – revela-se quase toda ela “bebida” fundada na cultura dita europeia ocidental. Ele parte da clássica greco-latina, passa e passeia-se (o poeta) pela história e pela literatura europeia, a mais erudita, com ênfase na portuguesa, na francesa russa, inglesa, alemã, entre outras, indo até à americana e, algumas vezes, num jogo simbólico muito peculiar deste poeta, consegue prefigurá-las e contextualizá-las para as ilhas desta “macaronésia” atlântica sempre indecisa e adiada.

A moderna (A actual poesia, dita assim será mais preciso…) poesia em Língua portuguesa deve e muito a este poeta que se dá pelo nome de Arménio Vieira.

Senhor de uma cultura portentosa, Arménio Vieira dá-se ao luxo de “jogar” de “brincar” de construir e de desconstruir também, através de “trocadilhos” poéticos com essa cultura imensa que possui, e que reelabora numa constância e em profundidade, como aliás, prova tudo o que vem escrevendo. No fundo, e à boa maneira dos eleitos, aos quais ele pertence, intelectualmente falando. Os seus textos como que extraem a essência filosófica, desse lastro cultural que o sustenta, como também reflectem a mundividência experimentada e teorizada por um observador de todo especial. Para além de aliar a isso tudo, a poesia que parece que lhe é inata.

Ora é o próprio poeta que dita o «Ser Poeta» na página 91 do Brumário. Pois é, entre o “tempo” ou a ausência dele, no início e no final da “viagem”; com a habilidade tecedeira de uma “aranha”; a beleza da “rosa;” e a (im) precisão de um “número”, simbólicos e alegóricos, assim o poeta cria e escreve o seu poema.

Mas antes, na página 18 do mesmo volume, e em jeito de situar o leitor, o autor faz ou justifica os sujeitos e o destino dos seus versos. Ele prevê o destino dos seus versos. A poesia é o “baralho do poeta” com que “…os loucos tentam o póquer que os salve”.

O poeta munido com estas preciosas “ferramentas” chamemo-las assim, mais a estilística que ele auto-recria em estética própria e original, com isto tudo interligado e interdependente o poeta configura os seus poemas – textos prodigiosamente melódicos e poéticos, que nos deliciam.

Mas o que mais gosto e aprecio neste portentoso poeta, para além desta cultura imensa, é a sua assombrosa capacidade de em quase tudo isto descobrir, ver poesia e transformar em “poésis” no mais abrangente sentido e de forma admirável e maravilhosa!

Na escrita de A. Vieira há também questões de sempre, inquietantes e existenciais com que o poeta nos interpela. A morte por exemplo contida no poema da página 83 do Brumário.

Por outro lado, a poesia de Arménio de tão autêntica e profunda que é, permite-se parodiar, e utilizar amiúde a chamada linguagem de carnaval, da paródia ou a menipeia que ele tão bem desenvolve e aplica na sua linguagem criativa literária. Esta linguagem sobre a qual teorizou e bem Júlia Kristeva, autora curiosamente citada, ou trazida à cena poética pelo poeta num dos textos aqui incluídos no Brumário.

De facto e retomando, há um riso paródico e uma finíssima ironia em muitos textos de Arménio Vieira cujos sentidos porque plurissignificativos residem no tornar comum ou no chamado “destronamento” de quase tudo que é tido por elevado, dogmático ou sério. Repito que fortes influências desta discursividade carnavalesca são visíveis, em muitos dos textos de A. Vieira.

O poeta por vezes, brinca e/ou ironiza com a chamada poesia épica, laudatória que narra em versos, heróis, os seus feitos ou cometimentos bélicos.

Para exemplificar, o texto inserto na página 74 das «Derivações do Brumário» é ilustrativo dessa menipeia.

Em sentido oposto, aquilo que há de elevado e humanamente comovedor nas pessoas, temo-lo bem descrito e sentido em muitos deste poemas narrativos e/ou, dialogados. Apenas uma ilustração disso. O exemplo que achei muito terno, muito afectivo e solidário foi aquele com que Arménio Vieira brindou os mais velhos da literatura e da cultura cabo-verdiana, se quisermos, e generalizada numa palavra, os homens da Claridade. Vamos encontrá-lo exactamente no texto “Bisca Tropical” página 31 das «Variações do Brumário».

Ora bem, com o estilo a que nos habituou, o poeta inscreve nestes dois volumes duas das suas múltiplas dimensões: uma, a de jogador (de xadrez, de lugar cativo e outra, a de crítico de cinema que Arménio Vieira fora outrora. É assim que nos traz à ribalta (através de memórias inscritas nos poemas destes volumes, grandes clássicos e eternas fitas cinematográficas que nos ficaram inesquecíveis, com os nomes dos seus realizadores e dos actores celebrizados pela memória fílmica. Há um trecho muito interessante que é um pequeno documentário ou mesmo, um “take” qual realizador de filme que A. Vieira nos dá na página 93, do «Brumário», intitulado “Post Scriptum”.

Igualmente o poeta é um exímio jogador de xadrez – aqui, simbolicamente transplantado para a escrita poética – que com as suas peças num tabuleiro quase cósmico, nos transporta de forma subtil para um xadrez mais complicado que é a própria vida.

Arménio Vieira ao longo das páginas dos dois volumes, como que desafia o leitor para uma revisitação, de que ele dá o exemplo; ou mesmo para uma leitura inaugural das obras dos grandes nomes da literatura e de vultos da História universal e neste ponto, sou tentada a dizer, que o poeta emerge numa dimensão pedagógica. E fá-lo citando-os, em imaginados diálogos entre eles, por vezes diálogos a séculos, a anos de diferença entre as próprias personagens das obras e, entre os entes históricos (escritores) que as criaram e que o poeta constantemente convoca nos seus textos-poemas.

Não obstante toda essa abrangência e esse todo panorâmico no modo de ver, no olhar, e no fazer poético que Arménio Vieira possui, mesmo assim, e em simultâneo, Arménio Vieira tem alguns “compagnons de route» que ouso dizer, mais presentes, mais constantes, mais próximos até, na sua senda poética, os quais, ele ora os metaforiza, ora os recorda num real vivenciado. Alguns deles, o poeta cita, alegoriza, em vários dos textos destas duas colectâneas poéticas. Apenas para exemplificar, mencionarei, distinguindo, Fernando Pessoa, e Camões. Fernando Pessoa e os seus heterónimos passam, perpassam e passeiam-se em alguns textos presentes nos dois volumes de poesia que temos em mão quer em intertextualidades transfiguradas como «O Mar da Minha Aldeia» na página 58, quer também em diálogos e encontros imaginários.

Outros há também, (os tais “compagnons de route”) que de forma real e vivida são aqui recordados. Um deles é Mário Fonseca.

Com este último, vale também dizer que são ou foram – uma vez que M. Fonseca nos deixou – poetas de uma mesma geração e que de certa forma, juntos iniciaram a que depois seria uma já longa e profícua caminhada poética, que teve os seus inícios no antigo «Boletim Cabo Verde», no «Seló». Juntos participaram em colaborações dispersas em várias revistas literárias, apenas para citar «Imbondeiro» «Vértice» entre outros periódicos.

Convido os presentes a folhearem «Derivações do Brumário na página 39, pois vou ler o poema “O Mar e as Rosas” dedicado exactamente à memória do saudoso poeta Mário Fonseca. Tratou-se de um facto. Passou-se na vida real. M. Fonseca perdera os manuscritos do livro e andou um ror de anos em busca deles. Creio que assim Arménio Vieira o celebriza e o imortaliza neste quase soneto e através do título. Outro poema em que Mário Fonseca é evocado ao lado de um grande nome da poesia portuguesa, Fernando Assis Pacheco também já desaparecido do mundo dos vivos. Trata-se do poema “Epitáfio”. Página 30 do «Derivações do Brumário».

Finalmente, mesmo para terminar convidava-vos a regressar à página 14 do «Brumário» e perceber o estar e o sentir do poeta, “o estar só entre muita gente.” Pois bem, usando o mote camoniano, o poeta expressa em carácter subjectivo, as suas emoções, ora doces, ora amargas, ora ainda agridoces em que releva a ironia e as partidas de algo que pode ser nomeado como o Destino…O seu mundo interior, a consciência da sua solidão, as suas ilusões e decepções e, ou, a maneira como ele percepciona e vê o mundo

Volto a repetir, mesmo, mesmo a finalizar, que o leitor terá oportunidade de, ao ler os poemas, verificar, confirmar, como Arménio Vieira mistura de forma que diria única e muito dele, a temática lírica e a temática satírica num mesmo poema.



Grinhassim, não

domingo, 9 de junho de 2013
A empresa de sistematização, formalização e modernização do Crioulo de Cabo Verde terá chegado a um momento crucial, suscitando discursos veementes, umas vezes, com um certo lirismo, distante da realidade, outras, com manifesta agressividade verbal e ideológica, incompatível com essa mesma realidade.

Mas uns e outros − quase sempre fundamentados mais em aspectos psicológicos, afectivos e políticos do que meramente linguísticos − convocam uma comunicação de maior qualidade por parte do Poder Político.

Nesse contexto, e perante o risco de a língua se transformar num palco de mudanças inconsequentes e de fracturas sociais a prazo, cabe às entidades públicas dar os esclarecimentos que possam alimentar correctamente o debate.

Para tal, conviria identificar as verdadeiras questões que incidem, fundamentalmente, sobre três etapas do processo de definição de uma política linguística.
 
Literalização  − um imperativo presente
 
Mostra-nos a História que a passagem à escrita de uma língua, tradicionalmente, oral é o primeiro passo rumo à sua própria perenidade.
Assim, no caso do Crioulo de Cabo Verde, foi instituído um alfabeto que resultará no sistema de escrita da língua, depois de normalizado e de terem sido estabelecidas as regras ortográficas.

Se esse trabalho de grande qualidade técnica marca o ponto de partida do percurso para o Caboverdiano aceder ao estatuto de língua escrita, a sua socialização foi reveladora de uma comunicação deficiente. De facto, a opção de trazer a público todo um trabalho de laboratório, a começar pelo próprio nome − o famigerado acrónimo ALUPEK − funcionou como um espantalho.

O carácter inovador terá sido interpretado por uma faixa da população alfabetizada noutros sistemas como uma desconsideração pela dimensão histórico-etimológica da Língua Caboverdiana, na sua relação genética com o Português.

Por outro lado, soluções dificilmente compreensíveis pelo senso comum, como a heterografia − que teria exigido maior informação e uma formação mais aturada − traduziram-se num mal-estar de uma parte significativa da população.

A temática que viria, finalmente, a transformar-se em catarse colectiva, deu origem mesmo à criação caricatural de dois campos antagónicos – os Prokapa e os Anticapa, tendo estes sacrificado o K, o elemento mais marcadamente diferente.

Acresce a isso o sentimento de que, na realidade, o alfabeto seria a alavanca para levantar outro problema, o da língua-padrão.

Perante esse estado de tensão, é recomendável que seja, agora, avaliada a disponibilidade da colectividade para utilizar o sistema gráfico, o que, a não se verificar, poderá perigar a fase de difusão do mesmo, assim como a sua introdução no ensino.

Padronização – um pretérito imperfeito
 
Talvez seja esta a questão que mais divide a opinião pública. Creio que por duas ordens de razão.
A primeira terá a ver com uma abordagem que, baseada em generalidades teóricas, na realidade, cria argumentos que prejudicam a causa que se pretende defender. Um exemplo é a opção pela variante de Santiago, implicitamente, tomada como referência, o que terá sido uma escolha metodológica, mas apresentada como um axioma.

Na verdade, o facto de ser a variante, talvez, mais estudada e descrita não lhe confere por si só qualquer forma de primazia. Antes, obriga as autoridades a apoiar as comunidades científica e universitária na descrição das outras variantes e na realização de estudos, nomeadamente, comparativos.

O único primado deverá ser o da prudência na tomada de decisões que não se querem simplistas, nem precipitadas.

A segunda tem a ver com a escolha de um discurso de substituição que se organiza em torno do eixo da reivindicação identitária, um autêntico discurso do tempo da outra senhora. A reacção popular foi à medida do apelo, em que cada um se terá sentido atingido na sua singularidade e identidade.

Quando, inicialmente, se faz depender a unificação gráfica da opção por um dos dialectos como padrão, uma larga faixa da população, da inteligentsia ao cidadão comum, reage com desconfiança e vê um objectivo dissimulado que seria o de diferenciar uma variante (a de Santiago) para a transformar em língua nacional.

Para agravar o já delicado estado de coisas, o Poder Político, agora, canta a palinódia − afinal, a opção por um dialecto como padrão não é primordial e poderá ser feita mais tarde, após a oficialização − o que suscita perplexidade, no mínimo.

A padronização é uma construção, não é natural nem será espontânea – donde a necessidade de critérios objectivos e explícitos.

O critério histórico-linguístico, por exemplo, levantará questões como: − qual o dialecto mais representativo, desse ponto de vista? O de Santiago, onde o Crioulo terá tido origem, a partir de línguas africanas em contacto com o Português, pelo que essa primeira versão será a matriz que se desdobrou em módulos periféricos? Ou o de São Vicente que, na sua qualidade histórica de Crioulo Caboverdiano de segunda geração, se elaborou a partir da activação de ocorrências inovadoras as quais contribuíram para a emergência de uma estrutura com maior autonomia relativamente às línguas-base?

Quanto à escolha de um critério demográfico, deverá ser demonstrado como tal opção se enquadra na lógica da construção do país moderno, respeita os ideais da Nação e corresponde a uma opção colectiva e não a um princípio autista e redutor.

Finalmente, o Estado terá que dizer que língua-padrão vai usar na sua relação com os cidadãos. Trata-se neste caso, também, de bonne gouvernance.
Conclui-se, pois, da necessidade de recentrar o debate e de privilegiar uma lógica inclusiva e legítima.
Oficialização – um condicional futuro
 
O Estado tem o compromisso constitucional de adoptar o Caboverdiano como língua co-oficial.
O Poder Politico, ao asserir da imperatividade de tal medida, dá indícios de que a oficialização deverá concretizar-se num horizonte temporal próximo.

Ou seja, foi anunciado o problema − a necessidade de uma oficialização acelerada da Língua Caboverdiana, − mas não o essencial, na medida em que não se respondeu à questão política que é a de saber como proceder.

Ao Estado incumbe a responsabilidade de ponderar a viabilidade de tal opção. Para o que deve abandonar a representação dogmática da oficialização, em benefício de uma politica linguística coerente. Porque, se a aspiração é legítima, a reivindicação romântica não nos protege da possibilidade do seguinte paradoxo.

A revisão da Constituição da República de 1999 foi um momento de grande carga simbólica para a Língua Caboverdiana, em que, pela primeira vez na história do país, ela foi reconhecida, a esse nível, como uma entidade social e cultural. Apesar de confirmar, explicitamente, o seu monolinguismo − a língua oficial é o Português − o Estado comprometia-se a defender e a preservar o património linguístico na sua integralidade.

No momento actual, em que nos encontramos ainda num estádio caracterizado por uma escrita incipiente e pela ausência de língua-padrão a ser utilizada pelo Estado na sua relação com cidadãos, a oficialização teria, a meu ver, o efeito perverso de atribuir à Língua Caboverdiana uma função acessória e um lugar secundário no ambiente linguístico nacional.

Tendo em conta o carácter, originalmente, burocrático da escrita e porque uma “língua oficial” é a dos actos e das intervenções públicas, a questão que ocorre é: − como abstrair-se de o Caboverdiano ser uma língua não escrita?

Aduzir o argumento de que não se pode aguardar pela prévia fixação da escrita e pela padronização é invalidar o argumento enquanto tal. Se não se sabe quando é que o Caboverdiano poderá ser língua oficial, isto é, vector de comunicação do Estado com os cidadãos, por que decidir por uma oficialização condicional?

É certo que o Estado poderá arrogar-se de um adiamento para a efectiva utilização da Língua Caboverdiana, nomeadamente, no ensino e na administração pública. O que significará que, durante esse tempo, obrigatoriamente indefinido, o Português será a língua do ensino, do trabalho, do poder, da lei... O Caboverdiano, em contrapartida, terá uma função de língua prosaica, do quotidiano, do coração. Afinal, a que tem hoje, com a diferença de isso não estar na lei.

Corremos, pois, o risco, muito provável, de oficializar mas manter o status quo, com a circunstância agravante de pronunciar um anátema contra a Língua Caboverdiana, cuja representação, sobretudo na mente dos mais novos, será a de um sistema linguístico que não está ao mesmo nível da outra língua co-oficial.

De acordo com a teoria linguística, a realidade sociolinguística em Cabo Verde caracteriza-se por uma situação de diglossia. Uma faixa da população é, estruturalmente, crioulófona enquanto que o conhecimento e a prática do Português não são universais, nem uniformes.

Quanto aos apologistas da oficialização acelerada, para justificar a urgência, avançam diversos argumentos: liberdade de expressão, direitos humanos, afirmação da identidade, salvaguarda do património, justiça social, entre outros.

Dois deles – 1. Uma faixa da população não é, efectivamente, lusófona. 2. A Constituição da Republica torna imperativa a oficialização do Caboverdiano – baseiam-se em dados verificáveis e autorizam uma leitura cruzada.

Se isolarmos os possíveis encadeamentos causais, que ilações válidas podem ser retiradas, à luz do que prevê a Constituição da República?

Que o acesso ao Português, através, nomeadamente, do seu estudo e aprendizagem,  deve ser garantido a toda a população, logo à faixa exclusivamente, crioulófona também, de modo a que cada cidadão possa cumprir o dever constitucional de conhecer as línguas oficiais – apenas o Português, por ora, mas também o Caboverdiano, posteriormente.

A condição é que esse dever seja  exercido sem prejuízo para o direito, igualmente constitucional, de usar o Caboverdiano nas situações previstas, isto é, em contextos que não exijam o uso da,  ainda única, língua oficial - o Português.

Pelo que, se há urgência, esta é a de adiar a oficialização do Caboverdiano. É o futuro linguístico que está em causa.

Do alto dos seus mais de quinhentos anos, a Língua Caboverdiana obriga-nos a adoptar uma abordagem liberta de imediatismos e de triunfalismos.

E as gerações vindouras agradecerão, certamente.

Kinshasa, Junho de 2013
Dulce Lush Ferreira Lima
 
 
 
 
 
 
 

Dois novos livros do poeta Arménio Vieira...

sexta-feira, 7 de junho de 2013
A moderna (A actual, será mais precisa…) poesia em Língua portuguesa deve e muito a este poeta que se dá pelo nome de Arménio Vieira.

Senhor de uma cultura portentosa, Arménio Vieira dá-se ao luxo de “jogar” de “brincar” de construir “trocadilhos” poéticos com essa cultura imensa que possui, pois que a foi adquirindo ao longo dos anos, não só de boa leitura, da qual como que extraiu a essência filosófica, como também de mundividências experimentadas e teorizadas por um observador de todo especial. Para além de aliar a isso, a poesia que parece que lhe é inata.

Munido com estas preciosas “ferramentas” chamemo-las assim, mais a estilística que ele auto-recria em estética própria e original, com isto tudo interligado e interdependente o poeta configura os seus poemas-textos, que nos deliciam.

Costumo dizer que o poeta – galardoado em 2009 com o Prémio Camões (a maior distinção literária instituída para os escritores e poetas de Língua portuguesa) – nasceu na cidade da Praia, cabo-verdiano de origem e de vivência e, (aqui também caberia um “mas”) de pena universalista.

Sim, os textos de Arménio Vieira, quer sejam em poemas ou em prosa e esta última é quase sempre poética, fazem jus a este “universal” que existe no seu ser poeta.

A sua formação poética e cultural, revela-se quase toda “bebida” na cultura dita europeia ocidental, transfigurada e contextualizada nas ilhas desta “macaronésia” atlântica sempre indecisa e adiada.

Foi isso que sucedeu e o registo do poeta encontra-se nos seus dois últimos livros, «O Brumário» e «Variações Do Brumário» recentemente apresentados na Cidade da Praia, na Biblioteca Nacional.

Valem a pena! A sua leitura é imperdível!

Ao poeta Arménio Vieira as minhas sinceras felicitações por mais esta dádiva à Literatura em Língua portuguesa e à cultura cabo-verdiana.





Natural da Ilha do Fogo e Herói da 2ª Grande Guerra Mundial

sábado, 1 de junho de 2013


Esta é a sua a história, a do nosso herói de nome, Manuel Ernesto da Silva Araújo Avelino que se tornou herói – para a Europa Aliada nesse grande conflito bélico provocado pela Alemanha e – particularmente para a Holanda, país onde viveu, trabalhou e morreu em 1980, aos 81 anos de idade.

Mas para que todo o ritual do querer contar uma história seja cumprido, devemos começar pelo princípio.

Manuel Ernesto era filho de Manuel André Avelino e de Luzia da Silva Araújo Avelino, naturais e residentes no Fogo nos idos e finais do séc. XIX e inícios do séc. XX. Nasceu em S. Filipe, na ilha do Fogo a 16 de Setembro de 1898 e foi baptizado na igreja de N.ª Sr.ª da Conceição.

Como quase todas as crianças daquela época, Manuel Ernesto brincou, jogou e correu arco nas ruas e nos becos da então Vila de S. Filipe. Aí também frequentou a escola primária. Aprendeu a nadar e enfrentava com denodo, as ondas bravias e altivas das praias de «Fonte Bila», «Praia de Nossa Senhora» e da «Barca-Baleeira», tornado mais tarde, cais Vale dos Cavaleiros.

Abro aqui um pequeno parêntesis, para reiterar o que costumo dizer amiúde, que é o seguinte: quem aprendeu a nadar naquele beira-mar de respeito e naquelas vagas alterosas e desafiadoras da ilha do Fogo, se aprendeu de facto, fica bom nadador para o resto dos seus dias. Fecho o parêntesis.

Destemido e corajoso desde muito miúdo, assim o descreveu – à filha Anita, a minha informante, sobrinha de Manuel Ernesto e sobre quem adiante falarei – a irmã do herói, a D. Maríinha, Maria Martina Avelino de Pina já falecida e a mais nova dos irmãos.

Todos membros da família Avelino Henriques, bem conhecida no Fogo.

Manuel Ernesto Avelino cedo ficou órfão, primeiro do pai e logo a seguir da mãe. Tal como os outros irmãos foi criado por familiares, tias do lado materno que deles cuidaram e, no caso de Manuel Ernesto, quando completou 14 anos de idade, seguiu para Lisboa ao cuidado de um tio, o comandante Guidão Avelino.

Mais tarde, o irmão mais velho mandou-o para a Holanda. Ali fixado, trabalhou a bordo de um barco de marinha mercante Colômbia da Companhia de navegação holandesa KNSM.

Com o advento da 2ª Grande Guerra Mundial, e em 1941, o barco Colômbia foi requisitado, transformado e equipado como barco de guerra. Manuel Ernesto transformou-se também em marinheiro de guerra. O barco servia de transporte de armamento para os submarinos holandeses que lutavam contra os agressores e invasores alemães.

Ora bem, aconteceu que na primavera de 1943, em plena viagem da antiga Ceilão, Sri Lanka, para a África do Sul e já perto da cidade do Cabo, o barco Colômbia foi atacado com torpedos por um submarino alemão que o destroçou, afundando-o, mas antes, uma corveta inglesa veio em socorro e conseguiu fazer debandar o submersível atacante. A tripulação em perigo de naufrágio consegue baixar apenas uma das baleeiras salva-vidas em que embarcou também o nosso patrício. A meio caminho, Manuel Ernesto olhou para trás e viu que os companheiros que ficaram naquilo que ainda restava do enorme Colômbia, não conseguiam fazer descer – porque demasiado amarradas, emaranhadas e com o barco já em processo de afundamento – as restantes baleeiras salva-vidas. Sem hesitar, ele regressou a bordo, ajudou as manobras com sucesso, embarcou quase todos os colegas inclusivamente o comandante, e saltou para o mar no último minuto antes do barco submergir por completo no oceano. Nadou um pedaço de mar frio, mas os colegas vieram apanhá-lo numa das baleeiras.

Regressado à Holanda e tornado publico o acto heróico de Manuel Ernesto Avelino, pois conseguira salvar mais de 300 tripulantes; a rainha Guilhermina, na altura exilada por causa da guerra, na Inglaterra, reconheceu-lhe o feito e condecorou-o ainda em 1943, com a Cruz de Mérito através do Decreto-Real nº 21. Posteriormente, em 1947 e já com a Europa em paz, foi-lhe conferida a Cruz de Guerra da Holanda.

Estes são os factos notáveis da história deste foguense que casou com uma holandesa em 1929 e a quem foi dada a nacionalidade holandesa em 1947. Teve três filhos e viveu na cidade de Brielle, onde faleceu a 8 de Julho de 1980.

Em 2013, a cidade holandesa que o acolheu, atribuiu o nome de Manuel Ernesto Avelino a uma praça através de uma placa alusiva a este herói holandês de origem cabo-verdiana.



Nota Final – Afinal, como chegou ao meu conhecimento esta história tão bonita? Uma tarde destas veio visitar-me a minha amiga e familiar Anita – de seu nome completo, Nilda Anita Avelino de Pina Delgado, como já referi sobrinha de Manuel Ernesto Avelino e sanfilipense de quatro costados. Foi quem me contou a história do tio e foi quem também me lançou o desafio de fazermos aqui nas ilhas alguma divulgação da história de vida desse seu ascendente pelo lado materno e que a cidade-berço de um herói da Segunda Grande Guerra Mundial, pudesse assim também lembrá-lo através de algum topónimo (rua ou largo) e até sugeriu o Largo conhecido em S. Filipe como “Meia-laranja”, pois aí se encontrava a casa onde terá nascido Manuel Ernesto. Aliei-me à iniciativa com imenso prazer onde se juntou também algum orgulho antigo e muito vulcânico!

A minha amiga Anita trouxe com ela alguns documentos retirados do “Blogue” «Arrozcatum» de Zito Azevedo a quem mais uma vez agradeço os dados que lançou para a blogosfera, permitindo assim, o conhecimento para muitos de nós leitores, com a divulgação que fez da história deste generoso e valente cabo-verdiano.

Fica o repto lançado à edilidade da S. Filipe que nos quer parecer ser agora mais inclusiva e menos complexada em relação aos filhos e às figuras ilustres de S. Filipe de outrora.

O Brasil no imaginário literário cabo-verdiano…

sexta-feira, 24 de maio de 2013


O título do texto e o seu conteúdo foram-me “sugeridos” pela mensagem recente que recebi da ilustre ensaísta e professora brasileira, Simone Caputo, conhecida entre nós pelo seu genuíno e confessado interesse pela Literatura cabo-verdiana sobre a qual, aliás, tem vindo a analisar com profundidade, quer nos textos de sua autoria, quer nas orientações de teses que tem dirigido na Universidade de São Paulo (USP).

Apenas para citar – de entre os muitos textos críticos desta autora – destaco o excelente trabalho que Simone Caputo elaborou sobre um dos nossos poetas maiores, Daniel Filipe. (Daniel Damásio Ascensão Filipe -Boavista, 1925/Lisboa, 1964).

Ora bem, a remetente informava-me no seu “e-mail” que estava “ (…) preparando uma antologia com textos (alguns inéditos) de escritores cabo-verdianos que incluam o Brasil em sua temática ou imagética. Poderíamos contar com um texto seu? (…)”

E eu dou por mim a responder-lhe da seguinte forma: “ (…) Interessante é que tenho para mim, que a alusão, a inclusão do Brasil já foram muito mais intensos e visíveis na poesia, na prosa e mesmo no cancioneiro folclórico cabo-verdianos de outrora, do que nos textos dos dias de hoje, contrariando até um pouco, o que era lógico suceder, uma vez que hodiernamente os contactos são muito mais frequentes, prolongados e duradouros. (…)”

Por outro lado, cogitei, se é verdade que os contactos, as deslocações de cabo-verdianos ao Brasil aumentaram exponencialmente de há mais de duas décadas a esta parte, não só em termos de turismo e de negócio com as ligações aéreas directas para Fortaleza, como também, a ida de estudantes destas ilhas, que nas diferentes cidades e estados brasileiros têm feito os seus estudos superiores.

Logo, o contacto e o conhecimento da parte cabo-verdiana do Brasil, das suas gentes e cultura, tornaram-se maiores e mais reais.

No entanto, não é menos verdade, e quer me parecer que a atracção pelo Brasil na escrita poética e ficcionista cabo-verdiana, já conheceu o seu tempo, outrora, que não agora.

Se não vejamos, remontando aos versos e aos textos de Januário Leite, (1865-1930) Eugénio Tavares, (1867-1930) Pedro Cardoso, (1890-1942) José Lopes (1872-1962) entre outros, para falarmos dos mais antigos; neles encontraremos mais do que uma vez, citado sob várias formas, algum “feitiço” que o Brasil sobre eles exercia, mesmo sem terem pisado as chamadas terras de “Vera Cruz”.

Em 1923, num poema intitulado: «Homenagem», Pedro Cardoso escreve a determinada altura: “ (…) As plagas do Brasil, eu quero em verso…// O Atlântico transpondo, sonhadora / No ubérrimo país de Santa Cruz (…) Fim de transcrição.

Mas já antes destes grandes vates da lírica cabo-verdiana, folheando o «Almanch Luso – Africano» (1899) e a começar pela própria dedicatória, lemos o seguinte: “Dedicado à Juventude de Portugal, Brasil e das Colónias Portuguezas». O seu Director António Manuel da Costa Teixeira, mais conhecido como Cónego Teixeira, era natural da ilha de Santo Antão (1865-1919). Para além dos textos dos colaboradores e que mencionam o grande país sul-americano, do correio literário que o Director do Almanaque compilava transcrevemos um deles bem ilustrativo: “Brasil. – Excedeu toda a nossa espectativa o enthusiastico acolhimento que a inteligente, symphatica, e nobre província litteraria brasileira nos tem manifestado, já em cartas demasiado lisonjeiras, já nas remessas de numerosos e variados artigos para o «Luso – Africano». A todos, o nosso eterno e cordeal agradecimento» Fim de transcrição.

Logo, de há muito, para não dizer, dos primórdios da Literatura cabo-verdiana, que o Brasil surge com alguma frequência, na imprensa do Arquipélago não só em colaborações escritas, como no caso do Almanaque, como também, no imaginário da escrita ficcionista e poética das ilhas.

Mas é sem dúvida na pena dos poetas e dos escritores do mais célebre movimento cultural cabo-verdiano, «Claridade» (1936), que esse imaginário “Brasil” (mais imaginado do que real ou vivido) atinge o pináculo, na nossa escrita literária.

Eis o que disse em 1956, um dos seus fundadores, Baltasar Lopes da Silva, (1907 -1989) justificando o aparecimento da revista «Claridade»: “ O que se impunha era pensar o nosso problema, isto é o problema de Cabo Verde, preocupava-nos sobretudo o problema da formação social destas ilhas, (…) Ora aconteceu que por aquelas alturas (década de 30 d0 séc. XX) nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que considerámos essenciais pro doma nostra. Na ficção, o José Lins do Rego d’ O Menino de Engenho e do Banguê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rebelo d’O Caso da Mentira que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um “alumbramento” a Evocação do Recife de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas a minha vila da Ribeira Brava, na ilha de S. Nicolau (…).” Fim de transcrição.

Na esteira desse importante depoimento, o ensaísta e escritor Manuel Ferreira (1917-1994) – que foi um dos pioneiros na análise deste fenómeno sociológico/literário/afectivo dos intelectuais cabo-verdianos em relação ao Brasil – afirmou no seu utilíssimo ensaio, «Aventura Crioula» publicado em 1968, com prefácio de Baltazar Lopes da Silva, datado de 1965, num capítulo intitulado: “a «Claridade» e a Literatura brasileira» – concluiria o seguinte: “…Eis que para tanto havia um país que podia dar uma ajuda. Um país semelhante nas estruturas, semelhante na sua formação social, semelhante no seu contexto racial. Esse país outro não era que o Brasil – e nessa altura já com vários romancistas, poetas, sociólogos, capazes de servirem de catalisadores às energias acumuladas pelos intelectuais cabo-verdianos, mais atentos e dispostos à reformulação cultural.” Fim de transcrição.

Um outro ensaísta de muito mérito entre nós, Arnaldo França nas suas recomendadas: «Notas sobre Poesia e Ficção cabo-verdianas» separata ao «Boletim Cabo Verde», 1962, escreveu a determinado passo, referindo-se a essa influência e citando Baltasar Lopes da Silva:

É comum falar-se, e, sob aspectos mais diversos com inteira razão, o quanto a geração da «Claridade» deve ao modernismo brasileiro. Diz Baltasar Lopes, um dos fundadores da revista e o seu principal animador neste último quarto de século decorrido, referindo-se à ficção e à poesia brasileiras que elas revelavam: «um ambiente, tipos, estilos, formas de comportamento, defeitos, virtudes, atitudes perante a vida, que se assemelhavam aos das ilhas, principalmente naquilo que as ilhas tinham de mais castiço e de menos contaminado. Esta identidade ou quase identidade de sub-jacências não pode ser deturpação de escritores, ficcionistas e poetas aliteratados; ela deve corresponder a semelhanças profundas de estrutura social, evidentemente com as correcções que outros factores, uns iniciais, outros supervenientes exigem».” Fim de transcrição.

Ora estavam assim lançados no “chão” da nova criação literária cabo-verdiana, um dos mais significativos pretextos e pré-textos para o novo caminho que se seguiu a partir de então.

Daí que não admire que os textos dos mais destacados nomes do citado movimento, Jorge Barbosa (1902 – 1971) e Osvaldo Alcântara, pseudónimo poético do já citado romancista Baltazar Lopes da Silva e Manuel Lopes (1907 – 2005) imaginassem, transfigurassem, efabulassem e recriassem o “seu Brasil” em variados tons e formas, geográfico, paisagístico, social e cultural, em viagens imaginadas e poéticas.

Para corroborar isto, comecemos com Jorge Barbosa que numa sincera declaração de amor, com contornos apologéticos, intitulado: “Você Brasil” para o Poeta Ribeiro Couto” se lhe dirigiu, versando: – “Eu gosto de Você Brasil” / Porque Você é parecido com a minha terra // (…) E o seu povo parece-se com o meu / que todos eles vieram de escravos, com cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros. // É o seu falar português que se parece com o nosso falar / ambos cheios de um sotaque vagaroso // (…) Eu desejava fazer-lhe uma visita/ mas isso é cousa impossível // Queria ver de perto as cousas espantosas que todos/ me contam de Você / assistir aos sambas no Morro / estar nessas cidadezinhas do interior / que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura // (…) Havia então de botar uma fala / ao poeta Manuel Bandeira / de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima/ para ver como é que a Poesia receitava / este meu fígado tropical bastante cansado (…)”

Depois continua:

(…) Gosto dos seus sambas, Brasil das suas batucadas/ dos seus catarretês, das suas toadas de negros / caiu no gosto da gente de cá/ que os canta e dança e sente // (…) As secas do Ceará são as nossas estiagens.”

Osvaldo Alcântara continua esta temática que tem o Brasil como musa inspiradora, no título do poema: «Saudade no Rio de Janeiro»; também nos versos: (…) “o meio-tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia” do poema «A Serenata». Do mesmo modo, evoca:(…) Vou pedir para o Rio / Ladeira de João Homem / uma cuíca e um reco-reco / vou namorar, vou cantar samba (…)” no poema «Rapsódia da Ponta-de-Praia».

O poeta reafirma o seu conhecimento profundo e a sua ligação à então moderna poesia brasileira ao criar os poemas do ciclo do «Itinerário de Pasárgada» em que a influência e a intertextualidade de Manuel Bandeira ressurgem e com todo o esplendor poético de Osvaldo Alcântara.

Retomando Jorge Barbosa que foi quem mais “fiel” se manteve à sua musa Brasil, recorda no poema “Viagens” In: «Caderno de Um Ilhéu»

“ (…) Lembro as viagens que fazia nos paquetes da Blue Star quando / escalavam o porto da ilha de S. Vicente / Eram viagens que não passavam nunca do cais / mas punham um alvoroço bem grande no meu coração. // Ora seguia rumo à Europa / Hamburgo, Paris, Londres…/ Ora para Cuba, México, Argentina…// Mas para o Rio de Janeiro é que ia sempre de preferência (...)”

Mais tarde, e a propósito deste poema, a saudosa ensaísta portuguesa Elsa Rodrigues dos Santos, (1939 – 1912) no seu primoroso livro, «As Máscaras Poéticas de Jorge Barbosa e a Mundividência Cabo – Verdiana», publicado em 1989, elucida-nos da seguinte forma: “Esta  afirmação  (“Mas para o Rio de Janeiro é que ia a nossa preferência”) associa-se a um conjunto constituído por «Inédito de Jorge Barbosa» enviado em carta a Jaime de Figueiredo (1905 – 1974): «carnaval do Rio de Janeiro eu te vejo, eu te sinto» e três longos poemas do capítulo IV do Caderno de Um Ilhéu, que constituem um epistolário para o Brasil: «Carta para Manuel Bandeira» onde é expressa a admiração pelo poeta e o desejo em conhecê-lo. «Carta para o Brasil ao cuidado de Gilberto Freyre, inscrevendo-se no mesmo teor só mudando o destinatário.

“ (…) Estou a ver-me entrando no Guanabara /para essa visita finalmente / que eu tenho há muito tempo / guardado no meu desejo! (…).” Fim de transcrição.

É este imaginário afectuoso e lírico pelo Brasil que pontua de forma distinta e intensa os belos e ritmados versos de Jorge Barbosa.

Manuel Lopes, romancista já aqui citado e oriundo igualmente do movimento «Claridade», no seu conhecido romance, «Chuva Braba», quando a seca desespera o protagonista Mané Quim, este toma a decisão de emigrar (final do enredo) e o país escolhido foi exactamente o Brasil.

Do mesmo modo e perpassando pelo nosso cancioneiro folclórico, nos seus géneros musicais mais divulgados, como as mornas, as coladeiras e nas chamadas marchinhas feitas em intenção dos blocos do Carnaval; vamos encontrar os nossos trovadores populares a cantarem o Brasil, em inúmeras composições, de forma sempre amorável e procurando as similitudes com as ilhas, salvaguardadas as dimensões.

Abro aqui um parêntesis, para um breve comentário. O interessante é que quando analisada e/ou comparada a fenomenologia da emigração cabo-verdiana para as diversas paragens do mundo, o caso do Brasil sai completamente fora do figurino ou, do formato tido como normal, daquilo que foi o tipo de comportamento esperado do emigrante cabo-verdiano que partiu à procura de vida melhor para si e para os seus e que demandou os Estados Unidos, a Holanda, a França, a Argentina, S. Tomé e Príncipe e mesmo a ida, após da independência do Arquipélago, de numerosos cabo-verdianos para Portugal, entre outras paragens da Europa.

É que em quase todos os casos existe sempre o «Torna-viagem» há sempre testemunhos regressados, memórias trazidas que deixam lastro e fazem história, para o bem ou para o mal, na recriação literária romanesca cabo-verdiana.

Os exemplos abundam e o tema emigração constituiu-se como um dos grandes textos da nossa poética e da nossa prosa ficcionista.

Interessantemente, o caso da emigração para o Brasil teve ao longo do tempo, todo o contorno de uma emigração “amnésica.” Faço-me entender, não houve o “regressado” que noticiasse o que lá viveu, contrariamente ao “Brasileiro” tão presente nas obras dos escritores portugueses, ou ao “americano” protagonista de muitos contos e romances cabo-verdianos; ou mesmo, o “holandês” que fez as delícias da nossa canção brejeira e satírica, e já aqui referida, a coladeira.

Da América do Sul, e em quase excepção, é apenas o imigrante na Argentina que regressa a Mindelo, ilha de S. Vicente, como protagonista no romance de Nuno de Miranda: «Cais de Pedra».

Ainda e dentro do caso da emigração destas ilhas para o Brasil, desde logo, as crónicas do tempo, (orais, sobretudo) informavam-nos que uma vez lá chegado, o nosso patrício até se esquecia da família que ficara nas ilhas. Regra geral, não escrevia e nem dava mais notícias! Sucedia uma espécie de “corte” com a terra de origem.

E isto levou um amigo meu a perguntar-me se se podia verdadeiramente falar-se de “emigração,” quando falávamos do caso da ida do cabo-verdiano para o Brasil “in illo tempore” e se se podia igualmente deduzir com isso a existência de uma coeva “comunidade cabo-verdiana” no Brasil.

Para fechar este comentário, vale acrescentar que só viríamos a ter realmente “notícias” dos imigrados lá, em  meados e finais dos anos 70 do séc. XX com a independência do Arquipélago, e a consequente criação de estruturas diplomáticas entre os dois países. Fecho o parêntesis.

Em jeito de finalização deste escrevinhar que me parece já ir longo, reiteraria aquilo que me parece ser o mais aproximado dessa ligação/afectiva/literária/sociológica de Cabo Verde de outrora para o Brasil também de então. Acredito, sem muita margem de errar, embora permanecendo sempre dentro das reservas que a estes casos são naturalmente impostas; de que foram os poetas e os escritores da «Claridade», os amantes românticos de um Brasil, que realmente os inspirou e que também e de alguma forma, foi por eles imaginado e recriado para as suas páginas literárias. Permanecem testemunhos inequívocos. A historiografia literária cabo-verdiana registou-os.

Mas mesmo, mesmo para fechar o texto, gostaria de reiterar também a minha homenagem à ensaísta Simone Gomes Caputo pelo que tem vindo a fazer no Brasil em prol da Literatura cabo-verdiana.









Pequena Adenda ao texto “…A pedonal à Beira-mar”

sábado, 18 de maio de 2013


De uma leitora muito especial, Dulce Lush Ferreira Lima, recebi o comentário a seguir transcrito, citando apenas as partes que nos interessará certamente, e em que ela sugere uma alternativa à solução do problema, na opinião dela mais prática e eventualmente mais viável para que os utentes diários da nosso “calçadão” marítimo, consigam ter o seu espaço limpo e arranjado, para a ginástica, a marcha, a corrida e para o passeio que tão bem nos faz a todos!

Aqui vai o comentário:

(…) A intenção inspirada pela Magda e expressa no teu ultimo “post” é louvável, sem dúvida. Mas a ideia parece-me problemática , pelo que se segue.

(…)

…Como sabemos, infelizmente é esse o quotidiano de, pelo menos, centenas de famílias, pessoas que, mesmo aí ao lado do passeio, não têm o direito de fazer a mais pequena actividade diária sem ter como acompanhantes o lixo, os odores fétidos, a insegurança, etc., etc., etc.

(…) Assim sendo, e sem cair na demagogia fácil, a CMP, (Câmara Municipal da Praia) neste caso, que se quer atenta, também tem o dever de ser justa sensível. E como privilegiar uma única infra-estrutura necessária e importante quando tantas outras vitais, (…) que não poderão receber o mesmo tratamento? Como intervir? (…) Essa dificuldade em encontrar o equilíbrio entre as duas situações é a brecha por onde entra a minha observação.

(…) Segundo, uma contribuição privada para uma res publica, sim, parece à partida uma solução possível. Mas, e apenas, se forem respeitadas todas as regras que não me parece ser o caso de um pouco transparente e aleatório peditório. Creio (e espero!) que a lei não o permitirá.

(…) Assim sendo, e para que a iniciativa seja completa, justa e, verdadeiramente, cívica, creio que seria melhor ideia que os utentes do passeio, com a generosidade que certamente os caracterizará – a julgar pela “mens sana” que o “corpus sano” leva a pressupor – sacrificassem uma hora de bem estar pessoal para se reunirem e encontrarem a melhor forma de operacionalizar a contribuição. E que, isso feito, pedissem autorização à CM para a intervenção.

O que achas? Com tal observação?

Muitos beijinhos e votos de uma noite repousante.

Dulce