O Político e o seu Salário

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O exercício da actividade política é de uma nobreza fora de qualquer escrutínio. Como qualquer outra actividade/profissão é preciso exercê-la com elevação, empenho, dedicação e integridade. Pelo seu carácter “missionário” deve revestir-se de um certo desapego, obviamente dentro de certos limites, alguma generosidade e muita honestidade intelectual.
Infelizmente não é o que tem ocorrido no nosso País. Verifica-se que muito poucos se inserem neste contexto.
Uma parte significativa dos actores políticos entre nós transforma-a numa profissão conveniente e proveitosa, um modo simples de vida, sem grandes exigências que não sejam o caciquismo e a obediência cega aos partidos e à sua cúpula.
Uma outra parte, com maior margem social e económica de manobra reverte-a numa rampa para os seus egoísticos projectos pessoais – eventualmente compreensível dada a natureza humana – num trampolim para a visibilidade e o narcisístico protagonismo na sociedade.
Outros ainda, com poucos escrúpulos, num elevador para o enriquecimento – à nossa escala – fácil, através do amiguismo, nepotismo, negociatas, tráficos de influência e outros tipos de corrupção. Com isto tudo, quero dizer que só uma parte muito, mas muito restrita exerce-a com desprendimento, probidade e espírito de missão.
Para tudo isto vem contribuindo e contribui um regime excessivamente partidocrático, que abafa, de forma indisfarçável qualquer actividade da sociedade civil não obstante a tentativa de a dissimular com pinceladas impressionistas de pluripartidarismo para esconder a ausência de um verdadeiro apartidarismo que a devia presidir.
 
Na minha opinião, obviamente, a potenciar a omnipresença dos partidos e o controlo que (não) fazem a si próprios a ausência de mecanismos intercalares efectivos de cariz popular (não populista) e apartidário que deveriam colaborar com o PR – órgão de soberania unipessoal e apartidário – de modo que este exercesse a sua incontestável (livre e transparente votação popular) autoridade como Provedor do Povo para questionar a legitimidade (não legalidade) de um governo perante o cumprimento das promessas e dos programas eleitorais, e agir em conformidade.
De outro jeito, ainda no meu ponto de vista, imperarão a impunidade e a desonestidade intelectual dos governos que durante as campanhas prometem mundos e fundos e depois delas andamos seca e meca com a candeia de Diógenes à procura do cumprimento das promessas que foram bandeira. As maiorias parlamentares no geral, e particularmente no nosso País, infelizmente, são apenas e tão-somente ratificadoras das acções do governo.

Com o “quero, posso e mando” dos partidos, corre-se um risco enorme de transformar as novas gerações, de uma maneira geral, tecnicamente muito mais bem apetrechadas e preparadas do que a nossa, pelo menos a minha, global e individualmente, numa geração de oportunistas porque só vê reconhecida a sua qualidade e o seu mérito se inseridos directa ou indirectamente no partido do poder. Uma geração que teimamos em julgar apenas de acordo com os nossos valores, esquecendo que para além dos valores intemporais, que os há e são idiossincráticos de cada povo, outros existem que são geracionais e que lhes pertencem inteiramente.
Falou-se, ou melhor, vem-se falando do aumento dos vencimentos dos deputados e, já sabemos, por arrastamento, de toda a classe política.
Não estou contra o facto dos titulares de cargos políticos serem bem pagos. Bem pelo contrário, sou defensor. E por isto, penso igualmente que devemos ser exigentes no seu escrutínio e na avaliação do exercício das suas funções que se quer com competência, justeza, honestidade e dedicação e, consequentemente, também se deve debruçar na dimensão e composição dos órgãos políticos colegiais.

Os políticos vivem dos nossos impostos e não pertencem propriamente ao sector produtivo. Por isto, em matéria de rendimento de trabalho, a ninguém se deve exigir mais bom senso do que aos titulares dos cargos políticos, designadamente deputados da Nação, porque são eles próprios que estabelecem os seus honorários, as suas regalias, os seus direitos, os seus benefícios sem qualquer consulta popular, sem qualquer estudo sério justificativo e sem os ter feito constar dos seus programas de campanha.
Numa conjuntura de crise, não parece sensato reivindicar aumento de salário para, e por, aqueles a quem incumbimos a tarefa de a gerir (a crise) e mitigar – os políticos. É uma atitude que não prestigia a classe política e a sua concretização nas circunstâncias actuais seria uma afronta.
 
Não se julgue que sou contra a democracia representativa. Não o sou de todo. O que penso é que devem existir mecanismos compensatórios que preencham os vazios que ela gera na sociedade durante o período do mandato.

Citando um ilustríssimo jurista – Dr. João das Regras (séc. XIV) – “o que a todos diz respeito, todos devem decidir”, pergunto-me muitas vezes se os nossos representantes têm mandato para decidir sobre aquilo que não foi previamente declarado ou sufragado e que diz respeito a todos?
Relativamente ao aumento de salário, não está em causa se o merecem ou não. Isto seriam contas de um outro rosário. Mas se o podemos pagar e se é legítimo que o façam.
Uma ideia a reter com vista a acabar com as eventuais arbitrariedades seria indexar o salário dos políticos ao salario médio nacional. A ideia não é nova nem é minha. Já há pelo menos um país (europeu) que a pratica.
E porquê o salário médio e não o mínimo? Porque enquanto o primeiro é um valor “real” – eventualmente estatístico – que se relaciona com a capacidade produtiva do País, o segundo é um valor arbitrado, fruto de confrontações e disputas entre as instituições da concertação social e administrativamente assumido.
Não seria difícil encontrar uma formulação…
A.   Ferreira

Reflexos de valores humanistas/cristãos na criação poética cabo-verdiana – A poesia de Osvaldo Alcântara, um exemplo emblemático

sábado, 19 de outubro de 2013
Antes de entrar propriamente no tema deste escrito que sintetizei como reflexos de valores humanistas/cristãos na poesia de Osvaldo Alcântara farei, ainda que de forma breve e muito resumidamente, algum enquadramento histórico/literário da matéria.
É já para nós, dado adquirido que os Homens da Cultura, ao longo de séculos, a seu modo, com os dons e os instrumentos que a época histórica, o seu saber, e os meios que possuíam, lhes proporcionaram, foram e são os escultores e os registadores daquilo que aconteceu connosco e que lírica e simbolicamente estão tão bem sugeridos nos últimos versos – muito apreciados e também frequentemente ditos – do belo poema de Jorge Barbosa intitulado, «Prelúdio»: “...Quando o descobridor chegou / e saltou da proa do escaler varado na praia /.e se persignou / receoso ainda e surpreso (...) nessa hora então/ nessa hora inicial/ começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós.”
 Ora, iniciou-se a nossa condição de Homens que havia de ser e é culturalmente mestiça. Foi o começo simbólico (nos versos do poeta) da configuração da nossa idiossincrasia e consequentemente daquilo a que comummente se chama a nossa gesta/identitária. Os Homens das Letras, do pensamento, das ciências, das artes, e da música, lavraram tudo isso nos seus textos, nas suas partituras, nas suas telas e esculturas.
 Abriria aqui um parêntesis para comparar o seguinte: Eduardo Lourenço, grande pensador português contemporâneo, escreveu em relação à questão da identidade dos Açores um ensaio belíssimo e no qual li – “mutatis mutandis,” com as devidas diferenças e adaptações – algo que se pode aplicar – In illo tempore – ao caso de Cabo Verde, pois que já possuíamos de há, pelo menos um século, antes da independência, aquilo que Lourenço conceptualizou como: “ Uma consciência bastante elevada de uma personalidade singular no espaço mais geral da cultura portuguesa”. Mas o interessante é que essa nossa identidade cultural forjada ao longo do tempo, no isolamento quase cósmico do meio do oceano, descendendo de dois grandes grupos humanos, o africano e o europeu que aqui aportaram forçadamente, quase todos com saudades do continente e da terra que deixaram para trás. Todos enfrentando uma luta duríssima contra um imbatível adversário, uma natureza inóspita causadora de um cortejo de malefícios e tragédias humanas e sociais, que se acreditavam então como imponderáveis desígnios, determinados por Deus e pelo destino;
 Apesar de tudo isso, a construção da nossa identidade cultural, não se caracterizou felizmente, em muitos momentos, «por oposição ou por ressentimento ao grupo maior» porque este último era também parte estruturante dessa mesma identidade. Daí talvez que estejamos numa situação que nos permita perceber, apreender e interiorizar a nossa identidade cultural sob formas não extremadas, não exacerbadas.
Dito desse modo, não exclui, no entanto, que por vezes a questão da identidade se ponha entre nós, de forma obsessiva e com algum formato de “ajuste de contas.” Será? Por vezes assim parece, e isso leva-me ao poeta Alexandre O’Neill, que para o caso português diz que é “uma questão”que temos, mais connosco mesmos” do que talvez com os outros.
Actualmente e graças ao muito citado “mundo global”, às tecnologias de informação e de ligação, reaproximámo-nos com naturalidade dos outros espaços e de outras comunidades, com especial realce para as que connosco comungam e partilham a bela a língua portuguesa. Fecho o parêntesis.
Retomo o que vinha dizendo, é também para nós, lugar-comum, que alguns Homens da pena, através dos seus escritos e das suas intervenções, cada um à sua maneira, colocaram, acrescentaram uma “pedra” ao edifício da nossa identidade. De entre eles notabilizaram-se naturalmente os escritores e o poetas como contribuintes ou, contribuidores e foram-no de facto, para o reconhecimento, para a distinção e para o registo e a fixação da identidade cultural da comunidade a que pertencemos.
   Fernando Pessoa definiu essa contribuição num verso lapidar: A alma de uma época está em todos os seus poetas e filósofos...
Com isto entro no tema a que me propus, o exemplo poético de Osvaldo Alcântara e já fixado o seu perfil.
Não vou apresentar o poeta Osvaldo Alcântara porque creio desnecessário para o leitor, mas apenas reiterar, uma vez que já muitos o disseram, em que me incluo pois já o disse algumas vezes em outras circunstâncias, que Osvaldo Alcântara/Baltazar Lopes da Silva (1907-1989) é uma referência de peso na historiografia literária e cultural destas ilhas. Poeta, Contista, romancista, ensaísta, filólogo, ele deixou-nos um legado portentoso, à nossa escala, claro! Porque fonte de pesquisa constante e sempre fascinante para quem procure penetrar na fenomenologia cultural crioula, a que Manuel Ferreira justamente classificou de «Aventura Crioula», pois bem, sobre isso, Osvaldo Alcântara/Baltazar Lopes é uma base segura de indagação e de estudo para o entendimento do fenómeno hoje designado já sem reservas, acredito, de: cabo-verdianidade. Para se conhecer a obra deste autor, recomendo vivamente a leitura dos textos/ensaios do Prof. Alberto Carvalho da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o Dr. Leão Lopes com o livro: «Baltazar Lopes, um homem arquipélago, na linha de todas as batalhas» São hoje dois prestigiados biógrafos de Baltasar Lopes da Silva.
Outra questão que aproveitava aqui a oportunidade para rapidamente expor é que estamos perante um poeta que é ao mesmo tempo ensaísta e que por vezes, Osvaldo Alcântara usou, em linguagem poética, as profundas reflexões que Baltazar Lopes expandiu nos seus ensaios sobre a condição do Homem em geral e com particular acuidade, sobra a condição do Homem cabo-verdiano. Apercebe-se, lendo a poesia de Osvaldo Alcântara, desta espécie de contaminação frutuosa entre o ensaio e alguns poemas.
Agora reportando-me ao contexto histórico/literário que forjaram o super-estrato intelectual de Osvaldo Alcântara teremos de ir, por um lado, ao Realismo e ao Neo-realismo literário do século XX, e cujo humanismo antropocêntrico, que vinha de trás, conheceu certo esplendor e evolução nas obras de escritores e poetas franceses e portugueses, e isto para me referir ao que me parece estar mais próximo e ter sido mais conhecido e mais estudado pelo nosso poeta Osvaldo Alcântara a quem costumo aproximar o seu modo de criar poesia ao tipo de poesia de Antero Quental, de Miguel Torga, de Alexandre O’Neill, de Sofia Melo Breyner Andresen, passando por Carlos Drumont de Andrade indo até mesmo ao de Fernando Pessoa, pois que, na linha deles, também os textos/poéticos de Osvaldo Alcântara, tanto interpelam o seu semelhante, como se solidarizam com ele, como o levam ainda a questionar o Ser e o que está para além do Ser indo até ao Ser supremo…  
Por outro lado, esta poesia pode ancorar-se naquilo que mais recentemente Julie Kristeva explanou numa excelente comunicação sobre as origens e o papel do Humanismo/cristão/europeu no pensamento actual, literário/cultural, mas já global, e o lugar que o mesmo tem como mediador cultural nos conflitos, igualmente muito actuais e tendo como particulares destinatários, aqueles que pretendem destruir o outro, o seu semelhante, em nome de crenças religiosas. Explica a autora como o humanismo deve ser entendido nas sociedades actuais e, passo a citar:
Filho da cultura europeia, o humanismo é o encontro de diferenças culturais favorecidas pela globalização e pela informatização. O humanismo respeita, traduz e reavalia as variantes das necessidades de crer e dos desejos de saber que são patrimônio universal de todas as civilizações.” Fim de citação.
Ora bem é nesse humanismo cristão, a que nem falta uma “praxis” do bom samaritano é que assenta largo espólio da poética de Osvaldo Alcântara.
Começarei por exemplicar isto, com o poema intitulado «Caim», Tema sugerido pela Bíblia e transfigurada e metaforicamente na fala do sujeito poético, quando suplica ao pecador fratricida que expie o seu erro, que seja marcado por isso, mas que, apesar de tudo, a redenção não estará totalmente perdida, pois que existe a voz do poeta:
“Irmão, desce/ao fundo do meu poço. // Houve um tempo em que te quis perdoar. // Inútil era a minha paixão. // Hás-de nascer mil vezes, / mil vezes virás ceifar a minha seara / no fundo do pecado. // Tens de ser marcado, tatuado, / para que a tua mancha seja indelével / como o Pecado Original. // Na hora em que o céu se fechar / só um grito sem eco será o teu remorso. / Então, no escuridão do caminho / esta minha alma irá sem cansaço / dizer-te que a redenção não está perdida. // Não deixes que a luz do Sol desapareça / no atalho que as tuas mãos cavaram / nas trevas do Triunfo. 
Outro exemplo demonstrativo vou retirá-lo ou, melhor encontrá-lo nos versos  do poema «Evangelho Segundo o Rei de Pasárgada» afirma que em “Que lá os homens podem amar as estrelas que Deus Nosso Senhor criou…” e no mesmo poema informa o leitor que “Em Pasárgada tem Cristo Nosso Senhor”
Afinal o poeta quis simbolizar nestes versos a grande missão do poeta que teve o privilégio da viagem até Pasárgada dizendo-lhe ou, melhor, ordenando-lhe: “Sê Pedro e Paulo, /tira a inspiração dos traços que deixaram as sandálias dos apóstolos.” e acrescenta o poeta dirigindo-se ao Rei de Pasárgada:
“A tua herança, Ò rei, está escrita nas tuas palavras, /em que prometeste aos homens lúcidos e humildes a civilização de Pasárgada”
E expressa finalmente o maior desejo do Rei de Pasárgada,
“Que os poetas sejam irmãos em Cristo”
Reportando ao poeta brasileiro Manuel Bandeira a quem Osvaldo Alcântara pedira o mote de «Pasárgada» verifica-se que, dadas as circunstâncias diferenciadas e particulares em que Manuel Bandeira criara o seu célebre poema tornara-o luxuriante, envolveu-o em algum fulgor sensual, sugeriu algum erotismo e mesmo algum humor brincalhão por antítese e por contraste, à situação que ele vivia na altura da sua criação. Numa linha diferente, Osvaldo Alcântara quando glosa o mote sugerido pelo grande poeta brasileiro, replete-o de alguma mística filosófica/questionadora Vira-o para uma contemplação humanística/cristã, diz o poeta, num dos versos, – do célebre e que também já foi de controverso entendimento, e de muita e injusta interpretação, o conhecido poema: «Saudade de Pasárgada». A determinada altura, confessa o poeta: – “Em Pasárgada eu saberia onde é que Deus tinha depositado/o meu destino…” E o interessante é que ao longo do conjunto de poemas denominado «Itinerário de Pasárgada»” o poeta diante o “Rei de Pasárgada” tem uma atitude reverencial que é mais usado para o divino do que para o rei temporal, permitam-me esta comparação já anacrónica.
Creio descortinar, por vezes, na poesia culta e filosófica de Osvaldo Alcântara algo que se percebe como a elevação de uma prece, de uma oração, especialmente em momentos em que a matéria poética trata questões suscitadas pelos encontros, e com especial ênfase, pelos desencontros, entre Homens e entre o Homem e Deus.
E esta dialéctica adensa-se no poema «Amigo», em que há como que um chamamento ao entendimento e à harmonia há muito perdidos entre os humanos. E a quem o poeta recorre para restabelecer tudo isto? Vamos escutar o seu apelo bem forte:
«Amigo, a Tua palavra está novamente / clandestina no Deserto / o ar ressoa o Teu nome, /homens gritam o Teu nome / o Teu nome, / mas puseram-no a fugir para a cama fofa / dos dicionários de sinónimos. // O lábaro impuro tem a violência / do tempo em que nem eras uma suspeita. // Vem, Amigo, / chicoteia outra vez que faltam séculos de séculos /para o Teu reino ser achado // na aldeia encoberta conta a Tua parábola. // Lá ninguém fugiu de Ti / lá terás a Tua cama para te deitares, / e a água humilde do canto da casa será a dádiva / dos filhos dos Teus filhos. // Olha por Nicolau. / Os mercadores nada poderão com ele. // Confio em Ti, Amigo / confio em Ti, Amigo.// O inefável invade docemente a minha tristeza. / Sei que a Tua espada há-de fulgurar nas batalhas necessárias / e Nicolau nunca mais voltará a ser moeda / das riquezas de Caim.
Para terminar, acrescentarei que é com um humanismo eivado de valores cristãos, valores esses, que aliás são naturalmente pertença histórica/social interiorizada pelo homem cabo-verdiano, e ponto de partida do seu caldeamento cultural, que Osvaldo Alcântara alcançou também a bênção (permitam-me a comparação) da sua palavra poética.

Uma Justa Homenagem

terça-feira, 15 de outubro de 2013



O texto que a seguir dou a conhecer aos leitores do “Coral Vermelho” foi escrito há já um bom espaço de tempo. Destinava-se então a integrar outros textos pedidos para a comemoração dos 25 anos da fundação da instituição que foi a Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário, posteriormente Instituto Superior de Formação de Professores (1980-2005).
Pois bem, enviado o texto, creio que o mesmo não foi publicado. Pese embora a validade temporal da ocasião ter expirado, a homenagem a que o escrito se propôs, essa, nunca expira o prazo e aqui a registo, tal qual a redigi.


Uma Justa Homenagem

 
Uma das tentativas de se estabelecer “a ponte” entre o passado e o presente é exactamente através da memória.

Pois bem, recordar, recordar é como revisitar a tal casa velhinha onde outrora andámos e querer sentir os cheiros do passado como se ainda lá permanecessem…

Solicitada que fui e gentilmente, para que desse um testemunho escrito sobre a instituição de formação de docentes para o ensino secundário, o ISE, Instituto Superior de Educação, que cumpre neste ano um quarto de século de existência. Será bom lembrar que o ISE, já foi Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário e depois Curso de Formação de Professores do Ensino Secundário. O meu propósito é homenagear uma das principais obreiras da edificação desta instituição entre nós.

Mas antes de entrar no testemunho, propriamente dito, e porque pertenço ao número daqueles que aposta e acredita que a equipa é que faz a obra e não apenas um indivíduo, a propósito e à colação transcrevo aqui um trecho do já célebre e bem conhecido poema de Bertoldo Brecht que tão bem expressou a ideia:

Perguntas de um operário letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis/Mas foram os reis que transportaram as pedras? /Babilónia tantas vezes destruída, /Quem outras tantas a reconstruiu? /Em que casa da Lima dourada moravam seus obreiros? /No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde foram os seus pedreiros? /A grande Roma está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? /Sobre quem triunfaram os Césares?

A tão cantada Bizâncio só tinha palácios para os seus habitantes? / Até a legendária Atlântida na noite em que o mar a engoliu viu afogados gritar por seus escravos. // O jovem Alexandre conquistou as Índias. Sozinho? // César venceu os gauleses. Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço? // Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha chorou. E ninguém mais? //Frederico II ganhou a Guerra dos sete anos. Quem mais ganhou? /Em cada página uma vitória / Quem cozinhava os festins? //Em cada década um grande homem. // Quem pagava as despesas? // Tantas histórias / Quantas perguntas.

 Bertold Brecht (dramaturgo e poeta alemão do séc. XX)

Ora bem, embora comungando do conteúdo dos versos aqui transcritos, é minha convicção que da equipa merece ser destacada e homenageada, uma figura de grande pendor e sabedoria técnico/pedagógica. Destacá-la para ser reconhecida como alguém que deu o seu melhor na então novel organização do sistema educativo nacional. Trata-se da pessoa da Dr.ª Maria Luísa Ferro Ribeiro que para além de ter sido brilhante professora de Geografia no velho Liceu Adriano Moreira da Praia na década de 60 foi também a primeira mulher Vice-Reitora daquele saudoso estabelecimento de ensino.

 Vale lembrar igualmente, que ela assegurou logo após a independência do país, a chefia de alguns dos serviços mais importantes do então recente Ministério da Educação, nomeadamente o seu Gabinete de Estudos e Planeamento e a Direcção – Geral da Educação.

 Mas o que aqui se pretende realçar é a forma entusiástica e empenhada como Maria Luísa Ribeiro abraçou desde a primeira hora, o então considerado arrojado projecto, quando muitos de nós estávamos ainda cépticos em relação à ideia de se formar professores para o ensino liceal em solo nacional, mormente que da ideia tão rapidamente se passasse à concretização dela!

Lembro-me que as sessões lectivas da formação foram ministradas, no início, no Liceu Domingos Ramos. Numas salas conquistadas com alguma resistência; num espaço bem exíguo, em condições nada confortáveis e que só a força e a determinação da sua primeira Directora, a Dr.ª Maria Luísa, tornaram possível, fizeram funcionar e levaram avante tal projecto transformador.

Mais recordo que com a sua enorme capacidade de influenciação e de prestígio, ela conseguiu rodear-se de bons Professores, sobretudo de um ilustre escol, nomeadamente da Universidade de Coimbra, cujo grupo que vinha à Praia em cooperação quase que permanente, foi também de alguma forma pioneiro e co-fundador da então Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário.

Pode-se sempre contra-argumentar que “uma andorinha não faz a Primavera.” Pois é, mas há sempre uma que se destaca mais e a anuncia de forma mais laboriosa e eficiente. É nesta linha e com esta quase metáfora que distingo o papel da Dr.ª Maria Luísa Ribeiro no dealbar da criação da Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário em Cabo Verde.

Com este entendimento, peço que me seja relevada a omissão de outros agentes, igualmente merecedores de apreço, uma vez que o propósito e a finalidade deste testemunho é mesmo distinguir e homenagear, a distinta conterrânea Dr.ª Maria Luísa Ferro Ribeiro. 

Foi assim, ressalvados os esquecimentos que a memória não registou, que se iniciaram os primeiros cursos abertos naquele já longínquo ano de 1980.

Reitero que é de toda a justiça realçar e ouso quase afirmar que se não tivesse sido a forte crença, a extraordinária perseverança, a dedicação e o dinamismo da Dr.ª Maria Luísa Ferro Ribeiro no projecto de formação de docentes para o ensino secundário que evoluiu no que é actualmente o ISE, quiçá, não estivéssemos agora a comemorar o 25º aniversário da fundação da instituição que pretende, (embora não sem antes trilhar ainda alguma caminhada preparatória), ser parte da Universidade pública de Cabo Verde!

Parabéns ISE!

 
 

Preocupações & Prioridades

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sempre me preocupou a nossa presunção de modernismo proclamada aos quatro ventos como se fôssemos realmente suficientemente autónomos para decidir sobre todas as nossas pretensões.
As nossas leis são sempre as mais modernas e os nossos Códigos dos mais avançados sem nos atermos com a devida atenção na nossa sociedade, isto é, nos verdadeiros impactos que irão ter nela como tal e como conjunto de indivíduos. Numa palavra, se ela, a sociedade, é também das mais avançadas?

É óbvio que estou de acordo que devamos nivelar por cima, mas estou muito mais de acordo com a procura de condições para assim proceder.
Compreendo a ufania dos legisladores e interrogo-me sobre o que aconteceria aos nossos arquitectos e engenheiros se andassem por aí a projectar arranha-céus, grandes barragens, caminhos-de-ferro, grandes embarcações, palácios sumptuosos, enormes e aprazíveis parques de diversão, estádios esplendorosos, etc. etc.; ou a polícia a exigir carros bem equipados, tecnologias de ponta, das mais avançadas do mundo, laboratórios científicos bem apetrechados e gente superpreparada para garantir a segurança e a protecção do cidadão e fazer jus às modernas leis e aos avançados códigos?  

A resposta com certeza seria, ou estaria muito perto de: “estes tipos pensam que estamos na Suécia ou na Suíça? Ainda não atinaram que estamos em Cabo Verde, um estado minúsculo e pobre?
Falou-se já de salário mínimo. Fez-se dele durante muito tempo uma bandeira, quase desígnio nacional, sem se preocupar se ele geraria mais empregos, promoveria mais riquezas ou traria melhores condições de vida ao cabo-verdiano. A poderosa Alemanha não tem salário mínimo enquanto a Bulgária tem um ridículo salário mínimo de cerca de 6.000$00 (56 Euros). Isto apenas para citar duas situações extremas da rica União Europeia.

Hoje está sobre a mesa o subsídio de desemprego. Não deixa de ser interessante que isto acontece quando a Europa que nos ajuda, luta desesperadamente com a sua permanente diminuição, o seu encurtamento e alguns países só não o extinguem porque se trata de um direito adquirido num continente modelar em direitos sociais. Ninguém poderá estar em desacordo se houver capacidade para o sustentar. Mas num país de desempregados importaria muito mais falar de geração de emprego. A falta de emprego é que humilha, avilta, amesquinha e destrói. Não me parece que o subsídio - uma medida paliativa porque sempre limitada no tempo - combata esses danos morais e psicológicos, entre outros. Dir-me-ão: Mas mitiga! 
E aí interessa saber o seu verdadeiro impacto social, a dimensão da sua projecção no tempo e se não põe em causa hoje, mas sobretudo, no futuro, a frágil sustentabilidade da segurança social no País. Como habitualmente, escolhe-se sempre a via mais fácil sem olhar ao seu custo.

Todas essas preocupações poderão ser, abstractamente, justas. Mas serão elas próprias geradoras de riqueza e de diminuição da taxa de pobreza? Foram medidas as suas consequências de curto, médio e longo prazo?
Outra questão que se tornou uma fixação é a criação de um Tribunal Constitucional não acoplado ao STJ e da Provedoria de Justiça.

A solução actualmente existente quanto ao Tribunal Constitucional não é, de todo, uma cabo-verdura. Ela existe em países democráticos como os Estados Unidos da América – o Supremo acumula as funções do Constitucional. Porquê procurar uma solução mais dispendiosa, criando estruturas, a meu ver, puramente parasitárias dado o volume de trabalho que não terá? Ou será, como diriam alguns, para servir uma certa clientela, sem quaisquer garantias do acréscimo de eficiência ou mesmo de isenção? Será ela (autonomia) uma prioridade num país que se debate com enormes problemas socioeconómicos e com uma efectiva necessidade de um acérrimo combate à miséria?
Se a actual configuração não dá resposta satisfatória não nos enveredemos por soluções fáceis que sejam onerosas. Procuremos com estudo e reflexão as suas fragilidades e tentemos corrigi-las com um mínimo de acréscimo de esforço para o erário. Reflictamos maduramente sobre isso!

E quanto à figura de Provedor de Justiça, qual será realmente a sua força para conter os eventuais desmandos, que os há, do Governo? Não seria preferível que os partidos políticos, sobretudo os do sistema ou da esfera governativa como se tornou moda dizer-se, abrirem mãos do sufoco, do controlo excessivo que exercem sobre a sociedade civil, atendendo-a e deixando-a crescer e implantar-se livremente, sem a tutelar? Isto passaria irremediavelmente por uma análise profunda e, eventual, reforma do nosso sistema político apontando para que os partidos abrissem mão do monopólio que indubitavelmente têm da actividade política e permitissem que o “indivíduo” fora do espaço partidário pudesse também participar de forma activa na vida política do País para além do acto de votar. Não há que ter medo: os partidos serão sempre essenciais à democracia.
Não podemos, por puro mimetismo, cultivar vaidades e veleidades e depois estar de mãos estendidas a pedir que no-las alimentem de forma directa, ou indirecta através do orçamento do Estado. Estas devem-se apoiar apenas e unicamente nos nossos recursos.

Sempre vivemos à custa de doações e subsídios e devíamos ter mais atenção e contenção com o dinheiro daqueles que nos ajudam.
A procura de sinergia é uma regra de ouro. No nosso país, pequeno e arquipelágico, é um imperativo. Tal como o cálculo custo-benefício e financiamento interno ou externo se for questão de sobrevivência.

É por isso que quando me falam de Tribunal Constitucional não acoplado ao STJ e Provedoria de Justiça, eu questiono muito sinceramente da pertinência da sua prioridade.
Essas temáticas assim como outras que visam criar estruturas e mais estruturas num país que nunca produziu riqueza suficiente – essa é a grande verdade; veja-se o financiamento do OGE – para a sua manutenção, poderão constituir uma interessante e vistosa imagem da nossa democracia formal, mas no concreto não representariam uma efectiva e palpável melhoria de vida dos nossos concidadãos.

É preciso pôr a tónica naquilo que é essencial para a melhoria efectiva da qualidade de vida dos cidadãos e não naquilo que serve mais aos partidos e ao sistema do que aos cidadãos, individual e colectivamente.
A. Ferreira

QUE SAUDADE!...

quinta-feira, 18 de julho de 2013
João partiu como sempre viveu: discreto e silencioso. Na sua boémia e folia como no seu trabalho e profissão ele apunha sempre o seu timbre de discrição. Homem de fino trato, elegante e cordato assumia sempre com as pessoas, um comportamento em que a ética e a cordialidade presidiam o relacionamento mesmo quando era fugaz e transitório. Desde muito novo teve funções que lhe conferiam alguma visibilidade. Visibilidade esta que não só se realizava pelo empenho e eficiência mas também e sobretudo, pela integridade e honestidade com que desempenhava essas suas funções. Pelo trabalho feito.

Tinha com ele, quase semanalmente, conversas longas sobre a família que ele adorava e fazia questão de o dizer de forma expressa com um certo ar de beatitude como sendo a sua principal razão de viver. Falávamos também de política. A maior parte das vezes. Discordávamos quase sempre nos caminhos a seguir. Não nas metas e nos objectivos. O país acima de tudo. Recordo-me da maneira elegante e sorridente com que contornava as suas concordâncias substantivas comigo quando estas punham a descoberto a linha oficial do seu partido, sem as expressar explicitamente. Era uma questão ética de compromisso em relação ao seu partido da qual não abdicava nem na privacidade.
Os muitos e bons anos que tivemos, Ondina e eu, o enorme privilégio de com ele convivermos de muito perto conferiram-nos a autoridade de o considerar um excelente pai, um carinhoso e babado avô, um fiel e leal amigo e um grande cidadão. Alguém que, com toda a propriedade, se pode chamar um Homem Bom. Seguramente teria sido também um bom marido, di-lo-iam os quase 50 anos de casado; mas a sabedoria popular não aconselha que se “meta a colher”.

Em apenas quarenta dias perdemos, a Ondina e eu, dois irmãos: um biológico (meu) outro de adopção. Ambos de coração e no mesmo patamar. A nossa vida está ligada de forma indelével aos dois. Com o primeiro, o Daniel, as primeiras dezenas anos de vida caracterizadas por um certo nomadismo, protecção, irrequietismo (meu) e vicissitudes que teve que aturar com a paciência e tolerância de um bom irmão mais velho; o segundo as últimas, obviamente em sobreposição. Quiseram as circunstâncias da vida que vivêssemos mais continua e intensamente com o segundo. Dos dois permanece uma SAUDADE imensa, indescritível, que o tempo irá dissipando sem nunca extinguir.
Tenho uma concepção de morte que considero, talvez pretensiosamente, de pragmática: respeito-a profundamente, mas é algo que reputo de muito íntimo. Diz respeito apenas àqueles que sentiram de facto a perda do seu ente querido. E não há que exibi-lo – esse sentimento. E muito menos com romarias protocolares que, na sua maior parte, não passam de manifestações superficiais de um sentimento que não existe e de uma solidariedade manifestada de uma forma que poderá ser incomodativa e inoportuna. Ou de uma homenagem deslocada e intempestiva.

Os pêsames devem ser um sentimento de facto e não uma obrigação, um ritual de circunstância imposto pelas convenções sociais sem se avaliar da oportunidade e das crenças sociais e religiosas dos envolvidos.
O respeito por aquele que nos deixou começa e termina no respeito pelos seus entes queridos. Pelo direito destes ao “choro” na intimidade; à meditação; ao recato e muita privacidade. Tudo isto exige àqueles que nos visitam e que o fazem com sincera amizade e pesar, e não no cumprimento de um simples ritual, contenção e alguma sobriedade no próprio acto de visita.

Hoje, nos tempos actuais, com as tecnologias de comunicação ao dispor de toda a gente, a solidariedade e a homenagem podem ser prestadas em tempo real, e registadas, sem importunar ou incomodar.
Não pretendo, de maneira nenhuma constituir-me em referência de qualquer natureza. Cada um sabe como há-de agir. Eu, por mim, também respeito a tradição. Mas procuro fazê-lo com algum bom senso, isto é, sem rigidez nem fundamentalismo.

Tínhamos combinado, o João e eu, beber um whisky quando ele voltasse. A esperança era grande pois tinha ido com os seus próprios pés. Não quis o destino que isto acontecesse.
Para o João é um adiamento. Ele acreditava…
A. Ferreira
 

Para quê facilitar se pode complicar?[i

sábado, 6 de julho de 2013
Ao contar a um amigo algumas, umas poucas, das minhas rocambolescas andanças pela nossa administração pública, ele respondeu-me de imediato com o título deste texto (Para quê facilitar se pode complicar?) acrescentando: É o lema da nossa administração. E eu respondi-lhe: Tu o dizes e, se calhar, não sabes da missa a metade. Uma das minhas queridíssimas sobrinhas então presente, diz-me: Tio, porque não escreves? É de interesse geral!
E por isso aqui estou a escrevinhar estas linhas. Na verdade acabei de passar uma semana tumultuosa. Arrasou-me os nervos, consumiu-me o meu precioso tempo de forma excessiva e inútil e deixou-me muito preocupado com o futuro do País que, como qualquer outro, tem na sua administração a chave do seu desenvolvimento e progresso. Vou contar com alguma continuidade, apenas uma das inúmeras peripécias por que passei.

Há 11, repito onze, anos, portanto em 2002, fizemos, a minha mulher e eu, uma exposição-requerimento dirigida ao então Presidente da Câmara Municipal da Praia solicitando a remição de foro do terreno onde está implantada a nossa casa. Começou aqui uma das nossas frequentes peregrinações à CMP. Tivemos contactos com toda a gente. Eu, particularmente, fui recebido até por um tal Fonseca (um assunto marginal) de quem guardo a impressão de uma pessoa mesquinha, amarga, ressabiada, mas sobretudo incompetente que é a parte que me interessava, e que se escusou – abespinhou-se com o termo “recusou” quando directamente o confrontei – a cumprir um despacho do Presidente da Câmara alegando que esse despacho não estava correcto. E até estava porque era uma prática que vinha da Câmara anterior e que já tinha sido retomada. Mas também fui recebido por outros funcionários e até pelo Secretário Municipal da altura que me disse mais do que uma vez que não tinha encontrado o meu processo e fez-me lá voltar, inúmeras vezes, sem me receber mais porque, informavam-me na recepção, ou que ele não estava ou que ainda não tinham localizado o processo. Fomos obrigados, na ausência de deferimento e nos termos da lei a fazer o depósito bancário correspondente a 20 anos de aforamento. De nada valeu porque ninguém me passava a indispensável declaração para fazer o registo. Cansado, recorri aos serviços de um advogado. Também debalde. Vou dar um salto nesta minha saga que conheceu um longo interregno quando percebi que essa Câmara, por razões que só a ela diziam respeito, não estava disposta a resolver-me o problema a que tinha direito por lei.

Recentemente, a nosso pedido, fomos recebidos de imediato, pelo actual secretário municipal, munidos de cópias de todos os documentos (recibos) que constituíam o processo mas já sem qualquer esperança na remição do foro e com o intuito único de recuperar o montante então depositado. Durante a audiência, gentilmente concedida e cordatamente conduzida pelo Secretário Municipal, eis que somos literalmente SURPREENDIDOS, por uma conversa amena e directa de que face aos nossos documentos não havia qualquer problema na remição de foro e que não se compreendia a razão do bloqueamento.

Passada a almejada declaração no qual constava especificamente que havia sido pago o IUP de remição no montante de X, dirigimo-nos à Conservatória para finalmente fazer o registo. Consultados os documentos e o receituário do funcionário, este diz-nos:

– Falta o nº do prédio e o recibo do IUP da remição de foro.

Retorqui de imediato:

– Está aqui escrito na declaração da Câmara que o IUP de Remição foi pago e o número do prédio é este, disse apontando-lhe um número na declaração.

– Não, diz-nos o funcionário, o número não é este (dando a sua interpretação) e é preciso o recibo, completou.

– Mas se é a própria Câmara que é a beneficiária diz que foi pago o IUP e diz o montante e identifica o documento, o que é quer mais?

– Tem que trazer o recibo, diz peremptoriamente, dando-me de volta os meus documentos.

Fui a casa buscar o tal recibo que não levara comigo porque pensara – que ingenuidade! – que tínhamos uma administração minimamente racional.

Ao entregar o recibo disse-me:

– Corrigiu a declaração?

– Ouça: esta, com certeza não é a primeira declaração da Câmara sobre este assunto. E isto deve ser “copy” “paste” com as alterações devidas. Consulte as outras declarações e verá que não há qualquer divergência.

Com um sorriso, simpático e sobranceiro, diz-me:

– Como quer que eu consulte um processo?! Temos cá milhares.

E mais não disse, ampliando esse seu sorriso.

Não respondi. E como já passava das 4 horas, fui para casa a pensar em voltar à Câmara no dia seguinte e “ensinar-lhes” como deviam passar um documento que já haviam passado centenas se não milhares de vezes para “agradar” o funcionário da Conservatória.

De repente, lembrei-me de que tinha o endereço electrónico não só do Secretário Municipal como do Chefe da Divisão Predial. Enviei ao Chefe de Divisão uma mensagem com conhecimento ao Secretário Municipal que transcrevo na parte que interessa: ”Pela presente comunico-lhe que a Conservatória não aceitou a Declaração de remição que me foi passada por considerá-la incompleta. Informam de que falta indicar o número do prédio que, presumo, já está na certidão”.

No dia seguinte, muito cedo, já estava na Câmara a fazer as diligências. Encontro-me com o Chefe de Divisão que muito delicadamente me diz:

– Já respondi a sua mensagem. O tal número está lá. Venha cá ver os documentos que temos feito e nunca foram recusados”. E tirou uma pasta da estante e mostrou-me outras declarações de remição que mutatis mutandi eram rigorosamente iguais.

À cautela regressei à casa para verificar o tal mail que me havia mandado e que passo a transcrever na parte que interessa:

Em relação a não aceitação da Declaração da Remição de Foro, não vejo qual o motivo, uma vez que a Declaração está completa à semelhança de todas as Declarações efectuadas pela Direcção da Administração Fiscal da CMP. Nessa declaração o nº do prédio encontra-se com a seguinte designação: “sobre o qual se encontra edificado o prédio urbano inscrito na matriz predial urbana da freguesia de Nossa Senhora da Graça, sob o nº 24.563”. (o sublinhado e o negrito são do original).

Voltei à Conservatória e mostrei-lhes o e-mail, acrescentando que a CMP disse que não passaria outro documento. O funcionário voltou a contestar o conteúdo e aí passei-me e explodi:

Começo a ficar farto de uma administração incompetente e acéfala. Porque é que não organizam um encontro entre os chefes e definem os parâmetros que devem constar nos documentos? Eu sou um cidadão em pleno gozo de todos os meus direitos e os senhores são servidores do Estado. Entendam-se e não façam de mim uma bola de pingue-pongue. Não entro nesse jogo de desconfianças e de acusações veladas de incompetências. Não sou eu que devo dizer à Câmara quais são os parâmetros que devem constar das suas certidões.

Depois do meu irado e indignado desabafo feito em voz bem alta, o funcionário telefonou para alguém, o que já havia feito no dia anterior, a comunicar as minhas observações transmitindo de forma subtil a minha indignação. E com enormes reticências e em jeito de condescendência acabou por me receber os documentos.

Afinal a Câmara tinha razão porque foi-me passada a certidão sem mais dados complementares.

Mas de permeio há um episódio que merece ser registado: Quando fui (primeira vez) buscar a Declaração à Câmara fui informado de que “só faltava a assinatura” uma vez que o funcionário que a assinava encontrava-se de férias e o documento devia-lhe ser enviado para casa para esse efeito. Aí não me contive e perguntei:

Como é? Um funcionário de férias a assinar-me um documento? Este documento com essa assinatura não correrá o risco de impugnação? Mas ele não tem um substituto ou está de férias “clandestinamente”? É que na administração pública há o princípio da continuidade. Não pode haver vazios? Se o próprio presidente quando se ausenta tem um substituto…

Tenho muitas e variadas histórias desta nossa administração vividas ou presenciadas por mim nestes escassos últimos 10 dias. Mas não cabem todas, de momento, nesta pequena narrativa. Não resisto de aqui deixar alguns flashes:

1. Ainda nestes dias uma pessoa, minha conhecida, ao meu lado no balcão, que solicitara uma certidão, já não sei de que natureza, mas sei que o informaram de que estaria pronta dentro de três dias, puxara da sua caderneta de cheques para pagar a conta. Diz-lhe o funcionário:

– Cheques, só visados.

Responde-lhe o utente:

– Mas eu não tenho outro meio de pagamento.

– Desculpe, mas são ordens…

Eu intervim:

– Acha que uma pessoa vai visar um cheque para pagar 25 contos? Além disso já passa das 3 horas da tarde, e os bancos estão fechados. Acrescentei:

– Isto faz jus ao vosso lema: “Para quê facilitar, se posso complicar?” Ele vem buscar a certidão daqui a três dias, tempo mais do que suficiente para verificarem se o cheque tem ou não cobertura razão porque se visa um cheque. Seria melhor e mais sensato dizer que embora esteja na lei, não aceitam cheques! Esta história de “cheques visados” é uma grande treta. É uma fuga ao cumprimento da lei por parte da própria administração pública. É o mesmo que dizer: A lei só se aplica à nossa maneira e para servir os nossos interesses. Continuei:

– Para visar um cheque tem que se saber com antecedência o montante cujo cálculo é “segredo” vosso. Tem que se deslocar ao banco, consumir tempo e pagar os serviços. Francamente, o que é que têm os Serviços a perder, se têm 3 dias para verificar o cheque? Já contabilizou a amplitude desta decisão?

Para facilitar, vendo a pessoa aflita pelos transtornos que lhe iam causar e como a conhecia disse-lhe que passasse o cheque em meu nome e eu lhe pagaria a conta com o meu vint4. E assim fizemos!

2. Já houve ocasiões (várias) em que ao me dirigir aos balcões para tratar de um determinado assunto, me respondem: Venha mais tarde, porque o funcionário que trata deste assunto foi almoçar e só volta às duas e meia. E eu pergunto:

Então, o horário não é contínuo?

É. Mas o senhor compreende… É da lei, temos uma folga para almoçar.

Mas isto é um problema interno. O utente não pode ser prejudicado pela má organização interna. Para o utente o horário é contínuo. A intenção é facilitá-lo, a ele utente, e não ao funcionário.

Não é má organização é a lei, retorquiu-me o funcionário com autoridade.

Não se trata de lei. Mas se a lei é contra o cidadão que sustenta a máquina do Estado, mude-se a lei.

3. Por vezes, ainda neste contexto, já aconteceu comigo dirigir-me a um Serviço para tratar de um assunto:

O Director-Geral está de férias no Brasil e só volta no dia X. Só ele é que trata destes assuntos.

E não tem um substituto?

Bem…

A verdade é que o problema foi adiado até à chegada do Director-Geral pois era o ÚNICO que sabia e podia resolver o assunto.

4. Uma outra vez dirigi-me a um Serviço com toda a parafernália que julgava necessária para tratar de um assunto e o funcionário ao conferir os documentos diz-me: Falta fotocópia do Bilhete de Identidade.

– Fotocópia do BI? Que eu saiba fotocópia não autenticada não é um documento. Tem aqui o meu BI e tire ou confira os dados que precisar. O senhor é uma autoridade.

– Não, tem de ser fotocópia do seu BI!

– Vocês estão para facilitar e não para complicar! [ii] Façam como os bancos. São eles é que tiram as fotocópias dos documentos de identificação que necessitam para os seus processos. Os senhores cobram várias dezenas de contos por um serviço e não são capazes de incluir nos vossos honorários um “documento” que só serve a vocês e a mais ninguém. Se não podem fazer como os bancos, façam como fazem com o NIF: Vão ao Sistema… C’os diabos, não estamos nós num país de desenvolvimento médio?

Conformado, timidamente avancei:

– Bem, não têm uma fotocopiadora?... Eu pago!

– Não, não fazemos fotocópias! disse o funcionário com tal veemência que não deixava margens para qualquer diálogo.

Tive que me meter no carro (táxi) dirigir-me a uma dessas empresas que fazem fotocópias e fotocopiar o BI para esses Serviços. Ninguém contabilizou o tempo que perdi, a minha deslocação, o desgaste psicológico, o voltar a pôr-me outra vez na bicha e o duplo serviço do funcionário que voltou a verificar tudo. Isto não é só incompetência é também PREPOTÊNCIA. E ninguém põe cobro a este desvario que não é mais do que  preguicite aguda e irracional que grassa na nossa administração.

5. Para terminar, vai mais esta: Ainda uma outra vez em que um meu documento trazia anotações que pouco o identificavam para os efeitos para o qual tinha sido passado, disseram-me, com toda a simpatia, quando pedi a rectificação: Isto agora só com o NOSI.

– NOSI?! O que é que eu tenho a ver com o NOSI?

– Não, não é o senhor. Nós é que vamos tratar disso…

Mas a vítima fui eu que tive de esperar mais dois dias para corrigir o documento com mais algumas idas e vindas a esse Serviço.

6. E agora termino mesmo. Quantas vezes não se me esconderam na já estafada FALTA DE SISTEMA. Até a informatização, paradoxalmente, tem participado de forma activa no “porquê facilitar se pode complicar?”

Nunca a administração pública cabo-verdiana, desde a independência a esta parte, havia chegado a um patamar de tão baixo nível! Chega a ser confrangedor e constrangedor o atendimento público a que nos sujeitamos.

Podem crer que chega a ser também um verdadeiro calvário percorrer os balcões dos serviços de atendimento público da Cidade da Praia! A falta de profissionalismo, a falta do saber específico para atender o utente, a ausência em termos de demonstração (na linguagem) de que está a perceber o que o utente deseja resolver, a confrangedora percepção de que estamos num “front-office” preenchido por gente que, sem pôr em causa as suas habilitações literárias ou académicas, é manifestamente de baixa literacia.

Creiam que isto é simplesmente assustador! Inquietante! Preocupante!

O raciocínio dedutivo/analítico e sobretudo aquele raciocínio que conduz ao pragmatismo e a um atendimento eficaz, para solucionar, são “ferramentas” que os nossos atendedores desconhecem em absoluto, quando, ao que tudo indicaria, deveria ter sido o “Abc” da cartilha da formação ou de raiz, ou em exercício, que em princípio, este mesmo funcionário público terá realizado. Será que fez alguma formação?... As dúvidas acumulam-se, por aquilo que nos é dado verificar no dia-a-dia.

Mas também perguntamos: Será que o entendimento das políticas para a administração pública tem subjacente que para o atendimento público qualquer um serve? Que o cidadão não merece mais? Ou será que ignora que o atendimento é a IMAGEM dos Serviços e da Administração do País? Não será mais apropriado a esse “qualquer um” executar internamente os actos que exijam rotina (repetitivos) do que estar ao balcão de atendimento onde os assuntos são os mais abrangentes e diversificados? É onde devem estar os melhores!

O irónico de toda esta situação, é que toda esta ignorância é exibida por vezes – quando não hostilizam com o ar de tiranetes que dominam a situação – com um sorriso ambíguo que não se sabe se de simpatia e gentileza ou de zombaria e escárnio que nos deixa a sensação de que ele (o funcionário público) apreendeu o superficial, o tal sorriso, e que não interiorizou em absoluto a parte substantiva.

Mas tudo isto acontece porque temos uma sociedade civil enfezada, eunuca e timorata e um PM que panteia todo enfatuado por este país fora em vez de dar verdadeira atenção aos cidadãos.

Sendo ele formado em Administração, é caso para se dizer com muita propriedade: “Em casa de ferreiro, espeto de pau!”

A.Ferreira




[i] Quero aqui registar e realçar que usei sempre o masculino independentemente do género da pessoa que me teria atendido porque não tem nada de pessoal este texto.
Igualmente gostaria de assinalar que nestes dias do meu “calvário” fui sempre recebido com muita delicadeza e simpatia, o que muito agradeço, mas que trocaria de bom grado por profissionalismo e eficácia.
[ii] Facilitar não é deixar de ser rigoroso. É encontrar soluções pragmáticas e racionais no quadro da lei que não “massacrem” o utente.