Registos...

segunda-feira, 31 de março de 2014
Também me tocou – em tempos idos – a “poesis”. Registei os momentos em poemetos que agora fui buscar a um caderno que supunha perdido. Algum desencanto, mesclas de lirismo, esperanças veladas e o lugar do amor… A escrita é datada. Tudo se passou nos finais dos anos 70 e seguiu os anos 80 do séc. XX. Não mais aconteceu.

Saga / versus / Rumo

O vento governa a terra destroçada
E o rumo da vida in-certo
Em palavras vãs e cansadas
Trouxe-me a agonia de ondas
Em preia-mar de Setembro…

A teia que se teceu,
Desvaneceu-se
Ao contacto impuro e libertino
Do nevoeiro que cobriu
As promessas de manhãs de Sol

Conjugação/ Desencanto

Saber em nós
O poder de vós
É disjunção odiada
Em contra-mar de Abril!


ELE / ELA

Á memória de Manuela Porto – Escritora portuguesa, 1908-1950

Quase uma história de amor
Espelhos fragmentados
Memórias revoltas
Nos lábios um sorriso vago…
Um acaso de encontro Ou um encontro do ocaso?
A alegria breve de vidas paralelas
Em vitrais trocados.


Espaço Cinzento

Um silêncio roubado
Á barulhenta vida
Permanece vigilante em mim
Coordena meus passos
E meus desencontros.
Sibilina é a arte de viver mil vidas
Numa só derradeira.
Tanta fúria!
Tanta raiva!
Tanto ódio!
Meu silêncio sorri e pensa:
“Humanos desequilíbrios Para um adiado amor”…


A Eterna Loucura


Eis que ela se apanhou
A brincar com a chama
Que Cupido teceu
E se apercebe que o Amor
Embora diferente,
Também se repete.
Barco baloiçado
Em notas suavíssimas
Testemunho discreto
Na ternura do olhar
Na carícia trocada
Na noite sem lua.
Paixão renovada
Em brisa amena
do confuso silêncio na Ilha
.

Música
(versos buscados e inspirados em Vergílio Ferreira num texto homónimo). A Osvaldo Alcântara, poeta das Ilhas. 1907-1989.

A música leve do violão
A tarde que se desvanece
A transfiguração
Diáfona Subtil…

A música que ouço na tarde
Que se apaga
estará antes
Ou depois da razão,
Mas nunca nela.

A música
O alívio que pesa
O imaterial de nós
O encantamento
O êxtase em si.

Para nós o dicionário afectivo
E interno da nossa crioulidade
Em notas soltas…

A música parece ser a alma de tudo
O que é humana condição
Expressão anterior e posterior
De todo o saber
Pensar e sentir
A pura divindade sem Deuses
A força absoluta
Da irrealidade…

A música leve do violão
A tarde que se desvanece
A transfiguração…


Aqui ficam alguns registos.

«A Cultura da Argumentação, Tradição e Modernidade da Razão Argumentativa» de Carlos Alexandre Bellino Sacadura» - Uma Leitura -

sexta-feira, 28 de março de 2014
O livro «A Cultura da Argumentação – Tradição e Modernidade da Razão Argumentativa» de Carlos Alexandre Bellino Sacadura, convida o leitor, através dos seus nove capítulos, enformados em duas partes, a conhecer, a encontrar e a participar dos fundamentos históricos que de certa forma deram perenidade às teorias da racionalidade argumentativa.

Bem, antes de continuar, eu gostaria de esclarecer o leitor de que a leitura que fiz e o que percebi deste laborioso, meticuloso e profundo estudo histórico e filosófico de Carlos Alexandre Bellino Sacadura – a minha leitura interpretativa, aqui muito “naif” e resumida – é de alguém que não é da área. A minha leitura, dizia, vai para a generalidade da comunidade de leitores em que me incluo e não, longe de mim! Não se dirige a leitores especializado em Filosofia. Logo, as minhas desculpas a algum especialista que eventualmente venha a ler este texto.

Feito o esclarecimento, debrucemo-nos agora sobre o livro. Através de uma bem conseguida sistematização semântica, isto é, partindo da significação mais simples à mais complexa, o autor explica-nos que discurso racional, ou Discurso e razão, tiveram a sua génese na cultura grega, no chamado “Logos” helénico, com particular enfoque nos estudos levados a cabo por Sócrates, sob forma oral e por Platão sob forma escrita em Diálogos, em que subjaz a oralidade. Diálogos esses em que se apresentavam argumentos sobre matérias com interesse para a “Polis”/Cidade Estado, no caso, Atenas, e em que estes argumentos eram questionados, polemizados, originando-se em novos argumentos.

A famosa cultura grega da argumentação fez-se, de acordo com Bellino, e passo a citá-lo: com “o apelo explícito à razão e ao argumento.” Esta constância à razão e ao argumento, torna-se modelo de pensar, ou seja, lança os pilares da racionalidade crítica que por sua vez, fundamenta a atitude científica.

Há da parte do autor um debruçar de forma muito pormenorizada, minuciosa, diria, sobre o pensamento de Platão, conducente àquilo que Platão considera dever ser utilizado para se chegar ao “verdadeiro conhecimento.” Para este grande Filósofo da Antiguidade, seria o discurso e razão, mais a ética.

Ora aqui emerge a Filosofia, o saber dos saberes. Por falar em Ética, recomendo-vos vivamente a leitura do capítulo 5 deste livro, pois que é assaz rico em fundamentos demonstrativos de que a ética deve estar presente na edificação de qualquer tipo de discurso argumentativo. Embora a questão da Ética atravesse quase todos os capítulos do livro.

Igualmente, em páginas importantes, desta excelente e culta análise, o autor lança uma ponte, intenta uma profícua interligação ou uma aproximação, entre o pensamento filosófico fundador grego, mais particularizado na filosofia, de Platão (347 A.C.) e o pensamento de Descartes, René Descartes, século XVII, na produção do seu discurso científico moderno, da importância deste Sábio fundador da chamada Filosofia Moderna. Para além disso, Descartes é nas palavras de Bellino Sacadura, o precursor daquilo que hoje se denomina de difusão em rede do conhecimento. Quero crer que a generalidade de nós outros, conhece ainda que isso possa ser superficialmente, a célebre Dúvida Metódica, ou o “cogito ergo sum” (penso, logo existo) ou mesmo o Discurso do Método de Descartes. O livro de Carlos Bellino ocupa-se com profundidade não só destas questões como as alia à retórica e à imaginação que perpassam no discurso de Descartes.

Mas antes de continuar com a leitura comparada que o autor estabelece entre Platão e Descartes, gostaria de dizer que retive do livro, o seguinte: há nele também a inscrição de uma tese que é cara ao autor e que se não é a tese maior desta obra, ela é, sem dúvida, uma das suas conclusões mais apelativas. Carlos Bellino afirma aqui, sob forma de uma espécie de recusa, daquilo a que ele chama e passo a citá-lo: “de fragmentação dos saberes, com cada disciplina a querer impor os seus critérios de compreensão como únicos.”

Este negar, provando, a não fragmentação de saberes, encerra uma atitude e um pensamento actual em alguns cientistas e filósofos aos quais se junta o autor deste livro.

Pois bem, para o Prof. Bellino Sacadura, e um pouco para contrariar esta tendência que fez e continua a fazer escola e que contaminou em larga medida, o pensamento filosófico e científico, dividindo-os em campos por vezes, numa simplificada oposição, entre “ ora aqui começa a filosofia e ora ali acaba o discurso cientifico”, e não se tocam. Para o autor, ao contrário, faz todo o sentido interligar, ou estabelecer a tal convergência, pois que já vinha implicado no pensamento grego antigo, ou helénico, no livro, representado por Platão, que promoveu, e cito o autor: “uma racionalidade plural (racionalidade argumentativa, lógica e empírica) ”. E isto converge com o pensamento cartesiano, que afinal, acabou por se revelar, volto a citar o autor: “o paradigma da impossibilidade de separação total” dos saberes, e/ou das duas abordagens, a filosófica e a científica que já se complementavam e já se interligavam afinal, no discurso de Platão e mais tarde na retoma de Descartes no seu método científico. No fundo, o primado da transversalidade dos saberes entre si.

Outro assunto que trata o livro, e para mim, muito Interessante e que li com entusiasmo, e atenção foi a análise dedicada aos símbolos e à alegoria platónica, assim conhecidos, e que diferentes correntes literárias incorporaram e, exercitaram-nos com especial realce, para a poesia. Aliás, foi intertextualidade recorrente na Literatura dita ocidental europeia, durante séculos.

De modo abreviado direi, recorrendo-me a Bellino Sacadura e a Hernâni Cidade professor e investigador da Literatura portuguesa do século XX, que a alegoria platónica, afirma ou sugere que as almas “viviam primeiro na esfera inteligível, na contemplação das realidades perfeitas, das realidades-ideias; por qualquer pecado, caíram na esfera sensível e ei-las agora corporeamente apreendendo as sombras,” ou seja, apenas, as realidades que os sentidos captam. Mas as almas não perderam por completo a memória do seu primeiro estado de clara visão racional e, pelo esforço da reminiscência, pelo caminho dialéctico, poderão fazer a ascensão da esfera sensível à esfera inteligível, da sombra ao real é assim que, por exemplo, o poeta, projecta a ideia de Beleza sobre o objecto amado. É assim que encontrámos em Camões um grande cultor da alegoria platónica, o exemplo máximo do neoplatonismo na poesia portuguesa renascentista dos séculos XV e XVI. Um dos seus poemas mais claramente ilustrativo da aplicação da alegoria é o poema “Babel e Sião” em que escreve: Mas ò tu, terra de Glória, / Se eu nunca vi tua essência / Como me lembras na ausência? / Não me lembras na memória, / Senão na reminiscência; / Que a alma é tábua rasa/ Que, com a escrita doutrina / Celeste, tanto imagina, / Que voa da própria casa/ E sobe à Pátria divina / donde esta alma descendeu, / E aquela humana figura / Que cá me pôde alterar / Não é quem se há-de buscar: / É raio da Formosura / Que só se deve amar.

O considerado neoplatonismo literário/poético atinge em Camões a expressão maior no soneto: “Transforma-se o Amador na coisa amada.”

Mas o magistério de Platão, através da sua alegoria, e dos seus símbolos, percorreu várias correntes poéticas na Literatura portuguesa, e em diferentes momentos. No romantismo vamos encontrar em Almeida Garret, poemas em que ele “pressente” a ideia do amor. Mais tarde entrando, no século XIX, no Realismo, os versos atormentados e densos de Antero de Quental, lançam interrogações e inquietações sobre a “luz” que o poeta persegue e que vem da – volto a citar Bellino – “gnosiologia e da ontologia da luz de Platão e que se abre para o filósofo como uma mística, uma iluminação espiritual. Que se tornaria numa das fontes do neoplatonismo.” Fim de citação. Sobre os símbolos e a alegoria platónica é de todo o interesse que se leia o capítulo 3 com o subtítulo: Retórica, dialéctica e imagética do conhecimento em que o autor explana os pontos fundamentais contidos na obra «Banquete» de Platão, analisados e interpretados em vários e respeitáveis escritos de pensadores hodiernos da obra platónica.

Para finalizar esta minha intervenção gostaria de dizer que Carlos Bellino Sacadura, apoia as hipóteses e as teses que são apresentadas ao leitor ao longo deste livro, em várias escolas e/ou correntes filosófica, em diferentes épocas e diferentes pensadores e estudiosos. Para exemplificar, direi que ele passa em cuidadas análises, pelos sofistas, pelos retóricos, pormenoriza a discussão entre estes e Platão (afinal, está presente no livro, a questão da boa e da má Retórica) vai a Pitágoras, conclama Kant e Bacon, entre outros, que no livro são citados, os quais, em argumentação e em contra – argumentação com eles próprios e com outros autores, vão construindo teses que confluem com propriedade e com contexto no discurso ou, já agora, no “Logos” e na dialéctica com que o autor deste livro, Carlos Alexandre Bellino Sacadura, tece a sua argumentação, já reformulada, já própria e já original.

Para terminar mesmo, gostaria de agradecer ao autor a proveitosa leitura que o livro propicia, convidando o leitor que o leia pois que, no final da leitura, sairá certamente, culturalmente mais enriquecido.

Nota informativa: Carlos Alexandre Bellino Sacadura é Professor de Filosofia na Universidade de Cabo Verde. É Luso-cabo-verdiano. É doutorado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga/ Universidade Católica Portuguesa. O seu campo de investigação incide na Filosofia da Educação e na Filosofia da Ciência, Fenomenologia e Hermenêutica

O Brasão dos Mont-Rond…

quarta-feira, 19 de março de 2014
Esta é uma historieta que me ficou da memória familiar. Do espólio de Armand Mont-Rond, o tal francês que demandou o Fogo nos finais do século XIX, (1870) e sobre quem já se contaram e continuam-se a contar muitas histórias, muitas delas bem efabuladas, pois que a geração viva é já de bisnetos e por aí abaixo em termos de descendência que ouviu histórias sobre o ascendente e acrescentou da sua lavra muitas outras, ao jeito de: “Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”
Ora bem, dizia eu que do espólio por ele deixado, de entre outros objectos, ficaram alguns talheres de prata, que a minha avó paterna, Maria Clementina - filha dele que os herdou - terá oferecido ao meu pai.
Mais tarde, nos anos 50 do século XX, numa das deslocações dos meus “velhos” a Lisboa, o meu pai levou a colher de sopa que trazia incrustada o brasão que pertenceria ao avô gaulês e dela (da colher) mandou extrair o brasão para recolocá-lo num anel de ouro que entretanto encomendara.
Lembro-me que nós, os filhos brincávamos com ele, a propósito dessa operação anelar dizendo-lhe: “Pai, afinal tanta fidalguia, tanta aristocracia do seu avô e o brasão foi retirado de uma colher de sopa!?” Ao que o nosso pai prontamente respondia, meio sério, meio a brincar: “…Mas não deixa de ser um brasão!” Ríamo-nos todos com isso.
Anos passados, o tal anel brasonado passou à posse (oferta do pai) de um dos meus irmãos, Jorge Alberto que apreciava antiguidades. Este por sua vez, e antes de morrer deixou-o em lembrança ao filho, que vive nos Estados Unidos.
Entrados no século XXI, houve alguma curiosidade fílmica, documental, por parte de alguns patrícios (franceses) de Armand Mont-Rond na procura das razões que o fizeram auto-exilar-se naquele recanto vulcânico, a ilha do Fogo e de como aí viveu até morrer nos inícios de 1900.
Até aqui, tudo bem, tudo louvável. Mas eis quando um deles, creio que um realizador francês, no afã de procurar a todo o custo, sem olhar a meios, de testemunhos e de vestígios para que documentasse o seu trabalho, importunou (é o termo que melhor define a situação) o meu sobrinho, a minha cunhada e até a minha irmã mais nova, com actos autenticamente persecutórios, rudes e incorrectos, porque queria ver a todo o custo, o anel e opinava ele em rocambolescos episódios, que o objecto (note-se, comprado pelo meu pai numa ourivesaria em Portugal!) devia ser pertença de todos os descendentes de Armand Mont-Rond. Imagine-se! Este realizador ou documentarista francês, fazia-se acompanhar de alguns descendentes Montrond, (que presumo, nada sabiam sobre a origem do anel), quando batia à porta do meu sobrinho para o intimidar a mostrar-lhe o anel. O que não terá passado o meu querido sobrinho, imensamente bem-educado, ao sofrer a perseguição com alguma configuração de descompensada e sobejamente injusta, dessa espécie de “caçador” de memórias…
Se calhar mais outro mito ou alguma fantasia já se havia criado à volta do anel, como quase tudo o que ficou na memória da descendência de Armand Mont-Rond… Quem sabe?!

Cabo Verde a regredir na Língua Portuguesa!?...Ou Carta "semi-aberta" às autoridades e aos professores cabo-verdianos

domingo, 9 de março de 2014
A acontecer, tratar-se-á na verdade, de um autêntico desastre linguístico, académico e científico! Infelizmente das vozes ouvidas e das notícias colhidas e do que se está a presenciar aqui nestas ilhas com a nossa língua portuguesa, património que nos é caro e historicamente a língua falada e escrita a mais antiga entre nós; levam-nos à confirmação deste triste e preocupante facto, tanto nas escolas como nas instituições universitárias. Em jeito introdutório, uma breve explicação. Eu já me encontro numa fase da vida e numa faixa etária em que são os netos e os sobrinhos netos, por consanguinidade e por amizade, é que são hoje os estudantes do ensino básico e do ensino secundário que me são mais próximos. Com alguma frequência, nos convívios familiares e com amigos mais íntimos, pergunto-lhes (aos mais novos, aos da terceira geração) naturalmente pelos estudos, com algum pormenor sobre as matérias dadas e, até sobre a língua veicular. E o que deles escuto causam-me verdadeiros arrepios! Faço-me entender: é que ao invés de serem os professores a classificarem os aprendentes, agora são os alunos, a fazer isso! Imagine-se! À minha pergunta se os professores se expressam com eles nas aulas, em português, a resposta mais frequente foi a que se segue e que contempla o que quase todos afirmaram: “Alguns deles (professores) fazem esforço para se expressarem em português… Outros cometem erros básicos tanto na fala como na escrita no quadro da matéria que estão a dar”… (SIC) Nunca pensei possível ouvir aqui, tal avaliação da boca de um aluno, referindo-se ao professor! A que ponto chegamos! Embora já céptica, quero conservar alguma réstia de esperança de que a língua portuguesa volte a retomar o seu devido lugar no ensino, na escola e nas instituições universitárias destas ilhas. Nunca será demais afirmar que a Língua portuguesa devia ser preservada e expandida com afinco e com afecto entre os falantes cabo-verdianos. A Língua portuguesa devia ser oralmente ensinada em todos os jardins-de-infância e escolinhas deste país. Isto é, desde a mais tenra idade, com todas as vantagens disso advenientes. A Língua portuguesa devia ser acolhida com familiaridade, coloquialidade, formalidade e respeito no meio escolar, pois que se trata de um veículo de comunicação que põe o aluno/aprendente em contacto com os livros, com o saber científico e tecnológico do mais alto nível. Nas redes sociais, tão procurada pelos jovens, o português é a 3ª língua mais difundida e a 5ª mais falada na internet. Tudo isso ajuda o estudante cabo-verdiano a ter orgulho, a criar apetência e desejo de aprender mais e melhor o português, de o expressar com mais à-vontade, quer sob forma escrita, quer sob forma oral. No meu entender, está-se a delapidar, a destruir em Cabo Verde, um dos patrimónios – a Língua portuguesa – mais ricos que o país possui. Aliás, historicamente o mais importante, e que contribuiu eficazmente para desenvolvimento económico, social e cultural, primeiro do Arquipélago, e mais tarde, do país. A comunidade cabo-verdiana no geral, corre sérios riscos de regredir civilizacionalmente, no seu desenvolvimento tecnológico e cultural, para não acrescentar que tal se verificará em todos os níveis, se empobrecermos o nosso acervo linguístico de comunicação de que a língua portuguesa é parte integrante e muito importante. Não querendo ser negativa, fico com a impressão que há da parte dos adultos, responsáveis professores, e altas autoridades na matéria, aquilo que vou chamar, à falta de melhor termo ou conceito definidor, uma espécie de egoísmo, incúria, à mistura com algum complexo de superioridade em relação ao aluno. Nesta triste equação, aquele (o que já sabe o português) não ensina a este (o aluno) a segunda língua, com dedicação, empenho e afeição, em resumo, como devia ser, para que o seu aprendente não atinja o patamar sócio profissional futuro, o mesmo ou melhor do que o adulto em causa se encontra. Noutras palavras, como se dissesse: “Eu (professor) sei falar e escrever em português.Mas tu (aluno) não o saberás! E assim não ultrapassarás determinado nível de saber” Será?!... Custa a acreditar! Sim, no estado a que chegou a Língua Portuguesa entre nós, a explicação para o facto, terá de roçar também – e perdoem-me isto, pois não consigo ser “elevada” a este respeito… – o mais absurdo e baixo nível! Como entender ou, tentar explicá-lo de um modo lógico? Não me venham com a já estafada justificação do crioulo que disso não tem culpa, a não ser no facto de os professores o quererem agora substituir ao português, o que é manifestamente redutor. Para além do mais, tal substituição não faz sentido algum! O falante cabo-verdiano, há séculos que usa o crioulo. Mas há séculos que usa igualmente o português na sua fala, na sua escrita (quando escolarizado) e sobretudo, em aprendizagem escolar.É disto que estamos a falar. A grande diferença em termos da geração actual, é que o português rareia cada vez mais entre nós e os estudantes universitários cabo-verdianos, situam-se entre os piores da CPLP, quer nas universidades portuguesas, quer nas universidades brasileiras. Infelizmente esta é a crua realidade! Não vale a pena ignorá-la e muito menos fazer de conta que não é assim! Segundo informações recentemente obtidas, embora carecendo de confirmação, parece que algumas universidades brasileiras estão a resolver o problema para os universitários cabo-verdianos, ministrando-lhes os tais cursos para o “terceiro mundo” leia-se: de nível inferior. Diga-se em abono da verdade, que a ser real, tal nunca havia antes acontecido! Afinal! Será isto que Cabo Verde pretende dos seus profissionais no futuro? Ou seja, técnicos, médicos, engenheiros, arquitectos, economistas, professores universitários, entre outros, mal preparados, insuficientemente apetrechados porque não entenderem os conceitos nos manuais de estudo, não perceberam os seus professores nas aulas e, finalmente, não apreenderam correctamente as ferramentas do seu ofício? Será isto o panorama profissional que passaremos a ter? Por favor, não menosprezemos e nem façamos “ouvidos de mercador” a este assunto de importância transcendente! Se assim procedermos, estamos a comprometer seriamente o presente e o futuro deste país!

Orlanda Amarilis - Uma Nota de homenagem

sábado, 1 de março de 2014
Com a morte recente – Fevereiro 2014, após doença prolongada – da escritora Orlanda Amarílis que completaria este ano 90 anos de idade regista-se sempre com pesar o desaparecimento físico de um grande nome da Literatura nacional. Orlanda Amarilis, cujo nome completo é Orlanda Amarilis Lopes Rodrigues Fernandes Ferreira, nasceu na Vila da Assomada, ilha de Santiago em 1924. Filha de Armando Napoleão Fernandes, autor do já considerado, primeiro dicionário do crioulo das ilhas de Cabo Verde. Ainda criança e órfã de mãe, Orlanda Amarílis foi levada para S. Vicente onde fez os estudos primários e liceais na cidade do Mindelo. Mais tarde, e já casada com o escritor e grande ensaísta e estudioso da Literatura cabo-verdiana, Manuel Ferreira, concluiu o Magistério Primário em Goa, então Estado da Índia portuguesa, para onde o marido fora colocado em serviço militar. Após o regresso a Portugal, país que passaria a viver, após as comissões de serviço do marido, Orlanda Amarílis fez o Curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Lisboa. Exerceu o professorado. Foi inspectora escolar e participou na elaboração de manuais escolares do ensino básico. Orlanda Amarílis pertenceu ao Movimento Português Contra o Apartheid, ao Movimento Português para a Paz e era membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Club. Participou como conferencista convidada de vários encontros de escritores no espaço de Língua Portuguesa. Mas anos antes e durante a sua juventude em Mindelo, pertenceu à «Academia Cultivar», interessante agremiação dos estudantes do então Liceu de Gil Eanes, de onde haveriam de sair, anos mais tarde, em 1944, elementos importantes pertencentes ao movimento «Certeza», em cujo primeiro número da sua revista, Orlanda Amarílis colaborou. Contista, muito apreciada e com obras publicadas, de entre as quais se destacam: «Cais-de-Sodré-Té-Salamansa», 1974 «Ilhéu dos Pássaros», 1983 «A Casa dos Mastros», 1989 e a «A Tartaruguinha» 1997, esta última, um conto infanto-juvenil de rara beleza, em que a componente pedagógica/exemplar se alia à fantasia imagética e literária do enredo, resultando numa história de encantar e de ecologia. Uma das particularidades dos contos da autora é a fixação na sua escrita ficcionista, de histórias esotéricas, com configuração picaresca. Será o caso do muito conhecido conto: «Rolando de Nha Concha» em que o protagonista, Rolando, morto, vê e narra o seu próprio velório. A autora consegue neste conto uma interessante sobreposição da vida e da morte, em que na passagem de uma para a outra as fronteiras quase que se esbatem, uma vez que a narrativa as funde e as confunde de forma intencional. Igualmente, a autora inscreve no conto de uma forma pictórica e algo cinético, as acções espectaculosas da multidão que acompanha o acto fúnebre. Vale a pena ler o registo esclarecedor do percurso literário desta autora, feito na entrevista concedida a Michel Laban, em 1984, no volume II «Cabo Verde – Encontro com Escritores». Orlanda Amarílis, afirma a determinada altura – e a propósito da criação das suas personagens, e das acções dos contos, de feição esotérica que rapidamente se transformam em histórias fantásticas – o seguinte: “… Sabe que por vezes o indivíduo aliena-se sem se aperceber por que o faz. Então, os momentos inesperados são aproveitados, inconscientemente para resolver os seus hiatos íntimos. Numa terra sem incentivos culturais, onde as pessoas cantam, dançam e tocam mornas, todavia entregues a si mesmas, mas que também passam fome, quando surge uma situação nova, dramática ou não, picaresca ou insólita, surge como que um espectáculo. Há os passivos, outros que invectivam, outros atraídos pela empatia da situação e ainda os que se preocupam com a situação em si. É como uma «performance»” (fim de citação) Outro conto ilustrativo desta arte de narrar de Orlando Amarílis que por vezes toca o fantástico e o surreal, é o conto: «Maira da Luz». A narrativa começa por ser uma espécie de diário de uma adolescente – Maira da Luz – no seu dia-a-dia estudantil. Tudo se passa em Mindelo, na transição do nome do Liceu, então Infante D. Henrique, para o nome de Liceu de Gil Eanes. As aulas, os colegas, os professores, as amigas, as pequenas invejas, os sucessos e os insucessos escolares, as reprimendas, todo o enredo ficcional é contado de forma verosímil. Só que no final da história algo de surpreendentemente transformador e fantástico acontece e transtorna toda a história até aí narrada, dando-lhe um tom outro, de quase absurdo, e que entra no domínio do esotérico, tão ao gosto e que marca a escrita desta contista. Os contos, «Rolando de Nha Concha» e «Maira da Luz» que nos serviram de ilustração definidora da arte de ficcionista de Orlanda Amarílis, encontram-se nas colectâneas de contos já aqui referidas. Igualmente há a registar a preocupação social, histórica e estilística da escritora na criação das suas personagens femininas crioulas. São mulheres trabalhadoras e lutadoras, com uma visão peculiar dos destinos que encerram as suas vidas. Vidas feitas também de saudades das ilhas deixadas e de recordações que as acompanham na diáspora para onde se transpuseram. Apercebe-se o leitor de uma aproximação e de um entendimento solidário da autora com estas personagens. As falas femininas são normalmente, recheadas de palavras e de expressões do crioulo de Cabo Verde numa mistura com palavras e expressões da língua portuguesa, que acabam por reelaborar uma forma elocutória muito especifica e particular das personagens – mulheres recriadas pela autora. Orlanda Amarílis está presente em várias antologias de Contos no espaço da Língua portuguesa. Os seus Contos têm também servido para algumas teses de mestrado e de doutoramento nas áreas da Literatura cabo-verdiana e das Literaturas comparadas. Para concluir, de referir que Orlanda Amarílis foi distinguida em vida, e merecidamente, com alguns prémios literários. Tem nome e obra feita. Encontra-se destacada na galeria dos ficcionistas cabo-verdianos do século XX.

A propósito dos «Trinta poemas de Amor e um Soneto» - Ou a sinfonia poética de Tacalhe

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Quando acabei a leitura dos versos que enformam a colectânea de poemas de Tacalhe – pseudónimo poético de Alírio Vicente Silva – vieram-me à memória as palavras com que alguém se dirigiu um dia ao poeta Vinicius de Moraes, «Como poucas pessoas no mundo, Vinicius de Moraes i>podia afirmar com todas as letras “sou poeta”, sem complexos de culpa pela dimensão dessa palavra» Pois bem, foi o mesmo pensamento que me ocorreu ao findar a leitura de «Trinta Poemas de Amor e um Soneto». De facto, o leitor está perante um “fresco” de poesia em que a lírica ganha asas fortes, ou não fossem seus versos, poemas de amor em que as palavras ganham também peso sonoro, melódico, simbólico. Palavras que soltam, que libertam vários sentidos. Aparentemente calmo e sempre reflectido, o poeta envolve os poemas num manto de “nervos” que apelam, que denunciam, que reclamam harmonia e justiça negados à vida e em que o corolário da beleza surge como a prefigurar o entendimento desejado e por alcançar entre homens e mulheres de todas as latitudes. Mas atenção que se lidos isoladamente, os poemas de Tacalhe aqui contidos, isto é, sem ser dentro de uma perspectiva de conjunto, ou de um fio condutor uno e mesmo temático que percorre esta colectânea, pode-se ter por vezes a sensação de uma lírica solta, discreta, ao sabor de alguma urgência do amor “in presentia” e do destinatário, no caso presente, da(s) destinatária(s) pois que os poemas, muitos deles, contêm dedicatória. A mulher é, sem dúvida, o centro, a protagonista, a estrela maior dos versos de Tacalhe que através dela, por via dela, para ela e com ela, configura o devir e a suprema harmonia tornada arquétipo de realização da vida plena. E não é por acaso que ela, a mulher, se metaforiza em fases, em instantes, em paixões, em lutas, em angústias existenciais, em dramas reais que atormentam, alimentam e realizam o poeta no seu universo lírico. Assim temos: “Mocinha borboleta,” “Lóló crectcheu,” “Mulher opala”,”Crioula cigana,” “Amada ou amiga,” “Girassol cativo,” “Menina rufia,” “Mulher corpo de lume,” “Mulher síntese da Génese,” entre outros significativos e simbólicos epítetos com que o poeta faz o reconhecimento e a descoberta sempre maravilhada, em cada poema, da mulher. Note-se finalmente a inquietante e interpelativa dedicatória feita pelo poeta deste conjunto de poemas, a “Delly” cega, surda e muda” e sobre quem, quando nela pensa, o poeta a “vê nua”. O próprio Tacalhe reconhece e afirma a existência de uma certa “fixação”. Nas palavras emblemáticas do poeta e retiradas da “Nota” que abre o livro, ele explica: «A fixação não significa envolvimento sexual com a mulher do nosso agrado ou a manutenção de uma ligação afectiva. Pode nunca ter havido qualquer contacto e pode até ser esse o desejo do poeta. O tempo de fixação pouco importa. O que importa é a fixação. E deve ser “bastante” para que a produção literária tenha lugar.» E nisto de cantar a mulher, permito-me aproximar o poeta Tacalhe do poeta brasileiro Vinicius de Moraes, nomeadamente, quando este último se auto-define, enquanto poeta, ao dizer que: «(…) ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras / Sua alma as compreende na luz e na lama / Ele é cheio de amor para as coisas da vida (…)» A matéria poética de ambos, tanto a de Vinicius como a de Tacalhe está fortemente impregnada da mulher/ausência, da mulher/solidão, da mulher/presença, mulher/centro para o poeta refazer a cada instante as suas coordenadas humanas, o seu entendimento do outro. Entrando agora um pouco na construção dos poemas aqui coligidos, pode-se afirmar que não há, ou muito raramente ocorrem, rupturas estilísticas ou mesmo temática nesta poesia virada para o amor, simbolizado na conjunção/disjunção homem/mulher, ainda que perpasse, para o leitor sintonizado, marcas temporais conotadas com a realidade histórica e social da época em que os poemas foram escritos. Com efeito apercebe-se o leitor de um “fundo datado” que subjaz em alguns poemas, explico-me melhor: sob, ou ao longo da lírica amorosa, encontramos ecos, marcas e sinais de um tempo (continuamos a falar dos anos 60 e 70 do século XX), de um tempo que aguardava – expectante, ansioso e crente – por uma profunda mudança, por uma revolução. Mudança aliás de que os poetas foram, à época, os grandes alvissareiros. Tacalhe, não foge neste particular, ao sentimento desse tempo e, em última análise, a sua poética não é alheia ao grande modelo em que se conformava quase toda a poesia então considerada e chamada de poesia de intervenção social e política. Igualmente com alguma configuração contestatária/identitária. É o que podemos ler, para exemplo, nos versos do: «Poema Distante para a Crioula» (…) Só o corpo quente da crioula camarada Acalenta meus passos No rumo da meta Só minhas ilhas sem lugar no mapa Só meu povo sem eco no mundo Só meus irmãos mil vezes heróis Suculentam estes passos de firmeza Mas um dia voltarei Com a aragem calma de ficar No meu veleiro de sorrisos (…)» Ou, mais explicitamente, os sinais dos tempos e de mudança iminente afloram no poema: «Amanhã» (…) Amanhã A enxada não cairá sem confiança Na terra que lhe é madrasta Amanhã Não pintará o poeta Seus versos cor de fel Amanhã cada flor terá a frescura da tua boca de mulher africana» Finalmente é na alegoria mulher/amanhã/ crioula/ que o poeta deposita as suas esperanças de uma libertação, de uma reconciliação com o outro e com o mundo, rumo a uma harmonia promissora. A questão que ao poeta ocorreu foi, ou terá sido, qual seria então o seu papel (o do poeta) para que tudo isso sucedesse? Para que tal se entenda, convido o leitor a ler os versos do poema – diria que intencionalmente intitulado «Poesia» Pudesse eu recolher Todas as lágrimas vertidas Em momentos oblíquos De um querer rectilíneo E delas fazer Oceano de ilusão Onde apenas navegassem Amantes do desencanto Amada ou amiga Talvez dissesse o rumo De quem nunca o teve Veleiro nesta calema». Terá sido esta a forma, através da qual, o poeta concebeu e definiu o seu papel; se sentiu e quis que “ela” (amada ou amiga) também assim o visse e o percepcionasse? Como cantor de um “querer rectilíneo” depois de recolhidas “todas as lágrimas”? Mas afinal, trata-se de quem “nunca teve (rumo) veleiro nesta calema” Será o seu (do Poeta) auto-retrato? Uma espécie de entrega solidária e solitária (embora reconhecendo «ab initio» alguma impossibilidade para alcançar o grande objectivo) em permanente busca e inquietação pela grande causa – hiperbolicamente cósmica, no limite – do encontro homem/mulher como síntese de toda a harmonia? Na linha de uma certa datação – de um tempo e de lugar(es) – já aqui mencionada, creio poder afirmar sem muita margem de erro que quase todos, se não uma boa parte dos poemas inscritos no livro foram escritos em Lisboa (para além de Rotterdam e Praia) e nos exaltantes finais dos anos 60 e meados da década de 70 do século XX. Dito desta forma poderá parecer gratuito, fortuito e sem qualquer fundamento, mas não será assim, se se fundamentar no seguinte: Lisboa era o “centro”, (se calhar, tal como Coimbra o era) o ponto de encontro e de desencontro, hélas! dos jovens estudantes do então ultramar português que aí prosseguiam os estudos universitários. Capital do Império, centro de todas as decisões em tempo de guerra, Lisboa também era nessa época um centro de contestações estudantis e outras que desafiavam a autoridade despótica num clima de claro e inequívoco “não” à guerra nas colónias e pela libertação das mesmas. Ao mesmo tempo e, paradoxalmente, vivia-se nela um “clima” de libertação iminente, de uma certa euforia, de uma certa esperança por um amanhã próximo e diferente. Era também uma época em que movimento global “hippie” a que nenhum jovem era indiferente, recusando ou aceitando a sua filosofia pacifista e prenhe de romantismo que cativava e impregnava a quase todos com o seu apelo à concórdia e ao amor. Não obstante as dificuldades, os desafios aliciavam e acalentavam muitos jovens artistas, escritores e poetas portugueses e africanos – de que Tacalhe fazia também parte – a uma entrega generosa da sua obra, ao serviço da causa da liberdade e da paz. Daí justificado que seja Lisboa o grande “pano de fundo” a moldura, e o cenário principal onde se assenta o “fresco” de poesia de Tacalhe inserto nas páginas desta colectânea. Para finalizar esta breve nota de leitura, gostaria de acrescentar que pese embora o tempo que distou entre a escrita dos poemas e a sua publicação em livro, eles chegam até nós plenos de uma poesia perene, de um canto que atravessa o tempo, que permanece, que nos interpela e nos envolve, porque afinal se trata de verdadeira poesia. Praia, Novembro de 2008. Nota ao Leitor – O texto foi escrito em 2008, em vida e a convite do poeta, saudoso amigo, para o prefácio do livro de poemas: «Trinta Poemas e um Soneto». Infelizmente ele não chegou a publicá-lo. Alírio Vicente Silva (1943-2012) Tacalhe, pseudónimo poético, merecia ser lido. Fica aqui este registo.

Cabo Verde na CPLP? ou A interrogação da minha neta

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Recentemente, estando eu a ver o noticiário de um dos canais televisivos, este passava em rodapé a notícia de que Cabo Verde havia nomeado, ou designado Diplomatas para integrarem o quadro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP.

Perguntou-me de imediato a minha neta mais velha, vinda de Luanda em férias de Natal, e que assistia e ouvia também o mesmo noticiário:

«Vó Dina o que é que Cabo Verde faz na CPLP? aqui não se fala português! …»

A estranheza da Inês apanhou-me de surpresa. Pois até aqui não havia pensado a questão da “briga” oral do falante cabo-verdiano com a língua portuguesa, nos termos em que acabara de escutar postos pela Inês, e que, ipso facto, a fazia retirar a Cabo Verde o direito de pertencer à comunidade dos países que falam a bela Língua portuguesa. A minha mente naquele momento estava virada para os recém-nomeados para a CPLP e a desejar que eles fizessem alguma coisa positiva em prol da língua portuguesa em Cabo Verde.

Virando-me para ela e retomando o que ela acabara de sentenciar, acabei por concluir que alguma razão estaria com ela e assim se ter expressado.

 Afinal, este é um país da CPLP, onde não se ouve falar português.

A língua portuguesa quase que se reduziu da independência a esta parte vai para 39 anos, apenas à expressão escrita, infelizmente! Daí que falantes lusófonos, angolanos, brasileiros, entre outros, aqui chegados tenham dificuldades na comunicação com o falante ilhéu. Pois que, mesmo o escolarizado em língua portuguesa, oralmente não se expressa na língua comum.

 Olhei para ela e apenas pude responder: «Olha minha querida, és capaz de estar certa. Percebo-te bem. Aqui tu não ouves oralmente a língua portuguesa, excepto no teu ambiente familiar ou de amigos bem restritos. Só falam em crioulo».

 E a Inês continuou: «Mais estranho esta ausência aqui da língua portuguesa falada, uma vez que estão muitos cabo-verdianos jovens a trabalhar em Angola, e se lá não falarem em português, não se fazem perceber…».

 Pois bem, fiquei contente com este breve aflorar do assunto, por uma jovem de 16 anos que num sintético e expressivo raciocínio, expos a importância da Língua portuguesa nestas ilhas, que já a falaram e muito no passado, outrora que não agora, não só em ambientes domésticos, mas também nos serviços públicos e privados e, sobretudo em ambiente escolar. Por onde andará a Língua portuguesa em cabo Verde? Que é feito da nossa língua, nosso património, que nos faz aceder ao mundo do conhecimento, da cultura, do saber?

É a língua portuguesa que nos abre perspectivas de contacto com os demais falantes da comunidade em que estamos inseridos, a CPLP.