O registo histórico e o discurso ficcionista - Ou quando o Escritor substitui o Historiador -

terça-feira, 29 de abril de 2014

Existe uma quase convicção de que determinados factos, episódios e histórias que se passaram – nas ex-Colónias africanas portuguesas – durante os processos tumultuosos e muitas vezes confusos que configuraram os momentos após o “25 de Abril” de 1974, o chamado “Movimento dos Capitães” em Portugal, não figurarão nos respectivos compêndios de História (a dita ciência objectiva de narração de factos acontecidos).
Não esquecer que se por um lado, a revolução de Abril de 1974, trouxe a descompressão psicológica e social nas antigas Colónias africanas portuguesas, pondo fim às lutas armadas nas três frentes de guerra, Angola, Guiné e Moçambique; por outro lado, foi seguido de episódios sangrentos vividos no período imediato às independências, com as guerras civis (Angola e Moçambique) e com actos de tortura, numa autêntica barbárie (Guiné-Bissau).
Esta quase convicção, repito, de que estes episódios não farão parte dos registos históricos, explica em parte, a necessidade que o escritor sentiu ao preencher um vazio que o historiador não realizou até esta.
Acredito mesmo que alguns escritores/ficcionistas, nomeadamente, alguns oriundos dos países do chamado PALOP. (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), intuíram o fenómeno com tamanha clarividência, e felizmente que tal aconteceu, pois que assim, qualquer leitor atento, poderá verificar que no entretecer do enredo dos seus romances, estes mesmos autores fixaram em quase paralelo, os dois registos escritos – o histórico e o ficcionista – numa autêntica necessidade de contar ao leitor a odisseia por que passaram alguns dos seus países e as sociedades dos mesmos, durante e imediatamente após o processo da independência e da descolonização.
De facto, descrevem os seus autores e de forma assaz referenciável, os mecanismos engendrados; as guerras civis; a violência psicológica e física exercida sobre os cidadãos que não estavam de acordo com determinados procedimentos dos novos senhores do mando. O permanente idealismo de alguns, o desejo de agarrar a vida mesmo em situações limites; as ditaduras dos partidos únicos. A falta de liberdade, a inexistência de democracia, as "intentonas" e as “inventonas;” o novo-riquismo da classe social mais abonada e ligada ao novo poder instalado com o advento da independência e os remoques à riqueza repentina demonstrada sem pudor por alguns dos seus membros; são entre outros, tópicos, os que esta literatura pós-moderna, pós-colonial, melhor consagrou.
Com efeito, de tudo isto, alguns romances de escritores angolanos, cabo-verdianos, guineenses, nos dão conta ao longo das histórias registadas e ficcionadas, como que com a nítida percepção, de que nada disso será talvez, registado na História recente pelos historiadores dos seus países de origem, cuja maioria se tem limitado a entoar loas aos feitos….
Neste capítulo, ganharam vanguarda em relação aos próprios historiadores, os quais, afinal, com o seu registo dito e tido por objectivo, poderiam e deveriam fixar para a posteridade os mesmos acontecimentos.
Daí que, os eventos históricos como parte integrante de muitas narrativas, acabam para nos tentar a classificá-los de romances históricos.
Passo a exemplificar, algumas obras demonstrativas, por ordem do ano de publicação do livro.
Comecemos pelo romance, «Entre Duas Bandeiras» de Teixeira de Sousa, publicado em 1994. Desfilam ao longo da sua leitura, os episódios que se passaram em Mindelo, na ilha de S. Vicente, logo após o 25 de Abril de 1974 e durante o período que o medeia e que vai até a data da independência do Arquipélago. A par da história do protagonista, “ Gaudêncio Pereira” que almejava (era o sonha da vida dele) ser sócio do Grémio Recreativo do Mindelo, e assim conviver com a fina-flor da cidade; conhece-se a movimentação política agitada que a cidade de Mindelo, vivia então. O narrador omnisciente, sobre isso vai transmitindo o seu ponto de vista ao leitor.
A existência da UDC (União Democrática Cabo-verdiana) cujos membros acabaram presos no Tarrafal (1974/75) e que pretendiam a independência das ilhas, mas não num quadro da unidade Guiné/Cabo Verde, o então “supremo e indiscutível dogma” do PAIGC, (o partido político que lutou pela independência, mas que não aceitava qualquer concorrência nas ilhas). Os confrontos por vezes carnavalescos nas ruas de Mindelo de então; os sucessivos comícios que se realizaram durante o mês de carnaval e que por vezes se confundiam e se fundiam com e/nos os desfiles dos blocos do rei Momo. Os comunicados constantes da Rádio Barlavento, ainda com liberdade de expressão plural, antes da sua “tomada” pouco democrática, pois que se tratou de um assalto à propriedade privada, pelos apoiantes do Partido mais forte. As ameaças físicas e psicológicas sobre algumas personalidades influentes de Mindelo que os novos senhores e os seus seguidores, apodavam de “burgueses”, de “alienados” e “aliados” do colonialismo. Tudo isto, foi transfigurado em ficção, em personagens que compõem o magnifico romance «Entre Duas Bandeiras», cuja metáfora do próprio titulo, remete o leitor para o tempo histórico da acção do livro.

Passando agora ao romance «Estação das Chuvas» de José Eduardo Agualusa, publicado em 1996.
Convinha situar-se o escritor Agualusa, na segunda geração, ou na nova geração de escritores angolanos, os da post-independência, do post “utopia” e já da fase do desencanto.
A narrativa do livro está historicamente datada, ou, melhor dito, apresenta vários acontecimentos datados, que configuraram quase toda a cadeia de episódios, desde a preparação ideológica; passando pela luta para a independência; indo até aos primeiros tempos do governo do MPLA.
Embora a obra focalize com maior ênfase, o longo período da dramática e destruidora guerra civil (1975-2004) e que no universo romanesco culmina com os trágicos acontecimentos de 1992, em que “desaparece” a protagonista da história, Lídia do Carmo Ferreira.
Ora, “Lídia do Carmo Ferreira, poetisa e historiadora b>angolana, misteriosamente desaparecida em Luanda em 1992, após o recomeço da guerra civil.” O romance de José Eduardo Agualusa “transporta-nos desde o início do século, até aos nossos dias através de um cenário violento e inquietante. Um jornalista (o narrador) tenta descobrir a história proibida do movimento nacionalista angolano; pouco a pouco >(…) compreende que o destino de Lídia já não se distingue do seu.” (transcrito da contra-capa do livro).
O autor fornece ao leitor uma admirável descrição histórica de Angola em diversos períodos da sua história mais recente, trazendo ligado também, o seu passado colonial.

Mais perto de nós, porque aqui nas ilhas, Armindo Ferreira publicou em 2002, «O Passaporte» narrativa, dramática, descrevendo a pungente saga, vivida pelo protagonista da história e que se passa em larga medida, em Bissau.
No universo da narrativa, temos a ponte entre uma Lisboa do imediatamente antes do “25 de Abril” e Bissau de 1974/75 já independente.
Pois bem, ao tempo, e nessa Lisboa, vivia, estudava e trabalhava uma franja significativa da juventude cabo-verdiana e guineense, constituída sobretudo por estudantes universitários, os quais ansiavam – embora com graus diferenciados e distintos de entendimento, de envolvimento – o futuro próximo e promissor que o projecto da independência sob o PAIGC, traria (supunha-se) aos dois países, à Guiné a às ilhas de Cabo Verde.
O leitor apercebe-se das discussões ditas “ideológicas” bastamente travadas entre as personagens mais salientes do texto.
Curiosamente, o protagonista do «O Passaporte» não é estudante universitário, e nem é “ideologicamente” marcado. Descobre-se que fora guerrilheiro, ferido em combate, feito prisioneiro pelas tropas portuguesas que o levaram para Portugal.
Trata-se de “Abdú Konté” que após a recuperação dos ferimentos de guerra, se tornou operário especializado numa oficina de metalurgia, onde era reconhecido pelo mérito com que desempenhava as tarefas. Casado, com uma filha pequena e com a vida a correr-lhe bem, sobrevieram-lhe entretanto as saudades da terra que o fizeram voar até Bissau. A partir da chegada à Guiné e até à “sua morte, Abdú” conhece um autêntico calvário de tormentos, de perseguições que quase o levam à loucura, por causa da retenção do seu passaporte pela então tenebrosa polícia guineense.
É uma história a um tempo, comovedora e revoltante.
«O Passaporte» de A. Ferreira é um “contundente e dramático relato dessa odisseia humana”.

Outro caso muito ilustrativo, do tema que vimos falando neste escrito, é o de Pepetela, reconhecido e premiado escritor angolano.
Trata-se de um autor que antes escrevera romances epopeicos, sobre a luta pela independência de Angola, em que destacaria «Mayombe», «As Aventuras de Ngunga» e «A Geração da Utopia»
Interessantemente, o escritor (re) cria no seu «Predadores» publicado em 2005, um dos seus romances mais emblemáticos deste novo discurso histórico/ficcionista.
Trata-se com efeito, de uma ficção, de um enredo envolvido em vários níveis do cómico literário, a saber: o de linguagem, o de personagem, o do narrador que imbrica na própria narração. Há um humor, que por vezes ganha assomos de corrosivo, a par de uma ironia sarcástica, os quais, enformam o comportamento indisfarçavelmente exuberante e de novo-rico, simbolizado no protagonista da história, “Caposso” empresário recente, que se dizia “natural de Catete,” terra de origem de Agostinho Neto, o que não sendo verdade lhe acrescentava – julgava ele – mais prestígio quando se apresentava às pessoas, em reuniões ou em festas. Falava alto ao “telemóvel de última geração,” e explicava, gabando-se ao interlocutor do outro lado da linha – não importando o sítio e a ocasião, ciente de que estava sendo escutado por quem estivesse à volta – da sua grande prosperidade material. O autor não poupa o comportamento de pouca ilustração e, volto a repetir, de novo-riquismo exibicionista da personagem “Caposso,” Quiçá! Aproveitando-se também, para nele transportar, transfigurar e simbolizar o “modus vivendi” de alguns membros da nova classe rica, habitante de Luanda e de outros centros urbanos de Angola.
Trata-se com efeito de um retrato sarcástico do comportamento dessa nova sociedade, luandense no caso. Para além da “estória” está presente a história mais actual, caricaturada embora, de uma certa Angola, prenhe de um deslumbrado novo-riquismo.
Lado a lado, os dois discursos, o histórico documentado, através de cenas da guerra colonial e da ainda mais longa, a guerra civil de Angola, e o discurso ficcionista – o universo, onde se movimenta “Caposso” – estão presentes, com igual força descritiva e narrativa, nesta obra de Pepetela.
Estes são alguns exemplos de obras interessantemente concebidas e realizadas por alguns escritores, nesta Literatura mais recente e que ao fim e ao resto, são demonstrativas da realidade histórico/social experimentada nos respectivos países, e transfigurada na ficção, sem perder o discurso histórico.
Afinal, nas obras aqui analisadas, diria que se complementam os dois perfis, o de ficcionista e o de cronista histórico dos seus autores, que legam para a posteridade testemunhos vividos dos acontecimentos narrados e efabulados.




"25 de Abril" Sempre!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Chamei ao meu texto breve: “25 de Abril Sempre!”
Embora já muito dito, e mantendo alguma subjectividade, reconheço que a data significa para mim um ponto de partida e na mesma dimensão representa também um ponto de chegada. Isto é, o 25 de Abril reflecte e carrega um sinal e um significado, histórico e simbólico estruturantes.
Igualmente, o 25 de Abril de 1974 foi para a minha geração ou, pelo menos, para parte significativa dela, a percepção de se estar a viver o futuro dentro do presente, sem limites ou barreiras que projectam a distinção entre estas duas dimensões da nossa temporalidade vital.
O processo do “25 de Abril” já foi também chamado de “o regresso das naus,” numa alusão metafórica, ao desfecho do processo colonial.
Se é certo que o “25 de Abril,” aconteceu-me numa fase de vida, em que uma revolução dessa natureza e grandiosidade, a chamada revolução dos cravos tende a ser, e foi recebida com o amplexo generoso e romântico, sobretudo da juventude;
Também não é menos certo, passadas quatro décadas, poder afirmar sem qualquer hesitação que o “25 de Abril,” VALEU A PENA! Com todos os seus excessos, mal-entendidos, dramas, confusões… e limados os pontos mais agrestes desse momento de ruptura, poder afirmar que – repito – VALEU A PENA!
Tal como eu, estou certa que muita gente da minha geração continua a considerá-lo como um momento histórico único, ímpar na nossa trajectória de vida.
Por isso saudemos o “25 de Abril” pelo seu efeito epistemologicamente transformador, de reposição de direitos e de dignidade na relação entre os povos que têm em comum a língua portuguesa.
Hoje, somos uma comunidade, a CPLP, mas tal não seria possível se não fossem – parafraseando o poeta – “as portas que Abril abriu” e que fizeram convergir e não apartar os povos e os países que a conformam
Infelizmente, entre nós, (cabo-verdianos) e sem explicação racionalizada, a data não tem sido assinalada. Não é evocada com a globalidade que devia ter, até para se entender melhor a nossa história recente.
De facto o “25 de Abril” é data que na minha opinião, teimámos em ignorar.
Esquecemos a liberdade e a descompressão social e psicológica que trouxe e os enormes sacrifícios que poupou na caminhada para a Independência.
Comemoramos contudo, outras datas que lhe são derivadas no contexto da luta para a Independência.
Até aqui, tudo bem, só que nos esquecemos de que não seriam possíveis nos mesmos pontos de um referencial temporo-espacial, se não fosse o “25 de Abril” de 1974.
Fico por vezes com a impressão que este procedimento se assemelha ao que se diz da avestruz, isto é, metemos a cabeça na areia e fizemos de conta que o “25 de Abril” nunca existiu e que não tínhamos nada a ver com ele.
Mas como podemos hoje fazer de conta da explosão de alegria, de contentamento e de esperança que ele gerou e que percorreu o Arquipélago de lés a lés permitindo o calar das armas, na Guiné, em Angola e em Moçambique, a libertação dos presos políticos do Tarrafal e de outras prisões e dando liberdade de acção para a participação massiva e entusiástica que culminou com a Independência Nacional?
Reconhecer o “25 de Abril” como um marco importante da História recente da nossa Nação não desvalorizará a penosa caminhada do povo destas Ilhas para a independência.
Bem pelo contrário, a dignificará e a honrará por que ele, o “25 de Abril”, é digno, é honroso, é saudavelmente libertário e é também nosso por direito próprio.
Celebrar, não é feriar. É destacar, é assinalar.
Reconhecer o “25 de Abril” não diminuirá a gesta, mesmo daqueles que por atitudes e subtilezas verbais reclamam, em privado, o estatuto de únicos obreiros da Independência e vêm resistindo a esse reconhecimento, quiçá por julgá-lo concorrente ou “contra-argumentário”.
Com ou sem o “25 de Abril” a Independência seria um facto. Discutível, mas tomemo-lo por adquirido. Não o polemizamos. O problema é saber-se quando, e quantas vidas, dissabores, sofrimentos e sacrifícios se pouparam...
Ignorar o “25 de Abril” é ignorar a história do povo destas ilhas e não reconhecer a quebra da cadeia que nos ligava ao colonialismo por via de uma pesada ditadura, quebra essa para a qual também contribuímos.
Imaginemos por momentos como seria o nosso processo de independência, acoplada ao da Guiné – Bissau, sem os diálogos, sem as negociações, sem os acordos que o “espírito” do 25 de Abril permitiu e que a todos tocou?
Imaginemos por uns segundos o que seria dos milhares de angolanos, de moçambicanos, posteriormente de guineenses, que se refugiaram “no Portugal do 25 de Abril,” com os complexos, dramáticos e traumatizantes problemas que isso trouxe a uns e a outros, uma vez que logo a seguir ao processo das independências, os seus países mergulharam numa guerra fratricida, sangrenta, cruel, devastadora em perseguições várias?
Sim, o que seriam hoje, muitas crianças e jovens de então, dos aludidos países privados de escolas e de quase tudo se não fossem as oportunidades que Abril gerou num Portugal já sem colónias? E que o tornou tão mestiço por via disso?
A data de 25 de Abril não devia ser um número abstracto. A ela estão ligados acontecimentos importantes do passado que nos permitem reconstituir o itinerário para o presente e compreendê-lo. Deve, pois, revestir-se entre nós, de uma certa dignidade, não podendo ser malbaratada ao sabor de preconceitos, olvidada por concepções redutoras da nossa História.
Deve ser bastamente explicada para que seja assumida por todos sem quaisquer complexos.
Nesta oportunidade e como forma também de evocar os “Capitães de Abril,” transcrevo as hoje, quase proféticas palavras de um dos seus homens mais insignes, o Capitão Salgueiro Maia, que em vésperas de morrer terá proferido, passo a citar:
“Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir.” Fim de citação.
Pois é, o 25 de Abril, foi também e, sobretudo, um acto de edificação dos pilares que conduziram e vêm conduzindo o processo de democratização e de desenvolvimento da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (neste contexto, eventualmente retiraria o Brasil se ignorasse as relações de contágio que sempre existem como recentemente realçou o Presidente Lula da Silva ao estender o 25 de Abril à humanidade).
Volvidos quarenta anos, estou convicta de que a maturidade, a análise mais objectiva, mais intelectualizada da nossa gente – aqui – sobre os fenómenos e os eventos históricos que nos acompanharam e nos trouxeram até ao presente e, sobretudo através de uma espécie de “descomplexização” histórica contribuirão, no seu todo, para o equilíbrio desse reconhecimento, do papel e do significado que também tem o “25 de Abril” para o povo cabo-verdiano.
Para finalizar esta minha singela evocação do 25 de Abril, vou transcrever alguns versos do poema “Corpo renascido” de Manuel Alegre, o poeta da liberdade e que nestes versos, e numa interessante alegoria poética, quis simbolizar a dimensão cosmogónica e solidária, do 25 Abril.

“Corpo renascido
Canção (…)
Coração perpendicular ao tempo
Cantando é como se dissesse: estou aqui!
Na multidão que está dentro de mim (…)
Canção casa do mundo
Viagem de homem para homem
Meu pedaço de pão rosa de Maio
Criança a rir na madrugada
Cavalos correm nos teus campos,
crinas ao vento
São os cavalos indomáveis que te levam
Aos quatro cantos do mundo
Lá onde um homem tiver sede
Levarás teus cântaros/
Lá onde um homem tiver fome
Levarás teu pão
Lá onde a liberdade foi assassinada
Os teus cavalos livres levarão
A espada refulgente
Levarás o teu sol canção
Folha a folha desfolhada
Folha a folha renascida
Assim tu és canção:
Viagem de homem para homem.”

Manuel Alegre – País de Abril – Antologia

E assim termino, não sem antes repetir, tal como escrevi no início: “25 d’ Abril Sempre”!


Os Rebelados ou os Mitos que fazem História?...

quinta-feira, 3 de abril de 2014


Embora se trate de um texto já publicado em 2008, voltei a repescá-lo e a trazê-lo para o “Blogue”, pois tenho ficado verdadeiramente pasmada, cada vez que vejo e leio o acervo de teses, monografias, fantasticamente efabuladas, que se têm vindo a tecer sobre os ditos “Rebelados” da ilha de Santiago! E tudo isso com ampla cobertura pseudo/histórica…
Do meu ponto de vista, o livro: Os Rebelados de Santiago, de Cabo Verde da autoria de Júlio Monteiro, Jr. continua a ser a melhor fonte histórica para se conhecer o caso dos chamados “Rabelados” da ilha de Santiago.
Recorde-se que foi editado em 1974, pelo Centro de Estudos Cabo-verdianos, a partir do Relatório elaborado pelo autor, entre 1962/64.
Pois bem, os “Elementos para o estudo sócio-religioso de uma comunidade” como o próprio autor viu o assunto e classificou o seu excelente ensaio, constituem no meu entender, o mais abrangente e o que melhor tratou a questão.
De facto, não conheço, até agora, nenhum outro registo escrito com a mesma amplitude e profundidade analítica e histórica sobre o assunto, como a que encerra o livro de Júlio Monteiro.

Nos primeiros capítulos, o autor fornece-nos uma informação muito completa sobre os vários elementos constitutivos e estruturantes de algumas formas de parceria, de arrendamento de parcelas de terra, até da forma de actuar, de agir e de reagir do cabo-verdiano rural, quando perante relações e interacções com a propriedade agrícola. O caso/exemplo do livro, focaliza o homem rural de Santiago, ilha de que traça uma acabada descrição etnográfica de muito préstimo.
O objecto de estudo da obra de J. Monteiro permite-nos recuar no tempo e, sermos confrontados com os relatos de alguns acontecimentos que desabaram em simultâneo, sobre as pobres cabeças e conflituaram o entendimento dos homens, quase todos analfabetos, no dizer de Júlio Monteiro, de algumas comunidades desse interior então recôndito, montanhoso, alcantilado e isolado da ilha de Santiago.
Habituados de há muitos anos, através da doutrinação dos padres de “batina preta e de barrete próprio,” a auto-suprirem as suas necessidades em orações e enterros, actos indispensáveis ao fiel católico, dada a dificuldade que até os próprios curas sentiam em chegar àquelas zonas inóspitas e perdidas nos confins, sobretudo, da região do Tarrafal, eles terão reagido mal aos sinais dos tempos, como sói dizer-se.
Estamos nos finais dos anos 50 e inícios dos anos 60 do século XX, quando os habitantes desses lugares, nem todos, se rebelaram, contra as novidades trazidas na prática dos novos padres “de batina branca, sem chapéu ou com boina, (… )".

Note-se que a princípio eles não eram chamados de «rabelados». O povo chamava-os de “incrente” cuja descodificação para as autoridades teria sido de “incrédulo.” E, se calhar, nada teria acontecido. Quem sabe? Talvez o conflito ter-se-ia mantido apenas na esfera estritamente religiosa.
Mas coisa outra, e bem diferente, foi terem sido apodados de «rabelados» o que em português se traduziu por «revoltosos». Embora no crioulo, e para o contexto, a palavra «rabelado» tivesse uma significação ambígua e mais abrangente. Assim se compreende a entrada em força das autoridades.
Veja-se o papel da semântica neste particular, e no que deu para o caso!
Ora, quem os denominou pela primeira vez, por escrito, de «Rabelados» foi Pe. Moniz – de acordo com o autor – que também se apercebera da rebeldia desses homens aos rituais inovados da Igreja católica. Comunicou o caso ao Administrador do Tarrafal, em 1959. É bom que rememoremos que a religião católica era a religião oficial do Estado Novo. Logo, interagia a sua acção com a autoridade instituída.
Não bastando este cenário, e para complicar ainda mais a situação dos «increntes» primeiro, na voz do povo, e mais tarde, consagrados «rabelados», no registo da autoridade, sucederam-se em simultâneo, vários acontecimentos que acabaram por dar ao caso uma configuração particular. Ei-los:

1 – A já referida chegada dos padres da Ordem ou Congregação do Espírito Santo que envergavam outros hábitos que não os que eles estavam habituados a ver nos antigos padres que os visitavam. Para além disso, vinham munidos e sabedores dos novos postulados da Igreja face às transformações da sociedade de então, insertos nas importantes Cartas pastorais do Papa João XXIII e, proximamente, das orientações saídas do Concílio Ecuménico Vaticano II que renovou o «modus operandi» da liturgia e da actuação da Igreja.

2 – As próprias orientações do Concílio Ecuménico Vaticano II, muito celebradas e aplaudidas pelos sectores mais desenvolvidos da Igreja Católica que, de entre interessantes e profundas transformações na sua ecleosologia, trazia a nova de a missa poder ser rezada nas línguas nacionais e locais. Recorde-se que até aí a missa era celebrada em Latim. As mulheres já podiam entrar no templo, sem véu ou lenço a cobrir-lhes a cabeça. Os padres, alguns deles, conforme as ordens, então autorizados a trajar-se de modo quase civil. Tudo isto afinal, com a benéfica intenção de a igreja estar mais perto do crente e ser parte da comunidade.

3 – A instalação naquela época, da Missão de Estudo Permanente de Combate de Endemias e da Erradicação da Malária em Cabo Verde que teve um imensurável papel no combate à malária no Arquipélago e que actuou com rapidez e muita eficácia em quase todos os recantos das ilhas.
Ora, da noite para o dia, sem terem sido devidamente informados do que se estava a passar e já em conflito com as autoridades, os “Rabelados”, vêm-lhes entrar, pela casa e pelo quintal adentro, o “diabo” sob forma de agentes de desinfecção, ainda por cima munidos de uma almotolia com que pulverizavam o desinfectante – D. D. T. – recusaram-se a continuar a viver nas habitações desinfectadas por lhes parecer mais uma obra provocatória do demónio.

4 – De se registar também, seguindo de novo Júlio Monteiro, os conflitos surgidos, na mesma época, com a lei da demarcação da propriedade rústica, ordenada desde 1955 e só aplicadas em 1961. “Encarada com a suspeição do pagamento de contribuições (…) os ânimos da população rural estavam excitados” (…) transcrito do livro. E de novo, as suas zonas “invadidas” pelos marcos e pela presença dos técnicos e dos funcionários das Brigadas de Estudo e Construção de Obras Hidráulicas de Cabo Verde (B.E.C.O.H.).
Coloquemo-nos, se possível, no tempo e nas condições do ser e do estar desses homens e mulheres chamados de «Rabelados», para os entender e também lhes dar as devidas limitações e o enquadramento em que se devem manter, a bem da História.
Sem acessos, sem estradas, sem informações, vivendo em zonas alcantiladas e perdidas, nas fragas das serras do interior, então bem interior, da ilha de Santiago, como claramente o autor nos informa; os seus “cabecilhas ou chefes” eram quase todos analfabetos. Alguns, os que sabiam ler e decifravam a Bíblia, eram de facto, os mentores religiosos da comunidade. Foram presos e mandados quase desterrados para o Fogo e para a Brava, longe dos seus. Nas palavras críticas do Dr. Júlio Monteiro: «uma carga desnecessária, um procedimento excessivo» de quem nada tinha entendido do problema e que «queria transferir para o caso, os acontecimentos recentes de Angola» (1961).

Teremos de convir que tudo isso lhes terá sido assemelhável a um quase “Fim do Mundo”! Situemo-nos no tempo histórico e no espaço destes homens isolados dentro da ilha!
Ora bem, Dr. Júlio Monteiro balizou na sua obra e de forma lapidar no levantamento que fez, as causas dessa rebeldia, ao classificá-las de sócio-religiosas.
Daí que voltaria a recomendar a leitura do livro, «Os Rebelados de Santiago de Cabo Verde» de Júlio Monteiro (sobretudo aos Orientadores dos trabalhos académicos e de fim de Curso) para que não se continue a ler e a ouvir ficções com pretensões históricas sobre o assunto. Desde apelidá-los de nacionalistas/independentistas que tinham recebido instruções, até tentando explicar as causas da rebeldia, fazendo-as parecer, no tempo, motivadas sob mobilização e influência do PAIGC. Convenhamos que de mitos e de fantasias, muito se tem contado! De tudo um pouco também, se tem vindo a ler sobre este assunto.

A impressão com que se fica algumas vezes, é a de que o «tampão» político de pretensão nacionalista é usado com demasiada ligeireza, entre nós, em alguns trabalhos escritos e ditos, para suprir lacunas que uma investigação séria e científica propiciaria, se fosse feita. Será?...

Aceite-se sim, e nisso estaremos de acordo, que os preceitos de vida desse grupo tenham tido impacto sócio-cultural quando os seus membros reagiram e passaram a constituir-se uma espécie de «bolsa» comunitária que se fechou sobre si própria e desenvolveu hábitos e costumes específicos. Sucedeu assim uma quase ruptura que originou uma forma de estar e de agir, distinta do grupo maior, ou seja, da população integrada e homogénea, (seja-me permitida a utilização do conceito, por oposição à auto-marginalização dessa comunidade) de que se constitui Cabo Verde.

Logo, por uma vez, vamos ser honestos com a nossa História recente, – neste caso dos «Rebelados» – pelo respeito que lhe devemos.
Para finalizar, acrescentaria que um dos grandes méritos do trabalho, então Relatório, feito pelo Dr. Júlio Monteiro – para além de ter prevenido, de ter alertado as autoridades para as verdadeiras causas do conflito – foi sem dúvida o facto, de ele ter concorrido ainda e em tempo, para atenuar e até mesmo impedir que actos mais violentos e continuados fossem cometidos contra os «Rebelados».
Afinal, o Dr. Júlio Monteiro, acabou por ser um advogado “pro bono” dos ditos “Rebelados” ou melhor dos “Increntes,” como foram originariamente chamados pela vizinhança que os denunciou ao Padre Moniz em 1959, pelo facto de não querem aderir à então nova liturgia. Reconheça-se ao autor, o muito mérito que teve na defesa dos ditos «Rebelados».

















Registos...

segunda-feira, 31 de março de 2014
Também me tocou – em tempos idos – a “poesis”. Registei os momentos em poemetos que agora fui buscar a um caderno que supunha perdido. Algum desencanto, mesclas de lirismo, esperanças veladas e o lugar do amor… A escrita é datada. Tudo se passou nos finais dos anos 70 e seguiu os anos 80 do séc. XX. Não mais aconteceu.

Saga / versus / Rumo

O vento governa a terra destroçada
E o rumo da vida in-certo
Em palavras vãs e cansadas
Trouxe-me a agonia de ondas
Em preia-mar de Setembro…

A teia que se teceu,
Desvaneceu-se
Ao contacto impuro e libertino
Do nevoeiro que cobriu
As promessas de manhãs de Sol

Conjugação/ Desencanto

Saber em nós
O poder de vós
É disjunção odiada
Em contra-mar de Abril!


ELE / ELA

Á memória de Manuela Porto – Escritora portuguesa, 1908-1950

Quase uma história de amor
Espelhos fragmentados
Memórias revoltas
Nos lábios um sorriso vago…
Um acaso de encontro Ou um encontro do ocaso?
A alegria breve de vidas paralelas
Em vitrais trocados.


Espaço Cinzento

Um silêncio roubado
Á barulhenta vida
Permanece vigilante em mim
Coordena meus passos
E meus desencontros.
Sibilina é a arte de viver mil vidas
Numa só derradeira.
Tanta fúria!
Tanta raiva!
Tanto ódio!
Meu silêncio sorri e pensa:
“Humanos desequilíbrios Para um adiado amor”…


A Eterna Loucura


Eis que ela se apanhou
A brincar com a chama
Que Cupido teceu
E se apercebe que o Amor
Embora diferente,
Também se repete.
Barco baloiçado
Em notas suavíssimas
Testemunho discreto
Na ternura do olhar
Na carícia trocada
Na noite sem lua.
Paixão renovada
Em brisa amena
do confuso silêncio na Ilha
.

Música
(versos buscados e inspirados em Vergílio Ferreira num texto homónimo). A Osvaldo Alcântara, poeta das Ilhas. 1907-1989.

A música leve do violão
A tarde que se desvanece
A transfiguração
Diáfona Subtil…

A música que ouço na tarde
Que se apaga
estará antes
Ou depois da razão,
Mas nunca nela.

A música
O alívio que pesa
O imaterial de nós
O encantamento
O êxtase em si.

Para nós o dicionário afectivo
E interno da nossa crioulidade
Em notas soltas…

A música parece ser a alma de tudo
O que é humana condição
Expressão anterior e posterior
De todo o saber
Pensar e sentir
A pura divindade sem Deuses
A força absoluta
Da irrealidade…

A música leve do violão
A tarde que se desvanece
A transfiguração…


Aqui ficam alguns registos.

«A Cultura da Argumentação, Tradição e Modernidade da Razão Argumentativa» de Carlos Alexandre Bellino Sacadura» - Uma Leitura -

sexta-feira, 28 de março de 2014
O livro «A Cultura da Argumentação – Tradição e Modernidade da Razão Argumentativa» de Carlos Alexandre Bellino Sacadura, convida o leitor, através dos seus nove capítulos, enformados em duas partes, a conhecer, a encontrar e a participar dos fundamentos históricos que de certa forma deram perenidade às teorias da racionalidade argumentativa.

Bem, antes de continuar, eu gostaria de esclarecer o leitor de que a leitura que fiz e o que percebi deste laborioso, meticuloso e profundo estudo histórico e filosófico de Carlos Alexandre Bellino Sacadura – a minha leitura interpretativa, aqui muito “naif” e resumida – é de alguém que não é da área. A minha leitura, dizia, vai para a generalidade da comunidade de leitores em que me incluo e não, longe de mim! Não se dirige a leitores especializado em Filosofia. Logo, as minhas desculpas a algum especialista que eventualmente venha a ler este texto.

Feito o esclarecimento, debrucemo-nos agora sobre o livro. Através de uma bem conseguida sistematização semântica, isto é, partindo da significação mais simples à mais complexa, o autor explica-nos que discurso racional, ou Discurso e razão, tiveram a sua génese na cultura grega, no chamado “Logos” helénico, com particular enfoque nos estudos levados a cabo por Sócrates, sob forma oral e por Platão sob forma escrita em Diálogos, em que subjaz a oralidade. Diálogos esses em que se apresentavam argumentos sobre matérias com interesse para a “Polis”/Cidade Estado, no caso, Atenas, e em que estes argumentos eram questionados, polemizados, originando-se em novos argumentos.

A famosa cultura grega da argumentação fez-se, de acordo com Bellino, e passo a citá-lo: com “o apelo explícito à razão e ao argumento.” Esta constância à razão e ao argumento, torna-se modelo de pensar, ou seja, lança os pilares da racionalidade crítica que por sua vez, fundamenta a atitude científica.

Há da parte do autor um debruçar de forma muito pormenorizada, minuciosa, diria, sobre o pensamento de Platão, conducente àquilo que Platão considera dever ser utilizado para se chegar ao “verdadeiro conhecimento.” Para este grande Filósofo da Antiguidade, seria o discurso e razão, mais a ética.

Ora aqui emerge a Filosofia, o saber dos saberes. Por falar em Ética, recomendo-vos vivamente a leitura do capítulo 5 deste livro, pois que é assaz rico em fundamentos demonstrativos de que a ética deve estar presente na edificação de qualquer tipo de discurso argumentativo. Embora a questão da Ética atravesse quase todos os capítulos do livro.

Igualmente, em páginas importantes, desta excelente e culta análise, o autor lança uma ponte, intenta uma profícua interligação ou uma aproximação, entre o pensamento filosófico fundador grego, mais particularizado na filosofia, de Platão (347 A.C.) e o pensamento de Descartes, René Descartes, século XVII, na produção do seu discurso científico moderno, da importância deste Sábio fundador da chamada Filosofia Moderna. Para além disso, Descartes é nas palavras de Bellino Sacadura, o precursor daquilo que hoje se denomina de difusão em rede do conhecimento. Quero crer que a generalidade de nós outros, conhece ainda que isso possa ser superficialmente, a célebre Dúvida Metódica, ou o “cogito ergo sum” (penso, logo existo) ou mesmo o Discurso do Método de Descartes. O livro de Carlos Bellino ocupa-se com profundidade não só destas questões como as alia à retórica e à imaginação que perpassam no discurso de Descartes.

Mas antes de continuar com a leitura comparada que o autor estabelece entre Platão e Descartes, gostaria de dizer que retive do livro, o seguinte: há nele também a inscrição de uma tese que é cara ao autor e que se não é a tese maior desta obra, ela é, sem dúvida, uma das suas conclusões mais apelativas. Carlos Bellino afirma aqui, sob forma de uma espécie de recusa, daquilo a que ele chama e passo a citá-lo: “de fragmentação dos saberes, com cada disciplina a querer impor os seus critérios de compreensão como únicos.”

Este negar, provando, a não fragmentação de saberes, encerra uma atitude e um pensamento actual em alguns cientistas e filósofos aos quais se junta o autor deste livro.

Pois bem, para o Prof. Bellino Sacadura, e um pouco para contrariar esta tendência que fez e continua a fazer escola e que contaminou em larga medida, o pensamento filosófico e científico, dividindo-os em campos por vezes, numa simplificada oposição, entre “ ora aqui começa a filosofia e ora ali acaba o discurso cientifico”, e não se tocam. Para o autor, ao contrário, faz todo o sentido interligar, ou estabelecer a tal convergência, pois que já vinha implicado no pensamento grego antigo, ou helénico, no livro, representado por Platão, que promoveu, e cito o autor: “uma racionalidade plural (racionalidade argumentativa, lógica e empírica) ”. E isto converge com o pensamento cartesiano, que afinal, acabou por se revelar, volto a citar o autor: “o paradigma da impossibilidade de separação total” dos saberes, e/ou das duas abordagens, a filosófica e a científica que já se complementavam e já se interligavam afinal, no discurso de Platão e mais tarde na retoma de Descartes no seu método científico. No fundo, o primado da transversalidade dos saberes entre si.

Outro assunto que trata o livro, e para mim, muito Interessante e que li com entusiasmo, e atenção foi a análise dedicada aos símbolos e à alegoria platónica, assim conhecidos, e que diferentes correntes literárias incorporaram e, exercitaram-nos com especial realce, para a poesia. Aliás, foi intertextualidade recorrente na Literatura dita ocidental europeia, durante séculos.

De modo abreviado direi, recorrendo-me a Bellino Sacadura e a Hernâni Cidade professor e investigador da Literatura portuguesa do século XX, que a alegoria platónica, afirma ou sugere que as almas “viviam primeiro na esfera inteligível, na contemplação das realidades perfeitas, das realidades-ideias; por qualquer pecado, caíram na esfera sensível e ei-las agora corporeamente apreendendo as sombras,” ou seja, apenas, as realidades que os sentidos captam. Mas as almas não perderam por completo a memória do seu primeiro estado de clara visão racional e, pelo esforço da reminiscência, pelo caminho dialéctico, poderão fazer a ascensão da esfera sensível à esfera inteligível, da sombra ao real é assim que, por exemplo, o poeta, projecta a ideia de Beleza sobre o objecto amado. É assim que encontrámos em Camões um grande cultor da alegoria platónica, o exemplo máximo do neoplatonismo na poesia portuguesa renascentista dos séculos XV e XVI. Um dos seus poemas mais claramente ilustrativo da aplicação da alegoria é o poema “Babel e Sião” em que escreve: Mas ò tu, terra de Glória, / Se eu nunca vi tua essência / Como me lembras na ausência? / Não me lembras na memória, / Senão na reminiscência; / Que a alma é tábua rasa/ Que, com a escrita doutrina / Celeste, tanto imagina, / Que voa da própria casa/ E sobe à Pátria divina / donde esta alma descendeu, / E aquela humana figura / Que cá me pôde alterar / Não é quem se há-de buscar: / É raio da Formosura / Que só se deve amar.

O considerado neoplatonismo literário/poético atinge em Camões a expressão maior no soneto: “Transforma-se o Amador na coisa amada.”

Mas o magistério de Platão, através da sua alegoria, e dos seus símbolos, percorreu várias correntes poéticas na Literatura portuguesa, e em diferentes momentos. No romantismo vamos encontrar em Almeida Garret, poemas em que ele “pressente” a ideia do amor. Mais tarde entrando, no século XIX, no Realismo, os versos atormentados e densos de Antero de Quental, lançam interrogações e inquietações sobre a “luz” que o poeta persegue e que vem da – volto a citar Bellino – “gnosiologia e da ontologia da luz de Platão e que se abre para o filósofo como uma mística, uma iluminação espiritual. Que se tornaria numa das fontes do neoplatonismo.” Fim de citação. Sobre os símbolos e a alegoria platónica é de todo o interesse que se leia o capítulo 3 com o subtítulo: Retórica, dialéctica e imagética do conhecimento em que o autor explana os pontos fundamentais contidos na obra «Banquete» de Platão, analisados e interpretados em vários e respeitáveis escritos de pensadores hodiernos da obra platónica.

Para finalizar esta minha intervenção gostaria de dizer que Carlos Bellino Sacadura, apoia as hipóteses e as teses que são apresentadas ao leitor ao longo deste livro, em várias escolas e/ou correntes filosófica, em diferentes épocas e diferentes pensadores e estudiosos. Para exemplificar, direi que ele passa em cuidadas análises, pelos sofistas, pelos retóricos, pormenoriza a discussão entre estes e Platão (afinal, está presente no livro, a questão da boa e da má Retórica) vai a Pitágoras, conclama Kant e Bacon, entre outros, que no livro são citados, os quais, em argumentação e em contra – argumentação com eles próprios e com outros autores, vão construindo teses que confluem com propriedade e com contexto no discurso ou, já agora, no “Logos” e na dialéctica com que o autor deste livro, Carlos Alexandre Bellino Sacadura, tece a sua argumentação, já reformulada, já própria e já original.

Para terminar mesmo, gostaria de agradecer ao autor a proveitosa leitura que o livro propicia, convidando o leitor que o leia pois que, no final da leitura, sairá certamente, culturalmente mais enriquecido.

Nota informativa: Carlos Alexandre Bellino Sacadura é Professor de Filosofia na Universidade de Cabo Verde. É Luso-cabo-verdiano. É doutorado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga/ Universidade Católica Portuguesa. O seu campo de investigação incide na Filosofia da Educação e na Filosofia da Ciência, Fenomenologia e Hermenêutica

O Brasão dos Mont-Rond…

quarta-feira, 19 de março de 2014
Esta é uma historieta que me ficou da memória familiar. Do espólio de Armand Mont-Rond, o tal francês que demandou o Fogo nos finais do século XIX, (1870) e sobre quem já se contaram e continuam-se a contar muitas histórias, muitas delas bem efabuladas, pois que a geração viva é já de bisnetos e por aí abaixo em termos de descendência que ouviu histórias sobre o ascendente e acrescentou da sua lavra muitas outras, ao jeito de: “Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”
Ora bem, dizia eu que do espólio por ele deixado, de entre outros objectos, ficaram alguns talheres de prata, que a minha avó paterna, Maria Clementina - filha dele que os herdou - terá oferecido ao meu pai.
Mais tarde, nos anos 50 do século XX, numa das deslocações dos meus “velhos” a Lisboa, o meu pai levou a colher de sopa que trazia incrustada o brasão que pertenceria ao avô gaulês e dela (da colher) mandou extrair o brasão para recolocá-lo num anel de ouro que entretanto encomendara.
Lembro-me que nós, os filhos brincávamos com ele, a propósito dessa operação anelar dizendo-lhe: “Pai, afinal tanta fidalguia, tanta aristocracia do seu avô e o brasão foi retirado de uma colher de sopa!?” Ao que o nosso pai prontamente respondia, meio sério, meio a brincar: “…Mas não deixa de ser um brasão!” Ríamo-nos todos com isso.
Anos passados, o tal anel brasonado passou à posse (oferta do pai) de um dos meus irmãos, Jorge Alberto que apreciava antiguidades. Este por sua vez, e antes de morrer deixou-o em lembrança ao filho, que vive nos Estados Unidos.
Entrados no século XXI, houve alguma curiosidade fílmica, documental, por parte de alguns patrícios (franceses) de Armand Mont-Rond na procura das razões que o fizeram auto-exilar-se naquele recanto vulcânico, a ilha do Fogo e de como aí viveu até morrer nos inícios de 1900.
Até aqui, tudo bem, tudo louvável. Mas eis quando um deles, creio que um realizador francês, no afã de procurar a todo o custo, sem olhar a meios, de testemunhos e de vestígios para que documentasse o seu trabalho, importunou (é o termo que melhor define a situação) o meu sobrinho, a minha cunhada e até a minha irmã mais nova, com actos autenticamente persecutórios, rudes e incorrectos, porque queria ver a todo o custo, o anel e opinava ele em rocambolescos episódios, que o objecto (note-se, comprado pelo meu pai numa ourivesaria em Portugal!) devia ser pertença de todos os descendentes de Armand Mont-Rond. Imagine-se! Este realizador ou documentarista francês, fazia-se acompanhar de alguns descendentes Montrond, (que presumo, nada sabiam sobre a origem do anel), quando batia à porta do meu sobrinho para o intimidar a mostrar-lhe o anel. O que não terá passado o meu querido sobrinho, imensamente bem-educado, ao sofrer a perseguição com alguma configuração de descompensada e sobejamente injusta, dessa espécie de “caçador” de memórias…
Se calhar mais outro mito ou alguma fantasia já se havia criado à volta do anel, como quase tudo o que ficou na memória da descendência de Armand Mont-Rond… Quem sabe?!

Cabo Verde a regredir na Língua Portuguesa!?...Ou Carta "semi-aberta" às autoridades e aos professores cabo-verdianos

domingo, 9 de março de 2014
A acontecer, tratar-se-á na verdade, de um autêntico desastre linguístico, académico e científico! Infelizmente das vozes ouvidas e das notícias colhidas e do que se está a presenciar aqui nestas ilhas com a nossa língua portuguesa, património que nos é caro e historicamente a língua falada e escrita a mais antiga entre nós; levam-nos à confirmação deste triste e preocupante facto, tanto nas escolas como nas instituições universitárias. Em jeito introdutório, uma breve explicação. Eu já me encontro numa fase da vida e numa faixa etária em que são os netos e os sobrinhos netos, por consanguinidade e por amizade, é que são hoje os estudantes do ensino básico e do ensino secundário que me são mais próximos. Com alguma frequência, nos convívios familiares e com amigos mais íntimos, pergunto-lhes (aos mais novos, aos da terceira geração) naturalmente pelos estudos, com algum pormenor sobre as matérias dadas e, até sobre a língua veicular. E o que deles escuto causam-me verdadeiros arrepios! Faço-me entender: é que ao invés de serem os professores a classificarem os aprendentes, agora são os alunos, a fazer isso! Imagine-se! À minha pergunta se os professores se expressam com eles nas aulas, em português, a resposta mais frequente foi a que se segue e que contempla o que quase todos afirmaram: “Alguns deles (professores) fazem esforço para se expressarem em português… Outros cometem erros básicos tanto na fala como na escrita no quadro da matéria que estão a dar”… (SIC) Nunca pensei possível ouvir aqui, tal avaliação da boca de um aluno, referindo-se ao professor! A que ponto chegamos! Embora já céptica, quero conservar alguma réstia de esperança de que a língua portuguesa volte a retomar o seu devido lugar no ensino, na escola e nas instituições universitárias destas ilhas. Nunca será demais afirmar que a Língua portuguesa devia ser preservada e expandida com afinco e com afecto entre os falantes cabo-verdianos. A Língua portuguesa devia ser oralmente ensinada em todos os jardins-de-infância e escolinhas deste país. Isto é, desde a mais tenra idade, com todas as vantagens disso advenientes. A Língua portuguesa devia ser acolhida com familiaridade, coloquialidade, formalidade e respeito no meio escolar, pois que se trata de um veículo de comunicação que põe o aluno/aprendente em contacto com os livros, com o saber científico e tecnológico do mais alto nível. Nas redes sociais, tão procurada pelos jovens, o português é a 3ª língua mais difundida e a 5ª mais falada na internet. Tudo isso ajuda o estudante cabo-verdiano a ter orgulho, a criar apetência e desejo de aprender mais e melhor o português, de o expressar com mais à-vontade, quer sob forma escrita, quer sob forma oral. No meu entender, está-se a delapidar, a destruir em Cabo Verde, um dos patrimónios – a Língua portuguesa – mais ricos que o país possui. Aliás, historicamente o mais importante, e que contribuiu eficazmente para desenvolvimento económico, social e cultural, primeiro do Arquipélago, e mais tarde, do país. A comunidade cabo-verdiana no geral, corre sérios riscos de regredir civilizacionalmente, no seu desenvolvimento tecnológico e cultural, para não acrescentar que tal se verificará em todos os níveis, se empobrecermos o nosso acervo linguístico de comunicação de que a língua portuguesa é parte integrante e muito importante. Não querendo ser negativa, fico com a impressão que há da parte dos adultos, responsáveis professores, e altas autoridades na matéria, aquilo que vou chamar, à falta de melhor termo ou conceito definidor, uma espécie de egoísmo, incúria, à mistura com algum complexo de superioridade em relação ao aluno. Nesta triste equação, aquele (o que já sabe o português) não ensina a este (o aluno) a segunda língua, com dedicação, empenho e afeição, em resumo, como devia ser, para que o seu aprendente não atinja o patamar sócio profissional futuro, o mesmo ou melhor do que o adulto em causa se encontra. Noutras palavras, como se dissesse: “Eu (professor) sei falar e escrever em português.Mas tu (aluno) não o saberás! E assim não ultrapassarás determinado nível de saber” Será?!... Custa a acreditar! Sim, no estado a que chegou a Língua Portuguesa entre nós, a explicação para o facto, terá de roçar também – e perdoem-me isto, pois não consigo ser “elevada” a este respeito… – o mais absurdo e baixo nível! Como entender ou, tentar explicá-lo de um modo lógico? Não me venham com a já estafada justificação do crioulo que disso não tem culpa, a não ser no facto de os professores o quererem agora substituir ao português, o que é manifestamente redutor. Para além do mais, tal substituição não faz sentido algum! O falante cabo-verdiano, há séculos que usa o crioulo. Mas há séculos que usa igualmente o português na sua fala, na sua escrita (quando escolarizado) e sobretudo, em aprendizagem escolar.É disto que estamos a falar. A grande diferença em termos da geração actual, é que o português rareia cada vez mais entre nós e os estudantes universitários cabo-verdianos, situam-se entre os piores da CPLP, quer nas universidades portuguesas, quer nas universidades brasileiras. Infelizmente esta é a crua realidade! Não vale a pena ignorá-la e muito menos fazer de conta que não é assim! Segundo informações recentemente obtidas, embora carecendo de confirmação, parece que algumas universidades brasileiras estão a resolver o problema para os universitários cabo-verdianos, ministrando-lhes os tais cursos para o “terceiro mundo” leia-se: de nível inferior. Diga-se em abono da verdade, que a ser real, tal nunca havia antes acontecido! Afinal! Será isto que Cabo Verde pretende dos seus profissionais no futuro? Ou seja, técnicos, médicos, engenheiros, arquitectos, economistas, professores universitários, entre outros, mal preparados, insuficientemente apetrechados porque não entenderem os conceitos nos manuais de estudo, não perceberam os seus professores nas aulas e, finalmente, não apreenderam correctamente as ferramentas do seu ofício? Será isto o panorama profissional que passaremos a ter? Por favor, não menosprezemos e nem façamos “ouvidos de mercador” a este assunto de importância transcendente! Se assim procedermos, estamos a comprometer seriamente o presente e o futuro deste país!