Para celebrar: "Hoje é dia de festa!// Cantam as nossas almas!
As questões que se seguem foram-me perguntadas pela Jornalista Gisela Coelho do Jornal «A Nação – Público». Transcrevo-as também para o meu “Blog,”para assinalar a data comemorativa dos 800 anos da nossa Língua.
- Historicamente registada que foi a 27 de Junho de 1214, data em que o rei D. Afonso II, escreveu o seu testamento em Língua portuguesa. Desta forma, consagrou-se como o texto oficial, mais antigo, escrito em português. -
1 – Na sua opinião qual o futuro da língua portuguesa no mundo?
1.A Língua portuguesa é uma das línguas vivas que vem conhecendo uma expansão notável no mundo. Entre as 20 Línguas mais faladas no mundo, ocupa o 4º lugar. É a Língua mais falada no Hemisfério Sul.
Basta pensar que países como a China, a Índia e o Japão têm revelado um crescente interesse pelo ensino da Língua portuguesa nos respectivos países. De tal forma que o Japão pediu estatuto de Observador, junto da CPLP.
O interesse desses países reside no facto de a Língua portuguesa ter aumentado o seu valor como língua de negócios. Os dados que eu aqui referencio, são dados do Observatório da Língua.
A Língua portuguesa é hoje Língua materna de mais de 80% de Angolanos com menos de 50 anos de idade. E a percentagem sobe, quando se trata de população dos centros urbanos daquele país. Em S. Tomé e Príncipe, e à escala do país, o fenómeno linguístico é idêntico, ao de Angola.
Em Moçambique, a língua portuguesa vem atingindo níveis de expansão assinaláveis. Daí que se possa perceber a importância que os responsáveis dos países citados, atribuem à expansão e ao apossamento da língua portuguesa como língua de desenvolvimento por parte do seu cidadão, e como parte incontornável da sua história cultural.
Por tudo isto, auguro-lhe um futuro brilhante, de plena globalização e de mundialização.
2 - E em Cabo Verde, na sua opinião, a língua portuguesa tem sido "bem tratada"?
2. Como falante e amante da nossa bela língua, acho que não. Mas isto parece que é infelizmente, geral. O que está a acontecer e o que está em “deficit” é a falta de oralidade da língua portuguesa em Cabo Verde. Os falantes lusófonos que cá chegam estranham muito este fenómeno. Outrossim, a língua oficial e segunda, em termos de oralidade, não está a ser respeitada entre nós….
3 - Acha que a língua portuguesa esta "bem viva " em Cabo Verde ou tenderá a desaparecer?
3. Abrenúncio! Uma língua que é hoje falada por mais de 250 milhões de pessoas, em plena expansão, desaparecer entre nós? É o começo da minha resposta à sua pergunta!
A primeira, que as rochas e os areais destas ilhas ouviram! Uma língua vetusta, mas sempre renovada e enriquecida!...
Seria também como se amputássemos parte da nossa identidade, da nossa cultura, do nosso saber, da nossa produção literária, jornalística e técnica, e igualmente a parte mais significativa do progresso e do desenvolvimento conseguido por Cabo Verde. Se tal acontecer, na minha opinião, estar-se-ia a penhorar e sem recuperação o próprio país.
Defendo que a Língua portuguesa tem que estar bem viva e bem cuidada em Cabo Verde! A língua portuguesa é nosso património há mais de 500 anos! É a testemunha linguística principal de quase todo o acervo e do registo documental escrito, da História de Cabo Verde.
4 - Na sua opinião o que tem dificultado a má aprendizagem do português nas escolas de Cabo Verde?
4. Tal como a entendo, o que tem dificultado tudo isto, é a falta de assunção (fenómeno relativamente recente) da Língua portuguesa como nossa língua também; falta de afecto e de interiorização normal como acontecia naturalmente, até a um passado bem recente, mas que na actualidade, e de há poucos anos a esta parte, tem vindo a acentuar-se este fenómeno de “estranheza” com a Língua portuguesa, entre os nacionais. Creio ser fruto de uma orientação – má e intencional – das políticas linguísticas que estão a suceder no País. Creio, que um dos resultados que já é visível infelizmente, é o pouco à-vontade com que se expressa em Língua portuguesa, o falante cabo-verdiano escolarizado. E isto, vai no futuro, criar um fosso social e intelectual (em termos de raciocínio lógico/dedutivo) entre os alunos cabo-verdianos que já levam para a escola (de casa ou, mesmo do Jardim de Infância) a nossa Língua segunda e oficial e aqueles a quem a escola primária e secundária não presta a atenção devida ao ensino do português e a maltratam sem que ninguém, com isso, se escandalize!
Para além do mais, é a Língua portuguesa, a língua de união que nos permite comunicar com os países da CPLP – veja-se a já significativa comunidade cabo-verdiana emigrada actualmente em Angola, para não falar da comunidade que foi e continua a ser numerosa, imigrante em Portugal e que recebe diariamente novos elementos que daqui vão em busca de trabalho.
Tudo isso e de há muitos anos a esta parte, já devia merecer, o maior cuidado e interesse em todo o o sistema de ensino da língua portuguesa aqui em Cabo Verde. A língua portuguesa é o veículo linguístico fundamental de todo o percurso escolar do aluno cabo-verdiano.
Bem não estou a inovar, isto é expresso, com força de legal e institucional, na Lei de Bases do Sistema de Ensino de Cabo Verde, fundada e elaborada em 1989, e aprovada em parlamento plural, no ano de 1991.
Aliás, tal como outros estudiosos e interessados pelas questões que se põem às nossas línguas, já o afirmaram, no respeitante à portuguesa, e entre nós, o seu ensino, sobretudo a sua oralidade, deviam começar nos Jardins-de-Infância. Ou seja, a criança cabo-verdiana que a não teve ou tem em casa, devia ouvi-la desde muito cedo, dada a enorme capacidade de aprender línguas que a criança possui. E isso seria uma vantagem, uma mais valia que a criança, depois aprendente, levaria para a escola e para a sua formação pós-secundária no País.
Logo, a sua expansão entre nós, sobretudo a sua oralidade, é de todo desejável pois que, só nos enriqueceria ao tornarmo-nos bilingues de facto.
5 - Considera que o projecto de Ensino Bilingue nas escolas do EBI poderá servir para facilitar uma melhor aprendizagem do Português ou não? Porquê?
5 – Como não estou a par do projecto, não sei se responderei a esta questão de forma correcta. Por isso, não sei se é esse o propósito do projecto, refiro-me à questão colocada: - poderá servir para facilitar uma melhor aprendizagem do Português?
Depende e muito da formação do professor, dos professores que têm ou, terão a seu cargo ministrar as duas línguas. Para começar os docentes (espero e faço votos que sem formações aceleradas, leia-se: apressadas) deviam ter perfis diferenciados, o de português há-de ser, ou deve ser, um docente que a domina e a fala sem acanhamento (a língua portuguesa). O ensino actual das línguas vivas, com é o caso da língua portuguesa entre nós, comporta e funde diferentes metodologias do ensino de línguas (materna, segunda e estrangeira). Pode ser que sim, que resulte, e pode ser que não, que não resulte… Tal como já disse depende de muitos factores inerentes à didáctica das línguas vivas e reitero, não conheço o projecto com profundidade suficiente para aferir eventuais resultados.
Gabriel Mariano entre a Lírica e a composição musical
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Como se escrevia antigamente, nas cartas familiares: “escrevo estas mal traçadas linhas” escutando romanticamente (Isto não passa. Nem com a idade! Incorrigível!) a morna “Mudjer Bonita,” cuja letra é de Gabriel Mariano e a música de Jacinto Estrela. Belíssima, nostálgica e magistralmente interpretada pelo piano de Chico Serra, pianista de mãos cheias que felizmente estas ilhas acarinham. Já agora, vale também dizer – o seu a seu dono! - que estou a ouvir a melodia através do blogue «Praia de Bote» de Joaquim Saial e que li o comentário de Zito Azevedo, outro internauta afamado e aclamado do «Arrozcatum» que julgava que era a morna homónima de Eugénio Tavares. Mas desfez logo aquilo que não chegou a ser uma pequena confusão, causada pela homonímia do título de ambas as composições.
Já agora, e como boa crioula que sou, vou entrar na “riola,” (ah! Nada como uma boa riola! Ah! Ah! Ah!) ratificando que a outra morna do mesmo nome (Mudjer bonita, pa el dabo gosto, pa el dabo cu bo amor…) a autoria é mesmo de Eugénio Tavares. A letra vem inserta nas suas «Mornas – cantigas Crioulas»
No entanto, eu própria, e durante algum tempo, julguei que a autoria dela fosse do Sr. Djoloca Feijó, talvez levada pelo facto do filho, o meu amigo Van (João Maria Feijó) a cantar tão bem nos nossos convívios, “in ille tempore.” …
Perdoem-me este pequeno intróito, que foi uma forma de dar corpo ao meu propósito, ao meu intento, em escrever hoje sobre alguma poesia lírica de Gabriel Mariano.
Aproveito para transcrever a letra de “Mudjer bonita” do poeta em análise e a música como aqui referida é de Jacinto Estrela. Não sem antes agradecer à minha amiga Dulce Ferreira Lima que ma enviou e a conseguiu da São Rocheteau, a quem também estendo os agradecimentos. De facto, esta morna «Mudjer Bonita», é mais executada e conhecida sob forma instrumental do que cantada. Daí não me ter sido fácil a busca da letra
Nhor Deus screbê, nhor Deus dixâ
Nô tem qui cre pa nô bai céu
nha fé sagrado é um só na mundo,
é fé de Amor, fé de cretcheu.
Coro
Bejal na odjo,
Bejal na pêto, bis
bejal na boca
má co respeto.
II
Mudjer bonita é que é mudjer
mudjer bonita é qui ta credo
si bô atchal na bô caminho
pertal co força, pertal sem medo.
Coro
Mudjer bonita é ca dês mundo
é bem di céu, el é sagrado
si Deus dábo el pol num altar
pamode é scada qui ta ba céu.
IV
Mi nha cretcheu é más bonito
qui tudo santo qui tem na altar
odjo gaiato, riso sereno
ca tem na terra, ca tem na mar
G. Mariano, o meu poeta revisitado, dividiu-se entre a lírica escrita e a cantada, embora o peso da escrita tivesse sido muito maior.
Ora bem, para além da morna citada, Gabriel Mariano escreveu o poema e quase hino: “Sina de Cabo Verde” para a morna homónima, também em parceria musical com Jacinto Estrela. Este igualmente, grande compositor e senhor de melodias lindíssimas e de letras, que fixaram em alguma mornas, para sempre, e como ninguém, as majestosas montanhas e o mar bravio da ilha da Santo Antão.
Trago igualmente à colação, um artigo do ensaísta Luiz Silva em «Latitudes» nº.16 de Dezembro de 2012, intitulado: «A Homenagem a Gabriel Mariano». Nele recorda o articulista, a rica diversidade da produção deste autor, particularizando a produção de muitas peças teatrais, e destaca uma: “Os Clandestinos no Céu,” ao tempo (meados dos anos 50 do século passado) representado com êxito, no Grémio Recreativo Castilho em Mindelo, ilha de S. Vicente.
Nestas actividades culturais juvenis, ele esteve sempre muito ligado a Jorge Pedro Barbosa, outro poeta, já aqui recentemente visitado. Colegas liceais e co-fundadores também do jornal liceal: “Restauração”. Para além de terem sido parceiros, co-guionistas e escritores de peças de teatro, foram também organizadores de saraus, de récitas, que naquele tempo, e no então prestigiado Liceu de Gil Eanes, não faltavam.
E neste (re) buscar Gabriel Mariano, gostaria de me deter um pouco, num outro registo poético que ele nos legou, a poesia lírica.
Não vá sem dizer, que todos ou, quase todos que o lemos e o apreciamos, conhecemos bem melhor se calhar, o lado poético extremamente interventivo, a sua verve e o seu verbo protestativos e, fundamentalmente libertários, bem adequados a uma determinada época e a um contexto histórico. G. Mariano é célebre pelo seu “Capitão Ambrósio” pela seu “ Caminho Longe -Ladeira de São Tomé” pelos “12 Poemas de Circunstância”, entre outros, e muitos mais e que o distinguiram e o distinguem como um autor incontornável na poética cabo-verdiana, do século XX.
Vamos primeiro, à apresentação biográfica do poeta. José Gabriel Lopes da Silva Mariano, cuja ilha natal é S. Nicolau, onde nasceu na Vila Ribeira Brava, em 1928 e ilha também da sua infância. Os progenitores, ambos sãonicolauenses. A mãe, Maria Lopes da Silva Mariano, o pai, João de Deus Lopes Mariano, estudou no Seminário de S. Nicolau e lá foi funcionário público. Era também poeta e conhecido colaborador do Almanaque de Lembranças (1854-1932).
Gabriel Mariano viveu alguns anos na Praia. Fez os estudos secundários (os exames finais) na cidade do Mindelo. Vivia com os pais e irmãos, na cidade da Praia, na ilha de Santiago, onde, com explicadores, preparava os exames. Mais velho dos irmãos, e porque estes iam começar o Liceu, o progenitor, decidiu mudar-se com a família para Mindelo, onde G. Mariano terminou o Liceu. Os estudos universitários fê-los na Faculdade de Direito de Universidade de Lisboa. Jurista de profissão – foi Conservador dos Registos e Juiz, em Portugal, Angola, S. Tomé e Príncipe, Moçambique e Cabo Verde. Opositor do regime salazarista e pró-indenpendendista de Cabo Verde – Regressou a Portugal após 1974, e durante o conturbado período da independência das ilhas. Aí trabalhou como Juiz – Desembargador, vindo a falecer em 2002.
Descendente de um meio familiar privilegiado em que a boa leitura e a cultura eram quase domésticos e familiares como ele próprio no-lo diz através da interessante entrevista que deu a Michel Laban no Vol. I – «Cabo Verde Encontro com Escritores». Eis as palavras esclarecedoras de Gabriel Mariano: “A ilha de S. Nicolau, onde eu nasci, foi uma ilha muito rica do ponto de vista cultural, porque foi a ilha onde surgiu o primeiro instituto de ensino, digamos superior – que foi o Seminário de Cabo Verde, onde estudou o meu pai” (…) No meu caso específico, individual, eu nasci de uma família que pertencia àquilo que vocês aqui na Europa, chamam a média ou a alta burguesia.(…) Do lado materno, os Lopes da Silva que constituíam uma das grandes famílias da ilha de S. Nicolau (…) Os meus avós já eram indivíduos dados às letras, às artes, com curiosidade intelectual. (…) Esse ambiente familiar de muita cultura, contaminou-me desde criança (…)”.
Autor de vasta obra em que sobressaem contos, poemas, estudos e ensaios sobre a cultura e a identidade cabo-verdiana. Nota-se que nestas duas últimas modalidades, os estudos e ensaios, o autor explicita muito claramente o apreço pelo valor acrescentado, que ele confirma ter acontecido no processo da mestiçagem cabo-verdiana, o que ele ninudencia de forma exemplar por ter contribuído (causa/efeito) para que cedo o cabo-verdiano, o crioulo, ou o mulato, no dizer do autor, fosse senhor das suas ilhas e se apossasse intimamente da sua identidade e da sua cultura. Daí que, sem qualquer hesitação, e como ponto de chegada das suas muitas análises, Gabriel Mariano tenha chegado à seguinte conclusão, transmitida ao investigados francês Michel Laban na obra, já aqui citada e que vale a pena ler ou reler, para se entender de vez, que a questão identitária que se punha aos intelectuais do continente africano não se assemelhava à nossa, ou melhor, não se coloca aos nossos grandes intelectuais, como alguns pretenderam forjar a questão aqui nas ilhas.
Ora oiçamos (lendo a tese) Gabriel Mariano: “ (…) a começar nos intelectuais africanos de língua francesa; no Senghor, no Césaire, penso nos das colónias portuguesas, no Agostinho Neto, No Mário de Andrade, penso no Mondlane, etc. Porque esses grandes patriotas eram indivíduos, tal como o Senghor e o Césaire, um tanto desfasados das suas raízes africanas – O Césaire, não tanto por ser da Martinica, onde já havia e há, um substrato cultural forte e diferenciado da cultura francesa. (…) Mas o Senghor, o Damas, tal como o Agostinho Neto, eram indivíduos que, sendo africanos, pertencendo, vindo de determinadas comunidade, eram depois, pela força do próprio colonialismo, separados dessa comunidade cultural, porque nem sequer sabiam a língua, nem sequer a falavam… Não sabiam, não compreendiam, não escreviam a língua deles. Havia um fosso cultural entre esses intelectuais todos que eu citei e as respectivas comunidades. O que não acontecia em Cabo Verde onde falamos o crioulo do berço à cova… Não é por acaso que surge com o movimento da negritude, a temática do regresso às origens (…) Eles, efectivamente, digamos um poeta como o Neto ou como o Senghor que sendo afro-negros em todo o sentido da palavra – quer do ponto de vista étnico, quer do ponto de vista sociológico – todavia, a partir de certa altura, cortaram-lhes o cordão umbilical e passaram a ser ou «franceses» ou «portugueses». E então, quando eles se aperceberam disso, puseram-se a si próprios o problema do regresso às origens. Ora em Cabo Verde isso não aconteceu. As nossas raízes sempre estiveram em nós” Fim de transcrição e o negrito é meu.
Como forma de exemplificar parte dos ensaios, de Gabriel Mariano, mencionaria: «Cultura Cabo-verdiana», com um notável prefácio do Prof. Alberto Carvalho e edição da Vega, 1991, uma colectânea que reuniu alguns dos mais importantes estudos de Gabriel Mariano. A propósito, afirma Alberto Carvalho: “ (…) Com esta formulação do problema da aculturação humana no mundo crioulo, G. Mariano desdramatiza todos os processos relativos à colonização das suas ilhas (…)” Fim de transcrição.
A sua célebre e bem conseguida análise, «Amor e Partida na poesia crioula de Eugénio Tavares ou Inquietação Amorosa» escrito em 1951, ainda estudante do Liceu, cedo o catapultou como um dos mais profundos estudiosos das coisas e das gentes da terra que o tempo e a sabedoria acrescentariam e confirmariam em muitos estudos posteriores que este autor nos legaria.
Para além de autor, Gabriel Mariano foi um activista cultural de grande dimensão nestas ilhas. Fundou em 1958, com Carlos Alberto Monteiro Leite, o “Suplemento Cultural,” separata do «Boletim Cabo Verde» e que viria a constituir-se em marco inovador na poesia cabo-verdiana. Conferencista, palestrante em vários eventos na Praia e em Mindelo, na defesa da cultura e da cabo-verdiana que à época, e no contexto de Cabo Verde de então, (anos 50 e 60 do séc. XX) a defesa desses valores se justificavam amplamente.
Mas hoje, queria recordar aqui, volto a repetir, os seus versos líricos e ricos. Tão simples como isto. Começaria pelo poema /dramatizado, intitulado: “De quem são os teus Olhos?”
- Tu já não gostas dos meus beijos como dantes!...Ou gostas?
- Queres dizer que assim é que se passa contigo…
Tu tens uma maneira muito especial de responder…
- É que quando digo uma coisa ponho o caso em mim primeiro
- Mas não foi isso que te perguntei!
- Então o que foi?
- Já te disse…
- Diz outra vez…
- Ainda gostas dos meus beijos como dantes?
- Porque é que perguntas?
- Responde.
- Eu sim. E tu?
- È o que devias ter dito há muito tempo.
- E tu?
- Eu também?
- Não, tu não.
- Eu não porquê?
- Tu não. Eu sei…
- Com é que tu sabes?
Eu sei…vejo na tua cara…às vezes sim, outras não.
- E hoje?
- Hoje não…
- Porquê?
- Tens o olhar vago…
- Olhar fraco?
- Olhar vago!
- Tu disseste olhar fraco…eu não estou doente.
- Eu disse olhar vago…tu estás longe…
- Longe?
- Tu não estás aqui…
- Como é que tu sabes?
- Vejo na tua cara…tens o olhar vago…
- É que tenho as pálpebras muito pesadas. Palavra de honra.
- Tu estás sempre pronto a dar palavra de honra…
- Se o que eu digo é verdade.
- Há dias deste palavra e no entanto passaste-me um pau…
- Passei-te um pau?
- Sim senhor…Tu disseste-me que tinhas ido direitinho para casa e não fostes…
- Foi má companhia que apareceu no caminho…
- Má companhia não! Foste porque quiseste…
- Os amigos só servem para desencaminhar as pessoas…
- Para desencaminhar não. Tu foste porque quiseste…
- Os amigos só servem para desencaminhar as pessoas…
Para desencaminhar não. Tu foste porque quiseste…
- Já te disse que não.
- Então porque é que foste?
- Fui por causa deles!
- Ah, eles é que te obrigaram…Tu não
querias ir, pegaram-te nos pés e nas mãos e
levaram…te à força…Vai enganar outra. Tu foste porque quiseste.
-Já te disse que não e eu não sou mentiroso…
- Não te chamei mentiroso…
- Estou farto de dizer que não gosto que me chamem mentiroso.
- Eu não disse que tu és mentiroso…
- É a mesma coisa.
- Se tu achas que é a mesma coisa é porque então és mentiroso.
- Se sou mentiroso tu também és mentirosa…Porque é que há dias me disseste que saías às 7 e saíste às 5?
- Eu?
- Tu, sim.
- Já te expliquei…
- Não me lembro…
- Não te disse que saía às cinco porque não era certo.
- Mas saíste às cinco…
- Saí às cinco.
- Então porque é que não me disseste na véspera?...
- Tu és burro!
- Não sou burro nada! Tu é que és cínica! Porque é que não me disseste na véspera: “Olha, eu amanhã não sei se saio às cinco ou às sete”…?
- Não te disse porque tinha umas compras a fazer e eu sei que não gostas de compras…
- Quer dizer, a minha presença incomodava-te… Eu estorvava-te… Quer dizer, tu tens interesse em andar sozinha…
- Eu não disse isto…
É a mesma coisa. Doido é quem tem confiança em ti.
- Se não tens confiança, arranja outra…
- Não é preciso dizeres.
- Acaba o namoro e arranja outra.
- Eu arranjo. Mulheres é o que mais há na terra.
- Tu és convencido…
- Eu?
- Pensas que todas gostam de ti…
- Então eu sou bonito…
- Então porque é que arranjaste namoro comigo? Se eu não fosse bonito tu não arranjavas…
- Tu és leviano…Pensas que toda a gente é como tu?
− Tu não és como eu?
− Não!
− Então és vaidosa.
− Vaidoso és tu.
− Tu és vaidosa porque pensas que és bonita.
− Eu ou tu?
− Eu tinha dito que gostaste de mim porque eu sou bonito. Tu disseste que não és como eu, quer dizer, não és como eu que só gosto de gente bonita. Portanto tu estás convencida que és bonita…
− Queres dizer que gostas de mim?
− Eu não disse isto…
− Tu és leviano!
− Tu é que és leviana!
− Se eu sou leviana arranja outra que não seja leviana.
− Eu arranjo, não é preciso que ninguém mo diga…
− Acaba o namoro e arranja outra…
− Eu arranjo. Mulheres é o que há mais na terra.
− Estás a ver?
− Estou a ver o quê?
− Tu não disseste que arranjas outra?
− E tu, não disseste para eu acabar o namoro?
− Eu disse mas tu não devias dizer…
− Então o que é eu devia fazer?
− Tu ficavas calado!
− Ah, eu ficava calado?!... E tu porque é que disseste? Tu é que começaste!
− Eu disse porque me irritaste…
− E agora? Ainda estás irritada?
− Estou!
− Não é preciso armar esta cara… Eu não te fiz nada…
− Tu pensas que o meu ouvido é chiqueiro para ouvir tudo quiseres e ficar com a mesma cara?
− Estás a chamar-me porco?
− Eu não te chamei porco.
− Tu disseste se eu penso que teu ouvido é chiqueiro para as minhas palavras!... Se teu ouvido não é chiqueiro para as minhas palavras, são palavras de porco. Tu não me conheceste a comer farelo!
− Eu disse porque estava irritada.
− Uma pessoa quando está irritada deve tomar cuidado com o que sai da boca.
− Culpado és tu…
− E agora?
− Agora, o quê?
− Ainda estás zangada?
− Não sei…
− Se não sabes, então estás zangada.
− Eu não disse que estou zangada…
− Se não disseste, então não estás…
− Não estou para afligir o meu espírito com as tuas coisas…
− Eu não disse?
− Não disseste o quê?
− Que já não estavas zangada…
− Não estou porque não quero…
− Vejo na tua cara…
− Se tu achas não estou zangada…
− Se não estás zangada diz-me uma coisa: de quem são os teus olhos?
− São da leviana. Não disseste que sou leviana?
− Estás a ver que ainda estás zangada? De quem são os teus olhos?
− Meus!
− Só?
− E quem quiser!
− Estás a ver que ainda estás zangada?!
− Não estou, não!
− Tu estás sim!
− Pergunta outra vez…
− Pergunta o quê?
− Pergunta outra vez…
− De quem são os teus olhos?
− São teus.
Diálogo de um lirismo escorreito e repassado de fino humor. Um duo de vozes. Um par masculino/feminino, numa conversa amorosa, de tom coloquial e sem perder o toque terno de diálogo íntimo entre jovens e enamorados. Este texto poético/dramático tem sido bem aproveitado para o teatro. Recordo nomeadamente, a representação levada à cena pelo grupo teatral MindelAct.
E continuaria a lírica de G. Mariano, com o poema que se segue “Vela do Exílio” versos inspirados e vazados num tempo e num momento que foram particularmente dolorosos para o poeta.
Vela do Exílio
Acendi hoje uma vela
De estearina na fina
Mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
De chama para os meus olhos
Velhas lembranças seguiam.
E subido sobre a parede
Da velha casa onde moro
O mapa árido e breve das ilhas do Caboverde.
Que vento não vem ou se agita
No barco
Em forma de vela
Por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran
Da ilha difunde
Meu nome em projecto?
Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
Por sobre a mesa pessoas
Vivas e mortas passavam.
Vela do exílio acendida
Na noite de Moçambique:
Pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
Com apenas um sopro apagas
A vela, o exílio não.
Moçambique, 1965.
O poeta, expressa nestes versos a tormenta do exílio, o desespero pela injustiça sobre ele cometida e o aguilhão da saudade. Aqui se juntam para lhe trazer à lembrança a “voz materna” que se confunde com a ilha que tão longe ficou. Uma quase ode, repassada de nostalgia e de assomos de revolta, que o labor poético transfigurou em metáforas sofredoras.
Distinguido com vários prémios pelos seus trabalhos literários, entre os quais se destacam: o 1º Prémio, modalidade, conto do «Boletim Cabo Verde» em 1950. 1º Prémio do conto nos Jogos Florais da Universidade de Lisboa, em 1957; e nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra, em 1958. Prémio Literatura Africana, (Portugal) 1976 pelo livro de contos «Vida e Morte de João Cabafume». Prémio Vale Flor (Portugal) em 1996. Distinguido com a Ordem do Vulcão (Cabo Verde) em 1999, entre outras distinções e homenagens, que o poeta, o contista e o ensaísta recebeu merecidamente.
Gabriel Mariano é um dos poetas, cujos textos e entre nós, são muito lidos, declamados/ditos e apreciados.
Da minha parte, gostaria de continuar a falar sobre este incontornável poeta da lírica e da poesia de intervenção social e política do séc. XX destas ilhas, mas o texto já vai longo e convinha finalizá-lo se não, corro o risco de o leitor não o ler até ao fim. Embora este escrito constitua apenas uma modestíssima revisitação. A verdade é que o poeta e o ensaísta que é Gabriel Mariano merece ser lido, apreciado e estudado.
Jorge Pedro Barbosa e a alegria em poesia
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Jorge Pedro Pereira Barbosa que assina os seus poemas como: Jorge Pedro Barbosa nasceu na ilha do Sal, Cabo Verde, em 1933. Os estudos secundários fê-los no Liceu de Gil Eanes, na cidade do Mindelo. Trabalhou nas ilhas de S. Vicente, Santiago e Fogo. Mais tarde fixou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou na companhia aérea brasileira a Varig. Hoje aposentado, vive em Nova Iorque.
De recordar que Jorge Pedro entrou bem cedo para o mundo da poesia. Estreou-se na publicação dos seus poemas, aos 17 anos de idade, em 1950, com o poema, “Homo – Deus”:
O Mundo é vosso,
Porque é vosso também
O chilrear das aves
E o perfume das flores,
O murmúrio dos arvoredos
E das águas nascentes…
O Mundo é vosso,
Porque a terra que pisastes
Floresceu.
E agora
Tudo o que vos rodeia
Sorri…
Canta…
Vive…
O Mundo é vosso,
Porque podeis levantá-lo com uma só mão
E com a outra vos livrardes dos obstáculos
Oferecidos pelo caminho
Que conduz ao vosso Destino.
O Mundo é vosso,
Porque vencestes a veloz corrida
Da vida,
Porque os outros ouviram os vossos clamores
Que os ecos das montanhas
Repetiram…
In: «B. Cabo Verde» nº. 14, 1950.
Creio poder aventar sem muita margem de erro, que antes disso, Jorge Pedro havia já feito – mera conjectura minha embora plausível – alguns poemas publicados no (s) jornal (is) do Liceu de Gil Eanes e/ou também lidos em saraus e sessões de poesia, do mesmo liceu, o que era relativamente frequente nessa altura e de que ele seria um activo participante.
Portanto, Jorge Pedro Barbosa, para além de ter convivido precocemente com a “poesis” em casa, estudou-a na escola, de forma activa, criativa e transformadora, mas criou-a também e muito cedo, pelo dom “da” e “à” poesia.
Possivelmente, ou por causa disso, por ser filho de um dos maiores poetas destas ilhas – já reconhecido e aclamado à época – Jorge Barbosa, e que coevamente com ele publicou, o então jovem poeta, Jorge Pedro, terá permanecido numa relativa “sombra”, dada a enorme e merecida projecção de que gozava o progenitor.
No entanto, e a propósito, gostaria de trazer nesta oportunidade, as palavras do próprio Jorge Barbosa, quando numa entrevista concedida a Maria Helena Spencer, no número 57 do «Boletim Cabo Verde» esta lhe havia posto a seguinte pergunta que transcrevo: “- Tem um filho poeta também: Jorge Pedro. Como explica o caso poético do seu filho? Hereditariedade? Terá você exercido alguma influência na poesia dele?”
Ao que o grande poeta sénior, com a enorme modéstia que o caracterizava, apanágio aliás, de mentes sábias, respondeu: “- Não sei explicar e seria difícil explicar o caso poético do meu filho. Há coisas que acontecem mesmo sem hereditariedade, mesmo sem atavismo. Quanto à influência, creio ter exercido alguma, nele e em outros poetas novos de Cabo Verde (…) Influência entretanto perigosa porque a minha poesia com a sua embora novidade aliciadora por falta de certas virtudes poéticas, não chegou a ser nem uma obra, nem um marco itinerário. Talvez fosse um que anúncio de transição na poesia cabo-verdiana (mas há poesia cabo-verdiana?), um como que prefácio da nossa verdadeira e ainda inédita poesia, que eu apenas antevi um pouco e que é preciso escrever quanto antes, já que ela existe em potência na trágica vida das ilhas e na alma sofredora e estóica do povo mais cantador do mundo.” (Fim de transcrição) Jorge Barbosa, in: «Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação», nº 57, 1954.
Voltando ao filho poeta, (re) visitado por nós, vamos trazer ao leitor menos familiarizado com poemas de Jorge Pedro Barbosa, alguns deles, (transcrevendo-os aqui). Possivelmente os mais emblemáticos da arte deste autor, que versejou com muito à-vontade nas duas línguas a “paterna e a materna” do seu ser cultural e estruturante cabo-verdiano, isto é, tanto em língua portuguesa, como em crioulo.
De um lado, tem o leitor, poemas de alguma intervenção social e protestativa na esperança de um “futuro melhor que há-de chegar”; e num outro registo, os poemas de cariz humorístico, em que entre a ironia, a jocosidade e a crítica satírica; o poeta “brinca” com algumas personagens por ele (re) criados, o caso de “Djom Pó-Di-Pilom” ou no poema: “Mudjer di Hoji.”
Numa fase assumidamente imperativa, porque jovem, generosa e cheia de força, clama o poeta: “Vou ser Senhor do Mundo!” para que tal aconteça, o sujeito poético socorre-se da ajuda, da cumplicidade de alguns seres da nossa mitologia, incluídas em histórias orais infantis, a saber: o “Pássaro-Rei”a “Capotona-Preta” e ainda da cabalística, “sete penas brancas.” Munido dessas forças sobrenaturais a quem pede e com correcção “se faz favor” e a quem oferece o melhor que possui: “Um punhado de milho;” condições básicas para a satisfação do pedido; o sujeito poético parte à aventura de querer poisar no “tecto do Mundo.” Temos aqui, em simbologia envolta em códigos do nosso imaginário infantil, dois dos tópicos mais caros aos poetas das ilhas – porque ilhéus e “presos” pelo mar – a saída para o mundo e a procura de vida melhor.
Vou ser Senhor do Mundo
Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
Para eu voar
e ir poisar no tecto do Mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro
em senhor da terra,
senhor das águas, senhor dos céus…
Senhor do Mundo.
Mas se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no tecto do mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
e lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: … Por favor?
(1951)
No poema que a seguir se transcreve, o sujeito poético, dialoga com a terra, com as ilhas, e pergunta-lhes sobre o “seu Destino” afirma que o quer ver, dialogar com ele e até aconselhá-lo. Procurou o “Destino” (aqui antropomorfizado) em todos os cantos do Arquipélago. Mas foi uma procura vã. Não o tendo encontrado, o sujeito poético promete à “mãe-terra”, que um dia (num futuro!? …) ela terá o “Destino” hoje, perdido.
O Teu Destino
Eu quero ver o teu destino,
Quero falar-lhe,
Quero dar-lhe conselhos.
Procurei-o pelos teus campos,
Atrás dos teus montes,
No fundo das tuas ribeiras,
Mandei-lhe mil recados,
Chamei,
gritei por ele!
Mas ninguém o viu,
Ninguém o achou…
Se o encontrar,
Juro,
Dou-te a minha palavra
Que vos farei as pazes,
Vos tornarei novamente amigos!
Terra!
O teu destino voltará!
(1951)
Afinal, “Zé-Buli-Mundo,” a personagem do poema que se segue, imbuído das melhores intenções, foi tentar “endireitar o mundo” e acabou por piorar a situação.
De novo, Jorge Pedro Barbosa, a presentear-nos com a sua poesia musical e jocosa:
Zé-Buli-Mundo
Zé-Buli-Mundo foi bulir o mundo
para ver se o punha direito.
Zé-Buli-Mundo foi sacudir o mundo,
como um chocalho de lata,
para ver se o punha na linha.
E tanto mexeu o mundo,
que, em vez de o concertar,
o estragou mais ainda.
(1952)
Nos versos seguintes, o poeta põe a lírica a cantar o ser amado, e sobre aquilo que o poeta “vê” de mais belo e de mais harmonioso no corpo e no espírito deste “ser-mulher”, e ao qual, nada de mal lhe poderá tocar. Há como que um “cosmos” de paz, de beleza e de simplicidade a enformar este ser, afinal, a terra-mãe, aqui transfigurada em mulher amada, a quem o poeta entoa louvores.
Poema
Ninguém de ti dirá,
A lua ilumina mais que o brilho dos teus olhos,
A noite é mais silenciosa que os teus lábios,
As folhas e os ramos dos arvoredos
Têm movimentos mais harmoniosos que o teu andar
Porque tu és filha do sol e da brisa da tarde.
Ninguém de ti dirá mal,
Ninguém te deitará maus olhares
Ninguém te atirará contra o rosto
Palavras de ódio,
Com esse instinto de mal-querer
Porque todos te estimam,
porque tu és simples nas tuas coisas.
Ninguém deixará de ouvir
nem de seguir os teus conselhos
de te confessar os segredos mais íntimos
- os momentos de alegria,
- os momentos de tristeza,
- os momentos de arrependimento.
Ninguém voltará as costas às tuas palavras,
Em sinal de pouca importância,
Tudo o que disseres é escutado por todos!
Porque da tua boca
Só saem coisas que vêm de longe
E que, sem querer,
Entram no coração dos homens.
(1953)
Abundam nos versos deste poeta, o lado alegre da vida, a soltura irreverente, satírica e trasbordante da juventude. São os casos dos poemas a seguir transcritos. Interessante é que já anteriormente, Maria Helena Spencer numa apreciação crítica, havia assinalado a novidade da alegria trazida na poesia deste poeta, afirmara ela que Jorge Pedro Barbosa trouxera na época, como que uma “lufada de ar fresco e de alegria” – que também faz muita falta à lírica – contrariamente à generalidade da poética cabo-verdiana de então, naturalmente triste, porque preocupada com os imensos e complexos problemas sociais e humanos do nosso quotidiano nas ilhas, e aos poetas era exigido que sobre eles falassem.
Em Jorge Pedro Barbosa, encontrámos também o lado lúdico, prazenteiro e pleno de um certo riso. O poeta “brinca” com as figuras castiças e as coisas típicas da terra. Os dois poemas a seguir transcritos e publicados em 1958, na revista “Claridade” ilustram bem essa “hilaridade gozona” acompanhada da musicalidade que o poeta empresta ao seu ritmo poético, bem peculiar:
Djom Pó-Di-Pilom
(João Pau-de-Pilão)
Mi própi qu’ê Djom
Djom Pó-di-Pilom
Qu’ê dono di tchom,
Tamanho, largom,
Co midjo, rolom,
Mandioca, fijom,
Batata, mamom,
Barnela, cimbrom
Co pé di polom!
Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Fadjado, roscom!
Casa, quintalom,
Co pato, pintom,
Galinha, frangom,
Tchiquero, litom
Co roda fogom,
Co tcheu calderom
Ê Nhor Deus qui pô!
Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Qui djunta tistom
Contado na mom,
Tó qu’intchi cerom,
Saco, garrafom,
Caxa papelom
Co três balaiom,
Pa mi co nh’irmom!
Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Fadjado roscom,
Qu’ê dono tchom,
Qui tem tcheu tistom
Má qui ca ladrom!
(in: Claridade, 1958)
Outra sátira que convida ao riso:
Mudjer Di Hoji
(Mulher de Hoje)
Mudjer di hoji
Ca ‘ta di cunfiá!
É gosta purfiâ
Cuma tudi homi
Ta gosta d’el!
Mudjer di hoji
Ê linguarêra,
Ê subejadêra
Djê ‘squecê lada
Rosto na rubêra,
Dj’ê ‘squecê Cuma
Tem fiticêra!
Mudjer di hoji
Cuma dj’ê laba
Moda gato
Cuma d’jê calça
Si sapato,
Cuma d’jê basunta
Rosto fépo,
Cuma d’jê
‘nrola
Na citim
Dja ca falta-‘l
Nês mundo más!
Mudjer di hoji
Ta subi cama,
Sunha, papiá,
Ri na sono,
Labanta cedo,
Abri janela,
cuda própi m’ê si mé!
Dj’ê ‘squecê fitcha
Labada-l horta,
D’jê squecê durmi
na cancaran!
É ca podê mora
Na funco-l padja,
Baxo coquêro,
Ê ca podê
Coba-l midjo,
Ê ca podê cume
Papa co lêti!
Mudjer di hoji
Ta ‘nrola língua,
Raganha boca,
Papiâ língua-l Xuxo
Qui ca di Guiné!
Dj’ê ‘squecê conta
Mocinhos, di noti,
‘storia-l bodeco
Nha Teodora,
D’jê ‘squecê cênde
Si lupeta
Dj’ê ‘squecê bira
Loro cãcã!
Mudjer di hoji
Ca podê obi
Cantiga-l tabanca,
Ca podê obi
Tóqui cimboa,
Ca podê obi
Pito-l cariz!
(In: Claridade, nº 8, 1958)
N. B. - Para o leitor que pretender uma leitura traduzida para o português destes dois últimos poemas transcritos, poderá consultar o volume I «No Reino de Caliban» de Manuel Ferreira, Lisboa, 1975. Edição Seara Nova.
Retomando, eis as palavras já acima aludidas, de Maria Helena Spencer, e exaradas à época (1954) numa apreciação, a propósito de um espectáculo realizado na Praia, em que Jorge Pedro Barbosa, representou, cantou e declamou. O texto de MHS intitula-se: “Também sabemos sorrir…” publicado no «Boletim Cabo Verde» do mesmo ano. “ (…) Com Jorge Pedro, Cabo Verde, não é só lágrimas e saudade…é também alegria e fartura, juventude e prazer (…) maravilhosa réplica ao fatalismo doentio (…)” (Fim de transcrição)
Em jeito de finalização do meu escrito, gostaria de fixar esta nótula – não estou a par de obra mais recente deste autor – dentro da poética cabo-verdiana, os versos de Jorge Pedro Barbosa, como que ficaram suspensos no tempo; como que ficaram ancorados “numa eterna juventude,” o que faz com que o leitor actual, ao descobri-los lhes perceba a frescura e a alegria que neles percorre e permanece.
Para terminar esta minha lembrança avivada da riqueza poética crioula, de que são depositários os versos de Jorge Pedro Barbosa, enquanto peças integrantes e mesmo estruturantes, do nosso ideário literário e cultural; faço minhas as palavras de alguém – li isso há algum tempo, algures … – que ao analisar um bom poeta, esclareceu: “tudo o que sobre ele dissermos há-de esquecer e o que ele escreveu há-de ficar.” Assim também é e será sempre, com a poesia de Jorge Pedro Barbosa.
As Falácias de um Projecto? ... - Questões preocupantes analisadas por Dulce L. Ferreira Lima -
terça-feira, 27 de maio de 2014
O texto da autora nomeada em epígrafe e recentemente publicado neste “Blog” (vide: “Hoje, neste dia de 2030”) merece ser lido e reflectido por todos os que se interessam e que tenham uma palavra a dizer nas questões da Educação e do Ensino nestas ilhas.
Ora bem, na minha opinião, as linhas de força do referido texto, centram-se em alguns pontos essenciais e incontornáveis de que à escola cabo-verdiana incumbem os pais e os encarregados de educação das crianças enviadas a escolarizar.
A saber, e entre eles, os mais importantes: “A Escola, em Cabo Verde, para além de se encarregar da instrução das nossas crianças, reveste-se da função de completar o Eu-cultural do aluno, ao pô-lo em contacto – na grande maioria dos casos, pela primeira vez – com a nossa língua paterna, o Português. Neste sentido, ela representa o meridiano da cabo-verdianidade”
E continua a autora: “De facto, a cultura cabo-verdiana, na sua singularidade, gira à volta de um eixo linguístico dual. Essa dualidade reflecte-se numa realidade sociolinguística complexa, a qual determina que a aquisição de cada uma das duas línguas nacionais se realize, na maior parte das vezes, em momentos distintos. Nos primeiros tempos de vida, na fase da linguagem oral, ainda no seio da família e nas suas relações sócio-afectivas, a criança adquire, maioritariamente, o Cabo-verdiano. É na Escola que lhe será facultado, de forma sistemática, organizada e explícita, o Português, na sua dupla dimensão de código integrante do nosso património linguístico-cultural e de vector de instrução.” (Fim de Transcrição).
Permiti-me caro leitor, a esta aparentemente longa transcrição do texto em análise, porque me pareceu que é aqui que reside, por um lado, o núcleo paradigmático do nosso sistema de ensino, fundado na lei de Bases em vigor, do mesmo sistema e que não foi derrogada ainda no parlamento cabo-verdiano, sede das leis pelas quais nos regemos. Por outro lado, como acima referi, o ponto focal do conteúdo da crítica da Dulce L. Ferreira Lima a este “assalto” à revelia da lei em vigor, com esta tentativa de mudança da língua veicular do ensino, (do português para o crioulo) travestido em projecto.
Outra questão suscitada no texto em análise, e não menos preocupante, é a que coloca a interrogação se a mudança linguística/pedagógica, ainda que experimental e já em efectivação em algumas turmas em escolas no interior da ilha de Santiago, e que pressupunha “ab initio,” a anuência dos pais e encarregados de educação para que aos seus educandos fossem ministradas as disciplinas curriculares básicas, na outra língua, (a cabo-verdiana) e não, na língua veicular do ensino nacional, (a portuguesa) prevista na Lei. Se aconteceu de facto.
Este desiderato, que é de certa forma um dos pontos de honra do Projecto, levanta sérias dúvidas se foi realmente cumprido. Isto é, se aos progenitores dos alunos das turmas em funcionamento, foi perguntado se queriam ou não a proclamada alteração… pairam dúvidas sobre isso (?).
Uma outra ultrapassagem ao intitulado projecto, enquanto tal, e bem vista na análise da Dulce, é o facto de ele ser ainda experimental, de não ter ainda resultados (positivos ou negativos) passíveis de serem avaliados nos seus efeitos, e já se estar a formar à pressa, e aceleradamente professores, para a generalização do ensino em crioulo. Temos de convir que então, e com este procedimento, está a haver conclusões antecipadas ou, precipitadas, com a agravante de existir, como aponta o estudo da autora, algum erro na metodologia utilizada que é inconclusiva.
Na minha óptica, a análise da Dulce valeu a pena, não só como chamada de atenção, como alerta, para a possibilidade de um logro educacional, com consequências desastrosas, a médio e a longo prazo, e que estaria ou estará a passar despercebido à generalidade dos cabo-verdianos; como também, como uma contribuição válida para um debate a haver, e que faz todo o sentido, pois que se trata de uma questão estruturante para Cabo Verde.
Quem precisa de ser remodelado é Vossa Excelência, senhor Primeiro-Ministro
sexta-feira, 23 de maio de 2014
O nosso primeiro-ministro na sequência da intervenção de Carlos Lopes, Secretário Executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA) ocorrida no “II Fórum Nacional de Transformação de Cabo Verde” em vez de interpretar com racionalidade as palavras do orador que é um profissional competente, pensando que qualquer de nós, nas funções que ele desempenha e com os dados que ele dispõe tê-las-ia dito, andou à procura de um bode expiatório para “sacudir a água do capote”. Na sua completa desorientação nem sequer teve discernimento para verificar que o discurso do doutor Carlos Lopes estava datado: desde 2003.
O PM exulta-se − e isto para não usar um termo erótico e menos elegante que não se coaduna com as suas funções − com os aplausos dos seus jovens turcos que se habituaram a adulá-lo na boa-maneira afro-asiática de divinização gratuita dos líderes, do culto da personalidade, e começa a disparar a esmo sem sequer reparar no que diz.
Dos 39 anos de Cabo Verde independente, o PAIGC/CV governou 29, isto é cerca de 75% do período. É preciso revelar muito pouca sensatez ou não ter qualquer respeito ou consideração pela inteligência dos cabo-verdianos para encontrar na oposição, i.e. nos 25% (em tempo) de governação o insucesso da não-integração deste país na África. Este governo, este primeiro-ministro, está no poder há treze longuíssimos anos!!! Tem de ser coerente: as relações exteriores são áreas do presidente ou do governo? Não podem ser do governo quando são de sucesso e do presidente quando representam fracasso.
O PM acusa não só o MpD (comunicação social) como os presidentes (no Fórum) que não são do PAICV pelo alegado distanciamento das organizações africanas, designadamente CEDEAO, quando exalta a figura dos dois presidentes do PAICV como os únicos que trataram de África. Até conta uma historieta quanto à sua estreia nas lides africanas. Alguém, uma personalidade, que lhe teria dito que “até que enfim que o lugar de Cabo Verde estava ocupado”. Para além de manipular (mais uma vez não quis usar uma palavra feia) os factos, – há registos! – situação esta que não interessa agora abordar, pergunto-lhe: Há quantos anos foi isto, senhor Primeiro-Ministro? E o que é que fez de lá até agora?
Eu podia também contar-lhe um pequeno episódio que se passou com um dos outros dois presidentes que não mencionou e um presidente africano, quando este lhe diz “entre nous le courrant passe plus vite", mas não lho conto. Quero em primeiro lugar pedir-lhe que avalie esta frase, sabendo o lugar das relações pessoais sobre as formais, em África. E em segundo, gostaria de saber em que é que resultaram os 29 anos de relações estreitas dos governos do seu partido, com o continente?
Não sou nem afro-céptico nem afro-optimista. Sou afro-realista e fiquei satisfeito com a sua resposta à comunicação social sobre esta questão de não abandonar velhos parceiros, velhas ancoragens.
Não cabe neste desabafo, de um desabafo se trata, analisar a abalizada opinião de Carlos Lopes. Compreendo-a em toda a sua dimensão, não obstante achar que ele tortura os dados e força as conclusões em algumas situações. É o seu papel. Veja-se p.e. – um entre outros – o caso de Marrocos cuja inserção ou viragem para o continente não é nem pode ser comparável à nossa.Enquanto estendemos a mão com a palma virada para cima eles estendem o braço com o punho virado para baixo.
Sei da África pujante e florescente que desponta – é bom lembrar! – por detrás das ilhas de Lampedusa e Sicília no Mediterrâneo ou dos enclaves de Melila e Gibraltar e das guerras, das fomes e de muitos campos de refugiados no continente. Sei do crescimento do Gana e do PIB da superpower regional Nigéria e dos problemas enormes de miséria, fome e guerra que este país ainda tem e que não susta o surto emigratório deste colosso africano de cerca de 200 milhões de almas. Qual será o seu PIB per capita? Não, não vou fazer contas. Estou sim interessado, embora saiba que por si só é uma avaliação grosseira, de conhecer o seu índice de desenvolvimento humano (IDH) e o de Gini. Segundo dados da própria ONU (2012), a Nigéria tem cerca de 60% da sua população, sessenta por cento, repito, a viver na pobreza extrema, sem falar de dez milhões de crianças em idade escolar fora das escolas e da subida do analfabetismo, mesmo nos adultos.
A economia é sobretudo para as pessoas e não apenas para o país. É muito natural que haja crescimento quando se parte do zero absoluto. Qualquer infinitésimo representa um incremento assinalável. Daí que seja muito fácil falar-se em tendência. Mas atenção: crescimento não é desenvolvimento.
Assinale-se que todo o discurso do analista douto que é Carlos Lopes foi virado directamente para si, senhor Primeiro-Ministro, e indirectamente para todos os decisores políticos. Alerta para outros caminhos, recomenda alternativas. Possivelmente complementares.
Os Estados têm interesses e não afectos e vizinhanças, é o que o senhor lhe devia também ter dito, explicando-se. Mas não. Entrou em pânico e em vez de aceitar humildemente a culpa ou rebater os pontos de vista do orador com os quais discorda, acusa a oposição que só lá esteve 10 anos em 39 e implicitamente os membros do seu governo ao falar de remodelação reconhecendo desta forma que estão soltos e à deriva. Sem comando. E que o orador tem toda a razão.
Com isto tudo acaba por parecer um catavento político que se orienta ao sabor das opiniões. Só assim se justifica a sua pressa de remodelar como se o mal estivesse neles, membros do governo.
A sua remodelação será um exercício inútil para inglês ver. Desculpas de mau pagador.
Assuma as suas responsabilidades com dignidade e verá, não obstante ser difícil de aceitar, que está esgotado, sem imaginação e sem uma ideia para o futuro do País, apesar de o projectar, por vezes, nas suas espécies de “delírio”, e concluirá que quem precisa de ser remodelado é Vossa Excelência. O senhor é, neste momento o problema e não a solução. Remodele-se!
A. Ferreira
O PM exulta-se − e isto para não usar um termo erótico e menos elegante que não se coaduna com as suas funções − com os aplausos dos seus jovens turcos que se habituaram a adulá-lo na boa-maneira afro-asiática de divinização gratuita dos líderes, do culto da personalidade, e começa a disparar a esmo sem sequer reparar no que diz.
Dos 39 anos de Cabo Verde independente, o PAIGC/CV governou 29, isto é cerca de 75% do período. É preciso revelar muito pouca sensatez ou não ter qualquer respeito ou consideração pela inteligência dos cabo-verdianos para encontrar na oposição, i.e. nos 25% (em tempo) de governação o insucesso da não-integração deste país na África. Este governo, este primeiro-ministro, está no poder há treze longuíssimos anos!!! Tem de ser coerente: as relações exteriores são áreas do presidente ou do governo? Não podem ser do governo quando são de sucesso e do presidente quando representam fracasso.
O PM acusa não só o MpD (comunicação social) como os presidentes (no Fórum) que não são do PAICV pelo alegado distanciamento das organizações africanas, designadamente CEDEAO, quando exalta a figura dos dois presidentes do PAICV como os únicos que trataram de África. Até conta uma historieta quanto à sua estreia nas lides africanas. Alguém, uma personalidade, que lhe teria dito que “até que enfim que o lugar de Cabo Verde estava ocupado”. Para além de manipular (mais uma vez não quis usar uma palavra feia) os factos, – há registos! – situação esta que não interessa agora abordar, pergunto-lhe: Há quantos anos foi isto, senhor Primeiro-Ministro? E o que é que fez de lá até agora?
Eu podia também contar-lhe um pequeno episódio que se passou com um dos outros dois presidentes que não mencionou e um presidente africano, quando este lhe diz “entre nous le courrant passe plus vite", mas não lho conto. Quero em primeiro lugar pedir-lhe que avalie esta frase, sabendo o lugar das relações pessoais sobre as formais, em África. E em segundo, gostaria de saber em que é que resultaram os 29 anos de relações estreitas dos governos do seu partido, com o continente?
Não sou nem afro-céptico nem afro-optimista. Sou afro-realista e fiquei satisfeito com a sua resposta à comunicação social sobre esta questão de não abandonar velhos parceiros, velhas ancoragens.
Não cabe neste desabafo, de um desabafo se trata, analisar a abalizada opinião de Carlos Lopes. Compreendo-a em toda a sua dimensão, não obstante achar que ele tortura os dados e força as conclusões em algumas situações. É o seu papel. Veja-se p.e. – um entre outros – o caso de Marrocos cuja inserção ou viragem para o continente não é nem pode ser comparável à nossa.Enquanto estendemos a mão com a palma virada para cima eles estendem o braço com o punho virado para baixo.
Sei da África pujante e florescente que desponta – é bom lembrar! – por detrás das ilhas de Lampedusa e Sicília no Mediterrâneo ou dos enclaves de Melila e Gibraltar e das guerras, das fomes e de muitos campos de refugiados no continente. Sei do crescimento do Gana e do PIB da superpower regional Nigéria e dos problemas enormes de miséria, fome e guerra que este país ainda tem e que não susta o surto emigratório deste colosso africano de cerca de 200 milhões de almas. Qual será o seu PIB per capita? Não, não vou fazer contas. Estou sim interessado, embora saiba que por si só é uma avaliação grosseira, de conhecer o seu índice de desenvolvimento humano (IDH) e o de Gini. Segundo dados da própria ONU (2012), a Nigéria tem cerca de 60% da sua população, sessenta por cento, repito, a viver na pobreza extrema, sem falar de dez milhões de crianças em idade escolar fora das escolas e da subida do analfabetismo, mesmo nos adultos.
A economia é sobretudo para as pessoas e não apenas para o país. É muito natural que haja crescimento quando se parte do zero absoluto. Qualquer infinitésimo representa um incremento assinalável. Daí que seja muito fácil falar-se em tendência. Mas atenção: crescimento não é desenvolvimento.
Assinale-se que todo o discurso do analista douto que é Carlos Lopes foi virado directamente para si, senhor Primeiro-Ministro, e indirectamente para todos os decisores políticos. Alerta para outros caminhos, recomenda alternativas. Possivelmente complementares.
Os Estados têm interesses e não afectos e vizinhanças, é o que o senhor lhe devia também ter dito, explicando-se. Mas não. Entrou em pânico e em vez de aceitar humildemente a culpa ou rebater os pontos de vista do orador com os quais discorda, acusa a oposição que só lá esteve 10 anos em 39 e implicitamente os membros do seu governo ao falar de remodelação reconhecendo desta forma que estão soltos e à deriva. Sem comando. E que o orador tem toda a razão.
Com isto tudo acaba por parecer um catavento político que se orienta ao sabor das opiniões. Só assim se justifica a sua pressa de remodelar como se o mal estivesse neles, membros do governo.
A sua remodelação será um exercício inútil para inglês ver. Desculpas de mau pagador.
Assuma as suas responsabilidades com dignidade e verá, não obstante ser difícil de aceitar, que está esgotado, sem imaginação e sem uma ideia para o futuro do País, apesar de o projectar, por vezes, nas suas espécies de “delírio”, e concluirá que quem precisa de ser remodelado é Vossa Excelência. O senhor é, neste momento o problema e não a solução. Remodele-se!
A. Ferreira
Hoje, neste dia de 2030 - Por: Dulce Lush Ferreira Lima
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Um momento que se destaca da repleta agenda de transformações da Escola cabo-verdiana é o da escolha da língua de ensino. Ela é primordial para a sala de aulas e para o futuro que nela se constrói. Mas, porque dela dependem muitas outras, uma tal transformação deve ser considerada como um tema central para todo o país.
Bilingue : nascido e criado
A Escola, em Cabo Verde, para além de se encarregar da instrução das nossas crianças, reveste-se da função de completar o Eu-cultural do aluno, ao pô-lo em contacto – na grande maioria dos casos, pela primeira vez – com a nossa língua paterna, o Português. Neste sentido, ela representa o meridiano da cabo-verdianidade.
De facto, a cultura cabo-verdiana, na sua singularidade, gira à volta de um eixo linguístico dual. Essa dualidade reflecte-se numa realidade sociolinguística complexa, a qual determina que a aquisição de cada uma das duas línguas nacionais se realize, na maior parte das vezes, em momentos distintos. Nos primeiros tempos de vida, na fase da linguagem oral, ainda no seio da família e nas suas relações sócio-afectivas, a criança adquire, maioritariamente, o Cabo-verdiano. É na Escola que lhe será facultado, de forma sistemática, organizada e explícita, o Português, na sua dupla dimensão de código integrante do nosso património linguístico-cultural e de vector de instrução.
A sala de aulas corresponde, assim, a um espaço-tempo onde o potencial bilingue se desenvolve e se torna efectivo, pelo que o país enfrenta o desafio de encontrar formas inovadoras de integrar essa especificidade num sistema de ensino que se quer de qualidade.
É sob esse ângulo que proponho uma leitura crítica da opção do Ministério da Educação e Desporto (MED) de alterar, a curto prazo, o ordenamento linguístico, a nível do ensino, como previsto no âmbito do projecto-piloto de ensino bilingue.
Iniciado no presente ano lectivo, em duas turmas de escolas básicas de Santiago e denominado Si ka fila tudu, ta fila um ponta, o projecto inspira-se numa experiência desenvolvida numa escola portuguesa, a qual acolhe um grande número de alunos de origem familiar cabo-verdiana.
Conforme as informações do MED, o projecto em experimentação deve, num futuro próximo, ser generalizado a todas as escolas básicas do país, como forma de valorizar a Língua Materna e melhorar o ensino da Língua Portuguesa.
Língua materna ou Escola madrasta?
Porém, a motivação, as condições e o modo de execução, assim como o momento em que ocorre o projecto são áreas de ambiguidade, as quais carecem de clarificação prévia, tendo em vista o intento de alargamento do mesmo.
A primeira dessas áreas refere-se à problemática do Português no ensino cabo-verdiano que, na abordagem do MED, se esgota no facto de a alfabetização não se realizar em língua materna.
Mas, se considerarmos esse parâmetro de fundamentação, teremos que reconhecer o seguinte elemento: tanto o corpus de estudos sobre língua materna e ensino, como as próprias recomendações da UNESCO relativas a essa temática remetem, essencialmente, para casos em que se verifica uma ruptura do elo língua-cultura-ensino. Este não é o caso de Cabo Verde, cujo sistema linguístico é sustentável, sendo o Português o co-vector da identidade cultural cabo-verdiana.
De modo a se evitar a tentação do artifício, um dos aspectos a acautelar, na procura de soluções possíveis ao problema do Português no ensino cabo-verdiano, é a adequação dos estudos e das experiências educativas ao projecto de sociedade que o país deseja.
Há que se reconhecer ao MED o direito de optar pelos métodos que considere melhores para prestar os serviços que lhe compete. No entanto, o recurso a experiências referentes a uma realidade sociolinguística, educativa e política diferentes da nossa, assim como a justificação a partir de um factor de causalidade, insuficientemente demonstrado no caso de Cabo Verde, pode ser uma via mais rápida, mas que, afinal, nos conduzirá a um beco sem saída.
Um outro aspecto, preterido pelo projecto, mas em que se deve atentar, é a dimensão política do problema. Por se tratar de uma questão do maior interesse público, o consenso social e o diálogo nacional devem ser alargados a esferas maiores que a devida autorização dos pais dos alunos envolvidos no projecto. Se, como explica o MED, essa foi uma condição necessária para o arranque do projecto, ela não é, de forma alguma, suficiente para a sua continuidade.
Ela não desresponsabilizará o MED pela aplicação efectiva, não de um método, mas de uma decisão avant la lettre de atribuir ao Cabo-verdiano o estatuto de língua de ensino; nem, muito menos, ilibará o Governo de tentar, na sala de aulas, a oficialização, de facto, da Língua Cabo-verdiana, que não conseguiu no Parlamento. Mas também não explicará o Ilustre silêncio dos nossos representantes eleitos, perante uma transformação de tamanha importância.
A escolha da língua de ensino, quer recaia sobre uma, quer sobre a outra ou, ainda, sobre as duas línguas nacionais, em simultâneo, deve ser guiada por uma estratégia partilhada pela Nação, num processo ponderado, transparente e, inevitavelmente, a longo prazo.
Uma segunda área de ambiguidade está relacionada com a vertente do projecto que define a valorização da língua materna e o contributo para a fixação da sua norma escrita como objectivos a serem atingidos.
Ora, adoptar como referência um fenómeno em curso, neste caso, o processo de literalização da língua cabo-verdiana, e integrá-lo num projecto aplicado ao ensino básico, equivale a criar uma limitação que a didáctica e a pedagogia não poderão ultrapassar. Isto porque a interface escrita da Língua Cabo-verdiana, ainda insuficientemente elaborada é – por esta razão – incompatível com as exigências dessa fase de escolaridade, durante a qual os alunos aprendem a leitura e a dominar os mecanismos do código escrito.
A sede apropriada para os trabalhos conducentes à normalização da escrita, não é, certamente, a escola básica. Deve continuar a ser a Universidade e respectivos centros de investigação, como é o caso, desde há largos anos. Agir em sentido inverso e esdrúxulo, como faz o MED com o projecto-piloto de ensino bilingue, periga as condições efectivas para o sucesso escolar sem, no entanto favorecer a emergência da Língua Cabo-verdiana.
A nível educativo, a consequência da instrumentalização da língua materna, será a promoção de uma escola madrasta, incapaz de responder, de forma realista, às necessidades de instrução da sociedade cabo-verdiana.
Si ka fila...
Do ponto de vista técnico, os resultados obtidos pela experiência deverão, depois de analisados, suportar a decisão de introduzir o ensino bilingue nas escolas básicas do país.
Para os efeitos do estudo no terreno, o grupo experimental é constituído pelos alunos de duas turmas de escolas básicas, cujos progressos serão postos em paralelo com os dos alunos que seguem um percurso escolar clássico, i.e., em língua portuguesa, percurso esse que também é objecto de reformas e alterações significativas.
A recolha de dados coincide, assim, com a generalização do segundo ano da terceira reforma do sistema educativo nacional e de mudança do paradigma no processo ensino-aprendizagem por objectivos para o ensino-aprendizagem por competências. Ou seja, no seio de um sistema sobrecarregado por experimentações, mudanças, alterações e reformas, as quais originarão uma multiplicidade de variáveis a serem controladas pelo projecto-piloto, como, por exemplo, uma melhor formação de professores, novos métodos e novos materiais pedagógicos.
Com um tal enquadramento, os resultados obtidos, dificilmente, permitirão antemostrar as condições necessárias e suficientes para a projecção e generalização do projecto.
A questão será, então, a de determinar os verdadeiros efeitos da experiência. Pode-se, mesmo, prever a ocorrência de situações de conflito entre resultados se, por exemplo, os progressos na aprendizagem da leitura realizados pelos alunos do grupo experimental forem atribuíveis ao método bilingue, e, paralelamente, os progressos realizados pelo grupo-testemunha forem atribuíveis à melhor qualidade dos materiais didáctico-pedagógicos, desenvolvidos no âmbito da reforma.
A consequência será a invalidação de uma análise aprofundada que explique as razões subjacentes aos resultados obtidos pela experiência.
E, perante essa impossibilidade de formular uma teoria preditiva geral, relativizar os dados esperados, como sugere a frase que dá o nome ao projecto - si ka fila tudu, ta fila un ponta –, não responde à pergunta que se impõe, a saber: como integrar a tal ponta no continuum conceptual do sistema?
O conjunto de interrogações suscitadas, embora não respondidas, pelo projecto, evidencia o carácter babélico da mensagem e da acção do MED, que opta por uma estratégia de legitimação do projecto, em detrimento de qualquer demonstração quanto à sua pertinência. Uma outra ilustração disso é a formação prévia de dezenas de professores, tendo em vista a generalização do ensino bilingue às outras ilhas e escolas do país, antes mesmo de se submeter os dados recolhidos nas turmas-piloto a qualquer análise.
Os que terão vinte anos
Afinal, o que está em causa é a própria concepção da Escola que se quer em Cabo Verde. Se se quer que esta responda às necessidades de instrução do maior número de alunos, que garanta a cada um e a todos, igualmente, as mesmas oportunidades e o acesso a um património comum, há que haver coragem para inverter a questão e colocá-la na verdadeira ordem em que surge: que condições devem ser criadas para que o Português se transforme num “ponto forte” da Escola cabo-verdiana?
Perante a situação que o antigo ministro da Educação, Doutor Corsino Tolentino, designou como sendo de concorrência caótica das duas línguas nacionais no espaço escolar (A Nação, n°. 315 de 12-19 de Setembro de 2013) será necessário, parece-me, reequilibrar a atitude dos alunos face às referidas línguas nacionais.
Para tal, é necessário considerar a transmissão de uma língua diferente da língua familiar da maioria das crianças como uma das prioridades da Escola cabo-verdiana.
Entre outras acções, o MED deve-se obrigar a reinventar uma dinâmica que permita o encontro entre as crianças cabo-verdianas e a Língua Portuguesa, desde muito cedo, isto é, na fase da primeira infância. Essa é uma das preconizações da primeira reforma do Ensino que, há mais de duas décadas, já insistia na necessidade do reforço do ensino do Português no Ensino Pré-escolar. Desiderato, desde então, sobejamente repetido, embora nem sempre com efeitos.
A aprendizagem precoce é indispensável, também, para eliminar, ou pelo menos, reduzir a um mínimo educativo aceitável, as diferenças linguísticas entre as crianças de uma mesma faixa etária, mas originárias de famílias com práticas diferentes da Língua Portuguesa.
E, se essas acções devem ser realizadas em tempo útil, tendo como horizonte um Cabo Verde desenvolvido, convém ter em conta que, para a Escola, 2030 é hoje e não amanhã. As gerações vindouras já se encontram entre nós e elas exigem mais do que uma projecção no futuro.
Pelo que se torna imperativo conceber uma acção educativa coerente e assumir que transformar com constância não é um oxímoro mas uma aposta na qualidade.
Bilingue : nascido e criado
A Escola, em Cabo Verde, para além de se encarregar da instrução das nossas crianças, reveste-se da função de completar o Eu-cultural do aluno, ao pô-lo em contacto – na grande maioria dos casos, pela primeira vez – com a nossa língua paterna, o Português. Neste sentido, ela representa o meridiano da cabo-verdianidade.
De facto, a cultura cabo-verdiana, na sua singularidade, gira à volta de um eixo linguístico dual. Essa dualidade reflecte-se numa realidade sociolinguística complexa, a qual determina que a aquisição de cada uma das duas línguas nacionais se realize, na maior parte das vezes, em momentos distintos. Nos primeiros tempos de vida, na fase da linguagem oral, ainda no seio da família e nas suas relações sócio-afectivas, a criança adquire, maioritariamente, o Cabo-verdiano. É na Escola que lhe será facultado, de forma sistemática, organizada e explícita, o Português, na sua dupla dimensão de código integrante do nosso património linguístico-cultural e de vector de instrução.
A sala de aulas corresponde, assim, a um espaço-tempo onde o potencial bilingue se desenvolve e se torna efectivo, pelo que o país enfrenta o desafio de encontrar formas inovadoras de integrar essa especificidade num sistema de ensino que se quer de qualidade.
É sob esse ângulo que proponho uma leitura crítica da opção do Ministério da Educação e Desporto (MED) de alterar, a curto prazo, o ordenamento linguístico, a nível do ensino, como previsto no âmbito do projecto-piloto de ensino bilingue.
Iniciado no presente ano lectivo, em duas turmas de escolas básicas de Santiago e denominado Si ka fila tudu, ta fila um ponta, o projecto inspira-se numa experiência desenvolvida numa escola portuguesa, a qual acolhe um grande número de alunos de origem familiar cabo-verdiana.
Conforme as informações do MED, o projecto em experimentação deve, num futuro próximo, ser generalizado a todas as escolas básicas do país, como forma de valorizar a Língua Materna e melhorar o ensino da Língua Portuguesa.
Língua materna ou Escola madrasta?
Porém, a motivação, as condições e o modo de execução, assim como o momento em que ocorre o projecto são áreas de ambiguidade, as quais carecem de clarificação prévia, tendo em vista o intento de alargamento do mesmo.
A primeira dessas áreas refere-se à problemática do Português no ensino cabo-verdiano que, na abordagem do MED, se esgota no facto de a alfabetização não se realizar em língua materna.
Mas, se considerarmos esse parâmetro de fundamentação, teremos que reconhecer o seguinte elemento: tanto o corpus de estudos sobre língua materna e ensino, como as próprias recomendações da UNESCO relativas a essa temática remetem, essencialmente, para casos em que se verifica uma ruptura do elo língua-cultura-ensino. Este não é o caso de Cabo Verde, cujo sistema linguístico é sustentável, sendo o Português o co-vector da identidade cultural cabo-verdiana.
De modo a se evitar a tentação do artifício, um dos aspectos a acautelar, na procura de soluções possíveis ao problema do Português no ensino cabo-verdiano, é a adequação dos estudos e das experiências educativas ao projecto de sociedade que o país deseja.
Há que se reconhecer ao MED o direito de optar pelos métodos que considere melhores para prestar os serviços que lhe compete. No entanto, o recurso a experiências referentes a uma realidade sociolinguística, educativa e política diferentes da nossa, assim como a justificação a partir de um factor de causalidade, insuficientemente demonstrado no caso de Cabo Verde, pode ser uma via mais rápida, mas que, afinal, nos conduzirá a um beco sem saída.
Um outro aspecto, preterido pelo projecto, mas em que se deve atentar, é a dimensão política do problema. Por se tratar de uma questão do maior interesse público, o consenso social e o diálogo nacional devem ser alargados a esferas maiores que a devida autorização dos pais dos alunos envolvidos no projecto. Se, como explica o MED, essa foi uma condição necessária para o arranque do projecto, ela não é, de forma alguma, suficiente para a sua continuidade.
Ela não desresponsabilizará o MED pela aplicação efectiva, não de um método, mas de uma decisão avant la lettre de atribuir ao Cabo-verdiano o estatuto de língua de ensino; nem, muito menos, ilibará o Governo de tentar, na sala de aulas, a oficialização, de facto, da Língua Cabo-verdiana, que não conseguiu no Parlamento. Mas também não explicará o Ilustre silêncio dos nossos representantes eleitos, perante uma transformação de tamanha importância.
A escolha da língua de ensino, quer recaia sobre uma, quer sobre a outra ou, ainda, sobre as duas línguas nacionais, em simultâneo, deve ser guiada por uma estratégia partilhada pela Nação, num processo ponderado, transparente e, inevitavelmente, a longo prazo.
Uma segunda área de ambiguidade está relacionada com a vertente do projecto que define a valorização da língua materna e o contributo para a fixação da sua norma escrita como objectivos a serem atingidos.
Ora, adoptar como referência um fenómeno em curso, neste caso, o processo de literalização da língua cabo-verdiana, e integrá-lo num projecto aplicado ao ensino básico, equivale a criar uma limitação que a didáctica e a pedagogia não poderão ultrapassar. Isto porque a interface escrita da Língua Cabo-verdiana, ainda insuficientemente elaborada é – por esta razão – incompatível com as exigências dessa fase de escolaridade, durante a qual os alunos aprendem a leitura e a dominar os mecanismos do código escrito.
A sede apropriada para os trabalhos conducentes à normalização da escrita, não é, certamente, a escola básica. Deve continuar a ser a Universidade e respectivos centros de investigação, como é o caso, desde há largos anos. Agir em sentido inverso e esdrúxulo, como faz o MED com o projecto-piloto de ensino bilingue, periga as condições efectivas para o sucesso escolar sem, no entanto favorecer a emergência da Língua Cabo-verdiana.
A nível educativo, a consequência da instrumentalização da língua materna, será a promoção de uma escola madrasta, incapaz de responder, de forma realista, às necessidades de instrução da sociedade cabo-verdiana.
Si ka fila...
Do ponto de vista técnico, os resultados obtidos pela experiência deverão, depois de analisados, suportar a decisão de introduzir o ensino bilingue nas escolas básicas do país.
Para os efeitos do estudo no terreno, o grupo experimental é constituído pelos alunos de duas turmas de escolas básicas, cujos progressos serão postos em paralelo com os dos alunos que seguem um percurso escolar clássico, i.e., em língua portuguesa, percurso esse que também é objecto de reformas e alterações significativas.
A recolha de dados coincide, assim, com a generalização do segundo ano da terceira reforma do sistema educativo nacional e de mudança do paradigma no processo ensino-aprendizagem por objectivos para o ensino-aprendizagem por competências. Ou seja, no seio de um sistema sobrecarregado por experimentações, mudanças, alterações e reformas, as quais originarão uma multiplicidade de variáveis a serem controladas pelo projecto-piloto, como, por exemplo, uma melhor formação de professores, novos métodos e novos materiais pedagógicos.
Com um tal enquadramento, os resultados obtidos, dificilmente, permitirão antemostrar as condições necessárias e suficientes para a projecção e generalização do projecto.
A questão será, então, a de determinar os verdadeiros efeitos da experiência. Pode-se, mesmo, prever a ocorrência de situações de conflito entre resultados se, por exemplo, os progressos na aprendizagem da leitura realizados pelos alunos do grupo experimental forem atribuíveis ao método bilingue, e, paralelamente, os progressos realizados pelo grupo-testemunha forem atribuíveis à melhor qualidade dos materiais didáctico-pedagógicos, desenvolvidos no âmbito da reforma.
A consequência será a invalidação de uma análise aprofundada que explique as razões subjacentes aos resultados obtidos pela experiência.
E, perante essa impossibilidade de formular uma teoria preditiva geral, relativizar os dados esperados, como sugere a frase que dá o nome ao projecto - si ka fila tudu, ta fila un ponta –, não responde à pergunta que se impõe, a saber: como integrar a tal ponta no continuum conceptual do sistema?
O conjunto de interrogações suscitadas, embora não respondidas, pelo projecto, evidencia o carácter babélico da mensagem e da acção do MED, que opta por uma estratégia de legitimação do projecto, em detrimento de qualquer demonstração quanto à sua pertinência. Uma outra ilustração disso é a formação prévia de dezenas de professores, tendo em vista a generalização do ensino bilingue às outras ilhas e escolas do país, antes mesmo de se submeter os dados recolhidos nas turmas-piloto a qualquer análise.
Os que terão vinte anos
Afinal, o que está em causa é a própria concepção da Escola que se quer em Cabo Verde. Se se quer que esta responda às necessidades de instrução do maior número de alunos, que garanta a cada um e a todos, igualmente, as mesmas oportunidades e o acesso a um património comum, há que haver coragem para inverter a questão e colocá-la na verdadeira ordem em que surge: que condições devem ser criadas para que o Português se transforme num “ponto forte” da Escola cabo-verdiana?
Perante a situação que o antigo ministro da Educação, Doutor Corsino Tolentino, designou como sendo de concorrência caótica das duas línguas nacionais no espaço escolar (A Nação, n°. 315 de 12-19 de Setembro de 2013) será necessário, parece-me, reequilibrar a atitude dos alunos face às referidas línguas nacionais.
Para tal, é necessário considerar a transmissão de uma língua diferente da língua familiar da maioria das crianças como uma das prioridades da Escola cabo-verdiana.
Entre outras acções, o MED deve-se obrigar a reinventar uma dinâmica que permita o encontro entre as crianças cabo-verdianas e a Língua Portuguesa, desde muito cedo, isto é, na fase da primeira infância. Essa é uma das preconizações da primeira reforma do Ensino que, há mais de duas décadas, já insistia na necessidade do reforço do ensino do Português no Ensino Pré-escolar. Desiderato, desde então, sobejamente repetido, embora nem sempre com efeitos.
A aprendizagem precoce é indispensável, também, para eliminar, ou pelo menos, reduzir a um mínimo educativo aceitável, as diferenças linguísticas entre as crianças de uma mesma faixa etária, mas originárias de famílias com práticas diferentes da Língua Portuguesa.
E, se essas acções devem ser realizadas em tempo útil, tendo como horizonte um Cabo Verde desenvolvido, convém ter em conta que, para a Escola, 2030 é hoje e não amanhã. As gerações vindouras já se encontram entre nós e elas exigem mais do que uma projecção no futuro.
Pelo que se torna imperativo conceber uma acção educativa coerente e assumir que transformar com constância não é um oxímoro mas uma aposta na qualidade.
Félix Monteiro (1909-2002) - Um Investigador probo
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Hoje queria homenageá-lo – ainda que de forma breve e, através também de um episódio interessante e que recentemente me foi contado pela filha mais nova – este insigne investigador e estudioso da nossa cultura (a cabo-verdiana) que foi Félix Monteiro.
Félix Monteiro é para muitos de nós, um exemplo a seguir em matéria de probidade e de honestidade intelectual, na prossecução do seu objecto de pesquisa.
Creio não alterar a verdade se dissesse que Félix Monteiro não parte para a pesquisa com ideias “pré concebidas” ou “preconceituosas,” destinadas a chegar ou a “criar” alguma tese adjacente, com finalidades outras que não as que a pesquisa honradamente levada a cabo, o fariam chegar. Quando se lêem os ensaios deste autor, a impressão com que o leitor fica é de alguém que pôs ao serviço da investigação – quer se trate de análise sobre os usos e os costumes das ilhas ou de abordagens religiosas e sincréticas, que enformam grande parte das festas e das tradições do povo cabo-verdiano – uma mente empenhadamente objectiva, limpa de reservas e de preconceitos. O resultado a que chega é normalmente fruto de muito exercício de procura, de cruzamento de dados, de comparações, de analogias e de diversidades, com enorme grau de objectividade trazidos ao conhecimento do leitor, por vezes sem a intromissão do ensaísta que deixa “falar” livremente o objecto e os resultados da pesquisa.
É assim, que leio os ensaios de Félix Monteiro. Alguns de cariz etnográfico, outros de natureza social, histórica e vária, mas todos revestidos daquilo a que chamaria de sentido de hombridade, de dignidade, colocado ao serviço da investigação.
Daí que usufruamos hoje, de importantes trabalhos no campo etnográfico, por ele publicados, e que até agora não foram ultrapassados. De entre eles, destacaria: “Tabanca” (1949); “Bandeiras da ilha do Fogo – O Senhor e o Escravo Divertem-se” (1958) “Cantigas de Ana Procópio” (1961); “A vitalidade do Movimento Claridade é mais notória na ficção do que na poesia” (1963) um leitura crítica de “Os Rebelados da ilha de Santiago de Júlio Monteiro” (1977); “Páginas esquecidas de Eugénio Tavares” (1981); “Páginas esquecidas de Guilherme Dantas” (1984) “Naufrágios, arqueologia, museus” (1984); “Notas biográficas de Eugénio Tavares” (1994); “Séculos de contactos com americanos” (1997). Entre outros estudos ensaísticos, qualquer deles com elevado grau de interesse para o entendimento comparado, dos factos da cultura mestiça e da tradição cabo-verdianas.
Comparativamente ao labor investigativo e probo de Félix Monteiro, quando olhamos actualmente, para muitos ensaios e pesquisas entre nós, sobretudo nas áreas de História, de Literatura e de Cultura destas ilhas, infelizmente, a nossa percepção primeira é que de eles já vêm marcados politicamente, quando não partidariamente aferidos. Logo, estes últimos, ficam em desvantagem qualitativa.
Como alguém bem o notou numa tese, até o discurso identitário cabo-verdiano está hoje – nas pesquisas feitas e, para mal de todos nós – ideologicamente politizado e partidarizado.
De facto, estudando Félix Monteiro, reiteramos a convicção de que estamos perante um investigador rigoroso e sério.
Mas o que trazia também o propósito deste escrito, era narrar um caso exemplar de amor filial e de respeito pelo legado deixado pelo pai, demonstrados por Anaísa Fernanda Silva Monteiro, a filha mais nova de Félix Monteiro que vive há já algum tempo nos Estados Unidos.
Contou-me ela que de uma das vezes que veio de férias, deslocou-se a Mindelo à casa onde o pai passou os últimos anos de vida. Começou por ter de desalojar as pessoas que indevidamente a ocuparam e que ainda por cima não cuidavam dela e muito menos do espólio deixado pelo investigador.
Enfim, disse-me ela que isto tudo lhe havia custado muitos “amargos de boca” e uma enorme dor de alma ao deparar-se com o estado em que se encontrava a rica documentação de Félix Monteiro.
Abro aqui um parêntesis para esclarecer que o espólio havia sido oferecido ao Estado de Cabo Verde pela morte do seu autor, ocorrida em 2002, e que os herdeiros estão até hoje, à espera que isso aconteça. Fecho o parêntesis sem mais comentários.
No decorrer da arrumação dos papéis, Anaísa Monteiro verificou com muito pesar, que muitos documentos já se tinham estragado com a água das chuvas que entretanto entrou na cave da residência. Juntado a isto, os estragos feitos por ratos e traças que deram cabo de, possivelmente, valiosa pesquisa.
Mas a nossa jovem mulher, não se deixou abater. Mãos à obra e ei-la de forma cuidadosa e paciente a desinfestar, a melhorar com tábuas protectoras e outras materiais, o soalho e o tecto – de forma a evitar a entrada futura de mais bichos e de mais chuva – o quarto onde se encontra guardada a herança deixada por Félix Monteiro.
Mas, mais fez ainda: pôs em ordem em caixas, numerando-as por anos da escrita dos textos, tanto os artigos inéditos, como os originais dos já publicados, por aquele autor. Para além disso, desse espólio constam numerosos livros que Anaísa Monteiro zelosamente tratou também na preservação do legado. Um labor realizado com afecto. Fiquei emocionada! São valores como estes que devemos prezar.
Que belo exemplo de respeito pela memória paterna, mas também de amor filial! Pronunciei intimamente, enquanto a escutava.
Embora se perceba por um lado, de que o já aludido sentimento filial foi naturalmente determinante e prioritário na condução deste afectuoso labor. Por outro lado, deve-se reconhecer também, que ao proceder deste modo, cuidando do espólio deixado, Anaísa Fernanda Silva Monteiro prestou igualmente, um trabalho com mérito, ao arquivo cultural cabo-verdiano.
Para ela o nosso: Bem-haja!