Nótula Explicativa
Após uma pausa longa, eis-nos de volta ao “Coral Vermelho”… já sentia a falta do contacto, sempre querido, com o leitor e destes pequenos exercícios de escrita que mal não fazem…pelo contrário! Animam a mente.
Pois bem, para reiniciar, aqui vai um texto de autoria de A. Ferreira e que serviu de apresentação pública, no dia 5 de Setembro corrente, na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, do livro: «Amílcar Cabral – Um Outro Olhar» (Chiado editora, 2014) de Daniel dos Santos, politólogo e professor universitário.
O interessante é que este texto de apresentação, que a seguir se publica, acabou por ser de certa forma, não só um ponto de vista de um leitor, como também se constituiu numa espécie de ensaio, sobre o conteúdo da obra de Daniel Santos.
Daí querermos partilhá-lo com o leitor.
Apresentação:
Amílcar Cabral – Um Outro Olhar.
“Amílcar Cabral - Um Outro Olhar” é um ensaio sério, honesto, que tem na figura de Amílcar Cabral um eixo condutor. O título sugere, uma certa biografia. Mas não uma biografia do género "Longa Marcha para a Liberdade" de Nelson Mandela nem “A Face Oculta de Kennedy” de Seymour Hersch. Cito estes dois grandes estadistas e estas duas extraordinárias biografias porque estão uma nos antípodas da outra. A primeira é epopeica e panegírica descrevendo um percurso honroso e dignificante enquanto a segunda é escabrosa e indecorosa narrando os subterrâneos da vida de um político e do seu clã – vergonhosa, imoral e pouco digna.
A obra de Daniel Santos não é uma coisa e também não é outra. Não glorifica nem denigre. Não é isento – não gosto desta palavra porque ela, a palavra, é desprovida de conteúdo, não tem substância, nem é real. Despiria o autor do seu saber, da sua formação, do seu pensar, do seu cunho pessoal. É objectiva, seria a expressão certa para a classificar.
Mas diria mais! Diria que “Amílcar Cabral – Um outro Olhar” é denso, é substantivo, é real, por isso potencialmente polémico. É também equilibrado, porque rigoroso e profusamente documentado.
Escrito numa linguagem simples sem ser simplista, escorreita, desprovida de qualquer gongorismo ou sociolecto, Daniel dos Santos convida o leitor despretensiosamente a uma permanente reflexão. Na verdade faz uma TAC (Tomografia Axial Computadorizada) centralizada na figura de Amílcar Cabral (AC) em que escalpeliza um homem, um partido e um tempo. Fundamenta-se na vida multifacetada de uma das maiores figuras de África do seu tempo – Amílcar Cabral – para descrever o homem, o político, o diplomata, o chefe militar, bem como social, cultural e historicamente esse tempo – o das independências das colónias portuguesas de África.
O autor divide a sua obra em três partes. O nome que dá a cada uma e as razões que estão na base desta sua organização são explicadas e descritas nas 1ª páginas. Em contrapartida separa a vida do “biografado” em cinco fases cronologicamente estabelecidas, a saber: Conformista; Contestatário; Revoltado; Nacionalista e Revolucionário desfazendo desta forma a ideia de que Cabral “nascera” político, ao mesmo tempo que deixa intuir que ele se tornara político por efeito das circunstâncias e da sua sensibilidade porque na verdade o que ele sonhava, era ser um poeta de mérito e um reconhecido engenheiro, segundo confessaria.
Para descrever estas fases, o autor percorre a vida de Amílcar Cabral desde o nascimento em Bafatá, Guiné-Bissau em 1924 passando pelo seu assassínio em Conacry em 1973, indo para além da sua morte com a proclamação da independência da Guiné-Bissau e até quando, diz ele, um grupo declarando-se herdeiro do seu legado político e reivindicando a legitimidade histórica da sua luta, instala em Cabo Verde, (cito-o): “… um modelo de Estado da mesma igualha que o de Oliveira Salazar.” E explica (continuo a citar): “As semelhanças são enormes: ambos se baseavam no partido único, no chefe, na polícia política, na estatização da economia, na ideologia, no monopólio das forças armadas e dos meios de comunicação social.” (Fim de citação).
Nada escapou ao olhar atento do investigador político e do antigo jornalista. Do país ele aborda com clareza e com rigor científico o seu achamento, o seu povoamento, a sua colonização, o seu “colonialismo”, cruzando e confrontando inteligente e assertivamente teorias, doutrinas e conceitos − jurídicos, sociológicos, históricos, culturais − concluindo convergentemente com Cabral de que Cabo Verde era uma colónia sui generis porque “tecnicamente sem colonização e sem colonialismo”. Cabral diria para culminar uma intervenção a este propósito: ”Os tugas adoptaram outra política: [Em Cabo Verde] todos são cidadãos.” Isto tudo para enquadrar e distinguir, diferenciar, as razões da luta em Cabo Verde e na Guiné.
Ao percorrer a vida de Cabral, Santos não esquece, antes, realça o facto de AC não obstante ser filho de um homem culto e professor só ter feito a 4ª classe aos 13 anos, na Escola Central da Praia. Aqui abro um parêntese para um comentário pessoal, extra-livro, e fazer o ingrato papel de advogado do diabo: Juvenal Cabral, pai de Amílcar, teve cerca de 3 dezenas de filhos – 18 com as suas 3 principais mulheres – o que seguramente não lhe dava tempo para cuidar deles todos. Isto deve ter marcado profundamente o menino e depois jovem, e mesmo o homem, Amílcar Cabral, o que o leva a manifestar (poesia e cartas) uma permanente protecção e um exacerbado carinho pela mãe e a condenar com uma violência inaudita, até com alguma deselegância e falta de tacto diplomático, a poligamia, quando diz: “Que está de facto, profundamente convencido de que é indigno para a espécie humana um homem ter várias mulheres.”
Ofendia desta forma, pela linguagem que utilizou e não pela condenação da poligamia, o povo do País que o acolheu, o mundo muçulmano e a cultura generalizada de África. Cabral viajava com dois nomes falsos (ambos com passaportes de países muçulmanos, um de Marrocos em nome de Mohamed Benali, outro da Guiné-Conacry em nome de Ousman Keita). Não me vou alargar sobre este facto. Fecho o parêntese.
Pois bem, AC lá fez o Liceu com distinção – 17 valores – no Gil Eanes de S. Vicente para onde se deslocara com os seus três irmãos e a mãe que teve que trabalhar duramente – ganhava 50 centavos por hora na fábrica de conserva de peixe, quando havia peixe – para manter a família monoparental uma vez que o pai durante todo o tempo – 7 anos – absolutamente nada enviara.
Depois de um ano a trabalhar na Praia, segue para cursar agronomia. Daniel dos Santos aproveita com muita oportunidade o tempo em que Cabral se encontra em Lisboa para descrever com suficiente minúcia o ambiente estudantil dos oriundos das então colónias bem como a sua relação com a Casa dos Estudantes do Império – CEI – que dava os seus primeiros passos.
Cabral chegou a Lisboa em 1945 – com 21 anos – pouco mais de um ano depois da criação da CEI. Também fim da 2ª Grande Guerra, que, como se sabe, traria alterações significativas na situação das colónias; ano da criação da ONU. E já agora, acrescente-se – e não é despiciendo – auge da repressão salazarista.
E foi seguindo o seu percurso, as suas relações com a “CEI” e com os principais protagonistas do ambiente estudantil africano do qual Daniel faz uma bem articulada exposição da evolução da “Casa” como espaço criado pelo Estado Novo (Ministro do Ultramar Vieira Machado e Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa Prof. Marcello Caetano – autor dos estatutos da CEI) para integrar e controlar os estudantes ultramarinos – dispersos em inúmeras associações – evolução, dizíamos, primeiro para um centro de consciencialização da cultura africana, isto é, como disse Tomás Medeiros como um local de “busca da re-africanização da identidade e das raízes” ou como avançou Frantz Fanon «quebrar a máscara branca» uma vez que o antilhano considerava que o colonialismo é um processo de alienação que inferioriza o colonizado porque faz dele cópia, em termos culturais, do colonizador e, posteriormente, de politização das consciências.
Assim dito, parece que tudo começou com a CEI. Não, nada disto. E Daniel dos Santos expõe-no com clareza e oportunidade. Vai mais atrás, insere na sua análise toda, e não é pouca, actividade africanista que se dá com a queda da monarquia e o advento da república.
Refere-se ao surgimento de uma actividade político-jornalística intensa e muito abrangente, com a criação de várias associações e organizações que lutam pela igualdade de negros, mestiços e brancos, por uma “Uma África para os Africanos”, aproveitando-se do pan-africanismo de Garvey e Du Bois e dos protagonistas dessas actividades em Portugal e colónias, salientando o papel dos cabo-verdianos Augusto Vera Cruz e dos irmãos Luis e Martinho Nobre de Mello.
A passagem de AC pela CEI não foi relevante. Por um lado porque a princípio AC estava muito mais focado nos seus estudos do que em qualquer outra coisa. E a sua aparição na Casa, diz-nos Daniel dos Santos, só se dá em 1949, quase no fim do curso, pelas mãos de Marcelino dos Santos e depois da chegada de Mário de Andrade (1948). A CEI, nessa altura, segundo Mário de Andrade [apenas] se preocupava com problemas que estivessem ligados à geografia, à linguística e à história da colonização. E parafraseando o autor que cita Óscar Oramas: “Amílcar não tinha formação nem preparação teórico-ideológica para rejeitar os valores e a cultura portuguesa”. (Fim de citação).
O surgimento (na clandestinidade) em 1951, do Centro dos Estudos Africanos (CEA), na Rua Actor Vale, 37, em Lisboa, veio dar seguimento ao trabalho cultural iniciado na “Casa” e que não podia continuar porque ela era dominada pelos filhos dos ricos colonos, sobretudo angolanos, que, obviamente, não deixavam espaço para essas actividades. O CEA era dominado pelo santomense Francisco José Tenreiro que era de entre todos, de longe o mais bem preparado, com obras já publicadas. É este o período em que Daniel dos Santos classifica AC de “contestatário”.
E para terminar esta fase da vida de Amílcar que o autor descreve e analisa de forma exaustiva, não posso deixar de referir, muito rapidamente, como começou, segundo Daniel Santos: Amílcar considerou-se sempre GUINEENSE durante toda a guerra para a independência. E os senhores perguntar-me-ão: E não era guineense? Claro que era! Mas só foi estudar porque o reitor do Liceu de Gil Eanes, Dr. Luis Terry, lhe concedeu (discricionariamente) uma pequena bolsa de 350$00 mensais que era manifestamente pouco. Chegado a Lisboa, a CEI que tinha na sua direcção Humberto Duarte Fonseca, um cabo-verdiano e a chefiar a sua Secção de Cabo Verde, obviamente, outro cabo-verdiano, Aguinaldo Veiga abriu concurso para uma bolsa para os naturais de Cabo Verde a que Amílcar Cabral concorreu e ficou em primeiro lugar. Era uma bolsa de 450$00 que iria acumular com a de 350$00 do Liceu. Humberto Fonseca ainda faria várias diligências junto do Instituto Superior da Agronomia e do Ministério da Educação para que lhe fosse concedida isenção de propinas que não era compatível com a condição de bolseiro, conta-nos Daniel dos Santos. E foi, graças ao empurrão destes dois cabo-verdianos, e ao seu fechar de olhos à sua naturalidade que ele ganhou condições para fazer o curso tendo depois escolhido a Guiné para começar a trabalhar. Aliás, ele nunca trabalhou em Cabo Verde depois de formado.
Antes de partir, ainda no ano em que se formou, 1952, com 15 valores, publicaria o “Apontamentos Sobre a Poesia Cabo-verdiana” no Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação onde estabelece um paralelo entre os Claridosos e os predecessores. Dizia que o advento dos Claridosos tinha tirado a poesia cabo-verdiana dos céus e tinha-a colocado na terra: “Cabo Verde já não era o Jardim Hesperitano mas um país real, de gente com problemas” e, continuo a citar: «onde as árvores morrem de sede, os homens de fome, a esperança nunca morre» … «e o mar a estrada da libertação e da saudade». (Fim de citação)
É ainda nesse ano de 1952 que Mário de Andrade e Francisco Tenreiro publicam “Os Cadernos da poesia Negra de Expressão Portuguesa” que para alguns constitui um marco na afirmação da personalidade africana em terras portuguesas. Foi altura, diz-nos Santos, em que Cabral descobre o Pan-Africanismo de Du Bois e Washington e o Movimento Negritude de Senghor, Césaire, Anta-Diop e outros.
Na Guiné, Cabral desenvolve um extraordinário trabalho técnico merecendo a apreciação do Governo da Guiné do qual teve sempre boas referências. Mesmo depois de tentar fundar uma Associação, espante-se (!) em que exclui cabo-verdianos e europeus. Longe devia estar a ideia da unidade!...
É claro que os estatutos não passaram apesar da simpatia que o Governador Mello e Alvim, um homem de ideias liberais, tinha por ele. Mais: Mello e Alvim tê-lo-ia repreendido e dado conselhos de que Cabral mais tarde agradeceria e dos quais nunca mais se esqueceria.
Cabral deixa a Guiné em 1955, evacuado com paludismo e não expulso como se tenta fazer passar, di-lo e prova-o Daniel dos Santos. Durante o tempo que esteve na Guiné teve oportunidade de assistir a espancamentos, torturas, maus tratos de indefesos «indígenas». Numa palavra: De viver e testemunhar a violência do colonialismo. É a fase de revoltado, segundo Daniel dos Santos, que a explica com pormenores.
Até 1959, esclarece-nos Daniel dos Santos, «a folha de Amílcar Cabral na PIDE estava completamente limpa».
Da Guiné salta para Angola para onde fora trabalhar num projecto ligado ao mapeamento de solos. Ali ele tem contactos com activistas e nacionalistas angolanos, mais politizados (numa fase mais madura) e mais bem preparados. Toma consciência da luta que é necessário travar, merecendo de acordo com a entrevista concedida por Tomás Medeiros a Daniel dos Santos o seguinte comentário (cito): [AC] «só começa a falar de independência quando foi a Angola trabalhar em Cassiquel. E Mário de Andrade fez-lhe ver que a «vida não é só solo, é mais qualquer coisa.» E acrescenta Tomás Medeiros: «perdeu as ilusões do solo e passou a perceber que o problema estava na organização e no combate.»
Isto, e explicações mais acabadas que encontramos ao longo do livro desfazem o mito, engendrado e alimentado no seio do PAIGC de que AC esteve na fundação do MPLA. AC nada tem a ver com a criação do MPLA. Ele, AC, politizou-se em Angola, com angolanos e não o inverso como o demonstra Daniel dos Santos. É o período em que o classifica de nacionalista.
Quando se dá a revolta dos estivadores do cais de Pidgiguiti em 1959, Cabral estava em Angola, de regresso para Portugal tendo tomado conhecimento da ocorrência pelos jornais. Visita a Guiné passado um mês, em Setembro, não lhe faltando informações sobre os acontecimentos, uma vez que o seu amigo Aristides Pereira por onde passavam as mais secretas e confidenciais informações era, sempre de acordo com Daniel dos Santos, o homem de confiança do Governador e do Inspector da PIDE.
Pidgiguiti é mais uma das falácias do PAIGC que durante anos o reivindicou como obra sua, sem nada, absolutamente nada ter a ver com ele. Até porque, como se verá ao longo da obra, PAIGC nem sequer existia.
Em Janeiro de 1960, Cabral viaja para Tunes integrado no MAC (Movimento Anticolonial) fundado em 1957 por um grupo de militantes de luta anticolonial – o 1º compromisso político de AC – para assistir ao II Congresso Pan-africano realizado para os movimentos africanos organizados. Não foram admitidos uma vez que o MAC era uma organização de cidadãos de várias colónias – Viriato da Cruz e Lúcio Lara de Angola, Amílcar Cabral da Guiné, Hugo de Menezes de S. Tomé – e não uma associação de organizações nacionais, como se exigia. Foram obrigados por esse motivo a “inventar” o MPLA e o PAI para poderem participar, aliás indo ao encontro dos desejos e das recomendações de Viriato da Cruz. Ao contrário, Holden Roberto era integrado e já conhecido através da UPA, uma organização nacional angolana que ele presidia. Daniel dos Santos fala então da transformação do MAC para FRAIN (Frente Revolucionária Africana Para Independência Nacional das Colónias Portuguesas) depois para CONCP (Conferência das Organização Nacionalistas das Colónias Portuguesas) e explica com pormenores como foram “criados” e não “fundados” os dois partidos – MPLA e PAI.
Quanto ao PAI ele descreve com toda a minúcia a fabricação da data de 19 de Setembro de 1956 como data da fundação do PAIGC. Apenas para levantar o véu e não tirar-vos o prazer da leitura, direi que, dos chamados fundadores – nomes que variam conforme a fonte – não há duas declarações coincidentes. Apenas dois exemplos de dois alegados fundadores: Aristides Pereira disse que Cabral achou, no acto da fundação, que não era preciso assinar nenhum papel de compromisso. O seu cunhado Fernando Fortes, ao contrário, não só disse que assinou um documento, como também disse que falou com Cabral sobre a sua militância no MLG. Acontece, porém, que em 1956, pretensa data da fundação do PAI, o MLG não existia. O MLG só foi fundado em 1958. Como podia ser?
Depois da Conferência de Tunes – um marco importantíssimo não só na vida de Cabral como na luta das colónias – em que ele assinara com o pseudónimo de Abel Djassi, um compromisso, não havia mais condições de Cabral regressar a Portugal onde tinha deixado a família e teve que abandonar a clandestinidade e lançar-se na luta.
Chegou a Conacry em Maio de 1960. Já existiam no terreno muitos partidos (MLG, MLGC e UPGB entre outros) pelo que teve de lutar duramente – nem sempre com elegância e elevação (troca de panfletos e de insultos, conspirações, intrigas) com os partidos concorrentes – para que o seu PAI, que acabara de sair de Tunes – sem expressão, sem quadros e sem estruturas – fosse reconhecido como única força representando Guiné e Cabo Verde.
Em 1963, o PAI já PAIGC dá o seu primeiro tiro. É o início da Luta Armada. E os problemas no seio do PAIGC ganham outra natureza. É a fase de Cabral revolucionário. Tinha sido nomeado Secretário-Geral do PAIGC fora do quadro estatutário por uma Conferência de Quadros em Dakar. A partir daí alterou os estatutos como quis, sem nunca convocar um único congresso e foi-se assenhoreando do Partido.
Em 1964, com a “Conferência de Quadros de Cassacá” mais tarde tornado Congresso, do qual se saíra muito bem, mas deixando atrás “um rasto de um número indeterminado de condenações e fuzilamentos de combatentes e de militantes”.
Reforçou os seus poderes e assumiu-se como senhor absoluto do PAIGC. Passou, desde então, a coleccionar inimigos e adversários internos, todos movidos por um único interesse: o de o eliminar.
E à medida que a luta se ia desenvolvendo mais poderes chamava a si. Tornou-se, diz-no-lo Daniel dos Santos, primeiro, uma espécie de semi-deus em que, cito Maurice Duverger citado pelo autor: “toda palavra que sai da sua boca constitui a verdade; toda a vontade que dele emana é a lei do partido”, e depois em próprio deus que decidia da vida e morte dos militantes e em que até os casamentos careceriam da sua autorização.
Diz um documento do PAIGC, reproduzido no livro, que ele estava acima do Partido e podia por este facto aprovar ou reprovar qualquer decisão tomada por qualquer órgão do Partido inclusive da sua própria Comissão Permanente. Passava a todos, sem excepção, uma certidão de incapacidade e de incompetência.
De tudo isto e do que adiante virá nos dá conta o livro.
Ao mesmo tempo que crescia o seu autoritarismo, o seu absolutismo alegadamente iluminado, engrossavam as fileiras internas dos que o queriam eliminar. Bastas vezes foi posta em causa a sua liderança inclusive pelo seu próprio irmão Luis Cabral, como poderão ver na obra.
Apresento uma lista dos atentados, conspirações, intrigas, intentonas mais importantes de entre os que Daniel dos Santos elenca no seu livro:
• Revolta de Boé (Junho de 1967); - todos fuzilados. As causas residem, alegadamente, na protecção que AC dava aos cabo-verdianos. Nino estaria envolvido mas recusou-se a comparecer ao julgamento para que foi convocado.
• Novembro de 1967, um atentado perto de Ziguinchor
• Em Dezembro de 1967 são os mandingas que se manifestam devido ao número de baixas que sofriam…
• Em Janeiro de 1969 um grupo de balantas em Boé recusa-se a combater exigindo a presença de Cabral.
• Um outro movimento de revolta surge chefiado por Mário Gomes, Braima Sissé e Sena Camará.
• A 3 de Maio de 1968, 150 mandingas chefiados Injai Bá da região de Oio traçaram um plano de deserção para o exército português. A deserção era punida com fuzilamento.
• A 30 de Dezembro de 1968, os mandingas e os manjacos juntam-se e criam a Junta Militar dos Patriotas da Guiné-Bissau com vista a transformar o PAIGC em PAIG. Propunha-se eliminar AC e os seus homens de confiança que, para eles, só vivem roubando o partido. A Junta era dirigida por Mamadu N’Daie, Mamandim Iafa e Bobo Keita, todos Comandantes supremos.
• Em Fevereiro de 1969 atentado contra Osvaldo Vieira desta vez, (supostamente) à ordem de AC que estava convencido de que Osvaldo Vieira e Lourenço Gomes pretendiam derrubá-lo da Chefia do PAIGC.
• A 31 de Março de 1969 um militante de nome Jonjon é surpreendido pelo próprio AC no seu Gabinete com uma granada no bolso para o eliminar como mais tarde confessaria. Foi fuzilado com os seus cúmplices.
• Em Outubro de 1969, Malam Sanhá, Seco Baio e outros guineenses reuniram-se em Simbeli com o propósito de urdir um atentado para eliminar AC quando este para lá se deslocasse;
• Um outro plano para eliminar AC é conhecido em 1969;
• Em 1972, um ano antes da morte de AC também um conluio (Cabi de etnia balanta e Caetano). Tratava-se de uma cilada que consistia em minar a estrada por onde AC iria passar.
• Carta do Nino Vieira a Rafael Barbosa que foi interceptada e os seus efeitos: Conselho de Guerra para Nino demitido de todas as suas funções e 40 militantes presos para averiguações.
Perante esta enumeração (elencagem), que peca por defeito, hoje, podia-se perfeitamente ter pedido emprestado a G. Garcia Marquez o título de um dos seus mais famosos livros: “Crónica de Uma Morte Anunciada”, morte esta que viria a acontecer a 20 de Janeiro de 1973.
O que intriga, e Daniel é absolutamente claro quando o insinua, é que perante os factos e o historial, ainda permaneça em certas pessoas a fixação de que os autores morais do bárbaro assassínio tenham sido apenas a PIDE e o Gen. Spínola quando não faltavam agentes e motivos internos. Ou é comodismo, preguiça de pensar ou é ignorância sobre o que se passava no interior do PAIGC, o que seria natural dada a situação de guerra e natureza estalinista do Partido. Ou então seria mais uma fabricação do real como veremos adiante.
Para chegar ao assassínio de Cabral, Daniel percorre a luta e o Partido de lés-a-lés: a sua génese, o seu desenvolvimento, os seus sucessos, os seus fracassos, as suas estratégias e tácticas, as suas falácias, os seus momentos de elevação mas também de indignidade.
Nada, absolutamente nada, escapa ao olhar de lince, perspicaz, cuidadoso e abrangente do político e politólogo, olhar este que se projecta para além da vida do criador do PAI.
Desde a maneira autocrática, despótica e absolutista como Cabral conduziu o seu Partido, até à criação de um poderoso e bem organizado exército passando pelas intrigas, conspirações, choques, oposições de que atrás falámos.
Daniel dos Santos confronta ainda, com subtileza, a presença de cabo-verdianos na luta armada, segundo ele, de 30 a 40, com a dos cubanos que chega a atingir os 500 no ano de 1967, bem como os mortos em combate – 2 da parte dos cabo-verdianos e 17 da parte dos cubanos.
(A srª Ministra das Finanças que se cuide!…Se os cubanos reivindicarem também terem lutado na Guiné por Cabo Verde não haverá erário que aguente…).
Daniel faz também uma oportuna e bem articulada incursão pela História comum de Cabo Verde e Guiné abordando a questão da “fraternidade” entre os dois povos deixando ao leitor a incumbência de concluir que, se os dois povos são irmãos, então são os bíblicos Caim e Abel – os irmãos desavindos, uma vez que se trata de uma relação histórica, como ele próprio observa, entre “dominador e dominado”. Daí se poder inferir que a dogmatização da unidade Guiné - Cabo Verde, maquinada e sustentada por Amílcar Cabral ou é um desafio à História que foi sempre adversa a essa solução ou não passou de um instrumento habilmente urdido para a consecução da luta para a independência da Guiné-Bissau.
A questão identitária não foi também esquecida. Sem entrar em grandes pormenores, direi que Daniel dos Santos assume uma posição que considero salomónica, de equilíbrio: Não temos que nos re-africanizarmos nem de nos re-europizarmos. Somos cabo-verdianos, fruto do encontro dos dois continentes e respectivas culturas.
Lembrando o grande poeta, ensaísta e jurista Gabriel Mariano: Não temos que procurar as raízes, “nós somos as nossas raízes!”
Retomando o conteúdo da obra é importante salientar que o livro de Daniel dos Santos é construído como se de um puzzle se tratasse. Um puzzle cujas peças se encaixam de múltiplas maneiras. Tantas, quantas as conclusões a que cada leitor poderá chegar. Um puzzle em que cada peça que se coloca é um mito que se desfaz na nodulosa edificação construída no aconchego de um conceito marxista-leninista de ideologia que Daniel dos Santos tão arguta e inteligentemente repescou de Mário de Andrade e que consiste na “fabricação do real para fazer passar uma verdade” que se deseja ou que convém. É isto, diz-nos Daniel dos Santos, cito: “que serve para explicar, por completo, a apropriação, umas vezes, a falsificação, noutras, de muitos acontecimentos que marcaram a evolução de alguns processos políticos nas antigas colónias portuguesas." (fim de citação).
É neste quadro que situaremos a falácia da data de criação do PAIGC; a apropriação da greve dos estivadores de Pidgiguiti; a mentira do controlo dos dois terços do território; o embuste do recenseamento da população da chamada zona libertada; a apropriação da autoria da queda do helicóptero onde viajavam deputados portugueses quando a causa tinha sido unicamente meteorológica; a teatralização (publicidade enganosa) da audiência pública do Papa Paulo VI tornada privada; a exultação em Conacry dos irmãos Cabral pelo bárbaro assassínio dos três majores portugueses; a proclamação da independência da Guiné-Bissau pretensamente (há fortes dúvidas do local) em Boé; e a alegada legitimidade histórica transferida para Cabo Verde por um grupo de cabo-verdianos que lutaram para a independência da Guiné-Bissau entre muitos outros assuntos cirurgicamente inseridos.
Daniel dos Santos é lógico, sem ser silogístico no sentido aristotélico do termo. No geral evitou conclusões. Diria que é socrático quanto à metodologia de exposição; mais propriamente maiêutico pois fornece dados e convida o leitor a tirar as suas próprias ilações. Daí que as minhas não são unívocas. Um outro leitor aportará seguramente a outras inferências. Contudo há sempre algumas que se consideram (ou parecem ser) consensuais, não unânimes. E são a estas, sem quaisquer pretensões de estar certo, que me vou rapidamente referir:
> Amílcar Cabral viveu apenas 10 anos em Cabo Verde – dos 11 aos 21 – anos que, como é lógico, poderiam ter (e terão) sido de algum enriquecimento intelectual e social mas dadas as limitações e as circunstâncias que se viviam é de pouco ou nula relevância social – apenas um ou outro exercício literário. É esta a fase que Daniel classifica de conformismo;
> Surge [AC] em Cabo Verde, para o povo cabo-verdiano, (não para a elite informada) trazido pelo “25 d’Abril” e pelas mãos de um punhado de homens e mulheres que tinha todo o interesse em endeusá-lo e mitificá-lo para se legitimar como herdeiros do seu alegado “extraordinário” legado histórico colocando-o directa, mas sobretudo convenientemente, no “Panteão” por uma unanimidade imposta e sem um debate sério sobre ele, que promovesse, no mínimo, um consenso; (estatisticamente, a unanimidade é quase sempre uma imposição enquanto o consenso é uma construção).
> Consenso de que ele não gozava como líder – é bom que se diga – entre os dirigentes guineenses como a obra de Daniel dos Santos revela; e do qual, pelos vistos, só se redimiu com a morte, que o resgatou. Basta ver a quantidade de responsáveis guineenses implicados no seu assassínio.
> Que a luta desenvolvida na Guiné-Bissau, utilizando as justificações e os discursos de Cabral, tinha muito mais um cunho, um cariz, anticolonialista, de mera luta pelo poder, do que nacionalista – defesa de um ideal, de valores.
> Amílcar Cabral não teria lugar no Cabo Verde de hoje. A concepção monolítica que ele tinha de poder, da sociedade e da política são absolutamente incompatíveis com a democracia (sem adjectivos), com os valores e as actuais aspirações do povo cabo-verdiano;
• O livro de Daniel dos Santos reclama de nós uma profunda reflexão sobre a verdadeira contribuição desse homem – Amílcar Cabral – no processo político cabo-verdiano;
• É também um convite a um debate sério sobre o mérito ou demérito do seu lugar no “Panteão” e sobre a “fundação” de uma nação que há mais de 450 anos existe e que como tal, como nação, fez a 1ª reivindicação dos seus direitos cívicos em meados do seculo XVI no longínquo reinado de D. João III.
• É (o livro) um desafio à mitificação, ao culto da personalidade, idiossincrático dos regimes totalitários e ditatoriais de que guardamos evidentes resquícios e produzimos primárias e grotescas manifestações;
• É ainda (o livro) um forte apelo a uma discussão urgente, há mais de 40 anos adiada. Não apenas das teorias ou do pensamento de Cabral mas do seu efectivo papel na independência do País.
Parabéns, pois, a Daniel dos Santos pela ousadia de “UM OUTRO OLHAR” sobre Amílcar Cabral, um olhar que desacomoda, um olhar através deste importante, interessante e, desde já, incontornável documento para o conhecimento da História de Cabo Verde. Uma contribuição que acaba de preencher uma boa parte de uma grande lacuna que teimosamente se tem conservado e que nem o advento da liberdade e da democracia, onde não há temas tabus, nem personalidades ou figuras inquestionáveis, conseguiu colmatar.
É este o livro de Daniel Santos que tenho o privilégio e a honra, e também o prazer, de vos apresentar – uma tarefa difícil dada a sua extensão (quase 600 páginas) e densidade – cuja leitura, a todos, recomendo vivamente.
Apresentação do livro "Amílcar Cabral - Um Outro Olhar" de Daniel dos Santos
sábado, 6 de setembro de 2014
O João e o seu violão - A saudade...
sábado, 12 de julho de 2014
Conheci o meu cunhado João - de seu nome completo: João de Deus Maximiano - nos anos 60, do séc. XX, quando ele chegou aos Mosteiros, na ilha do Fogo, e aí fora colocado como Chefe do Posto Administrativo. Ele era funcionário da então Administração Civil.
João entrou para a família em 1965, quando se casou com a minha mana mais velha, Maria Tereza. A partir daí foi mais um irmão que adquirimos. Isto faz unanimidade ente nós irmãos, e seus cunhados.
Mas antes de continuar, gostaria de recordar, a propósito do João, de uma exclamação feita com graça, por uma tia nossa, nos Mosteiros, quando desembarcou o então jovem Chefe de Posto da região. Ela, a tia, virando-se para o marido (irmão do meu pai) disse: “Que interessante! Uma coisa estranha, Armando! Este novo Chefe de Posto desembarcou com o seu violão!”
Mais tarde, esta “estranheza” da tia ganharia para mim, uma dupla significação, a um tempo real e simbólica.
Explico-me melhor: de facto, era assim o João, uma pessoa simples e discreta no seu estar. Muito cordata no trato social. Era também alguém desprendido, em termos de bens materiais.
Para além do mais, o João era de uma seriedade à toda prova, naquilo que respeitasse ao seu trabalho, à função, ou cargos que ele desempenhou ao longo da vida, com altas promoções por mérito do seu empenhado labor. Entre outros cargos, destacarei os de Administrador do Concelho e presidente da Câmara da ilha do Sal, na década de 60 do século passado. Mais tarde, nos anos 80, o de Secretário – Geral do Governo e o de Secretário de Estado da Administração Pública, já com Cabo Verde independente. Uma vida feita e dedicada ao trabalho!
O que me admirava também no meu cunhado era a sua arguta inteligência. Sempre bem preparado para escutar, discutir, analisar e opinar com o seu bom senso, assuntos de natureza vária. Um homem que se cultivava através da boa leitura. Aliás, os presentes por ocasiões especiais e que trocávamos entre nós - eram regra geral, livros.
Outrossim, havia nele, fazia parte da sua maneira de ser, um permanente desejo que demonstrava em encontrar a conciliação, o ponto de equilíbrio, quando o assunto assim pedia ou, porque se apresentava de difícil solução, ou de delicada negociação. Ele era um conciliador nato!
Mas hoje queria aqui recordar a sua faceta de homem amante da música.
O João e o seu violão. Uma imagem de marca para nós, a família. Ele tocava violão e não o dispensava quando estava em família, nos nossos convívios, nas nossas celebrações, entre amigos. Não sei se isso seria um traço dos rapazes de S. Nicolau da geração dele e da nossa sociabilidade, pois que quase todos tocavam ou tocam violão. Daí que diria, ou seja tentada a dizer, que os homens dessa ilha cultivavam esse instrumento musical.
O meu cunhado, como já o disse aqui e volto a reiterar, era aficionado tocador de violão. Creio que desde muito novo. Ele era um dos tocadores indispensáveis nas festas familiares, nas nossas tocatinas. O João que com mais amigos e familiares músicos, se juntavam para, não só executarem instrumentalmente, mornas, canções brasileiras, fados, e outro tipo de melodias, como também, para acompanharem os cantores e as cantoras ou melhor, as cantadeiras de ocasião, em que me incluía.
De modo que foram muitos anos, a cantar, acompanhada ao violão pelo João e demais amigos, qualquer deles, grandes violões.
Claro, que me custa ainda falar e recordar tudo isto. Um ano se passou que ele já não se encontra entre nós! É que a morte fez calar também os acordes que ele tirava do seu violão, com que muitas vezes, nos brindava quando íamos à casa dele, ou ele à nossa...
Ficam as boas memórias que do nosso João conservamos! A partida dele deixou uma grande saudade em toda a família! Uma ausência que não se colmata. Alguém que recordaremos sempre com um grande afecto!
Aprendendo sempre...E todos os dias!
terça-feira, 8 de julho de 2014
Aqui há dias assisti na Biblioteca Nacional da nossa capital, um Fórum sobre a “Morna na sociedade cabo-verdiana” (uma achega à sua candidatura a património imaterial da Humanidade). Devo informar que o Fórum foi organizado pelo Orfeão da Praia. Trata-se de uma Instituição privada que tem feito um trabalho deveras interessante sobre a nossa música, ênfase para a morna, através de espectáculos e de eventos musicais pelas ilhas e fora do país, sob a batuta do Maestro e musicólogo, Eutrópio Lima da Cruz.
Desafiada pelo convite da minha querida amiga e colega Maria Cândida Gonçalves, infatigável, diligente e entusiástico elemento do Orfeão da Praia, lá fui. Fui e confesso: gostei. Gostei do que escutei dos conferencistas da mesa e gostei igualmente de algumas intervenções havidas e saídas da plateia, que foram acrescentos, mais-valias, ao tema em debate. Dessas intervenções, o «Coral Vermelho» já registou uma, por amabilidade do seu autor, Carlos Filipe Gonçalves.
Ora bem, daquilo que escutei dos oradores da mesa e dos músicos que da plateia assistiam e participavam no fórum, alguns temas prenderam a minha atenção, que aqui vou abordar sem quais quer preâmbulos:
1-O meio-tom da estrutura básica da morna: Sobre o tal “meio-tom” no compasso da morna, cuja existência se vem atribuindo ao longo do tempo, ao genial B. Léza, esclareceu-nos Henrique Oliveira, o nosso Djick, que não há autoria para tal. Isto é, o chamado meio-tom da morna, ou tom de passagem, é uma exigência do próprio ouvido humano. Logo, não se trata de descoberta alguma de qualquer compositor. E exemplificou: já muito antes, na Brava, as mornas de Eugénio Tavares, na dupla, letra do poeta e música de José Medina, esse compasso já lá estava. Mais acrescentou Henrique Oliveira, Djick, que a distinção de B. Léza, neste particular, é que ele praticou com a mestria que se lhe conhece, usando e, por vezes; “abusando” com frequência e excelência do meio-tom, cujo exemplo máximo é a morna «Talvez». Lindíssima, mas também de difícil interpretação vocalizada, exactamente, por causa dos muitos “meios-tons” que a melodia comporta.
2-O desaparecimento da coreografia O desaparecimento da coreografia que acompanhava a morna dançada, no “antigamente da vida” que hoje já não se vê nos bailes que, aliás, Carlos Filipe Gonçalves, no texto aqui publicado, tão bem explicou. No entanto, sempre acrescentarei das minhas memórias da juventude que, quando num baile se tocava a morna, esta, era a dança reservada aos “crectcheus.“ Isto é, o par masculino, ía logo à procura da sua dama querida, noiva ou namorada, ou ainda, pretendida. Para a «pôr ao peito». Porque a dança da morna supõe alguma intimidade, algum deleite poético, acrescentado pela proximidade dos corpos do par. Pois é, parece que actualmente já não vigora nas festas. Aliás, questiono se ainda se dançará a morna(?) entre nós…
E a propósito do modo de dançar da morna, o Djick, contou-me uma historieta muito engraçada que se terá passado na ilha Brava e que ele presenciou.
Regressado em férias, à ilha natal, vindo de S. Vicente, onde estudava, foi levado por um tio a uma festa em Nova Sintra. Entrados na sala do baile, no momento em que se tocava uma morna (um conjunto de violino, viola braguesa, violão, e cavaquinho - era música ao vivo - notaram ambos, um par jovem, estudantes, igualmente regressados de Mindelo que ocupavam um largo espaço da sala, fazendo ele e ela, uma estranha coreografia ao dançar a morna. Um misto de “rock and roll” e de foxstrot” como que para mostrarem aos locais, que eles sim, eles sabiam outras danças aprendidas em S. Vicente, a ilha mais “adiantada” e cosmopolita, com cinema, vapores na baía, estrangeiros em terra e tudo que a Brava não possuía…
Passados uns segundos, o Djick, vê o tio zangado, a dirigir-se ao par. Tomou a dama, “pô-la ao peito” e mostrou ao jovem, falando e exemplificando numa lição de passos, como se devia realmente dançar a morna. A lição de dança foi dada em crioulo: “um pé diante, um pé trás, trá pé, pô pé, pára pé, deixa’l fica la mé” e assim por diante… numa tentativa de impor algum respeito pela coreografia da dança da morna ao dito par, que acabou por acatar o saber do mais velho.
3 – As três toadas: Outra questão trazida aos participantes do Fórum foi as três toadas distintas da morna e já aceites pelos músicos nacionais. A saber: a toada da Boa Vista, a toada da Brava e a toada de S. Vicente.
O músico Eutrópio Lima da Cruz, que na minha modesta e quase ignorante opinião (apenas canto em casa, claro! mornas antigas) tem vindo num refinamento e numa sofisticação, percebe-se isso no canto do orfeão da Praia, a aproximar as mornas que executam a um tom de música considerada clássica. Explicou ele que a morna sofreu uma evolução notável. Terá feito uma espécie de “caminhada” musical, vindo de melopeia ou de melopeias, passando por várias fases e atingindo a fase de melodia dita clássica, tal como nós hoje, a conhecemos.
3-S. Vicente e os seus músicos: Humberto Bettencourt Santos, o nosso Humbertona, conhecido e apreciado violão, trouxe a questão da música desenvolvida em S. Vicente, destacando os grandes músicos de um tempo passado e falando sobre a influência da música brasileira na época (anos 40 e 50 do séc. XX) em Mindelo. Claro, que as referências ao incontornável B. Léza, não faltaram.
Sobre o caso particular do músico, Luiz Rendall, afirmou Humberto Santos que se ele é conhecido e se tornou mestre no violão, foi por causa dos seus célebres “choros” de violão muito ao compasso e numa linha de interpretação, ao estilo do “choro” brasileiro. Claro, com a adequação, a adaptação e a já originalidade, do grande violão que foi Luiz Rendall.
4 – Unanimidade: A unanimidade das intervenções recaiu na questão do grande “trabalho de casa” que terá de ser feito em Cabo Verde, para que a morna atinja o tão almejado reconhecimento. Todos, ou quase todos os intervenientes, lamentaram que as nossas rádios e televisões, passem ou transmitam muito pouco, a morna! Que a nova geração não tenha sido educada musicalmente no gosto pela morna! Quase que a não ouvem em solo nacional!
Enfim, foram apresentadas muitas e boas achegas à causa da morna para a sua candidatura a património imaterial da humanidade.
Morna hoje - Novos caminhos ou preservação do passado?
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Este foi o tema apresentado pelo jornalista Carlos Filipe Gonçalves no I Fórum Nacional – A Morna na Sociedade Cabo-verdiana realizado na passada sexta-feira, 27 de junho na Biblioteca Nacional, na Praia. Uma análise da realidade actual, que levanta muitos questionamentos num momento em que se prepara a candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade.
A Morna traduz, a grande sensibilidade do cabo-verdiano. A Morna canta o amor, o ciúme, a gratidão e a saudade, dos que partiram e dos que ficaram. Muitos estudiosos são unânimes em dizer que o cabo-verdiano, não conseguiria viver sem a Morna. B.Léza no seu livro “Uma partícula da lira cabo-verdiana” escreveu: “Há só uma terra que conhece a «Morna» e só um povo conhece-lhe os versos – Cabo Verde e o cabo-verdiano. Por isso ao cabo-verdiano, é dado comover-se ouvindo uma «Morna» quer em Cabo Verde quer longe dele, porque só a ele é dado a conhecer, sentir, interpretar, a alma da sua terra.” Outros poetas e autores dizem o mesmo por outras palavras. “ (...) expressão da alma de um povo” definição dada pelo poeta Gabriel Mariano; Pedro Cardoso poeta e investigador afirma, a Morna “ (...) polariza em ritmo a alma cabo-verdiana”. Armando Napoleão Fernandes, investigador, no seu Dicionário do Crioulo - Português, definiu a Morna como “canto e dança, em compasso quaternário, empregnado de melancolia, em que o povo soluça e canta o seu pesar, a sua tristeza e o seu queixume, em tom plangente, dolente e soluçante”.
A Morna a partir dos anos 1990 ultrapassou os dez grãozinhos de terra no meio do mar e conquistou o mundo através da Cesária Évora o que constitui motivo de orgulho de todos os cabo-verdianos. Mas, há ao mesmo tempo, um sentimento de que algo não está bem. Mas, em finais dos anos 1970, também algo não estava bem, nessa época Manuel de Novas compôs a Morna “Hoje tud got pintode é compositor” e também antes, meados dos anos 1950 algo não estava bem e ainda antes disso também há notícias de que algo não estaria. Ou seja, ao longo dos anos, ao lado de grandes compositores, grandes composições que marcam uma época ou um período, têm-se verificado ciclicamente movimentos de alerta para a preservação da «pureza» da Morna.
Passo agora a analisar alguns factos/ocorrências, como um observador distanciado. Vou apenas observar, constatar o que se tem passado, o que me chamou atenção:
1 - A dança na Morna foi desaparecendo e acabou por desaparecer pura e simplesmente. Hoje a Morna nem é coreografia que seja utilizada nos espectáculos, pois nestes, têm sido utilizadas coreografias mais vistosas, como a Mazurca, Kolá, Batuque e Funaná. Até o início dos anos 1970, era tradição terminar um baile com uma rapsódia de mornas, e o ponto final num baile era sempre com a tradicional Manchê, uma composição do final do século XIX. Até um passado recente, digamos meados dos anos 1980 a dança da Morna ainda estava presente nos bailes de conjunto. Com o desaparecimento do baile no sentido clássico e a evolução do conjunto musical a dança da Morna, foi caindo em desuso.
Façamos agora um flashback se me permitem. Descrições mais antigas dão-nos uma ideia de como a Morna foi num passado recente um género musical sempre presente nos bailes. O autor Desiré Bonnaffoux no seu trabalho intitulado “Música Popular Antiga de Cabo Verde” (1978) dactilografado, depositado na Sociedade de Geografia de Lisboa, diz e citamos: “é nos bailes que a música popular de Cabo Verde encontra a sua expressão máxima” e assinala que na primeira metade do século XX “Na Boa Vista, a Morna é tocada nos bailes que duram desde as nove ou dez horas da noite até o nascer do Sol ou mais tarde.” Osório de Oliveira, no “Posfácio Alheio – Uma Poesia Ignorada” pág. 131, da obra “Eugénio Tavares Poesia Contos Teatro”, ed. ICL, 1996, refere em 1931, os “chamados «bailes nacionais» em que dançam e cantam mornas” e indica que “a morna é uma dança de sala”.
2 – Ao longo da sua existência a Morna teve várias candências/ritmos e podemos dizer sem medo várias formas. Conforme a época, ou o período, assim tivemos um andamento para este género musical e uma percepção para a sua forma, que entretanto foi evoluindo. Uma dessas mudanças foi assinalada no Boletim de Cabo Verde, N.º 66, Praia, 1 de Março de 1955,no artigo “A Morna Deturpada” de Ângelo Lima (grande tocador de violão, originário da Boa Vista) no qual critica “ (...) o errado emprego de instrumentos impróprios à parte cantante (banjos, cavaquinhos e outros similares) e acompanhamento inadequado (batimento forte nas cordas e variações constantes com sabor a batucada brasileira).” Note-se, Osório de Oliveira, citado anteriormente, referiu em 1931 que “A orquestra é constituída por músicos amadores, que tocam de ouvido e se servem da flauta, da rabeca, da viola e do violão.” Como se depreende desta descrição o cavaquinho antes não era utilizado ou era pouco. Aliás, Desiré Bonafoux, na obra citada refere que “só para lá dos anos 1930 é que se introduziu o cavaquinho”. Um pouco mais tarde vamos encontrar o que tenho chamado “revivalismo” dos tempos de Eugénio Tavares em pleno período B.Léza. Note-se, Ângelo Lima viria a integrar em meados dos anos 1960, o Conjunto Centauros (que não tem cavaquinho) cujo ideário era interpretar fielmente a Morna do período Eugénio Tavares. Este conjunto gravou um disco no qual se constata claramente uma diferença entre o ritmo e andamento em relação por exemplo ao que se ouve nos primeiros discos do Bana, editados naquela época, meados de 1960. Bana é como se sabe um fiel continuador da obra de B.Léza.
3 - Morna sofreu entretanto e até os nossos dias importantes alterações, de ritmo, andamento, utilização de acordes etc. No período pós-B.Léza, de 1960 em diante e continuou a haver inovações. A partir de meados dos anos 1970, pontifica um novo estilo e entretanto pontifica um novo grande compositor que é Manuel de Novas. Meados dos anos 1980, despontam novos valores como Betú e Nhelas Spencer entre outros. E em todo este processo, mais recente surgem outra vez, vozes de alerta, como Manuel de Novas que já referi e mais tarde Ildo Lobo, que várias vezes lançou varias farpas como esta numa entrevista em 2003 à revista Artiletra: “(…) não se pode fugir, ou melhor não se deve fugir ao tradicional. Eu sou contra o zouck (…) só porque é cantado em crioulo, dizem que é de Cabo Verde. Eu pergunto: se eu cantar um fado em crioulo, passa a ser Morna?”
4 – A Morna ao longo da sua história até hoje tem convivido com as mais diversas modas e estilos musicais e tem evoluído neste contexto. O Maestro José Alves dos Reis, no ensaio “Subsídios para o Estudo da Morna”, Revista Raízes N.º 21, Junho de 1984 diz, e citamos “ (...) no século passado (entenda-se século XIX), com a invasão das polcas, mazurcas, galopes, contradanças, lanceiros, danças de roda, viras, etc. ela (a Morna) não se deixou influenciar”. O pesquisador Desiré Bonnaffoux, citado anteriormente, refere o livro “Cabo Verde” de Ernesto Vasconcelos, publicado em Lisboa em 1916, no qual se pode ler que naquela época “dançam-se Mornas que são características de Cabo Verde (…) juntamente com o tango argentino também em moda.” Desiré Bonnaffoux refere que na Boa Vista citamos, na primeira metade do século XX, “Morna e Galopes formavam o reportório dos bailes crioulos, mas também Maxixes, Valsas, Lunduns, Contradanças e Mazurcas” Isto mostra que já naquela época, a importação de música estrangeira (tal como hoje) era uma preocupação.
5 – A partir de meados dos anos 1970 é o tempo da música revolucionaria a que se segue a ascensão de géneros musicais até então marginalizados. Naquela época, finais dos anos 1970 e anos 1980 a Morna, ainda pontifica, ao lado de um movimento forte como o Funaná. A Morna nesta época ainda é dançada nos bailes de conjunto. Carlos Alberto Martins (Catchass) é pouco conhecido como compositor de Morna, dado o sucesso do Funaná. Mas ele compôs belas Mornas, como por exemplo Tó Martins. Obs.: No calor das glórias e sucessos do movimento Funaná, muitas vozes, classificam a música “Tó Martins” como Funaná Lento. Mesmo que tal fosse admitido, esta música é uma Morna e como tal se comporta enquanto, forma musical, outrossim o Funaná possui no seu universo, vários subgéneros, sendo o mais conhecido “Camin di Ferro” que é o Funaná tal como o concebemos. Entre os outros géneros de Funaná, hoje caídos no esquecimento, há a “Morna” que se convencionou chamar “Funaná Lento”, a Machicha, o Samba etc. etc. cf. descrição de Emanuel Antero Garcia da Veiga no artigo “Badjo Gaita’na Ilha de Santiago (1) ”, publicado no jornal Voz di Povo, ed. 14 de agosto de 1982.
6 - Chegam entretanto os anos 1990. É o início da internacionalização da música de Cabo Verde com o Conjunto Finaçon e outros músicos, facto que passa um pouco despercebido em Cabo Verde, pois não havia na época uma noção exacta da amplitude dos acontecimentos musicais protagonizados pelos nossos artistas na Europa. Aqui nas ilhas, estávamos naquele momento ocupadíssimos, primeiro com a democracia e a disputa política que então decorria. Em finais de 1992, Novembro/Dezembro uma digressão de Cesária Évora em França salda-se por um retumbante sucesso com referencias em prestigiados jornais como «Libération» e «Le Monde» ou revistas como o «Nouvel Observateur». Um ano depois, o sucesso de Cesária em França está confirmado, não só pelo interesse que os seus «shows» despertam, mas também pela venda em poucas semanas de cerca de 10 mil exemplares do seu novo álbum «Miss Perfumado» um disco que contém dos mais belos exemplares do género Morna.
7 - Morna o género que esteve na base da internacionalização da música de Cabo Verde, juntamente é claro com a extraordinária voz da Cize, terá lá fora, o mesmo significado que nós lhe atribuímos aqui no país? A percepção da Morna fora de Cabo Verde, por não cabo-verdianos é mesma que temos nós os cabo-verdianos. Vejamos como se viu e se definiu este género Morna a nível internacional quando explodiu o sucesso da Cesária: “Com as suas Mornas, melodias de Cabo Verde de uma nostalgia insondável” – JL ed. 22 Dez. 1992 – citando um artigo publicado pelo jornal francês Nouvelle Observateur ed. de 16 de Dezembro daquele ano. “ (…) mornas, versão africana do fado português, blues atlânticos afogados em melancolia” JL 22 de Dez. 1992. “Música dolente de ritmo quarternário marcada pela nostalgia, a morna, irmã do Fado, é uma das chaves para se compreender a metafisica de Cabo Verde,” jornalista Franck Tenaille, na revista MFI – Media France Internationale ed. 11 Dezembro de 1992. Na revista Telerama – ed. 28 Out. 1992 “elle chante des Mornas, ces berceuses balancées du Cap Vert” – trad. Ela canta Mornas, canções de ninar de Cabo Verde. Revista Voici n.º 266 ed. 14 a 20 Dez. 1992 – “ Cesária Évora – dit Cize pour les amis – (…) chante la morna, longue plainte, déchirante comme un fado mêlé de mambo e de samba. ” – Trad. Ela canta a morna, um choro plangente como o fado, misturado com o mambo e samba. Jornal Le Monde – “ Cesária Évora incarne l’âme de la morna (…). Un chant nostalgique et déchirant comme un fado, mas refraichit et rythmé au contacte de la samba, du fox-trot e du mambo ”. Tradução : Cesária Évora encarna a alma da morna, (…) Um canto nostálgico e plangente como o fado, mas refrescado e ritmado devido ao contacto com o samba, fox trot e mambo.
8 - A utilização/difusão do género Morna nas rádios e meios de comunicação vem decaindo. A Morna deixou de ser um género musical que entra normalmente na programação das rádios. Hoje, nas rádios a Morna é num género marginal, que se passa de vez em quando ou é alvo de uma programação especial de duração limitadíssima. O mesmo se poderá dizer dos músicos mais jovens, para quem a Morna na maior parte das vezes não consta do reportório nem é um género de eleição. Para os mais jovens a Morna, tem um outro sentido, felizmente, o género ainda representa a cabo-verdianidade. O jovem músico e maestro Carlos Matos, nascido na Holanda, na sua comunicação ao Congresso dos Quadros da Diáspora em Abril de 2011, no Mindelo, fez a seguinte revelação: “ (…) o meu avô, todos os domingos me punha a ouvir a cassete do Bana «Pensamento e Segredo». Eu não ligava nenhuma, quando ele colocava a cassete eu ficava brincando, não ficava nada atento. A primeira vez que vim a Cabo Verde tinha vinte anos e lembro-me bem, passei por Laginha, mirei o ilhéu dos Pássaros e essas músicas que o meu avô costumava colocar vieram-me imediatamente à mente e foi assim que descobri que aqui é a minha terra.”
Considerações Finais: não há dúvida que houve um processo de evolução da Morna até o ponto em que encontra hoje, e que vai continuar! Uma evolução em todos os sentidos. O que vai se passar depois, o futuro dirá! Ao longo do processo de evolução, ao chegar aos dias de hoje, o género musical Morna mudou a sua função social, mudou ou evoluiu o seu significado para as novas gerações. Explico: se antes era um género verdadeiramente popular no sentido do termo, tocado nos bailes, dançado, interpretado normalmente por todos, cantiga de trabalho que se entoava nas lides domésticas e outras, hoje Morna tornou-se um género “clássico”, já não é música popular de dança, os intérpretes contam-se pelos dedos, a juventude, adoptou outros géneros musicais. Hoje a Morna é música para se ouvir, música que desperta o sentimento de cabo-verdianidade, musica que desperta o nosso orgulho, e nos sublima. E neste ponto surge a pergunta: Morna Hoje – Novos caminhos ou preservação do passado? – Eis a questão!
Praia, 26 de Junho de 2014
Carlos Filipe Gonçalves
Os 800 anos da Língua Portuguesa
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Para celebrar: "Hoje é dia de festa!// Cantam as nossas almas!
As questões que se seguem foram-me perguntadas pela Jornalista Gisela Coelho do Jornal «A Nação – Público». Transcrevo-as também para o meu “Blog,”para assinalar a data comemorativa dos 800 anos da nossa Língua.
- Historicamente registada que foi a 27 de Junho de 1214, data em que o rei D. Afonso II, escreveu o seu testamento em Língua portuguesa. Desta forma, consagrou-se como o texto oficial, mais antigo, escrito em português. -
1 – Na sua opinião qual o futuro da língua portuguesa no mundo?
1.A Língua portuguesa é uma das línguas vivas que vem conhecendo uma expansão notável no mundo. Entre as 20 Línguas mais faladas no mundo, ocupa o 4º lugar. É a Língua mais falada no Hemisfério Sul.
Basta pensar que países como a China, a Índia e o Japão têm revelado um crescente interesse pelo ensino da Língua portuguesa nos respectivos países. De tal forma que o Japão pediu estatuto de Observador, junto da CPLP.
O interesse desses países reside no facto de a Língua portuguesa ter aumentado o seu valor como língua de negócios. Os dados que eu aqui referencio, são dados do Observatório da Língua.
A Língua portuguesa é hoje Língua materna de mais de 80% de Angolanos com menos de 50 anos de idade. E a percentagem sobe, quando se trata de população dos centros urbanos daquele país. Em S. Tomé e Príncipe, e à escala do país, o fenómeno linguístico é idêntico, ao de Angola.
Em Moçambique, a língua portuguesa vem atingindo níveis de expansão assinaláveis. Daí que se possa perceber a importância que os responsáveis dos países citados, atribuem à expansão e ao apossamento da língua portuguesa como língua de desenvolvimento por parte do seu cidadão, e como parte incontornável da sua história cultural.
Por tudo isto, auguro-lhe um futuro brilhante, de plena globalização e de mundialização.
2 - E em Cabo Verde, na sua opinião, a língua portuguesa tem sido "bem tratada"?
2. Como falante e amante da nossa bela língua, acho que não. Mas isto parece que é infelizmente, geral. O que está a acontecer e o que está em “deficit” é a falta de oralidade da língua portuguesa em Cabo Verde. Os falantes lusófonos que cá chegam estranham muito este fenómeno. Outrossim, a língua oficial e segunda, em termos de oralidade, não está a ser respeitada entre nós….
3 - Acha que a língua portuguesa esta "bem viva " em Cabo Verde ou tenderá a desaparecer?
3. Abrenúncio! Uma língua que é hoje falada por mais de 250 milhões de pessoas, em plena expansão, desaparecer entre nós? É o começo da minha resposta à sua pergunta!
A primeira, que as rochas e os areais destas ilhas ouviram! Uma língua vetusta, mas sempre renovada e enriquecida!...
Seria também como se amputássemos parte da nossa identidade, da nossa cultura, do nosso saber, da nossa produção literária, jornalística e técnica, e igualmente a parte mais significativa do progresso e do desenvolvimento conseguido por Cabo Verde. Se tal acontecer, na minha opinião, estar-se-ia a penhorar e sem recuperação o próprio país.
Defendo que a Língua portuguesa tem que estar bem viva e bem cuidada em Cabo Verde! A língua portuguesa é nosso património há mais de 500 anos! É a testemunha linguística principal de quase todo o acervo e do registo documental escrito, da História de Cabo Verde.
4 - Na sua opinião o que tem dificultado a má aprendizagem do português nas escolas de Cabo Verde?
4. Tal como a entendo, o que tem dificultado tudo isto, é a falta de assunção (fenómeno relativamente recente) da Língua portuguesa como nossa língua também; falta de afecto e de interiorização normal como acontecia naturalmente, até a um passado bem recente, mas que na actualidade, e de há poucos anos a esta parte, tem vindo a acentuar-se este fenómeno de “estranheza” com a Língua portuguesa, entre os nacionais. Creio ser fruto de uma orientação – má e intencional – das políticas linguísticas que estão a suceder no País. Creio, que um dos resultados que já é visível infelizmente, é o pouco à-vontade com que se expressa em Língua portuguesa, o falante cabo-verdiano escolarizado. E isto, vai no futuro, criar um fosso social e intelectual (em termos de raciocínio lógico/dedutivo) entre os alunos cabo-verdianos que já levam para a escola (de casa ou, mesmo do Jardim de Infância) a nossa Língua segunda e oficial e aqueles a quem a escola primária e secundária não presta a atenção devida ao ensino do português e a maltratam sem que ninguém, com isso, se escandalize!
Para além do mais, é a Língua portuguesa, a língua de união que nos permite comunicar com os países da CPLP – veja-se a já significativa comunidade cabo-verdiana emigrada actualmente em Angola, para não falar da comunidade que foi e continua a ser numerosa, imigrante em Portugal e que recebe diariamente novos elementos que daqui vão em busca de trabalho.
Tudo isso e de há muitos anos a esta parte, já devia merecer, o maior cuidado e interesse em todo o o sistema de ensino da língua portuguesa aqui em Cabo Verde. A língua portuguesa é o veículo linguístico fundamental de todo o percurso escolar do aluno cabo-verdiano.
Bem não estou a inovar, isto é expresso, com força de legal e institucional, na Lei de Bases do Sistema de Ensino de Cabo Verde, fundada e elaborada em 1989, e aprovada em parlamento plural, no ano de 1991.
Aliás, tal como outros estudiosos e interessados pelas questões que se põem às nossas línguas, já o afirmaram, no respeitante à portuguesa, e entre nós, o seu ensino, sobretudo a sua oralidade, deviam começar nos Jardins-de-Infância. Ou seja, a criança cabo-verdiana que a não teve ou tem em casa, devia ouvi-la desde muito cedo, dada a enorme capacidade de aprender línguas que a criança possui. E isso seria uma vantagem, uma mais valia que a criança, depois aprendente, levaria para a escola e para a sua formação pós-secundária no País.
Logo, a sua expansão entre nós, sobretudo a sua oralidade, é de todo desejável pois que, só nos enriqueceria ao tornarmo-nos bilingues de facto.
5 - Considera que o projecto de Ensino Bilingue nas escolas do EBI poderá servir para facilitar uma melhor aprendizagem do Português ou não? Porquê?
5 – Como não estou a par do projecto, não sei se responderei a esta questão de forma correcta. Por isso, não sei se é esse o propósito do projecto, refiro-me à questão colocada: - poderá servir para facilitar uma melhor aprendizagem do Português?
Depende e muito da formação do professor, dos professores que têm ou, terão a seu cargo ministrar as duas línguas. Para começar os docentes (espero e faço votos que sem formações aceleradas, leia-se: apressadas) deviam ter perfis diferenciados, o de português há-de ser, ou deve ser, um docente que a domina e a fala sem acanhamento (a língua portuguesa). O ensino actual das línguas vivas, com é o caso da língua portuguesa entre nós, comporta e funde diferentes metodologias do ensino de línguas (materna, segunda e estrangeira). Pode ser que sim, que resulte, e pode ser que não, que não resulte… Tal como já disse depende de muitos factores inerentes à didáctica das línguas vivas e reitero, não conheço o projecto com profundidade suficiente para aferir eventuais resultados.
As questões que se seguem foram-me perguntadas pela Jornalista Gisela Coelho do Jornal «A Nação – Público». Transcrevo-as também para o meu “Blog,”para assinalar a data comemorativa dos 800 anos da nossa Língua.
- Historicamente registada que foi a 27 de Junho de 1214, data em que o rei D. Afonso II, escreveu o seu testamento em Língua portuguesa. Desta forma, consagrou-se como o texto oficial, mais antigo, escrito em português. -
1 – Na sua opinião qual o futuro da língua portuguesa no mundo?
1.A Língua portuguesa é uma das línguas vivas que vem conhecendo uma expansão notável no mundo. Entre as 20 Línguas mais faladas no mundo, ocupa o 4º lugar. É a Língua mais falada no Hemisfério Sul.
Basta pensar que países como a China, a Índia e o Japão têm revelado um crescente interesse pelo ensino da Língua portuguesa nos respectivos países. De tal forma que o Japão pediu estatuto de Observador, junto da CPLP.
O interesse desses países reside no facto de a Língua portuguesa ter aumentado o seu valor como língua de negócios. Os dados que eu aqui referencio, são dados do Observatório da Língua.
A Língua portuguesa é hoje Língua materna de mais de 80% de Angolanos com menos de 50 anos de idade. E a percentagem sobe, quando se trata de população dos centros urbanos daquele país. Em S. Tomé e Príncipe, e à escala do país, o fenómeno linguístico é idêntico, ao de Angola.
Em Moçambique, a língua portuguesa vem atingindo níveis de expansão assinaláveis. Daí que se possa perceber a importância que os responsáveis dos países citados, atribuem à expansão e ao apossamento da língua portuguesa como língua de desenvolvimento por parte do seu cidadão, e como parte incontornável da sua história cultural.
Por tudo isto, auguro-lhe um futuro brilhante, de plena globalização e de mundialização.
2 - E em Cabo Verde, na sua opinião, a língua portuguesa tem sido "bem tratada"?
2. Como falante e amante da nossa bela língua, acho que não. Mas isto parece que é infelizmente, geral. O que está a acontecer e o que está em “deficit” é a falta de oralidade da língua portuguesa em Cabo Verde. Os falantes lusófonos que cá chegam estranham muito este fenómeno. Outrossim, a língua oficial e segunda, em termos de oralidade, não está a ser respeitada entre nós….
3 - Acha que a língua portuguesa esta "bem viva " em Cabo Verde ou tenderá a desaparecer?
3. Abrenúncio! Uma língua que é hoje falada por mais de 250 milhões de pessoas, em plena expansão, desaparecer entre nós? É o começo da minha resposta à sua pergunta!
A primeira, que as rochas e os areais destas ilhas ouviram! Uma língua vetusta, mas sempre renovada e enriquecida!...
Seria também como se amputássemos parte da nossa identidade, da nossa cultura, do nosso saber, da nossa produção literária, jornalística e técnica, e igualmente a parte mais significativa do progresso e do desenvolvimento conseguido por Cabo Verde. Se tal acontecer, na minha opinião, estar-se-ia a penhorar e sem recuperação o próprio país.
Defendo que a Língua portuguesa tem que estar bem viva e bem cuidada em Cabo Verde! A língua portuguesa é nosso património há mais de 500 anos! É a testemunha linguística principal de quase todo o acervo e do registo documental escrito, da História de Cabo Verde.
4 - Na sua opinião o que tem dificultado a má aprendizagem do português nas escolas de Cabo Verde?
4. Tal como a entendo, o que tem dificultado tudo isto, é a falta de assunção (fenómeno relativamente recente) da Língua portuguesa como nossa língua também; falta de afecto e de interiorização normal como acontecia naturalmente, até a um passado bem recente, mas que na actualidade, e de há poucos anos a esta parte, tem vindo a acentuar-se este fenómeno de “estranheza” com a Língua portuguesa, entre os nacionais. Creio ser fruto de uma orientação – má e intencional – das políticas linguísticas que estão a suceder no País. Creio, que um dos resultados que já é visível infelizmente, é o pouco à-vontade com que se expressa em Língua portuguesa, o falante cabo-verdiano escolarizado. E isto, vai no futuro, criar um fosso social e intelectual (em termos de raciocínio lógico/dedutivo) entre os alunos cabo-verdianos que já levam para a escola (de casa ou, mesmo do Jardim de Infância) a nossa Língua segunda e oficial e aqueles a quem a escola primária e secundária não presta a atenção devida ao ensino do português e a maltratam sem que ninguém, com isso, se escandalize!
Para além do mais, é a Língua portuguesa, a língua de união que nos permite comunicar com os países da CPLP – veja-se a já significativa comunidade cabo-verdiana emigrada actualmente em Angola, para não falar da comunidade que foi e continua a ser numerosa, imigrante em Portugal e que recebe diariamente novos elementos que daqui vão em busca de trabalho.
Tudo isso e de há muitos anos a esta parte, já devia merecer, o maior cuidado e interesse em todo o o sistema de ensino da língua portuguesa aqui em Cabo Verde. A língua portuguesa é o veículo linguístico fundamental de todo o percurso escolar do aluno cabo-verdiano.
Bem não estou a inovar, isto é expresso, com força de legal e institucional, na Lei de Bases do Sistema de Ensino de Cabo Verde, fundada e elaborada em 1989, e aprovada em parlamento plural, no ano de 1991.
Aliás, tal como outros estudiosos e interessados pelas questões que se põem às nossas línguas, já o afirmaram, no respeitante à portuguesa, e entre nós, o seu ensino, sobretudo a sua oralidade, deviam começar nos Jardins-de-Infância. Ou seja, a criança cabo-verdiana que a não teve ou tem em casa, devia ouvi-la desde muito cedo, dada a enorme capacidade de aprender línguas que a criança possui. E isso seria uma vantagem, uma mais valia que a criança, depois aprendente, levaria para a escola e para a sua formação pós-secundária no País.
Logo, a sua expansão entre nós, sobretudo a sua oralidade, é de todo desejável pois que, só nos enriqueceria ao tornarmo-nos bilingues de facto.
5 - Considera que o projecto de Ensino Bilingue nas escolas do EBI poderá servir para facilitar uma melhor aprendizagem do Português ou não? Porquê?
5 – Como não estou a par do projecto, não sei se responderei a esta questão de forma correcta. Por isso, não sei se é esse o propósito do projecto, refiro-me à questão colocada: - poderá servir para facilitar uma melhor aprendizagem do Português?
Depende e muito da formação do professor, dos professores que têm ou, terão a seu cargo ministrar as duas línguas. Para começar os docentes (espero e faço votos que sem formações aceleradas, leia-se: apressadas) deviam ter perfis diferenciados, o de português há-de ser, ou deve ser, um docente que a domina e a fala sem acanhamento (a língua portuguesa). O ensino actual das línguas vivas, com é o caso da língua portuguesa entre nós, comporta e funde diferentes metodologias do ensino de línguas (materna, segunda e estrangeira). Pode ser que sim, que resulte, e pode ser que não, que não resulte… Tal como já disse depende de muitos factores inerentes à didáctica das línguas vivas e reitero, não conheço o projecto com profundidade suficiente para aferir eventuais resultados.
Gabriel Mariano entre a Lírica e a composição musical
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Como se escrevia antigamente, nas cartas familiares: “escrevo estas mal traçadas linhas” escutando romanticamente (Isto não passa. Nem com a idade! Incorrigível!) a morna “Mudjer Bonita,” cuja letra é de Gabriel Mariano e a música de Jacinto Estrela. Belíssima, nostálgica e magistralmente interpretada pelo piano de Chico Serra, pianista de mãos cheias que felizmente estas ilhas acarinham. Já agora, vale também dizer – o seu a seu dono! - que estou a ouvir a melodia através do blogue «Praia de Bote» de Joaquim Saial e que li o comentário de Zito Azevedo, outro internauta afamado e aclamado do «Arrozcatum» que julgava que era a morna homónima de Eugénio Tavares. Mas desfez logo aquilo que não chegou a ser uma pequena confusão, causada pela homonímia do título de ambas as composições.
Já agora, e como boa crioula que sou, vou entrar na “riola,” (ah! Nada como uma boa riola! Ah! Ah! Ah!) ratificando que a outra morna do mesmo nome (Mudjer bonita, pa el dabo gosto, pa el dabo cu bo amor…) a autoria é mesmo de Eugénio Tavares. A letra vem inserta nas suas «Mornas – cantigas Crioulas»
No entanto, eu própria, e durante algum tempo, julguei que a autoria dela fosse do Sr. Djoloca Feijó, talvez levada pelo facto do filho, o meu amigo Van (João Maria Feijó) a cantar tão bem nos nossos convívios, “in ille tempore.” …
Perdoem-me este pequeno intróito, que foi uma forma de dar corpo ao meu propósito, ao meu intento, em escrever hoje sobre alguma poesia lírica de Gabriel Mariano.
Aproveito para transcrever a letra de “Mudjer bonita” do poeta em análise e a música como aqui referida é de Jacinto Estrela. Não sem antes agradecer à minha amiga Dulce Ferreira Lima que ma enviou e a conseguiu da São Rocheteau, a quem também estendo os agradecimentos. De facto, esta morna «Mudjer Bonita», é mais executada e conhecida sob forma instrumental do que cantada. Daí não me ter sido fácil a busca da letra
Nhor Deus screbê, nhor Deus dixâ
Nô tem qui cre pa nô bai céu
nha fé sagrado é um só na mundo,
é fé de Amor, fé de cretcheu.
Coro
Bejal na odjo,
Bejal na pêto, bis
bejal na boca
má co respeto.
II
Mudjer bonita é que é mudjer
mudjer bonita é qui ta credo
si bô atchal na bô caminho
pertal co força, pertal sem medo.
Coro
Mudjer bonita é ca dês mundo
é bem di céu, el é sagrado
si Deus dábo el pol num altar
pamode é scada qui ta ba céu.
IV
Mi nha cretcheu é más bonito
qui tudo santo qui tem na altar
odjo gaiato, riso sereno
ca tem na terra, ca tem na mar
G. Mariano, o meu poeta revisitado, dividiu-se entre a lírica escrita e a cantada, embora o peso da escrita tivesse sido muito maior.
Ora bem, para além da morna citada, Gabriel Mariano escreveu o poema e quase hino: “Sina de Cabo Verde” para a morna homónima, também em parceria musical com Jacinto Estrela. Este igualmente, grande compositor e senhor de melodias lindíssimas e de letras, que fixaram em alguma mornas, para sempre, e como ninguém, as majestosas montanhas e o mar bravio da ilha da Santo Antão.
Trago igualmente à colação, um artigo do ensaísta Luiz Silva em «Latitudes» nº.16 de Dezembro de 2012, intitulado: «A Homenagem a Gabriel Mariano». Nele recorda o articulista, a rica diversidade da produção deste autor, particularizando a produção de muitas peças teatrais, e destaca uma: “Os Clandestinos no Céu,” ao tempo (meados dos anos 50 do século passado) representado com êxito, no Grémio Recreativo Castilho em Mindelo, ilha de S. Vicente.
Nestas actividades culturais juvenis, ele esteve sempre muito ligado a Jorge Pedro Barbosa, outro poeta, já aqui recentemente visitado. Colegas liceais e co-fundadores também do jornal liceal: “Restauração”. Para além de terem sido parceiros, co-guionistas e escritores de peças de teatro, foram também organizadores de saraus, de récitas, que naquele tempo, e no então prestigiado Liceu de Gil Eanes, não faltavam.
E neste (re) buscar Gabriel Mariano, gostaria de me deter um pouco, num outro registo poético que ele nos legou, a poesia lírica.
Não vá sem dizer, que todos ou, quase todos que o lemos e o apreciamos, conhecemos bem melhor se calhar, o lado poético extremamente interventivo, a sua verve e o seu verbo protestativos e, fundamentalmente libertários, bem adequados a uma determinada época e a um contexto histórico. G. Mariano é célebre pelo seu “Capitão Ambrósio” pela seu “ Caminho Longe -Ladeira de São Tomé” pelos “12 Poemas de Circunstância”, entre outros, e muitos mais e que o distinguiram e o distinguem como um autor incontornável na poética cabo-verdiana, do século XX.
Vamos primeiro, à apresentação biográfica do poeta. José Gabriel Lopes da Silva Mariano, cuja ilha natal é S. Nicolau, onde nasceu na Vila Ribeira Brava, em 1928 e ilha também da sua infância. Os progenitores, ambos sãonicolauenses. A mãe, Maria Lopes da Silva Mariano, o pai, João de Deus Lopes Mariano, estudou no Seminário de S. Nicolau e lá foi funcionário público. Era também poeta e conhecido colaborador do Almanaque de Lembranças (1854-1932).
Gabriel Mariano viveu alguns anos na Praia. Fez os estudos secundários (os exames finais) na cidade do Mindelo. Vivia com os pais e irmãos, na cidade da Praia, na ilha de Santiago, onde, com explicadores, preparava os exames. Mais velho dos irmãos, e porque estes iam começar o Liceu, o progenitor, decidiu mudar-se com a família para Mindelo, onde G. Mariano terminou o Liceu. Os estudos universitários fê-los na Faculdade de Direito de Universidade de Lisboa. Jurista de profissão – foi Conservador dos Registos e Juiz, em Portugal, Angola, S. Tomé e Príncipe, Moçambique e Cabo Verde. Opositor do regime salazarista e pró-indenpendendista de Cabo Verde – Regressou a Portugal após 1974, e durante o conturbado período da independência das ilhas. Aí trabalhou como Juiz – Desembargador, vindo a falecer em 2002.
Descendente de um meio familiar privilegiado em que a boa leitura e a cultura eram quase domésticos e familiares como ele próprio no-lo diz através da interessante entrevista que deu a Michel Laban no Vol. I – «Cabo Verde Encontro com Escritores». Eis as palavras esclarecedoras de Gabriel Mariano: “A ilha de S. Nicolau, onde eu nasci, foi uma ilha muito rica do ponto de vista cultural, porque foi a ilha onde surgiu o primeiro instituto de ensino, digamos superior – que foi o Seminário de Cabo Verde, onde estudou o meu pai” (…) No meu caso específico, individual, eu nasci de uma família que pertencia àquilo que vocês aqui na Europa, chamam a média ou a alta burguesia.(…) Do lado materno, os Lopes da Silva que constituíam uma das grandes famílias da ilha de S. Nicolau (…) Os meus avós já eram indivíduos dados às letras, às artes, com curiosidade intelectual. (…) Esse ambiente familiar de muita cultura, contaminou-me desde criança (…)”.
Autor de vasta obra em que sobressaem contos, poemas, estudos e ensaios sobre a cultura e a identidade cabo-verdiana. Nota-se que nestas duas últimas modalidades, os estudos e ensaios, o autor explicita muito claramente o apreço pelo valor acrescentado, que ele confirma ter acontecido no processo da mestiçagem cabo-verdiana, o que ele ninudencia de forma exemplar por ter contribuído (causa/efeito) para que cedo o cabo-verdiano, o crioulo, ou o mulato, no dizer do autor, fosse senhor das suas ilhas e se apossasse intimamente da sua identidade e da sua cultura. Daí que, sem qualquer hesitação, e como ponto de chegada das suas muitas análises, Gabriel Mariano tenha chegado à seguinte conclusão, transmitida ao investigados francês Michel Laban na obra, já aqui citada e que vale a pena ler ou reler, para se entender de vez, que a questão identitária que se punha aos intelectuais do continente africano não se assemelhava à nossa, ou melhor, não se coloca aos nossos grandes intelectuais, como alguns pretenderam forjar a questão aqui nas ilhas.
Ora oiçamos (lendo a tese) Gabriel Mariano: “ (…) a começar nos intelectuais africanos de língua francesa; no Senghor, no Césaire, penso nos das colónias portuguesas, no Agostinho Neto, No Mário de Andrade, penso no Mondlane, etc. Porque esses grandes patriotas eram indivíduos, tal como o Senghor e o Césaire, um tanto desfasados das suas raízes africanas – O Césaire, não tanto por ser da Martinica, onde já havia e há, um substrato cultural forte e diferenciado da cultura francesa. (…) Mas o Senghor, o Damas, tal como o Agostinho Neto, eram indivíduos que, sendo africanos, pertencendo, vindo de determinadas comunidade, eram depois, pela força do próprio colonialismo, separados dessa comunidade cultural, porque nem sequer sabiam a língua, nem sequer a falavam… Não sabiam, não compreendiam, não escreviam a língua deles. Havia um fosso cultural entre esses intelectuais todos que eu citei e as respectivas comunidades. O que não acontecia em Cabo Verde onde falamos o crioulo do berço à cova… Não é por acaso que surge com o movimento da negritude, a temática do regresso às origens (…) Eles, efectivamente, digamos um poeta como o Neto ou como o Senghor que sendo afro-negros em todo o sentido da palavra – quer do ponto de vista étnico, quer do ponto de vista sociológico – todavia, a partir de certa altura, cortaram-lhes o cordão umbilical e passaram a ser ou «franceses» ou «portugueses». E então, quando eles se aperceberam disso, puseram-se a si próprios o problema do regresso às origens. Ora em Cabo Verde isso não aconteceu. As nossas raízes sempre estiveram em nós” Fim de transcrição e o negrito é meu.
Como forma de exemplificar parte dos ensaios, de Gabriel Mariano, mencionaria: «Cultura Cabo-verdiana», com um notável prefácio do Prof. Alberto Carvalho e edição da Vega, 1991, uma colectânea que reuniu alguns dos mais importantes estudos de Gabriel Mariano. A propósito, afirma Alberto Carvalho: “ (…) Com esta formulação do problema da aculturação humana no mundo crioulo, G. Mariano desdramatiza todos os processos relativos à colonização das suas ilhas (…)” Fim de transcrição.
A sua célebre e bem conseguida análise, «Amor e Partida na poesia crioula de Eugénio Tavares ou Inquietação Amorosa» escrito em 1951, ainda estudante do Liceu, cedo o catapultou como um dos mais profundos estudiosos das coisas e das gentes da terra que o tempo e a sabedoria acrescentariam e confirmariam em muitos estudos posteriores que este autor nos legaria.
Para além de autor, Gabriel Mariano foi um activista cultural de grande dimensão nestas ilhas. Fundou em 1958, com Carlos Alberto Monteiro Leite, o “Suplemento Cultural,” separata do «Boletim Cabo Verde» e que viria a constituir-se em marco inovador na poesia cabo-verdiana. Conferencista, palestrante em vários eventos na Praia e em Mindelo, na defesa da cultura e da cabo-verdiana que à época, e no contexto de Cabo Verde de então, (anos 50 e 60 do séc. XX) a defesa desses valores se justificavam amplamente.
Mas hoje, queria recordar aqui, volto a repetir, os seus versos líricos e ricos. Tão simples como isto. Começaria pelo poema /dramatizado, intitulado: “De quem são os teus Olhos?”
- Tu já não gostas dos meus beijos como dantes!...Ou gostas?
- Queres dizer que assim é que se passa contigo…
Tu tens uma maneira muito especial de responder…
- É que quando digo uma coisa ponho o caso em mim primeiro
- Mas não foi isso que te perguntei!
- Então o que foi?
- Já te disse…
- Diz outra vez…
- Ainda gostas dos meus beijos como dantes?
- Porque é que perguntas?
- Responde.
- Eu sim. E tu?
- È o que devias ter dito há muito tempo.
- E tu?
- Eu também?
- Não, tu não.
- Eu não porquê?
- Tu não. Eu sei…
- Com é que tu sabes?
Eu sei…vejo na tua cara…às vezes sim, outras não.
- E hoje?
- Hoje não…
- Porquê?
- Tens o olhar vago…
- Olhar fraco?
- Olhar vago!
- Tu disseste olhar fraco…eu não estou doente.
- Eu disse olhar vago…tu estás longe…
- Longe?
- Tu não estás aqui…
- Como é que tu sabes?
- Vejo na tua cara…tens o olhar vago…
- É que tenho as pálpebras muito pesadas. Palavra de honra.
- Tu estás sempre pronto a dar palavra de honra…
- Se o que eu digo é verdade.
- Há dias deste palavra e no entanto passaste-me um pau…
- Passei-te um pau?
- Sim senhor…Tu disseste-me que tinhas ido direitinho para casa e não fostes…
- Foi má companhia que apareceu no caminho…
- Má companhia não! Foste porque quiseste…
- Os amigos só servem para desencaminhar as pessoas…
- Para desencaminhar não. Tu foste porque quiseste…
- Os amigos só servem para desencaminhar as pessoas…
Para desencaminhar não. Tu foste porque quiseste…
- Já te disse que não.
- Então porque é que foste?
- Fui por causa deles!
- Ah, eles é que te obrigaram…Tu não
querias ir, pegaram-te nos pés e nas mãos e
levaram…te à força…Vai enganar outra. Tu foste porque quiseste.
-Já te disse que não e eu não sou mentiroso…
- Não te chamei mentiroso…
- Estou farto de dizer que não gosto que me chamem mentiroso.
- Eu não disse que tu és mentiroso…
- É a mesma coisa.
- Se tu achas que é a mesma coisa é porque então és mentiroso.
- Se sou mentiroso tu também és mentirosa…Porque é que há dias me disseste que saías às 7 e saíste às 5?
- Eu?
- Tu, sim.
- Já te expliquei…
- Não me lembro…
- Não te disse que saía às cinco porque não era certo.
- Mas saíste às cinco…
- Saí às cinco.
- Então porque é que não me disseste na véspera?...
- Tu és burro!
- Não sou burro nada! Tu é que és cínica! Porque é que não me disseste na véspera: “Olha, eu amanhã não sei se saio às cinco ou às sete”…?
- Não te disse porque tinha umas compras a fazer e eu sei que não gostas de compras…
- Quer dizer, a minha presença incomodava-te… Eu estorvava-te… Quer dizer, tu tens interesse em andar sozinha…
- Eu não disse isto…
É a mesma coisa. Doido é quem tem confiança em ti.
- Se não tens confiança, arranja outra…
- Não é preciso dizeres.
- Acaba o namoro e arranja outra.
- Eu arranjo. Mulheres é o que mais há na terra.
- Tu és convencido…
- Eu?
- Pensas que todas gostam de ti…
- Então eu sou bonito…
- Então porque é que arranjaste namoro comigo? Se eu não fosse bonito tu não arranjavas…
- Tu és leviano…Pensas que toda a gente é como tu?
− Tu não és como eu?
− Não!
− Então és vaidosa.
− Vaidoso és tu.
− Tu és vaidosa porque pensas que és bonita.
− Eu ou tu?
− Eu tinha dito que gostaste de mim porque eu sou bonito. Tu disseste que não és como eu, quer dizer, não és como eu que só gosto de gente bonita. Portanto tu estás convencida que és bonita…
− Queres dizer que gostas de mim?
− Eu não disse isto…
− Tu és leviano!
− Tu é que és leviana!
− Se eu sou leviana arranja outra que não seja leviana.
− Eu arranjo, não é preciso que ninguém mo diga…
− Acaba o namoro e arranja outra…
− Eu arranjo. Mulheres é o que há mais na terra.
− Estás a ver?
− Estou a ver o quê?
− Tu não disseste que arranjas outra?
− E tu, não disseste para eu acabar o namoro?
− Eu disse mas tu não devias dizer…
− Então o que é eu devia fazer?
− Tu ficavas calado!
− Ah, eu ficava calado?!... E tu porque é que disseste? Tu é que começaste!
− Eu disse porque me irritaste…
− E agora? Ainda estás irritada?
− Estou!
− Não é preciso armar esta cara… Eu não te fiz nada…
− Tu pensas que o meu ouvido é chiqueiro para ouvir tudo quiseres e ficar com a mesma cara?
− Estás a chamar-me porco?
− Eu não te chamei porco.
− Tu disseste se eu penso que teu ouvido é chiqueiro para as minhas palavras!... Se teu ouvido não é chiqueiro para as minhas palavras, são palavras de porco. Tu não me conheceste a comer farelo!
− Eu disse porque estava irritada.
− Uma pessoa quando está irritada deve tomar cuidado com o que sai da boca.
− Culpado és tu…
− E agora?
− Agora, o quê?
− Ainda estás zangada?
− Não sei…
− Se não sabes, então estás zangada.
− Eu não disse que estou zangada…
− Se não disseste, então não estás…
− Não estou para afligir o meu espírito com as tuas coisas…
− Eu não disse?
− Não disseste o quê?
− Que já não estavas zangada…
− Não estou porque não quero…
− Vejo na tua cara…
− Se tu achas não estou zangada…
− Se não estás zangada diz-me uma coisa: de quem são os teus olhos?
− São da leviana. Não disseste que sou leviana?
− Estás a ver que ainda estás zangada? De quem são os teus olhos?
− Meus!
− Só?
− E quem quiser!
− Estás a ver que ainda estás zangada?!
− Não estou, não!
− Tu estás sim!
− Pergunta outra vez…
− Pergunta o quê?
− Pergunta outra vez…
− De quem são os teus olhos?
− São teus.
Diálogo de um lirismo escorreito e repassado de fino humor. Um duo de vozes. Um par masculino/feminino, numa conversa amorosa, de tom coloquial e sem perder o toque terno de diálogo íntimo entre jovens e enamorados. Este texto poético/dramático tem sido bem aproveitado para o teatro. Recordo nomeadamente, a representação levada à cena pelo grupo teatral MindelAct.
E continuaria a lírica de G. Mariano, com o poema que se segue “Vela do Exílio” versos inspirados e vazados num tempo e num momento que foram particularmente dolorosos para o poeta.
Vela do Exílio
Acendi hoje uma vela
De estearina na fina
Mesinha onde escrevo.
Enquanto ela me ardia
De chama para os meus olhos
Velhas lembranças seguiam.
E subido sobre a parede
Da velha casa onde moro
O mapa árido e breve das ilhas do Caboverde.
Que vento não vem ou se agita
No barco
Em forma de vela
Por dentro da casa fechada!
Que voz materna no écran
Da ilha difunde
Meu nome em projecto?
Acendi hoje uma vela.
E enquanto me ela queimava
Por sobre a mesa pessoas
Vivas e mortas passavam.
Vela do exílio acendida
Na noite de Moçambique:
Pesado, inútil veleiro.
Vela do exílio, meu filho
Com apenas um sopro apagas
A vela, o exílio não.
Moçambique, 1965.
O poeta, expressa nestes versos a tormenta do exílio, o desespero pela injustiça sobre ele cometida e o aguilhão da saudade. Aqui se juntam para lhe trazer à lembrança a “voz materna” que se confunde com a ilha que tão longe ficou. Uma quase ode, repassada de nostalgia e de assomos de revolta, que o labor poético transfigurou em metáforas sofredoras.
Distinguido com vários prémios pelos seus trabalhos literários, entre os quais se destacam: o 1º Prémio, modalidade, conto do «Boletim Cabo Verde» em 1950. 1º Prémio do conto nos Jogos Florais da Universidade de Lisboa, em 1957; e nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra, em 1958. Prémio Literatura Africana, (Portugal) 1976 pelo livro de contos «Vida e Morte de João Cabafume». Prémio Vale Flor (Portugal) em 1996. Distinguido com a Ordem do Vulcão (Cabo Verde) em 1999, entre outras distinções e homenagens, que o poeta, o contista e o ensaísta recebeu merecidamente.
Gabriel Mariano é um dos poetas, cujos textos e entre nós, são muito lidos, declamados/ditos e apreciados.
Da minha parte, gostaria de continuar a falar sobre este incontornável poeta da lírica e da poesia de intervenção social e política do séc. XX destas ilhas, mas o texto já vai longo e convinha finalizá-lo se não, corro o risco de o leitor não o ler até ao fim. Embora este escrito constitua apenas uma modestíssima revisitação. A verdade é que o poeta e o ensaísta que é Gabriel Mariano merece ser lido, apreciado e estudado.
Jorge Pedro Barbosa e a alegria em poesia
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Jorge Pedro Pereira Barbosa que assina os seus poemas como: Jorge Pedro Barbosa nasceu na ilha do Sal, Cabo Verde, em 1933. Os estudos secundários fê-los no Liceu de Gil Eanes, na cidade do Mindelo. Trabalhou nas ilhas de S. Vicente, Santiago e Fogo. Mais tarde fixou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou na companhia aérea brasileira a Varig. Hoje aposentado, vive em Nova Iorque.
De recordar que Jorge Pedro entrou bem cedo para o mundo da poesia. Estreou-se na publicação dos seus poemas, aos 17 anos de idade, em 1950, com o poema, “Homo – Deus”:
O Mundo é vosso,
Porque é vosso também
O chilrear das aves
E o perfume das flores,
O murmúrio dos arvoredos
E das águas nascentes…
O Mundo é vosso,
Porque a terra que pisastes
Floresceu.
E agora
Tudo o que vos rodeia
Sorri…
Canta…
Vive…
O Mundo é vosso,
Porque podeis levantá-lo com uma só mão
E com a outra vos livrardes dos obstáculos
Oferecidos pelo caminho
Que conduz ao vosso Destino.
O Mundo é vosso,
Porque vencestes a veloz corrida
Da vida,
Porque os outros ouviram os vossos clamores
Que os ecos das montanhas
Repetiram…
In: «B. Cabo Verde» nº. 14, 1950.
Creio poder aventar sem muita margem de erro, que antes disso, Jorge Pedro havia já feito – mera conjectura minha embora plausível – alguns poemas publicados no (s) jornal (is) do Liceu de Gil Eanes e/ou também lidos em saraus e sessões de poesia, do mesmo liceu, o que era relativamente frequente nessa altura e de que ele seria um activo participante.
Portanto, Jorge Pedro Barbosa, para além de ter convivido precocemente com a “poesis” em casa, estudou-a na escola, de forma activa, criativa e transformadora, mas criou-a também e muito cedo, pelo dom “da” e “à” poesia.
Possivelmente, ou por causa disso, por ser filho de um dos maiores poetas destas ilhas – já reconhecido e aclamado à época – Jorge Barbosa, e que coevamente com ele publicou, o então jovem poeta, Jorge Pedro, terá permanecido numa relativa “sombra”, dada a enorme e merecida projecção de que gozava o progenitor.
No entanto, e a propósito, gostaria de trazer nesta oportunidade, as palavras do próprio Jorge Barbosa, quando numa entrevista concedida a Maria Helena Spencer, no número 57 do «Boletim Cabo Verde» esta lhe havia posto a seguinte pergunta que transcrevo: “- Tem um filho poeta também: Jorge Pedro. Como explica o caso poético do seu filho? Hereditariedade? Terá você exercido alguma influência na poesia dele?”
Ao que o grande poeta sénior, com a enorme modéstia que o caracterizava, apanágio aliás, de mentes sábias, respondeu: “- Não sei explicar e seria difícil explicar o caso poético do meu filho. Há coisas que acontecem mesmo sem hereditariedade, mesmo sem atavismo. Quanto à influência, creio ter exercido alguma, nele e em outros poetas novos de Cabo Verde (…) Influência entretanto perigosa porque a minha poesia com a sua embora novidade aliciadora por falta de certas virtudes poéticas, não chegou a ser nem uma obra, nem um marco itinerário. Talvez fosse um que anúncio de transição na poesia cabo-verdiana (mas há poesia cabo-verdiana?), um como que prefácio da nossa verdadeira e ainda inédita poesia, que eu apenas antevi um pouco e que é preciso escrever quanto antes, já que ela existe em potência na trágica vida das ilhas e na alma sofredora e estóica do povo mais cantador do mundo.” (Fim de transcrição) Jorge Barbosa, in: «Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação», nº 57, 1954.
Voltando ao filho poeta, (re) visitado por nós, vamos trazer ao leitor menos familiarizado com poemas de Jorge Pedro Barbosa, alguns deles, (transcrevendo-os aqui). Possivelmente os mais emblemáticos da arte deste autor, que versejou com muito à-vontade nas duas línguas a “paterna e a materna” do seu ser cultural e estruturante cabo-verdiano, isto é, tanto em língua portuguesa, como em crioulo.
De um lado, tem o leitor, poemas de alguma intervenção social e protestativa na esperança de um “futuro melhor que há-de chegar”; e num outro registo, os poemas de cariz humorístico, em que entre a ironia, a jocosidade e a crítica satírica; o poeta “brinca” com algumas personagens por ele (re) criados, o caso de “Djom Pó-Di-Pilom” ou no poema: “Mudjer di Hoji.”
Numa fase assumidamente imperativa, porque jovem, generosa e cheia de força, clama o poeta: “Vou ser Senhor do Mundo!” para que tal aconteça, o sujeito poético socorre-se da ajuda, da cumplicidade de alguns seres da nossa mitologia, incluídas em histórias orais infantis, a saber: o “Pássaro-Rei”a “Capotona-Preta” e ainda da cabalística, “sete penas brancas.” Munido dessas forças sobrenaturais a quem pede e com correcção “se faz favor” e a quem oferece o melhor que possui: “Um punhado de milho;” condições básicas para a satisfação do pedido; o sujeito poético parte à aventura de querer poisar no “tecto do Mundo.” Temos aqui, em simbologia envolta em códigos do nosso imaginário infantil, dois dos tópicos mais caros aos poetas das ilhas – porque ilhéus e “presos” pelo mar – a saída para o mundo e a procura de vida melhor.
Vou ser Senhor do Mundo
Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
Para eu voar
e ir poisar no tecto do Mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro
em senhor da terra,
senhor das águas, senhor dos céus…
Senhor do Mundo.
Mas se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no tecto do mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
e lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: … Por favor?
(1951)
No poema que a seguir se transcreve, o sujeito poético, dialoga com a terra, com as ilhas, e pergunta-lhes sobre o “seu Destino” afirma que o quer ver, dialogar com ele e até aconselhá-lo. Procurou o “Destino” (aqui antropomorfizado) em todos os cantos do Arquipélago. Mas foi uma procura vã. Não o tendo encontrado, o sujeito poético promete à “mãe-terra”, que um dia (num futuro!? …) ela terá o “Destino” hoje, perdido.
O Teu Destino
Eu quero ver o teu destino,
Quero falar-lhe,
Quero dar-lhe conselhos.
Procurei-o pelos teus campos,
Atrás dos teus montes,
No fundo das tuas ribeiras,
Mandei-lhe mil recados,
Chamei,
gritei por ele!
Mas ninguém o viu,
Ninguém o achou…
Se o encontrar,
Juro,
Dou-te a minha palavra
Que vos farei as pazes,
Vos tornarei novamente amigos!
Terra!
O teu destino voltará!
(1951)
Afinal, “Zé-Buli-Mundo,” a personagem do poema que se segue, imbuído das melhores intenções, foi tentar “endireitar o mundo” e acabou por piorar a situação.
De novo, Jorge Pedro Barbosa, a presentear-nos com a sua poesia musical e jocosa:
Zé-Buli-Mundo
Zé-Buli-Mundo foi bulir o mundo
para ver se o punha direito.
Zé-Buli-Mundo foi sacudir o mundo,
como um chocalho de lata,
para ver se o punha na linha.
E tanto mexeu o mundo,
que, em vez de o concertar,
o estragou mais ainda.
(1952)
Nos versos seguintes, o poeta põe a lírica a cantar o ser amado, e sobre aquilo que o poeta “vê” de mais belo e de mais harmonioso no corpo e no espírito deste “ser-mulher”, e ao qual, nada de mal lhe poderá tocar. Há como que um “cosmos” de paz, de beleza e de simplicidade a enformar este ser, afinal, a terra-mãe, aqui transfigurada em mulher amada, a quem o poeta entoa louvores.
Poema
Ninguém de ti dirá,
A lua ilumina mais que o brilho dos teus olhos,
A noite é mais silenciosa que os teus lábios,
As folhas e os ramos dos arvoredos
Têm movimentos mais harmoniosos que o teu andar
Porque tu és filha do sol e da brisa da tarde.
Ninguém de ti dirá mal,
Ninguém te deitará maus olhares
Ninguém te atirará contra o rosto
Palavras de ódio,
Com esse instinto de mal-querer
Porque todos te estimam,
porque tu és simples nas tuas coisas.
Ninguém deixará de ouvir
nem de seguir os teus conselhos
de te confessar os segredos mais íntimos
- os momentos de alegria,
- os momentos de tristeza,
- os momentos de arrependimento.
Ninguém voltará as costas às tuas palavras,
Em sinal de pouca importância,
Tudo o que disseres é escutado por todos!
Porque da tua boca
Só saem coisas que vêm de longe
E que, sem querer,
Entram no coração dos homens.
(1953)
Abundam nos versos deste poeta, o lado alegre da vida, a soltura irreverente, satírica e trasbordante da juventude. São os casos dos poemas a seguir transcritos. Interessante é que já anteriormente, Maria Helena Spencer numa apreciação crítica, havia assinalado a novidade da alegria trazida na poesia deste poeta, afirmara ela que Jorge Pedro Barbosa trouxera na época, como que uma “lufada de ar fresco e de alegria” – que também faz muita falta à lírica – contrariamente à generalidade da poética cabo-verdiana de então, naturalmente triste, porque preocupada com os imensos e complexos problemas sociais e humanos do nosso quotidiano nas ilhas, e aos poetas era exigido que sobre eles falassem.
Em Jorge Pedro Barbosa, encontrámos também o lado lúdico, prazenteiro e pleno de um certo riso. O poeta “brinca” com as figuras castiças e as coisas típicas da terra. Os dois poemas a seguir transcritos e publicados em 1958, na revista “Claridade” ilustram bem essa “hilaridade gozona” acompanhada da musicalidade que o poeta empresta ao seu ritmo poético, bem peculiar:
Djom Pó-Di-Pilom
(João Pau-de-Pilão)
Mi própi qu’ê Djom
Djom Pó-di-Pilom
Qu’ê dono di tchom,
Tamanho, largom,
Co midjo, rolom,
Mandioca, fijom,
Batata, mamom,
Barnela, cimbrom
Co pé di polom!
Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Fadjado, roscom!
Casa, quintalom,
Co pato, pintom,
Galinha, frangom,
Tchiquero, litom
Co roda fogom,
Co tcheu calderom
Ê Nhor Deus qui pô!
Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Qui djunta tistom
Contado na mom,
Tó qu’intchi cerom,
Saco, garrafom,
Caxa papelom
Co três balaiom,
Pa mi co nh’irmom!
Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Fadjado roscom,
Qu’ê dono tchom,
Qui tem tcheu tistom
Má qui ca ladrom!
(in: Claridade, 1958)
Outra sátira que convida ao riso:
Mudjer Di Hoji
(Mulher de Hoje)
Mudjer di hoji
Ca ‘ta di cunfiá!
É gosta purfiâ
Cuma tudi homi
Ta gosta d’el!
Mudjer di hoji
Ê linguarêra,
Ê subejadêra
Djê ‘squecê lada
Rosto na rubêra,
Dj’ê ‘squecê Cuma
Tem fiticêra!
Mudjer di hoji
Cuma dj’ê laba
Moda gato
Cuma d’jê calça
Si sapato,
Cuma d’jê basunta
Rosto fépo,
Cuma d’jê
‘nrola
Na citim
Dja ca falta-‘l
Nês mundo más!
Mudjer di hoji
Ta subi cama,
Sunha, papiá,
Ri na sono,
Labanta cedo,
Abri janela,
cuda própi m’ê si mé!
Dj’ê ‘squecê fitcha
Labada-l horta,
D’jê squecê durmi
na cancaran!
É ca podê mora
Na funco-l padja,
Baxo coquêro,
Ê ca podê
Coba-l midjo,
Ê ca podê cume
Papa co lêti!
Mudjer di hoji
Ta ‘nrola língua,
Raganha boca,
Papiâ língua-l Xuxo
Qui ca di Guiné!
Dj’ê ‘squecê conta
Mocinhos, di noti,
‘storia-l bodeco
Nha Teodora,
D’jê ‘squecê cênde
Si lupeta
Dj’ê ‘squecê bira
Loro cãcã!
Mudjer di hoji
Ca podê obi
Cantiga-l tabanca,
Ca podê obi
Tóqui cimboa,
Ca podê obi
Pito-l cariz!
(In: Claridade, nº 8, 1958)
N. B. - Para o leitor que pretender uma leitura traduzida para o português destes dois últimos poemas transcritos, poderá consultar o volume I «No Reino de Caliban» de Manuel Ferreira, Lisboa, 1975. Edição Seara Nova.
Retomando, eis as palavras já acima aludidas, de Maria Helena Spencer, e exaradas à época (1954) numa apreciação, a propósito de um espectáculo realizado na Praia, em que Jorge Pedro Barbosa, representou, cantou e declamou. O texto de MHS intitula-se: “Também sabemos sorrir…” publicado no «Boletim Cabo Verde» do mesmo ano. “ (…) Com Jorge Pedro, Cabo Verde, não é só lágrimas e saudade…é também alegria e fartura, juventude e prazer (…) maravilhosa réplica ao fatalismo doentio (…)” (Fim de transcrição)
Em jeito de finalização do meu escrito, gostaria de fixar esta nótula – não estou a par de obra mais recente deste autor – dentro da poética cabo-verdiana, os versos de Jorge Pedro Barbosa, como que ficaram suspensos no tempo; como que ficaram ancorados “numa eterna juventude,” o que faz com que o leitor actual, ao descobri-los lhes perceba a frescura e a alegria que neles percorre e permanece.
Para terminar esta minha lembrança avivada da riqueza poética crioula, de que são depositários os versos de Jorge Pedro Barbosa, enquanto peças integrantes e mesmo estruturantes, do nosso ideário literário e cultural; faço minhas as palavras de alguém – li isso há algum tempo, algures … – que ao analisar um bom poeta, esclareceu: “tudo o que sobre ele dissermos há-de esquecer e o que ele escreveu há-de ficar.” Assim também é e será sempre, com a poesia de Jorge Pedro Barbosa.