Sobre a Apresentação de um livro

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A propósito da recente apresentação do livro de Daniel dos Santos, «Amílcar Cabral – Um Outro Olhar» recebemos de alguém muito amigo e não menos crítico, uma apreciação que achámos muito interessante e oportuna para ser aqui publicada.
O que chamou a nossa atenção, no texto que se segue é a maneira como o autor do comentário “classifica” o tipo de “Apresentante” e a “responsabilidade” que lhe atribui.
Leia e repare como pode ser também fina, subtil e algo irónico, a percepção do ouvinte, do participante numa apresentação pública de um livro.

“Caríssimo Armindo
(…)
Bom, quanto à apresentação do livro.
Da minha modesta experiência como participante nestes eventos – mantenho um certo culto por apresentações de livros que me interessem – costumo distinguir 3 modelos de intervenção dos apresentantes (claro que há mais):
1. Aquilo a que eu chamo os apresentantes "mestres de cerimónia" – muitas vezes não leram o livro, tendo-lhe dado, quando muito, uma vista de olhos. Fazem da apresentação um mero evento pouco menos do que social. Conheço alguns – e aí não me apanham;
2. O apresentante interessado em mostrar que leu atentamente o livro e, não obstante, com avisada distância e passividade, resumindo ali, sublinhando acolá, considera que cumpriu o mandato – a partir daí o leitor que faça pela vida.
3. O apresentante envolvido que leu e sobretudo sentiu a "história" do livro, que, para também envolver os ouvintes, nela não receia assumir mais ou menos protagonismo e mesmo riscos, ora fazendo o papel de advogado de deus, ora o de advogado do diabo, sublinhando e até apimentando as partes mais controvertidas e polémicas e mesmo, porventura, lançando ali e acolá dúvidas sobre certos aspectos (factuais ou outros) ou conclusões do autor. Na apresentação de um livro gosto de sentir que os ouvintes ficam como que a "salivar" pelo seu recheio, fruto de uma intervenção apelativa, controversa, desalinhada do seguidismo, não pacífica, provocatória, até. A tua apresentação de um livro como o que te coube – até pela figura (quando se trata de uma "vaca sagrada", sans offense, é sempre mais problemático) e a sua circunstância que aborda – constitui uma excelente manifestação deste modelo, de que gosto particularmente. Parabéns por isso.”




Cuidado com as traduções literais...!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Esta vai para a minha querida amiga Dulce Irene crioulista estudiosa e investigadora séria e quem a entenderá melhor…
Há coisas que só se podem contar a partir da chamada terceira idade, a idade da sabedoria, da calmaria, e de outras “sagesses” que esta fase de vida traz aos seus portadores.
Pois bem, a historieta que me proponho contar passou-se aqui há alguns anitos…
Estava eu num aeroporto internacional, à espera da chegada de um familiar. Tudo acontecido. Recepção feita, eis que me preparo para regressar ao carro, quando oiço alguém gritar por mim, da seguinte maneira: “Ondina! Nha cretcheu!” Tradução literal para nós falantes do Crioulo: “Ondina! Meu amor”!
Mas aqui e entre nós, “cretcheu” significa o amor que une os namorados, o casal, “Nha cretcheu” significa também a especificação da amada ou do amado escolhido e pertencido. Logo, com um contexto e significado reservado ao par/casal, de todo conhecido e identificado, por nós falantes das variantes do Crioulo das ilhas de Cabo Verde.
Pois bem, saio do carro parto em direcção a essa voz, que reconheci vinda de um amigo e colega de profissão, também professor, a quem já não via há largos anos. Cumprimentámo-nos efusivamente, como é natural, entre pessoas amigas e que há muito não se viam.
Eis que volto ao carro, encontro a minha cara-metade com uma expressão facial, a revelar contrariedade e que sentado ao volante e ainda antes de arrancar me interpela claramente enciumado (pareceu-me…): “ouve lá, este teu amigo, chama-te de “nha cretcheu>?” Onde é que ele arranjou esta intimidade?”...

Abreviando, com esse chamamento, o meu amigo (que é anglófono) quis mostrar-me que tinha aprendido, ou estaria a aprender o crioulo de Cabo Verde
Conversa troca conversa, a minha cara-metade, já mais racional, como costuma ser, chegou à conclusão de que o crioulo do professor do meu colega é que seria eventualmente o culpado pelo equívoco do “nha cretcheu” alargado a todos os contextos amigos. Afinal, ele podia ter dito também em crioulo: “Ondina, nha querida! (minha querida, my dear) Porque neste caso até se subentendia “querida amiga”. Agora “nha cretcheu”!!??
Enfim, perante este equívoco, “sofrido na pele”, como sói dizer-se, fica o alerta e o aviso aos que ensinam crioulo aos não falantes da Língua cabo-verdiana. Existe a expressão em crioulo “nha querida”, que pode ser empregada em contextos de fala entre amigos. Agora, “nha cretcheu” é que é somente e exclusivamente, tratamento de namorados.
Vamos lá fazer esta destrinça…não vá o Diabo tecê-las! …

P. S. Este post sciptum é dirigido ao leitor não falante do Crioulo da Cabo Verde. A palavra “Cretcheu” (comum a todas as variantes do crioulo das ilhas) resultou da aglutinação de: “cre”= querer e “tcheu”= Muito (cheio, pleno). A tradução em contexto, será a de amar, de gostar muito,de querer bem e de bem querer.

Como podem ser diferentes as perspectivas históricas...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Serve o texto que se segue para demonstrar de como se percepcionam, dependendo da cultura e da história, heróis versus bandidos e/ou piratas malfeitores.
No último Verão, a minha filha mais a família, marido e filhos visitaram Londres. Eis que de entre visitas interessantes feitas a monumentos magníficos daquela grande cidade europeia, entraram na Abadia de Westminster, onde se encontram sarcófagos de grandes heróis ingleses.
Durante a visita, a atenção da minha primogénita ateve-se no túmulo do nosso muito conhecido e tristemente célebre, Francis Drake. Faz um alto para os filhos e explicou-lhes sucinta e assertivamente: “Este aqui, pode ser herói para os ingleses, mas para nós é um bandido, pirata, que saqueou e destruiu no século XVII a Cidade da Ribeira Grande, hoje conhecida por Cidade Velha na ilha de Santiago, por sinal considerada a primeira cidade construída pelos portugueses, o mesmo que dizer, europeus, e, obviamente, pelos africanos em terras tropicais. Mas mais, continuou a explicar a minha filha: nas ilhas, por onde ele passava, Francis Drake e os seus homens pilhavam, matavam, saqueavam e violavam mulheres. Era assim o “modus operandi” deste inglês, glorificado na terra dele e elevado à categoria honorífica de “Sir” porque grande parte do seu saque era entregue à coroa britânica que desta forma o incitava a continuar os seus actos de barbárie e de banditismo …”
Em traços gerais e historicamente, assim esclareceu a mãe aos filhos, o porquê que, para ela, o sepultado na Abadia de Westminster e na óptica dela, nunca poderia ser classificado de herói!

Interessante é que dias depois, estando eu a ler uma revista que trazia uma longa separata sobre a história das guerras entre espanhóis e portugueses para a restauração da independência portuguesa (1640), compreendi que a expressão popular “amigos de Peniche,” sinónimo de falsos amigos, tinha por detrás a “assinatura” de Francis Drake. Supostamente, o papel dos aliados ingleses – numa guerra que se estendeu até 1668 – era ajudar os portugueses a saírem da ocupação espanhola. Mas tanto destruíram e saquearam, sob comando do terrível Drake, que merecidamente levaram o epíteto de “amigos de Peniche”, nome da localidade onde se situa o porto de onde desembarcara F. Drake. Li ainda nesse mesmo documento, que a cidade de Faro no Algarve, por exemplo, foi completamente pilhada e destruída por Francis Drake e os seus homens, sempre abençoados pela Rainha inglesa…
Enfim, tudo isto para dizer que podem ser muito relativos, diferentes e até opostos a percepção e o entendimento de herói e de bandido. Infelizmente, os interesses falam mais alto do que valores…
Francis Drake é nisso um caso paradigmático.

Apresentação do livro "Amílcar Cabral - Um Outro Olhar" de Daniel dos Santos

sábado, 6 de setembro de 2014
Nótula Explicativa

Após uma pausa longa, eis-nos de volta ao “Coral Vermelho”… já sentia a falta do contacto, sempre querido, com o leitor e destes pequenos exercícios de escrita que mal não fazem…pelo contrário! Animam a mente.

Pois bem, para reiniciar, aqui vai um texto de autoria de A. Ferreira e que serviu de apresentação pública, no dia 5 de Setembro corrente, na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, do livro: «Amílcar Cabral – Um Outro Olhar» (Chiado editora, 2014) de Daniel dos Santos, politólogo e professor universitário.

O interessante é que este texto de apresentação, que a seguir se publica, acabou por ser de certa forma, não só um ponto de vista de um leitor, como também se constituiu numa espécie de ensaio, sobre o conteúdo da obra de Daniel Santos.
Daí querermos partilhá-lo com o leitor.

Apresentação:

Amílcar Cabral – Um Outro Olhar.

Amílcar Cabral - Um Outro Olhar” é um ensaio sério, honesto, que tem na figura de Amílcar Cabral um eixo condutor. O título sugere, uma certa biografia. Mas não uma biografia do género "Longa Marcha para a Liberdade" de Nelson Mandela nem “A Face Oculta de Kennedy” de Seymour Hersch. Cito estes dois grandes estadistas e estas duas extraordinárias biografias porque estão uma nos antípodas da outra. A primeira é epopeica e panegírica descrevendo um percurso honroso e dignificante enquanto a segunda é escabrosa e indecorosa narrando os subterrâneos da vida de um político e do seu clã – vergonhosa, imoral e pouco digna.

A obra de Daniel Santos não é uma coisa e também não é outra. Não glorifica nem denigre. Não é isento – não gosto desta palavra porque ela, a palavra, é desprovida de conteúdo, não tem substância, nem é real. Despiria o autor do seu saber, da sua formação, do seu pensar, do seu cunho pessoal. É objectiva, seria a expressão certa para a classificar.

Mas diria mais! Diria que “Amílcar Cabral – Um outro Olhar” é denso, é substantivo, é real, por isso potencialmente polémico. É também equilibrado, porque rigoroso e profusamente documentado.

Escrito numa linguagem simples sem ser simplista, escorreita, desprovida de qualquer gongorismo ou sociolecto, Daniel dos Santos convida o leitor despretensiosamente a uma permanente reflexão. Na verdade faz uma TAC (Tomografia Axial Computadorizada) centralizada na figura de Amílcar Cabral (AC) em que escalpeliza um homem, um partido e um tempo. Fundamenta-se na vida multifacetada de uma das maiores figuras de África do seu tempo – Amílcar Cabral – para descrever o homem, o político, o diplomata, o chefe militar, bem como social, cultural e historicamente esse tempo – o das independências das colónias portuguesas de África.

O autor divide a sua obra em três partes. O nome que dá a cada uma e as razões que estão na base desta sua organização são explicadas e descritas nas 1ª páginas. Em contrapartida separa a vida do “biografado” em cinco fases cronologicamente estabelecidas, a saber: Conformista; Contestatário; Revoltado; Nacionalista e Revolucionário desfazendo desta forma a ideia de que Cabral “nascera” político, ao mesmo tempo que deixa intuir que ele se tornara político por efeito das circunstâncias e da sua sensibilidade porque na verdade o que ele sonhava, era ser um poeta de mérito e um reconhecido engenheiro, segundo confessaria.

Para descrever estas fases, o autor percorre a vida de Amílcar Cabral desde o nascimento em Bafatá, Guiné-Bissau em 1924 passando pelo seu assassínio em Conacry em 1973, indo para além da sua morte com a proclamação da independência da Guiné-Bissau e até quando, diz ele, um grupo declarando-se herdeiro do seu legado político e reivindicando a legitimidade histórica da sua luta, instala em Cabo Verde, (cito-o): “… um modelo de Estado da mesma igualha que o de Oliveira Salazar.” E explica (continuo a citar): “As semelhanças são enormes: ambos se baseavam no partido único, no chefe, na polícia política, na estatização da economia, na ideologia, no monopólio das forças armadas e dos meios de comunicação social.” (Fim de citação).

Nada escapou ao olhar atento do investigador político e do antigo jornalista. Do país ele aborda com clareza e com rigor científico o seu achamento, o seu povoamento, a sua colonização, o seu “colonialismo”, cruzando e confrontando inteligente e assertivamente teorias, doutrinas e conceitos − jurídicos, sociológicos, históricos, culturais − concluindo convergentemente com Cabral de que Cabo Verde era uma colónia sui generis porque “tecnicamente sem colonização e sem colonialismo”. Cabral diria para culminar uma intervenção a este propósito: ”Os tugas adoptaram outra política: [Em Cabo Verde] todos são cidadãos.” Isto tudo para enquadrar e distinguir, diferenciar, as razões da luta em Cabo Verde e na Guiné.

Ao percorrer a vida de Cabral, Santos não esquece, antes, realça o facto de AC não obstante ser filho de um homem culto e professor só ter feito a 4ª classe aos 13 anos, na Escola Central da Praia. Aqui abro um parêntese para um comentário pessoal, extra-livro, e fazer o ingrato papel de advogado do diabo: Juvenal Cabral, pai de Amílcar, teve cerca de 3 dezenas de filhos – 18 com as suas 3 principais mulheres – o que seguramente não lhe dava tempo para cuidar deles todos. Isto deve ter marcado profundamente o menino e depois jovem, e mesmo o homem, Amílcar Cabral, o que o leva a manifestar (poesia e cartas) uma permanente protecção e um exacerbado carinho pela mãe e a condenar com uma violência inaudita, até com alguma deselegância e falta de tacto diplomático, a poligamia, quando diz: “Que está de facto, profundamente convencido de que é indigno para a espécie humana um homem ter várias mulheres.”

Ofendia desta forma, pela linguagem que utilizou e não pela condenação da poligamia, o povo do País que o acolheu, o mundo muçulmano e a cultura generalizada de África. Cabral viajava com dois nomes falsos (ambos com passaportes de países muçulmanos, um de Marrocos em nome de Mohamed Benali, outro da Guiné-Conacry em nome de Ousman Keita). Não me vou alargar sobre este facto. Fecho o parêntese.

Pois bem, AC lá fez o Liceu com distinção – 17 valores – no Gil Eanes de S. Vicente para onde se deslocara com os seus três irmãos e a mãe que teve que trabalhar duramente – ganhava 50 centavos por hora na fábrica de conserva de peixe, quando havia peixe – para manter a família monoparental uma vez que o pai durante todo o tempo – 7 anos – absolutamente nada enviara.

Depois de um ano a trabalhar na Praia, segue para cursar agronomia. Daniel dos Santos aproveita com muita oportunidade o tempo em que Cabral se encontra em Lisboa para descrever com suficiente minúcia o ambiente estudantil dos oriundos das então colónias bem como a sua relação com a Casa dos Estudantes do Império – CEI – que dava os seus primeiros passos.

Cabral chegou a Lisboa em 1945 – com 21 anos – pouco mais de um ano depois da criação da CEI. Também fim da 2ª Grande Guerra, que, como se sabe, traria alterações significativas na situação das colónias; ano da criação da ONU. E já agora, acrescente-se – e não é despiciendo – auge da repressão salazarista.

E foi seguindo o seu percurso, as suas relações com a “CEI” e com os principais protagonistas do ambiente estudantil africano do qual Daniel faz uma bem articulada exposição da evolução da “Casa” como espaço criado pelo Estado Novo (Ministro do Ultramar Vieira Machado e Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa Prof. Marcello Caetano – autor dos estatutos da CEI) para integrar e controlar os estudantes ultramarinos – dispersos em inúmeras associações – evolução, dizíamos, primeiro para um centro de consciencialização da cultura africana, isto é, como disse Tomás Medeiros como um local de “busca da re-africanização da identidade e das raízes” ou como avançou Frantz Fanon «quebrar a máscara branca» uma vez que o antilhano considerava que o colonialismo é um processo de alienação que inferioriza o colonizado porque faz dele cópia, em termos culturais, do colonizador e, posteriormente, de politização das consciências.

Assim dito, parece que tudo começou com a CEI. Não, nada disto. E Daniel dos Santos expõe-no com clareza e oportunidade. Vai mais atrás, insere na sua análise toda, e não é pouca, actividade africanista que se dá com a queda da monarquia e o advento da república.

Refere-se ao surgimento de uma actividade político-jornalística intensa e muito abrangente, com a criação de várias associações e organizações que lutam pela igualdade de negros, mestiços e brancos, por uma “Uma África para os Africanos”, aproveitando-se do pan-africanismo de Garvey e Du Bois e dos protagonistas dessas actividades em Portugal e colónias, salientando o papel dos cabo-verdianos Augusto Vera Cruz e dos irmãos Luis e Martinho Nobre de Mello.

A passagem de AC pela CEI não foi relevante. Por um lado porque a princípio AC estava muito mais focado nos seus estudos do que em qualquer outra coisa. E a sua aparição na Casa, diz-nos Daniel dos Santos, só se dá em 1949, quase no fim do curso, pelas mãos de Marcelino dos Santos e depois da chegada de Mário de Andrade (1948). A CEI, nessa altura, segundo Mário de Andrade [apenas] se preocupava com problemas que estivessem ligados à geografia, à linguística e à história da colonização. E parafraseando o autor que cita Óscar Oramas: “Amílcar não tinha formação nem preparação teórico-ideológica para rejeitar os valores e a cultura portuguesa”. (Fim de citação).

O surgimento (na clandestinidade) em 1951, do Centro dos Estudos Africanos (CEA), na Rua Actor Vale, 37, em Lisboa, veio dar seguimento ao trabalho cultural iniciado na “Casa” e que não podia continuar porque ela era dominada pelos filhos dos ricos colonos, sobretudo angolanos, que, obviamente, não deixavam espaço para essas actividades. O CEA era dominado pelo santomense Francisco José Tenreiro que era de entre todos, de longe o mais bem preparado, com obras já publicadas. É este o período em que Daniel dos Santos classifica AC de “contestatário”.

E para terminar esta fase da vida de Amílcar que o autor descreve e analisa de forma exaustiva, não posso deixar de referir, muito rapidamente, como começou, segundo Daniel Santos: Amílcar considerou-se sempre GUINEENSE durante toda a guerra para a independência. E os senhores perguntar-me-ão: E não era guineense? Claro que era! Mas só foi estudar porque o reitor do Liceu de Gil Eanes, Dr. Luis Terry, lhe concedeu (discricionariamente) uma pequena bolsa de 350$00 mensais que era manifestamente pouco. Chegado a Lisboa, a CEI que tinha na sua direcção Humberto Duarte Fonseca, um cabo-verdiano e a chefiar a sua Secção de Cabo Verde, obviamente, outro cabo-verdiano, Aguinaldo Veiga abriu concurso para uma bolsa para os naturais de Cabo Verde a que Amílcar Cabral concorreu e ficou em primeiro lugar. Era uma bolsa de 450$00 que iria acumular com a de 350$00 do Liceu. Humberto Fonseca ainda faria várias diligências junto do Instituto Superior da Agronomia e do Ministério da Educação para que lhe fosse concedida isenção de propinas que não era compatível com a condição de bolseiro, conta-nos Daniel dos Santos. E foi, graças ao empurrão destes dois cabo-verdianos, e ao seu fechar de olhos à sua naturalidade que ele ganhou condições para fazer o curso tendo depois escolhido a Guiné para começar a trabalhar. Aliás, ele nunca trabalhou em Cabo Verde depois de formado.

Antes de partir, ainda no ano em que se formou, 1952, com 15 valores, publicaria o “Apontamentos Sobre a Poesia Cabo-verdiana” no Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação onde estabelece um paralelo entre os Claridosos e os predecessores. Dizia que o advento dos Claridosos tinha tirado a poesia cabo-verdiana dos céus e tinha-a colocado na terra: “Cabo Verde já não era o Jardim Hesperitano mas um país real, de gente com problemas” e, continuo a citar: «onde as árvores morrem de sede, os homens de fome, a esperança nunca morre» … «e o mar a estrada da libertação e da saudade». (Fim de citação)

É ainda nesse ano de 1952 que Mário de Andrade e Francisco Tenreiro publicam “Os Cadernos da poesia Negra de Expressão Portuguesa” que para alguns constitui um marco na afirmação da personalidade africana em terras portuguesas. Foi altura, diz-nos Santos, em que Cabral descobre o Pan-Africanismo de Du Bois e Washington e o Movimento Negritude de Senghor, Césaire, Anta-Diop e outros.

Na Guiné, Cabral desenvolve um extraordinário trabalho técnico merecendo a apreciação do Governo da Guiné do qual teve sempre boas referências. Mesmo depois de tentar fundar uma Associação, espante-se (!) em que exclui cabo-verdianos e europeus. Longe devia estar a ideia da unidade!...
É claro que os estatutos não passaram apesar da simpatia que o Governador Mello e Alvim, um homem de ideias liberais, tinha por ele. Mais: Mello e Alvim tê-lo-ia repreendido e dado conselhos de que Cabral mais tarde agradeceria e dos quais nunca mais se esqueceria.

Cabral deixa a Guiné em 1955, evacuado com paludismo e não expulso como se tenta fazer passar, di-lo e prova-o Daniel dos Santos. Durante o tempo que esteve na Guiné teve oportunidade de assistir a espancamentos, torturas, maus tratos de indefesos «indígenas». Numa palavra: De viver e testemunhar a violência do colonialismo. É a fase de revoltado, segundo Daniel dos Santos, que a explica com pormenores.

Até 1959, esclarece-nos Daniel dos Santos, «a folha de Amílcar Cabral na PIDE estava completamente limpa».

Da Guiné salta para Angola para onde fora trabalhar num projecto ligado ao mapeamento de solos. Ali ele tem contactos com activistas e nacionalistas angolanos, mais politizados (numa fase mais madura) e mais bem preparados. Toma consciência da luta que é necessário travar, merecendo de acordo com a entrevista concedida por Tomás Medeiros a Daniel dos Santos o seguinte comentário (cito): [AC] «só começa a falar de independência quando foi a Angola trabalhar em Cassiquel. E Mário de Andrade fez-lhe ver que a «vida não é só solo, é mais qualquer coisa.» E acrescenta Tomás Medeiros: «perdeu as ilusões do solo e passou a perceber que o problema estava na organização e no combate.»

Isto, e explicações mais acabadas que encontramos ao longo do livro desfazem o mito, engendrado e alimentado no seio do PAIGC de que AC esteve na fundação do MPLA. AC nada tem a ver com a criação do MPLA. Ele, AC, politizou-se em Angola, com angolanos e não o inverso como o demonstra Daniel dos Santos. É o período em que o classifica de nacionalista.

Quando se dá a revolta dos estivadores do cais de Pidgiguiti em 1959, Cabral estava em Angola, de regresso para Portugal tendo tomado conhecimento da ocorrência pelos jornais. Visita a Guiné passado um mês, em Setembro, não lhe faltando informações sobre os acontecimentos, uma vez que o seu amigo Aristides Pereira por onde passavam as mais secretas e confidenciais informações era, sempre de acordo com Daniel dos Santos, o homem de confiança do Governador e do Inspector da PIDE.

Pidgiguiti é mais uma das falácias do PAIGC que durante anos o reivindicou como obra sua, sem nada, absolutamente nada ter a ver com ele. Até porque, como se verá ao longo da obra, PAIGC nem sequer existia.

Em Janeiro de 1960, Cabral viaja para Tunes integrado no MAC (Movimento Anticolonial) fundado em 1957 por um grupo de militantes de luta anticolonial – o 1º compromisso político de AC – para assistir ao II Congresso Pan-africano realizado para os movimentos africanos organizados. Não foram admitidos uma vez que o MAC era uma organização de cidadãos de várias colónias – Viriato da Cruz e Lúcio Lara de Angola, Amílcar Cabral da Guiné, Hugo de Menezes de S. Tomé – e não uma associação de organizações nacionais, como se exigia. Foram obrigados por esse motivo a “inventar” o MPLA e o PAI para poderem participar, aliás indo ao encontro dos desejos e das recomendações de Viriato da Cruz. Ao contrário, Holden Roberto era integrado e já conhecido através da UPA, uma organização nacional angolana que ele presidia. Daniel dos Santos fala então da transformação do MAC para FRAIN (Frente Revolucionária Africana Para Independência Nacional das Colónias Portuguesas) depois para CONCP (Conferência das Organização Nacionalistas das Colónias Portuguesas) e explica com pormenores como foram “criados” e não “fundados” os dois partidos – MPLA e PAI.

Quanto ao PAI ele descreve com toda a minúcia a fabricação da data de 19 de Setembro de 1956 como data da fundação do PAIGC. Apenas para levantar o véu e não tirar-vos o prazer da leitura, direi que, dos chamados fundadores – nomes que variam conforme a fonte – não há duas declarações coincidentes. Apenas dois exemplos de dois alegados fundadores: Aristides Pereira disse que Cabral achou, no acto da fundação, que não era preciso assinar nenhum papel de compromisso. O seu cunhado Fernando Fortes, ao contrário, não só disse que assinou um documento, como também disse que falou com Cabral sobre a sua militância no MLG. Acontece, porém, que em 1956, pretensa data da fundação do PAI, o MLG não existia. O MLG só foi fundado em 1958. Como podia ser?

Depois da Conferência de Tunes – um marco importantíssimo não só na vida de Cabral como na luta das colónias – em que ele assinara com o pseudónimo de Abel Djassi, um compromisso, não havia mais condições de Cabral regressar a Portugal onde tinha deixado a família e teve que abandonar a clandestinidade e lançar-se na luta.

Chegou a Conacry em Maio de 1960. Já existiam no terreno muitos partidos (MLG, MLGC e UPGB entre outros) pelo que teve de lutar duramente – nem sempre com elegância e elevação (troca de panfletos e de insultos, conspirações, intrigas) com os partidos concorrentes – para que o seu PAI, que acabara de sair de Tunes – sem expressão, sem quadros e sem estruturas – fosse reconhecido como única força representando Guiné e Cabo Verde.

Em 1963, o PAI já PAIGC dá o seu primeiro tiro. É o início da Luta Armada. E os problemas no seio do PAIGC ganham outra natureza. É a fase de Cabral revolucionário. Tinha sido nomeado Secretário-Geral do PAIGC fora do quadro estatutário por uma Conferência de Quadros em Dakar. A partir daí alterou os estatutos como quis, sem nunca convocar um único congresso e foi-se assenhoreando do Partido.

Em 1964, com a “Conferência de Quadros de Cassacá” mais tarde tornado Congresso, do qual se saíra muito bem, mas deixando atrás “um rasto de um número indeterminado de condenações e fuzilamentos de combatentes e de militantes”.

Reforçou os seus poderes e assumiu-se como senhor absoluto do PAIGC. Passou, desde então, a coleccionar inimigos e adversários internos, todos movidos por um único interesse: o de o eliminar.

E à medida que a luta se ia desenvolvendo mais poderes chamava a si. Tornou-se, diz-no-lo Daniel dos Santos, primeiro, uma espécie de semi-deus em que, cito Maurice Duverger citado pelo autor: “toda palavra que sai da sua boca constitui a verdade; toda a vontade que dele emana é a lei do partido”, e depois em próprio deus que decidia da vida e morte dos militantes e em que até os casamentos careceriam da sua autorização.

Diz um documento do PAIGC, reproduzido no livro, que ele estava acima do Partido e podia por este facto aprovar ou reprovar qualquer decisão tomada por qualquer órgão do Partido inclusive da sua própria Comissão Permanente. Passava a todos, sem excepção, uma certidão de incapacidade e de incompetência.

De tudo isto e do que adiante virá nos dá conta o livro.

Ao mesmo tempo que crescia o seu autoritarismo, o seu absolutismo alegadamente iluminado, engrossavam as fileiras internas dos que o queriam eliminar. Bastas vezes foi posta em causa a sua liderança inclusive pelo seu próprio irmão Luis Cabral, como poderão ver na obra.

Apresento uma lista dos atentados, conspirações, intrigas, intentonas mais importantes de entre os que Daniel dos Santos elenca no seu livro:

• Revolta de Boé (Junho de 1967); - todos fuzilados. As causas residem, alegadamente, na protecção que AC dava aos cabo-verdianos. Nino estaria envolvido mas recusou-se a comparecer ao julgamento para que foi convocado.
• Novembro de 1967, um atentado perto de Ziguinchor
• Em Dezembro de 1967 são os mandingas que se manifestam devido ao número de baixas que sofriam…
• Em Janeiro de 1969 um grupo de balantas em Boé recusa-se a combater exigindo a presença de Cabral.
• Um outro movimento de revolta surge chefiado por Mário Gomes, Braima Sissé e Sena Camará.
• A 3 de Maio de 1968, 150 mandingas chefiados Injai Bá da região de Oio traçaram um plano de deserção para o exército português. A deserção era punida com fuzilamento.
• A 30 de Dezembro de 1968, os mandingas e os manjacos juntam-se e criam a Junta Militar dos Patriotas da Guiné-Bissau com vista a transformar o PAIGC em PAIG. Propunha-se eliminar AC e os seus homens de confiança que, para eles, só vivem roubando o partido. A Junta era dirigida por Mamadu N’Daie, Mamandim Iafa e Bobo Keita, todos Comandantes supremos.
• Em Fevereiro de 1969 atentado contra Osvaldo Vieira desta vez, (supostamente) à ordem de AC que estava convencido de que Osvaldo Vieira e Lourenço Gomes pretendiam derrubá-lo da Chefia do PAIGC.
• A 31 de Março de 1969 um militante de nome Jonjon é surpreendido pelo próprio AC no seu Gabinete com uma granada no bolso para o eliminar como mais tarde confessaria. Foi fuzilado com os seus cúmplices.
• Em Outubro de 1969, Malam Sanhá, Seco Baio e outros guineenses reuniram-se em Simbeli com o propósito de urdir um atentado para eliminar AC quando este para lá se deslocasse;
• Um outro plano para eliminar AC é conhecido em 1969;
• Em 1972, um ano antes da morte de AC também um conluio (Cabi de etnia balanta e Caetano). Tratava-se de uma cilada que consistia em minar a estrada por onde AC iria passar.
• Carta do Nino Vieira a Rafael Barbosa que foi interceptada e os seus efeitos: Conselho de Guerra para Nino demitido de todas as suas funções e 40 militantes presos para averiguações.

Perante esta enumeração (elencagem), que peca por defeito, hoje, podia-se perfeitamente ter pedido emprestado a G. Garcia Marquez o título de um dos seus mais famosos livros: “Crónica de Uma Morte Anunciada”, morte esta que viria a acontecer a 20 de Janeiro de 1973.

O que intriga, e Daniel é absolutamente claro quando o insinua, é que perante os factos e o historial, ainda permaneça em certas pessoas a fixação de que os autores morais do bárbaro assassínio tenham sido apenas a PIDE e o Gen. Spínola quando não faltavam agentes e motivos internos. Ou é comodismo, preguiça de pensar ou é ignorância sobre o que se passava no interior do PAIGC, o que seria natural dada a situação de guerra e natureza estalinista do Partido. Ou então seria mais uma fabricação do real como veremos adiante.

Para chegar ao assassínio de Cabral, Daniel percorre a luta e o Partido de lés-a-lés: a sua génese, o seu desenvolvimento, os seus sucessos, os seus fracassos, as suas estratégias e tácticas, as suas falácias, os seus momentos de elevação mas também de indignidade.

Nada, absolutamente nada, escapa ao olhar de lince, perspicaz, cuidadoso e abrangente do político e politólogo, olhar este que se projecta para além da vida do criador do PAI.

Desde a maneira autocrática, despótica e absolutista como Cabral conduziu o seu Partido, até à criação de um poderoso e bem organizado exército passando pelas intrigas, conspirações, choques, oposições de que atrás falámos.

Daniel dos Santos confronta ainda, com subtileza, a presença de cabo-verdianos na luta armada, segundo ele, de 30 a 40, com a dos cubanos que chega a atingir os 500 no ano de 1967, bem como os mortos em combate – 2 da parte dos cabo-verdianos e 17 da parte dos cubanos.

(A srª Ministra das Finanças que se cuide!…Se os cubanos reivindicarem também terem lutado na Guiné por Cabo Verde não haverá erário que aguente…).

Daniel faz também uma oportuna e bem articulada incursão pela História comum de Cabo Verde e Guiné abordando a questão da “fraternidade” entre os dois povos deixando ao leitor a incumbência de concluir que, se os dois povos são irmãos, então são os bíblicos Caim e Abel – os irmãos desavindos, uma vez que se trata de uma relação histórica, como ele próprio observa, entre “dominador e dominado”. Daí se poder inferir que a dogmatização da unidade Guiné - Cabo Verde, maquinada e sustentada por Amílcar Cabral ou é um desafio à História que foi sempre adversa a essa solução ou não passou de um instrumento habilmente urdido para a consecução da luta para a independência da Guiné-Bissau.

A questão identitária não foi também esquecida. Sem entrar em grandes pormenores, direi que Daniel dos Santos assume uma posição que considero salomónica, de equilíbrio: Não temos que nos re-africanizarmos nem de nos re-europizarmos. Somos cabo-verdianos, fruto do encontro dos dois continentes e respectivas culturas.

Lembrando o grande poeta, ensaísta e jurista Gabriel Mariano: Não temos que procurar as raízes, “nós somos as nossas raízes!

Retomando o conteúdo da obra é importante salientar que o livro de Daniel dos Santos é construído como se de um puzzle se tratasse. Um puzzle cujas peças se encaixam de múltiplas maneiras. Tantas, quantas as conclusões a que cada leitor poderá chegar. Um puzzle em que cada peça que se coloca é um mito que se desfaz na nodulosa edificação construída no aconchego de um conceito marxista-leninista de ideologia que Daniel dos Santos tão arguta e inteligentemente repescou de Mário de Andrade e que consiste na “fabricação do real para fazer passar uma verdade” que se deseja ou que convém. É isto, diz-nos Daniel dos Santos, cito: “que serve para explicar, por completo, a apropriação, umas vezes, a falsificação, noutras, de muitos acontecimentos que marcaram a evolução de alguns processos políticos nas antigas colónias portuguesas." (fim de citação).

É neste quadro que situaremos a falácia da data de criação do PAIGC; a apropriação da greve dos estivadores de Pidgiguiti; a mentira do controlo dos dois terços do território; o embuste do recenseamento da população da chamada zona libertada; a apropriação da autoria da queda do helicóptero onde viajavam deputados portugueses quando a causa tinha sido unicamente meteorológica; a teatralização (publicidade enganosa) da audiência pública do Papa Paulo VI tornada privada; a exultação em Conacry dos irmãos Cabral pelo bárbaro assassínio dos três majores portugueses; a proclamação da independência da Guiné-Bissau pretensamente (há fortes dúvidas do local) em Boé; e a alegada legitimidade histórica transferida para Cabo Verde por um grupo de cabo-verdianos que lutaram para a independência da Guiné-Bissau entre muitos outros assuntos cirurgicamente inseridos.

Daniel dos Santos é lógico, sem ser silogístico no sentido aristotélico do termo. No geral evitou conclusões. Diria que é socrático quanto à metodologia de exposição; mais propriamente maiêutico pois fornece dados e convida o leitor a tirar as suas próprias ilações. Daí que as minhas não são unívocas. Um outro leitor aportará seguramente a outras inferências. Contudo há sempre algumas que se consideram (ou parecem ser) consensuais, não unânimes. E são a estas, sem quaisquer pretensões de estar certo, que me vou rapidamente referir:

> Amílcar Cabral viveu apenas 10 anos em Cabo Verde – dos 11 aos 21 – anos que, como é lógico, poderiam ter (e terão) sido de algum enriquecimento intelectual e social mas dadas as limitações e as circunstâncias que se viviam é de pouco ou nula relevância social – apenas um ou outro exercício literário. É esta a fase que Daniel classifica de conformismo;

> Surge [AC] em Cabo Verde, para o povo cabo-verdiano, (não para a elite informada) trazido pelo “25 d’Abril” e pelas mãos de um punhado de homens e mulheres que tinha todo o interesse em endeusá-lo e mitificá-lo para se legitimar como herdeiros do seu alegado “extraordinário” legado histórico colocando-o directa, mas sobretudo convenientemente, no “Panteão” por uma unanimidade imposta e sem um debate sério sobre ele, que promovesse, no mínimo, um consenso; (estatisticamente, a unanimidade é quase sempre uma imposição enquanto o consenso é uma construção).

> Consenso de que ele não gozava como líder – é bom que se diga – entre os dirigentes guineenses como a obra de Daniel dos Santos revela; e do qual, pelos vistos, só se redimiu com a morte, que o resgatou. Basta ver a quantidade de responsáveis guineenses implicados no seu assassínio.

> Que a luta desenvolvida na Guiné-Bissau, utilizando as justificações e os discursos de Cabral, tinha muito mais um cunho, um cariz, anticolonialista, de mera luta pelo poder, do que nacionalista – defesa de um ideal, de valores.
> Amílcar Cabral não teria lugar no Cabo Verde de hoje. A concepção monolítica que ele tinha de poder, da sociedade e da política são absolutamente incompatíveis com a democracia (sem adjectivos), com os valores e as actuais aspirações do povo cabo-verdiano;

• O livro de Daniel dos Santos reclama de nós uma profunda reflexão sobre a verdadeira contribuição desse homem – Amílcar Cabral – no processo político cabo-verdiano;

• É também um convite a um debate sério sobre o mérito ou demérito do seu lugar no “Panteão” e sobre a “fundação” de uma nação que há mais de 450 anos existe e que como tal, como nação, fez a 1ª reivindicação dos seus direitos cívicos em meados do seculo XVI no longínquo reinado de D. João III.

• É (o livro) um desafio à mitificação, ao culto da personalidade, idiossincrático dos regimes totalitários e ditatoriais de que guardamos evidentes resquícios e produzimos primárias e grotescas manifestações;

• É ainda (o livro) um forte apelo a uma discussão urgente, há mais de 40 anos adiada. Não apenas das teorias ou do pensamento de Cabral mas do seu efectivo papel na independência do País.

Parabéns, pois, a Daniel dos Santos pela ousadia de “UM OUTRO OLHAR” sobre Amílcar Cabral, um olhar que desacomoda, um olhar através deste importante, interessante e, desde já, incontornável documento para o conhecimento da História de Cabo Verde. Uma contribuição que acaba de preencher uma boa parte de uma grande lacuna que teimosamente se tem conservado e que nem o advento da liberdade e da democracia, onde não há temas tabus, nem personalidades ou figuras inquestionáveis, conseguiu colmatar.

É este o livro de Daniel Santos que tenho o privilégio e a honra, e também o prazer, de vos apresentar – uma tarefa difícil dada a sua extensão (quase 600 páginas) e densidade – cuja leitura, a todos, recomendo vivamente.

O João e o seu violão - A saudade...

sábado, 12 de julho de 2014


Conheci o meu cunhado João - de seu nome completo: João de Deus Maximiano - nos anos 60, do séc. XX, quando ele chegou aos Mosteiros, na ilha do Fogo, e aí fora colocado como Chefe do Posto Administrativo. Ele era funcionário da então Administração Civil.
João entrou para a família em 1965, quando se casou com a minha mana mais velha, Maria Tereza. A partir daí foi mais um irmão que adquirimos. Isto faz unanimidade ente nós irmãos, e seus cunhados.
Mas antes de continuar, gostaria de recordar, a propósito do João, de uma exclamação feita com graça, por uma tia nossa, nos Mosteiros, quando desembarcou o então jovem Chefe de Posto da região. Ela, a tia, virando-se para o marido (irmão do meu pai) disse: “Que interessante! Uma coisa estranha, Armando! Este novo Chefe de Posto desembarcou com o seu violão!”
Mais tarde, esta “estranheza” da tia ganharia para mim, uma dupla significação, a um tempo real e simbólica.
Explico-me melhor: de facto, era assim o João, uma pessoa simples e discreta no seu estar. Muito cordata no trato social. Era também alguém desprendido, em termos de bens materiais.

Para além do mais, o João era de uma seriedade à toda prova, naquilo que respeitasse ao seu trabalho, à função, ou cargos que ele desempenhou ao longo da vida, com altas promoções por mérito do seu empenhado labor. Entre outros cargos, destacarei os de Administrador do Concelho e presidente da Câmara da ilha do Sal, na década de 60 do século passado. Mais tarde, nos anos 80, o de Secretário – Geral do Governo e o de Secretário de Estado da Administração Pública, já com Cabo Verde independente. Uma vida feita e dedicada ao trabalho!
O que me admirava também no meu cunhado era a sua arguta inteligência. Sempre bem preparado para escutar, discutir, analisar e opinar com o seu bom senso, assuntos de natureza vária. Um homem que se cultivava através da boa leitura. Aliás, os presentes por ocasiões especiais e que trocávamos entre nós - eram regra geral, livros.
Outrossim, havia nele, fazia parte da sua maneira de ser, um permanente desejo que demonstrava em encontrar a conciliação, o ponto de equilíbrio, quando o assunto assim pedia ou, porque se apresentava de difícil solução, ou de delicada negociação. Ele era um conciliador nato!

Mas hoje queria aqui recordar a sua faceta de homem amante da música.
O João e o seu violão. Uma imagem de marca para nós, a família. Ele tocava violão e não o dispensava quando estava em família, nos nossos convívios, nas nossas celebrações, entre amigos. Não sei se isso seria um traço dos rapazes de S. Nicolau da geração dele e da nossa sociabilidade, pois que quase todos tocavam ou tocam violão. Daí que diria, ou seja tentada a dizer, que os homens dessa ilha cultivavam esse instrumento musical.
O meu cunhado, como já o disse aqui e volto a reiterar, era aficionado tocador de violão. Creio que desde muito novo. Ele era um dos tocadores indispensáveis nas festas familiares, nas nossas tocatinas. O João que com mais amigos e familiares músicos, se juntavam para, não só executarem instrumentalmente, mornas, canções brasileiras, fados, e outro tipo de melodias, como também, para acompanharem os cantores e as cantoras ou melhor, as cantadeiras de ocasião, em que me incluía.
De modo que foram muitos anos, a cantar, acompanhada ao violão pelo João e demais amigos, qualquer deles, grandes violões.
Claro, que me custa ainda falar e recordar tudo isto. Um ano se passou que ele já não se encontra entre nós! É que a morte fez calar também os acordes que ele tirava do seu violão, com que muitas vezes, nos brindava quando íamos à casa dele, ou ele à nossa...
Ficam as boas memórias que do nosso João conservamos! A partida dele deixou uma grande saudade em toda a família! Uma ausência que não se colmata. Alguém que recordaremos sempre com um grande afecto!


Aprendendo sempre...E todos os dias!

terça-feira, 8 de julho de 2014



Aqui há dias assisti na Biblioteca Nacional da nossa capital, um Fórum sobre a “Morna na sociedade cabo-verdiana” (uma achega à sua candidatura a património imaterial da Humanidade). Devo informar que o Fórum foi organizado pelo Orfeão da Praia. Trata-se de uma Instituição privada que tem feito um trabalho deveras interessante sobre a nossa música, ênfase para a morna, através de espectáculos e de eventos musicais pelas ilhas e fora do país, sob a batuta do Maestro e musicólogo, Eutrópio Lima da Cruz.
Desafiada pelo convite da minha querida amiga e colega Maria Cândida Gonçalves, infatigável, diligente e entusiástico elemento do Orfeão da Praia, lá fui. Fui e confesso: gostei. Gostei do que escutei dos conferencistas da mesa e gostei igualmente de algumas intervenções havidas e saídas da plateia, que foram acrescentos, mais-valias, ao tema em debate. Dessas intervenções, o «Coral Vermelho» já registou uma, por amabilidade do seu autor, Carlos Filipe Gonçalves.

Ora bem, daquilo que escutei dos oradores da mesa e dos músicos que da plateia assistiam e participavam no fórum, alguns temas prenderam a minha atenção, que aqui vou abordar sem quais quer preâmbulos:

1-O meio-tom da estrutura básica da morna: Sobre o tal “meio-tom” no compasso da morna, cuja existência se vem atribuindo ao longo do tempo, ao genial B. Léza, esclareceu-nos Henrique Oliveira, o nosso Djick, que não há autoria para tal. Isto é, o chamado meio-tom da morna, ou tom de passagem, é uma exigência do próprio ouvido humano. Logo, não se trata de descoberta alguma de qualquer compositor. E exemplificou: já muito antes, na Brava, as mornas de Eugénio Tavares, na dupla, letra do poeta e música de José Medina, esse compasso já lá estava. Mais acrescentou Henrique Oliveira, Djick, que a distinção de B. Léza, neste particular, é que ele praticou com a mestria que se lhe conhece, usando e, por vezes; “abusando” com frequência e excelência do meio-tom, cujo exemplo máximo é a morna «Talvez». Lindíssima, mas também de difícil interpretação vocalizada, exactamente, por causa dos muitos “meios-tons” que a melodia comporta.

2-O desaparecimento da coreografia O desaparecimento da coreografia que acompanhava a morna dançada, no “antigamente da vida” que hoje já não se vê nos bailes que, aliás, Carlos Filipe Gonçalves, no texto aqui publicado, tão bem explicou. No entanto, sempre acrescentarei das minhas memórias da juventude que, quando num baile se tocava a morna, esta, era a dança reservada aos “crectcheus.“ Isto é, o par masculino, ía logo à procura da sua dama querida, noiva ou namorada, ou ainda, pretendida. Para a «pôr ao peito». Porque a dança da morna supõe alguma intimidade, algum deleite poético, acrescentado pela proximidade dos corpos do par. Pois é, parece que actualmente já não vigora nas festas. Aliás, questiono se ainda se dançará a morna(?) entre nós…

E a propósito do modo de dançar da morna, o Djick, contou-me uma historieta muito engraçada que se terá passado na ilha Brava e que ele presenciou.
Regressado em férias, à ilha natal, vindo de S. Vicente, onde estudava, foi levado por um tio a uma festa em Nova Sintra. Entrados na sala do baile, no momento em que se tocava uma morna (um conjunto de violino, viola braguesa, violão, e cavaquinho - era música ao vivo - notaram ambos, um par jovem, estudantes, igualmente regressados de Mindelo que ocupavam um largo espaço da sala, fazendo ele e ela, uma estranha coreografia ao dançar a morna. Um misto de “rock and roll” e de foxstrot” como que para mostrarem aos locais, que eles sim, eles sabiam outras danças aprendidas em S. Vicente, a ilha mais “adiantada” e cosmopolita, com cinema, vapores na baía, estrangeiros em terra e tudo que a Brava não possuía…
Passados uns segundos, o Djick, vê o tio zangado, a dirigir-se ao par. Tomou a dama, “pô-la ao peito” e mostrou ao jovem, falando e exemplificando numa lição de passos, como se devia realmente dançar a morna. A lição de dança foi dada em crioulo: “um pé diante, um pé trás, trá pé, pô pé, pára pé, deixa’l fica la mé” e assim por diante… numa tentativa de impor algum respeito pela coreografia da dança da morna ao dito par, que acabou por acatar o saber do mais velho.
3 – As três toadas: Outra questão trazida aos participantes do Fórum foi as três toadas distintas da morna e já aceites pelos músicos nacionais. A saber: a toada da Boa Vista, a toada da Brava e a toada de S. Vicente.
O músico Eutrópio Lima da Cruz, que na minha modesta e quase ignorante opinião (apenas canto em casa, claro! mornas antigas) tem vindo num refinamento e numa sofisticação, percebe-se isso no canto do orfeão da Praia, a aproximar as mornas que executam a um tom de música considerada clássica. Explicou ele que a morna sofreu uma evolução notável. Terá feito uma espécie de “caminhada” musical, vindo de melopeia ou de melopeias, passando por várias fases e atingindo a fase de melodia dita clássica, tal como nós hoje, a conhecemos.

3-S. Vicente e os seus músicos: Humberto Bettencourt Santos, o nosso Humbertona, conhecido e apreciado violão, trouxe a questão da música desenvolvida em S. Vicente, destacando os grandes músicos de um tempo passado e falando sobre a influência da música brasileira na época (anos 40 e 50 do séc. XX) em Mindelo. Claro, que as referências ao incontornável B. Léza, não faltaram.
Sobre o caso particular do músico, Luiz Rendall, afirmou Humberto Santos que se ele é conhecido e se tornou mestre no violão, foi por causa dos seus célebres “choros” de violão muito ao compasso e numa linha de interpretação, ao estilo do “choro” brasileiro. Claro, com a adequação, a adaptação e a já originalidade, do grande violão que foi Luiz Rendall.

4 – Unanimidade: A unanimidade das intervenções recaiu na questão do grande “trabalho de casa” que terá de ser feito em Cabo Verde, para que a morna atinja o tão almejado reconhecimento. Todos, ou quase todos os intervenientes, lamentaram que as nossas rádios e televisões, passem ou transmitam muito pouco, a morna! Que a nova geração não tenha sido educada musicalmente no gosto pela morna! Quase que a não ouvem em solo nacional!
Enfim, foram apresentadas muitas e boas achegas à causa da morna para a sua candidatura a património imaterial da humanidade.

Morna hoje - Novos caminhos ou preservação do passado?

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Este foi o tema apresentado pelo jornalista Carlos Filipe Gonçalves no I Fórum Nacional – A Morna na Sociedade Cabo-verdiana realizado na passada sexta-feira, 27 de junho na Biblioteca Nacional, na Praia. Uma análise da realidade actual, que levanta muitos questionamentos num momento em que se prepara a candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade.
A Morna traduz, a grande sensibilidade do cabo-verdiano. A Morna canta o amor, o ciúme, a gratidão e a saudade, dos que partiram e dos que ficaram. Muitos estudiosos são unânimes em dizer que o cabo-verdiano, não conseguiria viver sem a Morna. B.Léza no seu livro “Uma partícula da lira cabo-verdiana” escreveu: “Há só uma terra que conhece a «Morna» e só um povo conhece-lhe os versos – Cabo Verde e o cabo-verdiano. Por isso ao cabo-verdiano, é dado comover-se ouvindo uma «Morna» quer em Cabo Verde quer longe dele, porque só a ele é dado a conhecer, sentir, interpretar, a alma da sua terra.” Outros poetas e autores dizem o mesmo por outras palavras. “ (...) expressão da alma de um povo” definição dada pelo poeta Gabriel Mariano; Pedro Cardoso poeta e investigador afirma, a Morna “ (...) polariza em ritmo a alma cabo-verdiana”. Armando Napoleão Fernandes, investigador, no seu Dicionário do Crioulo - Português, definiu a Morna como “canto e dança, em compasso quaternário, empregnado de melancolia, em que o povo soluça e canta o seu pesar, a sua tristeza e o seu queixume, em tom plangente, dolente e soluçante”.
A Morna a partir dos anos 1990 ultrapassou os dez grãozinhos de terra no meio do mar e conquistou o mundo através da Cesária Évora o que constitui motivo de orgulho de todos os cabo-verdianos. Mas, há ao mesmo tempo, um sentimento de que algo não está bem. Mas, em finais dos anos 1970, também algo não estava bem, nessa época Manuel de Novas compôs a Morna “Hoje tud got pintode é compositor” e também antes, meados dos anos 1950 algo não estava bem e ainda antes disso também há notícias de que algo não estaria. Ou seja, ao longo dos anos, ao lado de grandes compositores, grandes composições que marcam uma época ou um período, têm-se verificado ciclicamente movimentos de alerta para a preservação da «pureza» da Morna.
Passo agora a analisar alguns factos/ocorrências, como um observador distanciado. Vou apenas observar, constatar o que se tem passado, o que me chamou atenção:
1 - A dança na Morna foi desaparecendo e acabou por desaparecer pura e simplesmente. Hoje a Morna nem é coreografia que seja utilizada nos espectáculos, pois nestes, têm sido utilizadas coreografias mais vistosas, como a Mazurca, Kolá, Batuque e Funaná. Até o início dos anos 1970, era tradição terminar um baile com uma rapsódia de mornas, e o ponto final num baile era sempre com a tradicional Manchê, uma composição do final do século XIX. Até um passado recente, digamos meados dos anos 1980 a dança da Morna ainda estava presente nos bailes de conjunto. Com o desaparecimento do baile no sentido clássico e a evolução do conjunto musical a dança da Morna, foi caindo em desuso.
Façamos agora um flashback se me permitem. Descrições mais antigas dão-nos uma ideia de como a Morna foi num passado recente um género musical sempre presente nos bailes. O autor Desiré Bonnaffoux no seu trabalho intitulado “Música Popular Antiga de Cabo Verde” (1978) dactilografado, depositado na Sociedade de Geografia de Lisboa, diz e citamos: “é nos bailes que a música popular de Cabo Verde encontra a sua expressão máxima” e assinala que na primeira metade do século XX “Na Boa Vista, a Morna é tocada nos bailes que duram desde as nove ou dez horas da noite até o nascer do Sol ou mais tarde.” Osório de Oliveira, no “Posfácio Alheio – Uma Poesia Ignorada” pág. 131, da obra “Eugénio Tavares Poesia Contos Teatro”, ed. ICL, 1996, refere em 1931, os “chamados «bailes nacionais» em que dançam e cantam mornas” e indica que “a morna é uma dança de sala”.
2 – Ao longo da sua existência a Morna teve várias candências/ritmos e podemos dizer sem medo várias formas. Conforme a época, ou o período, assim tivemos um andamento para este género musical e uma percepção para a sua forma, que entretanto foi evoluindo. Uma dessas mudanças foi assinalada no Boletim de Cabo Verde, N.º 66, Praia, 1 de Março de 1955,no artigo “A Morna Deturpada” de Ângelo Lima (grande tocador de violão, originário da Boa Vista) no qual critica “ (...) o errado emprego de instrumentos impróprios à parte cantante (banjos, cavaquinhos e outros similares) e acompanhamento inadequado (batimento forte nas cordas e variações constantes com sabor a batucada brasileira).” Note-se, Osório de Oliveira, citado anteriormente, referiu em 1931 que “A orquestra é constituída por músicos amadores, que tocam de ouvido e se servem da flauta, da rabeca, da viola e do violão.” Como se depreende desta descrição o cavaquinho antes não era utilizado ou era pouco. Aliás, Desiré Bonafoux, na obra citada refere que “só para lá dos anos 1930 é que se introduziu o cavaquinho”. Um pouco mais tarde vamos encontrar o que tenho chamado “revivalismo” dos tempos de Eugénio Tavares em pleno período B.Léza. Note-se, Ângelo Lima viria a integrar em meados dos anos 1960, o Conjunto Centauros (que não tem cavaquinho) cujo ideário era interpretar fielmente a Morna do período Eugénio Tavares. Este conjunto gravou um disco no qual se constata claramente uma diferença entre o ritmo e andamento em relação por exemplo ao que se ouve nos primeiros discos do Bana, editados naquela época, meados de 1960. Bana é como se sabe um fiel continuador da obra de B.Léza.
3 - Morna sofreu entretanto e até os nossos dias importantes alterações, de ritmo, andamento, utilização de acordes etc. No período pós-B.Léza, de 1960 em diante e continuou a haver inovações. A partir de meados dos anos 1970, pontifica um novo estilo e entretanto pontifica um novo grande compositor que é Manuel de Novas. Meados dos anos 1980, despontam novos valores como Betú e Nhelas Spencer entre outros. E em todo este processo, mais recente surgem outra vez, vozes de alerta, como Manuel de Novas que já referi e mais tarde Ildo Lobo, que várias vezes lançou varias farpas como esta numa entrevista em 2003 à revista Artiletra: “(…) não se pode fugir, ou melhor não se deve fugir ao tradicional. Eu sou contra o zouck (…) só porque é cantado em crioulo, dizem que é de Cabo Verde. Eu pergunto: se eu cantar um fado em crioulo, passa a ser Morna?”
4 – A Morna ao longo da sua história até hoje tem convivido com as mais diversas modas e estilos musicais e tem evoluído neste contexto. O Maestro José Alves dos Reis, no ensaio “Subsídios para o Estudo da Morna”, Revista Raízes N.º 21, Junho de 1984 diz, e citamos “ (...) no século passado (entenda-se século XIX), com a invasão das polcas, mazurcas, galopes, contradanças, lanceiros, danças de roda, viras, etc. ela (a Morna) não se deixou influenciar”. O pesquisador Desiré Bonnaffoux, citado anteriormente, refere o livro “Cabo Verde” de Ernesto Vasconcelos, publicado em Lisboa em 1916, no qual se pode ler que naquela época “dançam-se Mornas que são características de Cabo Verde (…) juntamente com o tango argentino também em moda.” Desiré Bonnaffoux refere que na Boa Vista citamos, na primeira metade do século XX, “Morna e Galopes formavam o reportório dos bailes crioulos, mas também Maxixes, Valsas, Lunduns, Contradanças e Mazurcas” Isto mostra que já naquela época, a importação de música estrangeira (tal como hoje) era uma preocupação.
5 – A partir de meados dos anos 1970 é o tempo da música revolucionaria a que se segue a ascensão de géneros musicais até então marginalizados. Naquela época, finais dos anos 1970 e anos 1980 a Morna, ainda pontifica, ao lado de um movimento forte como o Funaná. A Morna nesta época ainda é dançada nos bailes de conjunto. Carlos Alberto Martins (Catchass) é pouco conhecido como compositor de Morna, dado o sucesso do Funaná. Mas ele compôs belas Mornas, como por exemplo Tó Martins. Obs.: No calor das glórias e sucessos do movimento Funaná, muitas vozes, classificam a música “Tó Martins” como Funaná Lento. Mesmo que tal fosse admitido, esta música é uma Morna e como tal se comporta enquanto, forma musical, outrossim o Funaná possui no seu universo, vários subgéneros, sendo o mais conhecido “Camin di Ferro” que é o Funaná tal como o concebemos. Entre os outros géneros de Funaná, hoje caídos no esquecimento, há a “Morna” que se convencionou chamar “Funaná Lento”, a Machicha, o Samba etc. etc. cf. descrição de Emanuel Antero Garcia da Veiga no artigo “Badjo Gaita’na Ilha de Santiago (1) ”, publicado no jornal Voz di Povo, ed. 14 de agosto de 1982.
6 - Chegam entretanto os anos 1990. É o início da internacionalização da música de Cabo Verde com o Conjunto Finaçon e outros músicos, facto que passa um pouco despercebido em Cabo Verde, pois não havia na época uma noção exacta da amplitude dos acontecimentos musicais protagonizados pelos nossos artistas na Europa. Aqui nas ilhas, estávamos naquele momento ocupadíssimos, primeiro com a democracia e a disputa política que então decorria. Em finais de 1992, Novembro/Dezembro uma digressão de Cesária Évora em França salda-se por um retumbante sucesso com referencias em prestigiados jornais como «Libération» e «Le Monde» ou revistas como o «Nouvel Observateur». Um ano depois, o sucesso de Cesária em França está confirmado, não só pelo interesse que os seus «shows» despertam, mas também pela venda em poucas semanas de cerca de 10 mil exemplares do seu novo álbum «Miss Perfumado» um disco que contém dos mais belos exemplares do género Morna.
7 - Morna o género que esteve na base da internacionalização da música de Cabo Verde, juntamente é claro com a extraordinária voz da Cize, terá lá fora, o mesmo significado que nós lhe atribuímos aqui no país? A percepção da Morna fora de Cabo Verde, por não cabo-verdianos é mesma que temos nós os cabo-verdianos. Vejamos como se viu e se definiu este género Morna a nível internacional quando explodiu o sucesso da Cesária: “Com as suas Mornas, melodias de Cabo Verde de uma nostalgia insondável” – JL ed. 22 Dez. 1992 – citando um artigo publicado pelo jornal francês Nouvelle Observateur ed. de 16 de Dezembro daquele ano. “ (…) mornas, versão africana do fado português, blues atlânticos afogados em melancolia” JL 22 de Dez. 1992. “Música dolente de ritmo quarternário marcada pela nostalgia, a morna, irmã do Fado, é uma das chaves para se compreender a metafisica de Cabo Verde,” jornalista Franck Tenaille, na revista MFI – Media France Internationale ed. 11 Dezembro de 1992. Na revista Telerama – ed. 28 Out. 1992 “elle chante des Mornas, ces berceuses balancées du Cap Vert” – trad. Ela canta Mornas, canções de ninar de Cabo Verde. Revista Voici n.º 266 ed. 14 a 20 Dez. 1992 – “ Cesária Évora – dit Cize pour les amis – (…) chante la morna, longue plainte, déchirante comme un fado mêlé de mambo e de samba. ” – Trad. Ela canta a morna, um choro plangente como o fado, misturado com o mambo e samba. Jornal Le Monde – “ Cesária Évora incarne l’âme de la morna (…). Un chant nostalgique et déchirant comme un fado, mas refraichit et rythmé au contacte de la samba, du fox-trot e du mambo ”. Tradução : Cesária Évora encarna a alma da morna, (…) Um canto nostálgico e plangente como o fado, mas refrescado e ritmado devido ao contacto com o samba, fox trot e mambo.
8 - A utilização/difusão do género Morna nas rádios e meios de comunicação vem decaindo. A Morna deixou de ser um género musical que entra normalmente na programação das rádios. Hoje, nas rádios a Morna é num género marginal, que se passa de vez em quando ou é alvo de uma programação especial de duração limitadíssima. O mesmo se poderá dizer dos músicos mais jovens, para quem a Morna na maior parte das vezes não consta do reportório nem é um género de eleição. Para os mais jovens a Morna, tem um outro sentido, felizmente, o género ainda representa a cabo-verdianidade. O jovem músico e maestro Carlos Matos, nascido na Holanda, na sua comunicação ao Congresso dos Quadros da Diáspora em Abril de 2011, no Mindelo, fez a seguinte revelação: “ (…) o meu avô, todos os domingos me punha a ouvir a cassete do Bana «Pensamento e Segredo». Eu não ligava nenhuma, quando ele colocava a cassete eu ficava brincando, não ficava nada atento. A primeira vez que vim a Cabo Verde tinha vinte anos e lembro-me bem, passei por Laginha, mirei o ilhéu dos Pássaros e essas músicas que o meu avô costumava colocar vieram-me imediatamente à mente e foi assim que descobri que aqui é a minha terra.”
Considerações Finais: não há dúvida que houve um processo de evolução da Morna até o ponto em que encontra hoje, e que vai continuar! Uma evolução em todos os sentidos. O que vai se passar depois, o futuro dirá! Ao longo do processo de evolução, ao chegar aos dias de hoje, o género musical Morna mudou a sua função social, mudou ou evoluiu o seu significado para as novas gerações. Explico: se antes era um género verdadeiramente popular no sentido do termo, tocado nos bailes, dançado, interpretado normalmente por todos, cantiga de trabalho que se entoava nas lides domésticas e outras, hoje Morna tornou-se um género “clássico”, já não é música popular de dança, os intérpretes contam-se pelos dedos, a juventude, adoptou outros géneros musicais. Hoje a Morna é música para se ouvir, música que desperta o sentimento de cabo-verdianidade, musica que desperta o nosso orgulho, e nos sublima. E neste ponto surge a pergunta: Morna Hoje – Novos caminhos ou preservação do passado? – Eis a questão!

Praia, 26 de Junho de 2014
Carlos Filipe Gonçalves