Da Cultura mediatizada à «Civilização do Espectáculo - Uma leitura -

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O escritor peruano e Nobel da Literatura, Mário Vargas Llosa, descreve de forma magnífica – analisa e polemiza profundamente – no seu livro: «A Civilização do Espectáculo» (edição Quetzal, 2012) o modo como se alteraram, se baralharam e se transtornaram, nos dias de hoje, as noções, os conceitos de cultura, de literatura, das artes, e da política.
Em linhas gerais, e de acordo com o autor, esses conceitos são hoje entendidos como entretenimento. Apenas isso. Para além de ocuparem na escala hierárquica dos media, patamares inferiores, desde que não sejam espectáculos como é o caso do tratamento da política que só vale neste século enquanto espectáculo.
Numa análise extraordinária, o autor demonstra como por exemplo, o “inconformismo” contra os poderes instituídos, gerou na Europa e por reflexo, no resto do mundo, a base da liberdade que é uma marca da cultura ocidental e a criação de condições para o surgimento de uma civilização sustentada no “questionamento”.
Sobre isso transcrevo do livro:
“ (…) Porque, na verdade, a tradição mais viva e criadora da cultura ocidental não foi nada conformista, precisamente o contrário: um questionamento incessante de tudo o que existe. Ela foi, sim, inconformada, crítica tenaz do estabelecido e, de Sócrates a Marx, de Platão a Freud, passando por pensadores e escritores como Shakespeare, Kant, Dostoiévski, Joyce, Nietzsche, Kafka, elaborou ao longo da História mundos artísticos e sistemas de ideias que se opunham radicalmente a todos os poderes instaurados. Se fôssemos apenas as linguagens que o poder impõe sobre nós nunca teria nascido a liberdade, nem teria havido evolução histórica e a originalidade literária e artística nunca teria brotado.” Fim de transcrição. (pág. 84/85).
Enfim, o livro pede-nos leituras e mais leituras. É um convite muito sério à reflexão sobre aquilo em que se tornaram os pilares fundamentais da sociedade, ou melhor, os fundamentos da civilização mundial, pois que se fala do mundo globalizado.
Seguindo o ensaio de Vargas Llosa, diz ele que tudo, mas tudo se transformou, nos dias que correm, em espectáculo lúdico para entreter e di-lo de forma monumental, através dos vários exemplos e das definições que apresenta ao longo do livro. De tal sorte, que sem esse carimbo infelizmente, ninguém lhes prestará atenção.
Assim, destarte, o ponto que o autor acentua o seu enfoque (no meu entender de leitora) é na situação em que vive a cultura contemporânea, de forma pindérica e deprimente. Segundo ele, e entre as várias razões e causas que vai apresentando ao leitor e que conduziram ao que actualmente chegou a cultura, figuram: a “invasão” e o facilitismo das redes sociais; a pressa da difusão dos acontecimentos; os atropelos à ética cometida pela imprensa, e pelo jornalismo deste espectáculo; a confusão e o “forçar a igualização” de um Investigador e de um “Chefe gourmet”; de um Compositor e de um “Discjockey” “DJ”; sendo que os primeiros sujeitos das duas comparações, de acordo com o livro de Vargas Llosa, têm menos importância, nesta civilização do espectáculo, em que tudo é diversão…
Na verdade, trata-se de um olhar, a um tempo, exaustivo, crítico, interrogativo, assustado, e triste do autor, perante o estado a que chegou hodiernamente, o entendimento da cultura, da literatura e das artes.
Não me furto a também transcrever: “ (…) A raiz do fenómeno está na cultura. Melhor dizendo, na banalização lúdica da cultura reinante, em que o valor supremo é agora divertir-se e divertir, acima de qualquer outra forma de conhecimento ou ideal. As pessoas abrem um jornal, vão ao cinema, ligam a televisão ou compram um livro para passar o tempo, no sentido mais ligeiro do termo (…) A imprensa sensacionalista não corrompe ninguém; nasce corrompida por uma cultura que, em vez de rejeitar as intromissões grosseiras na vida privada das pessoas, reclama-as (…) Na civilização do espectáculo talvez os papéis mais vexatórios sejam os que os meios de comunicação reservam aos políticos. E esta é outra das razões pelas quais no mundo contemporâneo há tão poucos dirigentes e estadistas exemplares – como Nelson Mandela e uma Aung Sam Suu Kyi – que mereçam admiração universal. (…)” Pág. 132
E remata de forma superior:
“ (…) A cultura contemporânea faz com que tudo isto, em vez de mobilizar o espírito crítico da sociedade e a sua vontade de o combater, seja encarado e vivido pelo grande público com a resignação e o fatalismo com que se aceitam os fenómenos naturais – os terramotos e os tsunamis – e como uma representação teatral que, ainda que trágica e sangrenta, causa emoções fortes e emulsiona a vida quotidiana”. Pág. 134. Fim de transcrição.

Enfim, só mesmo a leitura da obra, isto é, a comunicação estabelecida com o seu conteúdo é que o leitor se envolverá no valor informativo e formativo do livro: «A Civilização do Espectáculo» de Mário Vargas Llosa.
Estamos perante uma obra que nos interpela e que nos inquieta.
Vale a pena lê-lo!

P. S. Aqui há dias li e vi (num canal televisivo) a passar em rodapé a notícia do casamento, note-se: do casamento, do actor George Clooney, como parte do bloco noticioso, sob epígrafe: “Cultura.” Ao que se chegou! Um acto da vida privada de um actor, por mais famoso que ele seja, é uma notícia mundana, mas nunca um acto de cultura! Convenhamos! Como Mário Vargas Llosa tem razão!

A nossa História: Uma pausa para a pensar!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014
O grande desígnio de pôr a nossa História ao jeito dos que sempre mandaram – mandar, e não apenas governar – neste País, continua em marcha. É aquela História que legitima e confere um regime especial a um punhado de “iluminados” que fazendo jus ao seu estatuto usufrui de uma panóplia de privilégios e vantagens que o coloca acima de todos os outros cidadãos. Estranha e surpreende o facto de, alegadamente, essa aura de heróis ter sido ganha e conquistada não em solo cabo-verdiano mas nas matas da Guiné.

É no mínimo bizarro! Mais bizarro e surpreendente se torna quando se sabe que ela não se apoia em nenhuma façanha de “tropas expedicionárias” em serviço no exterior mas apenas na sua presença (reduzida) não mandatada, na sua inscrição voluntária, note-se, sem qualquer aval do povo cabo-verdiano. Um acto que podia ter sido (e se calhar foi) de abnegação e generosidade mas que afinal se revelou e se revela hoje como um investimento social e financeiro lucrativo que o cabo-verdiano vem pagando e, como sói dizer-se, com juros e correcção monetária. Até quando?

Essa História que teimam em fazer crer que nasceu em 1974, ou melhor, em 1956, com a suposta data da fundação do PAIGC, está sendo perenizada porque inculcada de modo acintoso e meticuloso nas nossas crianças e na nossa população contando para o efeito com a complacência e a “indiferença” popular e o apoio indispensável dos seus homens de mão bem colocados nos media e, pasme-se! nas instituições académicas e de ensino, mesmo superiores. É aqui que reside todo o mal pela ausência de um debate sério.

Não resistimos, em contar aqui, de forma muitíssimo breve, um episódio, porque está no contexto, que se passou com uma amiga nossa muito chegada que vive na Europa e que viera visitar a família. É uma pessoa culta, muito erudita que segue de perto tudo o que se passa em Cabo Verde. Entrou numa repartição para tratar de um documento e viu encaixada numa moldura uma fotografia de Amílcar Cabral pendurada na parede. Estranhou e perguntou, contou-nos ela, de forma já agastada porque já antes a vira em outras instituições do Estado: O que é que aquela fotografia está aí a fazer? Isto não é uma repartição pública? Não é Jorge Carlos Fonseca quem foi eleito? Bem, disse-nos ela, gerou-se uma pequena troca de argumentos em que a ideologia misturava-se com a ignorância da História e da própria Constituição.

A democracia e o estado de direito exigem escrupuloso respeito pela Constituição e não consta que a fotografia de quem quer que seja que não a do PR possa, legítima e legalmente, ser colocada em repartições públicas.

E tudo isto traz à colação, o recente livro de Daniel dos Santos – “Amílcar Cabral, Um Outro Olhar” – lançado publicamente no passado dia 5 de Setembro. Uma semana depois, era o aniversário natalício de Amílcar Cabral. É sem dúvida um livro controverso porque não panegírico, como habitualmente. Foi praticamente ignorado pela Televisão Pública nesse aniversário enquanto outros livros, sobre o mesmo tema, “velhos” e sobejamente conhecidos eram repescados. Até a RDP África de que se esperava uma postura, uma atitude de equidistância, no seu programa “Debate Africano” do dia 12, uma semana depois do lançamento, “confessava” não saber se o livro tinha sido ou não apresentado. Uma imagem que não abona muito para um painel que se impõe bem informado.

A classificação do autor desse livro, Daniel dos Santos, como “não é apaniguado de Amílcar Cabral” caracteriza bem o espírito com que o livro foi recebido e tratado colocando muito mal o programa e o painel – ferido na sua seriedade e credibilidade – que tão bons momentos de “tertúlia” já nos proporcionaram.

Não se pede isenção. Não é possível. Exige-se verdade e honestidade intelectual. O comportamento da RDP África, talvez sem o pretender, configura uma cumplicidade silenciosa com o actual poder na prevalência de uma visão monista da nossa História recente.

A ideia, as orientações que dimanam das esferas superiores são para silenciar o livro. Não falar dele. E quando se tiver de falar, diabolizá-lo. Evitar o debate que ele (o livro) propõe que poderá dessacralizar determinados mitos da nossa História, derrubar determinados dogmas e ilegitimar determinadas propostas, posturas e comportamentos.

Felizmente que estamos em democracia onde o lápis azul da censura salazarista já não existe e a proibição de circular livros já não tem lugar. Mas sabemos que o poder tem e utiliza outros instrumentos, mais subtis mas nem por isso menos eficazes. O que não há dúvida é que para o actual regime cabo-verdiano, “Amílcar Cabral – Um Outro Olhar” é um livro proscrito.

Estamos no século XXI. Conhecer a nossa História é muito importante. É compreender o caminho que nos trouxe até aqui. Não apenas o passado relativamente longínquo, mas também o recente, o recentíssimo. Aquele que construímos todos os dias. A nossa prioridade não pode ser estudar os “fósseis” da História. São importantes sim. Muito importantes mesmo. Mas não prioritários! Estiveram adormecidos durante séculos e podem assim permanecer por mais algum tempo se for caso disso. Não sofreriam qualquer alteração. Ou podiam mesmo ser tratados em simultâneo com a História recente. Não se excluem mutuamente. Mas enquanto uma é para se ir fazendo – a rota dos escravos –, o outro é para se fazer já – o debate sobre a nossa História recente.

Não comungamos das palavras justificativas do PM quando diz (citamos): A rota dos escravos é fundamental para a construção do futuro de Cabo Verde”. E reforçamos a nossa posição, quando ele afirma que para a “construção desse futuro” torna-se importante saber (citamos): "Como é que os escravos circularam aqui internamente, como é que conseguiram resistir, onde é que foram os quilombos cabo-verdianos, quais os caminhos feitos”. (O negrito é nosso).

Não resisto a perguntar: Que futuro queremos nós construir com base na rota dos escravos? Ou o PM aguarda a rota dos escravos para dar um rumo à sua governação?

Para quê preocupar, já e agora, com Quilombos – fenómenos da escravatura brasileira – se aqui ao lado, na nossa vizinha Mauritânia, para não nos afastarmos muito, no nosso mundo global, a abolição ainda não chegou? A escravatura é um problema da Humanidade e não apenas da memória histórica cabo-verdiana. E infelizmente não está extinta para falarmos dela apenas como passado.

Porquê tanta preocupação e exaltação com a rota dos escravos quando temos por esclarecer assuntos – pendentes, inadiáveis e vivos da nossa História e da da Humanidade – recentes? Ignorar essa prioridade poderá tomar a forma de uma manobra de diversão, de uma artimanha dilatória.

Façamos todos, uma pausa para pensar e priorizar a nossa História recente. Esta sim, poderá ajudar-nos a construir o futuro.

A. Ferreira

P.S. Por falar em História, ocorreu-nos que alguns estudiosos de Amílcar Cabral insistem na tecla de que ele na sua deslocação para a Guiné, depois de terminar o curso, fez questão de fazer escala em Cabo Verde para mostrar o diploma à mãe. Um gesto sem dúvida muito bonito. Que seria efectivamente carinhoso e afectivo se fosse apenas para a cumprimentar, para a abraçar e lhe dar um beijinho. Aliás, que outra alternativa teria? Não havia ligação directa. O normal era apanhar um barco de carreira. E ao tempo (1952) a única ligação Lisboa – Bissau era feita pelos navios (“Alfredo da Silva”, “Ana Mafalda”, “Rita Maria” entre outros) da “Sociedade Geral” que faziam a carreira regular Lisboa – Mindelo – Praia – Bissau e Bissau, Praia, Mindelo – Lisboa. Ou será que o Governo de Lisboa lhe tinha posto um barco à disposição?

O improviso é uma arte?! Um dom?!

domingo, 21 de setembro de 2014
Se o título interrogativo deste escrito estiver certo, o saber improvisar quando se fala em público e para o público, para além de ser uma arte, poderá ser também um dom, reservado a alguns. Infelizmente, é mesmo assim: reservado a alguns. Acrescente-se que a arte e o dom não se excluem mutuamente. Antes se associam, uma vez que a arte, não obstante exigir trabalho, traz sempre consigo uma forte componente vocacional.

O “improviso” é, por definição, «tudo aquilo que é dito ou feito sem preparação, sem ensaio prévio». Por isso, o verdadeiro improviso é aquele que surge em circunstâncias inesperadas, repentinas, que obriga o actor, o protagonista, o comunicador, a fazer intervenções impreparadas e, normalmente, sem grandes profundidades, a menos que sejam situações recorrentes em que só o contexto é circunstancial.

Daí que, em cerimónias formais e institucionais, previamente datadas, em que os oradores são conhecidos, não se espera que nenhum deles faça um verdadeiro improviso sob pena de mostrar um menor respeito pelo público-alvo. Sabemos contudo, que muitos políticos experientes, inteligentes e astutos recorrem ao “improviso” previamente ensaiado com vista a levar o público a pensar que se trata de alguém eloquente cujas palavras são sinceras porque saídas de forma espontânea e directamente do coração, da alma, sem qualquer reserva mental. Aqui o “improviso” ganha os contornos de um “marketing” político.

Sabe-se, por exemplo, e ele não é seguramente, nem de perto nem de longe, o único, que Charles De Gaulle (antigo PR da França) levava horas e horas sem conta defronte a um espelho a preparar os seus “improvisos” em que todos os seus gestos e palavras, designadamente o tom, eram meticulosamente estudados.

Por isso, atenção! O “improviso” não é para todos os oradores. Requer informação, conhecimento e capacidade (dom) de comunicação quando é autêntico, e muita memória e muita arte de representação quando é teatralizado. Em qualquer dos casos deve ter, sobretudo, substância, ir ao encontro do fundamental.

Mandam a prudência, o senso-comum e a consideração que merecem as pessoas que se previna sempre, com o clássico “papelinho” bem escrito ou, no mínimo, com os tópicos, para não cometer “gaffes” e honrar e prezar devidamente a audição (a capacidade de escuta) de cada um.

A palavra escrita disse (não era preciso ser ele a dizê-lo…) um nobel da literatura «tem possibilidades de calar mais fundo na análise dos problemas, de chegar mais longe na descrição da realidade social, política e moral e, numa palavra, de dizer a verdade».

Afinal, todo este arrazoado, vem a propósito de ouvir com alguma frequência, altos responsáveis políticos e figuras públicas destas ilhas falarem − atabalhoadamente (perdoem-me a franqueza) e muitas vezes com pouco nexo − de improviso para os seus concidadãos e em presença de estrangeiros, o que constitui não só uma temeridade, como também, por vezes, deixa subentender, por um lado, a impressão de uma inadmissível negligência, por outro, desconsideração e falta de respeito por aquele que o escuta.

Mas o que verdadeiramente preocupa é que parece estar a configurar-se algum modismo. E se a moda pega!...

A este propósito, recordamos o constrangimento, ou mesmo vergonha, usando as suas palavras, por que passou alguém amigo, ao ter de escutar, perante um público da mais alta literacia, porque de professores e de reitores universitários (alguns convidados estrangeiros) se tratavam, na apresentação, pública, há já alguns anitos, da então novel Universidade de Cabo Verde, em que um altíssimo dirigente do país, resolveu falar de improviso no discurso que encerrava a cerimónia desse acto público. Sem dom de orador, sem papel e sem preparação prévia, o discurso foi um autêntico fiasco − atabalhoado, desorganizado e sem substância. Enfim, terá sido mesmo constrangedor, ainda segundo a nossa fonte, para quem o escutou, deixando a todos, ou quase todos, os seus concidadãos presentes no acto, envergonhados pela má prestação.

Um político com a experiência que então esse tinha, devia ter tido mais cuidado, ser mais avisado, por maior que fosse a sua presunção. Evitaria dessa forma o que acabou por ser uma vexatória exposição.

Na realidade, o que conta é o conteúdo, a organização mental, a comunicação. O modo como é veiculado – de improviso ou escrito − por si só, não valoriza mas pode diminuir e comprometer.

Nestes casos convém ter sempre presente a velha máxima: “Mais vale prevenir do que remediar!” E não esquecer que «o seguro morreu de velho!...»

Declarações de Amor - Entre o Português e o Crioulo

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Eis uma história de amor acontecido num baile. Vamos directamente ao diálogo entre dois apaixonados que dançam num baile na cidade da Praia, no século XIX:
“ (…)
-Sente-se muito fatigada, minha senhora? – Perguntou ele um pouco perturbado.
- Nhor não – respondeu ela suspirando.
- Mas… V. Ex.ª parece estar um pouco incomodada. Se não fosse por me julgar importuno, pedir-lhe-ia um favor.
- É cusé?
- De me dizer o que sente.
- É câ nada, é só coraçon qui estan fadigado…
- Quer que lhe dê um remédio magnífico para esta fadiga que diz ter no coração?
- Paquê? A nhó é ca dotor.
- Bem sei que não sou médico, mas pode ser que os meus conselhos tenham o privilégio de curar a V. Ex.ª do mal de que talvez esteja sofrendo…
- Bé! Nhó ca capaz…
Porque é que não sou capaz?
-Pamode nada – Disse ela sorrindo.
- V. Ex.ª é caprichosa… continuou ele torcendo o bigode – Sei que sofre e sem razão por que sabe que a amo.
- Ami?
- Sim, a si minha senhora.
- Ami mé tambe gosta di nhô.
- Também gosta de mim? Não creio!
- Bi! Câ nhu fla si…si ca sim, m’tâ graba di nhó!
- Então jure.
- Pa alma di nha pai quis ta dibaxo de sete mon de tera…
- Oh! Sou feliz, dancemos minha senhora.

Neste comenos rompe a orquestra com uma polka, os dois jovens namorados desapareceram no meio do turbilhão. (…)” Fim de transcrição.

Maria Adelaide das Neves
Almanaque de Lembranças (1854-1932)

O leitor reparou certamente que este texto antigo conseguiu partilhar o afecto,a paixão, nas duas falas do cabo-verdiano: o português e o crioulo sem qualquer hesitação. Um diálogo de apaixonados. Um momento amoroso muito bem captado. Tanto uma língua, com a outra, a portuguesa e a cabo-verdiana foram muito eficazes para a finalidade pretendida entre os enamorados.
O conto de Adelaide Maria das Neves de 1889, (do qual tomei a liberdade de modernizar ligeiramente a escrita para facilitar a leitura) sugeriu-me este escrito, pois tenho escutado ditos “non sense,” como por exemplo, dizer-se que só o crioulo (com exclusividade) é que é língua que transmite afectos e sentimentos em Cabo Verde. Falso.
Cada um que fale por si e que seja menos absolutista. É o mínimo que se pede a gente com responsabilidade, naquilo que diz em público.
É que alguns tiram isso da “boca para fora” (relevem-me este prosaísmo) assumindo um ar de verdade absoluta que se tornam quase dogmáticos.
Até parece que o circuito linguístico cabo-verdiano só começou a partir deles.
Isto é muito mais complexo, e muito mais remoto do que julgam, meus senhores! Depende da literacia e da classe social a que pertence o falante cabo-verdiano quando faz a sua declaração de amor.
Conheço muitos casos de gente que me é próxima e trata-se de cabo-verdianos de quatro costados – como sói dizer-se – cuja declaração de amor foi feita em língua portuguesa. E os afectos em família são profundamente reiterados em português,por a língua portuguesa ser também, a língua doméstica, de casa.
E que me dirão estes iluminados sobre as particularidades das duas línguas de Cabo Verde, a portuguesa e a cabo-verdiana, sobre as cartas e bilhetes de amor de outrora que circulavam com enorme frequência, do amado para a amada e vice-versa? Eram escritas em português e eram um meio de comunicação, o mais difundido e utilizado entre nós, para o tempo de namoro.
Portanto, solicita-se encarecidamente a quem vá à comunicação social “botar faladura” sobre este tipo de assunto que o faça, lembrando que deve usar as conclusivas sob formato relativo. Deve ter sempre presente e recordar sim, os casos que lhe são próximos, o seu meio ambiente social e não generalizar abusivamente, tornando no todo absoluto, aquilo que é bastante relativo.
Ah! Deve também ligar sempre o seu “desconfiómetro” que é um instrumento muito útil para estes actos elocutórios e assim evitar que o desconhecimento – que prega muitas partidas! - que é muito atrevido e temerário, em “bocas incautas,” venha ao de cima. Nós outros agradecemos!


Sobre a Apresentação de um livro

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A propósito da recente apresentação do livro de Daniel dos Santos, «Amílcar Cabral – Um Outro Olhar» recebemos de alguém muito amigo e não menos crítico, uma apreciação que achámos muito interessante e oportuna para ser aqui publicada.
O que chamou a nossa atenção, no texto que se segue é a maneira como o autor do comentário “classifica” o tipo de “Apresentante” e a “responsabilidade” que lhe atribui.
Leia e repare como pode ser também fina, subtil e algo irónico, a percepção do ouvinte, do participante numa apresentação pública de um livro.

“Caríssimo Armindo
(…)
Bom, quanto à apresentação do livro.
Da minha modesta experiência como participante nestes eventos – mantenho um certo culto por apresentações de livros que me interessem – costumo distinguir 3 modelos de intervenção dos apresentantes (claro que há mais):
1. Aquilo a que eu chamo os apresentantes "mestres de cerimónia" – muitas vezes não leram o livro, tendo-lhe dado, quando muito, uma vista de olhos. Fazem da apresentação um mero evento pouco menos do que social. Conheço alguns – e aí não me apanham;
2. O apresentante interessado em mostrar que leu atentamente o livro e, não obstante, com avisada distância e passividade, resumindo ali, sublinhando acolá, considera que cumpriu o mandato – a partir daí o leitor que faça pela vida.
3. O apresentante envolvido que leu e sobretudo sentiu a "história" do livro, que, para também envolver os ouvintes, nela não receia assumir mais ou menos protagonismo e mesmo riscos, ora fazendo o papel de advogado de deus, ora o de advogado do diabo, sublinhando e até apimentando as partes mais controvertidas e polémicas e mesmo, porventura, lançando ali e acolá dúvidas sobre certos aspectos (factuais ou outros) ou conclusões do autor. Na apresentação de um livro gosto de sentir que os ouvintes ficam como que a "salivar" pelo seu recheio, fruto de uma intervenção apelativa, controversa, desalinhada do seguidismo, não pacífica, provocatória, até. A tua apresentação de um livro como o que te coube – até pela figura (quando se trata de uma "vaca sagrada", sans offense, é sempre mais problemático) e a sua circunstância que aborda – constitui uma excelente manifestação deste modelo, de que gosto particularmente. Parabéns por isso.”




Cuidado com as traduções literais...!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Esta vai para a minha querida amiga Dulce Irene crioulista estudiosa e investigadora séria e quem a entenderá melhor…
Há coisas que só se podem contar a partir da chamada terceira idade, a idade da sabedoria, da calmaria, e de outras “sagesses” que esta fase de vida traz aos seus portadores.
Pois bem, a historieta que me proponho contar passou-se aqui há alguns anitos…
Estava eu num aeroporto internacional, à espera da chegada de um familiar. Tudo acontecido. Recepção feita, eis que me preparo para regressar ao carro, quando oiço alguém gritar por mim, da seguinte maneira: “Ondina! Nha cretcheu!” Tradução literal para nós falantes do Crioulo: “Ondina! Meu amor”!
Mas aqui e entre nós, “cretcheu” significa o amor que une os namorados, o casal, “Nha cretcheu” significa também a especificação da amada ou do amado escolhido e pertencido. Logo, com um contexto e significado reservado ao par/casal, de todo conhecido e identificado, por nós falantes das variantes do Crioulo das ilhas de Cabo Verde.
Pois bem, saio do carro parto em direcção a essa voz, que reconheci vinda de um amigo e colega de profissão, também professor, a quem já não via há largos anos. Cumprimentámo-nos efusivamente, como é natural, entre pessoas amigas e que há muito não se viam.
Eis que volto ao carro, encontro a minha cara-metade com uma expressão facial, a revelar contrariedade e que sentado ao volante e ainda antes de arrancar me interpela claramente enciumado (pareceu-me…): “ouve lá, este teu amigo, chama-te de “nha cretcheu>?” Onde é que ele arranjou esta intimidade?”...

Abreviando, com esse chamamento, o meu amigo (que é anglófono) quis mostrar-me que tinha aprendido, ou estaria a aprender o crioulo de Cabo Verde
Conversa troca conversa, a minha cara-metade, já mais racional, como costuma ser, chegou à conclusão de que o crioulo do professor do meu colega é que seria eventualmente o culpado pelo equívoco do “nha cretcheu” alargado a todos os contextos amigos. Afinal, ele podia ter dito também em crioulo: “Ondina, nha querida! (minha querida, my dear) Porque neste caso até se subentendia “querida amiga”. Agora “nha cretcheu”!!??
Enfim, perante este equívoco, “sofrido na pele”, como sói dizer-se, fica o alerta e o aviso aos que ensinam crioulo aos não falantes da Língua cabo-verdiana. Existe a expressão em crioulo “nha querida”, que pode ser empregada em contextos de fala entre amigos. Agora, “nha cretcheu” é que é somente e exclusivamente, tratamento de namorados.
Vamos lá fazer esta destrinça…não vá o Diabo tecê-las! …

P. S. Este post sciptum é dirigido ao leitor não falante do Crioulo da Cabo Verde. A palavra “Cretcheu” (comum a todas as variantes do crioulo das ilhas) resultou da aglutinação de: “cre”= querer e “tcheu”= Muito (cheio, pleno). A tradução em contexto, será a de amar, de gostar muito,de querer bem e de bem querer.

Como podem ser diferentes as perspectivas históricas...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Serve o texto que se segue para demonstrar de como se percepcionam, dependendo da cultura e da história, heróis versus bandidos e/ou piratas malfeitores.
No último Verão, a minha filha mais a família, marido e filhos visitaram Londres. Eis que de entre visitas interessantes feitas a monumentos magníficos daquela grande cidade europeia, entraram na Abadia de Westminster, onde se encontram sarcófagos de grandes heróis ingleses.
Durante a visita, a atenção da minha primogénita ateve-se no túmulo do nosso muito conhecido e tristemente célebre, Francis Drake. Faz um alto para os filhos e explicou-lhes sucinta e assertivamente: “Este aqui, pode ser herói para os ingleses, mas para nós é um bandido, pirata, que saqueou e destruiu no século XVII a Cidade da Ribeira Grande, hoje conhecida por Cidade Velha na ilha de Santiago, por sinal considerada a primeira cidade construída pelos portugueses, o mesmo que dizer, europeus, e, obviamente, pelos africanos em terras tropicais. Mas mais, continuou a explicar a minha filha: nas ilhas, por onde ele passava, Francis Drake e os seus homens pilhavam, matavam, saqueavam e violavam mulheres. Era assim o “modus operandi” deste inglês, glorificado na terra dele e elevado à categoria honorífica de “Sir” porque grande parte do seu saque era entregue à coroa britânica que desta forma o incitava a continuar os seus actos de barbárie e de banditismo …”
Em traços gerais e historicamente, assim esclareceu a mãe aos filhos, o porquê que, para ela, o sepultado na Abadia de Westminster e na óptica dela, nunca poderia ser classificado de herói!

Interessante é que dias depois, estando eu a ler uma revista que trazia uma longa separata sobre a história das guerras entre espanhóis e portugueses para a restauração da independência portuguesa (1640), compreendi que a expressão popular “amigos de Peniche,” sinónimo de falsos amigos, tinha por detrás a “assinatura” de Francis Drake. Supostamente, o papel dos aliados ingleses – numa guerra que se estendeu até 1668 – era ajudar os portugueses a saírem da ocupação espanhola. Mas tanto destruíram e saquearam, sob comando do terrível Drake, que merecidamente levaram o epíteto de “amigos de Peniche”, nome da localidade onde se situa o porto de onde desembarcara F. Drake. Li ainda nesse mesmo documento, que a cidade de Faro no Algarve, por exemplo, foi completamente pilhada e destruída por Francis Drake e os seus homens, sempre abençoados pela Rainha inglesa…
Enfim, tudo isto para dizer que podem ser muito relativos, diferentes e até opostos a percepção e o entendimento de herói e de bandido. Infelizmente, os interesses falam mais alto do que valores…
Francis Drake é nisso um caso paradigmático.