"Façam um Reformatório na ilha de Santa Luzia (?)..."

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E levem para lá, todos esses malfeitores e assaltantes, adolescentes e jovens que já tomaram conta da nossa cidade!”
Foi assim que gritou indignada e desesperadamente, aos microfones da comunicação social, uma cidadã, residente na capital do país.
De facto, isto já chegou a um ponto em que já não há mais argumentos justificativos para tamanha insegurança e tamanha violência que grassa a cidade da Praia!
Isto já atingiu um nível insuportável!
Infelizmente, o assunto tornou-se recorrente na rádio, na televisão, nos jornais.
Diariamente somos flagelados, ouvindo notícias trágicas em que as vítimas são sobretudo, mulheres. Assaltadas, agredidas, violadas e até assassinadas, em plena luz do dia, na via pública, à saída de casa, nas compras, no regresso do trabalho. Enfim, uma autêntica tragédia!
Trata-se de mulheres, são elas que os meliantes – muitos deles ainda adolescentes – têm na mira, nos assaltos frequentes nas ruas da cidade e dos arredores.
Ponham a polícia e toda a força armada nas ruas! Que vigiem os bairros e os becos altamente perigosos da Praia! Para além do efeito dissuasor que isso teria sobre os bandidos, traria certamente, alguma tranquilidade às moradoras da cidade.
Façam visitas e revistem os bairros periféricos desta cidade, onde se sabe que se encontram os bandidos e o seu arsenal diabólico de facas e de armas! Mostrem que ainda existe autoridade nesta cidade!
Por favor, façam algo que se veja que as autoridades estão preocupadas com a segurança dos cidadãos e dos seus bens!
É caso para se lamentar, dizendo que os assaltantes se tornaram verdadeiros «donos e senhores» da cidade da Praia e que nós estamos à mercê deles…
Ao que isto chegou! Valham-nos todos os santos!
Por outro lado, nota-se que há qualquer coisa que está muito desequilibrada, em termos de funções de policiamento, na cidade da Praia! Se não, vejamos:
Apenas dois pequenos exemplos, entre muitos que poderia expor neste escrito.
Aqui há dias uma amiga foi assaltada, (levaram-lhe a carteira com tudo dentro, arrancaram-lhe o anel, ferindo-lhe o dedo) agredida, apalpada lascivamente, por três jovens meliantes que a atacaram em plena via pública, ao fim da tarde, quando se dirigia à casa de um familiar. Após o incidente, ela chorava desesperadamente humilhada e violentada, à procura de um agente policial na rua. Não viu polícia alguma.
Outro caso: Estava eu a caminho duma Livraria, quando reparei numa cena que se passava nas proximidades, quatro polícias (duas agentes e dois agentes) rodeavam uma jovem senhora para multá-la (deduzi eu) por ter estacionado mal o carro.
Afinal, os polícias desta cidade serão apenas caça-multas? Só para estes casos é que aparecem prontamente?
Reparem na discrepância! Dois casos. Um, com total ausência de tratamento adequado, e o outro, com dose quadrupla de atendimento musculado, para um acto com configuração de tratar-se de uma "simples" transgressão cívica, a senhora terá estacionado mal o seu veículo. Convenhamos! Francamente!
A situação a que atingiu o banditismo na cidade da Praia, já clama que seja declarado “estado de sítio”! Com todas as observâncias inerentes ao mesmo! Os “direitos humanos” são para todos, e não apenas para os bandidos!
Chegou-se a um ponto que é preferível, uma medida drástica desse quilate, que evite mais perdas inúteis de vidas, mais agressões físicas e psicológicas de cidadãs e de bens dos residentes do que esta permanente e há muito em descrédito – na boca de todos nós – «moleza» inépcia, incompetência de quem de direito!
Para terminar, na mesma linha da senhora que pediu em desespero de causa, que se construa um reformatório, uma instituição correccional, ou algo similar na ilha de Santa Luzia e que sejam levados para lá, ao mais pequeno acto de violência, os bandidos e os malfeitores que pululam e andam com total à-vontade e impunidade na nossa cidade. Também, deixo aqui este registo, que não é senão o meu «grito» de indignação! A falta de segurança retira toda e qualquer qualidade de vida ao cidadão! Vivemos sitiadas nos nossos bairros. Basta!

Discurso Directo...

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Este escrito pode ser considerado a continuação do «post» anterior pois que trata o mesmo assunto.
Já dizia o célebre escritor e pensador francês, Camus que “não existe a verdade. Só existem verdades” Comungo por inteiro desta forma de pensar e de raciocinar, pois tudo é relativo, e sujeito a diversas e variadas leituras, diferentes ângulos de abordagem e de interpretações.
Ora bem, tudo isto vem a propósito de ter ouvido aqui há dias numa estação de rádio, a entrevista dada pelo médico e poeta santomense, Tomás Medeiros, a pretexto e à volta das comemorações dos 70 anos da antiga e já há muito extinta, Casa dos Estudantes do Império em Portugal, CEI. (1944-2014).
O que se segue deverá ser lido como uma espécie de transcrição por outras palavras, daquilo que disse sobre o assunto, Tomás Medeiros, no alto dos seus experientes e sabedores anos de vida. Conhecido pensador, escritor e antigo poeta militante. Ele fez parte do núcleo inicial dos fundadores do MPLA, do MLSTP. Dirigente estudantil, e activista político, Medeiros participou, colaborou com os outros movimentos e grupos que surgiram em Portugal, após a II Grande Guerra Mundial, com aspirações independentistas das então Colónias e Províncias Ultramarinas portuguesas de África.
Esclareceu que a CEI foi fundada em 1944. Salazar tinha então como ministro da Educação, Vieira Machado e como Comissário da Mocidade Portuguesa Marcelo Caetano, estes dois últimos foram o executivo e o legislador da recem-instituicionalizada CEI. Esta albergaria os estudantes universitários africanos em Portugal que deviam estar juntos e não, em reuniões separadas e assim melhor controlados, o que, ao fim e ao resto, era o pretendido pelo regime.
Tomás Medeiros foi um dos dirigentes da CEI.
Existiam na altura, e muito antes do aparecimento da CEI, várias e importantes Associações de jovens estudantes vindos de Angola, da Guiné, de Cabo Verde, de Moçambique, de São Tomé e da Índia.
As palavras conhecedoras de Tomás Medeiros, cujo conteúdo foi por ele vivido em directo, afirmaram que no que respeitava aos estudantes africanos, não todos, é certo, muitos andavam à procura, a indagar sobre quem eram? De onde provinham? E porque se sentiam diferentes? Estas questões existenciais sobre a procura da verdadeira identidade haviam sido começadas a debater, nas diferentes associações já referidas e em actividade, antes da CEI e continuariam nela a ser discutidas.
Daí que o entrevistado, considerou ser a Casa de Estudantes do Império, o verdadeiro aglutinador e um importante germinador de ideias e de estratégias para as lutas futuras pelas independências das Colónias portuguesas africanas. Por outro lado, a CEI foi também uma casa acolhedora, de convívio, de solidariedade, de tertúlias literárias que revelaram e descobriram poetas e escritores, os quais mais tarde, entre nós, consagrados.
O interessante, é que a determinada altura, a conversa radiofónica de Tomás Medeiros, foi muito esclarecedora quando afirmou que de entre os estudantes que – logo de início – frequentaram a CEI, exceptuaram-se os estudantes cabo-verdianos pois estes últimos – continuou Tomás Medeiros – viviam já e possuíam já plena consciência da sua caboverdianidade. Logo, da sua identidade e celebravam-na na Estrela (Bairro lisboeta) entre palestras, análises, “mornas e cachupa”…
Agora, volto a um dos últimos livros sobre A. Cabral. Este não havia ainda arribado a Lisboa. Tal só viria a acontecer em 1949. E por mão de Marcelino dos Santos, (moçambicano) ele entrou na Casa de Estudantes do Império. Nessa altura já faziam parte da direcção da CEI, dois outros ilustres estudantes universitários cabo-verdianos: Aguinaldo Veiga e Humberto Duarte Fonseca.
Retomando a entrevista escutada do poeta santomense, devo dizer que o que atraiu mais a minha atenção, foi a afirmação de que nos anos 30 e 40 do século XX – décadas de significativo numero e de boa frequência de estudantes universitários cabo-verdianos, em Portugal – era já sólida e bem expressada e revelada, a consciência da caboverdianidade, entre esses mesmos estudantes oriundos desta ilhas, na antiga Metrópole. Embora se trate de matéria bem conhecida e de tese já há muito demonstrada, tornou-se-me em contexto, mais iluminadora por ter sido proferida por uma testemunha intelectualmente válida a todos os títulos, e coeva desses tempos. A pessoa e a voz do poeta Tomás Medeiros.

Identidade cabo-verdiana? Uma falsa questão no século XXI? ... Ou manobra de diversão resultado da nossa pouca "destreza" cultural?

domingo, 19 de outubro de 2014

Antes de mais, e como justificação, devo esclarecer o leitor de que tenho clara consciência, de que estou ciente que o tema que pretendo ora abordar, não cabe num “post”. Ele é demasiado sério e profundo. É matéria para diversificada e substantivas abordagens.
Aqui apenas se aflorarão três ou quatro pontos de vista e que, como tal, mais não são do que isso.

1 - Identidade do latim, identitas, identatis, significa e abreviadamente, para este contexto, o conjunto de características próprias e exclusivas de uma determinada comunidade humana, que a podem por isso, distinguir de outras comunidades. Ou seja, tal como as ciências matemáticas a definem e aproveitando o conceito, transpondo-o para aqui, a identidade estabelece uma relação de igualdade verificável para todos os valores envolvidos e praticados por uma determinada comunidade humana.
Já na Grécia antiga os grandes pensadores e filósofos definiram-na tão cabalmente, como relação de semelhança completa e absoluta entre duas coisas que possuem as mesmas características essenciais – e isto aplicado a uma sociedade distinta – que chegou até nós, na sua puridade.
À identidade coloca-se a questão fundamental da diferença do “eu” em relação ao outro e vice-versa.
Ora bem, quando uma comunidade, imaginemos a nossa, a cabo-verdiana que comunga no essencial, das mesmas características, das mesmas crenças, usos, costumes, valores, língua, entre outros traços que a distinguem das demais culturas e sociedades e que a identifiquem una, estaremos neste caso, a falar da identidade cabo-verdiana, da nação cabo-verdiana que se formou segundo estudiosos, cerca de um século, antes deste arquipélago ser país.

2 – Interessante é que no caso de Cabo Verde, já o poeta e ensaísta de mérito, Gabriel Mariano, havia afirmado há mais de três décadas, de que a nossa identidade nasceu connosco. Ela procede da nossa mestiçagem negra/branca. Portanto, veio connosco. Logo à cabeça da nação. Isto é, a nossa identidade somos nós, é o nosso ser cabo-verdiano, este que forjou a nação cabo-verdiana. Não há, “pour cause,” necessidade de andarmos – nesta diversão – (desculpem o prosaísmo do termo) à procura dela, em patéticas divagações e interrogações, as mais das vezes, delirantes, inócuas, que a nada conduzem e mais se assemelham à discussão à volta do sexo dos anjos.

É nossa convicção e de muitos mais (sei bem que não estou a dizer nada que seja novo) de que a nossa identidade se forjou – reitere-se – nessa fusão rácica e cultural, de que somos formatados. É o nosso ser e estar resultantes de um cruzamento de raças e de culturas fundidas e neutralizadas naquilo a que demos o nome de caboverdianidade.

Logo, portanto, Não vale tentar “apagar” ou “apoucar” a nossa condição e cultura mestiças. Deve ser encarada como naturalidade. Como um processo histórico, cultural e antropológico.

Convém sempre lembrar que nem o branco e nem o negro (de per si) se deram bem por aqui. Aliás, o que se entende por natural. Se não, vejamos: as condições climáticas, a falta de água, de vegetação, e outros e muitos factores, deixaram-nos à deriva e bem desenraizados, com nostalgia e falta dos seus torrões de origem.

Só quando os dois se cruzaram nestas ilhas (entre si e miscigenadamente) e produziram o homem mulato, o branco, o negro, em suma e em resumo, o mestiço das ilhas. Estes sim! Estiveram «ab initio» intimamente ligados à terra e por ela moldados. A partir daí e doravante, é terra-mãe de um ser: o cabo-verdiano.

3 - Aproveitaria esta oportunidade para transcrever excertos de um texto que retirei do “blogue” «Arrozcatum» de Zito Azevedo “ (…) “na segunda metade do séc. XIX, Mindelo torna-se um pólo de atracção para camponeses sem terra, que fogem da fome e da miséria, para famílias de importantes proprietários agrícolas ou comerciantes que aqui encontram melhores oportunidades de negócio e também para aqueles que, por serem mais escolarizados, podem encontrar bons empregos na Administração e Serviços. Vêm principalmente das ilhas de Santo Antão e São Nicolau, mas ao longo dos tempos é todo o arquipélago que aqui se cruza. No dizer de Onésimo Silveira, S. Vicente é a única ilha povoada por cabo-verdianos.” In: «Arrozcatum» blogspot.com Zito Azevedo, “A Formação da Sociedade Mindelense “
Esta asserção a negritos da tese de Onésimo Silveira – e é aí que a transcrição tem sentido para este escrito – relativamente ao povoamento inicial da ilha de S. Vicente, com algumas tentativas conhecidas a partir do século XVIII, vem ao encontro da tese da identidade já completamente formada, cujos sujeitos povoadores, vindos de outras ilhas, maioritariamente, de Santo Antão e de S. Nicolau aportaram a S. Vicente – a última a ser povoada – O que só exalta o papel do mestiço, isto é, do filho das ilhas que pôde inclusivamente, povoar uma das ilhas do arquipélago cabo-verdiano.

4 - Outra observação que me surge a propósito. Como é possível que estudos feitos no passado sobre esta mesma matéria, por cabo-verdianos de então, sejam mais credíveis? Forneçam-nos instrumentos mais bem fundamentados do que os (alguns) feitos por cabo-verdianos hodiernos?
Lembremo-nos para exemplo, da célebre «Mesa – redonda sobre o Homem cabo-verdiano» em 1956. E outros e outros…
Será porque os de antanho não tinham reserva mental sobre o tema? Não estavam marcados “ideologicamente”? São interrogações que devem ser feitas…

Dito isto, e para finalizar este escrito que se pretendeu breve, não quero contudo significar que sobre ela – a nossa identidade – não se façam reflexões, análises e estudos sérios. Bem pelo contrário, o que se pede e o que se deseja é que essa reflexão identitária, não seja ideologicamente e politicamente marcada, como já aqui mencionada. Que ela seja cientifica e filosoficamente vazada em textos com a independência intelectiva, que é exigida para este tipo de estudo.


Da Cultura mediatizada à «Civilização do Espectáculo - Uma leitura -

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O escritor peruano e Nobel da Literatura, Mário Vargas Llosa, descreve de forma magnífica – analisa e polemiza profundamente – no seu livro: «A Civilização do Espectáculo» (edição Quetzal, 2012) o modo como se alteraram, se baralharam e se transtornaram, nos dias de hoje, as noções, os conceitos de cultura, de literatura, das artes, e da política.
Em linhas gerais, e de acordo com o autor, esses conceitos são hoje entendidos como entretenimento. Apenas isso. Para além de ocuparem na escala hierárquica dos media, patamares inferiores, desde que não sejam espectáculos como é o caso do tratamento da política que só vale neste século enquanto espectáculo.
Numa análise extraordinária, o autor demonstra como por exemplo, o “inconformismo” contra os poderes instituídos, gerou na Europa e por reflexo, no resto do mundo, a base da liberdade que é uma marca da cultura ocidental e a criação de condições para o surgimento de uma civilização sustentada no “questionamento”.
Sobre isso transcrevo do livro:
“ (…) Porque, na verdade, a tradição mais viva e criadora da cultura ocidental não foi nada conformista, precisamente o contrário: um questionamento incessante de tudo o que existe. Ela foi, sim, inconformada, crítica tenaz do estabelecido e, de Sócrates a Marx, de Platão a Freud, passando por pensadores e escritores como Shakespeare, Kant, Dostoiévski, Joyce, Nietzsche, Kafka, elaborou ao longo da História mundos artísticos e sistemas de ideias que se opunham radicalmente a todos os poderes instaurados. Se fôssemos apenas as linguagens que o poder impõe sobre nós nunca teria nascido a liberdade, nem teria havido evolução histórica e a originalidade literária e artística nunca teria brotado.” Fim de transcrição. (pág. 84/85).
Enfim, o livro pede-nos leituras e mais leituras. É um convite muito sério à reflexão sobre aquilo em que se tornaram os pilares fundamentais da sociedade, ou melhor, os fundamentos da civilização mundial, pois que se fala do mundo globalizado.
Seguindo o ensaio de Vargas Llosa, diz ele que tudo, mas tudo se transformou, nos dias que correm, em espectáculo lúdico para entreter e di-lo de forma monumental, através dos vários exemplos e das definições que apresenta ao longo do livro. De tal sorte, que sem esse carimbo infelizmente, ninguém lhes prestará atenção.
Assim, destarte, o ponto que o autor acentua o seu enfoque (no meu entender de leitora) é na situação em que vive a cultura contemporânea, de forma pindérica e deprimente. Segundo ele, e entre as várias razões e causas que vai apresentando ao leitor e que conduziram ao que actualmente chegou a cultura, figuram: a “invasão” e o facilitismo das redes sociais; a pressa da difusão dos acontecimentos; os atropelos à ética cometida pela imprensa, e pelo jornalismo deste espectáculo; a confusão e o “forçar a igualização” de um Investigador e de um “Chefe gourmet”; de um Compositor e de um “Discjockey” “DJ”; sendo que os primeiros sujeitos das duas comparações, de acordo com o livro de Vargas Llosa, têm menos importância, nesta civilização do espectáculo, em que tudo é diversão…
Na verdade, trata-se de um olhar, a um tempo, exaustivo, crítico, interrogativo, assustado, e triste do autor, perante o estado a que chegou hodiernamente, o entendimento da cultura, da literatura e das artes.
Não me furto a também transcrever: “ (…) A raiz do fenómeno está na cultura. Melhor dizendo, na banalização lúdica da cultura reinante, em que o valor supremo é agora divertir-se e divertir, acima de qualquer outra forma de conhecimento ou ideal. As pessoas abrem um jornal, vão ao cinema, ligam a televisão ou compram um livro para passar o tempo, no sentido mais ligeiro do termo (…) A imprensa sensacionalista não corrompe ninguém; nasce corrompida por uma cultura que, em vez de rejeitar as intromissões grosseiras na vida privada das pessoas, reclama-as (…) Na civilização do espectáculo talvez os papéis mais vexatórios sejam os que os meios de comunicação reservam aos políticos. E esta é outra das razões pelas quais no mundo contemporâneo há tão poucos dirigentes e estadistas exemplares – como Nelson Mandela e uma Aung Sam Suu Kyi – que mereçam admiração universal. (…)” Pág. 132
E remata de forma superior:
“ (…) A cultura contemporânea faz com que tudo isto, em vez de mobilizar o espírito crítico da sociedade e a sua vontade de o combater, seja encarado e vivido pelo grande público com a resignação e o fatalismo com que se aceitam os fenómenos naturais – os terramotos e os tsunamis – e como uma representação teatral que, ainda que trágica e sangrenta, causa emoções fortes e emulsiona a vida quotidiana”. Pág. 134. Fim de transcrição.

Enfim, só mesmo a leitura da obra, isto é, a comunicação estabelecida com o seu conteúdo é que o leitor se envolverá no valor informativo e formativo do livro: «A Civilização do Espectáculo» de Mário Vargas Llosa.
Estamos perante uma obra que nos interpela e que nos inquieta.
Vale a pena lê-lo!

P. S. Aqui há dias li e vi (num canal televisivo) a passar em rodapé a notícia do casamento, note-se: do casamento, do actor George Clooney, como parte do bloco noticioso, sob epígrafe: “Cultura.” Ao que se chegou! Um acto da vida privada de um actor, por mais famoso que ele seja, é uma notícia mundana, mas nunca um acto de cultura! Convenhamos! Como Mário Vargas Llosa tem razão!

A nossa História: Uma pausa para a pensar!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014
O grande desígnio de pôr a nossa História ao jeito dos que sempre mandaram – mandar, e não apenas governar – neste País, continua em marcha. É aquela História que legitima e confere um regime especial a um punhado de “iluminados” que fazendo jus ao seu estatuto usufrui de uma panóplia de privilégios e vantagens que o coloca acima de todos os outros cidadãos. Estranha e surpreende o facto de, alegadamente, essa aura de heróis ter sido ganha e conquistada não em solo cabo-verdiano mas nas matas da Guiné.

É no mínimo bizarro! Mais bizarro e surpreendente se torna quando se sabe que ela não se apoia em nenhuma façanha de “tropas expedicionárias” em serviço no exterior mas apenas na sua presença (reduzida) não mandatada, na sua inscrição voluntária, note-se, sem qualquer aval do povo cabo-verdiano. Um acto que podia ter sido (e se calhar foi) de abnegação e generosidade mas que afinal se revelou e se revela hoje como um investimento social e financeiro lucrativo que o cabo-verdiano vem pagando e, como sói dizer-se, com juros e correcção monetária. Até quando?

Essa História que teimam em fazer crer que nasceu em 1974, ou melhor, em 1956, com a suposta data da fundação do PAIGC, está sendo perenizada porque inculcada de modo acintoso e meticuloso nas nossas crianças e na nossa população contando para o efeito com a complacência e a “indiferença” popular e o apoio indispensável dos seus homens de mão bem colocados nos media e, pasme-se! nas instituições académicas e de ensino, mesmo superiores. É aqui que reside todo o mal pela ausência de um debate sério.

Não resistimos, em contar aqui, de forma muitíssimo breve, um episódio, porque está no contexto, que se passou com uma amiga nossa muito chegada que vive na Europa e que viera visitar a família. É uma pessoa culta, muito erudita que segue de perto tudo o que se passa em Cabo Verde. Entrou numa repartição para tratar de um documento e viu encaixada numa moldura uma fotografia de Amílcar Cabral pendurada na parede. Estranhou e perguntou, contou-nos ela, de forma já agastada porque já antes a vira em outras instituições do Estado: O que é que aquela fotografia está aí a fazer? Isto não é uma repartição pública? Não é Jorge Carlos Fonseca quem foi eleito? Bem, disse-nos ela, gerou-se uma pequena troca de argumentos em que a ideologia misturava-se com a ignorância da História e da própria Constituição.

A democracia e o estado de direito exigem escrupuloso respeito pela Constituição e não consta que a fotografia de quem quer que seja que não a do PR possa, legítima e legalmente, ser colocada em repartições públicas.

E tudo isto traz à colação, o recente livro de Daniel dos Santos – “Amílcar Cabral, Um Outro Olhar” – lançado publicamente no passado dia 5 de Setembro. Uma semana depois, era o aniversário natalício de Amílcar Cabral. É sem dúvida um livro controverso porque não panegírico, como habitualmente. Foi praticamente ignorado pela Televisão Pública nesse aniversário enquanto outros livros, sobre o mesmo tema, “velhos” e sobejamente conhecidos eram repescados. Até a RDP África de que se esperava uma postura, uma atitude de equidistância, no seu programa “Debate Africano” do dia 12, uma semana depois do lançamento, “confessava” não saber se o livro tinha sido ou não apresentado. Uma imagem que não abona muito para um painel que se impõe bem informado.

A classificação do autor desse livro, Daniel dos Santos, como “não é apaniguado de Amílcar Cabral” caracteriza bem o espírito com que o livro foi recebido e tratado colocando muito mal o programa e o painel – ferido na sua seriedade e credibilidade – que tão bons momentos de “tertúlia” já nos proporcionaram.

Não se pede isenção. Não é possível. Exige-se verdade e honestidade intelectual. O comportamento da RDP África, talvez sem o pretender, configura uma cumplicidade silenciosa com o actual poder na prevalência de uma visão monista da nossa História recente.

A ideia, as orientações que dimanam das esferas superiores são para silenciar o livro. Não falar dele. E quando se tiver de falar, diabolizá-lo. Evitar o debate que ele (o livro) propõe que poderá dessacralizar determinados mitos da nossa História, derrubar determinados dogmas e ilegitimar determinadas propostas, posturas e comportamentos.

Felizmente que estamos em democracia onde o lápis azul da censura salazarista já não existe e a proibição de circular livros já não tem lugar. Mas sabemos que o poder tem e utiliza outros instrumentos, mais subtis mas nem por isso menos eficazes. O que não há dúvida é que para o actual regime cabo-verdiano, “Amílcar Cabral – Um Outro Olhar” é um livro proscrito.

Estamos no século XXI. Conhecer a nossa História é muito importante. É compreender o caminho que nos trouxe até aqui. Não apenas o passado relativamente longínquo, mas também o recente, o recentíssimo. Aquele que construímos todos os dias. A nossa prioridade não pode ser estudar os “fósseis” da História. São importantes sim. Muito importantes mesmo. Mas não prioritários! Estiveram adormecidos durante séculos e podem assim permanecer por mais algum tempo se for caso disso. Não sofreriam qualquer alteração. Ou podiam mesmo ser tratados em simultâneo com a História recente. Não se excluem mutuamente. Mas enquanto uma é para se ir fazendo – a rota dos escravos –, o outro é para se fazer já – o debate sobre a nossa História recente.

Não comungamos das palavras justificativas do PM quando diz (citamos): A rota dos escravos é fundamental para a construção do futuro de Cabo Verde”. E reforçamos a nossa posição, quando ele afirma que para a “construção desse futuro” torna-se importante saber (citamos): "Como é que os escravos circularam aqui internamente, como é que conseguiram resistir, onde é que foram os quilombos cabo-verdianos, quais os caminhos feitos”. (O negrito é nosso).

Não resisto a perguntar: Que futuro queremos nós construir com base na rota dos escravos? Ou o PM aguarda a rota dos escravos para dar um rumo à sua governação?

Para quê preocupar, já e agora, com Quilombos – fenómenos da escravatura brasileira – se aqui ao lado, na nossa vizinha Mauritânia, para não nos afastarmos muito, no nosso mundo global, a abolição ainda não chegou? A escravatura é um problema da Humanidade e não apenas da memória histórica cabo-verdiana. E infelizmente não está extinta para falarmos dela apenas como passado.

Porquê tanta preocupação e exaltação com a rota dos escravos quando temos por esclarecer assuntos – pendentes, inadiáveis e vivos da nossa História e da da Humanidade – recentes? Ignorar essa prioridade poderá tomar a forma de uma manobra de diversão, de uma artimanha dilatória.

Façamos todos, uma pausa para pensar e priorizar a nossa História recente. Esta sim, poderá ajudar-nos a construir o futuro.

A. Ferreira

P.S. Por falar em História, ocorreu-nos que alguns estudiosos de Amílcar Cabral insistem na tecla de que ele na sua deslocação para a Guiné, depois de terminar o curso, fez questão de fazer escala em Cabo Verde para mostrar o diploma à mãe. Um gesto sem dúvida muito bonito. Que seria efectivamente carinhoso e afectivo se fosse apenas para a cumprimentar, para a abraçar e lhe dar um beijinho. Aliás, que outra alternativa teria? Não havia ligação directa. O normal era apanhar um barco de carreira. E ao tempo (1952) a única ligação Lisboa – Bissau era feita pelos navios (“Alfredo da Silva”, “Ana Mafalda”, “Rita Maria” entre outros) da “Sociedade Geral” que faziam a carreira regular Lisboa – Mindelo – Praia – Bissau e Bissau, Praia, Mindelo – Lisboa. Ou será que o Governo de Lisboa lhe tinha posto um barco à disposição?

O improviso é uma arte?! Um dom?!

domingo, 21 de setembro de 2014
Se o título interrogativo deste escrito estiver certo, o saber improvisar quando se fala em público e para o público, para além de ser uma arte, poderá ser também um dom, reservado a alguns. Infelizmente, é mesmo assim: reservado a alguns. Acrescente-se que a arte e o dom não se excluem mutuamente. Antes se associam, uma vez que a arte, não obstante exigir trabalho, traz sempre consigo uma forte componente vocacional.

O “improviso” é, por definição, «tudo aquilo que é dito ou feito sem preparação, sem ensaio prévio». Por isso, o verdadeiro improviso é aquele que surge em circunstâncias inesperadas, repentinas, que obriga o actor, o protagonista, o comunicador, a fazer intervenções impreparadas e, normalmente, sem grandes profundidades, a menos que sejam situações recorrentes em que só o contexto é circunstancial.

Daí que, em cerimónias formais e institucionais, previamente datadas, em que os oradores são conhecidos, não se espera que nenhum deles faça um verdadeiro improviso sob pena de mostrar um menor respeito pelo público-alvo. Sabemos contudo, que muitos políticos experientes, inteligentes e astutos recorrem ao “improviso” previamente ensaiado com vista a levar o público a pensar que se trata de alguém eloquente cujas palavras são sinceras porque saídas de forma espontânea e directamente do coração, da alma, sem qualquer reserva mental. Aqui o “improviso” ganha os contornos de um “marketing” político.

Sabe-se, por exemplo, e ele não é seguramente, nem de perto nem de longe, o único, que Charles De Gaulle (antigo PR da França) levava horas e horas sem conta defronte a um espelho a preparar os seus “improvisos” em que todos os seus gestos e palavras, designadamente o tom, eram meticulosamente estudados.

Por isso, atenção! O “improviso” não é para todos os oradores. Requer informação, conhecimento e capacidade (dom) de comunicação quando é autêntico, e muita memória e muita arte de representação quando é teatralizado. Em qualquer dos casos deve ter, sobretudo, substância, ir ao encontro do fundamental.

Mandam a prudência, o senso-comum e a consideração que merecem as pessoas que se previna sempre, com o clássico “papelinho” bem escrito ou, no mínimo, com os tópicos, para não cometer “gaffes” e honrar e prezar devidamente a audição (a capacidade de escuta) de cada um.

A palavra escrita disse (não era preciso ser ele a dizê-lo…) um nobel da literatura «tem possibilidades de calar mais fundo na análise dos problemas, de chegar mais longe na descrição da realidade social, política e moral e, numa palavra, de dizer a verdade».

Afinal, todo este arrazoado, vem a propósito de ouvir com alguma frequência, altos responsáveis políticos e figuras públicas destas ilhas falarem − atabalhoadamente (perdoem-me a franqueza) e muitas vezes com pouco nexo − de improviso para os seus concidadãos e em presença de estrangeiros, o que constitui não só uma temeridade, como também, por vezes, deixa subentender, por um lado, a impressão de uma inadmissível negligência, por outro, desconsideração e falta de respeito por aquele que o escuta.

Mas o que verdadeiramente preocupa é que parece estar a configurar-se algum modismo. E se a moda pega!...

A este propósito, recordamos o constrangimento, ou mesmo vergonha, usando as suas palavras, por que passou alguém amigo, ao ter de escutar, perante um público da mais alta literacia, porque de professores e de reitores universitários (alguns convidados estrangeiros) se tratavam, na apresentação, pública, há já alguns anitos, da então novel Universidade de Cabo Verde, em que um altíssimo dirigente do país, resolveu falar de improviso no discurso que encerrava a cerimónia desse acto público. Sem dom de orador, sem papel e sem preparação prévia, o discurso foi um autêntico fiasco − atabalhoado, desorganizado e sem substância. Enfim, terá sido mesmo constrangedor, ainda segundo a nossa fonte, para quem o escutou, deixando a todos, ou quase todos, os seus concidadãos presentes no acto, envergonhados pela má prestação.

Um político com a experiência que então esse tinha, devia ter tido mais cuidado, ser mais avisado, por maior que fosse a sua presunção. Evitaria dessa forma o que acabou por ser uma vexatória exposição.

Na realidade, o que conta é o conteúdo, a organização mental, a comunicação. O modo como é veiculado – de improviso ou escrito − por si só, não valoriza mas pode diminuir e comprometer.

Nestes casos convém ter sempre presente a velha máxima: “Mais vale prevenir do que remediar!” E não esquecer que «o seguro morreu de velho!...»

Declarações de Amor - Entre o Português e o Crioulo

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Eis uma história de amor acontecido num baile. Vamos directamente ao diálogo entre dois apaixonados que dançam num baile na cidade da Praia, no século XIX:
“ (…)
-Sente-se muito fatigada, minha senhora? – Perguntou ele um pouco perturbado.
- Nhor não – respondeu ela suspirando.
- Mas… V. Ex.ª parece estar um pouco incomodada. Se não fosse por me julgar importuno, pedir-lhe-ia um favor.
- É cusé?
- De me dizer o que sente.
- É câ nada, é só coraçon qui estan fadigado…
- Quer que lhe dê um remédio magnífico para esta fadiga que diz ter no coração?
- Paquê? A nhó é ca dotor.
- Bem sei que não sou médico, mas pode ser que os meus conselhos tenham o privilégio de curar a V. Ex.ª do mal de que talvez esteja sofrendo…
- Bé! Nhó ca capaz…
Porque é que não sou capaz?
-Pamode nada – Disse ela sorrindo.
- V. Ex.ª é caprichosa… continuou ele torcendo o bigode – Sei que sofre e sem razão por que sabe que a amo.
- Ami?
- Sim, a si minha senhora.
- Ami mé tambe gosta di nhô.
- Também gosta de mim? Não creio!
- Bi! Câ nhu fla si…si ca sim, m’tâ graba di nhó!
- Então jure.
- Pa alma di nha pai quis ta dibaxo de sete mon de tera…
- Oh! Sou feliz, dancemos minha senhora.

Neste comenos rompe a orquestra com uma polka, os dois jovens namorados desapareceram no meio do turbilhão. (…)” Fim de transcrição.

Maria Adelaide das Neves
Almanaque de Lembranças (1854-1932)

O leitor reparou certamente que este texto antigo conseguiu partilhar o afecto,a paixão, nas duas falas do cabo-verdiano: o português e o crioulo sem qualquer hesitação. Um diálogo de apaixonados. Um momento amoroso muito bem captado. Tanto uma língua, com a outra, a portuguesa e a cabo-verdiana foram muito eficazes para a finalidade pretendida entre os enamorados.
O conto de Adelaide Maria das Neves de 1889, (do qual tomei a liberdade de modernizar ligeiramente a escrita para facilitar a leitura) sugeriu-me este escrito, pois tenho escutado ditos “non sense,” como por exemplo, dizer-se que só o crioulo (com exclusividade) é que é língua que transmite afectos e sentimentos em Cabo Verde. Falso.
Cada um que fale por si e que seja menos absolutista. É o mínimo que se pede a gente com responsabilidade, naquilo que diz em público.
É que alguns tiram isso da “boca para fora” (relevem-me este prosaísmo) assumindo um ar de verdade absoluta que se tornam quase dogmáticos.
Até parece que o circuito linguístico cabo-verdiano só começou a partir deles.
Isto é muito mais complexo, e muito mais remoto do que julgam, meus senhores! Depende da literacia e da classe social a que pertence o falante cabo-verdiano quando faz a sua declaração de amor.
Conheço muitos casos de gente que me é próxima e trata-se de cabo-verdianos de quatro costados – como sói dizer-se – cuja declaração de amor foi feita em língua portuguesa. E os afectos em família são profundamente reiterados em português,por a língua portuguesa ser também, a língua doméstica, de casa.
E que me dirão estes iluminados sobre as particularidades das duas línguas de Cabo Verde, a portuguesa e a cabo-verdiana, sobre as cartas e bilhetes de amor de outrora que circulavam com enorme frequência, do amado para a amada e vice-versa? Eram escritas em português e eram um meio de comunicação, o mais difundido e utilizado entre nós, para o tempo de namoro.
Portanto, solicita-se encarecidamente a quem vá à comunicação social “botar faladura” sobre este tipo de assunto que o faça, lembrando que deve usar as conclusivas sob formato relativo. Deve ter sempre presente e recordar sim, os casos que lhe são próximos, o seu meio ambiente social e não generalizar abusivamente, tornando no todo absoluto, aquilo que é bastante relativo.
Ah! Deve também ligar sempre o seu “desconfiómetro” que é um instrumento muito útil para estes actos elocutórios e assim evitar que o desconhecimento – que prega muitas partidas! - que é muito atrevido e temerário, em “bocas incautas,” venha ao de cima. Nós outros agradecemos!