O nosso 13 de Janeiro...Sempre!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Pois é, o 13 de Janeiro! Decorria o ano de 1991. Que Domingo de fortes emoções! Já lá vão 24 anos.
É que se tratava das primeiras eleições realizadas em Cabo Verde em que cada cidadão votou com alternativas para escolher, em liberdade.

Nunca o “ou/ou” havia soado para o cabo-verdiano democrata com tanta profundidade! Ter opção, poder escolher ou o Partido A ou o Partido B.

No caso a escolha foi entre o MPD (Movimento Para a Democracia)  e o PAICV (Partido Africano Independência de Cabo Verde) e isso já fazia uma diferença imensurável! Não interessa o resultado. A grande vencedora, sem qualquer dúvida, foi a nação cabo-verdiana, a democracia.

Se é certo que as alegrias compensadoras, para aqueles que nunca aceitaram o império de Partido único, vinham conhecendo um crescendo desde a famosa abertura política no país, legalmente instituída em Fevereiro de 1990, com a queda, a abolição, do famigerado Artigo 4º da primeira Constituição cabo-verdiana de 1980, que proibia a existência de qualquer formação política que não fosse o PAIGC; também não é menos certo, que se atingiu o rubro dessa imensa alegria, a 13 de Janeiro de 1991 do século vinte, cerca de dezasseis anos depois da independência deste Arquipélago, pois foi naquela data que o cidadão cabo-verdiano, pôde provar o “gosto” e o direito que sempre lhe negaram de ser ele próprio a escolher os seus legítimos representantes.

Por esta razão, o 13 de Janeiro é, e será sempre um marco, uma divisória, entre um antes (confinado à ditadura de Partido único, sem a garantia das liberdades fundamentais, individuais) e um depois (em que foram estabelecidas por via do voto cidadão e da Lei fundamental, todas essas garantias).

Para a geração actual, tudo isto pode parecer como dado adquirido. Sem custos, ou de forma natural.

Mas para nós, os mais velhos, que sofríamos com isso e que sempre prezámos a democracia, sem qualquer adjectivação, o 13 de Janeiro de 1991, representou um ganho imensurável! Reitero.

Para finalizar o meu louvor ao 13 de Janeiro, não resisto a relembrar os conhecidos versos de Fernando Pessoa do seu fabuloso livro: «Mensagem».

“(…)Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor!
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu!”

Viva o 13 de Janeiro!

Do Dr. Adriano Lima recebi um comentário oportuno, pertinente e bastante conceptual sobre o assunto. Por ter gostado muito e por o seu conteúdo, na linha de outros comentários seus, ter enriquecido o texto que o motivou, publico-o desta forma para o tornar visível ao leitor.

Blogger Adriano Lima disse...
Dr.ª Ondina Ferreira, todo o cabo-verdiano minimamente esclarecido e de boa consciência tem de se juntar a si para acrescentar força a esta vibrante proclamação: “Viva o 13 de Janeiro!”. E também de lhe agradecer a lembrança da efeméride.
Para já, como não vivi nem assisti ao nascimento do Cabo Verde independente, o qual, por sinal, só revisitaria em 2002, talvez nem sequer tenha o direito de falar sobre o que deve ter sido a vida dos meus conterrâneos privados das liberdades cívicas com que sonharam sob os auspícios do 25 de Abril.
É com certa perplexidade, se não com estranheza, mesmo a esta distância dos acontecimentos, que se relembra esse Artigo 4º da Constituição, “que proibia a existência de qualquer formação que não fosse o PAIGC”. Alguns, invocando uma visão pragmática da realidade, costumam justificar aquela medida com o facto de o nosso povo não estar então preparado para a democracia e com a alegação de que a criação das estruturas do novo Estado só teria condições de efectiva realização em clima social de unicidade política. Mas creio que o que se seguiu 16 anos depois foi a melhor resposta à dúvida cautelar sobre a maturidade cívica cabo-verdiana. Outra questão diferente será o saber se o Estado não se constituiria do mesmo modo na vigência dum sistema demo-liberal. Sendo justo reconhecer que o Partido agiu bem nesse capítulo, será, no entanto, interessante especular sobre o que teria acontecido num ambiente político plural.
Seja como for, toda a justificação então alegada pelo PAIGC fica fragilizada, se não envergonhada, se tivermos em conta que a abertura política foi uma imposição da comunidade internacional e não uma decisão voluntária do Partido. Não fosse a queda do Muro de Berlim, é natural que as coisas continuassem na mesma, adiando-se para as calendas gregas a livre e espontânea abertura política interna. A resposta deu-a e continua a dá-la o povo cabo-verdiano, que, muito justamente, é apontado como um exemplo em África.
Mas, enfim, a História daquele período fez-se como se fez e agora só resta tirar ilações. Fica-nos é uma dúvida. Como teria sido a vida do país se não se tivesse matado à nascença a expressão pluripartidária que ousou manifestar-se nos meses que se seguiram ao 25 de Abril?
Agora, é importante assinalar que toda a gente aprendeu alguma coisa e que o próprio PAICV soube transitar sem sobressaltos da autocracia para a democracia. 
Posto isto, com muito gosto, aqui vai: Viva o 13 de Janeiro!

14 de janeiro de 2015

O meu “post” para o Fogo…

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Pois é, passadas quase duas décadas, a última erupção foi em 1995, o “monstro sagrado” da ilha do Fogo despertou de novo. Isto é, “…nho Vulcão trazê sê spanto!” (...o senhor vulcão trouxe-nos o seu espanto) Como cantaram os versos da morna do falecido Enfermeiro Barreto, feita para a memória da grande erupção vulcânica de 1951.
Os foguenses já respiram mais aliviados, embora a situação dos desalojados ainda “corte o coração” pelas perdas materiais sofridas e pela mudança brusca de uma vida organizada numa pequena região, das mais férteis da ilha.
Infelizmente, houve danos materiais elevados – tudo é relativo – mas para muitas pessoas da Chã da Caldeiras o desastre soou como um quase “absoluto,” uma vez que perderam tudo o que ergueram para uma vida. E de entre as gentes daquela ilha, era das mais abonadas em termos da agricultura e da pastorícia uma vez que dadas as condições do solo, a natureza é aí mais pródiga do que noutras regiões da ilha. Os moradores cultivam duas vezes por ano, o que é quase milagre nestas ilhas secas. Têm gado e pasto garantido o ano todo. Quem observa aquele torrão queimado e escalvado, nem imagina que a agricultura e a pastorícia aí se dêem tão bem.
Interessante, volto a repetir, é que a gente da Chã das Caldeiras, mesmo a mais pobre, e relativamente à das outras ilhas, em igualdade de circunstâncias, não passa fome.
Creio não faltar à verdade, se disser que a generalidade dessas pessoas não está habituada a depender, a pedir e a ter privações demasiado básicas, por que agora estão a passar.
Daí que as autoridades não estejam a encontrar um “padrão” para lidar com o comportamento, aparentemente de “pobres e mal-agradecidos” daquela gente.
Trata-se de uma impaciência, não só gerada pela impotência perante uma catástrofe natural, como também oriunda de um certo padrão de vida, agora perdido.
Permanece até ao momento em que escrevo este “post” algum isolamento da ilha do Fogo, não só internamente, com algumas estradas queimadas, como também com o exterior.
A solidariedade internacional e nacional foi amplamente manifestada. Pena foi e é que as autoridades não souberam ou então não puderam (posso admitir) distribuir e acudir em tempo mais útil aos desalojados e necessitados, com as ajudas recebidas. Digo isso, pois fortes críticas se fizeram ouvir.
Outra coisa, já é tempo de nos esclarecermos, de que em muitas matérias não somos auto-suficientes, nem de longe, nem de perto. Não somos e mais do que nunca! Esta asserção é hoje global, mas para nós, põe-se com imensa e particular acuidade.
Assim sendo, são sempre bem-vindas as colaborações, as cooperações de fora das ilhas e sobretudo, de países amigos em circunstâncias adversas …
Enfim, de qualquer forma, graças devem ser dadas, pois não houve perdas humanas a lamentar.
A propósito da situação por que passa a ilha do Fogo, recebi – nos inícios deste mês – de uns amigos, um casal de profissionais da área vulcanológica, que cá estiveram connosco no Verão passado, uma mensagem que é também uma “memória” (agora já é) que conservaram dos lugares da Chã das Caldeiras por onde andaram. Por se tratar de um trecho interessante, pedi-lhes autorização para aqui transcrever a bonita descrição que fazem do que foi Portela e arredores: “Como devem imaginar todos os dias pensamos em vocês à medida que vamos acompanhando as noticias que nos chegam quase que hora a hora. Lembramo-nos logo das histórias que a Ondina nos contou de antigos episódios (51 e 95) como o que agora se repete em que a ameaça Mosteiros veio novamente a fazer-se sentir.
Como as noticias foram sendo muitas íamos "vigiando" o que se passava – alguns dos nossos amigos estiveram presentes nas equipas de acompanhamento da erupção.
Foi com tristeza, mas não com surpresa, que vimos a Portela ser engolida logo seguida da Bangaeira.
O museu que vimos em fase adiantada de construção, o hotel onde comemos um peixe delicioso, a cooperativa onde comprámos vinho e até a tasca do Montrond onde comprámos também o vinho doce que eles faziam, as igrejas – uma em frente da outra – e todas aquelas casas da povoação – tudo isso pagou o seu tributo à natureza.
Vá lá que não houve outros prejuízos para além dos económicos – o vulcão acabou por ser gentil – avisou e deu o alerta e foi manso na hora do maior aperto.” Fim de transcrição.
Para findar o escrito, expresso ao leitor, os votos de um novo ano melhor, com tranquilidade, paz e harmonia.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
 

O meu berço flutuante...

Eis acima o vapor «Guiné», o meu local de nascimento.
Mas vamos por partes. Os meus pais, e os manos mais velhos, partiram do Porto Grande de Mindelo numa cálida noite do mês de Agosto, rumo a Lisboa. Eu seguia na mesma viagem, só que bem aconchegada no ventre da minha progenitora.
Decorria o ano de 1946. De acordo com o narrado pelos meus pais, eles só contavam comigo  em terras lusas, já  desembarcados e instalados em Lisboa.
Surprendentemente, a 17 de Agosto e  em pleno mar alto, "na latitude norte vinte graus e cinquenta e um minutos e na longitude oeste de Greenwich,vinte e dois graus e um minuto" -transcrição do assento de registo a bordo - anunciei-me.
Houve algumas peripécias ocorridas durante a viagem. A tripulação não contava com nascimentos a bordo. O Comandante, de seu nome Ambrósio Pereira Ramalheira, para remediar a situação de toda inesperada,  decidiu "fechar" o salão do barco e transformá-lo em maternidade, instalando aí, mãe e filha.  Havia médico e enfermeiro no barco.
Aconteceu que os jovens que iam de férias ou, para estudos em Portugal, é que não gostaram nada da emergência. Entenda-se: era hábito haver bailes e festas no salão do barco, ao longo dos muitos dias em que decorriam as viagens Praia/Mindelo/ Funchal/Lisboa, e naquela viagem não puderam desfrutá-los.
Na ilha da Madeira, no porto do Funchal, o meu pai foi à terra comprar um enxoval para a bébé, pois segundo a minha mãe pensava comprar tudo em Lisboa. Logo, as minhas primeiras vestes foram madeirenses.

Bem, adiante, registada a bordo como mandavam as leis na época, a Companhia Colonial da Navegação, a que pertencia o barco, entregou aos meus pais um documento que dizia ter eu a partir daí, viagens gratuitas, a bordo do paquete portugês «Guiné». Infelizmente, nunca tal aconteceu, pois em 1949, naufragou o meu berço flutuante.

  P. S. Segue uma digitalização do meu Registo de nascimento.









Pequenos acasos em grandes vidas?...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014


Veio isto a propósito da recente atribuição do Prémio Nobel da Paz ao benemérito médico indiano, Kailash Satyarth, incansável activista pela causa do trabalho escravo infantil, e das crianças em risco na Índia.
Outra laureada com o mesmo galardão da Paz é a nossa conhecida Malala Yousafsi, uma adolescente extraordinária e fora de série, por quem tenho uma admiração enorme, que defende a educação de milhões de crianças sem escola. Dois rostos, que agitam afinal, uma grande bandeira – a integridade do ser infantil – que deveria ser a prioridade da chamada humanidade.
Pois bem, a historieta que a seguir narrarei tem a ver com o patrono dos prémios, Alfred Nobel.
Conta-se ou melhor, registaram os biógrafos de Alfred Nobel, famoso químico e inventor sueco (1833 – 1896) um facto assaz interessante e que transformou quase por completo a memória que a humanidade havia dele guardar.
Aconteceu que em 1888, faleceu o irmão mais velho de Alfred, Ludvig Nobel igualmente engenheiro químico, inventor e homem de negócios. No obituário que apareceu nos grandes jornais franceses, confundiram os manos e deram como falecido, o mais famoso deles, Alfred Nobel.
Um dos jornais mais lidos em França, trazia inclusivamente, em grande cabeçalho a seguinte notícia: “Morreu o mercador da morte».
Alfred Nobel pôde ler o seu obituário em vida e rapidamente apercebeu-se de como ficaria conhecido para a posteridade, como o inventor de dinamite que na realidade foi.
Produto bem conhecido, que embora seja ou, tenha sido grande auxiliar em notáveis obras de engenharia, foi também utilizado em larga escala, em guerras para a destruição de vidas e de bens…
Daí que o seu inventor, tenha reflectido e pensado bem. A humanidade iria lembrar-se dele como o “mercador da morte” tal com preconizado no jornal francês…
Então resolveu criar a Fundação Nobel com a instituição de cinco prémios, a saber: Química, Física Medicina, Literatura e Paz Mundial.
Algo grandioso que começou a funcionar na realidade, a partir de 1900.
Hoje, Alfred Nobel é de facto mais conhecido pelo prémio Nobel, instituído por ele, do que como inventor do “famigerado” dinamite que tantas vidas e património destruiu nas guerras e nos conflitos mundiais de então …
Para finalizar o meu escrito, volto ao título: pequenos acasos em grandes vidas. Foi sorte dele ter lido em vida, (perdoem-me o aparente pleonasmo) a própria notícia da morte.

"Façam um Reformatório na ilha de Santa Luzia (?)..."

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E levem para lá, todos esses malfeitores e assaltantes, adolescentes e jovens que já tomaram conta da nossa cidade!”
Foi assim que gritou indignada e desesperadamente, aos microfones da comunicação social, uma cidadã, residente na capital do país.
De facto, isto já chegou a um ponto em que já não há mais argumentos justificativos para tamanha insegurança e tamanha violência que grassa a cidade da Praia!
Isto já atingiu um nível insuportável!
Infelizmente, o assunto tornou-se recorrente na rádio, na televisão, nos jornais.
Diariamente somos flagelados, ouvindo notícias trágicas em que as vítimas são sobretudo, mulheres. Assaltadas, agredidas, violadas e até assassinadas, em plena luz do dia, na via pública, à saída de casa, nas compras, no regresso do trabalho. Enfim, uma autêntica tragédia!
Trata-se de mulheres, são elas que os meliantes – muitos deles ainda adolescentes – têm na mira, nos assaltos frequentes nas ruas da cidade e dos arredores.
Ponham a polícia e toda a força armada nas ruas! Que vigiem os bairros e os becos altamente perigosos da Praia! Para além do efeito dissuasor que isso teria sobre os bandidos, traria certamente, alguma tranquilidade às moradoras da cidade.
Façam visitas e revistem os bairros periféricos desta cidade, onde se sabe que se encontram os bandidos e o seu arsenal diabólico de facas e de armas! Mostrem que ainda existe autoridade nesta cidade!
Por favor, façam algo que se veja que as autoridades estão preocupadas com a segurança dos cidadãos e dos seus bens!
É caso para se lamentar, dizendo que os assaltantes se tornaram verdadeiros «donos e senhores» da cidade da Praia e que nós estamos à mercê deles…
Ao que isto chegou! Valham-nos todos os santos!
Por outro lado, nota-se que há qualquer coisa que está muito desequilibrada, em termos de funções de policiamento, na cidade da Praia! Se não, vejamos:
Apenas dois pequenos exemplos, entre muitos que poderia expor neste escrito.
Aqui há dias uma amiga foi assaltada, (levaram-lhe a carteira com tudo dentro, arrancaram-lhe o anel, ferindo-lhe o dedo) agredida, apalpada lascivamente, por três jovens meliantes que a atacaram em plena via pública, ao fim da tarde, quando se dirigia à casa de um familiar. Após o incidente, ela chorava desesperadamente humilhada e violentada, à procura de um agente policial na rua. Não viu polícia alguma.
Outro caso: Estava eu a caminho duma Livraria, quando reparei numa cena que se passava nas proximidades, quatro polícias (duas agentes e dois agentes) rodeavam uma jovem senhora para multá-la (deduzi eu) por ter estacionado mal o carro.
Afinal, os polícias desta cidade serão apenas caça-multas? Só para estes casos é que aparecem prontamente?
Reparem na discrepância! Dois casos. Um, com total ausência de tratamento adequado, e o outro, com dose quadrupla de atendimento musculado, para um acto com configuração de tratar-se de uma "simples" transgressão cívica, a senhora terá estacionado mal o seu veículo. Convenhamos! Francamente!
A situação a que atingiu o banditismo na cidade da Praia, já clama que seja declarado “estado de sítio”! Com todas as observâncias inerentes ao mesmo! Os “direitos humanos” são para todos, e não apenas para os bandidos!
Chegou-se a um ponto que é preferível, uma medida drástica desse quilate, que evite mais perdas inúteis de vidas, mais agressões físicas e psicológicas de cidadãs e de bens dos residentes do que esta permanente e há muito em descrédito – na boca de todos nós – «moleza» inépcia, incompetência de quem de direito!
Para terminar, na mesma linha da senhora que pediu em desespero de causa, que se construa um reformatório, uma instituição correccional, ou algo similar na ilha de Santa Luzia e que sejam levados para lá, ao mais pequeno acto de violência, os bandidos e os malfeitores que pululam e andam com total à-vontade e impunidade na nossa cidade. Também, deixo aqui este registo, que não é senão o meu «grito» de indignação! A falta de segurança retira toda e qualquer qualidade de vida ao cidadão! Vivemos sitiadas nos nossos bairros. Basta!

Discurso Directo...

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Este escrito pode ser considerado a continuação do «post» anterior pois que trata o mesmo assunto.
Já dizia o célebre escritor e pensador francês, Camus que “não existe a verdade. Só existem verdades” Comungo por inteiro desta forma de pensar e de raciocinar, pois tudo é relativo, e sujeito a diversas e variadas leituras, diferentes ângulos de abordagem e de interpretações.
Ora bem, tudo isto vem a propósito de ter ouvido aqui há dias numa estação de rádio, a entrevista dada pelo médico e poeta santomense, Tomás Medeiros, a pretexto e à volta das comemorações dos 70 anos da antiga e já há muito extinta, Casa dos Estudantes do Império em Portugal, CEI. (1944-2014).
O que se segue deverá ser lido como uma espécie de transcrição por outras palavras, daquilo que disse sobre o assunto, Tomás Medeiros, no alto dos seus experientes e sabedores anos de vida. Conhecido pensador, escritor e antigo poeta militante. Ele fez parte do núcleo inicial dos fundadores do MPLA, do MLSTP. Dirigente estudantil, e activista político, Medeiros participou, colaborou com os outros movimentos e grupos que surgiram em Portugal, após a II Grande Guerra Mundial, com aspirações independentistas das então Colónias e Províncias Ultramarinas portuguesas de África.
Esclareceu que a CEI foi fundada em 1944. Salazar tinha então como ministro da Educação, Vieira Machado e como Comissário da Mocidade Portuguesa Marcelo Caetano, estes dois últimos foram o executivo e o legislador da recem-instituicionalizada CEI. Esta albergaria os estudantes universitários africanos em Portugal que deviam estar juntos e não, em reuniões separadas e assim melhor controlados, o que, ao fim e ao resto, era o pretendido pelo regime.
Tomás Medeiros foi um dos dirigentes da CEI.
Existiam na altura, e muito antes do aparecimento da CEI, várias e importantes Associações de jovens estudantes vindos de Angola, da Guiné, de Cabo Verde, de Moçambique, de São Tomé e da Índia.
As palavras conhecedoras de Tomás Medeiros, cujo conteúdo foi por ele vivido em directo, afirmaram que no que respeitava aos estudantes africanos, não todos, é certo, muitos andavam à procura, a indagar sobre quem eram? De onde provinham? E porque se sentiam diferentes? Estas questões existenciais sobre a procura da verdadeira identidade haviam sido começadas a debater, nas diferentes associações já referidas e em actividade, antes da CEI e continuariam nela a ser discutidas.
Daí que o entrevistado, considerou ser a Casa de Estudantes do Império, o verdadeiro aglutinador e um importante germinador de ideias e de estratégias para as lutas futuras pelas independências das Colónias portuguesas africanas. Por outro lado, a CEI foi também uma casa acolhedora, de convívio, de solidariedade, de tertúlias literárias que revelaram e descobriram poetas e escritores, os quais mais tarde, entre nós, consagrados.
O interessante, é que a determinada altura, a conversa radiofónica de Tomás Medeiros, foi muito esclarecedora quando afirmou que de entre os estudantes que – logo de início – frequentaram a CEI, exceptuaram-se os estudantes cabo-verdianos pois estes últimos – continuou Tomás Medeiros – viviam já e possuíam já plena consciência da sua caboverdianidade. Logo, da sua identidade e celebravam-na na Estrela (Bairro lisboeta) entre palestras, análises, “mornas e cachupa”…
Agora, volto a um dos últimos livros sobre A. Cabral. Este não havia ainda arribado a Lisboa. Tal só viria a acontecer em 1949. E por mão de Marcelino dos Santos, (moçambicano) ele entrou na Casa de Estudantes do Império. Nessa altura já faziam parte da direcção da CEI, dois outros ilustres estudantes universitários cabo-verdianos: Aguinaldo Veiga e Humberto Duarte Fonseca.
Retomando a entrevista escutada do poeta santomense, devo dizer que o que atraiu mais a minha atenção, foi a afirmação de que nos anos 30 e 40 do século XX – décadas de significativo numero e de boa frequência de estudantes universitários cabo-verdianos, em Portugal – era já sólida e bem expressada e revelada, a consciência da caboverdianidade, entre esses mesmos estudantes oriundos desta ilhas, na antiga Metrópole. Embora se trate de matéria bem conhecida e de tese já há muito demonstrada, tornou-se-me em contexto, mais iluminadora por ter sido proferida por uma testemunha intelectualmente válida a todos os títulos, e coeva desses tempos. A pessoa e a voz do poeta Tomás Medeiros.

Identidade cabo-verdiana? Uma falsa questão no século XXI? ... Ou manobra de diversão resultado da nossa pouca "destreza" cultural?

domingo, 19 de outubro de 2014

Antes de mais, e como justificação, devo esclarecer o leitor de que tenho clara consciência, de que estou ciente que o tema que pretendo ora abordar, não cabe num “post”. Ele é demasiado sério e profundo. É matéria para diversificada e substantivas abordagens.
Aqui apenas se aflorarão três ou quatro pontos de vista e que, como tal, mais não são do que isso.

1 - Identidade do latim, identitas, identatis, significa e abreviadamente, para este contexto, o conjunto de características próprias e exclusivas de uma determinada comunidade humana, que a podem por isso, distinguir de outras comunidades. Ou seja, tal como as ciências matemáticas a definem e aproveitando o conceito, transpondo-o para aqui, a identidade estabelece uma relação de igualdade verificável para todos os valores envolvidos e praticados por uma determinada comunidade humana.
Já na Grécia antiga os grandes pensadores e filósofos definiram-na tão cabalmente, como relação de semelhança completa e absoluta entre duas coisas que possuem as mesmas características essenciais – e isto aplicado a uma sociedade distinta – que chegou até nós, na sua puridade.
À identidade coloca-se a questão fundamental da diferença do “eu” em relação ao outro e vice-versa.
Ora bem, quando uma comunidade, imaginemos a nossa, a cabo-verdiana que comunga no essencial, das mesmas características, das mesmas crenças, usos, costumes, valores, língua, entre outros traços que a distinguem das demais culturas e sociedades e que a identifiquem una, estaremos neste caso, a falar da identidade cabo-verdiana, da nação cabo-verdiana que se formou segundo estudiosos, cerca de um século, antes deste arquipélago ser país.

2 – Interessante é que no caso de Cabo Verde, já o poeta e ensaísta de mérito, Gabriel Mariano, havia afirmado há mais de três décadas, de que a nossa identidade nasceu connosco. Ela procede da nossa mestiçagem negra/branca. Portanto, veio connosco. Logo à cabeça da nação. Isto é, a nossa identidade somos nós, é o nosso ser cabo-verdiano, este que forjou a nação cabo-verdiana. Não há, “pour cause,” necessidade de andarmos – nesta diversão – (desculpem o prosaísmo do termo) à procura dela, em patéticas divagações e interrogações, as mais das vezes, delirantes, inócuas, que a nada conduzem e mais se assemelham à discussão à volta do sexo dos anjos.

É nossa convicção e de muitos mais (sei bem que não estou a dizer nada que seja novo) de que a nossa identidade se forjou – reitere-se – nessa fusão rácica e cultural, de que somos formatados. É o nosso ser e estar resultantes de um cruzamento de raças e de culturas fundidas e neutralizadas naquilo a que demos o nome de caboverdianidade.

Logo, portanto, Não vale tentar “apagar” ou “apoucar” a nossa condição e cultura mestiças. Deve ser encarada como naturalidade. Como um processo histórico, cultural e antropológico.

Convém sempre lembrar que nem o branco e nem o negro (de per si) se deram bem por aqui. Aliás, o que se entende por natural. Se não, vejamos: as condições climáticas, a falta de água, de vegetação, e outros e muitos factores, deixaram-nos à deriva e bem desenraizados, com nostalgia e falta dos seus torrões de origem.

Só quando os dois se cruzaram nestas ilhas (entre si e miscigenadamente) e produziram o homem mulato, o branco, o negro, em suma e em resumo, o mestiço das ilhas. Estes sim! Estiveram «ab initio» intimamente ligados à terra e por ela moldados. A partir daí e doravante, é terra-mãe de um ser: o cabo-verdiano.

3 - Aproveitaria esta oportunidade para transcrever excertos de um texto que retirei do “blogue” «Arrozcatum» de Zito Azevedo “ (…) “na segunda metade do séc. XIX, Mindelo torna-se um pólo de atracção para camponeses sem terra, que fogem da fome e da miséria, para famílias de importantes proprietários agrícolas ou comerciantes que aqui encontram melhores oportunidades de negócio e também para aqueles que, por serem mais escolarizados, podem encontrar bons empregos na Administração e Serviços. Vêm principalmente das ilhas de Santo Antão e São Nicolau, mas ao longo dos tempos é todo o arquipélago que aqui se cruza. No dizer de Onésimo Silveira, S. Vicente é a única ilha povoada por cabo-verdianos.” In: «Arrozcatum» blogspot.com Zito Azevedo, “A Formação da Sociedade Mindelense “
Esta asserção a negritos da tese de Onésimo Silveira – e é aí que a transcrição tem sentido para este escrito – relativamente ao povoamento inicial da ilha de S. Vicente, com algumas tentativas conhecidas a partir do século XVIII, vem ao encontro da tese da identidade já completamente formada, cujos sujeitos povoadores, vindos de outras ilhas, maioritariamente, de Santo Antão e de S. Nicolau aportaram a S. Vicente – a última a ser povoada – O que só exalta o papel do mestiço, isto é, do filho das ilhas que pôde inclusivamente, povoar uma das ilhas do arquipélago cabo-verdiano.

4 - Outra observação que me surge a propósito. Como é possível que estudos feitos no passado sobre esta mesma matéria, por cabo-verdianos de então, sejam mais credíveis? Forneçam-nos instrumentos mais bem fundamentados do que os (alguns) feitos por cabo-verdianos hodiernos?
Lembremo-nos para exemplo, da célebre «Mesa – redonda sobre o Homem cabo-verdiano» em 1956. E outros e outros…
Será porque os de antanho não tinham reserva mental sobre o tema? Não estavam marcados “ideologicamente”? São interrogações que devem ser feitas…

Dito isto, e para finalizar este escrito que se pretendeu breve, não quero contudo significar que sobre ela – a nossa identidade – não se façam reflexões, análises e estudos sérios. Bem pelo contrário, o que se pede e o que se deseja é que essa reflexão identitária, não seja ideologicamente e politicamente marcada, como já aqui mencionada. Que ela seja cientifica e filosoficamente vazada em textos com a independência intelectiva, que é exigida para este tipo de estudo.