Carta semi-aberta a Dilma Rousseff, PR do Brasil

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015


 Excelência:
Respeitosos cumprimentos.
Esta tem a finalidade de trazer à consideração de V. Exa. um assunto que embora  recorrente, muito falado, comentado, criticado com uma frequência que talvez já possa ser considerado saturante, mas que, e infelizmente, pela sua persistência, continua a indignar aqueles que minimamente prezam a Língua portuguesa!
De tal modo recorrente, que já entrou no anedotário lusófono. Pode crer que é a custo, que me debruço sobre ele de novo, temendo  cansar o leitor.
Aconteceu que aqui há dias, vendo o noticiário de um dos canais televisivos de Língua portuguesa e em horário considerado “nobre,” escutei (para meu desagrado auditivo) um dos seus mais proeminentes ministros, referindo-se a si e intitulando-a de: “Presidenta” Convenhamos! Já é de mais! Os nossos ouvidos reclamam e com razão!
Pois bem, trata-se da aberração gramatical do seu título – felizmente provisório, acidental e passageiro - com que Vossa excelência resolveu, decidiu e decretou “brindar” os nossos ouvidos: “PRESIDENTA” (?). Onde já se viu? Com que direito?
Sim! Com que direito? Não sendo a senhora Presidente, autoridade em Língua portuguesa, como ousa e se arroga o direito de deformar as regras gramaticais da nossa bela Língua comum?
O que está a acontecer, configura uma quase falta de respeito ao quadro linguístico da CPLP de que o seu grande país justamente, é parte.
Ah! O saudoso e grande gramático e filólogo Celso Cunha! As voltas que deve dar, de cada vez que ouve “Presidenta” no seu país! Ele que, com outro grande Linguista português Professor Lindley Cintra, tanto fizeram (ambos) em prol e a bem da língua comum!
Posto isto, e desta forma, dúvidas sérias me ocorrem que a Língua portuguesa seja ou, tenha sido  língua materna de V. Exa. (?)!...
E mais, aconselho-a viva e rapidamente que se muna de um colaborador, conselheiro linguístico…não vá V. Exa. lembrar-se de outra “gracinha” do género desta: “presidenta”! A continuar, um dia desses teremos aí um manual gramatical "galhofeiro" da autoria do mandato de V. Exa.
Já agora uma questão, melindrosa e indiscreta: terá V. Exa. estudado as regras por que se rege a nossa Língua? Saberá senhora Presidente que os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em e (regra geral) não são do género masculino? Já ouviu falar de palavras que se classificam morfologicamente de comum de dois? Isto é, usam-se de igual modo tanto para o masculino como para o feminino?
 Que apenas (excepções) isto é, um reduzido número palavras terminadas em e pertence ao género masculino?
Para assim se auto-denominar… o mais provável, ilustre senhora, é que desconheça ou ignore (mas nunca será tarde para se aprender...) que a maior parte dos substantivos e  dos adjectivos, terminados em “e” na língua portuguesa, nem sequer é do género masculino. Ou é do género feminino, ou é comum de dois (que é um subgénero gramatical). Isto é, são termos que pertencem e podem ser usados, conforme o contexto, ora no género masculino, ora no género feminino. Logo, a nossa gramática não é tão monocromática como querem fazê-la parecer. Não, ela possui uma paleta de variantes e de cambiantes de géneros e de subgéneros nas famílias das palavras, organizadas com lógica e que permitem que o falante, mantendo-se dentro das normas, se expresse de uma forma rica e clara!
Fiz ao acaso, um brevíssimo apanhado de algumas das mais bonitas, e também das mais temíveis palavras terminadas em “e” da língua portuguesa, que julgo ser ilustrativo daquilo que venho afirmando.
Ei-las:
A Amizade, a Saúde, a Fonte, a Árvore, a Ave, a Felicidade, a Honestidade, a Dignidade, a Hombridade, a Bondade, a Caridade, a Fidelidade, a Lealdade, a Majestade, a Efeméride, a Nave, a Chave, a Sensualidade e a Sexualidade. Assim também: a Falsidade, a Hostilidade, a Calamidade, a Malignidade, a Catástrofe, entre outras, e mais outras, de uma inesgotável listagem.
Imaginemos agora que a senhora Presidente e os seus altos dignitários desatem por aí a terminá-los em a? Havia de ser um caos gramatical! Não concorda? Creio que sim.
O interessante é que são mais raros, os registos gramaticais de palavras terminadas em “e” pertencentes ao género masculino. Uma mini listagem: Infante, Enxofre, Enxame e Cardume, são algumas delas.
Mas o mais significativo, em termos de quantidade e de regra gramatical da língua portuguesa, são os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em “e” e que se usam tanto no feminino, como no masculino, o tal subgénero chamado, comum de dois.
Assim temos: o, a Presidente; o, a, Inteligente; o, a Ignorante; o, a Estudante; o, a Intérprete; o, a Emigrante; o, a Imigrante; o, a Cônjuge; o, a Herege, o, a Vidente, o, a Regente; o, a Paciente; o, a Pretendente, o, a Cliente, o, a Adolescente; o, a Elegante; o, a Prudente; o, a, Representante; o, a Ardente; o, a Chefe, entre vários outros exemplos que os limites deste texto não comportam.
Como vê ilustre Presidente, a nossa gramática permite ao semantema que denomina a vossa actual função (Presidente da República)) uma ambivalência em termos de género que o torna mais prestimoso e rico no seu uso e no seu significado.
Para terminar esta matéria já muito estafada quer na imprensa escrita, quer na redes sociais, rogo encarecidamente a V. Exa. que não desautorize os bons professores brasileiros da Língua portuguesa, (ao usar presidenta) os quais, nas aulas, se esforçam por bem ensinar a nossa língua comum.
Elevada consideração.
Subscrevo-me




RECONCILIAÇÃO, SIM! INDULTO OU AMNISTIA, NÃO!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nota ao leitor: o texto que se segue da autoria de A. Ferreira foi escrita já há alguns anos e publicado no jornal «Expresso das Ilhas». Na altura, o governo havia levado ao parlamento uma proposta de lei, visando “amnistiar” “indultar” e “reinserir” as vítimas do processo tumultuoso de 1974/75.
A abordagem pareceu ao autor ofensiva à dignidade dos visados por lhes conferir estatuto de criminosos ao “amnistiar” ou “indultar.”
Tudo indica que se repescou o assunto, agora com outra roupagem. A seguir a transcrição do texto:

RECONCILIAÇÃO, SIM!
INDULTO OU AMNISTIA, NÃO!
A. Ferreira
Não tenho o hábito de escutar as sessões parlamentares radio-transmitidas. Mas aconteceu que ao sair de casa e ao tentar sintonizar o rádio do carro fazendo “scan” ter-me deparado com a transmissão de um debate na Assembleia Nacional. Como as distâncias são muito curtas, só tive tempo de reter que o assunto se prendia com a reconciliação. Fora do contexto, interroguei-me sobre quem seriam os desavindos? Pensei cá comigo: Felizmente, nunca tivemos guerra; a crispação social é moderada e tolerável; vivemos uma certa tranquilidade. Então ocorreu-me, embora me parecesse pouco provável, que a questão estivesse relacionada com a malfadada reforma agrária de triste memória. Alguém me esclareceu que a Reforma Agrária não era tida nem achada e que o assunto dizia respeito aos desmandos do histórico e histérico tempo da Independência Nacional; que discutiam um documento do Governo.

De qualquer forma, pensei, é um assunto simpático – Reconciliação. Muito embora me parecesse que o momento poderia configurar oportunismo político - vésperas das eleições legislativas - este seria facilmente esquecido ou relegado para um plano secundário face a dimensão do gesto. É que a reconciliação é um acto eminentemente cristão. Humano e humanizante. Arrasta consigo a ideia de paz, de harmonia. Como princípio, é sempre bem-vinda qualquer que seja o assunto. Daí a minha ansiedade em conhecer o documento que gerara o que depreendi ter sido aceso debate parlamentar no par de minutos que o escutei.

O acesso ao documento, que outro não era que uma proposta de lei do Governo, fez gorar todas minhas expectativas. Comecei por me surpreender por, em vez de um preâmbulo fundamentando as razões da oportunidade e da necessidade de uma Reconciliação, o Governo tenha preferido a comodidade daquilo a que chamou “Exposição de motivos”, que é um conjunto de “flashes”, mais precisamente 13, fazendo jus ao agoirento cabalístico, que quando muito poderiam constituir alguns tópicos ou pistas para a elaboração de uma argumentação politico-filosófica consistente. Pude verificar que o Governo afinal não tinha pernas para um passo tão grande. A terminologia utilizada faz crer que lhe faltava coragem porque estava, ou ainda está, refém de uma herança histórica do partido que o suporta e que era preciso descomplexar-se exorcizando os fantasmas que o atormentam. É assim que, p.e., no ponto 2 dessa “Exposição de motivos”, escreve: Em 1974/75, alguns cidadãos, e de entre eles, funcionários públicos, foram internados no Campo de Chão, e depois expatriados para Portugal, com o fundamento de que constituíam perigo para o processo de descolonização.” (O sublinhado é meu).

Facilmente se verifica que o Governo não procurava a reconciliação, porque a um assunto de tanta delicadeza, complexidade e abrangência política, que buliu com uma condição humana, que transtornou e alterou percursos de vida de famílias inteiras havendo gente que ainda hoje se interroga porque é que foi presa, não se dá tratamento tão ligeiro e leviano. Chamar internamento ao encarceramento de um punhado de compatriotas, durante meses, sem culpa formada, e rebaptizar o Campo de Concentração do Tarrafal como Campo de (internamento) de Chão não é retórica  ou figura de estilo, mas sim uma total desconsideração e desrespeito pela nossa História  e por todos aqueles, sem excepção, que por lá passaram e sofreram na alma e no corpo os efeitos da prepotência, da intolerância e da perseguição.. É uma tentativa pouco séria e pouco elegante de reescrever a História.

Mas o Governo não foi também nobre nem suficientemente elevado, quando no mesmo item nos diz: “Outros foram saneados da Função Pública, sendo os respectivos processos instruídos por duas comissões, sendo uma sediada na Praia e outra no Mindelo, sem o exercício de contraditório, e hoje, dir-se-á, com violação flagrante dos direitos humanos.”
Até parece que em todo o processo a “violação flagrante dos direitos humanos” só se deu com as duas comissões… Endossar as culpas a duas comissões é grave e perverso!!! Puerilmente perverso! Desde quando as comissões decidiram? Quem nomeia as comissões? Quem dá orientações e, às vezes, ordens às comissões? Quem as demite quando não servem? É tempo de começarmos a respeitar os decisores políticos. Não fazer deles inimputáveis, vítimas de consultores, assessores e juristas. Estes também são responsáveis, mas apenas perante o decisor político, pelo cumprimento dos termos de referência e dos parâmetros que lhes foram estabelecidos. Um parecer, uma proposta, é um documento interno. Não vincula o autor publicamente… Pode, inclusive, ser rejeitado liminarmente. É apenas um auxiliar de decisão. É dos compêndios!

Ao tentar escamotear a realidade, com a palavra escrita, o Governo fez um mau registo histórico e, por via disto, prestou um péssimo serviço à História.
O Governo não pode pensar que no processo é apenas mediador, como pretende. É parte. Como o foi nas condecorações. Não pode por isso haver reconciliação se ele insiste em condecorar, e tratar como heróis, os responsáveis directos pelos acontecimentos de 1974/75, que diz condenar, e fazer das suas vítimas criminosos que ora pretende artificiosa e sub-repticiamente “indultar ou amnistiar”.

Fazer a reconciliação apenas reparando materialmente os prejuízos causados é negar a sua essência. A vítima não está a procura de dádivas ou esmolas do Governo em troca da sua honra ferida. Ela quer justiça! A reparação implica também a restituição da dignidade ultrajada. E isto só se consegue com humildade e nunca com arrogância e sobranceria como a manifestada no título do artigo 3º da proposta de lei: “Reabilitação e reinserção na comunidade política”. Talvez, por descuido, não se tenha feito a análise sociológica dos vocábulos “reabilitação” e “reinserção”. Não é abonatória para vítimas… possivelmente se aplica bem a criminosos, a marginais!

Ainda no mesmo artigo – o 3º – há um exercício do absurdo que é o de nivelar as monstruosidades, os desmandos e as tropelias de 1974/75 com as acções praticadas, “na instalação e consolidação da democracia pluralista”, isto é, de acordo com as próprias palavras do Governo, no exercício da democracia. Não é apenas o que popularmente se diz juntar alhos com bugalhos mas sobretudo procurar a quadratura do círculo.

Mas para haver reconciliação, insisto, tem que haver um pedido formal de desculpa. O arrependimento. O mea culpa! O Governo que em nome do Estado faz condecorações para acontecimentos de há trinta anos, em nome desse mesmo Estado tem legitimidade e o dever de pedir formalmente desculpas por excessos cometidos nessa mesma altura. É uma questão de coerência. E o PAICV que se diz herdeiro dos activos do PAIGC deve igualmente assumir a herança dos seus passivos. Noblesse oblige!

Como disse no início deste texto, aplaudo a iniciativa de uma Reconciliação de facto, mas nunca como capa de um pseudo indulto ou amnistia.

In “Expresso das Ilhas” de 09/11/05



VERGONHOSA E INACREDITÁVEL DEBANDADA

domingo, 18 de janeiro de 2015

 Adriano Miranda Lima

Proponho-me falar do que aconteceu à força militar que rendeu, em Maio de 1974, em Mecula, Niassa Oriental/Moçambique, a companhia que eu comandei no local e região durante 2 anos.
O depoimento que se segue não é determinado por qualquer motivação política ou ideológica. Apenas busca uma certa perspectiva da História para lograr a explicação e o entendimento para alguns factos da vida colectiva portuguesa.
Toda a nossa geração e a dos nossos pais nasceram e/ou viveram sob o regime do Estado Novo, sem vislumbrar outro horizonte político senão aquele que Salazar nos binoculava na solidão do seu gabinete em S. Bento. A trindade Deus, Pátria e Família regulava o nosso quotidiano e balizava o nosso destino. Os princípios que o regime nos instilava desde berço procuravam convencer-nos de  que Portugal era “uno” e não se limitava ao território continental europeu. Tudo, na aparência, assemelhava-se a um sonho lindo e legítimo, orgulho da Nação.
Contudo, veja-se que não foi o regime de Salazar o construtor dessa visão e o mentor da sua perpetuação. Essa ideia é de séculos e remonta à época quinhentista, em que o Portugal pequenino entrou para a história universal, descobrindo terras pelo mundo fora e revolucionando a visão que a Europa tinha então do espaço universal. Construiu  um império com domínios territoriais em África, na América do Sul, na Ásia e na Oceânia. Houve alturas em que deu cartas ao mundo, dominando o comércio marítimo internacional até ser destronado por potências de maior envergadura geográfica e demográfica. Mas cometeu erros graves e de consequências irreversíveis, como a  perseguição e a expulsão da comunidade judaico-portuguesa nos reinados de D. Manuel I e D. João III, e mesmo mais tarde, depois da restauração da independência. Ora, os judeus eram os controladores do comércio nacional e da banca de então, com ramificação de interesses em toda a Europa. Além disso, os judeus detinham grande parte do conhecimento científico no domínio da arte de navegação e da cartografia. Foram durante o auge da nossa História uma massa crítica importantíssima. Expulsámo-los e foram colocar os seus serviços a favor de potências que eram  nossas adversárias ou concorrentes no comércio mundial, como a Inglaterra e os Países Baixos. E é a partir daí que começa a decair a grandeza a que Portugal se alcandorara.
Todo este intróito serve apenas para dizer que quando integrámos as primeiras forças expedicionárias à África, íamos convencidos de defender legitimamente parcelas do território nacional. E por elas dar a vida se necessário, como é lema da condição militar. No entanto, a seguir a II Guerra Mundial, as potências europeias colonizadoras haviam iniciado um processo de descolonização, coisa que não passava então pela cabeça de Salazar e do seu Regime. Em fins da década de 1950, começaram a surgir os movimentos de libertação das nossas colónias, encabeçados por nacionalistas, convictos dos seus ideais, uns, ou simples instrumentos de interesses estrangeiros, outros. A partir da década de 1960, intensificou-se a pressão internacional contra Portugal, que, no entanto, não desistia da sua visão unilateral sobre o problema das colónias, jamais aceitando qualquer negociação com os movimentos de libertação.
Os militares dos quadros permanentes e os militares de conscrição (milicianos e praças) que integraram as primeiras unidades mobilizadas para Angola embarcaram nos navios  Vera Cruz e  Niassa imbuídos de um espírito de missão alicerçado no sentimento de patriotismo, até porque a princípio a crença radicada nos espíritos mais lúcidos e esperançosos era a de que a missão das forças militares seria aguentar a posse das colónias, mantendo a ordem e a segurança das populações, enquanto o Governo gizaria uma solução política para o conflito. Isto porque era e é dos livros que as guerras subversivas não têm solução militar, como a História o demonstra à saciedade.
Combati em Angola, como alferes, entre 1965 e 1967, e posso garantir que de um modo geral os militares aceitavam o sacrifício que lhes era imposto.
Mas, a partir de 1970, o panorama começou a modificar-se sob vários ângulos. Os quadros permanentes começaram a dar sinais nítidos de exaustão física e psicológica, desesperando-se por uma solução política, à medida que o tempo passava e o Regime mantinha o mesmo discurso de renitência, cavando cada vez mais fundo o seu isolamento internacional. A oposição política ao Regime fazia o que podia, sobretudo no exílio estrangeiro, erguendo a voz cada vez mais altissonante contra o sufoco  das liberdades  e contra uma guerra colonial sem sentido e contrária aos ventos da História. Nas unidades militares da Metrópole, comecei a notar, sobretudo a partir de 1970, que alguns oficiais milicianos recém-incorporados não se coibiam de emitir, em conversas privadas, a sua opinião contra a guerra colonial. Devo confessar que eu próprio, embora já oficial do quadro permanente, compartilhei uma ou outra vez de alguns desabafos e opiniões, tendo criado  cumplicidade, e até amizade, com um colega miliciano, cujas qualidades humanas e atributos intelectuais muito eu apreciava. Ou seja, o estado moral entre as tropas já não era o de outrora. Desde há alguns anos, começara a diminuir consideravelmente a entrada de cidadãos para a carreira das armas, quer para oficiais quer para sargentos. A partir de 1970, em virtude da falta de capitães do quadro permanente para comandar as companhias operacionais (alguns já iam na segunda ou terceira comissão), iniciou-se um processo de formação de capitães milicianos para o comando das companhias. Entre os cadetes  dos cursos de oficiais milicianos, seleccionavam-se os mais aptos e bem classificados e, após uma instrução de especialidade mais apurada, iam fazer um estágio de 6 meses numa companhia operacional em qualquer das colónias em conflito. Regressados à Metrópole, frequentavam um curso para capitão miliciano, após o que eram mobilizados a comandar uma companhia, graduados no posto de capitão.
No nosso Batalhão, em Moçambique, um dos comandantes de companhia era oficial miliciano dessa formação, tendo eu, por coincidência, sido seu instrutor no primeiro ciclo da sua formação. Refira-se que, embora a sua visível inexperiência, procuraram fazer o seu melhor.  Julgo que não será impertinente considerar que, mau grado a boa vontade e dedicação manifestadas em muitos casos,  os capitães milicianos graduados (de proveta, como então se dizia, por graça) jamais poderiam deter o mesmo capital de experiência e de formação que normalmente reúne um profissional. Nem tal seria de esperar, conquanto justo é reconhecer que muitos desses capitães souberam dignificar o seu posto e a sua missão. Todavia, não fosse esse recurso a que se lançou mão nos últimos 3 anos da Guerra, o Exército ou claudicaria notoriamente ou entrava num processo de  acelerada degradação por manifesta carência de quadros  para o preenchimento da função de comandante de companhia. Vale dizer que esse recurso pode ter servido para adiar a revolta militar de 25 de Abril, já que esta foi, numa primeira fase, a expressão de um descontentamento corporativo, por esgotamento físico e psicológico dos quadros permanentes, agravado por total perda de confiança no poder político. Este parecia apostar numa derrota militar, para poder atribuir culpas do insucesso político às suas Forças Armadas.
Quando integrámos e formámos em Évora as unidades do nosso Batalhão, em 1971, o cenário era mais ou menos o que acabei de caracterizar. Predominava um caldo de cultura político-social  em que já boiavam indisfarçáveis os germes da dissolução de um Regime que fora avesso a  acertar o passo com a História do Mundo. Um Regime desacreditado internacionalmente, incapaz de  fazer uma autognose e de ler os sinais do tempo. E que, sobretudo, parecia relutante em reconhecer o extremo limite de depauperação a que tinham chegado as suas Forças Armadas.

No entanto, apesar do cenário atrás esboçado, lá embarcámos para o Niassa Oriental/Moçambique, convencidos de que a nós, militares, não compete tecer juízos e conjecturas sobre  razões de Estado que são prerrogativa de quem governa, de quem detém o poder político. Ontem como hoje, é este o sentimento de que são imbuídas as Forças Armadas de um qualquer  país democrático. Todavia, o regime não era democrático, dirão alguns. É certo, mas a mentalidade institucional das Forças Armadas estriba-se em princípios éticos que lhes são sagrados e não podem admitir outra postura, a menos que se chegue a um ponto extremo de degradação e corrosão político-social  em que elas não terão outro recurso senão intervir para salvar a dignidade da Nação. E foi isso mesmo que esteve na origem da revolta militar de 25 de Abril, que evoluiu acto-contínuo para uma revolução no sentido literal, como todos sabemos.

Deixámos o Niassa em Maio de 1974, sendo a minha companhia rendida por outra que tinha participado em Lisboa em patrulhamentos de rua que se seguiram ao golpe militar do 25 de Abril. Essa e outras companhias destinadas a render unidades no Ultramar tomaram parte nesse tipo de missões em Lisboa, mas ficaram irremediavelmente marcadas pelos germes da revolução, tanto no bom como no mau sentido. Do mau apercebi-me logo quando a recebi onde estava, no mato profundo. Os soldados e alguns quadros inferiores apresentaram-se com pouco aprumo militar e denotando um comportamento a descambar para a indisciplina, não tardando a reparar que o comandante da companhia e os subalternos estavam aparentemente fragilizados. Na véspera de deixarmos o local, um soldado, minha ordenança, disse-me: “Sabe, meu capitão, os gajos desta companhia andam a dizer que quando saírem os “velhinhos” vão mostrar ao seu capitão e oficiais como é que vão ser as regras”. Fiquei estupefacto e não me surpreendeu, um ano depois, tomar conhecimento de um inacreditável episódio ocorrido com essa companhia, que passo a narrar.
Um certo dia, e quando as negociações para a descolonização estavam ainda em curso, uma força da FRELIMO aproximou-se dos arredores do quartel dessa companhia, com intenções não muito claras mas em que talvez não houvesse qualquer propósito bélico. Os furriéis e os soldados, na sua maioria já “revolucionários”, temeram o pior e resolveram o inconcebível. Prenderam o seu capitão e os oficiais subalternos e, precipitadamente, embarcaram em todas as viaturas disponíveis, fugindo desordeiramente em direcção à localidade mais próxima, uma povoação chamada Marrupa, onde havia um comando de Batalhão. A população local, temendo o pior, optou também pela debandada, ela que antes depositara toda a confiança na força militar antiga e suas antecessoras, com as quais, aliás, conviveram sempre em  harmonia e sem incidentes. Os que puderam enfiaram-se no espaço sobrante das viaturas militares, outros fugiram mesmo a pé, nomeadamente os guardas cipaios (guardas administrativos), que mais do que ninguém teriam razões para recear represálias da FRELIMO, visto que não só serviram o administrador civil  local como foram os guias no terreno da maior parte das operações militares. O administrador ficou no seu posto, aguardando o desfecho dos acontecimentos. Muitos anos mais tarde, viria a encontrá-lo em Lisboa e contou-me mais pormenores do acontecimento, que agora não vêm a propósito. Disse-me que não foi molestado pelos homens da FRELIMO e que estes confessaram a sua perplexidade pela debandada dos militares  e de grande parte da população. Ao ouvir tudo isto, fui invadido de uma enorme tristeza ao lembrar-me daqueles guardas cipaios que nos guiavam pelo mato dentro nas operações militares, numa relação de mútua confiança e lealdade. Como foi possível abandoná-los? Em Moçambique como na Guiné ou Angola? Então pronunciei intimamente esta sentença: um povo que se respeita e se orgulha da sua História jamais poderia cometer semelhante ingratidão e cobardia. Uma vergonha!

Isto que acabo de contar é, de facto, um minúsculo exemplo das razões que levaram o insuspeito historiador António José Saraiva (1917-1993)  a escrever estas palavras no artigo que publicou no Diário de Notícias em 1979, intitulado “O 25 de Abril e a História”:

 “Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril. Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa. Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas:

Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar;

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.”

O que é dito por António José Saraiva, ou apenas insinuado, faz-me lembrar as seguintes palavras do general Franco quando lhe deram a notícia do golpe militar ocorrido em Portugal: “Ah, não vai acontecer nada de importante porque eles são cobardes”. Ou foram estas as palavras do Caudilho ou foram outras similares, mas a acusação de cobardia era bem explícita e intencional.
Ora, se tem algum cabimento a afirmação, caberia a alguém mais capacitado passar em revista este libelo de cobarde e encontrar-lhe possíveis causas psicológicas, sociológicas ou antropológicas, ao passo que o desabafo de Franco poderemos também ter de o pôr na conta de um qualquer insanável recalcamento que a história do conflito entre os dois povos peninsulares explica sem margem para dúvidas. Penso que qualquer historiador isento poderá fazer toda a sorte de extrapolações, mas certamente que o apodo de cobarde em lugar nenhum encontrará razões para se colar ao povo português.
Dito isto, e uma vez que, para António José  Saraiva, o 25 de Abril terá feito eclodir as nossas fraquezas, inclusivamente a da cobardia, parece assim implícito que a “longa noite fascista” teve ao menos o mérito de uma domesticação psicológica, a ponto de obnubilar debilidades congénitas porventura ignoradas ou simplesmente adormecidas. Retrocedendo aos tempos do ante-Liberalismo, séculos e séculos sucessivos,  e por análogo raciocínio, será lícito perguntar se não foi a ausência das liberdades políticas  que permitiu páginas da história portuguesa em que tudo se pode encontrar menos cobardia, pusilanimidade ou conformismo com o destino.
Bem, pode ser prematura a extrapolação, mas é bem possível que tenhamos uma certa dificuldade genética em lidar com a democracia e as liberdades cívicas, pois que é a partir do Liberalismo que os nossos problemas parecem começar a agudizar-se, pela simples razão de, no confronto livre e aberto de ideias, raramente alcançarmos a percepção de que para lá das divergências ideológicas prevalece inapelavelmente o interesse nacional. Salazar percebeu isso e se não colocou o país entre os mais prósperos da Europa teve ao menos o mérito de reorganizar uma casa que a I República deixara em fanicos. Nenhum historiador pode negá-lo.

Pois, cabe perguntar  por que razão os mesmos militares, filhos do mesmo povo que, estoicamente, aguentou durante 13 anos uma guerra em 3 teatros de operações, viriam a ter comportamentos tão indignos de si próprios como da sua História?  Culpa dos militares e do povo?  E podemos rotular de cobardes muitos comportamentos indignos que macularam a honra de alguns sectores das Forças Armadas naqueles acontecimentos que já se perdem na memória dos 35 anos já decorridos?
É muito complicado psicanalisar certos comportamentos gerados pela confusão e complexidade dos fenómenos sociais, mas não evito denunciar esta tríade de razões: imaturidade cívica; ausência de um vincado sentimento nacionalista; inaptidão genética para viver responsavelmente em democracia. Porém, o que posso assegurar é que em duas comissões em África, uma em Angola e outra em Moçambique, nenhum soldado meu evidenciou alguma vez atitudes ou comportamentos sintomáticos de cobardia. Medo da morte todos o temos, em maior ou menor grau, pois faz parte do instinto de sobrevivência. Mas o soldado português, dum modo geral, segue atrás do seu superior se ele for o primeiro a dar o exemplo perante o perigo. Era eu um jovem alferes, e ouvi a um coronel velhote (de outros tempos) dizer que o soldado português não morre pela pátria, mas sim pelo seu superior. Penso que esta afirmação diz tudo sobre certa idiossincrasia nacional.

Ora, o que aconteceu em Mecula, região onde soubemos honrar a nossa condição militar, é que essa companhia que nos rendeu já não tinha qualquer exemplo a seguir. Nem provavelmente entre os seus quadros, nem, sobretudo, na estrutura hierárquica das forças armadas. Tudo ruiu estrondosa e repentinamente. Não sei ao certo, mas presumo que ninguém dessa companhia foi julgado por cobardia, traição e deserção, e que tudo ficou em águas de bacalhau. Pois claro, a partir de certa altura, quem ainda tinha moral para julgar as fraquezas de outrem? Os casos de vergonha nacional foram então muitos, e o do Timor foi um dos que mais nos fizeram corar.

Em 25 de Abril, o Partido Comunista português, conforme disse e bem o António José Saraiva, achou que devia hipotecar os interesses do seu país às estratégias expansionistas da União Soviética. Com isso, influenciaram e conspurcaram a mente de alguns militares e a mancha depressa se propagou contaminando as Forças Armadas, até que um rebate de consciência institucional e nacional permitiu trazer de novo a ordem para onde se instalara a confusão e o desnorte (25 de Novembro). 
Hoje, passados 35 anos desde a restauração das liberdades, compete-nos reflectir, discutir, escrever. É o que fez o António José Saraiva nesse seu artigo. Disse ele ainda: “as nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente”.
Penso que, se analisarmos a história do século XX, o seu último quartel poderia porventura oferecer-nos razões para algum optimismo e esperança, pelo simples exercício de comparação e sopeso de factos e acontecimentos vistos na sua relação causal e sequencial. A I República soçobrou e justificou um longo regime autoritário, adiando as esperanças de uma democracia liberal como as outras europeias. O 25 de Abril abriu uma porta e por ela lobrigámos caminhos que vêm sendo trilhados com erros de percurso, sim, mas seguramente com alguns sucessos. Trinta e cinco anos de vida democrática é já um tempo de continuidade que nos dá um certo conforto e confiança, ainda que não possamos deixar de o pôr na conta da salvaguarda que é a integração europeia. Golpes militares e aventuras antidemocráticas ficaram assim mais afastados do nosso horizonte doméstico.
No entanto, reconheço que permanecem ainda alguns sintomas da nossa histórica dificuldade em lidar com a democracia, sendo prova disso o uso desmedido e irresponsável que alguns continuam a fazer das liberdades, assim como a radicalização das querelas e conflitos partidários. Mas estou seguro de que estes 35 anos que passaram são irreversíveis na sua marcha. Com as dificuldades normais de percurso, com as crises e as conjunturas adversas, vamos por certo aprender continuamente, amadurecer a nossa consciência colectiva, corrigir os erros, tornar cada vez mais sólidos os ganhos e as conquistas, rumo ao futuro. E, sobretudo, é tempo de parar de lastimar e lamber feridas constantemente.



Tomar, Abril de 2009

Adriano Miranda Lima





O nosso 13 de Janeiro...Sempre!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Pois é, o 13 de Janeiro! Decorria o ano de 1991. Que Domingo de fortes emoções! Já lá vão 24 anos.
É que se tratava das primeiras eleições realizadas em Cabo Verde em que cada cidadão votou com alternativas para escolher, em liberdade.

Nunca o “ou/ou” havia soado para o cabo-verdiano democrata com tanta profundidade! Ter opção, poder escolher ou o Partido A ou o Partido B.

No caso a escolha foi entre o MPD (Movimento Para a Democracia)  e o PAICV (Partido Africano Independência de Cabo Verde) e isso já fazia uma diferença imensurável! Não interessa o resultado. A grande vencedora, sem qualquer dúvida, foi a nação cabo-verdiana, a democracia.

Se é certo que as alegrias compensadoras, para aqueles que nunca aceitaram o império de Partido único, vinham conhecendo um crescendo desde a famosa abertura política no país, legalmente instituída em Fevereiro de 1990, com a queda, a abolição, do famigerado Artigo 4º da primeira Constituição cabo-verdiana de 1980, que proibia a existência de qualquer formação política que não fosse o PAIGC; também não é menos certo, que se atingiu o rubro dessa imensa alegria, a 13 de Janeiro de 1991 do século vinte, cerca de dezasseis anos depois da independência deste Arquipélago, pois foi naquela data que o cidadão cabo-verdiano, pôde provar o “gosto” e o direito que sempre lhe negaram de ser ele próprio a escolher os seus legítimos representantes.

Por esta razão, o 13 de Janeiro é, e será sempre um marco, uma divisória, entre um antes (confinado à ditadura de Partido único, sem a garantia das liberdades fundamentais, individuais) e um depois (em que foram estabelecidas por via do voto cidadão e da Lei fundamental, todas essas garantias).

Para a geração actual, tudo isto pode parecer como dado adquirido. Sem custos, ou de forma natural.

Mas para nós, os mais velhos, que sofríamos com isso e que sempre prezámos a democracia, sem qualquer adjectivação, o 13 de Janeiro de 1991, representou um ganho imensurável! Reitero.

Para finalizar o meu louvor ao 13 de Janeiro, não resisto a relembrar os conhecidos versos de Fernando Pessoa do seu fabuloso livro: «Mensagem».

“(…)Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor!
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu!”

Viva o 13 de Janeiro!

Do Dr. Adriano Lima recebi um comentário oportuno, pertinente e bastante conceptual sobre o assunto. Por ter gostado muito e por o seu conteúdo, na linha de outros comentários seus, ter enriquecido o texto que o motivou, publico-o desta forma para o tornar visível ao leitor.

Blogger Adriano Lima disse...
Dr.ª Ondina Ferreira, todo o cabo-verdiano minimamente esclarecido e de boa consciência tem de se juntar a si para acrescentar força a esta vibrante proclamação: “Viva o 13 de Janeiro!”. E também de lhe agradecer a lembrança da efeméride.
Para já, como não vivi nem assisti ao nascimento do Cabo Verde independente, o qual, por sinal, só revisitaria em 2002, talvez nem sequer tenha o direito de falar sobre o que deve ter sido a vida dos meus conterrâneos privados das liberdades cívicas com que sonharam sob os auspícios do 25 de Abril.
É com certa perplexidade, se não com estranheza, mesmo a esta distância dos acontecimentos, que se relembra esse Artigo 4º da Constituição, “que proibia a existência de qualquer formação que não fosse o PAIGC”. Alguns, invocando uma visão pragmática da realidade, costumam justificar aquela medida com o facto de o nosso povo não estar então preparado para a democracia e com a alegação de que a criação das estruturas do novo Estado só teria condições de efectiva realização em clima social de unicidade política. Mas creio que o que se seguiu 16 anos depois foi a melhor resposta à dúvida cautelar sobre a maturidade cívica cabo-verdiana. Outra questão diferente será o saber se o Estado não se constituiria do mesmo modo na vigência dum sistema demo-liberal. Sendo justo reconhecer que o Partido agiu bem nesse capítulo, será, no entanto, interessante especular sobre o que teria acontecido num ambiente político plural.
Seja como for, toda a justificação então alegada pelo PAIGC fica fragilizada, se não envergonhada, se tivermos em conta que a abertura política foi uma imposição da comunidade internacional e não uma decisão voluntária do Partido. Não fosse a queda do Muro de Berlim, é natural que as coisas continuassem na mesma, adiando-se para as calendas gregas a livre e espontânea abertura política interna. A resposta deu-a e continua a dá-la o povo cabo-verdiano, que, muito justamente, é apontado como um exemplo em África.
Mas, enfim, a História daquele período fez-se como se fez e agora só resta tirar ilações. Fica-nos é uma dúvida. Como teria sido a vida do país se não se tivesse matado à nascença a expressão pluripartidária que ousou manifestar-se nos meses que se seguiram ao 25 de Abril?
Agora, é importante assinalar que toda a gente aprendeu alguma coisa e que o próprio PAICV soube transitar sem sobressaltos da autocracia para a democracia. 
Posto isto, com muito gosto, aqui vai: Viva o 13 de Janeiro!

14 de janeiro de 2015

O meu “post” para o Fogo…

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Pois é, passadas quase duas décadas, a última erupção foi em 1995, o “monstro sagrado” da ilha do Fogo despertou de novo. Isto é, “…nho Vulcão trazê sê spanto!” (...o senhor vulcão trouxe-nos o seu espanto) Como cantaram os versos da morna do falecido Enfermeiro Barreto, feita para a memória da grande erupção vulcânica de 1951.
Os foguenses já respiram mais aliviados, embora a situação dos desalojados ainda “corte o coração” pelas perdas materiais sofridas e pela mudança brusca de uma vida organizada numa pequena região, das mais férteis da ilha.
Infelizmente, houve danos materiais elevados – tudo é relativo – mas para muitas pessoas da Chã da Caldeiras o desastre soou como um quase “absoluto,” uma vez que perderam tudo o que ergueram para uma vida. E de entre as gentes daquela ilha, era das mais abonadas em termos da agricultura e da pastorícia uma vez que dadas as condições do solo, a natureza é aí mais pródiga do que noutras regiões da ilha. Os moradores cultivam duas vezes por ano, o que é quase milagre nestas ilhas secas. Têm gado e pasto garantido o ano todo. Quem observa aquele torrão queimado e escalvado, nem imagina que a agricultura e a pastorícia aí se dêem tão bem.
Interessante, volto a repetir, é que a gente da Chã das Caldeiras, mesmo a mais pobre, e relativamente à das outras ilhas, em igualdade de circunstâncias, não passa fome.
Creio não faltar à verdade, se disser que a generalidade dessas pessoas não está habituada a depender, a pedir e a ter privações demasiado básicas, por que agora estão a passar.
Daí que as autoridades não estejam a encontrar um “padrão” para lidar com o comportamento, aparentemente de “pobres e mal-agradecidos” daquela gente.
Trata-se de uma impaciência, não só gerada pela impotência perante uma catástrofe natural, como também oriunda de um certo padrão de vida, agora perdido.
Permanece até ao momento em que escrevo este “post” algum isolamento da ilha do Fogo, não só internamente, com algumas estradas queimadas, como também com o exterior.
A solidariedade internacional e nacional foi amplamente manifestada. Pena foi e é que as autoridades não souberam ou então não puderam (posso admitir) distribuir e acudir em tempo mais útil aos desalojados e necessitados, com as ajudas recebidas. Digo isso, pois fortes críticas se fizeram ouvir.
Outra coisa, já é tempo de nos esclarecermos, de que em muitas matérias não somos auto-suficientes, nem de longe, nem de perto. Não somos e mais do que nunca! Esta asserção é hoje global, mas para nós, põe-se com imensa e particular acuidade.
Assim sendo, são sempre bem-vindas as colaborações, as cooperações de fora das ilhas e sobretudo, de países amigos em circunstâncias adversas …
Enfim, de qualquer forma, graças devem ser dadas, pois não houve perdas humanas a lamentar.
A propósito da situação por que passa a ilha do Fogo, recebi – nos inícios deste mês – de uns amigos, um casal de profissionais da área vulcanológica, que cá estiveram connosco no Verão passado, uma mensagem que é também uma “memória” (agora já é) que conservaram dos lugares da Chã das Caldeiras por onde andaram. Por se tratar de um trecho interessante, pedi-lhes autorização para aqui transcrever a bonita descrição que fazem do que foi Portela e arredores: “Como devem imaginar todos os dias pensamos em vocês à medida que vamos acompanhando as noticias que nos chegam quase que hora a hora. Lembramo-nos logo das histórias que a Ondina nos contou de antigos episódios (51 e 95) como o que agora se repete em que a ameaça Mosteiros veio novamente a fazer-se sentir.
Como as noticias foram sendo muitas íamos "vigiando" o que se passava – alguns dos nossos amigos estiveram presentes nas equipas de acompanhamento da erupção.
Foi com tristeza, mas não com surpresa, que vimos a Portela ser engolida logo seguida da Bangaeira.
O museu que vimos em fase adiantada de construção, o hotel onde comemos um peixe delicioso, a cooperativa onde comprámos vinho e até a tasca do Montrond onde comprámos também o vinho doce que eles faziam, as igrejas – uma em frente da outra – e todas aquelas casas da povoação – tudo isso pagou o seu tributo à natureza.
Vá lá que não houve outros prejuízos para além dos económicos – o vulcão acabou por ser gentil – avisou e deu o alerta e foi manso na hora do maior aperto.” Fim de transcrição.
Para findar o escrito, expresso ao leitor, os votos de um novo ano melhor, com tranquilidade, paz e harmonia.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
 

O meu berço flutuante...

Eis acima o vapor «Guiné», o meu local de nascimento.
Mas vamos por partes. Os meus pais, e os manos mais velhos, partiram do Porto Grande de Mindelo numa cálida noite do mês de Agosto, rumo a Lisboa. Eu seguia na mesma viagem, só que bem aconchegada no ventre da minha progenitora.
Decorria o ano de 1946. De acordo com o narrado pelos meus pais, eles só contavam comigo  em terras lusas, já  desembarcados e instalados em Lisboa.
Surprendentemente, a 17 de Agosto e  em pleno mar alto, "na latitude norte vinte graus e cinquenta e um minutos e na longitude oeste de Greenwich,vinte e dois graus e um minuto" -transcrição do assento de registo a bordo - anunciei-me.
Houve algumas peripécias ocorridas durante a viagem. A tripulação não contava com nascimentos a bordo. O Comandante, de seu nome Ambrósio Pereira Ramalheira, para remediar a situação de toda inesperada,  decidiu "fechar" o salão do barco e transformá-lo em maternidade, instalando aí, mãe e filha.  Havia médico e enfermeiro no barco.
Aconteceu que os jovens que iam de férias ou, para estudos em Portugal, é que não gostaram nada da emergência. Entenda-se: era hábito haver bailes e festas no salão do barco, ao longo dos muitos dias em que decorriam as viagens Praia/Mindelo/ Funchal/Lisboa, e naquela viagem não puderam desfrutá-los.
Na ilha da Madeira, no porto do Funchal, o meu pai foi à terra comprar um enxoval para a bébé, pois segundo a minha mãe pensava comprar tudo em Lisboa. Logo, as minhas primeiras vestes foram madeirenses.

Bem, adiante, registada a bordo como mandavam as leis na época, a Companhia Colonial da Navegação, a que pertencia o barco, entregou aos meus pais um documento que dizia ter eu a partir daí, viagens gratuitas, a bordo do paquete portugês «Guiné». Infelizmente, nunca tal aconteceu, pois em 1949, naufragou o meu berço flutuante.

  P. S. Segue uma digitalização do meu Registo de nascimento.









Pequenos acasos em grandes vidas?...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014


Veio isto a propósito da recente atribuição do Prémio Nobel da Paz ao benemérito médico indiano, Kailash Satyarth, incansável activista pela causa do trabalho escravo infantil, e das crianças em risco na Índia.
Outra laureada com o mesmo galardão da Paz é a nossa conhecida Malala Yousafsi, uma adolescente extraordinária e fora de série, por quem tenho uma admiração enorme, que defende a educação de milhões de crianças sem escola. Dois rostos, que agitam afinal, uma grande bandeira – a integridade do ser infantil – que deveria ser a prioridade da chamada humanidade.
Pois bem, a historieta que a seguir narrarei tem a ver com o patrono dos prémios, Alfred Nobel.
Conta-se ou melhor, registaram os biógrafos de Alfred Nobel, famoso químico e inventor sueco (1833 – 1896) um facto assaz interessante e que transformou quase por completo a memória que a humanidade havia dele guardar.
Aconteceu que em 1888, faleceu o irmão mais velho de Alfred, Ludvig Nobel igualmente engenheiro químico, inventor e homem de negócios. No obituário que apareceu nos grandes jornais franceses, confundiram os manos e deram como falecido, o mais famoso deles, Alfred Nobel.
Um dos jornais mais lidos em França, trazia inclusivamente, em grande cabeçalho a seguinte notícia: “Morreu o mercador da morte».
Alfred Nobel pôde ler o seu obituário em vida e rapidamente apercebeu-se de como ficaria conhecido para a posteridade, como o inventor de dinamite que na realidade foi.
Produto bem conhecido, que embora seja ou, tenha sido grande auxiliar em notáveis obras de engenharia, foi também utilizado em larga escala, em guerras para a destruição de vidas e de bens…
Daí que o seu inventor, tenha reflectido e pensado bem. A humanidade iria lembrar-se dele como o “mercador da morte” tal com preconizado no jornal francês…
Então resolveu criar a Fundação Nobel com a instituição de cinco prémios, a saber: Química, Física Medicina, Literatura e Paz Mundial.
Algo grandioso que começou a funcionar na realidade, a partir de 1900.
Hoje, Alfred Nobel é de facto mais conhecido pelo prémio Nobel, instituído por ele, do que como inventor do “famigerado” dinamite que tantas vidas e património destruiu nas guerras e nos conflitos mundiais de então …
Para finalizar o meu escrito, volto ao título: pequenos acasos em grandes vidas. Foi sorte dele ter lido em vida, (perdoem-me o aparente pleonasmo) a própria notícia da morte.