SOBRE O MEU EÇA IRÓNICO - POR QUE "entrevistei" AURÉLIO GONÇALVES?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
II          
                 Antero Marques Simões  
O AURÉLIO era como eu lhe chamava familiarmente - ensinou gerações à minha "semelhança". Não ensinou EÇA nem o curricular do tempo - as cenas lisbonenses e a tragédia de um seu "cidadão" por causa dos amores de uma "deusa" de tez "ebúrnea. Nada disso. Sua formatura em Histórico-Filosóficas só lhe garantia discorrer da Lógica de Aristóteles e do "cogito, ergo sum!" de Descartes. Não podia eu senão falar e traduzir Cícero e Virgílio para os alunos do "Gil Eanes" mas, como a Literatura Portuguesa era a minha 3ª disciplina. O AURELIO´, porque "dissecava" o EÇA como se tosquiava ovelha de grossa lã, faiscava-me com umas "deixas" sobre o meu conterrâneo de "uma só noite", atirando-me assim - ANTERO, você afinal também "entra" pelos MAIAS sem pedir licença ao "santo" ONOFRE das "Lendas".
E naqueles intervalos das aulas e, sobretudo, quando ao meio-dia tilintava o "guizo" do Liceu para nos "despachar" para o almoço, a nossa conversa recaía evidentemente sobre MINDELO, não aquela linda cidade que tem um belo cais de "ver-partir-mais-que-chegar", desta Mindelo de Vila do Conde, onde o "actor" José Maria, acordando de um sono fundo, como se estivera no Teatro de D. Luiz, em Coimbra, atirara aqueles brados todos porque já lhe cheirava a VILA do CONDE. E não era aqui no largo da Praça Nova que o "santo" ANTERO o esperava com o Martins, e o Câmara e o Luís de Magalhães?
Não, naquele fim-de-manhã, ao sabor daquele sol meio liquefeito de São Vicente - uma terra amada que, como ANGOLA, me ficou bem gravada na minha memória, mais ainda em meu coração, a conversa descaiu, como por encanto, na IRONIA do nosso EÇA e de quanto, por trás dela, em quase todas as suas Obras, parecia oscilar num certo trago de infeliz TRAGÉDIA.
E, como este grande "professor" de Filosofia saberia mais de EÇA do que de Kant ou Bergson, aquela passeata até nossas casa, com passagem pelo CAMÕES do Largo do Grémio, estancou uma hora e mais uns minutos. E foi sobre os "Aspectos" mais "denotativos" da IRONIA QUEIROZIANA que o nosso Diálogo se abriu. E tinha de o ser, não tivesse o Dr. ROQUE (também tinha esse heterónimo) já editado uma interessante monografia sobre esta rica temática do meu IRÓNICO E TRÁGICO romancista.
Antes, porém, de transcrever o nosso "diálogo" livre e espontâneo, há que antepor-lhe uns "dados" biobibliográficos a este meu inesquecível companheiro – um filho de S.Vicente, Cabo Verde – com timbre e nome para figurar numa História da Língua e da Literatura Portuguesas. É precisamente com suas "respostas" a umas quantas "intencionais" perguntas que me apraz mesmo "coroar" com certo gosto esta IIª PARTE deste meu "empenhado" trabalho sobre Eça de Queirós.
Este novelista e professor de História – ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES (1902-1984) – que, em seu interessante livro comentara e sintetizara, com mito acerto e psicologia, os “Aspectos da Ironia de Eça” na sua evolução e transição, abrir-me-ia, sim, algumas novas perspectivas. Desde os vários cambiantes deste singular processo estético de literaridade – a ironia – até aos que tocassem nos primeiros "acentos" de teor dramático ao modo dos clássicos gregos...
Mas fiquem aqui, como átrio d nossa "digressão" pelo EÇA Irónico, mais alguns elementos sobre este cabo-verdiano, um colega tão especial como "diferente" dos outros que, do mesmo torrão insular, comigo trabalharam para bem daquela juventude ilhéu, dos meados do século passado:
- Era ainda um jovem dos seus 16 anos quando o António Aurélio Gonçalves rumou a Lisboa, em 1917, para continuar os estudos. Ali ficou estudando e ensinando por vinte e dois anos, voltando à sua terra-natal só nos inícios de 1939.
A capital portuguesa proporcionou-lhe uma vida literária de certa intensidade em ambientes acentuadamente lusitanos, na convivência firmada com intelectuais de nomeada na época, entre outros Castelo Branco Chaves, Castro Soromenho e Álvaro Salema. Teve, além disso, contactos de tertúlia com elementos do Grupo da Seara Nova, aonde acorreram com ele outros africanos radicados em Lisboa, sobretudo os responsáveis pelos periódicos A Mocidade Africana e Humanidade
Então, naquele dia, naquela hora – era em plena actividade escolar, do ano 1962 – aconteceu, a meio de nossas diárias conversas que se ficavam quase sempre pela História dele e a minha Literatura, com vantagem para meu lado, o nosso EÇA mais "virado" para a sua IRONIA. Ele, o AURÉLIO "navegava" por aquelas águias "queirozianas como "lancha" em mar azul da sua Baía do Porto Grande. E não é que se notava em seu rosto "mestiço" aquele alegre rubor de estar num "campo" de sua mais grata satisfação. Até porque no seu opúsculo "Aspectos da Ironia queirosiana", que publicara em 1937, ele discorrera como em pleno dia pelos caminhos mais tortuosos de "O Crime de Amaro" até ao termo do "crime" incestuoso de Carlos e Eduarda de Os MAIAS.
Naquele dia semanal, naquela hora do fim-das-aulas de uma manhã, em que ele tivera o tema das DESCOBERTAS com seus alunos e eu. Por acaso, o da "tragédia" dos MAIS, o assunto da IRONIA do "pobre Homem da Póvoa de Varzim" estava mesmo a calhar. E – já descíamos a Rua de Lisboa – quando, retemperados de um cafezinho ali no Bar "Estrela", lá nos fomos "engolfando", primeiro nos "temas" das aulas deixados para trás – ele de sua História, eu da minha Literatura.
Sim, era mesmo o momento certo, a hora azada, cada um no caminho do seu almoço, em nossas casas tão vizinhas. É para minhas "notas", AURÉLIO... Pode ser que um dia, mais tarde, até o passe para um "livrito" sobre o meu "conterrâneo" Queirós. Sabia que era da PÓVOA? Sabia?
- Se sabia, caro Antero, mas os da "VILA" disputam-lhe essa glória do nascimento. Mas isso "est alia res", como Você ensina ali no GIL EANES, não é?
- Começo, GONÇALVES, começo por lhe agradecer sua sempre aberta disponibilidade – Sei que Você é um "barra" em EÇA, e até já lhe ouvi, há tempos, que o meu "poveiro" era o autor de sua predilecção, com CAMÕES. Então, sem mais "prolegómenos", entro já na questão. Para si, diga-me já à queima-roupa. O que é a IRONIA? Figura, processo, arranjo literário, retórico, estético?
- Sim, caro colega, afinal ANTERO também – não é verdade? - para mim Ironia é uma figura de linguagem em que o sentido literal (denotativo) é muito distante ou mesmo o oposto do que se tem a intenção de significar. Dito de uma outra forma, ela é um processo de interpretação baseado na inferência, com fins lúdicos, satíricos, críticos, ou outros, e resulta de um contraste entre elevadas expectativas e uma realidade decepcionante.
Mas entremos no nosso "bate-papo" com o meu amigo e companheiro das mesmas lides, com o GONÇALVES – um licenciado em Histórico Filosóficas pelo famoso Curso Superior de Letras de Lisboa. No seu rosto eu adivinhava-lhe aquele suave sorriso de como me queria surpreender com algum "achamento" seu, da última hora. Aproveitei, então, o ensejo daquele sinal de aberta disponibilidade, e "assestei-lhe" a 2º pergunta" do nosso "sumário" meio ocasional meio intencional: 
- Como assim e por que assim, quando – tenho aqui o seu opúsculo – o Aurélio defende que “uma personagem apresenta-se-nos com traços próprios e. subjacente, define-se ou adivinha-se uma herança psicológica. Existem nela tendências que, de ordinário, lhe são transmitidas no sangue, declaradas em alguns casos, latentes outras vezes, ignoradas até do seu próprio possuidor, nem são corrigidas por uma educação racional e cautelosa…".
- Sabe, no pensamento de Eça que, como sabe, é em relação às suas "personagens" um narrador "omnisciente" e "omnipresente", há uma como que "base" mais profunda, por vezes, inconscientemente adquirida ou acumulada, de atavismos, de formação moral mais ou menos deficiente, de hábitos adquiridos ao longo de uma mocidade sabe-se lá como e por que "deformada"...
Tem aí ao seu dispor os casos de Amaro para com Amélia, o de Basílio para com Luísa, o de Carlos para com Maria Eduarda, que nos conduzem ao ponto fulcral da questão – o drama trágico que lhes advirá...
- Quer-me o colega filósofo dizer que a personalidade "criada" por EÇA em cada uma destas “exemplares” Figurantes das 3 "peças" narrativo-irónico-dramáticas se eclipsa para que triunfe, para sua infelicidade, a natureza profunda do indivíduo? Ou seja, daquelas inclinações que trouxeram de suas géneses familiares e atávicas? Quero dizer consigo que o "peso" do meio e da família e da educação cai mesmo cerce sobre todos os "actores" da grande diegese" queiroziana – o de um padre celibatário, o de um diletante "dom juan" chamado Bazílio, o de um "médico" falhado que, pela educação britânica" e "coimbrã" superficiais, gastou sua viril idade numa "floresta de enganos" erótico-amorosos...
- Nem o duvide, meu queiroziano poveiro, que as circunstâncias histórico-político-socais, e no seu entre-cruzamento com as familiares, sobretudo “um meio sempre o mesmo" – a sociedade portuguesa que viu o ocaso do Romantismo – pesa sobre o herói. desequilibra-o, acentuando-lhe predisposições. E destas, em nome da moral, ou em virtude dos seus preconceitos, não se lhes consente uma livre manifestação”.  
- Mas, meu Caro Filósofo e Historiador, há, como julgo, neste "conduzir" assim o nosso EÇA DE QUEIRÓS por rumos semelhantes ou paralelos, as suas Personagens – no tríplice "roteiro" de suas vidas" tem de buscar-se também em bases filosóficas, em influências estranhas, em autores e doutrinas que ele, como "ficcionista" e "artista" do Realismo então iniciado, assimilou e em que se filiou. Que me diz sobretudo da "escola" francesa de Taine nesta "revolução" do nosso romancista?
- É isso, – e VOCÊ também o saberá da Filosofia em que se "formou" – que Eça, adoptando – como bom naturalista – as doutrinas de Taine, tranquilizava-se pisando terreno que sentia firme, contentava o seu gosto de investigação das causas e da racionalização da vida. Satisfeitas as exigências do construtor, a intervenção da fatalidade introduziu na sua arte o sentimento da inquietação perante o universo, desarticulou a rigidez geométrica da sua construção, deu à sua ironia uma forma transcendente…
- Sei, sim, perfeitamente que este tema da fatalidade – romântico por natureza – tratou-o Eça com uma simplicidade primitiva. O destino é então um motivo de tragédia pura. É o homem esmagado pela vida, de que Eça se apoderou, comunicando-lhe uma complexidade inteiramente sua.
Mas, AURÉLIO, na suposição de que "cada caso" é um "caso" diferente! - sem querer que o meu Amigo meta a "foice em seara alheia", – o meu TRÁGICO EÇA tenho-o para um companheiro de tertúlia de RÉGIO!. Agora, com o Bom Amigo queria que me trocasse por "miúdos" a moeda grande – a tal influência do "meio" e da "educação" nos mais interessantes ROMANCES do nosso EÇA – o Amaro, o Basílio, o Carlos da Maia. Não acha mais lógico, mais pedagógico?
Que me diz então, AURÉLIO, de cada um daqueles três "títeres", os protagonistas? \
- Sim, é meridianamente visível que, perspectivando, a um só olhar, os 3 romances da fase de transmutação do naturalismo para um realismo mais ou menos exacerbado, foram o meio, a educação e os casos fortuitos em que se envolveram AMARO, BASÍLIO e CARLOS DA MAIA, que acabaram por exercer sobre estes “heróis” de Eça a sua influência mais ou menos nefasta.
- Então, Amigo, há que "relacionar" as predisposições e hábitos adquiridos com as circunstâncias, as pessoas que aparecem, os simples e fugazes episódios que acontecem a qualquer um, mas que...
-... Que, sim, não vê que, recebidas tais predisposições por suas heranças atávicas, parecendo, por um lado, trazer aos nossos "heróis" a expansão de suas vidas e a solução de seus problemas, por outro, surgindo-lhes um facto, uma pessoa, uma circunstância mais intensa ou mais contraditória, – por exemplo, uma aventura – geralmente, casual ou clandestina – a que se vêm – quem sabe – juntar certos instintos recalcados, tudo isto lhes trará a doce ilusão de uma plenitude, uma  realização, uma vida...
- Pelo que diz, o EÇA, na sequência do ANTERO e dos franceses que leu e assimilou, como Zola, Baudelaire, Renan e Flaubert, tentou com a sua teoria da ARTE mais pela Natureza que pela ARTE, "construir um mundo novo, não é verdade? Ou tanto por uma como pela outra? A Natureza para a Arte, e esta para aquela?
- Sim, Antero amigo, o da Póvoa, não o da "Vila"..... Neste élan de se achar um “mundo novo”, a personagem ou protagonista, sem discutir sequer as razões de como tudo aconteceu, toma o mesmo rumo da sua encantada aventura. Enche-se de audácia, dá-se à luta, ladeia todos os obstáculos, julga ter o mundo em suas mãos… Mas, oh dor, oh felicidade, ó alturas do sonho e da vida levianamente conquistadas, que um pequeno e acidental episódio, um leve sopro do que chamamos normalmente o destino ou o fado, – e quem lhe poderá resistir! – faz-lhe ruir os sonhos, a torre de marfim em que se julgara estabelecer, aquele “paraíso”, enfim, que a preço de tantos esforços, humilhações e renúncias, -sabe-se lá! - se tornou um antecipado “inferno" o que antes era gozo, felicidade, um céu em vida...
- Quer dizer-me que, olhando as personagens pelas suas tendências frutos de um atavismo profundo e de suas deficientes bases de educação, há sempre um MAS quase, ou totalmente, fatalista...?...
- Sim, há sempre um “mas” – pode perder-se a batalha. A guerra pode não perder-se. Ao menos, de um modo absoluto… Alguma coisa ficará nas mãos… Mesmo que o mundo rua – dizia em seu idioma o poeta Horácio Flaco, dos Romanos – há uma coisa que sempre ficará de pé… As cinzas... E das cinzas não poderá levantar-se um "corisco" de fogo? Se por aquele rumo ou por aquele mundo que sonhara já é inútil dar um passo mais, o homem vencido ainda lhe surgirá, embora memos ditosa, qualquer oportunidade de se refazer, mesmo que seja um mero espectador, ironicamente esmorecido da vida…
- Particularizando o drama dos 3 “pares" que mais protagonizaram a narração romanesca de Eça de Queirós, como é que provaria, meu Caro Amigo, que o “sentido irónico” nelas vincado é o reverso do seu “sentido trágico”? E onde se notam esses "aspectos", o seu "acento" de uma estética IRONIA?
- No primeiro, o “caso” do par AMARO-AMÉLIA, que já se preanuncia na mesma “filologia” etimológica. Intencional no “código” eciano? O “amarus” de Amaro com “amargo. Amargura, amargurado” fronte ao “amor e amare e amabilis” de Amélia, foi-o de escolha do sub-consciente freudiano? E repare-se como o “protagonista” deste CRIME de adultério é um rapaz que uma condessa benfeitora “atirou” para o seminário, sem qualquer iniciação moral e religiosa, para, um dia, se votar, pelo sacrifício e pela reza, à direcção das almas que lhe foram destinadas.
- Mas esteve ali também o mau "exemplo" do seu confessor, o Cónego Dias. Se a psicologia vale, sabe bem, meu pedagogo das "Hespérides", que os exemplos... é que arrastam, sobretudo os maus, os perversos, os criminosos...
- Sim, caro Colega das "letras", não do Banco, evidentemente, mas de Eça, de Antero, de Ramalho... Sensual como AMARO se tornou pelo tempo fora, acaso pelo exemplo dos seus correligionários (aqui, o Cónego Dias, mestre de sua consciência, foi de todos o mais responsável), não lhe foi difícil revelar-se, por seu comportamento, contra a lei do “celibato” clerical… Ao cabo de peripécias sem conta, umas mais sigilosas que outras, acabou por seduzir uma ingénua mas bela rapariga, também tão amorável, que, ali às ocultas, se fez uma perfeita concubina…
- Mas, se o plano do João Eduardo não tivesse esse "obstáculo" pela frente, – um padre tão liturgicamente sedutor pela abusada "confissão" – até que este caso dos jovens namorados só teve a sua "solução" a larga distância... – o romance de Amaro e Amélia poderia ver outro "desfecho" mais conciliador, mais tolerável, menos degradante... não acha, meu filósofo?!
- Parece que, a certa altura, tudo se concertará no resolverem entre si o problema sexual. Mas não. Que sempre o fatalista princípio de que “o coração tem razões que a razão desconhece!” aqui vem como do céu...Mas a terrível obsessão do amor tão devassamente conduzido por uma consciência sem escrúpulo como a deste “mau pastor das boas almas aldeãs" levou-os a ambos (Amélia, então, aderindo aos feios impulsos amorosos de seu “confessor!" o hipócrita e sacrílego "senhor pároco") ao mais inimaginável desfecho
- E, já no fim, morrendo a pobre da Amélia por uma desditosa gravidez, não acha, caro GONÇALVES, que a Amaro só lhe restava, ou o infanticídio de que ele é único “réu”, ou a morte vergonhosa dele, ou ainda, a fuga inevitável da sua "profissão" – talvez, melhor dita – alta missão de "condutor" de almas... Se tivesse, em vez de EÇA, o "papel" de "encenador" ou de "realizador" ou "argumentista" para "resolver" o "problema" de AMARO, acha, meu ROQUE amigo, que "traçaria" no papel as mesmas "cenas", o mesmo descritivo, o mesmo diálogo?...
- Agora é que o ANTERO me "apanhou" quase descalço...
- Descalço? Não creio que valha a analogia.
- Mas explico com duas "penadas". Assim como vai ouvir...
- Ouvirei, sim, com muita atenção, onde vão recair as tais "penadas".
- Olhe, Colega de Português! Talvez não fosse a do autor a solução saudável para uma “intriga” muito ampla e complexa, com inúmeras “personagens” dos vários estratos sociais, da igreja e da administração, do beatério sempre intriguista e do clero porventura “viciado” na materialidade do dinheiro... Toda uma série de fatais consequências, de maus exemplos para um povo cultural e moralmente impreparado, mesmo para o “protagonista” que, na intenção irónica, moralizadora e criticista de EÇA, sobrevive ao mal que, sob a negridão de sua batina, praticou e ao bom exemplo que, aparentemente, até teria certa vontade de exibir aos seus pobres paroquianos…
- Mas, afinal, AURÉLIO, ainda não descortinei qual o seu "juízo" final. Como julga a "solução" que o MEU IRÓNICO EÇA deu ao Amaro, a Amélia, ao filho deles?... "Morrer" ou "matar" nunca será uma saudável, uma aceitável e elevada solução de nada.
- Por fim, este AMARO, afinal um devasso, um incrédulo, – por ironia do diabólico DESTINO! – torna-se também um céptico, um materialista, um ocioso, um cínico, em cuja alma, apesar de todos os embates e remorsos e desgastes físicos e morais, se pressente o fogo secreto das passadas “angústias”. E isso bastou para impedir nele e na sua vida final que se levantasse qualquer “onda” de revolta, qualquer visão de morte para si-próprio, como era mais digno e superior para "resgate" de seu nefando CRIME…
- E, depois do par Amaro-Amélia, vamos aos "primos" amorosos mas "adúlteros"  SÍLIO-LUÍZA. Estes vão noutro sentido, menos reprovável, mas também "criminosos", que "adulterar" a fidelidade conjugal será sempre um "crime" para jamais, jamais, cometer ou imitar...
- Está a raciocinar conforme o princípio do tal "atavismo" familiar ou educacional. De facto, no PRIMO BASÍLIO, Luíza parece viver, de início, bem feliz na tranquilidade burguesa de seu lar. No íntimo ela sempre se mostrou desde a mocidade uma romântica que gostava de uma vida mais agitada, mais socialmente vivida. E tão cedo o marido por dever de ofício se foi para longe do lar, ao primeiro “sedutor” que lhe surgisse a oferecer-lhe o ensejo de uma situação mais brilhante, mais sentimental ser-lhe-ia fácil a “entrega”. Basílio, um primo que veio do Brasil a visitá-la, aproveitou a "deixa" do marido e, para a “seduzir” nos seus braços apetecíveis e aventurosos, todo foi "arte e ofícios"...
- Mas, Professor, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe... não acha? E aqui o tédio, o nojo, o cepticismo, tinham de vir ao de cima... E nada fica tão oculto, que a verdade das "causas e dos efeitos" não venha ao de cima, à luz plena do "sol" da verdade... É quanto se recebe desta "herança" de um Paraíso perdido, aliás como o foi o do "sensual" e "leviano" PRIMO duma tão ingénua Luíza... Parece que, contra a lei do "entrevistador" estou a entrar, meu grande ROQUE GONÇALVES; no seu "campo" de Entrevistado. Desculpa, Aurélio a "intrusão"…
- Sim, meu belo Entrevistador, por fim, graças à intolerância perseguidora de uma sua criada, que se apodera de seu segredo e o explora com ferocidade, sua vida torna-se num mar de lama, tal que nele a pobre mulher se vai afundando cada vez mais. Mas ela, a Luíza, saiu daquele lodaçal, um dia, já era tarde. E – ó ironia do cruel DESTINO! – quando ela supôs chegado o fim de seu imenso martírio, já depois de tomar um novo rumo para uma nova felicidade, apareceu aquela carta do primo-sedutor, lá de longe, sempre Paris, que caindo nas mãos de seu verdadeiro marido, tudo "revolucionou" em sua vida. Até que, por "fas" e por "nefas", esse documento acabou por ser a causa fatal de uma breve felicidade, cedo "desfeita" no seio da vergonha, da morte e do abismo…
- E, por fim também, meu bom companheiro, vamos ao “caso” do par CARLOS e das “personagens”, diríamos “centrais” e “protagonistas” deste cenário não só de Lisboa como de Portugal e do Mundo? Fiquemos mais no "sentido" da IRONIA que o da TRAGÉDIA, que este o "repescarei" EDUARDA. É o mais episódico e o mais rico de intriga, o mais acabado no seu desenlace “trágico". Quem é uma e quem é outra bem junto ao mar da PÓVOA, de outro nosso "colega", até um especialista em Cesário Verde e em José Régio. Já ouviu falar do AMARO DE OLIVEIRA?
- Quem não leu os seus "comentários" à Tragédia dos MAIAS? Que extraordinário valor ali se não contém!
- Mas, Aurélio, antes de entrarmos no caso dos dois "irmãos" incestuosos, aliás nem sempre, Carlos e Eduarda, deixe-me lembrar-lhe aquele pequeno diálogo também "engraçado" das duas SOCIEDADES. Tenho aqui OS MAIAS – boa brochura, cores sobre o roxo – e queria ler-lhe um passo curioso.
Soava já na torre da Matriz a uma hora da tarde, a última aula da manhã findara ao toque da "sineta", o vozeario das ruas frente ao Largo do Liceu ia engrossando, Aurélio e Eu tivemos mesmo que entrar ali, no Café ESTRELA – que saudades, meu Deus? - para nos "dessedentarmos" um pouco. Mas, como ali sob um dos bancos do jardim um abençoado plátano nos oferecia a sua sombra tão fresquinha, tão reconfortante, ali nos ficámos para mais um pequeno mas "eciano" diálogo. E, como Aurélio, um historiador da Filosofia, um esteta e um artista da escrita, quem nos "ensinaria" melhor os "aspectos fulcrais da IRONIA de QUEIRÓS?
- Falou-me Você em Sociedades. Quais Sociedades?
- É mais para variar o assunto, dar um "ar" de descanso ao nosso "tema" quase a "descambar" no TRÁGICO. Por isso, vou, GONÇALVES – este é que é seu correcto e original sobrenome, não é? - dar-lhe o meu "lámiré!...
Assim, para que oiça: - Falava-se, entre risos mordazes e chistes banais, naquela soirée dos Gouvarinhos deste e daquele vulto da Política E veio ao caso uma conversa entre o Sousa Neto e a D. Maria da Cunha. Falava-se das várias Instituições de Lisboa, de benemerência e sociabilidade, como esta que Eça aproveitou para a sua constante crítica social.
- Mas leia, meu Caro, esse tal passo, para ver se me lembro dele:
- Aí vai a "ironia" de um EÇA sempre bem-disposto: - "E a baronesa, do lado, declarou também a galantine uma perfeição Com um olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine; e apressou-se a responder ao sr. Sousa Neto, que, a propósito de cães, lhe estava falando da Sociedade Protectora dos Animais. O sr. Sousa Neto aprovava-a, considerava-a como um progresso... e, segundo ele, não seria mesmo de mais que o Governo lhe desse um subsídio.
- Que eu creio que ela vai prosperando... E merece-o, acredite a senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, à imitação do que se faz lá fora, como a Sociedade de Geografia e outras. A Protectora dos Animais parece-me decerto uma das mais úteis.
Voltou-se para o lado, para o EGA: - Vossa Excelência pertence?
- À Sociedade Protectora dos Animais?... Não, senhor, pertenço a outra, à de Geografia. Sou dos protegidos.
A baronesa teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se extremamente sério: - Pertencia à Sociedade de Geografia, considerava-a um pilar do Estado...".[1]
- Sim, com tal graça e até pilhéria, nenhum outro autor ironizou tão leve mas intensamente as nossas instituições literárias, científicas e sociais.
- Não acha bem, nos MAIAS, episódios assim graciosos, que nos enchem de "ar puro" os nossos pulmões já cansados, já enfermiços de tanto "cheiro" a grosserias, a crimes, a hediondezas?
- Na verdade, meu Ilustre Comunicador, estamos aqui um pouco no risível "social" sobre duas beneméritas Instituições, de bem-querer e de bem-fazer. Ambas são daquela época, de estatutos generosos e profícuos, cujos membros então se ufanavam de suas obras em favor de duas classes que se completavam – a dos ANIMAIS e a dos GEOGRÁFICOS. Duns, que protegiam nos seus indeléveis direitos de "fidelidade" aos seus ricos-donos. E doutros que, em suas ânuas e mapas e carta e padrões espalhados pelo MUNDO, ali se reviam e se acham assim como genésicos filhos-de-algo, de Aquém e Além de África, de Ásia e de América.
- Quer dizer, a Gouvarinho alinhando nos "Animais", o Sousa neto nos "Geográficos"...
- Claro como um lago quando o é: - a condessa, batia-se pelos pobres "amigos de quatro patas". Ele, o Sousa Neto reclamava-se geograficamente como um dos "filhos" dos das "bandeiras" do Brasil ou dos "vagabundos" à Afonso de Albuquerque ou à Fernão Mendes Pinto...
- Concordo, caro Gonçalves! O trocadilho da condessa fez sério o Sousa Neto. Pudera, se ela, rindo galhofamente, o entrevia entre os pobres rafeiros ou vira-latas da Baixa-Lisbonense... E não é a alegria a "coisa mais séria" deste mundo?
- É quase a hora do nosso "desfecho". È que se faz tarde para a nossa "cachupa", gosta não gosta? E eu mudaria um pouco de "tema", talvez para a concepção eciana da ARTE. Não disse o autor de Os MAIAS que a ARTE é TUDO, tudo o resto é NADA?
- Ah! sim. Vamos ao "tema" que está na base de tudo quanto EÇA projectou para que a "nudez forte da Verdade" – e então esta era acima de tudo a "crítica" dos costumes pela narração das "Cenas da Vida Portuguesa" – sob o artifício consciente do "diáfano manto da Fantasia". Estou às suas "últimas" ordens... para se "fechar" com "chave-de-oiro"... Diga, diga...
- Assim, meu Amigo Filósofo e Historiador, será que a obra de EÇA nos dá os elementos bastantes que nos autorizem a incluí-lo no número dos grandes criadores da Arte? Mas também que nos incitem a formar um espírito votado para a "acção". Aquela frase de Leonardo Coimbra – "O homem só o é realmente quando for obreiro-de-um-mundo-por fazer"!... Idealista? Realista? Aqui, nos MAIAS, há um "passo" que talvez nos leve a este tema – Arte para a Acção. É o do Craft na "peugada" do Sousa Neto. Conhece-o? Vou ler-lhe:
- Leia, leia, que, se bem me recordo, tem, como a dos ANIMAIS, a sua "piada", quero dizer, a sua "colher" de ironia!
- Leio, e já, AURÉLIO meu: -Craft tornara-se, em poucas semanas, íntimo no Ramalhete. Carlos e ele, tendo muitas similitudes de gosto e de ideias, o mesmo fervor pelo bricabraque e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, igual diletantismo de espírito, uniram-se imediatamente em relações de superfície, fáceis e amáveis….
Craft era grande no xadrez,. o seu carácter ganhara nas longas e trabalhadas viagens a rica solidez de um bronze. Para Afonso de Maia “aquilo era deveras um homem”.
E Craft as noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo enfim, como ele dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem sentado, no meio de ideias. e com boa educação"
"Gostei, gostei dessa "educação" no Ramalhete do velho Afonso, tudo para que vingue a acção, e não se fique apenas na "fantasia" da arte e no "sonho" da melancolia... Mas insista, enquanto nos vamos indo para nossas "opíparas" cachupadas... Gosta delas?
- Se gosto, meu bom Aurélio, nem o cozido-à-portuguesa lhe chega aos calcanhares... Dou a "vida" por uma cachupa – olha, Aurélio, à moda da D. Isabel, ali da Pensão Central... ali na rua de Lisboa.
E, sobraçando eu os MAIAS cujo “enredo” tinha aflorado com minha turma de Letras, e sobraçando o colega eciano o seu compêndio de Filosofia, lá fomos passar pela Praceta de CAMÕES, onde sob a sombra perfumada das tílias, continuámos num breve como estratégico “diálogo”. Agora, o "sumário" era o “espírito de acção” e de “carácter” que paira em qualquer dos 3 mais famosos romances de "amor", de um Eça de Queirós, tão irónico como trágico na "acção" de suas principais "personagens", sobretudo das de OS MAIAS.
- Pois é, Caro António, sempre tão erudito nas “virtudes” estéticas e humanísticas de meu conterrâneo EÇA! Sim, daquele mesmo que, diante do meio romântico CHAGAS, disse de si tão fulgurantemente: -“Sim, você, Chagas, é um poeta, um sonhador, e eu apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim”. Gostou, caro Colega de Letras, mais das Histórico-Filosóficas?
- Já, na verdade, nem me lembrava desse “passo” das “Contemporâneas” naquela disputa com o autor da “Morgadinha de Valflor", acerca de quem Eça se dizia “admirador” dum lado, do outro, enfim, que ele era um “patriota” dentre os “patrioteiros”, estes que o são por interesse político e para granjeio de fama… Mas pergunte, ANTERO, sobre o tal “activismo" das personagens do incomparável – como disse, ao princípio? - poveiro, sim, duma só noite... A da Póvoa, que na Vila foram mais que muitas... por 4 anos e tal...
- Sabe a "história" toda da Carolina Augusta, a mãe do Zé Maria... Mas deixemo-la, que tão pouco decente foi, e vamos mais à "História" do Carlos e da Eduarda. Vamos pois como nas FARPAS à 1ª "seta": - Por que razão, ou razões, terá Eça fugido a impor um acentuado “espírito de acção” ao “criar” e “recriar” os seus "figurantes" romanescos, – perdão! – as suas “criaturas" ao longo da maioria dos seus “dramas”?
- Pois bem. Sim, ele de facto absteve-se de “estudar” as manifestações desse espírito. sobretudo na primeira fase da sua carreira de romancista. Mas, à medida que avançou no tempo e cresceu na experiência da vida (que aliás, lhe foi “madrasta” quase sempre!) – nele se nota um avanço notável. Não é que no fim da segunda e, mormente, na 3ª fase, a da excelsa criatividade da ILUSTRE CASA e da CIDADE E DAS SERRAS e da CORRESPONDÊNCIA, já se adivinha uma outra mentalidade de “realizador” em si-próprio e, evidentemente, nas “figuras" que recriou para novos horizontes de suas vidas....
- Mas, AURÉLIO, não me esclareceu ainda por que EÇA na fase do CRIME e do BASÍLIO e até dos MAIAS se retraiu a “modelar” FIGURAS mais lançadas para um futuro de acções generosas e progressivas... Não os acha, nestes três famosos romances da 2ª fase, demasiado “passivos”, muito acomodados a um morno e banal quotidiano?
- Olhe, caro “anteriano” Simões – não é repórter a entrevistar-me. pois não? – o seu conterrâneo EÇA considerou a acção uma atitude importante, mesmo uma “conditio sine qua non” para que a vida progrida em valores de verdade, de beleza e de bondade. Se a cultura não irradia, se falta a ousadia e a sensibilidade, que não se compadece com o tédio, a inércia e “cair das mãos” na hora de agir, tudo é inábil, tudo ineficaz, tudo inútil...
- Vamos a algumas personagens mais "carismáticas", sei lá, o Amaro, o Teodorico, o Carlos Eduardo...
- Seja, pois. Quanto às “personagens mais “carismáticas” de Eça, há uma que outra que vai no sentido oposto. Veja, como exemplo, enquanto um Amaro, ou um Teodorico, ou um Carlos como que agarrando às “saias” de suas Vénus de provincianas ou citadinas, pouco ou nada “progrediram” em ascese de acção e de frutos sazonados, há outros como um Gonçalo Ramires, um grande realizador, na sua “Ilustre Casa” – um homem de acção bem forte, para quem a sua mulher D. Ana é sopro de beleza e de inspiração. E ela, também pela fortuna, o ajudará a vencer. Ele tem a energia para se afastar de seus defeitos e tentar a sorte, pela acção…
- Como a sorte? E como a acção? Em que cometimento, ele, de figura um tanto obscura, se fará um homem de decisão e de confiança? Explique-mo, caro Filósofo e Historiador.
- Não é difícil, mas também não é inocente ficar apenas na observação dos pequenos episódios da “Ilustre Casa” se os não confrontarmos sobretudo com o “happy end” desta peça literária, famosa mesmo na Literatura Universal.
Repare, Amigo poveiro, quando o carácter deste nobre Gonçalo se ressente da falta de ousadia e de confiança, sente-se também nele um predomínio da inteligência sobre os sentidos. E isto influi de tal modo em sua vontade, que ao vê-lo assim disposto a ir trabalhar em África, Eça não é pródigo nada em mostrar nele iniciativas especiais em sua acção já no grande Continente…
- E o nosso JACINTO, Príncipe da Grã Ventura quando desiludido de Paris e se vem instalar em Tormes, também não é assim um Homem que se atire à terra para lhe desventrar os minerais, ou à Natureza para lhe "sugar" os frutos ou lhe "aspirar" os perfumes... Que acha?
- É diferente da Cidade para o Campo, é... Mas não vai mais longe que o RAMIRES. No caso da Cidade e das Serras também não acompanhamos de facto a labuta dum Jacinto já “convertido” à acção e à mudança pela beleza dos campos e, mais, à faina da lavoura e da produção agrícola… Activo, não, talvez um contemplativo.
~ Sim, percebi por que o romancista se retraiu um tanto a “desvendar” nas suas “criaturas o homem da acção, aquele "obreiro de um-mundo-por-fazer" – isto é do meu LEONARDO COIMBRA! – que deve apostar-se em ser todo aquele ou aquela que veio a esta pobre Humanidade.
Foi, dr. Aurélio, bem insinuante a sua “dedada” aqui no âmago da “vida” de que Eça nos fez bela “representação" no "toque" que deu às suas mais interessantes “personagens” – o Amaro, a Luíza, o Carlos, o próprio Teodorico, o Jacinto das Serras” e o próprio “Gonçalo Ramires”, também um emigrante da África portentosa…
- Gostei de sua apreciação sobretudo desse "toque" que um Artista tem de imprimir às suas "criaturas". Mas vá, continue, que o tempo está quase a expirar... E já sobe cada vez mais o apetite para a nossa sempre tão apetecível "cachupinha". Disse Cachupinha, não "Cachopinha"... meu "irónico" Amigo, que as "homónimas" há que não as confundir....
- Então, se estamos a caminho do fim – e isto é tão importante como o princípio! - Ó Aurélio – como me explica, em poucas ideias e palavras, a transição da fina ironia ou “risibilidade” que Eça extrai das pessoas e das situações no seu meio de acção para o outro lado da “estrada", – o serem vítimas, quase sempre, duma força mais alta, mais contundente e mais destruidora…
- Sei bem o que pretende – uma linha que risque o traço entre o “grotesco” da vida e o “fatal” da sua infalível “destruição”. Repare onde e quando e como se apontará para EÇA um “processo” que se repete ao longo das várias Obras. Olhe, Colega, não é fácil tocar no "cerne" da questão – quando acaba o "risível" e começa o "irascível", talvez o "fatalista"... Mas exemplifico, quer que o faça – por exemplo – no amor do CARLOS pela EDUARDA?
- Acertou, sim, parceiro Aurélio, entrei nesse “lance” mais trágico” da peça – quero dizer do romance – na “agnórise” Foi daquela “malfadada” carta do Guimarães. Mas, se achar que este tema pode ficar para logo à tarde, – mete aqui a acção das Tragédias Gregas – encontraríamo-nos logo no nosso GIL EANES. Será até mais agradável, ao fim das aulas. O vento estará então mais fresquinho que o da manhã, que esse virá ali do formoso Monte Cara. Está bem, caro Companheiro de Ideal e de Amizade?
- Muito bem pensado, ANTERO, muito melhor "recompensado"... Então, comidos e bebidos, o nosso CARLOS e a nossa EDUARDA terão mais feliz Comentário, talvez um "desfecho" menos dramático ou fatalista. Então até já, às 14,30 horas, ao toque da sinete do GIL, quando entrarmos, Você para os MAIAS, eu para as DESCOBERTAS....
À hora aprazada, no local acertado, eram Cinco da tarde, de novo estávamos os dois, AURÉLIO com o seu MATOSO na mão, eu com os MAIAS sob o braço, para discretear do nosso sempre Irónico EÇA. Mas se eu vinha de "tratar" do "caso" do Carlos com a Eduarda, ele das "descobertas" dos nautas de Portugal "vogara" – coincidência? destino? providência? - no "achamento" de Cabo Verde, que Camões chamou – da literatura romana – as HESPÉRIDES... Mas foi Diogo Gomes ou Gil Eanes?... E "entrei" com o meu erudito AURÉLIO, logo ali "apetrechado" do Matoso, o livro-único de então... Correu tudo bem com esta "chefada" de Gomes? Ou foi do Eanes?
Entretanto, passavam por nós, que voltávamos do Liceu, dois grupos de meninas, bata branca vestida, jubilosas de seus “sacos” livrescos, entoando baixinho uma suave e cálida morna, e no céu sem nuvens, para os lados rochosos da MATIOTA, uns acastanhados urubus voavam largamente olhando do alto qualquer pedaço com que matassem a fome. E, enquanto das bandas do Monte Cara um rouco som de navio dizia que estava prestes a atracar no PORTO GRANDE, nós, acabada aquela “faina” da tarde, neste nosso tão agradável ofício de formar Personalidades do amanhã, éramos de novo em EÇA, com um breve "desvio" para, com um refresco no "Estrela", discorrermos sobre as tais “achadas" Hespérides”, restos de pedra do velho Atlante.
- Não, não é verdade, Professor Aurélio, as "Hespérides" chamadas por Camões? Que tal seus alunos acharam a esta Nomenclatura gloriosa?
- Sim, tudo correu conforme planeei. É que o nosso GIL EANES durante anos e anos julgaram-no o primeiro a avistar estes enegrecidos rochedos. Mas lá lhes provei, com argumentos e documentos, que é tudo verdade quanto CAMÕES narra, cantando, sonorosamente, sobre a primeira Ilha avistada. E sabe qual foi, Amigo?
- Se a memória me não trai foi a Ilha de Santiago. E sei até de cor a estrofe camoniana. Que a decorei, antes de embarcar rumo a esta terra assim “isolada” do mundo, aqui perdida no meio do vasto e undoso Atlântico. Quere-a da boca do GAMA ao simpático e curioso Rei de Melinde:
 -“Passadas tendo já as Canárias ilhas / Que tiveram por nome Fortunadas, / Entrámos, navegando pelas filhas, / do velo Hespério, Hesperídeas chamadas: / Terras por onde novas maravilhas / Andaram vendo já novas armadas. / Ali tomámos porto com bom vento, / Por tomarmos da terra mantimento".
- Mas, Gonçalves, Camões não se ficou por aqui, sem citar a Ilha “pioneira” da civilização portuguesa, a mais sintomática, no rodar dos tempos e das navegações, do grande MUNDO que o PORTUGUÊS criou”. Lembra-se do que daqui disse o etnólogo maior do crioulismo, o brasileiro Gilberto Freire? Mas CAMÕES foi mais peremptório.
- Não me diga que também "decorou" a 2ª estrofe, esta já mais assertiva, mais concreta, mais histórica:  
- Exacto. Ela aqui vai porque foi memoravelmente a Ilha em que tomei posse deste lugar de professor ultramarino. Que beleza ali achei, que honra para cabo Verde, Luís Vaz tê-la distinguido entre estas Ilhas “perdidas” Hespérides chamadas:
 - “Àquela ilha aportámos que tomou / O nome do guerreiro Sant’Iago, / Santo que os Espanhóis tanto ajudou / A fazerem nos Mouros bravo estrago. / Daqui. tanto que Bóreas nos ventou, / Tornámos a cortar o imenso lago / Do salgado Oceano, e assi deixámos / A terra onde o refresco doce achámos”.
- Mas, Amigo Aurélio, o tema era outro, não era? Perdoe-me este desvio, doce mais que verde, que esta cor parece que a não “achou” muita o marinheiro e soldado CAMÕES quando aqui passou, era 1568. 
 - Mas sejam agora os meus MAIAS, de Eça, que de suas DESCOBERTAS, de Gomes ou Eanes, fique o Camões repetindo para o Futuro de uma nova Civilização...
Então, onde crê, AURÉLIO GONÇALVES, que reside aquela “vitimização” das “personagens-fulcrais quer do CRIME quer do BASÍLIO quer dos MAIAS?
- Sim, o “tema-fulcro” era, de facto, a “ponte” entre as duas “margens”, salva a analogia, de como dum estado de devaneio da vida, de uma ingente força de vontade naquelas 3 personagens de um retraimento de acção, tem tudo de “desembocar” num beco-sem-saída quando cai de chofre sobre elas todas aquela força pesada sobre as consciências nunca preenchidas de qualquer átomo de beleza, de verdade ou de bem.
- E como é que tanto de fortuito ou ignoto pode assim, Amigo Aurélio, cair como asa de “águia” sobre os desacautelados “corpos” ou “almas” das pessoas? Vai explicar-me concretamente onde é que fica, de facto, a “medula” central do problema. 
- De facto, há que antecipar dois ou três “fenómenos” para lhes apontarmos as causas ou os “noumenos” ao modo kantiano. Assim: - Um último traço define bem o carácter das personagens de seu Irónico EÇA. Com uma consciência mais ou menos nítida, todos são insubmissos. E se se revoltam interiormente, essa revolta eles escondem-na… E aqui entra a psicanálise freudiana do recalcamento.
- Como Freud no meio de EÇA, se ele até veio depois, com a sua teoria dos sonhos, bem interessante, e dos recalcamentos, ainda mais pertinente…?
- Sim, Freud veio ainda em tempo do Eça, mas também se foi quase meio século pós-Eça, e pós-romances de “tese”, estes três que nos interessa “comentar”. Repare que a insubmissão dos débeis de vontade e de projectos, – Amaro, Luíza e Carlos da Maia, ou mesmo sua irmã, é que, recalcada, envenena o espírito e traz depois a cobardia e a falsidade. O Amaro revolta-se contra a lei do celibato, Luíza contra o dia-a-dia tranquilo de seu lar, e Carlos da Maia, a exemplo de seu pai, guerreia os princípios que lhe ensinara o nobre avô Afonso da Maia.
E foi assim, com esta dureza de traços que Eça como que modelou as suas mais “carismáticas” personagens.
- Como um autor escreveu, acha também que as figuras de EÇA são mais "desenhadas" que vivas, embora de seu "monóculo" exterior?
- Claro... Dir-se-á, como quer a nova Estilística, que estas “figuras” de romance são mais “desenhadas” que “vivenciadas”? Ele, o Eça será mesmo – no seu ponto de vista – um criador “extradiegético”, mas omnisciente, comandando de fora os "cordelinhos” da acção de seus “figurantes” da grande “cena do mundo".
-“Quer então dizer que todo aquele pessimismo personagem”, seja do protagonista seja de seus adjuvantes, começa a “desenhar-se aqui, nesta transfiguração, para pior, da mesma realidade dos factos?
- Ora, acertou em pleno. Veja, por exemplo, com Carlos da Maia. Ele possui, no fundo, um ideal, de ser como médico útil ao seu próximo… No seu íntimo agita-se uma força oculta que, se fosse avigorada, conduzida com lucidez, poderia salvá-lo da derrocada… Mas… há sempre um mas, não é como se diz?
- Explique-me, Aurélio, esse “mas”, essa “fatídica” adversativa…
- Isto é importante, para o decorrer da acção a caminho de seu termo: - Os “actores” ecianos são todos – quem o diria num realista? – românticos inexperientes. Imaginando de início que entram numa vida intensa, cheia de imprevistos e de emoções, de tal modo que parecem sobreviver numa atmosfera de letargia pura, mas caminham sobre areias de um deserto sem oásis à vista…
Todos eles, AMARO, LUÍZA e CARLOS se enganam redondamente. Porque, afinal de contas, a plenitude da vida é o somatório de vitórias tidas no dia-a-dia das pequenas ou grandes acções. Quer que concretize isto que de teórico lhe assinalo?
- Evidentemente, não será tudo de uma atmosfera ilusória em que esse “agentes” deambulam em suas vidas para que tudo se modifique na “antevisão” duma possível desgraça? Digo bem?.
- Penso que sim! Repare, caro Amigo, naqueles terrores instintivos de AMÉLIA diante do sedutor AMARO, o desconsolo de LUÍZA no quarto reles em que se avista, já pela primeira, vez com sensual BASÍLIO, a forma dilacerante como o CARLOS DA MAIA chega ao conhecimento da pobre vida de MARIA EDUARDA... Que são, afinal, esses “sinais” senão de que é o “vício” e só ele que os invade, naquelas aventuras inferiores em que se envolveram? Tudo aparência, tudo sonho, tudo ilusão, melhor dito, tudo desilusões em série.
- Então, EÇA, à-parte pequenos "episódios" diferentes, cai numa repetida mas bem orquestrada "estrutura" na construção dos seus "actores" principais. Não é assim, caro Psicólogo eciano?
- Também julgo exacto, meu Jornalista queiroziano! Não é que a Ilusão é uma aparência feita de aparências? Então, somando todas quantas Eça “empresta” a estas duplas 3 Personagens e a quantas constituem o seu mundo ora normal ora inferior, chega-se a uma inevitável conclusão: - a de que, na fina e mole “areia” de suas “existências”, se vai formando o gérmen da queda, da destruição e da “morte”.
Veja: a maternidade de Amélia, a carta de Basílio, a consanguinidade de Carlos com Eduarda. Que foram senão sementes, nas suas andanças aventurosas, que geraram a aniquilação física e moral, que tarde ou cedo conduziram à destruição deles e delas, à morte também?
- Mas, Caro Amigo, como assim uma tal derrocada sem que a contornem, a sustenham, a desterrem de suas vidas? Diga como foi aqui com o AMARO do “crime”, a LUÍZA do “primo” e o CARLOS da suave “irmã”, que ruíram os ideais de uma vida exemplar,- a honra, a lealdade, a família, a verdade, sem cujos alicerces os  “edifícios” se desmoronaram lenta, sub-reptícia e estrondosamente?
- Todas não é anódino citá-las, mas é subjectivo senti-las… Assim, o Amaro Vieira, a Luíza. o Carlos da Maia e até o Teodorico de “A Relíquia” – aquele “sonho da Paixão” é uma obra-prima entre todos os “sonhos” narrados na Língua de Camões, talvez um supletivo da “Morte de Jesus” de que ficaram “vazias” as belas “Prosas Bárbaras”, meu caro “anteriano”! – jamais se acautelaram em seu pequeno mundo e, como consequência, causaram a desgraça dos outros que o cercavam…
- E isso em psicologia dir-se-ia como uma "frustração" de sonhos idealizados, jamais realizados. Ou não?
- Em psicologia, dir-se-ia que não se precaveram em pensamento, sensibilidade e vontade no estudo consciente do campo onde sua acção e vocação se exerceriam… E, fechados os ouvidos à voz do negro e suspeitoso Destino, só um acontecimento fatal foi o bastante para lhes arrancar a ilusão do sonho, de os desmascarar da indisfarçável mentira, de os prender nas emaranhadas malhas do nada… Depois, é o que resta: a angústia, a queda, a náusea, o NADA… É o Sartre, "le Néant du Néant",  Negação de tudo quanto existe…
- Quer, pois, AURÉLIO, por uma figura ou uma sincrese sua, que as sabe bem formular, com dados ainda mais concretos, apontar com seu “dedo” certeiro qual o “ponto-fulcral” que desencadeou a catástrofe? Tudo se iniciou pela via da IRONIA naquelas levianas aventuras dos “actores” desta verdadeira COMÉDIA HUMANA. Mas, no termo de suas vidas, algumas bem breves e tristes, foi a "catástrofe", a consumação fatal de suas desgraças. Sei que, como Você, ninguém, mo dirá melhor, creia-me, Meu Eciano ROQUE GONÇALVES, também um dos seus cognomes alias bem distintos, não acha?
- Se acho, ANTERO... não de QUENTAL, evidentemente, mas que andou lá perto... Sabe, o sol já vai alto, e o trabalho do Liceu continuará amanhã. E há que preparar as aulas, com documentos - não é que a HISTÓRIA é a "certidão" da Verdade? - e então quanto a outras "perguntas" a gente falaria mais tarde. A manhã, qualquer dia, qualquer hora.
- Sim, caro FILÓSOFO e PSICÓLOGO, assim como o nosso EÇA (o maior do seu tempo, no elogio de QUENTAL), para "rematar" com chave-de-oiro o nosso "bate-papo", só duas brevíssimas "setas" - sobre o "desenlace" ora mortal ora desditoso das 3 "peças" mais romanescas e dramáticas do nosso QUEIROZ.
- Quer-se dizer, para cada um dos três “grossos volumes” que nos ocuparam neste bate-papo, dou-lhe uma “alegoria” interessante. Lembra-se daquela “figura do cavaleiro” que vai passar preocupada da vida, na "garupa" do seu  "corcel!  e "cegando" com sua espada a quem está "descuidado" na sua inerte e descuidada vida. Lembra-se quem escreveu esse soneto célebre?
-Sim, o nobre poeta e historiador D. Francisco Manuel de Melo, o que escreveu também a "Carta de Guia de Casados"? Ou foi o Tolentino?
- Vê-se que anda a par dos clássicos, que nem só dos naturalistas e realistas como o Eça. A figura da morte, nas gravuras medievais, era a de um cavaleiro que, sem ser pressentido, acompanhava o herói muito morosamente em todos os seus caminhos, montada na garupa do seu cavalo, até que uma lança traiçoeira de um inimigo o prostrava de vez… Aqui, em rápido e esclarecido triângulo de exemplos semelhantes, está à vista a interrupção irónica de uma “aventura” que é sempre inesperada – os humanos seres são como que surpreendentemente “apanhados” no auge abrasante de seu festim…
- E, em que “ponto” se adivinha mais esse imaginário “cavaleiro” alumiando a “morte” na ponte de sua espada? Diga-me, caro GONÇALVES, mais nitidamente nos “casos” de AMARO, de LUÍZA, de CARLOS DA MAIA.
- Digo-o, e já, como “li” nesta tríplice e diversa “intriga” romanesca, essencialmente irónico-dramática: - A maternidade de Amélia produz um efeito fulgurante sobre os seus dois cúmplices. E este movimento de surpresa em surpresa ninguém há que lhe resista. É a arte dum grande romancista que, na narração e observação, de imagens, de sonhos e de diálogo, que emprestam toda esta sugestionabilidade ímpar na literatura contemporânea. E o valor “irónico” que se adivinha em todo o pano-de-fundo desta “comédia humana” vem sobretudo de um“encaixar” num acontecimento que parece tão “natural”, factos “extraordinários “ da nossa comum humana existência...
- E, quanto à LUÍZA com BASÍLIO, nesses não aflora mais a “ironia” e até a "sátira", mestre Aurélio?
- Pois onde o há-de ser senão quando aparece aquela funesta carta precisamente numa altura em que ela – e por que não, os leitores? – supõem fechada toda a história do seu adultério. É que no desenrolar de todas aquelas peripécias em redor dos amores secretos no “Paraíso” dos dois “primos”, estamos já esquecidos do pedido do dinheiro que ela, em seu desesperado terror, lhe remete. E mais: - o que ninguém estaria a cogitar - é que, passados meses e meses, ninguém nem nada fazia prever a resposta do seu amante.
- E quanto ao CARLOS com sua “insuspeitada” irmã EDUARDA, o tal “sentido irónico” já não é assim tão fácil de detectar. Ou é, meu caro historiador, aqui o "génio" do maior “psicólogo” ao tempo, no dizer de Quental?
- Seja como diz. Mas não fica sem a resposta que pretende, com sua leve ponta de “insinuação”, sem qualquer malévola intencionalidade, claro, Amigo anteriano da Póvoa.
- Da Póvoa, como o EÇA sempre lembrava ao MARTINS, dos Caminhos-de-Ferro: - "Se fores à Póvoa vai dar um abraço ao santo Antero"... Pois, Aurélio, saiba que ia mesmo, à Rua onde, com ele, Oliveira, e mais 6 Sábios, reunia para "mudar" Portugal e fazer seu Povo mais feliz, pela trabalho e pela justiça... Mas, no caso em questão, onde se distingue afinal algum "raio" de ironia no "amor" insuspeito primeiro, depois consciente e já responsável dos infelizes "apaixonados"?
- Aqui, Antero começa a "catástrofe" dos seus Gregos Tragediógrafos -. Ninguém esperava a revelação do sr. Guimarães, não, senhores. É que poucos leitores curiosos dum desfecho mais ou menos funesto, haverá que queiram saber dos “fios” da teia por vezes irónica por vezes dramática, ou dos últimos fins” desta tão complexa como longa “intriga”.
- Disse os "últimos fins"? Sabe isso, Meu Caro Amigo, aos "novíssimos" da morte, juízo, inferno e paraíso. Vou no rumo certo mesmo com o Carlos da Maia e sua irmã Eduarda, filhos daquela aventureira Maria Monforte?
- Se vai no rumo "fatal", naquele por onde todos enveredarão, e ninguém deles se furtará... Mas, aqui nos MAIAS, penso que poucos leitores terão a perspicácia suficiente para, logo a uma primeira leitura, comparar e aproximar a vida provável de Maria Monforte. com essa aventurosa que foi a Maria Eduarda. E então quando esta conta, tintim-por-tintim, a sua vida tão sofrida ao seu "amante" Carlos da Maia. Estranho, não é verdade? Estranho, porque nem Carlos, nem o seu outro “ego”, o JOÃO DA EGA, viram bem, à meridiana luz, que as histórias das mães (podia dizer só “mãe”, não acha, Simões!) – como que formando dois “lances” diferentes, afinal se confundem ou melhor, se confundiram num “único” drama. E aqui reside, a indisfarçável, a sempre misteriosa, a sempre “hiante” na sua infernal “boca”, a “transcendente ironia do destino”…
Foi por isso que comecei por lembrar que, nesta teia dramática, se pressentia ou se pré-adivinhava de há muito aquela monstruosa revelação do “incesto”… 
- Quer ser, Aurélio, só para concluir, mais claro, menos "misterioso" com este caso "incestuoso", sem ir muito a fundo, que o tema é para outro sítio mais indicado - o do MEU TRÁGICO EÇA?
- Pois é, nem será assim tão pouco anódino e inocente explicar. Repare bem, porque este drama diverge dos outros dois neste sentido: - é que aqui Eduarda e Carlos nasceram do mesmo “ventre” maternal, da estouvada Maria Monforte.
Todas as nuvens obscurecendo a vida de ambos os amantes pareciam fugidias. Mas não. a rigidez do avô, a coexistência de Castro Gomes,  as intrigas de Dâmaso Salcede eram como “nuvens negras” – como essas que vê lá em cima, Professor de Latim e Português – que bem fariam ser “chuva” para as minhas gentes ilhoas! - tais como sobre os horizontes que pareciam de “paraíso” para Carlos e Eduarda… Sim, para tornar verde aquele queimado monte da Baía, o MONTE CARA, sempre escuro como é negro destino...
- Mas ainda não vi - com o cofre que o Guimarães trouxe de Paris, com aqueles pergaminhos! - onde "emerge" o fumo da tal - que chamou - transcendente "ironia" da fatalidade...
- Tem carradas de razão. Olhe! exactamente quando passa o sr. Guimarães com sua “funesta” como ”fatídica” revelação… tudo rui, tudo cai na hora culminante. E aparecem e acordam na alma dos “heróis” as mais profundas e consequentes repercussões.
Porventura, Carlos da Maia teria cometido o crime do incesto e, com ele, provocado a morte do avô se de tudo soubesse antes de idear, com paixão ardente, aquele sigiloso conúbio com a “deusa” de seu coração? Claro que não! 
- Perdão, mestre! E daí onde paira mais o sorriso “irónico” do Fado, se quiser, do tal cavaleiro medieval que passa de porta em porta a marcar o dia e a hora da “tragédia”?
É que a IRONIA de EÇA DE QUEIRÓS tem ainda uma preocupação instante e calculada: - acentuar o contraste entre a extensão dramática dos seus finais e os objectos ou problemas que são a causa inevitável e imediata das “catástrofes”. Este é o ponto “fulcral”, o “eixo” em redor do qual agiram factores que pareciam insignificantes, banais, sem expressão de maior…
- E não pormenoriza? Sei lá, no caso da "Prima" do Basílio?
- É, na LUÍZA, uma carta atrasada que chega na hora certa como uma “bala” perdida… É, no TEODORICO da “Relíquia” uma camisa suja de mulher, amarrotada do vício e da imundície.
É uma velha caixa, nos MAIAS, de lascivos charutos de papéis amarelecidos…
Saem todos do canto do segredo, da sombra do desconhecido,, carregados de vida e prenunciadores da morte… E o contraste destes factos e destas personagens e destas pequenas mas cruciais banalidades é que vincam o tal SORRISO IRÓNICO do DESTINO que paira sobre a nossa pobre existência. 
Você, Antero, sabe mais do que eu como em Esquilo este carácter se processou tão magistralmente, tão genialmente. Talvez mais que em Sófocles ou em Eurípedes… não acha?
- Evidentemente, que estou em sintonia consigo, Aurélio. Pois, se apenas focarmos o caso d’Os MAIAS, dentro da ideia perante a qual os homens tremem supersticiosamente... Eça aí revelou plenamente todo um rumo de acontecimentos que conduzem à explosão de um final de esquiliana tragédia, um motivo profundo de IRONIA, não é verdade? Quer, GONÇALVES, então concluir do “resultado” desse fatalismo sem remédio?
- Vou, sim, concluir para que o Livro que um dia escreverá sobre o EÇA quer IRÓNICO quer TRÁGICO fique com um sinal" meu de que tive no ANTERO num companheiro "metropolitano" que muito quis e muito amou estas minha ILHAS HESPÉRIDES.
 - Mas, Dr. Aurélio Gonçalves, o autor da linda e comovente novela "O enterro de Nhá Candinha" deixe-me uma MENSAGEM para todos os leitores de meu futuro trabalho sobre o meu EÇA poveiro, português e universal QUEIRÓS. Deixa, não deixa?
- Então quer um "fim" em beleza?
- Se quero, meu impreterível AMIGO, meu cordial AURÉLIO, meu incomparável "queiroziano" GONÇALVES.
- Então, eu acabaria assim com esta “conclusiva” sentença: - O fatalismo em Eça de Queirós destrói como um “tufão” – repare no som do furacão destruidor! -, passando com uma ligeireza como a das asas de um condor…  O pouco da felicidade de que a nossa vida se mantém parece-nos de um peso capaz de encher um mundo inteiro.
O próprio Destino – que assim chamamos à boa ou má SORTE ou FORTUNA! -  com seu sorriso “irónico” - mas, afinal de contas, ele nos transcende irremediavelmente,  mostra-nos como são frágeis, como são pouco mais que pó, as colunas do Castelo que tentámos construir para "abrigar" nossas pobres vidas.
Era já à tardinha quando do meu ilustre Entrevistado de São Vicente, um Historiador e Filósofo de Cabo Verde, que tive o privilégio de conhecer, de ouvir, de receber belos ensinamentos sobre o meu IRÓNICO romancista, ouvi tão fantásticas "lições"... - Palavras profundas que de sua boca me foi dado ouvir por 3 horas de maravilhosa Amizade.
Era já no Outono, ano de 1962. E já descíamos a Rua de LISBOA a caminho de nossas moradas, para um merecido descanso. Já da torre da igreja da Senhora da Luz soavam compassadas as 18 horas de uma tarde amena, ali na linda cidade do Mindelo, capital de São Vicente, das amadas "Hespérides" de Camões.
Hoje, à distância dos anos e dos lugares, recordo com letárgica saudade essa figura sempre sorridente de um Colega de uma extrema simpatia e duma inquebrantável amizade. Ele era um perito na História do Portugal do Mundo e creio que terá ficado, no íntimo, - eu conhecia bem o seu portuguesismo” - com uma certa decepção por ver sua ILHA querida hoje tão longe daquele genésico “pensar e sentir" de que me dera mostras bem claras, ele que "alinhava" com esse outro "sábio" das coisas de Portugal, de Roma e da Grécia, um famoso poeta clássico quando assim me declamava sempre que lhe pedia: - (oh! ”ironia do destino!) - e ele - tanto gostava de repetir: -“Se por qualquer estranha hipótese, estas Ilhas onde nasci e que tanto amo, deixassem de ser portugueses, preferia que um cataclismo as devolvesse de novo ao fundo do mar donde vieram apenas para serem portuguesas”.[2]
 Foi precisamente na Praça de Luís de Camões que o "encerrei" por obra e graça do meu querido António Aurélio Gonçalves - o Dr. Roque, como era mais conhecido! -. Decorrido agora mais de meio século desta "entrevista" fantástica - agora tirada do "filme" da memória - os meus leitores dirão se tal "facto" aqui passado a escrito neste meu IRÓNICO E TRÁGICO EÇA - não será mais um “fruto do acaso” do que, por um determinismo natural, uma das muitas revelações dessa "musa" fatal, a tal “ironia do destino” como aqui e ali lhe deu nome o meu conterrâneo celebrado “pobre Homem da Póvoa de Varzim”!...
Ia fazer-se noite, e nós quase a separar-nos com um abraço amigo quando, num rebate ainda oportuno, me lembrei de pôr ao caro AURÉLIO, ainda uma pergunta. Esta seria a COROA de todo um diálogo tão benquisto como o sol que, àquela hora, como que doirava de luz o fronteiro "rosto" da estátua jacente de Washington, o plúmbeo MONTE CARA da baía do Porto Grande, do MINDELO, da ilha "amada" de São Vicente, de Cabo Verde...
Mesmo com minhas mãos nas mãos deste grande Homem do Ensino da Filosofia e da História, assetei-lhe ainda a derradeira" pergunta, precisamente aquela que mais retive e revive em meu pobre coração...  Só esta mais, meu admirável Amigo AURÉLIO:
- Como acha, para COROAR nossa Entrevista, meu Caro Mestre menos "eciano", mais "kantiano", como vê aquele dizer "adeus" ao Carlos da Maia" naquele "posfácio" mais decepcionante que construtivo? 
- Pois é, meu caro ANTERO... que não de QUENTAL. Embora o saiba da terra que este mais amou por causa do Lobo de Moura, juiz da Comarca, e do Martins, director dos caminhos-de-Ferro da Póvoa. Mas, sem me desviar da questão, eu lho afirmo, com o rigor que se impõe:
-“A conclusão d’Os Maias tem um carácter esquiliano… Ao lado da ideia perante a qual os homens tremem supersticiosamente, EÇA mostrou também uma motivação de ironia, porque a facetou de contrastes violentos e a cobriu da vibração de soluços com as estridências de um riso frenético…
Eis a questão deste Final de O MEU IRÓNICO EÇA DE QUEIRÓS em hora de sintetizar, mais exemplificante que teoricamente, o recurso ao seu verbo fulgurante, o uso da sua imagem brilhante, os pormenores de inéditas e sensacionais expressões morfossintácticas, estéticas e exemplificantes. Tentei, assim, demonstrar, pela teoria e pelo exemplo, como foi EÇA um "poeta" da estética “ironia, tal que servindo-se da palavra em seu expressivo "significante" e da frase ou do livro em seu pleno "significado", construiu seus livros tão pletóricos de graça, de hilaridade, de fina ou áspera IRONIA com um justo sentido morigerar os excessos ou os defeitos de uma Sociedade com que coexistiu e em que convivenciou.  São Exemplos fecundos, incontestáveis, aceites pelo grande público, a sua "Campanha Alegre" das FARPAS, o seu "Conde de Abranhos", a sua "Capital", a sua "Correspondência de Fradique Mendes", outros mais,
Mas, se tais produtos se explicam por um sentido muito peculiar das leis do ritmo e da oralidade e pelo uso muito pessoal da palavra em seu "expressivo" significante, - o som, a imagem, a antífrase e o paradoxo, a hipérbole e o eufemismo - não menor valor ganhou em sua prosa variada e melódica o uso da mesma palavra no seu "intrínseco" significado. E, neste âmbito, talvez que o meu IRÓNICO EÇA não veja "rival" num pormenor que poucos analistas da Estética se terão dado conta: - o termo "queiroziano" é o do mais simples e vulgar léxico, de que, por engenho e arte, o grande romancista soube tirar os efeitos mais diversos quer da prosódia quer da oralidade.
Está visto, pois, lido e relido, provado e comprovado, o alto peso, a elevada altura,  que demonstrou EÇA DE QUEIRÓS pela privilegiada arte de suas obras. Nem teoria, ou sistema, ou psicologia, senão as que ele apreendeu dos grandes comediógrafos, clássicos ou modernos, terão melhor explicado como a sua "psicológica" pena, o seu analógico "monóculo" penetrante sobre a Sociedade em que conviveu ou sobre as Figuras com que se relacionou, em breve como pujante VIDA de Homem, de Escritor, de Artista da palavra poética.
Assim finda esta II PARTE. Dum trabalho que muito prazer me trouxe ter levado até seu desfecho. E, se MONIZ BARRETO o classificou como POETA mais do que PROSADOR, é por alguns de seus "versos", ritmados de suave ironia, que me apraz terminá-lo. Versos com que o seu romântico ALENCAR, em hora de constante inspiração, celebrava a alegria do vinho, do prazer e da vida... 
Que o digam Afonso e Carlos da Maia, e o inevitável "ego", o seu diletante e céptico JOÃO DA EGA. Foi, efectivamente, para eles que o grande ALENCAR "gorjeou" este engraçado hino à feminil beleza, e lhes arrancou dos olhos algumas lágrimas de saudade:
 - Pomba da Fraternidade, / Que estendendo as brancas asas / Por sobre os humanos lodos, / Envolve os seus filhos todos / Na mesma santa Igualdade!...
 - Receais a grande luz? / Tendes medo do á-bê-cê?... / Então castigai quem lê., / Voltai à plebe soez! / Recuai sempre na História, / Apagai o gás nas ruas, / Deixai as criança nuas, / E venha a forca outra vez!
À espada sucede o arado, / a Justiça ri da Morte. / A escola está live e forte, / E a Bastilha derrocada. / Rola a tiara no lodo, / Brota o lírio da Igualdade, / E uma nova humanidade / Planta a cruz na barricada!
As rosas têm mais aroma! / Os frutos têm mais doçura! / Brilha a alma clara e pura, / Solta de sombras e véus... / Foge a dor espavorida, / Foi-se a fome, foi-se a guerra, / O homem canta na Terra, / E Cristo sorri nos Céus!...".[3]
 E se a ARTE - como ele afirmou - é que é TUDO e tudo o resto é NADA, e se Leónidas só com Péricles é que combinam bem para a realização da Pólis, e se Aristófanes com Ésquilo é que, unindo-se, exprimem bem a VIDA total, então penso que o MEU EÇA IRÓNICO - a faceta atrás comentada e exemplificada - só será mais excelso e total se, do outro lado da "medalha", se vir, e se sentir, no fundo e na forma, em compreensão e extensão, a "segunda" grande faceta de sua fecunda HUMANIDADE - a de O MEU TRÁGICO EÇA DE QUEIRÓS.






[1] Eça de Queiroz, Os MAIAS, ed. Livros do Brasil, 33ª ed., Lisboa, p.395
[2] J. Lopes da Silva, Escritos Vários, S. Vicente, Cabo Verde, 1962
[3] E. de Queiroz, Os MAIAS, 33ª  edição, Livros do Brasil, Lisboa, pp. 607 e sgs.

Carta semi-aberta a Dilma Rousseff, PR do Brasil

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015


 Excelência:
Respeitosos cumprimentos.
Esta tem a finalidade de trazer à consideração de V. Exa. um assunto que embora  recorrente, muito falado, comentado, criticado com uma frequência que talvez já possa ser considerado saturante, mas que, e infelizmente, pela sua persistência, continua a indignar aqueles que minimamente prezam a Língua portuguesa!
De tal modo recorrente, que já entrou no anedotário lusófono. Pode crer que é a custo, que me debruço sobre ele de novo, temendo  cansar o leitor.
Aconteceu que aqui há dias, vendo o noticiário de um dos canais televisivos de Língua portuguesa e em horário considerado “nobre,” escutei (para meu desagrado auditivo) um dos seus mais proeminentes ministros, referindo-se a si e intitulando-a de: “Presidenta” Convenhamos! Já é de mais! Os nossos ouvidos reclamam e com razão!
Pois bem, trata-se da aberração gramatical do seu título – felizmente provisório, acidental e passageiro - com que Vossa excelência resolveu, decidiu e decretou “brindar” os nossos ouvidos: “PRESIDENTA” (?). Onde já se viu? Com que direito?
Sim! Com que direito? Não sendo a senhora Presidente, autoridade em Língua portuguesa, como ousa e se arroga o direito de deformar as regras gramaticais da nossa bela Língua comum?
O que está a acontecer, configura uma quase falta de respeito ao quadro linguístico da CPLP de que o seu grande país justamente, é parte.
Ah! O saudoso e grande gramático e filólogo Celso Cunha! As voltas que deve dar, de cada vez que ouve “Presidenta” no seu país! Ele que, com outro grande Linguista português Professor Lindley Cintra, tanto fizeram (ambos) em prol e a bem da língua comum!
Posto isto, e desta forma, dúvidas sérias me ocorrem que a Língua portuguesa seja ou, tenha sido  língua materna de V. Exa. (?)!...
E mais, aconselho-a viva e rapidamente que se muna de um colaborador, conselheiro linguístico…não vá V. Exa. lembrar-se de outra “gracinha” do género desta: “presidenta”! A continuar, um dia desses teremos aí um manual gramatical "galhofeiro" da autoria do mandato de V. Exa.
Já agora uma questão, melindrosa e indiscreta: terá V. Exa. estudado as regras por que se rege a nossa Língua? Saberá senhora Presidente que os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em e (regra geral) não são do género masculino? Já ouviu falar de palavras que se classificam morfologicamente de comum de dois? Isto é, usam-se de igual modo tanto para o masculino como para o feminino?
 Que apenas (excepções) isto é, um reduzido número palavras terminadas em e pertence ao género masculino?
Para assim se auto-denominar… o mais provável, ilustre senhora, é que desconheça ou ignore (mas nunca será tarde para se aprender...) que a maior parte dos substantivos e  dos adjectivos, terminados em “e” na língua portuguesa, nem sequer é do género masculino. Ou é do género feminino, ou é comum de dois (que é um subgénero gramatical). Isto é, são termos que pertencem e podem ser usados, conforme o contexto, ora no género masculino, ora no género feminino. Logo, a nossa gramática não é tão monocromática como querem fazê-la parecer. Não, ela possui uma paleta de variantes e de cambiantes de géneros e de subgéneros nas famílias das palavras, organizadas com lógica e que permitem que o falante, mantendo-se dentro das normas, se expresse de uma forma rica e clara!
Fiz ao acaso, um brevíssimo apanhado de algumas das mais bonitas, e também das mais temíveis palavras terminadas em “e” da língua portuguesa, que julgo ser ilustrativo daquilo que venho afirmando.
Ei-las:
A Amizade, a Saúde, a Fonte, a Árvore, a Ave, a Felicidade, a Honestidade, a Dignidade, a Hombridade, a Bondade, a Caridade, a Fidelidade, a Lealdade, a Majestade, a Efeméride, a Nave, a Chave, a Sensualidade e a Sexualidade. Assim também: a Falsidade, a Hostilidade, a Calamidade, a Malignidade, a Catástrofe, entre outras, e mais outras, de uma inesgotável listagem.
Imaginemos agora que a senhora Presidente e os seus altos dignitários desatem por aí a terminá-los em a? Havia de ser um caos gramatical! Não concorda? Creio que sim.
O interessante é que são mais raros, os registos gramaticais de palavras terminadas em “e” pertencentes ao género masculino. Uma mini listagem: Infante, Enxofre, Enxame e Cardume, são algumas delas.
Mas o mais significativo, em termos de quantidade e de regra gramatical da língua portuguesa, são os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em “e” e que se usam tanto no feminino, como no masculino, o tal subgénero chamado, comum de dois.
Assim temos: o, a Presidente; o, a, Inteligente; o, a Ignorante; o, a Estudante; o, a Intérprete; o, a Emigrante; o, a Imigrante; o, a Cônjuge; o, a Herege, o, a Vidente, o, a Regente; o, a Paciente; o, a Pretendente, o, a Cliente, o, a Adolescente; o, a Elegante; o, a Prudente; o, a, Representante; o, a Ardente; o, a Chefe, entre vários outros exemplos que os limites deste texto não comportam.
Como vê ilustre Presidente, a nossa gramática permite ao semantema que denomina a vossa actual função (Presidente da República)) uma ambivalência em termos de género que o torna mais prestimoso e rico no seu uso e no seu significado.
Para terminar esta matéria já muito estafada quer na imprensa escrita, quer na redes sociais, rogo encarecidamente a V. Exa. que não desautorize os bons professores brasileiros da Língua portuguesa, (ao usar presidenta) os quais, nas aulas, se esforçam por bem ensinar a nossa língua comum.
Elevada consideração.
Subscrevo-me




RECONCILIAÇÃO, SIM! INDULTO OU AMNISTIA, NÃO!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nota ao leitor: o texto que se segue da autoria de A. Ferreira foi escrita já há alguns anos e publicado no jornal «Expresso das Ilhas». Na altura, o governo havia levado ao parlamento uma proposta de lei, visando “amnistiar” “indultar” e “reinserir” as vítimas do processo tumultuoso de 1974/75.
A abordagem pareceu ao autor ofensiva à dignidade dos visados por lhes conferir estatuto de criminosos ao “amnistiar” ou “indultar.”
Tudo indica que se repescou o assunto, agora com outra roupagem. A seguir a transcrição do texto:

RECONCILIAÇÃO, SIM!
INDULTO OU AMNISTIA, NÃO!
A. Ferreira
Não tenho o hábito de escutar as sessões parlamentares radio-transmitidas. Mas aconteceu que ao sair de casa e ao tentar sintonizar o rádio do carro fazendo “scan” ter-me deparado com a transmissão de um debate na Assembleia Nacional. Como as distâncias são muito curtas, só tive tempo de reter que o assunto se prendia com a reconciliação. Fora do contexto, interroguei-me sobre quem seriam os desavindos? Pensei cá comigo: Felizmente, nunca tivemos guerra; a crispação social é moderada e tolerável; vivemos uma certa tranquilidade. Então ocorreu-me, embora me parecesse pouco provável, que a questão estivesse relacionada com a malfadada reforma agrária de triste memória. Alguém me esclareceu que a Reforma Agrária não era tida nem achada e que o assunto dizia respeito aos desmandos do histórico e histérico tempo da Independência Nacional; que discutiam um documento do Governo.

De qualquer forma, pensei, é um assunto simpático – Reconciliação. Muito embora me parecesse que o momento poderia configurar oportunismo político - vésperas das eleições legislativas - este seria facilmente esquecido ou relegado para um plano secundário face a dimensão do gesto. É que a reconciliação é um acto eminentemente cristão. Humano e humanizante. Arrasta consigo a ideia de paz, de harmonia. Como princípio, é sempre bem-vinda qualquer que seja o assunto. Daí a minha ansiedade em conhecer o documento que gerara o que depreendi ter sido aceso debate parlamentar no par de minutos que o escutei.

O acesso ao documento, que outro não era que uma proposta de lei do Governo, fez gorar todas minhas expectativas. Comecei por me surpreender por, em vez de um preâmbulo fundamentando as razões da oportunidade e da necessidade de uma Reconciliação, o Governo tenha preferido a comodidade daquilo a que chamou “Exposição de motivos”, que é um conjunto de “flashes”, mais precisamente 13, fazendo jus ao agoirento cabalístico, que quando muito poderiam constituir alguns tópicos ou pistas para a elaboração de uma argumentação politico-filosófica consistente. Pude verificar que o Governo afinal não tinha pernas para um passo tão grande. A terminologia utilizada faz crer que lhe faltava coragem porque estava, ou ainda está, refém de uma herança histórica do partido que o suporta e que era preciso descomplexar-se exorcizando os fantasmas que o atormentam. É assim que, p.e., no ponto 2 dessa “Exposição de motivos”, escreve: Em 1974/75, alguns cidadãos, e de entre eles, funcionários públicos, foram internados no Campo de Chão, e depois expatriados para Portugal, com o fundamento de que constituíam perigo para o processo de descolonização.” (O sublinhado é meu).

Facilmente se verifica que o Governo não procurava a reconciliação, porque a um assunto de tanta delicadeza, complexidade e abrangência política, que buliu com uma condição humana, que transtornou e alterou percursos de vida de famílias inteiras havendo gente que ainda hoje se interroga porque é que foi presa, não se dá tratamento tão ligeiro e leviano. Chamar internamento ao encarceramento de um punhado de compatriotas, durante meses, sem culpa formada, e rebaptizar o Campo de Concentração do Tarrafal como Campo de (internamento) de Chão não é retórica  ou figura de estilo, mas sim uma total desconsideração e desrespeito pela nossa História  e por todos aqueles, sem excepção, que por lá passaram e sofreram na alma e no corpo os efeitos da prepotência, da intolerância e da perseguição.. É uma tentativa pouco séria e pouco elegante de reescrever a História.

Mas o Governo não foi também nobre nem suficientemente elevado, quando no mesmo item nos diz: “Outros foram saneados da Função Pública, sendo os respectivos processos instruídos por duas comissões, sendo uma sediada na Praia e outra no Mindelo, sem o exercício de contraditório, e hoje, dir-se-á, com violação flagrante dos direitos humanos.”
Até parece que em todo o processo a “violação flagrante dos direitos humanos” só se deu com as duas comissões… Endossar as culpas a duas comissões é grave e perverso!!! Puerilmente perverso! Desde quando as comissões decidiram? Quem nomeia as comissões? Quem dá orientações e, às vezes, ordens às comissões? Quem as demite quando não servem? É tempo de começarmos a respeitar os decisores políticos. Não fazer deles inimputáveis, vítimas de consultores, assessores e juristas. Estes também são responsáveis, mas apenas perante o decisor político, pelo cumprimento dos termos de referência e dos parâmetros que lhes foram estabelecidos. Um parecer, uma proposta, é um documento interno. Não vincula o autor publicamente… Pode, inclusive, ser rejeitado liminarmente. É apenas um auxiliar de decisão. É dos compêndios!

Ao tentar escamotear a realidade, com a palavra escrita, o Governo fez um mau registo histórico e, por via disto, prestou um péssimo serviço à História.
O Governo não pode pensar que no processo é apenas mediador, como pretende. É parte. Como o foi nas condecorações. Não pode por isso haver reconciliação se ele insiste em condecorar, e tratar como heróis, os responsáveis directos pelos acontecimentos de 1974/75, que diz condenar, e fazer das suas vítimas criminosos que ora pretende artificiosa e sub-repticiamente “indultar ou amnistiar”.

Fazer a reconciliação apenas reparando materialmente os prejuízos causados é negar a sua essência. A vítima não está a procura de dádivas ou esmolas do Governo em troca da sua honra ferida. Ela quer justiça! A reparação implica também a restituição da dignidade ultrajada. E isto só se consegue com humildade e nunca com arrogância e sobranceria como a manifestada no título do artigo 3º da proposta de lei: “Reabilitação e reinserção na comunidade política”. Talvez, por descuido, não se tenha feito a análise sociológica dos vocábulos “reabilitação” e “reinserção”. Não é abonatória para vítimas… possivelmente se aplica bem a criminosos, a marginais!

Ainda no mesmo artigo – o 3º – há um exercício do absurdo que é o de nivelar as monstruosidades, os desmandos e as tropelias de 1974/75 com as acções praticadas, “na instalação e consolidação da democracia pluralista”, isto é, de acordo com as próprias palavras do Governo, no exercício da democracia. Não é apenas o que popularmente se diz juntar alhos com bugalhos mas sobretudo procurar a quadratura do círculo.

Mas para haver reconciliação, insisto, tem que haver um pedido formal de desculpa. O arrependimento. O mea culpa! O Governo que em nome do Estado faz condecorações para acontecimentos de há trinta anos, em nome desse mesmo Estado tem legitimidade e o dever de pedir formalmente desculpas por excessos cometidos nessa mesma altura. É uma questão de coerência. E o PAICV que se diz herdeiro dos activos do PAIGC deve igualmente assumir a herança dos seus passivos. Noblesse oblige!

Como disse no início deste texto, aplaudo a iniciativa de uma Reconciliação de facto, mas nunca como capa de um pseudo indulto ou amnistia.

In “Expresso das Ilhas” de 09/11/05



VERGONHOSA E INACREDITÁVEL DEBANDADA

domingo, 18 de janeiro de 2015

 Adriano Miranda Lima

Proponho-me falar do que aconteceu à força militar que rendeu, em Maio de 1974, em Mecula, Niassa Oriental/Moçambique, a companhia que eu comandei no local e região durante 2 anos.
O depoimento que se segue não é determinado por qualquer motivação política ou ideológica. Apenas busca uma certa perspectiva da História para lograr a explicação e o entendimento para alguns factos da vida colectiva portuguesa.
Toda a nossa geração e a dos nossos pais nasceram e/ou viveram sob o regime do Estado Novo, sem vislumbrar outro horizonte político senão aquele que Salazar nos binoculava na solidão do seu gabinete em S. Bento. A trindade Deus, Pátria e Família regulava o nosso quotidiano e balizava o nosso destino. Os princípios que o regime nos instilava desde berço procuravam convencer-nos de  que Portugal era “uno” e não se limitava ao território continental europeu. Tudo, na aparência, assemelhava-se a um sonho lindo e legítimo, orgulho da Nação.
Contudo, veja-se que não foi o regime de Salazar o construtor dessa visão e o mentor da sua perpetuação. Essa ideia é de séculos e remonta à época quinhentista, em que o Portugal pequenino entrou para a história universal, descobrindo terras pelo mundo fora e revolucionando a visão que a Europa tinha então do espaço universal. Construiu  um império com domínios territoriais em África, na América do Sul, na Ásia e na Oceânia. Houve alturas em que deu cartas ao mundo, dominando o comércio marítimo internacional até ser destronado por potências de maior envergadura geográfica e demográfica. Mas cometeu erros graves e de consequências irreversíveis, como a  perseguição e a expulsão da comunidade judaico-portuguesa nos reinados de D. Manuel I e D. João III, e mesmo mais tarde, depois da restauração da independência. Ora, os judeus eram os controladores do comércio nacional e da banca de então, com ramificação de interesses em toda a Europa. Além disso, os judeus detinham grande parte do conhecimento científico no domínio da arte de navegação e da cartografia. Foram durante o auge da nossa História uma massa crítica importantíssima. Expulsámo-los e foram colocar os seus serviços a favor de potências que eram  nossas adversárias ou concorrentes no comércio mundial, como a Inglaterra e os Países Baixos. E é a partir daí que começa a decair a grandeza a que Portugal se alcandorara.
Todo este intróito serve apenas para dizer que quando integrámos as primeiras forças expedicionárias à África, íamos convencidos de defender legitimamente parcelas do território nacional. E por elas dar a vida se necessário, como é lema da condição militar. No entanto, a seguir a II Guerra Mundial, as potências europeias colonizadoras haviam iniciado um processo de descolonização, coisa que não passava então pela cabeça de Salazar e do seu Regime. Em fins da década de 1950, começaram a surgir os movimentos de libertação das nossas colónias, encabeçados por nacionalistas, convictos dos seus ideais, uns, ou simples instrumentos de interesses estrangeiros, outros. A partir da década de 1960, intensificou-se a pressão internacional contra Portugal, que, no entanto, não desistia da sua visão unilateral sobre o problema das colónias, jamais aceitando qualquer negociação com os movimentos de libertação.
Os militares dos quadros permanentes e os militares de conscrição (milicianos e praças) que integraram as primeiras unidades mobilizadas para Angola embarcaram nos navios  Vera Cruz e  Niassa imbuídos de um espírito de missão alicerçado no sentimento de patriotismo, até porque a princípio a crença radicada nos espíritos mais lúcidos e esperançosos era a de que a missão das forças militares seria aguentar a posse das colónias, mantendo a ordem e a segurança das populações, enquanto o Governo gizaria uma solução política para o conflito. Isto porque era e é dos livros que as guerras subversivas não têm solução militar, como a História o demonstra à saciedade.
Combati em Angola, como alferes, entre 1965 e 1967, e posso garantir que de um modo geral os militares aceitavam o sacrifício que lhes era imposto.
Mas, a partir de 1970, o panorama começou a modificar-se sob vários ângulos. Os quadros permanentes começaram a dar sinais nítidos de exaustão física e psicológica, desesperando-se por uma solução política, à medida que o tempo passava e o Regime mantinha o mesmo discurso de renitência, cavando cada vez mais fundo o seu isolamento internacional. A oposição política ao Regime fazia o que podia, sobretudo no exílio estrangeiro, erguendo a voz cada vez mais altissonante contra o sufoco  das liberdades  e contra uma guerra colonial sem sentido e contrária aos ventos da História. Nas unidades militares da Metrópole, comecei a notar, sobretudo a partir de 1970, que alguns oficiais milicianos recém-incorporados não se coibiam de emitir, em conversas privadas, a sua opinião contra a guerra colonial. Devo confessar que eu próprio, embora já oficial do quadro permanente, compartilhei uma ou outra vez de alguns desabafos e opiniões, tendo criado  cumplicidade, e até amizade, com um colega miliciano, cujas qualidades humanas e atributos intelectuais muito eu apreciava. Ou seja, o estado moral entre as tropas já não era o de outrora. Desde há alguns anos, começara a diminuir consideravelmente a entrada de cidadãos para a carreira das armas, quer para oficiais quer para sargentos. A partir de 1970, em virtude da falta de capitães do quadro permanente para comandar as companhias operacionais (alguns já iam na segunda ou terceira comissão), iniciou-se um processo de formação de capitães milicianos para o comando das companhias. Entre os cadetes  dos cursos de oficiais milicianos, seleccionavam-se os mais aptos e bem classificados e, após uma instrução de especialidade mais apurada, iam fazer um estágio de 6 meses numa companhia operacional em qualquer das colónias em conflito. Regressados à Metrópole, frequentavam um curso para capitão miliciano, após o que eram mobilizados a comandar uma companhia, graduados no posto de capitão.
No nosso Batalhão, em Moçambique, um dos comandantes de companhia era oficial miliciano dessa formação, tendo eu, por coincidência, sido seu instrutor no primeiro ciclo da sua formação. Refira-se que, embora a sua visível inexperiência, procuraram fazer o seu melhor.  Julgo que não será impertinente considerar que, mau grado a boa vontade e dedicação manifestadas em muitos casos,  os capitães milicianos graduados (de proveta, como então se dizia, por graça) jamais poderiam deter o mesmo capital de experiência e de formação que normalmente reúne um profissional. Nem tal seria de esperar, conquanto justo é reconhecer que muitos desses capitães souberam dignificar o seu posto e a sua missão. Todavia, não fosse esse recurso a que se lançou mão nos últimos 3 anos da Guerra, o Exército ou claudicaria notoriamente ou entrava num processo de  acelerada degradação por manifesta carência de quadros  para o preenchimento da função de comandante de companhia. Vale dizer que esse recurso pode ter servido para adiar a revolta militar de 25 de Abril, já que esta foi, numa primeira fase, a expressão de um descontentamento corporativo, por esgotamento físico e psicológico dos quadros permanentes, agravado por total perda de confiança no poder político. Este parecia apostar numa derrota militar, para poder atribuir culpas do insucesso político às suas Forças Armadas.
Quando integrámos e formámos em Évora as unidades do nosso Batalhão, em 1971, o cenário era mais ou menos o que acabei de caracterizar. Predominava um caldo de cultura político-social  em que já boiavam indisfarçáveis os germes da dissolução de um Regime que fora avesso a  acertar o passo com a História do Mundo. Um Regime desacreditado internacionalmente, incapaz de  fazer uma autognose e de ler os sinais do tempo. E que, sobretudo, parecia relutante em reconhecer o extremo limite de depauperação a que tinham chegado as suas Forças Armadas.

No entanto, apesar do cenário atrás esboçado, lá embarcámos para o Niassa Oriental/Moçambique, convencidos de que a nós, militares, não compete tecer juízos e conjecturas sobre  razões de Estado que são prerrogativa de quem governa, de quem detém o poder político. Ontem como hoje, é este o sentimento de que são imbuídas as Forças Armadas de um qualquer  país democrático. Todavia, o regime não era democrático, dirão alguns. É certo, mas a mentalidade institucional das Forças Armadas estriba-se em princípios éticos que lhes são sagrados e não podem admitir outra postura, a menos que se chegue a um ponto extremo de degradação e corrosão político-social  em que elas não terão outro recurso senão intervir para salvar a dignidade da Nação. E foi isso mesmo que esteve na origem da revolta militar de 25 de Abril, que evoluiu acto-contínuo para uma revolução no sentido literal, como todos sabemos.

Deixámos o Niassa em Maio de 1974, sendo a minha companhia rendida por outra que tinha participado em Lisboa em patrulhamentos de rua que se seguiram ao golpe militar do 25 de Abril. Essa e outras companhias destinadas a render unidades no Ultramar tomaram parte nesse tipo de missões em Lisboa, mas ficaram irremediavelmente marcadas pelos germes da revolução, tanto no bom como no mau sentido. Do mau apercebi-me logo quando a recebi onde estava, no mato profundo. Os soldados e alguns quadros inferiores apresentaram-se com pouco aprumo militar e denotando um comportamento a descambar para a indisciplina, não tardando a reparar que o comandante da companhia e os subalternos estavam aparentemente fragilizados. Na véspera de deixarmos o local, um soldado, minha ordenança, disse-me: “Sabe, meu capitão, os gajos desta companhia andam a dizer que quando saírem os “velhinhos” vão mostrar ao seu capitão e oficiais como é que vão ser as regras”. Fiquei estupefacto e não me surpreendeu, um ano depois, tomar conhecimento de um inacreditável episódio ocorrido com essa companhia, que passo a narrar.
Um certo dia, e quando as negociações para a descolonização estavam ainda em curso, uma força da FRELIMO aproximou-se dos arredores do quartel dessa companhia, com intenções não muito claras mas em que talvez não houvesse qualquer propósito bélico. Os furriéis e os soldados, na sua maioria já “revolucionários”, temeram o pior e resolveram o inconcebível. Prenderam o seu capitão e os oficiais subalternos e, precipitadamente, embarcaram em todas as viaturas disponíveis, fugindo desordeiramente em direcção à localidade mais próxima, uma povoação chamada Marrupa, onde havia um comando de Batalhão. A população local, temendo o pior, optou também pela debandada, ela que antes depositara toda a confiança na força militar antiga e suas antecessoras, com as quais, aliás, conviveram sempre em  harmonia e sem incidentes. Os que puderam enfiaram-se no espaço sobrante das viaturas militares, outros fugiram mesmo a pé, nomeadamente os guardas cipaios (guardas administrativos), que mais do que ninguém teriam razões para recear represálias da FRELIMO, visto que não só serviram o administrador civil  local como foram os guias no terreno da maior parte das operações militares. O administrador ficou no seu posto, aguardando o desfecho dos acontecimentos. Muitos anos mais tarde, viria a encontrá-lo em Lisboa e contou-me mais pormenores do acontecimento, que agora não vêm a propósito. Disse-me que não foi molestado pelos homens da FRELIMO e que estes confessaram a sua perplexidade pela debandada dos militares  e de grande parte da população. Ao ouvir tudo isto, fui invadido de uma enorme tristeza ao lembrar-me daqueles guardas cipaios que nos guiavam pelo mato dentro nas operações militares, numa relação de mútua confiança e lealdade. Como foi possível abandoná-los? Em Moçambique como na Guiné ou Angola? Então pronunciei intimamente esta sentença: um povo que se respeita e se orgulha da sua História jamais poderia cometer semelhante ingratidão e cobardia. Uma vergonha!

Isto que acabo de contar é, de facto, um minúsculo exemplo das razões que levaram o insuspeito historiador António José Saraiva (1917-1993)  a escrever estas palavras no artigo que publicou no Diário de Notícias em 1979, intitulado “O 25 de Abril e a História”:

 “Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril. Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa. Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas:

Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar;

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.”

O que é dito por António José Saraiva, ou apenas insinuado, faz-me lembrar as seguintes palavras do general Franco quando lhe deram a notícia do golpe militar ocorrido em Portugal: “Ah, não vai acontecer nada de importante porque eles são cobardes”. Ou foram estas as palavras do Caudilho ou foram outras similares, mas a acusação de cobardia era bem explícita e intencional.
Ora, se tem algum cabimento a afirmação, caberia a alguém mais capacitado passar em revista este libelo de cobarde e encontrar-lhe possíveis causas psicológicas, sociológicas ou antropológicas, ao passo que o desabafo de Franco poderemos também ter de o pôr na conta de um qualquer insanável recalcamento que a história do conflito entre os dois povos peninsulares explica sem margem para dúvidas. Penso que qualquer historiador isento poderá fazer toda a sorte de extrapolações, mas certamente que o apodo de cobarde em lugar nenhum encontrará razões para se colar ao povo português.
Dito isto, e uma vez que, para António José  Saraiva, o 25 de Abril terá feito eclodir as nossas fraquezas, inclusivamente a da cobardia, parece assim implícito que a “longa noite fascista” teve ao menos o mérito de uma domesticação psicológica, a ponto de obnubilar debilidades congénitas porventura ignoradas ou simplesmente adormecidas. Retrocedendo aos tempos do ante-Liberalismo, séculos e séculos sucessivos,  e por análogo raciocínio, será lícito perguntar se não foi a ausência das liberdades políticas  que permitiu páginas da história portuguesa em que tudo se pode encontrar menos cobardia, pusilanimidade ou conformismo com o destino.
Bem, pode ser prematura a extrapolação, mas é bem possível que tenhamos uma certa dificuldade genética em lidar com a democracia e as liberdades cívicas, pois que é a partir do Liberalismo que os nossos problemas parecem começar a agudizar-se, pela simples razão de, no confronto livre e aberto de ideias, raramente alcançarmos a percepção de que para lá das divergências ideológicas prevalece inapelavelmente o interesse nacional. Salazar percebeu isso e se não colocou o país entre os mais prósperos da Europa teve ao menos o mérito de reorganizar uma casa que a I República deixara em fanicos. Nenhum historiador pode negá-lo.

Pois, cabe perguntar  por que razão os mesmos militares, filhos do mesmo povo que, estoicamente, aguentou durante 13 anos uma guerra em 3 teatros de operações, viriam a ter comportamentos tão indignos de si próprios como da sua História?  Culpa dos militares e do povo?  E podemos rotular de cobardes muitos comportamentos indignos que macularam a honra de alguns sectores das Forças Armadas naqueles acontecimentos que já se perdem na memória dos 35 anos já decorridos?
É muito complicado psicanalisar certos comportamentos gerados pela confusão e complexidade dos fenómenos sociais, mas não evito denunciar esta tríade de razões: imaturidade cívica; ausência de um vincado sentimento nacionalista; inaptidão genética para viver responsavelmente em democracia. Porém, o que posso assegurar é que em duas comissões em África, uma em Angola e outra em Moçambique, nenhum soldado meu evidenciou alguma vez atitudes ou comportamentos sintomáticos de cobardia. Medo da morte todos o temos, em maior ou menor grau, pois faz parte do instinto de sobrevivência. Mas o soldado português, dum modo geral, segue atrás do seu superior se ele for o primeiro a dar o exemplo perante o perigo. Era eu um jovem alferes, e ouvi a um coronel velhote (de outros tempos) dizer que o soldado português não morre pela pátria, mas sim pelo seu superior. Penso que esta afirmação diz tudo sobre certa idiossincrasia nacional.

Ora, o que aconteceu em Mecula, região onde soubemos honrar a nossa condição militar, é que essa companhia que nos rendeu já não tinha qualquer exemplo a seguir. Nem provavelmente entre os seus quadros, nem, sobretudo, na estrutura hierárquica das forças armadas. Tudo ruiu estrondosa e repentinamente. Não sei ao certo, mas presumo que ninguém dessa companhia foi julgado por cobardia, traição e deserção, e que tudo ficou em águas de bacalhau. Pois claro, a partir de certa altura, quem ainda tinha moral para julgar as fraquezas de outrem? Os casos de vergonha nacional foram então muitos, e o do Timor foi um dos que mais nos fizeram corar.

Em 25 de Abril, o Partido Comunista português, conforme disse e bem o António José Saraiva, achou que devia hipotecar os interesses do seu país às estratégias expansionistas da União Soviética. Com isso, influenciaram e conspurcaram a mente de alguns militares e a mancha depressa se propagou contaminando as Forças Armadas, até que um rebate de consciência institucional e nacional permitiu trazer de novo a ordem para onde se instalara a confusão e o desnorte (25 de Novembro). 
Hoje, passados 35 anos desde a restauração das liberdades, compete-nos reflectir, discutir, escrever. É o que fez o António José Saraiva nesse seu artigo. Disse ele ainda: “as nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente”.
Penso que, se analisarmos a história do século XX, o seu último quartel poderia porventura oferecer-nos razões para algum optimismo e esperança, pelo simples exercício de comparação e sopeso de factos e acontecimentos vistos na sua relação causal e sequencial. A I República soçobrou e justificou um longo regime autoritário, adiando as esperanças de uma democracia liberal como as outras europeias. O 25 de Abril abriu uma porta e por ela lobrigámos caminhos que vêm sendo trilhados com erros de percurso, sim, mas seguramente com alguns sucessos. Trinta e cinco anos de vida democrática é já um tempo de continuidade que nos dá um certo conforto e confiança, ainda que não possamos deixar de o pôr na conta da salvaguarda que é a integração europeia. Golpes militares e aventuras antidemocráticas ficaram assim mais afastados do nosso horizonte doméstico.
No entanto, reconheço que permanecem ainda alguns sintomas da nossa histórica dificuldade em lidar com a democracia, sendo prova disso o uso desmedido e irresponsável que alguns continuam a fazer das liberdades, assim como a radicalização das querelas e conflitos partidários. Mas estou seguro de que estes 35 anos que passaram são irreversíveis na sua marcha. Com as dificuldades normais de percurso, com as crises e as conjunturas adversas, vamos por certo aprender continuamente, amadurecer a nossa consciência colectiva, corrigir os erros, tornar cada vez mais sólidos os ganhos e as conquistas, rumo ao futuro. E, sobretudo, é tempo de parar de lastimar e lamber feridas constantemente.



Tomar, Abril de 2009

Adriano Miranda Lima





O nosso 13 de Janeiro...Sempre!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Pois é, o 13 de Janeiro! Decorria o ano de 1991. Que Domingo de fortes emoções! Já lá vão 24 anos.
É que se tratava das primeiras eleições realizadas em Cabo Verde em que cada cidadão votou com alternativas para escolher, em liberdade.

Nunca o “ou/ou” havia soado para o cabo-verdiano democrata com tanta profundidade! Ter opção, poder escolher ou o Partido A ou o Partido B.

No caso a escolha foi entre o MPD (Movimento Para a Democracia)  e o PAICV (Partido Africano Independência de Cabo Verde) e isso já fazia uma diferença imensurável! Não interessa o resultado. A grande vencedora, sem qualquer dúvida, foi a nação cabo-verdiana, a democracia.

Se é certo que as alegrias compensadoras, para aqueles que nunca aceitaram o império de Partido único, vinham conhecendo um crescendo desde a famosa abertura política no país, legalmente instituída em Fevereiro de 1990, com a queda, a abolição, do famigerado Artigo 4º da primeira Constituição cabo-verdiana de 1980, que proibia a existência de qualquer formação política que não fosse o PAIGC; também não é menos certo, que se atingiu o rubro dessa imensa alegria, a 13 de Janeiro de 1991 do século vinte, cerca de dezasseis anos depois da independência deste Arquipélago, pois foi naquela data que o cidadão cabo-verdiano, pôde provar o “gosto” e o direito que sempre lhe negaram de ser ele próprio a escolher os seus legítimos representantes.

Por esta razão, o 13 de Janeiro é, e será sempre um marco, uma divisória, entre um antes (confinado à ditadura de Partido único, sem a garantia das liberdades fundamentais, individuais) e um depois (em que foram estabelecidas por via do voto cidadão e da Lei fundamental, todas essas garantias).

Para a geração actual, tudo isto pode parecer como dado adquirido. Sem custos, ou de forma natural.

Mas para nós, os mais velhos, que sofríamos com isso e que sempre prezámos a democracia, sem qualquer adjectivação, o 13 de Janeiro de 1991, representou um ganho imensurável! Reitero.

Para finalizar o meu louvor ao 13 de Janeiro, não resisto a relembrar os conhecidos versos de Fernando Pessoa do seu fabuloso livro: «Mensagem».

“(…)Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor!
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu!”

Viva o 13 de Janeiro!

Do Dr. Adriano Lima recebi um comentário oportuno, pertinente e bastante conceptual sobre o assunto. Por ter gostado muito e por o seu conteúdo, na linha de outros comentários seus, ter enriquecido o texto que o motivou, publico-o desta forma para o tornar visível ao leitor.

Blogger Adriano Lima disse...
Dr.ª Ondina Ferreira, todo o cabo-verdiano minimamente esclarecido e de boa consciência tem de se juntar a si para acrescentar força a esta vibrante proclamação: “Viva o 13 de Janeiro!”. E também de lhe agradecer a lembrança da efeméride.
Para já, como não vivi nem assisti ao nascimento do Cabo Verde independente, o qual, por sinal, só revisitaria em 2002, talvez nem sequer tenha o direito de falar sobre o que deve ter sido a vida dos meus conterrâneos privados das liberdades cívicas com que sonharam sob os auspícios do 25 de Abril.
É com certa perplexidade, se não com estranheza, mesmo a esta distância dos acontecimentos, que se relembra esse Artigo 4º da Constituição, “que proibia a existência de qualquer formação que não fosse o PAIGC”. Alguns, invocando uma visão pragmática da realidade, costumam justificar aquela medida com o facto de o nosso povo não estar então preparado para a democracia e com a alegação de que a criação das estruturas do novo Estado só teria condições de efectiva realização em clima social de unicidade política. Mas creio que o que se seguiu 16 anos depois foi a melhor resposta à dúvida cautelar sobre a maturidade cívica cabo-verdiana. Outra questão diferente será o saber se o Estado não se constituiria do mesmo modo na vigência dum sistema demo-liberal. Sendo justo reconhecer que o Partido agiu bem nesse capítulo, será, no entanto, interessante especular sobre o que teria acontecido num ambiente político plural.
Seja como for, toda a justificação então alegada pelo PAIGC fica fragilizada, se não envergonhada, se tivermos em conta que a abertura política foi uma imposição da comunidade internacional e não uma decisão voluntária do Partido. Não fosse a queda do Muro de Berlim, é natural que as coisas continuassem na mesma, adiando-se para as calendas gregas a livre e espontânea abertura política interna. A resposta deu-a e continua a dá-la o povo cabo-verdiano, que, muito justamente, é apontado como um exemplo em África.
Mas, enfim, a História daquele período fez-se como se fez e agora só resta tirar ilações. Fica-nos é uma dúvida. Como teria sido a vida do país se não se tivesse matado à nascença a expressão pluripartidária que ousou manifestar-se nos meses que se seguiram ao 25 de Abril?
Agora, é importante assinalar que toda a gente aprendeu alguma coisa e que o próprio PAICV soube transitar sem sobressaltos da autocracia para a democracia. 
Posto isto, com muito gosto, aqui vai: Viva o 13 de Janeiro!

14 de janeiro de 2015