terça-feira, 21 de abril de 2015

Breve nota explicativa
A crónica que se segue é um inédito de Maria Margarida Mascarenhas e que chega ao «Coral Vermelho» pelas mãos amigas de Adriano Miranda Lima.
Maria Margarida Mascarenhas, cabo-verdiana, natural de Mindelo. Aí fez os seus estudos liceais.
Formou-se em Portugal em Turismo e Línguas.
 Escritora com muita vivência da cidade da Praia, que se tornou no “habitat”  criativo por excelência, de quase todos os seus contos.  Autora conhecida e apreciada pela forma de narrar em que  alia a arte de contar à linguagem poética. Exemplos disso, os contos: «O Baptizado da Hirondina» «Vigília» entre outros. MMM ainda jovem, iniciou-se nas lides literárias. Data dos anos 60 do século XX, a sua estreia no antigo Boletim Cabo Verde. Igualmente colaborou no «Seló –página dos novíssimos» publicado no Jornal Notícias de Cabo Verde em 1962. Autora do livro de Contos, «...Levedando a Ilha», publicado em 1988. Figura em antologias e colectâneas de Contos. É uma das contistas presentes no «Elas Contam...»2008, edição do IBN de Cabo Verde.

 

 

AQUELA ACÁCIA

 

 

Encontrei-a na véspera do Natal de 2004,  naquela esquina da Rua do Corvo para a Rua dos Correios, por detrás da Catedral  no Platô,  e o meu coração descontrolou-se  acompanhando o badalar dos sinos.

 

Conheci-a pequenina quando lá foi plantada  e a rodearam de um bidon velho nos começos dos anos sessenta.  Havia uma campanha promovida pelo director da Fazenda Pereira e Silva, que plantou rosas na Praça Alexandre Albuquerque e acácias pelas ruas.

 

Lembro-me, entre tantas críticas, a do Belmirinho, que me disse que as acácias  desertificam tudo em redor.

 

Mas aquela acácia  ainda lá está  resistindo. Graças a uma daquelas relações estranhas que se desenvolvem entre seres e animais, seres e coisas, pessoas e criaturas.

 

O sol quando se põe em África faz, fazia, nascer aquele desamparo  difícil  de suportar de que o meu pai sofria e creio que eu também.

 

 Regressava do trabalho,  dava umas voltas no passeio em frente à nossa casa assoprando aquele maldito “falcão” que o mataria anos mais tarde.  Eu ficava por detrás das persianas  vendo-o  e divertindo-me um pouco com aquele desespero até que plantaram aquela acácia que passou a ser a razão  dos seus passeios.

 

Nas noites ventosas e de ruas desertas, lá estava ele resmungando,  compondo o bidon,  derrubado e amparando os ramos da árvore, por vezes furioso  com o vandalismo dos  meninos e dos cães. Depois dos bidons, puseram umas ripas de madeira e lá ia ele arranjar e endireitar após cada curta volta no passeio.  Por vezes, entrava em casa e levava um jarro com água para regar a árvore.

 

Partimos todos e esquecemo-nos da arvorezinha.

          

Qual não foi a minha surpresa naquela véspera de Natal ao deparar com a acácia que agora já é uma árvore!

Se por detrás de todas as acácias houvesse uma vontade de vencer e resistir?

           

Peço a todos os que leiam este relato que ao passarem naquela esquina  prestem uma homenagem por mim àquela acácia e ao seu  amigo. Mesmo que se riem de vós como eu me ria do amigo.

            

Aliás, prestem homenagem à luta e à resistência de todas as acácias! Quando mais retorcidas melhor.

                                     

                                              

                                                M.M.M

 

                     (Maria Margarida Salomão Mascarenhas)

 

 

 Maria Margarida Salomão Mascarenhas nasceu no Mindelo em 1938. Neta de Francisco Resende Mascarenhas, foi funcionária pública, primeiro em Cabo Verde e depois em Portugal, onde vivia desde 1964. Colaborou no Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação e, depois da Independência de Cabo Verde, na revista Raízes. Foi a primeira coordenadora do boletim da diáspora cabo-verdiana, em Lisboa, Presença Crioula, que depois mudou o nome para Presença Cabo-verdiana (órgão da Casa de Cabo Verde). Faleceu de doença prolongada em 8 de Janeiro de 2011.

 

"Como Cultivar a cidadania na escola?"

domingo, 19 de abril de 2015

 

 
O título não é da minha autoria. Explico-me: fui convidada recentemente pela Associação dos Professores Católicos de Cabo Verde, para participar, numa tarde  de Sábado, num debate à volta do tema: «Como cultivar a cidadania na escola?».

Embora  sob epígrafes vários, mas próximos em termos de conteúdo, o tema tem vindo a ser recorrentemente tratado nos meios educativos.

Não obstante, suscitou o meu interesse pela forma como a APC. pretendia agora abordá-lo, não o queria como ponto assente em termos de pertença natural da escola,  mas antes, interrogar-se: como cultivar a cidadania na escola?

Entendi-o também como um desejo implícito da Associação, de que valores e educação voltassem a ser parte integrante da nossa escola.

Da minha parte, lá fui à procura de alguns eventuais contributos que pudessem minimamente  juntar-se aos dos outros participantes e ajudar a mim própria,  a entender algo que à primeira vista  podia parecer até óbvio, uma vez que em  perspectiva conjunta estaria um trinómio indissociável Escola/Educação/Cidadania. Esta última há-de funcionar como  meta almejada pela escola - na difusão do seu saber, do saber/ fazer. Ou seja, a cidadania, saber/ser, como ponto de chegada do processo educativo e formativo da criança e do adolescente.

Ora bem, olhando, com realismo, para a configuração actual da sociedade cabo-verdiana e fazendo uma breve retrospectiva histórica, da independência a esta parte, algumas questões se me colocaram e se me colocam, tais como: a educação é actualmente uma obrigação, um dever da escola? A questão assim posta pode parecer paradoxal.

Mas se nos ativermos no transcurso destas últimas quatro décadas e sobretudo nos primeiros anos de vivência enquanto país, Cabo Verde,  não obstante todo o meritório e digno trabalho levado a cabo no sector da educação, com vista à sua edificação, no entanto, à escola foi-lhe transmitida a directriz  primeira, de que só lhe cabia o ensino das matérias curriculares. A educação, “lato senso” caberia e algo difusamente, ao Estado e possivelmente também à família (embora esta estivesse ao tempo, ideologicamente secundarizada pelo primeiro).

Mesmo que fossem orientações dos primeiros conturbados e interrogativos momentos do país na procura de caminhos o que é certo é que a ideia vingou.

Na esteira desse (des)acerto educativo, os professores como que se tolheram com receio, de que uma advertência, de que uma chamada de atenção ao aluno com propósitos educativos não fossem bem-vindos. A pouco e pouco, a boa educação, os valores por nós julgados muito úteis no desenvolvimento cívico e social da criança e do adolescente foram gradualmente desaparecendo da sala de aula, tanto da fala do professor como do comportamento e da atitude do aluno.

Claro que o tal Estado que havia de fornecer, não se sabia muito bem como, a educação, os valores, nunca deu o “ar da sua graça”! e instalou-se uma espécie de grande vazio, e gerou-se também, vale dizer, uma certa apatia, um certo comodismo, no meio disso tudo.

Resumindo, foi um tempo de demasiada descompressão e de muita permissividade; valia na aula o dito “professor-camarada” no mau sentido. Portanto, quando voltou o equílibrio, pelo caminho, perderam-se os já referidos valores.

A escola deixou de chamar a si, pariticipativamente, esta transcendente reponsabilidade social.

A marca ficou, entranhou-se no comportamento escolar, o hábito gerou o resto e resultado: nunca mais a educação e os valores voltaram a ser partes estruturantes, equitativas e fundamentais, da escola cabo-verdiana. O que é uma pena!

Pois bem, a educação e o ensino que deviam ser, dado o caso particular da configuração familiar e social cabo-verdiana, como  frente e verso de uma mesma folha de papel, estão hoje completamente divorciados uma do outro.

 Do mesmo modo, a escola que devia ser um modelo ideal de transmissão de valores, principal expoente da educação dita formal, foi ficando cada vez mais vazia  e encontra-se actualmente, desprovida de valores.

A família  com destaque para a oriunda da base bem larga da nossa pirâmide social, isto é, do extracto social menos qualificado em termos de rendimentos, de literacia e de cidadania, com complexos e graves problemas de desestruturação, de disfuncionalidade, de monoparentalidade, não possui capacidade endógena de, no lar, possibilitar essas “ferramentas” básicas e fundamentais à criança no seu processo de socialização e de crescimento.

Resultado, o aluno chega à escola, sobretudo aquele que se dirige à escola pública, com etapas queimadas; ignorante de noções básicas de boa socialização, pois em casa, na chamada educação não-formal, quase que não teve contacto com adultos capazes de  influenciar positivamente o desenvolvimento do seu carácter e do seu sistema de valores ( nomeadamente, a ausência da figura paterna que é gritante na família cabo-verdiana da camada social menos favorecida).

Ora estes dois males, por um lado, a desmunição de valores que a própria escola apresenta e, por outro lado, o desconhecimento assaz penoso de noções básicas de sociabilização com que aluno entra na sala de aula, penalizam, reduzem fortemente, o aproveitamento e comportamento académicos e no seguimento, inibem o seu desenvolvimento e a sua formação como cidadão.  

 Infelizmente, e não é por acaso, que Cabo Verde vive actualmente nos seus centros urbanos, sobretudo na cidade capital,  a maior crise de sempre, de delinquência e do crime juvenil.

 Perante esta realidade, perante estes sinais tão alarmantes e tão preocupantes, a atenção vira-se agora para a escola, como última esperança, o último baluarte,  que despiste, que corrija e que debele esta crise sem precedentes que se abateu sobre larga faixa juvenil da população. 

Qual é, qual deve ser o papel da escola? Como cultivar a cidadania na escola?

É o desafio que nos lança agora e em boa hora, a Associação dos Professores Católicos de Cabo Verde, APC.

Só através de um trabalho sistemático, estruturador e consciente, realizado no interior da comunidade escolar, isto é, da escola - enquanto instituição que realiza a instrução e a  educação - dos professores, dos pais e encarregados de educação, dos alunos, e coadjuvados por associações e fundações da sociedade civil, enfim, por agentes próximos e activos e mais contributivos para a causa da Educação.

 Só assim conseguiremos que, por um lado, na sala de aula, no corredor e no pátio da escola se construa e se viva a cidadania, nos gestos, nas atitudes, nos comportamentos prof/aluno, aluno/prof, prof/prof, aluno/aluno. Isto é, a escola ser geradora de cidadania. Por outro lado, a escola virar-se, abrir-se em atenção à comunidade onde se encontra implantada; à sociedade e ao mundo que a rodeia e deles colher exemplos de boa prática de cidadania para sobre  isso reflectir e difundir na própria escola.

 Finalizando, devemos aproveitar, como alguém já disse e bem, os momentos do achamento do “eu” que a escola proporciona ao aluno e neles cultivar a cidadania.

Parabéns à sociedade civil cabo-verdiana

domingo, 12 de abril de 2015
Pois bem! Nós − Ondina e eu − estávamos a cumprir uma assertiva e interessante observação que um bom amigo meu um dia me fez citando, dizia ele, um outro amigo dele: “Os avós são o único electrodoméstico de uma família que não pode avariar-se”. E lá fomos nós… diga-se de passagem com muita satisfação, “ficar” com os nossos adoráveis e irrequietos netos. Por isso não estivemos presentes para assistir, para tomar parte numa das mais importantes manifestações (normalmente não sou de manifestações públicas meramente por agorafobia, embora ténue) assumidamente da sociedade civil contra uma das mais vergonhosas e escabrosas tomadas de decisão da classe política cabo-verdiana. 

A classe política dirigente no seu TODO. Ninguém nem nenhum dirigente partidário pode, como sói dizer-se, tentar passar por entre os pingos da chuva. A borrada está feita e são todos, sem qualquer excepção, responsabilizados. Principalmente os do topo. Nenhum dirigente político partidário poderá eximir-se de responsabilidades.

Já se escreveu muito sobre isto. Não penso trazer qualquer novidade mas apenas registar a minha vergonha pela nossa classe política dirigente – aqueles que recebem ou esperam receber do Estado recompensas chorudas (à escala do País) pelo seu dito “trabalho cívico” – e a minha profunda indignação por esse comportamento tão egoísta, cínico e insensato que esses nossos dirigentes políticos exibiram. Finalmente levantaram o véu. Bem interpretou o Mestre Baltazar Lopes o provérbio “a ocasião faz o ladrão” quando nos dizia que “a ocasião não faz o ladrão mas sim, revela o ladrão que já lá estava”. Atenção que este aforismo é aqui usado apenas como uma metáfora e nada tem a ver com a honradez dos políticos da qual não posso nem devo duvidar e nem se enquadra no objectivo deste exercício. Após esta breve chamada de atenção, continuo:

O mais grave, e que causa espanto, é que não se trata de uma atitude irreflectida, espontânea, ou feita sobre os joelhos em que se possa – dirigente político − alegar ignorância ou desconhecimento prévio. Foi um assunto acertado não só nas jornadas parlamentares entre os deputados de cada partido com os respectivos líderes partidários mas também, aceite na conferência ou reunião de líderes da Assembleia Nacional

A lei já vinha sendo cozinhada há muito tempo, nas costas do povo, com o acordo tácito de todos os partidos com representação parlamentar, sem olhar minimamente aos condicionalismos políticos e económicos que enformam a conjuntura universal e à situação económico-financeira do País que tanta crítica vem merecendo da oposição. Uma oposição que nem sequer tinha necessidade de se associar ao evento... O PAICV tem uma maioria que lhe permite sozinho fazer passar todas as leis. Ou seriam necessários dois terços? E nenhuma oposição atenta e alternativa de governação se associa à situação, ao partido no poder, para votar uma lei impopular ou potencialmente polémica, mesmo que este facto configure demagogia. É de La Palice!

É verdade que o comportamento do Governo e do PAICV com o autêntico “bodo aos pobres” que é essa coisa de pensão e regalias aos “combatentes da liberdade da pátria” muitos maquiavelicamente descobertos quarenta anos após a independência, estatuto este, humilhante e oportunisticamente aceito e celebrado por alguns deles, é nítida e profundamente encorajador para derivas fantasiosas e deu o “mote” para uma incursão do tipo a que acabamos de verificar.  

Mas são esses mesmos políticos que há escassos meses recusaram um aumento de 3% à polícia que hoje conseguem − imagine-se! − ter moral para legislar em proveito próprio aumentos e regalias substanciais para o seu bem-estar actual e futuro. Que conclusões a tirar da classe política? Uma, que se consideram cidadãos especiais que estão imunes e indiferentes à situação do País? Outra, que estão muito mais preocupados com o seu bem-estar pessoal do que com o dos outros cidadãos que representam e juraram defender os interesses? Há, eventualmente, outras hipóteses que não caberão, em linguagem e conteúdo, num texto deste género. 

Não está em causa se a classe política merece ou não, mas se é sensato, se é oportuno e se é moralmente aceitável. Uma questão de valores e de equidade!...

Os titulares dos cargos políticos que são directa ou indirectamente eleitos pelo povo são normalmente “voluntários em comissão cívica de serviço” e têm ou deviam ter um carácter transitório que a lei lhes confere. É esta perspectiva – transitoriedade – que deve ser encarada e não a de profissionais bem remunerados desses cargos o que não lhes impede de os exercer indefinidamente, por renovação através do voto, se o povo assim entender. Infelizmente no nosso país votamos em partidos e não em pessoas ou personalidades, misturando deste modo, alguns bons com muitos medíocres, o que faz com que os clientes partidários, aqueles que não encontram respaldo nas suas profissões de origem prefiram o “exercício cívico” tornando-o, eles próprios, cada vez mais apetecível para se eternizarem nessas funções. É simplesmente imoral!

O aumento do salário e regalias dos titulares dos cargos políticos deveria constar dos programas eleitorais dos partidos políticos para que seja previamente sufragado pelo voto. Nenhum deputado ou programa de governo foi explicitamente mandatado para esse efeito – juiz em causa própria. Legalidade não é legitimidade.

Os líderes dos dois grandes partidos portaram-se ambos muito mal. Não falarei do chefe do Governo que é militante de base e, aberrantemente, é também chefe da líder do seu partido numa questão fundamentalmente “partidária” – governação. Cabo-verduras!... 

Assim, dos dois, nenhum pode apontar o dedo ao outro. Ambos estiveram muito mal na fotografia.

O líder da oposição porque não soube tirar partido de uma medida que era nitidamente antipopular pelo estado crítico do País que ele mesmo não se cansa de frisar mostrando-se deste modo incoerente e inconsequente. Não foi competente, não foi politicamente inteligente, não teve a lucidez, a argúcia e o arrojo intelectual dos verdadeiros líderes, sobretudo de um líder de oposição e deixou-se levar pela ganância dos seus pares. Ou então foi muito mal aconselhado e deve daí tirar as suas conclusões e agir em conformidade. A Oposição infelizmente perdeu uma oportunidade de ouro para marcar pontos, fazer a diferença e exercer efectivamente oposição para o qual foi mandatada.

A líder da situação também não ficou bem na fotografia porque sabe tão bem como qualquer cidadão minimamente informado que nenhuma lei pode passar na Assembleia Nacional sem a concordância e o aval do partido que ela dirige – o PAICV. É responsável político de tudo o que se passa no PAICV. Dizer-se contra a lei ou alegar desconhecê-la previamente não a abona nem a beneficia absolutamente nada. Antes, demonstra que ela não tem força para dirigir o seu partido onde, pelos vistos, a sua opinião não é tida nem havida em conta. Também significa que desconhece, o que é muito grave, o que se passa no interior do seu Partido e não tem pulso no seu Grupo Parlamentar. Não o tem também na sua Comissão Política que coordena muito mal pois esta devia emanar orientações ao seu Grupo Parlamentar que parece ignorá-la de todo. Não poderá, consequentemente, tê-lo, o pulso, para governar o País, a menos que faça uma demonstração convincente em como foi desautorizada e que tal procedimento não terá mais lugar porque foram totalmente erradicadas as suas causas. 

O líder máximo de um partido não pode ter “opinião pessoal pública” sobre o que se passa ou se passou no interior do partido que dirige. Jamais poderá demarcar-se displicentemente dos seus dirigentes e dos seus militantes, isto é, sem apresentar medidas enérgicas contra eles. Só pode publicamente expor uma posição que é, com toda a segurança, a do partido. Ou então não é líder. É apenas chefe de uma facção! 

Assim. nesse particular é de realçar a hombridade e a dignidade com que o líder da oposição não descartou quaisquer responsabilidades mesmo sabendo que provocariam desgaste da sua imagem pessoal e do partido, avocando a si todas as decisões que foram tomadas em nome do partido e do seu grupo parlamentar como suas e comportando-se deste modo como o verdadeiro líder de todo o partido e não de uma parte.


Mas tudo vai acabar em bem porque fora dos partidos felizmente temos um Presidente da República muito atento, que tem demonstrado muita sensatez, muita competência política e que é um verdadeiro oásis no meio deste deserto político. Um verdadeiro provedor do Povo. Parabéns aos cabo-verdianos pela sua escolha!
A.   Ferreira

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O NOSSO EGOCENTRISMO E O MUNDO SENSÍVEL

 

 

Sem nenhum propósito a comandar-me, a minha atenção fixou-se, mais do que habitualmente, numa senhora idosa que passava na rua com um grande ramo de flores. Mais adiante, num jovem casal que conversava animadamente numa esplanada, e, mesmo ao lado, numa petiza sentada num cavalinho eléctrico estacionário instalado frente ao mesmo estabelecimento. Perguntei-me então por que motivo o meu olhar interior se focalizou com inusitada atenção naquelas cenas do trivial quotidiano, réplicas tão naturais do simples acto de viver  que nem sequer nos damos por elas, de tantas vezes repetidas.

 

Mas não, neste dia o binómio senhora idosa-ramo de flores revelou-se-me, como se  pela primeira vez, uma ligação biunívoca entre o homem e a natureza que cada vez mais escapa à nossa moderna e frívola sensibilidade. O jovem casal representou-se-me a continuidade da vida, a promessa de futuro, nos tempos em que este se cobre de tons sombrios sem, no entanto, o banirmos dos nossos sonhos assimétricos. A petiza ao cavalinho eléctrico pareceu-me a revelação de que a fantasia infantil talvez seja o último resguardo da nossa autenticidade.

 

Mas se todo este repertório do nosso mundo sensível afinal existe, por que é que só hoje o “vi”? Pertencem a um universo paralelo só apreensível aos que são dotados de percepções extra-sensoriais? Por aí não vou. Integram um universo real que só nos passa “despercebido” porque anestesiamos a nossa percepção do mundo que nos rodeia à custa de se repetirem exaustivamente os mesmos estímulos exteriores? Quero perfilhar esta última hipótese. De facto, as nossas reacções são regidas por um certo automatismo que, operando no inconsciente, tende a bloquear a nossa capacidade dialéctica com o mundo sensível. Deve ser este o caso. Assim se explica que  até as coisas mais extravagantes que desfilam aos nossos olhos tendem a banalizar-se e a serem ignoradas ao fim de um certo tempo, se constantemente repetidas. É o resultado de um processo de contínuo amortecimento da nossa sensibilidade. Um exemplo disso é o cortejo de desgraças que a televisão nos despeja a toda a hora sem que a nossa consciência sofra hoje em dia um verdadeiro sobressalto.

 

E então cabe perguntar que relação tenho eu com cada um dos pequenos universos que observamos, ou não observamos, todos os dias. O mesmo é querer saber se a senhora idosa deslumbrada com as suas flores, o jovem casal prazeroso com a vida e a menina embevecida à sela do seu cavalinho imaginário, assim como as desgraças do mundo, querer saber, dizia eu, se são partículas de universos autónomos ou se são parte do meu universo individual. Mesmo que peque por presunção intelectual,  quero acreditar que integram o meu universo egocêntrico, ou antropocêntrico, se preferirmos. A nossa existência devia ser auspiciosamente concêntrica,  presidida por uma lógica de  centralidade para a qual nos convergiríamos. Só que tendemos, com o hábito e a rotina, a desligar a tomada de ligação com o exterior, e só com a injunção de uma voltagem de retorno é que conseguimos ocasionalmente fortalecer os circuitos internos que iluminam o nosso espaço interior e nos permitem divisar todos os universos que integramos.

 

Contudo, no fundo eu sou o centro do meu universo e por muita afinidade que tenha – e tenho – com o que me rodeia, nada tenho a ver intrinsecamente com o meu semelhante e o mesmo pode intuir cada pessoa. Resta é saber em que medida os diversos egocentrismos são capazes de formar um conjunto integrado e coerente que dê sentido à nossa existência planetária. Porque seria razoável que os nossos universos individuais fossem parcelas minúsculas dum universo maior e aglutinador. Só assim seria possível uma dialéctica inteligente com o mundo sensível e encontrar respostas para superar as nossas fragilidades e limitações naturais. Dir-se-á então que isso seria um imperativo da nossa racionalidade, sem o que nos limitamos à infrene gestão do trivial e a não passarmos de simples escravos das nossas inclinações primárias.

 

Hoje, parecemos rodeados de universos paralelos que nos são antagónicos, como o chamado Estado Islâmico e o Capitalismo selvagem, sem que aparentemente lhes consigamos opor o trunfo da nossa racionalidade. E é quando nos voltamos a interrogar sobre a casualidade associada à teoria evolucionista, pelo menos na leitura que dela faz Edgar Morin, no pressuposto de que para o evolucionismo a inteligência é um mero produto que evoluiu num organismo vivo, sendo imprevisível a metamorfose da morfologia cerebral e do entrelaçamento dos seus neurónios conducentes a uma inteligência e a uma espiritualidade superiores. Em campo oposto, estão os que se perguntam se a inteligência não será também produto de faculdades psíquicas, exteriores ao homem, e  que por isso transcendem a nossa percepção racional e nada têm a ver com o organismo físico. Mas, se assim é, de onde virão  essas capacidades? Este entendimento nos levará ao encontro da tese da predestinação do homem, logo a recuperar a teoria do universo geocêntrico, doravante numa perspectiva estritamente espiritual, o que por enquanto escapa à nossa razão.

 

 

Tomar, 5 de Abril de 2015

 

Adriano Miranda Lima




 

 

 

 

 

 

Parabéns «Terra Nova»!

segunda-feira, 2 de março de 2015
Nesta ocasião especial, comemorativa de quatro décadas de labor cristão persistente e presente do «Terra Nova», através de artigos informativos e formativos. Torna-se de justiça realçar, na mesma linha, que este jornal nunca faltou ao seu dever cívico, social e participativo no que à sociedade cabo-verdiana dizia e diz respeito.
Nesta oportunidade de celebração dos 40 anos de existência, gostaria de expressar ao Jornal e a todos que nele trabalham dedicadamente, as minhas felicitações e os votos de longa continuação mantida e/ou renovada, numa linha que seja cada vez melhor para se chegar ao leitor.
  E já agora, num aparte – espero que a memória me não esteja a atraiçoar – creio poder afirmar que venho lendo o «Terra Nova» desde o seu primeiro número.
Afinal, tenho muito gosto em afirmá-lo e dizer também que isso tem sido um convívio profícuo e mutuamente partilhado, através, vamos lá, da minha modesta colaboração. Daí que como leitora assídua, me sinto igualmente testemunha do notável contributo que este jornal tem vindo a dar ao longo das suas quatro décadas, à causa da Língua portuguesa, da Literatura cabo-verdiana e das questões históricas, sociais e culturais que se colocam à cabo-verdianidade.
Em resumo: Um visível e notável contributo à cultura cabo-verdiana.
O «Terra Nova» ocupou desde o início da sua publicação, um espaço próprio e diferenciado dos outros, embora poucos, periódicos que circularam após a independência até antes da abertura democrática de 1990.
Com efeito, o TN era uma voz não alinhada num tempo não plural, e com restrições em matéria de liberdade de expressão pois, ainda vigorava o regime de Partido único e as suas consequentes e fortes limitações em matéria de liberdade.
Para além disso, a feição cristã do TN tornava ao tempo, este mensário, duplamente interessante.
Antes de prosseguir, abro um pequeno parêntesis para destacar o seu primeiro Director, Frei Fidalgo, pela coragem e pela determinação nunca vacilantes, com que suportou as vicissitudes que lhe foram aparecendo pelo caminho, decorrentes desse período (1975/90) e pela linha editorial imprimida que prestigiou o mensário.
Convém lembrar que nesse tempo e aqui nas ilhas, o «Terra Nova» funcionou como a única publicação que deu voz às vozes contrárias às do poder instituído. Isto aconteceu – nunca será de mais dizê-lo – muito graças ao então Director do mensário, profundo lutador pelos direitos cívicos, e quem, correndo riscos, acolheu sem titubear, artigos de opinião que criticavam a então situação reinante e “pour cause,” granjeou igualmente, respeito e admiração dos seus leitores.
Fecho o parêntesis e retomo o tema proposto em epígrafe.
Pois bem, o jornal como já foi referido, pôde felizmente contar – ao lado de artigos divulgadores da fé cristã – com artigos de índole cultural, histórica, social, sem esquecer os temas ligados às celebrações dos santos populares, e do folclore nacional.
Continuando, o TN tem vindo a dar ao leitor, ao longo do tempo, textos versando assuntos ligados ao ensino, à educação, algumas teses e artigos, em defesa da prática oral, da boa escrita e da expansão da Língua segunda cabo-verdiana, a Língua portuguesa, como parte estruturante da nossa identidade.
 Par além disso, não só em artigos como também, sob forma de entrevistas, o «TN» tem dedicado páginas à problemática da família desestruturada, da criança na/de rua, passando pela violência nas suas diversas formas, vêm merecendo a atenção deste jornal, o que demonstra bem a sua feição cristã e humanista.
Que ninguém se admire pois que o TN teve desde então, colaboradores com crédito e gabarito firmados. De entre eles, destacaria nomes como: Henrique Teixeira de Sousa, Edgar Gomes Santos, Luís Romano, Monique Widmer, Gilda Barbosa, Joaquim Saial, Adriano Miranda Lima, António Barbosa da Silva, Arsénio de Pina, Armindo Barbosa, Firmo Pinto, C. Salgado, Frei Bernardino Lima, o então Director, Frei Fidalgo de Barros. Mais recentes: Belino Sacadura, Casimiro de Pina, entre outros, e isto apenas para citar apenas alguns dos colaboradores culturais, que compuseram o mensário desde os primeiros números e o têm vindo a continuar.
Peço que me relevem se me falhou neste rememorar, algum e outro nome notável.
Por todas estas qualidades, o «Terra Nova» configurou-se “ab initio” e determinado a manter-se um periódico de consulta, diria obrigatória, para todos aqueles que gostam de se informar e queiram conhecer através de abordagens diversas, as histórias da terra e das gentes das ilhas.
A nova direcção do periódico parece-me apostada numa boa continuação, naturalmente evolutiva, o que aliás, é bom e reveladora de dinamismo.
Para finalizar este escrito e tal como o comecei, reitero as felicitações pelos 40 anos de vida do «Terra Nova» ao serviço de nobres causas e desejo-lhe a continuação do seu trabalho sob os melhores auspícios.   
Deixo neste registo, o meu testemunho singelo do quanto como leitora e colaboradora, devo ao «Terra Nova». Bem-haja TN!                      



  



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015


SOBRE O PATRIMÓNIO E A ESSÊNCIA DA NOSSA HUMANIDADE


“O homem primeiramente existe, surge no mundo; não é definível, porque primeiramente não é nada. Só depois será algo, assim como a si próprio se fizer. Desse modo, não há natureza humana, já que Deus não existe para conceber os seres humanos”
                                                                                                                                Jean Paul Sartre




Há tempos, assisti num canal de televisão a um filme francês que achei de real interesse, tanto quanto ele nos permite reflectir sobre o sentido da nossa existência. O título é “Tempos de Verão”. A princípio, e com o desenrolar das primeiras cenas, a narrativa é dominada por situações aparentemente vazias de conteúdo, num jeito de ir gerindo o espontâneo e o supérfluo, um pouco a fazer lembrar o existencialismo de Sartre, cuja tese se fundamenta na ideia de que a “existência precede a essência”.

Mas algo me dizia que aquilo não ia acabar assim, na mesma cadência repetida de situações desprovidas de um interesse visível, sem nada de apreensível que justifique que o espectador opte por estar ali sentado em vez de ler, por exemplo, um bom livro. De facto, não haveria propósito algum neste filme se não houvesse na cena final um momento de marcante simbolismo. É evidente que o impacte da cena é variável com a formação e a sensibilidade do espectador.

Vejamos então qual o enredo do filme. Uma senhora de 75 anos toda a vida preservou com desvelo a obra artística do seu tio, pintor e solteiro, numa enorme e velha mansão familiar. É Verão e o espaço é invadido pelos filhos e os netos para a festa do aniversário da velha senhora.

Uns meses decorridos, com a morte repentina da senhora, os seus descendentes regressam àquele casarão para se desfazerem de um património que era tão nobre como artístico. O recheio entretanto já fora leiloado e agora tratava-se de liquidar a venda do imóvel. Adultos e adolescentes partilham o mesmo ambiente de eufórica excitação sem que nada, mas absolutamente nada, tocasse a sua sensibilidade e por um momento sequer lhes lembrasse que, por razões meramente materiais, estavam a despedir-se de um passado que  continha matriz histórica das suas vidas. Sem perceberem que  prescindir daquele passado significava descomprometer-se com o futuro, o fechar definitivo do bronze de uma porta antiga sem a certeza de que outra se lhes abriria no futuro com a mesma garantia de resguardo da sua identidade.

Para cúmulo, os netos, na exaltação da sua adolescência, resolvem dar uma festa de juventude na velha casa de família, prestes a ser vendida, e já esvaziada do seu recheio. Essa festa tem, aos meus olhos,  o significado  de um desconchavo absoluto sobre uma memória já irrecuperável. Nada como uma estouvada e acéfala juventude para liquidar a dor da separação, e assim anestesiar os remorsos dos mais velhos. E a festa decorre naquele frenesim ensurdecedor de música e dança, sem outro propósito que não seja soltar a torrente impetuosa dos sentidos em direcção ao estuário onde jaz o supérfluo, o inútil e o transitório.

Mas, a dado trecho, há um momento em que a neta mais velha, frívola e despreocupada como a sua geração, abstrai-se do ambiente à volta, pára e emociona-se ao descobrir que afinal de contas está a perder para sempre algo mais valioso do que a princípio supusera. Algo retiniu subitamente no seu espírito, acordando-a, ainda que furtivamente, para a realidade de uma porta que se fechava para nunca mais. O momento da cena não é demorado nem é rebuscado com os habituais ademanes da dramaticidade. E no entanto dura uma eternidade.

Dir-se-á que bastou uma alma, a dessa jovem de tenra idade, para voltarmos a acreditar que a esperança no homem pode não estar definitivamente morta. A moça pareceu ressuscitar dos escombros de uma memória acabada de ruir para nos transmitir uma mensagem discreta mas significativa. E nessa altura lembrei-me do abandono a que está votado certo património arquitectónico na minha ilha de S. Vicente.

Tomar, 23 de Fevereiro de 2015

Adriano Miranda Lima





sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Uma nota explicativa ao leitor: O texto que se segue foi retirado de uma correspondência trocada com o meu ilustre amigo Coronel Adriano Miranda Lima, homem de lides intelectuais é nesta linha um arguto e fino analista das coisas e das gentes destas ilhas, com realce e enfoque para as de barlavento.
Ora bem, porque achei deveras interessante o seu conteúdo, alguma reposição da verdade (nunca é tarde) sobre o perfil de Antero Marques Simões, antigo Reitor e professor do prestigiado Liceu de Gil Eanes, vai aqui publicado.
A segunda parte, oriunda do mesmo remetente é uma entrevista, para nós inédita, conduzida pelo antigo professor do Liceu, referido na primeira parte, ao grande escritor cabo-verdiano e filósofo, António Aurélio Gonçalves. O assunto versou "Eça de Queirós." O diálogo desenrola-se num passeio dos dois colegas professores, pela bonita cidade do Mindelo dos anos 60 do século XX. A devida vénia ao autor para a transposição do texto do livro, «O meu irónico e trágico Eça de Queirós» 

I
Antero Marques Simões – Reitor do Liceu de Gil Eanes

(,,,) É esse mesmo, Ondina. Antero Marques Simões, de seu nome completo, nascido em 1930, na Póvoa do Varzim. Vou falar de alguns antecedentes e explicar o contexto em que, há 1 mês, voltei a ter contacto com ele, depois da sua saída de Cabo Verde.
Como eu disse no outro “mail,” alugou o rés-do-chão, mobilado, do prédio dos meus avós paternos e onde estes viviam. Esta circunstância propiciou um contacto mais pessoal entre mim e ele. Tinha eu 15 anos quando, em 1959, o professor chegou a S. Vicente com a esposa, Maria das Dores, luso-brasileira.
 O Dr. Antero foi meu professor de português no 5º ano e julgo que também no 4º ano, ou parte dele. Tratava-me com amizade e dizia aos meus avós que o Adriano era bom aluno de português, coisa que seguramente eu não era, mas mais por desleixo do que por aptidão natural. Foi professor de português, latim e grego dos meus colegas (poucos) que mais tarde optaram para a área de letras, o que não foi o meu caso.
Creio que tudo lhe correu bem até ser nomeado reitor e em simultâneo encarregado da Mocidade Portuguesa (MP) local, cargo que desde logo serviu para as más-línguas o associarem à PIDE. Mas julgo que não havia qualquer fundamento para essa suspeição. Era, sim, um patriota convicto e não disfarçava o seu salazarismo (manutenção do império colonial), que ainda hoje assume sem qualquer problema. Foi a imposição que ele começou a fazer da obrigatoriedade de frequentar a MP que, julgo, viria a entornar o caldo, criando algumas anticorpos entre alguns alunos e originando a tal suspeição de ligação pidesca. Eu, por exemplo, nunca tinha posto os pés na MP porque não me sentia identificado com aquilo. Mas, a partir dos 18 anos, transitava-se para  o escalão da chamada Milícia (da MP), em que se ia ao quartel aos sábados à tarde para aprender alguns rudimentos da coisa militar (ordem unida, manejo de arma, etc.). Acontece que o encarregado da MP tornou a Milícia uma obrigação incontornável, sob pena de perda de ano por faltas, pelo que a partir daí não tive outro remédio senão cumprir a imposição.
O Dr. Antero Simões não viria a completar o seu mandato como  reitor porque houve uns problemas, com ou sem fundamento suficiente, que nunca cheguei a perceber. O que espoletou o processo da sua saída terá sido, penso eu, um incidente ocorrido frente ao liceu, depois de um aluno  ter cometido, horas antes, e premeditadamente, uma irreverência qualquer à porta do edifício, o que impediu a abertura do estabelecimento ao horário habitual. Isso ocasionou grande confusão no exterior do edifício, com alguns alunos a lançar palavras de ordem contra o reitor e a clamar o nome de um professor cabo-verdiano. Tanto serviu para que quem de direito mandasse abrir um processo de averiguações em que os alunos do 7º ano foram ouvidos. Eu fui um deles, mas nada disse de útil e conclusivo porque, efectivamente, para além da confusão a que assisti ao chegar ao liceu, estava a leste dos acontecimentos. E é óbvio que nada me movia contra a pessoa do Dr. Antero Simões. Pelo contrário, tive sempre provas da sua consideração para com a minha então jovem pessoa.
 O Dr. Antero Simões era uma pessoa extrovertida, espontânea e alegre, ao contrário, reconheça-se, de outros seus colegas cabo-verdianos, que eram mais sisudos e pouca confiança davam aos alunos. A impressão com que fiquei enquanto seu aluno é que ele era um excelente professor na sua área de formação, e o trabalho literário por ele produzido confirma-me agora a sua envergadura como homem de letras. O que admira é ele não ter ascendido à docência universitária.
Hoje, com a idade e a experiência de vida que tenho, convenço-me de que o professor terá sido vítima da conjugação de vários factores que prejudicaram o curso normal da sua carreira no Liceu Gil Eanes: a sua natureza sincera e extrovertida (e possivelmente imprevidente) na relação com as pessoas; o exercício do cargo de reitor em idade muito jovem, o que de facto até surpreende porque havia colegas mais antigos e de maior idade; a natural especulação sobre a relação entre essa escolha e o facto de ele ser “metropolitano”, como então se designavam os portugueses do continente; o agravante, ainda, da acumulação com o cargo relativo à MP, com todas as conotações políticas que isso poderia suscitar, e, penso, suscitou, até porque ele não escondia a sua identificação com a política do então chamado Estado Novo. Ainda hoje, mantém as suas antigas convicções sobre um “Portugal uno do Minho a Timor,”  criticando a forma precipitada e desastrada como foi feita a descolonização, e lamentando que  Cabo Verde não tenha continuado ligado a Portugal, e a este respeito cita estas palavras do poeta José Lopes, que ele muito admira: -“Se, por qualquer estranha hipótese, estas Ilhas onde nasci e que tanto amo, deixarem de ser portuguesas, preferia que um cataclismo as devolvesse de novo ao fundo do mar donde vieram apenas para serem portuguesas”.
No entanto, julgo que não é lícito que as  convicções políticas que assumia, aliás, partilhadas então pela quase generalidade dos portugueses, interfiram com o nosso juízo sobre a sua grande qualidade pedagógica e a visível dedicação que punha no seu ofício. Recentemente, disse-me que era sensível aos problemas de cabo Verde e das suas gentes e que esteve sempre disponível para ajudar em tudo o que podia, tendo dado aulas particulares grátis de grego e latim a alunos que não podiam pagar, citando-me até o nome de um ilustre e muito conhecido cidadão cabo-verdiano, que era já adulto e ajudou na preparação para o ingresso no ensino superior. Contou-me ainda que o seu sentimento de amizade e identificação com Cabo Verde era tanto que, quando foi responsável pela MP, a esposa, Maria das Dores, confeccionava de boa vontade peças de fardamento para os rapazes que não tinham meios para a sua aquisição.
Bem, voltemos atrás. Como reencontrei o Dr. Antero Simões?
Ora, há coisa de uns 2 meses, um colega de liceu daquele tempo me disse que viu no facebook o lançamento de um livro por um tal Dr. Antero Simões. Perguntava-me se não seria o antigo professor.  Averiguei e concluí que era ele mesmo, o que para mim foi uma surpresa… agradável. E porquê? É que há uns anos tinha perguntado ao Nuno Miranda, primo direito do meu pai, se  sabia alguma coisa do professor, e respondeu-me que, salvo erro, ele teria falecido.
Sabendo-o, afinal de contas, vivo, e por sinal com boa aparência física, conforme mostrava uma foto a acompanhar a notícia, tencionei logo estabelecer um contacto, porque a memória dos meus antigos professores é algo que guardo sempre com carinho, seja qual for a impressão que me tenham deixado. A profissão de professor é das mais nobres, mas muitas vezes só com o amadurecimento nos apercebemos da importância que representaram na nossa formação e afirmação como seres humanos.
Enviei um mail para o director da biblioteca da Póvoa de Varzim, onde o livro fora apresentado, a pedir-lhe o contacto dele, deixando o número do meu telemóvel. Dias depois, qual não foi a minha surpresa, recebo em casa um telefonema de alguém que propositadamente não se identificou logo e, em tom de quem preparava uma surpresa, me perguntava se eu era o Adriano, se era o neto da dona Arcângela Miranda, o sobrinho da Francelina, etc., etc. À primeira, pensei ser alguém de Cabo Verde, mas o sotaque tinha ligeiro toque nortenho, pelo que não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Então ele lá finalmente se identificou, deixando-me sem palavras. Fez-me um relatório verbal de todo o seu percurso desde a saída de Cabo Verde, e não deixou de me manifestar as saudosas lembranças que sempre guardou de S. Vicente, mencionando nomes de pessoas com quem ainda se relaciona, etc. Disse que  gostaria de ver este seu antigo aluno e que o quer ver no lançamento do seu próximo livro em Lisboa, que julgo ser um livro de memórias. Prometeu (e cumpriu) enviar-me por correio o seu último livro lançado e que se chama “O meu polemista e patriota Eça de Queirós”, que é uma obra de 538 páginas. Antes deste publicou “O meu irónico e trágico Eça de Queirós”,  que contém um diálogo interessante e de grande valor literário entre ele e o Dr. Aurélio Gonçalves, acerca daquele escritor. Fiquei então a saber da sua grande admiração por Eça de Queirós, seu conterrâneo da Póvoa do Varzim.
Ele designa-o como “entrevista” ao Aurélio Gonçalves, mas percebe-se que é no sentido figurado que o diz, pois é mais propriamente um diálogo literário. E, em boa verdade, o entrevistador é simultaneamente o entrevistado, e se fez questão de convocar e fazer presente o  “espírito” do seu antigo colega, é porque soube preservar o que dele outrora ouviu, mas que nesta construção resulta como adjuvante de um diálogo que é apenas figurado,  já que o “espírito” Antero Simões é o verdadeiro autor das ideias em confronto e da dialéctica produzida. No entanto, como conhecemos bem o Aurélio Gonçalves, é bem nítido que o discurso que ele  lhe empresta tem toda a credibilidade  para ser da lavra intelectual do nosso antigo e saudoso conterrâneo. E releve-se a homenagem que ele assim lhe presta. Tive gosto em saborear cada transe do discurso e da diegese, mas isso é assunto para a lavra de especialistas. Relembro que o texto é um capítulo do livro que ele escreveu e lançou em 2013 intitulado “O meu irónico e trágico Eça de Queirós”.
Mas o Dr. Antero tem tido uma vasta e constante actividade literária, tendo publicado os seguintes livros até agora:
– Nós somos todos nós (em 4 volumes).
– Camões, Pátria, Mundo.
– Opúsculos vários, imprensa dispersa.
– Os deuses e os homens de Leonardo Coimbra.
– Antero de Quental – Redivivo.
– Universos de Sol e Mar – poemas.
– Fernando Pessoa – Emissário e transeunte.
– Memórias de mim – Histórias de nós.
– O meu irónico e trágico Eça de Queirós.
 – O meu polemista e patriota Eça de Queirós.
E falta o próximo, a lançar em Março.
Enfim, o nosso homem não pára e ostenta uma boa aparência e forma física aos 84 anos. Disse-me que aprendeu ténis em S. Vicente, graças à ajuda do guarda do clube de ténis local, por sinal bom praticante da modalidade, e que pela vida fora nunca mais deixaria o ténis, tendo conquistado vários troféus nacionais e internacionais nas respectivas classes etárias em que competiu.
Passados mais de cinquenta anos, o velho professor lembra-se do nome de muita gente de Cabo Verde, pergunta por este e por aquele, e não esconde as saudades de uma terra onde, confessa, ele e a mulher se sentiram bem,  como se estivessem em casa. Mas nota-se uma indisfarçável amargura quando recorda o episódio da sua demissão do cargo de reitor, que ele atribui a uma acção empreendida por pessoa que não gostava dele ou não concordava com os seus métodos. E rematou assim: “Quem te mandou meter em assuntos de mando, Antero, se a tua verdadeira vocação é ensinar e formar jovens? …”. Contudo, diz que teve uma boa relação com a maior parte dos colegas, em especial com o Dr. Aurélio Gonçalves, que considera um intelectual de alta estirpe e uma notável personalidade, não sendo por acaso que o evoca no seu livro “O meu irónico e trágico Eça de Queirós”. Além do mais, percebe-se que nutria pelo colega cabo-verdiano grande carinho e respeito.
No mais, acresce ainda dizer que o Antero Simões é uma pessoa humilde, simples e sincera, em síntese, uma boa pessoa. Na relação com esses meus avós que as circunstâncias proporcionaram, fez questão de confessar que era filho de pessoas de origem humilde, o pai, alfaiate, e um dos avós, pescador. Ora, sabemos que não era muito comum um professor de liceu “metropolitano” chegar a uma terra estranha, para mais colónia africana, e fugir à regra do exibicionismo bacoco de pergaminhos sociais muitas vezes inexistentes.
Tive muito prazer em retomar o contacto com o meu antigo professor, e o mesmo sentimento nutrirei pelo reencontro com todos os que ainda estão vivos.
Peço desculpas à Ondina por esta longa e saturante narrativa, mas a culpa é do gosto que me dá falar dos meus antigos professores, e ainda por cima quando a interlocutora é uma professora. Espero ao menos que a leitura do diálogo entre o Dr. Antero e o Dr. Aurélio a compensem desta extensa missiva.