Uma nota explicativa ao
leitor: O texto que se segue foi retirado de uma correspondência trocada
com o meu ilustre amigo Coronel Adriano Miranda Lima, homem de lides
intelectuais é nesta linha um arguto e fino analista das coisas e das
gentes destas ilhas, com realce e enfoque para as de barlavento.
Ora bem, porque achei
deveras interessante o seu conteúdo, alguma reposição da verdade (nunca é
tarde) sobre o perfil de Antero Marques Simões, antigo Reitor e professor
do prestigiado Liceu de Gil Eanes, vai aqui publicado.
A segunda parte,
oriunda do mesmo remetente é uma entrevista, para nós inédita, conduzida
pelo antigo professor do Liceu, referido na primeira parte, ao grande
escritor cabo-verdiano e filósofo, António Aurélio Gonçalves. O assunto
versou "Eça de Queirós." O diálogo desenrola-se num passeio dos dois
colegas professores, pela bonita cidade do Mindelo dos anos 60 do século
XX. A devida vénia ao autor para a transposição do texto do livro, «O meu
irónico e trágico Eça de Queirós»
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I
Antero Marques Simões –
Reitor do Liceu de Gil Eanes
(,,,) É esse mesmo, Ondina.
Antero Marques Simões, de seu nome completo, nascido em 1930, na Póvoa do
Varzim. Vou falar de alguns antecedentes e explicar o contexto em que, há 1
mês, voltei a ter contacto com ele, depois da sua saída de Cabo Verde.
Como eu disse no outro “mail,”
alugou o rés-do-chão, mobilado, do prédio dos meus avós paternos e onde estes
viviam. Esta circunstância propiciou um contacto mais pessoal entre mim e ele.
Tinha eu 15 anos quando, em 1959, o professor chegou a S. Vicente com a esposa,
Maria das Dores, luso-brasileira.
O Dr. Antero foi meu
professor de português no 5º ano e julgo que também no 4º ano, ou parte dele. Tratava-me
com amizade e dizia aos meus avós que o Adriano era bom aluno de português,
coisa que seguramente eu não era, mas mais por desleixo do que por aptidão
natural. Foi professor de português, latim e grego dos meus colegas (poucos)
que mais tarde optaram para a área de letras, o que não foi o meu caso.
Creio que tudo lhe correu bem
até ser nomeado reitor e em simultâneo encarregado da Mocidade Portuguesa (MP) local,
cargo que desde logo serviu para as más-línguas o associarem à PIDE. Mas julgo
que não havia qualquer fundamento para essa suspeição. Era, sim, um patriota convicto
e não disfarçava o seu salazarismo (manutenção do império colonial), que ainda hoje
assume sem qualquer problema. Foi a imposição que ele começou a fazer da
obrigatoriedade de frequentar a MP que, julgo, viria a entornar o caldo,
criando algumas anticorpos entre alguns alunos e originando a tal suspeição de
ligação pidesca. Eu, por exemplo, nunca tinha posto os pés na MP porque não me
sentia identificado com aquilo. Mas, a partir dos 18 anos, transitava-se
para o escalão da chamada Milícia (da MP), em que se ia ao quartel aos
sábados à tarde para aprender alguns rudimentos da coisa militar (ordem unida,
manejo de arma, etc.). Acontece que o encarregado da MP tornou a Milícia uma
obrigação incontornável, sob pena de perda de ano por faltas, pelo que a partir
daí não tive outro remédio senão cumprir a imposição.
O Dr.
Antero Simões não viria a completar o seu mandato como reitor porque houve uns problemas, com ou sem
fundamento suficiente, que nunca cheguei a perceber. O que espoletou o processo
da sua saída terá sido, penso eu, um incidente ocorrido frente ao liceu, depois
de um aluno ter cometido, horas antes, e
premeditadamente, uma irreverência qualquer à porta do edifício, o que impediu
a abertura do estabelecimento ao horário habitual. Isso ocasionou grande
confusão no exterior do edifício, com alguns alunos a lançar palavras de ordem
contra o reitor e a clamar o nome de um professor cabo-verdiano. Tanto serviu
para que quem de direito mandasse abrir um processo de averiguações em que os
alunos do 7º ano foram ouvidos. Eu fui um deles, mas nada disse de útil e
conclusivo porque, efectivamente, para além da confusão a que assisti ao chegar
ao liceu, estava a leste dos acontecimentos. E é óbvio que nada me movia contra
a pessoa do Dr. Antero Simões. Pelo contrário, tive sempre provas da sua
consideração para com a minha então jovem pessoa.
O Dr. Antero Simões era uma pessoa
extrovertida, espontânea e alegre, ao contrário, reconheça-se, de outros seus
colegas cabo-verdianos, que eram mais sisudos e pouca confiança davam aos alunos.
A impressão com que fiquei enquanto seu aluno é
que ele era um excelente professor na sua área de formação, e o trabalho
literário por ele produzido confirma-me agora a sua envergadura como homem de
letras. O que admira é ele não ter ascendido à docência universitária.
Hoje, com a idade e a experiência de vida que tenho, convenço-me
de que o professor terá sido vítima da conjugação de vários factores que
prejudicaram o curso normal da sua carreira no Liceu Gil Eanes: a sua natureza
sincera e extrovertida (e possivelmente imprevidente) na relação com as
pessoas; o exercício do cargo de reitor em idade muito jovem, o que de facto
até surpreende porque havia colegas mais antigos e de maior idade; a natural
especulação sobre a relação entre essa escolha e o facto de ele ser
“metropolitano”, como então se designavam os portugueses do continente; o
agravante, ainda, da acumulação com o cargo relativo à MP, com todas as
conotações políticas que isso poderia suscitar, e, penso, suscitou, até porque ele
não escondia a sua identificação com a política do então chamado Estado Novo.
Ainda hoje, mantém as suas antigas convicções sobre um “Portugal uno do Minho a
Timor,” criticando a forma precipitada e
desastrada como foi feita a descolonização, e lamentando que Cabo Verde não tenha continuado ligado a
Portugal, e a este respeito cita estas palavras do poeta José Lopes, que ele muito
admira: -“Se, por qualquer estranha
hipótese, estas Ilhas onde nasci e que tanto amo, deixarem de ser portuguesas,
preferia que um cataclismo as devolvesse de novo ao fundo do mar donde vieram
apenas para serem portuguesas”.
No entanto, julgo que não é lícito que as convicções políticas que assumia, aliás,
partilhadas então pela quase generalidade dos portugueses, interfiram com o
nosso juízo sobre a sua grande qualidade pedagógica e a visível dedicação que
punha no seu ofício. Recentemente, disse-me que era sensível aos problemas de
cabo Verde e das suas gentes e que esteve sempre disponível para ajudar em tudo
o que podia, tendo dado aulas particulares grátis de grego e latim a alunos que
não podiam pagar, citando-me até o nome de um ilustre e muito conhecido cidadão
cabo-verdiano, que era já adulto e ajudou na preparação para o ingresso no
ensino superior. Contou-me ainda que o seu sentimento de amizade e
identificação com Cabo Verde era tanto que, quando foi responsável pela MP, a
esposa, Maria das Dores, confeccionava de boa vontade peças de fardamento para
os rapazes que não tinham meios para a sua aquisição.
Bem, voltemos
atrás. Como reencontrei o Dr. Antero Simões?
Ora, há
coisa de uns 2 meses, um colega de liceu daquele tempo me disse que viu no
facebook o lançamento de um livro por um tal Dr. Antero Simões. Perguntava-me
se não seria o antigo professor. Averiguei e concluí que era ele mesmo, o que
para mim foi uma surpresa… agradável. E porquê? É que há uns anos tinha
perguntado ao Nuno Miranda, primo direito do meu pai, se sabia alguma coisa do professor, e
respondeu-me que, salvo erro, ele teria falecido.
Sabendo-o,
afinal de contas, vivo, e por sinal com boa aparência física, conforme mostrava
uma foto a acompanhar a notícia, tencionei logo estabelecer um contacto, porque
a memória dos meus antigos professores é algo que guardo sempre com carinho,
seja qual for a impressão que me tenham deixado. A profissão de professor é das
mais nobres, mas muitas vezes só com o amadurecimento nos apercebemos da
importância que representaram na nossa formação e afirmação como seres humanos.
Enviei um
mail para o director da biblioteca da Póvoa de Varzim, onde o livro fora
apresentado, a pedir-lhe o contacto dele, deixando o número do meu telemóvel.
Dias depois, qual não foi a minha surpresa, recebo em casa um telefonema de
alguém que propositadamente não se identificou logo e, em tom de quem preparava
uma surpresa, me perguntava se eu era o Adriano, se era o neto da dona Arcângela
Miranda, o sobrinho da Francelina, etc., etc. À primeira, pensei ser alguém de
Cabo Verde, mas o sotaque tinha ligeiro toque nortenho, pelo que não fazia a
mínima ideia de quem se tratava. Então ele lá finalmente se identificou,
deixando-me sem palavras. Fez-me um relatório verbal de todo o seu percurso
desde a saída de Cabo Verde, e não deixou de me manifestar as saudosas
lembranças que sempre guardou de S. Vicente, mencionando nomes de pessoas com
quem ainda se relaciona, etc. Disse que gostaria de ver este seu antigo
aluno e que o quer ver no lançamento do seu próximo livro em Lisboa, que julgo
ser um livro de memórias. Prometeu (e cumpriu) enviar-me por correio o seu último
livro lançado e que se chama “O meu polemista e patriota Eça de Queirós”, que é
uma obra de 538 páginas. Antes deste publicou “O meu irónico e trágico Eça de
Queirós”, que contém um diálogo interessante
e de grande valor literário entre ele e o Dr. Aurélio Gonçalves, acerca daquele
escritor. Fiquei então a saber da sua grande admiração por Eça de Queirós, seu
conterrâneo da Póvoa do Varzim.
Ele designa-o como “entrevista” ao Aurélio Gonçalves,
mas percebe-se que é no sentido figurado que o diz, pois é mais propriamente um
diálogo literário. E, em boa verdade, o entrevistador é simultaneamente o
entrevistado, e se fez questão de convocar e fazer presente o “espírito”
do seu antigo colega, é porque soube preservar o que dele outrora ouviu, mas
que nesta construção resulta como adjuvante de um diálogo que é apenas
figurado, já que o “espírito” Antero Simões é o verdadeiro autor das
ideias em confronto e da dialéctica produzida. No entanto, como conhecemos bem
o Aurélio Gonçalves, é bem nítido que o discurso que ele lhe empresta tem
toda a credibilidade para ser da lavra intelectual do nosso antigo e
saudoso conterrâneo. E releve-se a homenagem que ele assim lhe presta. Tive
gosto em saborear cada transe do discurso e da diegese, mas isso é assunto para
a lavra de especialistas. Relembro que o texto é um capítulo do livro que ele
escreveu e lançou em 2013 intitulado “O meu irónico e trágico Eça de Queirós”.
Mas o Dr.
Antero tem tido uma vasta e constante actividade literária, tendo publicado os
seguintes livros até agora:
– Nós
somos todos nós (em 4 volumes).
– Camões,
Pátria, Mundo.
–
Opúsculos vários, imprensa dispersa.
– Os
deuses e os homens de Leonardo Coimbra.
– Antero
de Quental – Redivivo.
–
Universos de Sol e Mar – poemas.
– Fernando
Pessoa – Emissário e transeunte.
– Memórias
de mim – Histórias de nós.
– O meu
irónico e trágico Eça de Queirós.
– O
meu polemista e patriota Eça de Queirós.
E falta o
próximo, a lançar em Março.
Enfim, o nosso
homem não pára e ostenta uma boa aparência e forma física aos 84 anos. Disse-me
que aprendeu ténis em S. Vicente, graças à ajuda do guarda do clube de ténis
local, por sinal bom praticante da modalidade, e que pela vida fora nunca mais
deixaria o ténis, tendo conquistado vários troféus nacionais e internacionais
nas respectivas classes etárias em que competiu.
Passados
mais de cinquenta anos, o velho professor lembra-se do nome de muita gente de
Cabo Verde, pergunta por este e por aquele, e não esconde as saudades de uma
terra onde, confessa, ele e a mulher se sentiram bem, como se estivessem em casa. Mas nota-se uma
indisfarçável amargura quando recorda o episódio da sua demissão do cargo de
reitor, que ele atribui a uma acção empreendida por pessoa que não gostava dele
ou não concordava com os seus métodos. E rematou assim: “Quem te mandou meter
em assuntos de mando, Antero, se a tua verdadeira vocação é ensinar e formar
jovens? …”. Contudo, diz que teve uma boa relação com a maior parte dos
colegas, em especial com o Dr. Aurélio Gonçalves, que considera um intelectual
de alta estirpe e uma notável personalidade, não sendo por acaso que o evoca no
seu livro “O meu irónico e trágico Eça de Queirós”. Além do mais, percebe-se
que nutria pelo colega cabo-verdiano grande carinho e respeito.
No mais, acresce
ainda dizer que o Antero Simões é uma pessoa humilde, simples e sincera, em
síntese, uma boa pessoa. Na relação com esses meus avós que as circunstâncias
proporcionaram, fez questão de confessar que era filho de pessoas de origem
humilde, o pai, alfaiate, e um dos avós, pescador. Ora, sabemos que não era
muito comum um professor de liceu “metropolitano” chegar a uma terra estranha,
para mais colónia africana, e fugir à regra do exibicionismo bacoco de
pergaminhos sociais muitas vezes inexistentes.
Tive muito
prazer em retomar o contacto com o meu antigo professor, e o mesmo sentimento
nutrirei pelo reencontro com todos os que ainda estão vivos.
Peço
desculpas à Ondina por esta longa e saturante narrativa, mas a culpa é do gosto
que me dá falar dos meus antigos professores, e ainda por cima quando a
interlocutora é uma professora. Espero ao menos que a leitura do diálogo entre
o Dr. Antero e o Dr. Aurélio a compensem desta extensa missiva.