TEMPO DAS FRAMBOESAS

terça-feira, 19 de maio de 2015

 

 

 

Por este tempo de Maio, o da frutificação das framboesas, é quando mais me apercebo da existência de um pequeno “nicho ecológico” nas traseiras do meu prédio. É um vasto quintal anexado a uma antiga casa térrea, complexo que foi posto à venda mas ainda resistindo heroicamente à padronização do betão.

Esse quintal é um recanto onde os melros predominam entre outros seres alados que ali habitam. Da sua baixa vedação pendem  ramificações de framboesas silvestres, que se carregam de frutos maduros por alturas de Maio e Junho. Coisa rara nestes tempos, um repouso restaurador dos olhos e da mente ao fim de um dia de canseira ou de ócio inexplicavelmente desgastante.

 

O dono era um velhote de cabelo branco como a neve, que tinha nesse espaço um universo concentracionário, onde fazia a contabilidade diária das suas predilecções, dos seus devaneios e dos seus sonhos antigos. Chamava-se Pina, mas pouco ou nada eu conhecia da sua vida pessoal, senão o reflexo nos seus olhos das cores alegres da primavera. A idade já avançada não o tolhia de modo algum, cavava, semeava, regava, podava, quando não ficava horas seguidas a olhar, embevecido, para os pássaros, os seus e outros que ali pousam e trazem alvíssaras de outras terras. Apercebi-me de que esses animais não se intimidavam com aquela presença humana, antes pelo contrário pareciam cada vez mais atraídos para o lugar, certamente descobrindo encantamentos que escapam aos nossos sentidos. Os melros passaram a ser tantos que uma verdadeira orquestra ali se instalou com todos os aparatos, dando um espectáculo de sonho todas as primaveras.

 

Estacionava o meu carro ali perto, e sempre que calhava trocava com o senhor Pina  dois dedos de conversa de circunstância. Ninguém lhe dava a idade que tinha, tal a agilidade com que subia às árvores ou manejava a ferramenta agrícola. Mas ele tanto se punha em trajos de circunstância para aquele lugar de reencontro consigo próprio como se aperaltava com requintes mais burgueses para os seus momentos de vida social. Mas um dia verifiquei que o senhor Pina pareceu não me reconhecer quando lhe falei. Porém, os dias continuaram a fluir naquela rotina do homem feliz no seu recolhimento ecológico. Noutra ocasião, voltou a ter para comigo mais um procedimento incoerente, mostrando-se alheio ao fiozinho pessoal que eu também queria tecer naquele lugar com o meu espanto de citadino e o meu preito ao homem e à natureza. Depois desapareceu e não mais o voltei a ver.

 

Viria então a saber que lhe fora diagnosticada doença de Alzheimer e por isso internado num lar. Compreendi a razão por que me parecera que um qualquer invisível interruptor cortara a luz humana que iluminava aquele lugar. Não durou muito o seu internamento, pois a morte abreviou a injusta escuridão sentenciada a quem tanto amara a luz, a terra e os pássaros. Depois li num dos jornais da cidade, não me lembro já qual, um poema em que uma neta recordava e homenageava a natureza solar do avô, a sua simplicidade, a sua bondade e a sua ternura para com todos os seres do planeta. Nessa altura, conhecendo eu a razão e o sentido dos versos, perguntei-me se uma das nossas grandes angústias não é uma fugaz ilusão da intemporalidade em que a ambivalência das nossas sensações nos faz cair.

 

Para os melros não deve existir o princípio e o fim das coisas, assistem impávidos à contagem das nascentes e poentes que se sucedem. Continuam a embevecer-nos todos os anos com o seu canto pletórico, num palco já não enfeitado à maneira do senhor Pina, mas entregue à entropia a que pertencem os bichos e as plantas. Não posso dizer ao certo, mas é possível que eles sintam a falta do olhar manso e apaziguador daquele ser que se comportava com a mesma solícita naturalidade das oliveiras em que pousavam o seu cansaço. E vem a propósito recordar as seguintes palavras de Proust: “Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício da recordação”.

 

Quanto às framboesas, todos os anos, na época própria, elas pendem, sobranceiras e carregadas de viço, sobre a vedação que envolve o nicho. Antigamente, a minha mulher colhia uma mancheia delas quando ali passava entre o estacionamento do carro e a casa. Apenas para sentir  o afago da sua macieza e o deslumbre do seu vermelho cativante. Mas isso tinha mais gosto quando o senhor Pina reinava no lugar.

 

Ele hoje já não faz parte do nicho, mas é possível que lá esteja, pois a sua presença ou ausência na memória do lugar escapam à cartografia do simples olhar humano. Pertencem à dimensão incapturável do inconsciente, ali onde tudo é transferível  para a poesia.

 

 

Tomar,  Maio de 2015

 

Adriano Miranda Lima

 

 

A "Ideologia" e a leitura poética...

domingo, 17 de maio de 2015
Ora aí está um tema que há muito trago em mente para sobre ele me debruçar, um pouco.

O título foi-me sugerido por aquilo que entre nós aconteceu num passado recente, em que a “ideologia” conduziu a interpretação e a classificação de textos literários, com ênfase no estudo dos textos poéticos. E como resultado,  nasceu uma espécie de “modismo” sob forma maniqueísta de divisão, que colocavam de um lado os poetas  “militantes” e do outro lado, os poetas considerados “alienados,” ou quase isso...

Mas antes de continuar, atinemos em alguns significados do vocábulo ideologia que nos ajude a situá-lo no contexto histórico e social da época, aqui nas ilhas e, durante os primeiros anos da independência, tempos esses, carregados de tópicos, de sugestões e de exaltações, obrigatoriamente virados para a independência acabada de obter e para uma postura marxista/leninista, ou disso imitativa, ainda muito fresca.

Ora bem, é nesta ambiência, que se dá o estudo de textos poéticos no ensino secundário. 

Mas como antes dito, vamos ao significado de ideologia. Dos significados  retirados do Dicionário de Política (Dinalivro, 2004)  da palavra Ideologia, e entre  algumas informações e definições que o referido dicionário fornece, escolhi as que me pareceram mais próximas do conteúdo deste escrito. Assim, passo a   transcrevê-las: “...talvez não exista palavra na linguagem política, filosófica e sociológica com uma tal gama de significados e de frequência de emprego como a palavra Ideologia.”

Em termos de definição, seleccionei da mesma fonte a seguinte:

“O carácter da ideologia é atribuído a uma crença, a uma acção ou a um estilo político pela presença neles, de certos elementos típicos como o doutrinarismo, o dogmatismo, uma forte componente passional, etc... que foram diversamente definidos e organizados por vários autores». (Fim de transcrição).

Creio que foi um pouco  nesta acepção e desta visão que durante anos, padeceu o estudo liceal da Literatura cabo-verdiana e, particularmente, da sua poesia.

Esta “ideologia” alastrou-se com carácter epidémico, diria, a algumas disciplinas curriculares dos liceus em Cabo Verde, de que a História, tal como a Literatura, também não escapou. Estamos a falar de um largo período de tempo que teve início com a independência e com a alteração curricular, entendida de forma   natural, pois que  passou a incluir o estudo de textos dos nossos autores  que se estendeu, presumo, até o presente momento.

Na decorrência disso, surgiu a tal malfadada divisão entre os poetas,  “ideologicamente” vinculados a um tipo de poemas que glorificavam ou não, aquilo que se considerava, na época, revolucionário, combatente, contestatário e, por outro lado, a poesia sem marcas ideológicas, mas igualmente de carácter interventivo social, contestatário,  sem ser disso  explícito  nem tão pouco vinculativo.

Parecia que só aquele tipo de poesia - o primeiro -   era válido na poética cabo-verdiana.

A linguagem subtilizada,o protesto implícito, a intervenção social sugerida, o não-dito, mas subentendido, não foram então, tão procurados nas análises poéticas, como deveriam ter sido.

Exactamente! Os tais poetas apodados de evasionistas versus anti-evasionistas, foi o grande “chavão” que ensombrou gerações de estudantes do ensino secundário no estudo da poesia cabo-verdiana dos últimos quarenta anos, e que acabou por retirar parte da significativa grandeza e beleza da nossa poesia..

Recuando um pouco no tempo, esta doutrinação não explicitamente assumida, que começou a ser inculcada, a partir de 1975, ou um pouco antes, logo a seguir ao processo do 25 de Abril, fazia crer aos estudantes de Literatura cabo-verdiana dos Liceus, de que só deveriam considerar “boa” poesia, “bom” poeta aquela ou aquele que fosse “engajado” (termo então em moda) com a causa da revolução, da independência; aquele cuja  mensagem escrita estivesse dentro do molde que era exigido, da exaltação explícita do facto heróico, nacionalista, da resistência, ou similar.

Um pequeno exemplo que chega a ser caricatural, embora ilustrativo: Achavam alguns “ideólogos” da Literatura de então, que um poema como «Ressaca», de Osvaldo Alcântara, carregava um traço “menos” na perspectiva deles, em relação ao poema «Não vou para Pasárgada» de Ovídio Martins. Pasme-se! Porquê? Porque este último, fazia o protesto em directo. Logo, tinha na óptica desses mesmos “ideólogos” valor acrescentado para o edifício poético nacional.

A linguagem culta, multifacetada, plurissignificativa, metafórica, exarada na poesia e no poema «Ressaca»  de Osvaldo Alcântara poeticamente codificado, pois que escrito e publicado num tempo e num espaço sem liberdade, possivelmente não lhes chegava ao entendimento. Daí a catalogação de “evasionista,” tal como fizeram, aliás, com excelentes poemas de Jorge Barbosa.

Pois bem, a subtileza imagística, a plurissignificação das palavras escolhidas, a linguagem metafórica, a beleza rítmica, a musicalidade versatória, entre outros atributos que distinguem um bom texto poético, não eram tidos em plena valorização.

À posteriori, reflectindo sobre o fenómeno, concluo que este maniqueísmo  acabou por vingar e vincar na generalidade, levando muitos professores a uma certa abordagem “facilitista” e a uma análise reducionista do texto poético cabo-verdiano.

Interessante, é que surgiram teses literárias ufanosamente baseadas neste pseudo-pasárgada/anti-pasárgadismo, e modelos forçados do género, aliás, muito em moda ao tempo, e que serviam na análise comparada dos textos de alguns dos nossos melhores poetas.

Lembro-me de como repudiei  “ab initio” a divisão ideológica e redutora feita e que estava a ser tão prejudicial à nossa causa poética!

Dou graças por ter escapado, felizmente, dessa onda!

Hoje, passadas já algumas décadas, quando olho para trás, regozijo-me por não me ter deixado envolver nesta abordagem tão redutora dos nossos textos poéticos! E tão injusta para os nossos grandes poetas!

Trabalhava com os meus alunos dos anos terminais do Liceu, à partida, sem qualquer preconceito e, sobretudo, sem qualquer pré-juízo formado ao tratar poetas tão diferentes e tão importantes como: Osvaldo Alcântara, Gabriel Mariano, Mário Fonseca, Jorge Barbosa, Arménio Vieira, Eugénio Tavares, Ovídio Martins, Pedro Cardoso, Onésimo Silveira, Januário Leite, Pedro Corsino Azevedo, Manuel Lopes, José Lopes, Yolanda Morazzo, Osvaldo Osório, Aguinaldo Fonseca, Corsino Fortes, Terêncio Anahory, Daniel Filipe, entre muitos outros, que a minha memória neste momento não me permite elencar.

Para além da originalidade de cada um deles, valorizávamos-lhes sim, a riqueza poética, a mensagem contida e a especificidade de cada um dos seus textos. Por vezes, as similitudes e/ou as diferenças nos temas tratados, quando nós os comparávamos.  Um parêntese aqui, para dizer que este plural “nós” não é majestático, (a indicar a 1ª pessoa do singular) não, é real, pois que se tratava de um exercício feito na e em aula, envolvendo participativamente, os alunos e a professora.

Sempre pensei que caberia mais tarde, ao então aluno, portador de alguns estudos sobre a matéria, fazer a sua própria filtragem, a sua escolha e a sua selecção de autores e de textos que, para ele, melhor consagram ou consagraram a “poesis” cabo-verdiana, dentro de cada género. Desde o tipo  lírico/amoroso/mornista, romântico, passando pelo texto designado de poesia protestatória, de intervenção social, da epopeia/heróica, indo à poesia narrativa e dramatizada. Enfim, fazer a escolha do(s) poeta(s), “mais poeta” − permitam-me a graça − e o que produziu melhor poesia no seu tempo e não só. Mas também,  aquela que  chegou  à actualidade ainda poesia...

Voltando às aulas, é minha opinião, que quase todos os poetas estudados, e cada um a seu modo, no seu tempo, nas suas circunstâncias e com as suas motivações, tratou nos textos legados, a denominada “caboverdianidade” afinal, o traço identificativo e distintivo da poesia feita nestas ilhas, ao longo de séculos.

E foi assim, durante largos anos, o estudo da poesia cabo-verdiana nas escolas secundárias do país. Sob invólucro “ideológico” ou querendo parecer isso, limitou-se em muitos casos, a fruição plena do texto poético, pois o seu autor já vinha carimbado. Por outro lado, sobrevalorizou-se o chamado poeta de circunstância, do protesto imediato. Aquele cujos poemas estariam fatalmente circunscritos a um determinado momento histórico, sem garantia de perenidade da poesia neles inscrita.







domingo, 10 de maio de 2015

Aviso Aos Navegantes
Agradece-se ao Jornal que daqui retire qualquer texto, tenha a cortesia de mencionar a fonte: www.coral-vermelho.blogspot.com 
É apenas uma questão de ética. “Noblesse oblige!”

Em prol da Língua portugesa...

domingo, 3 de maio de 2015

“Água mole em pedra dura...” ao bom entendedor meia palavra apenas.

A Língua portuguesa é actualmente o elo mais fraco da cadeia linguística cabo-verdiana.

É triste e deprimente para a nossa cultura, observar como os predadores da riqueza linguística cabo-verdiana têm vindo a actuar, a fazer opinião, e infelizmente, a ganhar terreno.

Para mal dos nossos pecados são pouquíssimas as vozes que se levantam abertamente contra tal estado de coisas e assumidamente a favor da expansão, da oralidade e da permanência da nossa também, língua portuguesa.

 Por outro lado, atira-se aos quatro ventos que o que se pretende é o bilinguismo.  Puro engano!  Como tal será, ou seria, possível se nada, mas mesmo nada, se diz e se faz neste país, em prol da Língua portuguesa?

A questão linguística cabo-verdiana tornou-se num reduto, onde só entram  ou apenas estão autorizados a penetrar, por “motu próprio”, os ditos “especialistas” e as aspas aqui não se dirigem tanto à capacidade técnica dos mesmos, mas mais ao exclusivo no tratamento das línguas por eles pretendidos.

A questão linguística é muito mais abrangente; ela é pertença dos seus falantes. Deus nos livre e guarde!  - deixar esta transcendente questão, que é de todos os cidadãos cabo-verdianos, apenas nas mãos totalitárias de um punhado de linguistas, sociolínguistas e políticos, alguns de duvidosos gosto para uma actuação descomplexada.

 Existe, de facto, uma defesa exacerbada - sem muita razão de ser nos tempos que correm - do Crioulo, como se este não estivesse pujante e cheio de vitalidade na fala do cabo-verdiano. O que é necessário e urgente é a preservação e a expansão da nossa língua segunda e oficial, em todas as ilhas e sobretudo, nos meios que lhe são naturais, como a escola, a administração pública e a comunicação social.

O assunto já assumiu contornos de prós e de contras. Tal é a confusão que por aqui vai!!...

Os responsáveis lançam diplomas sobre diplomas, fazem encontros, sobre encontros, oficinas de trabalho, e conferências, e mais mesas redondas, eu sei lá!... nenhum é sobre a Língua portuguesa. Vai tudo na defesa (como se ainda estivessemos na posição de há 40 anos atrás!) do Crioulo e ninguém reflecte, ou quer reflectir, meditar, analisar sobre o que vem sucedendo ao português nestas ilhas tendo até em conta a comunidade linguística à escala global a que pertencemos.

 Estamos em 2015! Quatro décadas, duas ou mais gerações já nos separaram de 1975 (ano da independência)!

 Começa a ser fastidioso e saturador “bater” na tecla do antigo problema do não prestígio do Crioulo e da mais-valia do português entre nós. Este pressuposto, obviamente,  nunca existiu para a geração que tem hoje quarenta anos. A que cresceu,  viveu e ainda vive com a independência de Cabo Verde não pensa, nem pode pensar, assim, a não ser  em situações muito pontuais por influência de um ou outro, eventual encarregado de educação, naturalmente, mais velho. Afinal,  a  geração mais nova estava de “alma lavada”!

 O que a geração dos nossos filhos e netos, se apercebe e talvez deseje ver implantado, não à força, mas num fluir natural e evolutivo do mundo global em que estamos inseridos e do qual dependemos e interagimos, é o tal bilinguismo, já bastas vezes apregoado, mas que infelizmente tem sido mal construído, porque á custa do mal-dizer e do prejudicar a co-existência  do crioulo com a língua portuguesa.

 Meditemos sobre o modo como o processo tem vindo a ser conduzido.  Vejamos qual será o presente e o que virá no futuro da Língua portuguesa - nossa também e de pleno direito? Como usufruir, e bem, deste rico legado linguístico, histórico e cultural, a tal primeira língua que os pássaros, as rochas e o mar ouviram nestas ilhas? Que devir, entre nós desta riqueza de comunicação que tem tido um papel ímpar no desenvolvimento do país?

Há dias comentava (meio a brincar, meio a sério) com uma pessoa amiga de que no dia em que um Partido eleitoral nacional, apresentar no seu programa de governação, uma proposta de cuidar da Língua portuguesa nestas ilhas, de tentar recuperá-la e expandi-la, entre nós, a boa oralidade da nossa língua segunda e oficial; esse hipotético programa  de governação, terá o meu voto e os votos também, se calhar, da maioria silenciosa dos cidadãos cabo-verdianos a este respeito. Até faria diminuir a abstenção que vem conhecendo um crescendo, sem paralelo nas eleições de há  década e meia!

Infelizmente, com estas manobras de  configuração destrutiva, já  se conseguiu derrubar o último ambiente próprio e adequado da língua portuguesa em Cabo Verde que é a escolarização, o ensino, para muitos, a única oportunidade que significativa parte das criança e dos adolescentes destas ilhas, tinha para o contacto com a língua oficial do país!

Não devemos misturar os papéis que às duas línguas foram por nós, seus falantes, cometidos, num trabalho pacientemente elaborado há séculos. Sempre os soubemos distinguir e ao que parece isso tem contribuído e bem para o desenvolvimento do país. Por favor! Não concorram para o empobrecimento tecnológico, científico e cultural de gerações vindouras.

Tudo isto desestabiliza, vem perturbando seriamente e sobremaneira o ensino e a aprendizagem dos alunos.

Na minha opinião reiterada, as duas línguas nacionais têm papéis distintos no edifício  bilingue, pretensão bem-vinda, que o falante cabo-verdiano quer ver efectivado. Misturá-los e confundi-los será péssimo!

Um dado interessante: o Observatório da Língua portuguesa, para além de registar que este idioma é o que mais vem crescendo em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, nos últimos quarenta anos, sendo que no primeiro país mencionado – Angola –  a sua expansão é  exponencial  sendo já língua materna   de quase cem por cento dos nascidos em meios urbanos e no pós – independência; registou também que o Parlamento Europeu declarou recentemente, a Língua portuguesa como a terceira língua de comunicação europeia.

Ora se pensarmos que nos últimos anos, levas e mais levas de jovens cabo-verdianos saem do país em demanda de trabalho e de dignidade em Angola e em outros países de acolhimento e de língua portuguesa, isto para não falar que Portugal vinha registando estatisticamente, a comunidade cabo-verdiana, como a comunidade imigrada mais numerosa no seu seio, com forte crescimento depois da independência do Arquipélago e até sensivelmente, meados dos anos noventa do século XX, altura em que foi ultrapassada pela oriunda dos países do chamado Leste europeu; se adicionarmos a tudo isso o papel comunicativo que o português tem para esta nova geração de emigrantes  para a sua integração no meio de acolhimento, mais valor e cuidado estaríamos a atribuir à língua portuguesa no ensino em Cabo Verde.

Deixemos de pseudo-patriotices bacocas! Pensemos objectivamente, nos ganhos, nos benefícios que temos tido e que continuaremos a ter, se à Língua portuguesa for reconhecida o mérito incomensurável que tem tido no desenvolvimento a todos os níveis de Cabo Verde.

 

EMPURRAR OU NÃO O ROCHEDO DE SÍSIFO?

quinta-feira, 30 de abril de 2015
                 
Em memória da minha amiga Maria Margarida Salomão Mascarenhas,  contista e cronista, falecida a 8 de Janeiro de 2011, que comigo partilhou  muitas reflexões filosóficas sobre a condição humana.



Com a ilustração desta imagem, a minha amiga Maria Margarida fez-me destinatário de uma reflexão poético-filosófica, revisitando o absurdo da condição humana, na peugada de Camus (1). A fotografia permite-nos evocar a tortura de Sísifo, de que nos dá conta a mitologia grega. Tendo desafiado os deuses, Sísifo foi condenado a empurrar sem descanso um enorme rochedo até ao cume de uma escarpa, de onde rolaria por aí abaixo para ser de novo empurrado, e assim repetidamente por toda a eternidade. Os deuses entenderam que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. E Sísifo não desiste, vai aí acima vezes sem conta apenas para rebolar de novo até ao fundo sempre que está prestes a alcançar o cimo. Albert Camus utilizou esta metáfora para sustentar a sua “filosofia do absurdo”, segundo a qual as nossas vidas não têm qualquer utilidade, não valendo mais do que a aparência ilusória do que criamos ou julgamos criar. E assim, perante uma vida inútil e sem sentido, para Camus a alternativa ao destino de Sísifo poderá ser o “suicídio”, ou seja, o fim de uma existência desprovida de sentido.
A minha amiga andava então a tratar-se de um carcinoma da mama que, infelizmente, a haveria de matar. Mas, mulher de uma estóica resistência e grande energia moral, arrostou com o sacrifício do penoso tratamento ao longo de anos, procurando no reencontro consigo própria a inabalável força interior para não desistir da sua luta tenaz. Os seus escritos funcionavam para ela como um poderoso estímulo, uma espécie de bálsamo para as dores físicas mas também para as angústias momentâneas:
“…. Sinto-me hoje com uma boa calibragem química devido ao tratamento de ontem e  vinha cavalgando uma filosofia libertária à Henry Miller, Anaïs  Nim ou June  dos anos trinta. Mas como transformar o sofrimento em escrita?”;
“….Não gosto de ser eterna. Pelo menos dentro da realidade que conheço, mas como um outro correio me fala de engenhocas que no futuro conduzirão ao futuro  (já agora ao passado), não sei se presentemente estou vivendo sem consciência uma realidade já vivida. Mas também não gosto de ser Sísifo, embora aprecie os ritmos da vida, da noite e do dia e das estações do ano, dos rituais festivos que me transmitem a noção do Tempo.”; 
“…. O sol despontou e incidiu sobre um trevo de quatro folhas cobertas de pérolas de cacimbo brilhando como diamantes e sei que amanhã a cortisona vai-me mandar a conta com juros.”
Repare-se que a Maria Margarida disse que “não gostava de ser Sísifo”, é verdade, mas também sei que ela era da estirpe daqueles que não desistem da busca contínua do sentido das coisas para o fortalecimento da sua consciência crítica.
Mas continuemos com a mitologia. Um dia, Sísifo chega ao topo, e, antes de voltar a resvalar por aí abaixo no seu eterno suplício, tem um assomo de clarividência e apercebe-se de que começa a ser mais forte que o rochedo, a assenhorear-se do seu próprio destino. E isso transmite-lhe um misterioso alento para recomeçar tudo de novo, preferindo a eternização do suplício ao termo da sua existência, isto é, ao “suicídio”. Daí poder-se dizer que Sísifo simboliza o heroísmo do “absurdo da existência humana”. A clarividência que devia fazer o seu tormento consagra a sua vitória.
Recentemente, foi noticiado o dramático caso de alguém que, esse sim, recusou ser Sísifo ou… Maria margarida Mascarenhas. Um septuagenário, cansado de cuidar da mulher doente e em estado vegetal, talvez apercebendo-se da inutilidade do seu esforço e do vazio de sentido da sua vida, matou-a e suicidou-se a seguir. Não é inédito, muitos casos semelhantes têm acontecido e vão continuar a ensombrar os nossos dias.
O “absurdo” da alegoria de Camus assume nos tempos que correm uma evidência ainda mais flagrante, com o Homo sapiens a dar razão a que se duvide de que o cosmos tenha sido feliz quando o privilegiou com a capacidade racional para reinar entre os outros seres da Criação. Numa era em que se esperava que o salto vertiginoso do progresso tecnológico alavancaria o homem para alturas superiores da sua clarividência, estamos a assistir precisamente ao inverso. Um pouco por todo o lado, emergem inumeráveis narrativas sobre a sordidez da natureza humana: guerras por motivos fúteis; barbárie; genocídios; massacres; execuções em massa; tráfico de seres humanos; escravidão sexual; tortura; etc. Este milénio parece apostado em demonstrar que a mente humana está mais próxima do cérebro reptiliano do que podemos imaginar. Assistimos ao paradoxo de as manifestações primárias daquele cérebro serem sadicamente divulgadas pelas tecnologias criadas precisamente pelo cérebro racional: câmaras de filmar, televisão, facebook, etc. A racionalidade devia ser o comando firme e esclarecido da  mente e a emoção o tempero equilibrador da alma, mas a simbiose entre as duas virtudes parece tão contingente quanto o seria nos primeiros passos da humanidade. As exasperação e o desnorte crescem, a questão filosófica central no pensamento de Camus mantém uma impressionante actualidade.
Assim, neste cenário de um mundo desprovido de sentido, coerência e unidade, é angustioso o dilema da  existência que se coloca ao homem, confrontado  com os limites da sua razão e a inquietação metafísica sobre o seu destino. Perante isto restar-lhe-ia o suicídio face à perda de sentido da sua vida. Será? Não, para Camus o suicido não será a melhor resposta ao “absurdo” da nossa condição, pois que cortar o fio da existência não resolve o problema. Entende que a assunção de um estado de  “revolta” é a atitude correcta porque aviva no homem a consciência de si próprio e estimula-lhe o inconformismo e a recusa obstinada às armadilhas do quotidiano e às servidões e ameaças a que está sujeito. Se uma atitude de revolta contra o “absurdo” não garante conforto e tranquilidade ao homem, coloca-o porém no “cume vertiginoso” que para Camus é a experiência inteiramente consciente de estar vivo. Pois foi assim que Sísifo descobriu que “a lucidez que devia constituir a sua tortura ao mesmo tempo coroa a sua vitória”. O escritor-filósofo diz que devemos imaginar Sísifo feliz, pois “ser consciente da própria vida num grau máximo, é viver num grau máximo”. Tentando compreender a lógica do “homem absurdo”, Camus propõe assim a sua moral, deixando-nos pistas para responder às perplexidades, terrores e angústias que assaltam o nosso quotidiano, seja à escala das vivências individuais, seja à escala dos grandes desafios colectivos.
Quem é verdadeiramente o Homo sapiens? Quais são os limites da sua racionalidade?
A dado passo do meu diálogo com a Maria Margarida sobre esta problemática, lembrei-lhe estas palavras de Kant: “o nosso entendimento cria as suas leis, não a partir da natureza, mas prescreve-as à natureza”. E então contei-lhe que certo dia um cão aproximou-se de mim (estava eu sentado num jardim) e por momentos olhou-me de uma forma tão estranha e penetrante que me perguntei se aquele animal dito irracional não apreende coisas do mundo natural que escapam aos meus sentidos. Teria ele momentaneamente captado a essência do meu ser? A diferença entre mim e o animal estará apenas na capacidade de elaboração e sistematização do que vejo, enquanto ele deve chegar a alguma dimensão que me é interdita? O Criador deu ao homem a capacidade racional mas em troca lhe sonegou alguns poderes concedidos a outros seres considerados inferiores? Com estas incógnitas, concluí eu, de nada vale cortar pelas nossas mãos o fio que nos liga à existência. É que pouco sabemos de nós e do mundo natural para taparmos os ouvidos ao chamamento interior da nossa consciência.  
Acredito que a alma da minha amiga se tenha acolhido na eternidade, lá onde existe aquela infinita dimensão do Tempo que ela incessantemente procurou.
(1) As palavras e expressões entre aspas referem-se ao livro O Mito de Sísifo, de Alberto Camus, exceptuando a transcrição dos excertos de textos da Maria Margarida Salomão Mascarenhas.

Tomar, Maio de 2015
Adriano Miranda Lima
terça-feira, 21 de abril de 2015

Breve nota explicativa
A crónica que se segue é um inédito de Maria Margarida Mascarenhas e que chega ao «Coral Vermelho» pelas mãos amigas de Adriano Miranda Lima.
Maria Margarida Mascarenhas, cabo-verdiana, natural de Mindelo. Aí fez os seus estudos liceais.
Formou-se em Portugal em Turismo e Línguas.
 Escritora com muita vivência da cidade da Praia, que se tornou no “habitat”  criativo por excelência, de quase todos os seus contos.  Autora conhecida e apreciada pela forma de narrar em que  alia a arte de contar à linguagem poética. Exemplos disso, os contos: «O Baptizado da Hirondina» «Vigília» entre outros. MMM ainda jovem, iniciou-se nas lides literárias. Data dos anos 60 do século XX, a sua estreia no antigo Boletim Cabo Verde. Igualmente colaborou no «Seló –página dos novíssimos» publicado no Jornal Notícias de Cabo Verde em 1962. Autora do livro de Contos, «...Levedando a Ilha», publicado em 1988. Figura em antologias e colectâneas de Contos. É uma das contistas presentes no «Elas Contam...»2008, edição do IBN de Cabo Verde.

 

 

AQUELA ACÁCIA

 

 

Encontrei-a na véspera do Natal de 2004,  naquela esquina da Rua do Corvo para a Rua dos Correios, por detrás da Catedral  no Platô,  e o meu coração descontrolou-se  acompanhando o badalar dos sinos.

 

Conheci-a pequenina quando lá foi plantada  e a rodearam de um bidon velho nos começos dos anos sessenta.  Havia uma campanha promovida pelo director da Fazenda Pereira e Silva, que plantou rosas na Praça Alexandre Albuquerque e acácias pelas ruas.

 

Lembro-me, entre tantas críticas, a do Belmirinho, que me disse que as acácias  desertificam tudo em redor.

 

Mas aquela acácia  ainda lá está  resistindo. Graças a uma daquelas relações estranhas que se desenvolvem entre seres e animais, seres e coisas, pessoas e criaturas.

 

O sol quando se põe em África faz, fazia, nascer aquele desamparo  difícil  de suportar de que o meu pai sofria e creio que eu também.

 

 Regressava do trabalho,  dava umas voltas no passeio em frente à nossa casa assoprando aquele maldito “falcão” que o mataria anos mais tarde.  Eu ficava por detrás das persianas  vendo-o  e divertindo-me um pouco com aquele desespero até que plantaram aquela acácia que passou a ser a razão  dos seus passeios.

 

Nas noites ventosas e de ruas desertas, lá estava ele resmungando,  compondo o bidon,  derrubado e amparando os ramos da árvore, por vezes furioso  com o vandalismo dos  meninos e dos cães. Depois dos bidons, puseram umas ripas de madeira e lá ia ele arranjar e endireitar após cada curta volta no passeio.  Por vezes, entrava em casa e levava um jarro com água para regar a árvore.

 

Partimos todos e esquecemo-nos da arvorezinha.

          

Qual não foi a minha surpresa naquela véspera de Natal ao deparar com a acácia que agora já é uma árvore!

Se por detrás de todas as acácias houvesse uma vontade de vencer e resistir?

           

Peço a todos os que leiam este relato que ao passarem naquela esquina  prestem uma homenagem por mim àquela acácia e ao seu  amigo. Mesmo que se riem de vós como eu me ria do amigo.

            

Aliás, prestem homenagem à luta e à resistência de todas as acácias! Quando mais retorcidas melhor.

                                     

                                              

                                                M.M.M

 

                     (Maria Margarida Salomão Mascarenhas)

 

 

 Maria Margarida Salomão Mascarenhas nasceu no Mindelo em 1938. Neta de Francisco Resende Mascarenhas, foi funcionária pública, primeiro em Cabo Verde e depois em Portugal, onde vivia desde 1964. Colaborou no Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação e, depois da Independência de Cabo Verde, na revista Raízes. Foi a primeira coordenadora do boletim da diáspora cabo-verdiana, em Lisboa, Presença Crioula, que depois mudou o nome para Presença Cabo-verdiana (órgão da Casa de Cabo Verde). Faleceu de doença prolongada em 8 de Janeiro de 2011.

 

"Como Cultivar a cidadania na escola?"

domingo, 19 de abril de 2015

 

 
O título não é da minha autoria. Explico-me: fui convidada recentemente pela Associação dos Professores Católicos de Cabo Verde, para participar, numa tarde  de Sábado, num debate à volta do tema: «Como cultivar a cidadania na escola?».

Embora  sob epígrafes vários, mas próximos em termos de conteúdo, o tema tem vindo a ser recorrentemente tratado nos meios educativos.

Não obstante, suscitou o meu interesse pela forma como a APC. pretendia agora abordá-lo, não o queria como ponto assente em termos de pertença natural da escola,  mas antes, interrogar-se: como cultivar a cidadania na escola?

Entendi-o também como um desejo implícito da Associação, de que valores e educação voltassem a ser parte integrante da nossa escola.

Da minha parte, lá fui à procura de alguns eventuais contributos que pudessem minimamente  juntar-se aos dos outros participantes e ajudar a mim própria,  a entender algo que à primeira vista  podia parecer até óbvio, uma vez que em  perspectiva conjunta estaria um trinómio indissociável Escola/Educação/Cidadania. Esta última há-de funcionar como  meta almejada pela escola - na difusão do seu saber, do saber/ fazer. Ou seja, a cidadania, saber/ser, como ponto de chegada do processo educativo e formativo da criança e do adolescente.

Ora bem, olhando, com realismo, para a configuração actual da sociedade cabo-verdiana e fazendo uma breve retrospectiva histórica, da independência a esta parte, algumas questões se me colocaram e se me colocam, tais como: a educação é actualmente uma obrigação, um dever da escola? A questão assim posta pode parecer paradoxal.

Mas se nos ativermos no transcurso destas últimas quatro décadas e sobretudo nos primeiros anos de vivência enquanto país, Cabo Verde,  não obstante todo o meritório e digno trabalho levado a cabo no sector da educação, com vista à sua edificação, no entanto, à escola foi-lhe transmitida a directriz  primeira, de que só lhe cabia o ensino das matérias curriculares. A educação, “lato senso” caberia e algo difusamente, ao Estado e possivelmente também à família (embora esta estivesse ao tempo, ideologicamente secundarizada pelo primeiro).

Mesmo que fossem orientações dos primeiros conturbados e interrogativos momentos do país na procura de caminhos o que é certo é que a ideia vingou.

Na esteira desse (des)acerto educativo, os professores como que se tolheram com receio, de que uma advertência, de que uma chamada de atenção ao aluno com propósitos educativos não fossem bem-vindos. A pouco e pouco, a boa educação, os valores por nós julgados muito úteis no desenvolvimento cívico e social da criança e do adolescente foram gradualmente desaparecendo da sala de aula, tanto da fala do professor como do comportamento e da atitude do aluno.

Claro que o tal Estado que havia de fornecer, não se sabia muito bem como, a educação, os valores, nunca deu o “ar da sua graça”! e instalou-se uma espécie de grande vazio, e gerou-se também, vale dizer, uma certa apatia, um certo comodismo, no meio disso tudo.

Resumindo, foi um tempo de demasiada descompressão e de muita permissividade; valia na aula o dito “professor-camarada” no mau sentido. Portanto, quando voltou o equílibrio, pelo caminho, perderam-se os já referidos valores.

A escola deixou de chamar a si, pariticipativamente, esta transcendente reponsabilidade social.

A marca ficou, entranhou-se no comportamento escolar, o hábito gerou o resto e resultado: nunca mais a educação e os valores voltaram a ser partes estruturantes, equitativas e fundamentais, da escola cabo-verdiana. O que é uma pena!

Pois bem, a educação e o ensino que deviam ser, dado o caso particular da configuração familiar e social cabo-verdiana, como  frente e verso de uma mesma folha de papel, estão hoje completamente divorciados uma do outro.

 Do mesmo modo, a escola que devia ser um modelo ideal de transmissão de valores, principal expoente da educação dita formal, foi ficando cada vez mais vazia  e encontra-se actualmente, desprovida de valores.

A família  com destaque para a oriunda da base bem larga da nossa pirâmide social, isto é, do extracto social menos qualificado em termos de rendimentos, de literacia e de cidadania, com complexos e graves problemas de desestruturação, de disfuncionalidade, de monoparentalidade, não possui capacidade endógena de, no lar, possibilitar essas “ferramentas” básicas e fundamentais à criança no seu processo de socialização e de crescimento.

Resultado, o aluno chega à escola, sobretudo aquele que se dirige à escola pública, com etapas queimadas; ignorante de noções básicas de boa socialização, pois em casa, na chamada educação não-formal, quase que não teve contacto com adultos capazes de  influenciar positivamente o desenvolvimento do seu carácter e do seu sistema de valores ( nomeadamente, a ausência da figura paterna que é gritante na família cabo-verdiana da camada social menos favorecida).

Ora estes dois males, por um lado, a desmunição de valores que a própria escola apresenta e, por outro lado, o desconhecimento assaz penoso de noções básicas de sociabilização com que aluno entra na sala de aula, penalizam, reduzem fortemente, o aproveitamento e comportamento académicos e no seguimento, inibem o seu desenvolvimento e a sua formação como cidadão.  

 Infelizmente, e não é por acaso, que Cabo Verde vive actualmente nos seus centros urbanos, sobretudo na cidade capital,  a maior crise de sempre, de delinquência e do crime juvenil.

 Perante esta realidade, perante estes sinais tão alarmantes e tão preocupantes, a atenção vira-se agora para a escola, como última esperança, o último baluarte,  que despiste, que corrija e que debele esta crise sem precedentes que se abateu sobre larga faixa juvenil da população. 

Qual é, qual deve ser o papel da escola? Como cultivar a cidadania na escola?

É o desafio que nos lança agora e em boa hora, a Associação dos Professores Católicos de Cabo Verde, APC.

Só através de um trabalho sistemático, estruturador e consciente, realizado no interior da comunidade escolar, isto é, da escola - enquanto instituição que realiza a instrução e a  educação - dos professores, dos pais e encarregados de educação, dos alunos, e coadjuvados por associações e fundações da sociedade civil, enfim, por agentes próximos e activos e mais contributivos para a causa da Educação.

 Só assim conseguiremos que, por um lado, na sala de aula, no corredor e no pátio da escola se construa e se viva a cidadania, nos gestos, nas atitudes, nos comportamentos prof/aluno, aluno/prof, prof/prof, aluno/aluno. Isto é, a escola ser geradora de cidadania. Por outro lado, a escola virar-se, abrir-se em atenção à comunidade onde se encontra implantada; à sociedade e ao mundo que a rodeia e deles colher exemplos de boa prática de cidadania para sobre  isso reflectir e difundir na própria escola.

 Finalizando, devemos aproveitar, como alguém já disse e bem, os momentos do achamento do “eu” que a escola proporciona ao aluno e neles cultivar a cidadania.