Variante do Crioulo do Fogo – Influências da congénere de Santiago - Uma curiosidade -

quinta-feira, 25 de junho de 2015
É sempre interessante, apercebermo-nos na fala do nosso interlocutor, de situações de empréstimos inter-variantes do crioulo, de uma para outra ilha. É o caso actual da grande influência da fala da variante da ilha de Santiago no falante foguense  de menos de  40 anos.

Mas vamos por partes. Tudo me leva a crer que um dos veículos de introdução desse fenómeno no Fogo, é sem dúvida a comunicação social; outra será a grande proximidade, ligação, circulação e comunicação constantes entre as duas ilhas vizinhas; e outra ainda, embora em menor escala através de canções e de homílias da Igreja, no caso, a católica que conheço bem. Exemplos desta última, tive-os eu recentemente - na curta visita que fiz à minha Ilha - durante a missa de S. João, na Atalaia, nos Mosteiros. As orações e as canções ditas pelo Padre e interpretadas pelo coro, foram proferidas numa mistura, em que a variante de Santiago  era figura marcante.

Ora bem, tudo  conjugado, em se prestando atenção, descobrir-se-ão nas construções frásicas, na entoação silábica, e mesmo no léxico do falante foguense actual, e com o perfil etário acima descrito, aquisições linguísticas já numerosas da ilha vizinha, maior e dominante.
 Continuando, e para exemplificar o que venho dizendo, a variante da ilha do Fogo, não tinha  e nem usava a palavra “tchota” (pardal), oriunda da fala santiaguense, mas sim  “tchintchirote” ou mesmo “pardal” para  se referir às pequenas e barulhentas avezitas conhecidas por poisarem nas figueiras. Aliás, como diz a bonita coladeira feita por Pedro Rodrigues: “Ó minina bu stâ sima tchintchirote na figuera!...” ( Ò menina estás faladora, barulhenta!) Hoje, se calhar já é um arcaísmo (?).

Igualmente, na fala da gente do Fogo, não se dizia “xinti” ( do verbo “sentir”) mas sim “sinti” bem sibilado e  bem silabado. Outro exemplo, é a expressão muito usada hodiernamente, na variante de Santiago “... bu sta ódja?” (estás a ver?...)  dita numa só emissão de voz, e que corresponde ao “pá” (em português) pois faz de suporte frequente na transição de uma frase para a outra. Pois bem, a correspondente no Fogo seria, hoje já não é: “bû  s’tâ ô djâ?” tudo muito bem silabado separadamente como é o timbre de emissão de voz, da variante desta ilha.

Para os foguenses era o “fra”(“dizer” em português) ex: “djam fra, dja sta frado!” (já disse, está dito!) Actualmente, ouve-se na ilha do vulcão “djam fla...” importado de Santiago.

Sempre ouvi “normalmente” no Fogo, “pá-pi-â” (“falar” em português), actualmente e na mesma ilha, já ouço com muito mais frequência: “fála” monossilabicamente emitida vocalmente, à maneira de Santiago.

Esta pequeníssima amostra, apenas uma curiosidade, pretendeu ilustrar a já instalada influência da variante do crioulo santiaguense, na fala foguense.

Na realidade, empréstimos linguísticos, sempre os houve e continuam a existir na variante foguense, com destaque para palavras inglesas,  importadas dos Estados Unidos  via processo  migratório, adaptadas e, por vezes, “corrompidas”. Tanto assim é, que se entro numa loja no Fogo e peço “fralda para bébé,” a jovem balconista (normalmente são mulheres que atendem nas lojas) olhará para mim interrogativamente, pois não terá percebido o meu pedido. Mas se digo: “... bendém um “daipa” (no original: “diaper” ( Em português: “venda-me uma fralda”) ela imediatamente descodificará o produto pedido. E como este, outros muitos exemplos de anglicismos, ou melhor, de americanismos, estão já e há muito, incrustados no crioulo do Fogo.

 Voltando ao início do propósito deste escrito, se por um lado, isso é já um fenómeno inevitável, justificado e normal, por outro lado,  nota-se com alguma pena, o desaparecimento, a perda de características diferenciadoras  que faziam  e  fazem a riqueza e a diversidade linguística das variantes do nosso crioulo.

A cada ilha a sua variante bela e única! Quando vou ao Fogo, gosto de ouvir a variante da ilha. Da mesma maneira, quando visito a Brava, ou outra ilha. Cada uma, à sua maneira, exprime a singularidade telúrica/ilhéu, e a riqueza de que somos feitos o que não anula a pertença colectiva naquilo que fundamentalmente  nos identifica.

Termino, dizendo que também a tal “ aldeia global” dos tempos,  em que vivemos e à nossa escala,  é também uma  realidade no nosso micro espaço, inter-ilhas.

Em português nos entendemos?...

sábado, 6 de junho de 2015

Recebi este e-mail e achei-o interessante porque se apoia numa das razões que justificam ou justificaram o famigerado (des)acordo ortográfico. Vou publicá-lo tal qual o recebi excepto o título que seria “Uniformizar ‘bora lá”.


No outro dia, ouvi o Malaca Casteleiro dizer que o Acordo Ortográfico em que trabalhou incansavelmente ao longo de anos e anos, teve por objectivo uniformizar a língua entre todos os países de expressão portuguesa.

Assim sendo, os brasileiros têm rabo ou somos nós que vamos passar a ter bunda?

E as senhoras, as de cá passarão a usar calcinha ou são as de lá que usarão cuecas?

De fato eles vestem fato ou nós, de facto, de futuro envergaremos terno?

O governo de cá rouba-nos a grana ou é o de lá que lhes sonega o carcanhol?

Passamos a ir à lanchonete ou são eles que vão ao café?

Vamos beber um bagaço à tasca ou uma cachaça ao boteco?

E o tipo que defende a baliza, é para eles guarda-redes ou, para nós, será goleiro?

E como nos passaremos a mover? Nós de trem, ônibus, bonde, ou eles de comboio, autocarro, eléctrico?

Esperamos pelo transporte na parada ou continuaremos a fazê-lo na paragem? 

Respeitamos a bicha na paragem ou antes a fila na parada?

E aquele gajo porreiro, de pêra, que vai a sair da esquadra? Vamos ter que dizer que é um cara legal, de cavanhaque, a sair da delegacia?

Se quisermos agrafar um relatório, recorreremos a um grampeador ou a um agrafador?

E se o nosso fito é afiar um lápis, agarramos num apontador ou num apara-lápis?

Fomos à privada e não usámos a descarga ou fomos à retrete e não puxámos o autoclismo?

E por aqui, pela merda, me fico. Em castelo. À Casteleiro. Em bom português, do único, porque merda é merda, aqui ou no Brasil.

Não sei quem é o autor, mas, daqui, chapeau!

P.S. - Os meus e-mails são redigidos em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo Aborto Ortopédico - perdão! Acordo Ortográfico.
quinta-feira, 4 de junho de 2015

Nota explicativa sobre o artigo que adiante se publica:
Por ter achado o texto interessante e honesto para quem, como nós, é lisboeta de coração; porque vivo numa pequena cidade – Praia – que se tornou (in)compreensivelmente, altamente insegura;  porque tenho passado pelas mesmas sensações do autor do texto quando estou em Lisboa e ando e passeio a pé, descontraída e tranquilamente; porque aí pude com uma grande felicidade verificar que se pode sair do cinema à meia-noite, com  duas netas adolescentes e andar a pé, gozando o passeio até à casa, e sem pensar em assaltos;
Por tudo isto, achei oportuno trazer ao leitor do «Coral Vermelho» o texto que se segue, com a devida vénia ao autor, Joaquim Ferreira Santos e ao Jornal «O Globo».

 

Rio-Lisboa (Joaquim Ferreira dos Santos)

O GLOBO, 28/MAI/2015

O carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida do Rio.

O bom de descer as ladeiras de Lisboa é que durante alguns dias você está longe da selvageria carioca, pode sentir a nostalgia de sair flanando como fazia antes nas ruas da sua cidade. Zero de medo. Assim como quem não quer nada, um sorvete da Santini numa das mãos, você vai Rua do Carmo abaixo, passa pela luvaria Ulisses e, quando dá com os cornos no Rossio, o largo monumental pode fazer a surpresa de oferecer uma festa de máscaras ibéricas, comidas e danças por todos os lados, mas nunca a cena de um médico ensanguentado no chão do Café Nicola, esfaqueado por algum garoto que em seguida lhe roubou a bicicleta e foi embora.

Isto aqui é Lisboa, ó pá. Zero de deslumbramento. As escolas de Portugal acabaram de ser avaliadas em trigésimo lugar num ranking de 38 sistemas educacionais europeus, há muita coisa a ser feita, mas o bom disto aqui é que se vive em paz com os pequenos valores da existência. Zero de sobressaltos. A delícia antiga de se ir ali à esquina e, na ordem natural da felicidade das coisas, voltar sem que a polícia lhe tenha metido uma bala perdida nas costas.

Agora, por exemplo, você está na ladeira do Príncipe Real e basta pôr os pés na faixa de pedestres para que os carros parem até você chegar do outro lado. Aí é só começar a descer a rua por uma calçada de pedras portuguesas, todas postas em seus lugares, nenhuma solta e chamando os pés para um tropeção que pode para sempre lhe estuporar os artelhos e desgraçar a sobrevivência.

Não está acontecendo nada de muito notável, Lisboa está linda, mas não se faz aqui o registro de qualquer grande marco a se exaltar na revolução civilizatória moderna. É apenas uma cidade que tem se descoberto feliz consigo mesma.

Lisboa está coberta dos caminhos simples, verdadeiros yellow-brick-roads para se levar a vida com leveza, essa carência carioca, e num deles você desce o Bairro Alto, atravessa o Largo Luís de Camões, pega a Rua Alecrim e, ao final, apesar de todas as modernidades da Rua Nova do Carvalho, é possível encontrar ainda de pé as tascas da tradição gastronômica. Tudo convive sem conflito. Ao contrário do Rio, onde toda semana fecham uma mesa na memória do paladar e tiram da boca do cidadão um gosto familiar, em Lisboa é possível sentar num tamborete do quase botequim Sol e Pesca para comer as conservas que há séculos apetecem ao apetite local. Ninguém mais sabe ao certo o que é antigo e o que é moderno. As sardinhas continuam nas latas, o azeite continua de oliva, mas o estilo de tudo isso agora vem embrulhado em papéis do mais fino design.

Isto aqui é Lisboa, ó pá, e isto não é o anúncio de que o mundo está sendo reinventado a partir de suas oito colinas. Os políticos corruptos também estão, como os ratos de sua corja internacional, nas capas do “Expresso” e do “Público”. Mas na vida real do dia a dia a cidade encontrou um jeito delicado de lustrar os seus casarões magníficos, parecidos com os que todo mês desabam na Lapa carioca e, ao mesmo tempo em que se orgulha deles, reinventa suas funções. Não há mais loja de roupa, mas de “conceito”, e portuguesa de bigode era a vovozinha. Agora as garotas são todas “gira”, o termo local para traduzir o “cool”.

A sensação em alguns momentos é que você vai sair da Rua Augusta, tomar uma ginja no canto da Praça da Figueira e quando dobrar em direção ao Largo dos Intendentes vai dar na verdade nos Arcos da Lapa. Mas é só impressão. As ruas são limpas, os garçons servem às mesas com presteza, os telhados são os mais bonitos do mundo e as praças estão sempre tomadas por senhoras que descansam ou jovens, no Quiosque do Refresco, animados por doses de capilé. Tagarelam, paqueram, o de sempre. Ninguém aporrinha o próximo.

O Cais do Sodré, por exemplo, está basicamente o mesmo de sete anos atrás. Mas se você prestar bem a atenção, andar para a direita e entrar no Mercado da Ribeira, lá sobrevive o comércio tradicional das barracas dos tripeiros, convivendo com os stands da nova culinária portuguesa, tudo redesenhado sob o patrocínio da revista “Time Out” — e é impossível ao carioca não pensar que um dia, sem precisar ir tão longe, poderia estar assim, curtindo a vida em paz, comprando suas flores, gastando pouco, beliscando o que quisesse, na Cadeg de Benfica. Depois, sem entrar em pânico, passaria pela Barreira do Vasco e chegaria em casa para contar aos que ficaram como foi bom.

Ao carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida da cidade, foi preciso ir até Lisboa para recolher histórias de não acontecimentos, comer um bacalhau ao sossego e ter a sensação inenarrável de que não corre o risco de ser assassinado na próxima esquina — e em Lisboa esses sonhos, essas pataniscas simples, parecem cada vez mais fáceis de se realizarem. A cidade se pacificou com suas tradições, entendeu feliz que um bom jeito de avançar é o da refazenda das suas guarirobas. Ao invés de gourmet, os pastéis de Belém procuram resgatar a receita original. E se em algum momento a cidade tentou esquecer Amália Rodrigues, por causa de suas relações com Salazar, Lisboa agora, em mais um arroubo de orgulho pelas suas referências, está cercada de motoristas de táxi com os carros sintonizados na recente Rádio Amália, um chorrilho de 24 horas de fados da grande cantora.

Na chegada ao Galeão, o carioca-da-semana-passada foi cercado pela notória turbamulta de taxistas. Sonhou que uma Rádio Elizete Cardoso iniciava o processo de pacificação geral e convocava a cidade a guardar suas facas.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Porque a oportunidade sugere que seja assinalada - Dia Internacional da Criança -  Aqui se transcreve um texto de A. Ferreira, publicado há dez anos (2005) no semanário «Expresso das Ilhas» e mais tarde no livro, «Inquietações em Crónicas Datadas», tendo como sujeito  crianças de e na rua. Mantém infelizmente e para nossos pecados, alguma actualidade.

Crianças de e na Rua… Que diferença faz?

Crianças “de” e “na” rua é uma designação que já fez (e vem fazendo) perder imenso tempo, acção e muito trabalho sério das instituições do Estado e da sociedade, sobretudo na discussão inócua dos casos da Praia, do Mindelo e do Sal que tem adiado políticas de efeitos eficazes para o combate deste mal inominável, porque monstruoso e terrível!

Crianças de e na Rua, distinção puramente técnica de sociólogos e técnicos sociais e tornada modismo e frase feita para debates substancialmente académicos que, na realidade, distraem os incautos, entretêm os políticos, não passando tudo de pura figura de uma retórica trágica.

Não nos deixemos enganar: O conteúdo é o mesmo, o significado é sensivelmente igual e as resultantes, infelizmente, em quase nada diferem.

Crianças de e na Rua, cujas pontas se diluem na realidade dos factos mostram, ou por outra, deixam perceber a tragédia humana de muitos meninos e, ultimamente, meninas, que se traduz no facto de serem escorraçados, de ignorarem a segurança de um lar, o afecto, a higiene, a alimentação e os cuidados básicos devidos por uma mãe e por um pai. Do mesmo modo está-lhes vedada – porque descuidadas pela família e ignoradas por quem de direito – a frequência da escola, a educação, e, portanto a oportunidade de aprendizagem e interiorização progressiva de valores e de princípios que farão delas, mais tarde, homens e mulheres válidos.

Não podemos continuar a ignorar a extensão e os efeitos do mal que, há mais de duas décadas, flagela o país de forma continuada e crescente, com particular incidência nas regiões urbanas e com enormes custos para a sociedade. É vê-las, às portas dos supermercados, das lojas de conveniências, nas imediações dos hotéis e dos clubes nocturnos, a exigir, tal é a agressividade que, na maior parte das vezes, pedem quando não ameaçam, assaltam e maltratam com instrumentos cortantes como facas, ou nacos de vidro, o pacato transeunte que calcorreia as ruas e os lugares da cidade, criando insegurança, diminuindo a capacidade humana de compreensão e de solidariedade pelo próximo, ainda que este próximo seja infanto-juvenil e pondo em causa uma opção estratégica do País  – o Turismo.

Temos todos a noção de que o rosário é longo, complexo, mas não insolúvel. Sim, o problema tem solução se se quiser! Se houver uma forte e determinada vontade, uma política eficaz (não a que procura votos a qualquer preço!) e que passa por muitos e transdisciplinares caminhos. Pela família, pela escola, pela sociedade, pela opinião pública, pela discussão do problema, de preferência sem “paninhos quentes”, pelo Estado através dos sectores que cuidam desta matéria.

Crianças de e na Rua, parafraseando a tão usada e abusada expressão dos nossos ilustres deputados, “para quando a solução?”. Embora neste caso seja adequada e oportuna a utilização da conhecida locução frásica tornada verbo – “paraquandar” – porque não se trata de abertura de caminhos vicinais ou de construção de um chafariz, problemas importantes, mas locais e de solução física, material, mas sim, de uma questão de âmbito nacional com reflexos profundos nas gerações vindouras que não se resolve apenas com dotação orçamental e que deve merecer atenção acrescida dos representantes da Nação. Enfim, já se “dormiu” tempo demais e as consequências nefastas são por demais evidentes e portanto à vista de todos!

Um pequeno passeio por alguns bairros, sobretudo os novos bairros, da cidade da Praia, revela o desenvolvimento extensivo de uma traça arquitectónica caracterizada por uma envolvente em gradeamentos de ferro, com o fim de evitar os assaltos em crescendo a que já não se dá nota à polícia pela incapacidade confessada desta em os resolver alegando impedimentos legais de protecção às crianças, porque são inimputáveis, sem qualquer contrapartida efectiva. O cidadão é confrontado, por vezes, com gana de fazer a indesejável “justiça com próprias mãos”, que não é, não pode nem deve ser timbre de sociedades ditas e tidas por civilizadas.

Não, mil vezes não! Não podemos continuar a assistir a esta regressão social e civilizacional que se tornou “normal” nos meios urbanos de, pelo menos, três das mais importantes Ilhas do País! Basta!

O governo tem que criar mecanismos efectivos de combate a este flagelo. A responsabilização dos progenitores é imperiosa. Um rastreio pela nossa administração (latu sensu) dá conta de inúmeros “responsáveis”, da classe política inclusive, obrigados, sublinhamos “obrigados” pelo Tribunal a descontar directamente no salário a pensão de alimentos. Como pode isto acontecer? Como pode um irresponsável ser eleito ou ocupar cargos de responsabilidade? Sim, porque se trata de alguém que não só quis fugir às suas responsabilidades como desrespeitar uma decisão judicial… A moralização e o respeito da e pela classe política passam por aí.

O permitir-se o alastramento da irresponsabilidade parental para com a criança que é trazido ao mundo, de qualquer maneira, abandonada primeiro pelo pai, a seguir pela mãe, e por fim não reconhecida pela própria família de que ela, a criança, chega a esquecer os nomes, é um atentado contra os direitos humanos! O Governo deve avocar o seu papel: uma política de população assumida e sem complexos; penalizar, de forma exemplar, os progenitores, a família, quanto mais não seja pelos efeitos dissuasores que dali adviriam. De outra forma, a listagem e as estatísticas elaboradas pelos Serviços que tutelam os direitos dos menores, sobre crianças que não deviam estar e muito menos ser da Rua, não passam de números sem qualquer significado!

Crianças de e na Rua, não interessa se “de” ou se “na”, devem constituir prioridade de uma política social por aquilo que é hoje e pelo que projecta para o futuro. Nenhum governo, mormente os que se dizem de esquerda, pode ignorá-lo. O combate deve ser encetado já e antes que seja tarde de mais…

Cabo Verde, quanto mais não seja, pela sua tradição cristã e, obviamente, humanística, não pode permitir que esta tragédia ganhe gerações.

A.    Ferreira

12/10/2005

 

 

 

 

VISITA À CHÃ DAS CALDEIRAS

quinta-feira, 28 de maio de 2015

 
 
Gilda Barbosa
 
 
Ontem, dia 18 de Maio, a Monique e eu fomos à Achada Grande e Achada Furna com o carro Geo. Lá esperamos um carro de alguém da Chã que nos devia levar da Achada Furna à Chã.

Depois de um atraso de duas horas, partimos por volta do meio dia e tal. Até à entrada da Chã, a estrada é boa mas bastante longa e com as curvas e contra-curvas que exigem toda a atenção do condutor.

A estrada improvisada junto à serra, passando pela Covatina é longa e depois de alguns metros, é péssima, foi a última que abriram cortando os montes junto ao sopé da serra. O amigo condutor, Adriano Montrond, conhecedor de tudo, ia mostrando e explicando, caso contrário eu estaria completamente perdida, vendo à minha frente o mar imenso de lavas de 2014 e 1995. Um misto de tristeza e admiração do belo horrível preenchia a minha alma. Já não olhava para o relógio e ia só bebendo das duas garrafinhas de água que tinha levado. Foi sempre em casa dos pais do Adriano que ficavamos, dormiamos e comiamos quando iamos em trabalho da Caritas. Uma família numerosa, tendo o pai, senhor Socorro Montrond, morrido há menos de um ano.

Compreendi as lágrimas e a voz diferente do Adriano, que nos disse que sempre que lá vai não contém as lágrimas. Somos seres humanos de carne e osso e não nos confundimos com as lavas que enchem a Caldeira.

Logo no início fomos vendo, parando e conversando com os valentes habitantes que, perante a incompetência e inércia das autoridades, tentam fazer um funco para poderem dormir e parar lá onde ainda alguns têm parte das suas terras, tem a sua Chã e os ares a que sempre se habituaram. Aproxima-se o tempo da vindima e das chuvas que todos esperam que venha em abundância. Não é possível fazer o percurso de ida e vinda da Achada Furna e, ainda menos do Monte Grande, para irem trabalhar o pouco dos seus campos não engolidos pelas lavas e tentarem recuperar alguns bocados que ainda não tinham cultivado. Têm de ter uma base com o mínimo de condiçõs para a labuta que vai desde muito cedo até à noite.

Mesmo no carro são horas, da Achada Furna até a Portela. E porque não melhoram essa estrada assim como a estrada da «coragem», que está prestes a apanhar a que va para o Monte Velha. Falam muito em turismo e que vai ainda aumentar depois da erupção. Enganam-se redondamente se não houver melhorias nas ligações aéreas e na estrada que vai da entrada da Chã até o Monte Velha. Esperemos que seja desta vez que se faz uma outra saída da Chã do lado Norte.

As casas definitivas têm de ser feitas fora da Caldeira mas os «funcos» melhorados é na Chã e não é possível falar em aldeamentos que evitem as «construções» selvagens, como ouvi de alguém com responsabilidade. Procuram o pequeno espaço no terreno que ainda têm ou tirando as lavas com picaretas e enchadas para terem um espaço. Aliás, as escolhas pareceram-me inteligentes no panorama actual da Chã.

No fim vão algumas fotos para ilucidar.

Lutam só com as forças próprias e dos colegas de lá. Se um ou outro já conseguiu o seu «funco», a maior parte vai lentamente ou espera um pequeno apoio para comprar cimento e/ou blocos, enquanto improvisam os abrigos de fraca qualidade. Mas... onde está a grande quantidade de ajuda em material que enviou Angola? O que pensam Os DONOS que não aceitam sugestões de outros e continuam as suas viagens ao Fogo, a lançar primeiras pedras por todo o lado (não é preciso por que há muitas na Chã), a fazer discursos e mais discursos, a constituir gabinetes, comissões e não sei que mais asneiradas, esbanjando dinheiro e ...tudo na mesma.

Caramba, já lá vão três meses que terminou a erupção e toda ESSA ILUSTRE GENTE CONTINUA NA MESMA! Não há uma cabeça que destranque as voltas?

Não têm o mínimo de consideração pela gente da Chã que, como dizem, « não são considerados cidadãos deste País».

Na semana passada, ouvi o noticiário de nova vinda turística, sempre os mesmos, para lançamento de pedra (cuidado para não atingirem as pessoas!!!!), discursos, televisão, rádio, não sei se também houve foguetes, que se tornaram o pão nosso de cada dia nesta cidade.

Fomos uma semana depois, esperando encontrar grande azáfama de trabalho das casas na Achada Grande, Achada Furna e Adegas da Chã. Ilusão das ilusões! Encontramos as mesmas casas, gente sem saber afinal o que pensam os SENHORES, conformados com a sua sorte e confiantes nas suas próprias forças e visitas de verdadeiros amigos, sem barulho, apenas com a mesma amizade, encorajando e fazendo o que podem, sem serem mandatários de quem quer que seja.

Continuo escrevendo, mesmo cansada, assumindo o que digo, com a minha assinatura, livre e independente de todos.

Onde está o Relatório de toda a ajuda que receberam?  Não me interessa se estão no Tesouro, na Cruz Vermelha, na Comissão já não sei de quê, na Cáritas ou não sei que mais. Onde estão os Relatórios TRIMESTRAIS prometidos pelo Senhor Primeiro Ministro?

Dsembuchem e ponham tudo a a claro, se não querem que em todos nós reine a desconfiança, a começar pela minha insignificante pessoa mas sempre CIDADÃ E PESSOA.

Sei que o Senhor Presidente da República visitou tudo mas ele não é Governo, só pode exercer a sua magistratura de influência, sem saber o efeito que pode ter. Foram também os nossos amigos da Chã que nos disseram isso.

E onde está a CARITAS DIOCESANA? Está a seguir o mesmo caminho de todos? O que espera? Tem medo das autoridades? Num caso destes não interessa atirar as culpas para as Comissões Paroquiais que não estão bem organizadas e vão fazendo o que podem com o pouco que enviaram da Praia para darem umas coisas verdes nos acampamentos ainda existente, não aos que labutam na Chã. CARITAS, MECHAM-SE, NÃO SIGAM O EXEMPLO DE VISITAS TURÍSTICAS DE UMA SEMANA SÓ PARA VEREM!!!!!

Aliás pouca gente soube disso e ficaram no cerco fechado, não nas periferias. Leiam o que diz o nosso PAPA FRANCISCO e ponham em prática.

Há muito que deixei de trabalhar na Cáritas, Dezembro de 1995, nada sei do que fazem mas como Católica e pertencente a esta Diocese, não posso falar só dos outros!

A Monique e eu temos já uma linha traçada, por enquanto só com os que estão na Chã. Para os outros não é fácil e limitamo-nos a dar força e visitar, eu, quando puder.

A linha só vai ser publicada para os amigos.

Leia quem quiser critiquem que vai tudo «AO SABOR DOS VENTOS».

Obrigada.

 

Gilda Barbosa

 

Quando a parentalidade é mais do que irresponsável...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

 

Por se tratar de um assunto da maior importância para a sociedade cabo-verdiana ou dela merecedora de uma prioridade alta, em termos de atendimento e de procura de soluções para a  sua erradicação, volto a aflorá-lo neste espaço.

Na minha opinião, este problema já ganhou contornos, entre nós, para ser considerado anti-social, anormal e com configuração, em muitos aspectos, de criminoso!

O drama está localizado. Encontra-se nos dias de hoje mais generalizado, na faixa populacional mais carente em escolarização/educação, oriunda ela própria de estrutura familiar disfuncional, monoparental e, regra geral, de menos rendimento económico. Como se de um círculo vicioso se tratasse. Numa palavra e resumindo: na camada social mais pobre e menos escolarizada, de Cabo Verde. 

Urge extirpar do nosso meio este autêntico “cancro” social que afecta larga faixa da população. É grande o mal que faz e vem fazendo às crianças trazidas ao mundo, nestas condições. Note-se que se trata da  faixa da população que, regra geral, tem mais filhos.

A este propósito tomei a liberdade - com a devida vénia à autora do texto e ao Jornal «Expresso das Ilhas» - de transcrever a reportagem que achei ilustrativa:

“Paternidade - Pensão de alimentos: um cheque a zeros

            Escrito por  Sara Almeida, Expresso das Ilhas

            - Edição 703 de 20 de Maio de 2015 -

Progenitores que se escusam a apoiar financeira e afectivamente os filhos são comuns em Cabo Verde. Mas se do ponto de vista do afecto - e embora esta seja a vertente fulcral - não há mecanismos legais que obriguem a esse apoio, o mesmo não se passa quando o assunto é dinheiro. A pensão de alimentos é um direito legal da criança. Um direito desrespeitado diariamente, sendo que as causas dessa transgressão são muitas. Vão da má-fé do pai (ou da mãe), ao orgulho da mãe (ou do pai), passando por problemas actuais mais alargados como a má conjuntura económica. No olho do furação, há parte de uma geração à deriva, com o futuro comprometido.

 F. é vendedeira e a flor da idade já passou, mas não levou com ela a sua garra. Trabalha de sol a sol, para garantir o único sustento de uma casa de seis: ela e mais cinco filhos, quatro dos quais menores. Dos três progenitores da sua prole, nada recebe. Um deles (e apenas um) durante os primeiros tempos pós-separação, quando tinha dinheiro ainda dava algum. Depois, quando ela engravidou de outro homem, deixou de o fazer. Mas, orgulhosa, F. garante que não precisa. Graças ao seu trabalho, em sua casa, ninguém passa fome.

“Deus me dê saúde, que o resto faço eu. Nunca precisei de ninguém”, diz de rosto alteado. Cinco filhos, três pais, nenhuma ajuda.

A realidade de F. e filhos é semelhante à de várias famílias. Em termos de percentagem de pais que não contribuem para o sustento dos filhos, não encontramos dados concretos. Mas o Censo 2010 apontava que mais de metade das crianças vive sem o pai (53,3%). E conhecendo um pouco da realidade cabo-verdiana, é fácil presumir que que uma elevada percentagem também não terá nenhum apoio, sequer financeiro, por parte do progenitor.

Basta ir a uma escola para perceber a dimensão deste problema. Na Escola Secundária Pedro Gomes (Praia), por exemplo, estudam cerca de 1600 alunos e “o grosso dos alunos não tem apoio dos pais. Podemos constatar isso no acto da estipulação das propinas”, observa Sandra Querido, Responsável pelos Assuntos Sociais e Comunitários da Pedro Gomes.

Quando são analisados os documentos, verifica-se pois que não têm esse apoio e mais: “muitos nem sabem onde o pai anda, o que faz, se trabalha ou não”.

 Quando C. engravidou, o pai do seu filho disse que o não era. Tinha sido o seu primeiro amor, e único homem até então. Ficou tão magoada que, mesmo quando o ex-namorado se arrependeu da sua atitude  - e cedeu em perfilhar o filho – nunca pediu pensão alguma. Diz que com o que ganha como empregada doméstica (12 contos brutos) e com a ajuda que recebe da família- principalmente da mãe emigrada, não precisa. Recusa-se mesmo.

Há muitas mulheres que, embora precisem, por orgulho, nada exigem. Nem todos são como  C., que recusa, simplesmente não o pedem.

Também aos serviços de acção social da Pedro Gomes chegam mães a garantir que o pai não contribui com nada. E orgulhosamente respondem: “não vou correr atrás”.

Há o orgulho das mães, mas de facto elas não deveriam ter de “correr atrás” daquilo a que os seus filhos têm direito.

Mentalidades que é preciso mudar são, na realidade, o pior problema aqui. Ciúmes, rancor, e uma gama de sentimentos negativos semelhantes, sobrepõe-se ao amor ao filho. Ensombra-o. Da parte dos pais há, por exemplo, a ideia de que se pagar a alimentação do filho, a mãe, com a qual já não tem nenhum relacionamento, também vai comer. Com esse dinheiro vai ainda alimentar filhos de outros homens, caso ela os tenha. E é pior ainda quando ela já arranjou outro companheiro. Aí, ele estará a pagar para o outro homem também comer.

“Há essa mentalidade”, reconhece o magistrado Pedro Borges. Na curadoria de menores da Comarca da Praia, onde desempenhou funções de 2011 até ao fim do passado mês de Abril, ouviu várias afirmações dessas. “Mas depois de se analisar acaba por se chegar à conclusão de que isso não corresponde à verdade. Hoje temos um nível de vida que é extremamente caro. Aqui, com 1500 ou 5000 escudos ninguém consegue alimentar uma criança por mês, quanto mais alimentar outro homem,” aponta.

Depois, há outros entraves, completamente diferentes. Casos de pais, que apesar do seu amor pelos filhos vêem-se sem nada para lhes oferecer. Então, “não visitam os filhos porque não tem nada para dar. Ficam com vergonha”, conta o ex-curador de menores.

Temos falado essencialmente de mães. Isto porque o mais comum é que sejam elas a “ficar” com os filhos após separação, mas também há casos em que os filhos moram com os pais.

São mais raros mas há. Na Escola Pedro Gomes, em cerca de 1600 alunos, menos de 20 vivem só com o pai – todos os outros vivem com a mãe ou com os avós. E, da experiência desta professora, nesses casos, nenhuma mãe contribui. Além disso, por norma são casos que por detrás trazem problemas mais complexos do que a separação dos pais: conflitos da criança com a mãe, problemas da mãe, problemas comportamentais da criança.

“Há sempre um problema por detrás que leva a criança a ficar com o pai, pelo menos aqui no nosso meio”, reitera a professora.

Seja como for, o pai, quando tem a guarda do filho, tem também direito a receber a mesma pensão. O que acontece é que, por orgulho – e talvez devido aos estereótipos de masculinidade – o homem nunca exige à mãe que preste alimento. Não quer.

No meio disto tudo, esquece-se o fundamental. A pensão de alimentos é um direito da criança, um “direito fundamental e não está na disponibilidade da mãe ou do pai negar essa pensão”, relembra Pedro Borges.

 O panorama, em termos de pagamento da pensão de alimentos não é bom, reconhece o magistrado. Mas, embora haja pais que de facto, simplesmente, não querem pagar, muitas vezes não é essa a situação. O ex-curador acredita, aliás, que a maior parte dos pais assume ou quer assumir as suas responsabilidades com os filhos.

“É a conjuntura economia actual que muitas vezes obriga a que os pais não cumpram as suas obrigações. Porque, querendo ou não, tem afectado grandemente a situação dos pais em Cabo Verde”, analisa.

O desemprego tem vindo a subir, galopante. Áreas como a da construção civil viram os seus “postos de trabalho reduzidos consideravelmente”. Sem trabalho, não há salário, e sem salário não há dinheiro. As pensões ficam por pagar.

“ E a situação é para piorar. Várias vezes eu recebi mães, famílias, que não têm como suportar os filhos” e chegam ao desespero de pedir para que estas sejam entregues ao Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente (ICCA).

Porém “institucionalizar crianças por causa de alimentos também não é solução”, observa.

Os problemas da economia também se reflectem na escola. Na Pedro Gomes, as propinas variam entre os cerca de 1200 escudos anuais e 18 mil escudos, dependendo do ciclo frequentado e dos rendimentos dos pais.

Quando não há declarações de rendimentos de uma das partes (e como referido, muitas vezes falta a do pai) é difícil estipular a propina. É ainda difícil saber se há uma tentativa de driblar o sistema, para não pagar ou não.

Mas esta escola conhece relativamente bem a realidade dos seus alunos. Esforça-se por isso, nomeadamente através das visitas ao domicílio. E nota um descarrilamento das condições económicas, que tem reflexo inclusive nas receitas da escola.

 “Pelo menos na nossa escola, a nível de emprego, cada vez é pior. Há pessoas que num ano apresentam o rendimento, mas este ano nem trabalho têm. A situação está mesmo má”, conta Sandra Querido.

A justiça, de olhos vendados, fica também de mãos atadas. Os pais deixam de pagar e as mães dirigem-se à curadoria de menores (ou procuradoria no caso de outras comarcas que não a da Praia). O pai declara: “estou desempregado, não tenho rendimentos”. O que fazer?

Toda esta situação desemboca, porém, em injustiça. Isto porque, se ao pais sem trabalho já não pode ser exigido apoio monetário, a mãe, também sem rendimentos, é obrigada a desenrascar-se para arranjar o pão dos filhos.

“As mães têm sido muito sofredoras, nessa parte”, lamenta Pedro Borges. “É extremamente difícil, e nós sentimos isso”.

 Na realidade, Cabo Verde sempre foi país de pais ausentes. Mas as mudanças em todo o tecido social criaram uma estrutura (ou falta dela) que não suporta esta ausência. Pedro Borges aponta, como um dos factores principais desta mudança, o êxodo rural. Nas cidades, os modos de subsistência são outros, e já não há um familiar por perto para olhar pela criança, quando a mãe está a trabalhar.

“E as crianças ficam desprotegidas”.

A mãe vai à luta. Faz-se à vida. Sai de manhã cedo de casa e chega à noite. Cansada, sem capacidade de diálogo ou de preocupação efectiva sobre a educação. Nada sabe do que os filhos fizeram na sua ausência. E essa ausência, considera o ex- curador de menores Pedro Borges, está intimamente ligada ao aumento da criminalidade juvenil.

Com mais rendimento – como o proporcionado pela pensão - eventualmente menos horas de trabalho seriam necessárias. Mais apoio poderia ser dado ou (pior mas válido) terceirizado em locais que não a escola.

Embora a parte económica seja importante, na realidade nem sequer parece ser a mais importante. A ausência da figura paterna a outros níveis é-o mais, concordam os entrevistados.

“A maior parte das crianças sente muito a falta do pai”, daquilo que “o dinheiro não compra”, considera Sandra Querido. Na educação dos filhos, então, é assombrosa essa falta de interesse paternal.

E, no geral, a ausência da figura paterna, na vida das crianças, tem reflexo no aproveitamento escolar. “Fizemos uma pesquisa dos alunos que têm um comportamento não  adequado e vimos que a  maioria não vive com o pai, vive só com a mãe”, que trabalha e passa o dia fora, aponta a professora.

“Alguns mostram essa falta que sentem, da forma mais errada que é com a indisciplina. E quando entram no caminho da indisciplina não têm aproveitamento escolar e acabam por engrossar a lista daqueles que depois abandonam a escola”, observa.

Abandonam os estudos. E depois? Alguns vão trabalhar. A nível de trabalho infantil, ainda segundo dados do Censo 2010, cerca de 63% dos menores que trabalham vivem sem o pai – a maioria portanto. Outros entram na delinquência e criminalidade.

E tudo “isto vai afectar as crianças no futuro”.  Sem estudos, sem orientação, futuro comprometido.

Mesmo os que continuam os estudos secundários têm depois mais dificuldades em prosseguir no ensino superior. Com sorte e alguma ajuda (a Pedro Gomes, por exemplo, já “tem estado a trabalhar no sentido de arranjar bolsas para os que têm boas notas”) talvez consigam. Mas geralmente têm de trabalhar. Muitos acabam por desistir.” Fim da transcrição.

 

 
Nota Final:

Repare bem, caro leitor, o que dizem as estatísticas (dados do Censo de 2010) sobre a composição da famiília cabo-verdiana. Mais de 53% (parece-me que a percentagem, infelizmente, é bem mais alta) das crianças, vivem sem a presença do pai em casa. Não conhecem, ou desconhecem por completo, esta figura tutelar tão importante e estruturadora em todos os níveis da socialização afectiva, educativa e organizadora da vida dela! No fundo, são etapas de vida completas e irreversivelmente queimadas! O pai “passa-lhe ao lado,” literalmente falando. Sem dela querer saber.

A mãe só, e portadora de muitos filhos, quase sempre de vários  progenitores. Outro drama que deve ser acautelado, prevenido e despistado na educação dos adolescentes e  dos jovens.

Resultado: crianças quase entregues a si próprias, ao “Deus dará” e que facilmente resvalam para a marginalidade, para a delinquência e para a criminalidade.

Torna-se premente encarar com muita seriedade o planeamento familiar e não permitir que seja “letra morta” entre nós.

Enfim, com tudo isto em presença, questiona-se: Que esperar do futuro de um país que apresenta esta (des)configuração familiar? Disfuncional, monoparental e desprovida de educação!... Que cidadania, quando numa parte significativa da população, a noção e a vivência de família nuclear se eclipsa, se apaga, não existe? Quando não se cuida da infância totalmente desvalida?

Enquanto esta vergonha social continuar a ensombrar a organização familiar e social destas ilhas, escusemo-nos de vãs glórias, de proclamar aos quatro ventos que estamos desenvolvidos, civilizados e quejandos... Não, assim não os seremos jamais! E não os seremos enquanto não se pegar na problemática da família e levá-la a sério. Colham-se, estudem-se e adaptem-se os bons exemplos de países que debelaram esta tragédia!

Desde há muito que se vem pedindo isso!

As ilhas Maurícias, para exemplo, e se não estou em erro, tratou este problema com alguma eficácia notável.

Já houve muitas oportunidades perdidas para nós. O que é lamentável. Mas nunca será demasiado tarde, para se procurarem e se tratarem as causas que neste particular, tão  gravemente afectam e interpelam a sociedade cabo-verdiana.

A UNICEF bem que podia assentar “arraiais” aqui. Eu sei e comprendo que considere o país  pequeno demais para nele criar um observatório, ou algo similar, e monotorizar expressamente este enorme drama, por que passa Cabo Verde. Mas o facto é que Cabo Verde precisa, necessita com muita urgência, de uma atenção muito grande, mas mesmo muito grande, por parte de organismos que cuidam da causa da Criança e da Família.

TEMPO DAS FRAMBOESAS

terça-feira, 19 de maio de 2015

 

 

 

Por este tempo de Maio, o da frutificação das framboesas, é quando mais me apercebo da existência de um pequeno “nicho ecológico” nas traseiras do meu prédio. É um vasto quintal anexado a uma antiga casa térrea, complexo que foi posto à venda mas ainda resistindo heroicamente à padronização do betão.

Esse quintal é um recanto onde os melros predominam entre outros seres alados que ali habitam. Da sua baixa vedação pendem  ramificações de framboesas silvestres, que se carregam de frutos maduros por alturas de Maio e Junho. Coisa rara nestes tempos, um repouso restaurador dos olhos e da mente ao fim de um dia de canseira ou de ócio inexplicavelmente desgastante.

 

O dono era um velhote de cabelo branco como a neve, que tinha nesse espaço um universo concentracionário, onde fazia a contabilidade diária das suas predilecções, dos seus devaneios e dos seus sonhos antigos. Chamava-se Pina, mas pouco ou nada eu conhecia da sua vida pessoal, senão o reflexo nos seus olhos das cores alegres da primavera. A idade já avançada não o tolhia de modo algum, cavava, semeava, regava, podava, quando não ficava horas seguidas a olhar, embevecido, para os pássaros, os seus e outros que ali pousam e trazem alvíssaras de outras terras. Apercebi-me de que esses animais não se intimidavam com aquela presença humana, antes pelo contrário pareciam cada vez mais atraídos para o lugar, certamente descobrindo encantamentos que escapam aos nossos sentidos. Os melros passaram a ser tantos que uma verdadeira orquestra ali se instalou com todos os aparatos, dando um espectáculo de sonho todas as primaveras.

 

Estacionava o meu carro ali perto, e sempre que calhava trocava com o senhor Pina  dois dedos de conversa de circunstância. Ninguém lhe dava a idade que tinha, tal a agilidade com que subia às árvores ou manejava a ferramenta agrícola. Mas ele tanto se punha em trajos de circunstância para aquele lugar de reencontro consigo próprio como se aperaltava com requintes mais burgueses para os seus momentos de vida social. Mas um dia verifiquei que o senhor Pina pareceu não me reconhecer quando lhe falei. Porém, os dias continuaram a fluir naquela rotina do homem feliz no seu recolhimento ecológico. Noutra ocasião, voltou a ter para comigo mais um procedimento incoerente, mostrando-se alheio ao fiozinho pessoal que eu também queria tecer naquele lugar com o meu espanto de citadino e o meu preito ao homem e à natureza. Depois desapareceu e não mais o voltei a ver.

 

Viria então a saber que lhe fora diagnosticada doença de Alzheimer e por isso internado num lar. Compreendi a razão por que me parecera que um qualquer invisível interruptor cortara a luz humana que iluminava aquele lugar. Não durou muito o seu internamento, pois a morte abreviou a injusta escuridão sentenciada a quem tanto amara a luz, a terra e os pássaros. Depois li num dos jornais da cidade, não me lembro já qual, um poema em que uma neta recordava e homenageava a natureza solar do avô, a sua simplicidade, a sua bondade e a sua ternura para com todos os seres do planeta. Nessa altura, conhecendo eu a razão e o sentido dos versos, perguntei-me se uma das nossas grandes angústias não é uma fugaz ilusão da intemporalidade em que a ambivalência das nossas sensações nos faz cair.

 

Para os melros não deve existir o princípio e o fim das coisas, assistem impávidos à contagem das nascentes e poentes que se sucedem. Continuam a embevecer-nos todos os anos com o seu canto pletórico, num palco já não enfeitado à maneira do senhor Pina, mas entregue à entropia a que pertencem os bichos e as plantas. Não posso dizer ao certo, mas é possível que eles sintam a falta do olhar manso e apaziguador daquele ser que se comportava com a mesma solícita naturalidade das oliveiras em que pousavam o seu cansaço. E vem a propósito recordar as seguintes palavras de Proust: “Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício da recordação”.

 

Quanto às framboesas, todos os anos, na época própria, elas pendem, sobranceiras e carregadas de viço, sobre a vedação que envolve o nicho. Antigamente, a minha mulher colhia uma mancheia delas quando ali passava entre o estacionamento do carro e a casa. Apenas para sentir  o afago da sua macieza e o deslumbre do seu vermelho cativante. Mas isso tinha mais gosto quando o senhor Pina reinava no lugar.

 

Ele hoje já não faz parte do nicho, mas é possível que lá esteja, pois a sua presença ou ausência na memória do lugar escapam à cartografia do simples olhar humano. Pertencem à dimensão incapturável do inconsciente, ali onde tudo é transferível  para a poesia.

 

 

Tomar,  Maio de 2015

 

Adriano Miranda Lima