Adeus ao poeta...

terça-feira, 28 de julho de 2015

 

Corsino Fortes deixou-nos. Sentiremos a sua ausência. Claro que os poemas dele estão e ficarão connosco!

Morreu na sua cidade, a cidade que muito amou, Mindelo.

E a propósito do amor pela bela urbe portuária, eis como o poeta descreve, sugere, sente e sonha «Mindelo» desde os verdes anos da sua juventude. O poema foi publicado  no «Boletim dos Alunos do Liceu de Gil Eanes» em 1959:

Mindelo

Entre a escuridão

E o silêncio da noite...

Amachucado

Entre a morna e o vilão

Sonho... Mindelo

De mãos apoiadas

Sobre o eco da tua pulsação.

 

Mindelo

Recanto de sonhadores

De poetas e músicos

De aves sem asas

Voando

Em busca de alvo

Na neblina da noite.

Orvalho de lágrima

Gota de saudade

Alegria escurecida

Pelo negrume da vida.

 

Mindelo

Tuas pedras são sonhos

Tuas brisas ilusões

Tuas ruas são rios

Por onde deslizam lágrimas

Envoltas em sorrisos.

 

Mindelo

Ò doce Mindelo morno

De Lua Nascente e Poente

De noite debruçado

Na morna dolente

De poesia encostada

Na esquina da noite.

 

Mindelo de Luzes

De Pétalas e Prantos

Ò quimera perdida

Ò berço adormecido

embalado

Dentro de mim!

 

Creio que se tratou de uma fase em que C. Fortes impregnava a sua poesia de uma lírica explicitada e a casava subtilmente com a poesia de intervenção já nascente e em fase de elaboração na sua escrita poética.

Data de mesma altura, o poema «Vendeta»:

Vendeta

Um verso escapa

Descaradamente

Do poema que escrevo.

 

Um rumor longínquo

Segreda-me

Que ele espezinha

Os companheiros

Da minha caravana.

 

De repente

Ele projecta-se

No «écran» do meu espanto

Com garras e lábios

Manchados de sangue.

 

Nos seus olhos há imagens feridas.

E numa voz cortante

Blasfema

 

Sou a dor

O sangue

A vítima

Dos teus crimes impunes!

Vingo-te à minha maneira.

 

Renego-te

Renegado!...

 

Numa linha de continuidade de estilo, de construir, de enformar e de manejar o verso, C. Fortes regista neste poema, publicado na revista «Claridade», em 1960, uma certa  crispação exaltante que inicia a libertação do sujeito poético do tempo presente e o vira para um devir que se anuncia sob forma de negação e de vingança desse mesmo presente  de “crimes impunes.”

Haveria um mudança? Um outro tipo de poemas? Ao referir-se ao tal “verso que se solta e escapa...que espezinha os companheiros (dos poemas anteriores) da minha caravana” teria o poeta fechado um pequeno ciclo com «Vendeta» e dado origem a outro, com os versos que mais tarde foram coligidos na sua obra mais notável  «Pão e Fonema»? Possivelmente, isso terá acontecido. E uma espécie de cume poético foi atingido em «A Calva de Deus», a última colectânea de poemas de Corsino Fortes.

Para além do poeta, queria aqui recordar também e distinguir, ainda que de forma brevíssima, a pessoa, o «gentleman», o confrade gentil, o amigo terno e atencioso que Corsino Fortes foi. Recordá-lo-ei sempre munido da palavra bela, poética e meditada, com que ele falava e se dirigia às coisas da vida, das mais simples às mais complexas.

Embora mais devesse expressar, fica este meu registo modesto, no adeus ao Poeta.

E como se usa dizer-se nestas ocasiões: que a terra lhe seja leve!

 

 

 

 

 

 

 

 

 
domingo, 26 de julho de 2015

Em homenagem ao grande poeta Corsino Fortes, recentemente desaparecido do nosso convívio, aqui se publica,  do amigo, também poeta, Júlio Herbert, o poema «Do outro lado do regresso».

 

 

Do outro lado do regresso

Autor: Júlio Herbert

Um justo tributo ao poeta maior, Corsino Fortes

Que acaba de desferir seu “golpe de Estado no paraíso”

 

 

Ainda perderás aquele que te destinei para todas as estações.

Mesmo que persistas na vaidade mórbida, na ilusão inócua e na intriga perversa

Em verdade te digo que, no livro do Tabernáculo, está escrito: o acharás de novo.

Na linha do horizonte, deambulando pelas rochas escarpadas, ele sobreviverá

Ávido e sereno para te servir e para te envolver nos seus braços.

Oh, como estará ele na madrugada dos cânticos celestiais

Rodeado de anjos que dele se abeiram para o receber solenemente

Num dia em que tuas lágrimas impressas de sombrio arrependimento

Sangrando dor incontida na madrugada do devir

Descerão lentamente pela tua face incrédula

Na forma de lastros de velas derretidas

Que se deslizam no silêncio cúmplice de uma voz

Que se cansou e se fez esquecida

Na penumbra do perdão unilateral

Para fazer renascer das arestas do impiedoso sepulcro

O odor do verdadeiro amor

Aquele que se pereniza no tempo

E renasce em cada lembrança da vida terrena

24 de Julho de 2015

 

O LUGAR DA ARTE

sexta-feira, 3 de julho de 2015
Há uns anos,  quase toda a imprensa internacional dava largo destaque ao facto de o violonista Joshua Bell ter sido ignorado quando tocava anonimamente numa estação de metro de Washington. O nosso Jornal de Notícias, por exemplo,  relatava assim:
“Numa experiência inédita, Joshua Bell, um dos mais famosos violinistas do Mundo, tocou incógnito durante 45 minutos, numa estação de metro de Washington, de manhã, em hora de ponta, despertando pouca ou nenhuma atenção. A provocatória iniciativa foi da responsabilidade do jornal 'Washington Post', que pretendeu lançar um debate sobre arte, beleza e  contextos. Ninguém reparou também que o violinista tocava com um Stradivarius de 1713  ̶  que vale 3,5 milhões de dólares. Três dias antes, Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam 100 dólares, mas na estação de metro foi ostensivamente ignorado pela maioria. A excepção foram as crianças, que, inevitavelmente, e perante a oposição do pai ou da mãe, queriam parar para escutar Bell, algo que, diz o jornal, indicará que todos nascemos com poesia e esta é depois, lentamente, sufocada dentro de todos nós”.

E Joshua Bell desabafaria assim, conforme o jornal atrás citado: “Foi uma sensação muito estranha ver que as pessoas me ignoravam. Num concerto, fico irritado se alguém tosse ou se um telemóvel toca. Mas no metro as minhas expectativas diminuíram. Fiquei agradecido pelo mínimo reconhecimento, mesmo um simples olhar”.

Esta ocorrência deveras singular abre-nos de facto a possibilidade de pensar e discutir sobre o conceito de arte ou o que as sociedades modernas consideram como tal. A arte, no seu verdadeiro significado, deveria corresponder à busca de uma expressão e sentimento estéticos que promovam o encontro do homem consigo próprio, que lhe instiguem a reflexão sobre a sua espiritualidade e, em última instância, alavanquem o seu aperfeiçoamento intelectual e cultural, permitindo-lhe uma visão superior da vida e do seu equilíbrio com o meio em que vive.

A arte primitiva (rupestre) quase certo que estaria genuinamente mais próxima daquela definição, ainda que numa expressão rudimentar. Encantaria o homem daqueles primórdios da racionalidade e não seria de molde a suscitar-lhe outra reacção que não fosse a fruição pura e simples da representação estética da realidade. As crianças dos tempos primevos das cavernas olhariam para as figuras rupestres com um interesse equivalente ao daquelas que foram os poucos transeuntes a deterem-se num gesto tão espontâneo como sincero para escutar Bell. Como diz o jornal, “todos nascemos com poesia e esta é depois, lentamente, sufocada dentro de todos nós”. Se a arte indiscutivelmente  provém da mais pura emoção, dela se alimentando e nela se reinterpretando continuamente, isto significará que o embevecimento da criança perante o belo, brotando da verdura dos seus sentimentos, é a primeira e mais genuína  reacção humana face à arte.

Só que o sentido da arte passou, com a  evolução e o progresso do mundo material (não diria espiritual), a entrar nos meandros da sofisticação e da especulação, no sentido em que factores estranhos à emoção passaram a influenciar a interpretação do conceito de arte, tais como a introdução de modismos, a afirmação de egos, as tendências sociais,  o comércio especulativo de obras de arte, etc. Alguns borrões ou traços numa tela valem milhões não porque se criará um consenso universal e intemporal sobre o seu valor artístico mas porque um determinado contexto histórico-social elege os seus autores como produtores de símbolos e referências de modas e épocas, que, nessa qualidade, e numa escala de valores relativos, passaram a ostentar preços avultadíssimos e só ao alcance das elites endinheiradas. Interrogar-se-á sempre sobre o conceito que preside ao cálculo do seu valor artístico e monetário.

Assim, forçoso é concluir que, no caso em apreço, a arte de Joshua Bell só é socialmente mais considerada pelo homem de hoje se revestida da sofisticação do espaço e do enquadramento cénico em que ela é apresentada, ainda que seja, efectivamente, de primeiríssima qualidade. Portanto, creio que a razão de tudo o que se passou naquela estação de metro se deve ao abastardamento espiritual que o homem vem consentindo dentro de si mesmo, subordinando-se a códigos sociais aferidos mais pela artificialidade dos valores materiais que enformam a civilização contemporânea, do que por um património intangível, imutável  e eterno, pertença do domínio exclusivo do espírito.

Com efeito, e infelizmente, com a evolução dos tempos, a arte deixou de ser vista na sua pureza autêntica para se tornar um simples objecto de consumo. As longas filas de visitantes ao Museu do Louvre para ver a Mona Lisa estão lá mais para registar a visita nos seus roteiros turísticos pessoais do que para apreciar verdadeiramente essa pintura de Leonardo da Vinci. As pessoas  que pagam bilhetes de 100 dólares para ver tocar Joshua Bell no Symphony Hall de Boston, na sua maioria certamente não vão lá porque apreciem ou alcancem a verdadeira dimensão da música do violonista, mas mais porque é chique e fará bem ao ego quando o contarem  aos amigos.
E no entanto a arte verdadeira continua viva e corre estuante e silenciosa como um rio subterrâneo, mas só perceptível por quem se deslumbra com a vibração da natureza.


Tomar,  Junho de 2015

Adriano Miranda Lima


Variante do Crioulo do Fogo – Influências da congénere de Santiago - Uma curiosidade -

quinta-feira, 25 de junho de 2015
É sempre interessante, apercebermo-nos na fala do nosso interlocutor, de situações de empréstimos inter-variantes do crioulo, de uma para outra ilha. É o caso actual da grande influência da fala da variante da ilha de Santiago no falante foguense  de menos de  40 anos.

Mas vamos por partes. Tudo me leva a crer que um dos veículos de introdução desse fenómeno no Fogo, é sem dúvida a comunicação social; outra será a grande proximidade, ligação, circulação e comunicação constantes entre as duas ilhas vizinhas; e outra ainda, embora em menor escala através de canções e de homílias da Igreja, no caso, a católica que conheço bem. Exemplos desta última, tive-os eu recentemente - na curta visita que fiz à minha Ilha - durante a missa de S. João, na Atalaia, nos Mosteiros. As orações e as canções ditas pelo Padre e interpretadas pelo coro, foram proferidas numa mistura, em que a variante de Santiago  era figura marcante.

Ora bem, tudo  conjugado, em se prestando atenção, descobrir-se-ão nas construções frásicas, na entoação silábica, e mesmo no léxico do falante foguense actual, e com o perfil etário acima descrito, aquisições linguísticas já numerosas da ilha vizinha, maior e dominante.
 Continuando, e para exemplificar o que venho dizendo, a variante da ilha do Fogo, não tinha  e nem usava a palavra “tchota” (pardal), oriunda da fala santiaguense, mas sim  “tchintchirote” ou mesmo “pardal” para  se referir às pequenas e barulhentas avezitas conhecidas por poisarem nas figueiras. Aliás, como diz a bonita coladeira feita por Pedro Rodrigues: “Ó minina bu stâ sima tchintchirote na figuera!...” ( Ò menina estás faladora, barulhenta!) Hoje, se calhar já é um arcaísmo (?).

Igualmente, na fala da gente do Fogo, não se dizia “xinti” ( do verbo “sentir”) mas sim “sinti” bem sibilado e  bem silabado. Outro exemplo, é a expressão muito usada hodiernamente, na variante de Santiago “... bu sta ódja?” (estás a ver?...)  dita numa só emissão de voz, e que corresponde ao “pá” (em português) pois faz de suporte frequente na transição de uma frase para a outra. Pois bem, a correspondente no Fogo seria, hoje já não é: “bû  s’tâ ô djâ?” tudo muito bem silabado separadamente como é o timbre de emissão de voz, da variante desta ilha.

Para os foguenses era o “fra”(“dizer” em português) ex: “djam fra, dja sta frado!” (já disse, está dito!) Actualmente, ouve-se na ilha do vulcão “djam fla...” importado de Santiago.

Sempre ouvi “normalmente” no Fogo, “pá-pi-â” (“falar” em português), actualmente e na mesma ilha, já ouço com muito mais frequência: “fála” monossilabicamente emitida vocalmente, à maneira de Santiago.

Esta pequeníssima amostra, apenas uma curiosidade, pretendeu ilustrar a já instalada influência da variante do crioulo santiaguense, na fala foguense.

Na realidade, empréstimos linguísticos, sempre os houve e continuam a existir na variante foguense, com destaque para palavras inglesas,  importadas dos Estados Unidos  via processo  migratório, adaptadas e, por vezes, “corrompidas”. Tanto assim é, que se entro numa loja no Fogo e peço “fralda para bébé,” a jovem balconista (normalmente são mulheres que atendem nas lojas) olhará para mim interrogativamente, pois não terá percebido o meu pedido. Mas se digo: “... bendém um “daipa” (no original: “diaper” ( Em português: “venda-me uma fralda”) ela imediatamente descodificará o produto pedido. E como este, outros muitos exemplos de anglicismos, ou melhor, de americanismos, estão já e há muito, incrustados no crioulo do Fogo.

 Voltando ao início do propósito deste escrito, se por um lado, isso é já um fenómeno inevitável, justificado e normal, por outro lado,  nota-se com alguma pena, o desaparecimento, a perda de características diferenciadoras  que faziam  e  fazem a riqueza e a diversidade linguística das variantes do nosso crioulo.

A cada ilha a sua variante bela e única! Quando vou ao Fogo, gosto de ouvir a variante da ilha. Da mesma maneira, quando visito a Brava, ou outra ilha. Cada uma, à sua maneira, exprime a singularidade telúrica/ilhéu, e a riqueza de que somos feitos o que não anula a pertença colectiva naquilo que fundamentalmente  nos identifica.

Termino, dizendo que também a tal “ aldeia global” dos tempos,  em que vivemos e à nossa escala,  é também uma  realidade no nosso micro espaço, inter-ilhas.

Em português nos entendemos?...

sábado, 6 de junho de 2015

Recebi este e-mail e achei-o interessante porque se apoia numa das razões que justificam ou justificaram o famigerado (des)acordo ortográfico. Vou publicá-lo tal qual o recebi excepto o título que seria “Uniformizar ‘bora lá”.


No outro dia, ouvi o Malaca Casteleiro dizer que o Acordo Ortográfico em que trabalhou incansavelmente ao longo de anos e anos, teve por objectivo uniformizar a língua entre todos os países de expressão portuguesa.

Assim sendo, os brasileiros têm rabo ou somos nós que vamos passar a ter bunda?

E as senhoras, as de cá passarão a usar calcinha ou são as de lá que usarão cuecas?

De fato eles vestem fato ou nós, de facto, de futuro envergaremos terno?

O governo de cá rouba-nos a grana ou é o de lá que lhes sonega o carcanhol?

Passamos a ir à lanchonete ou são eles que vão ao café?

Vamos beber um bagaço à tasca ou uma cachaça ao boteco?

E o tipo que defende a baliza, é para eles guarda-redes ou, para nós, será goleiro?

E como nos passaremos a mover? Nós de trem, ônibus, bonde, ou eles de comboio, autocarro, eléctrico?

Esperamos pelo transporte na parada ou continuaremos a fazê-lo na paragem? 

Respeitamos a bicha na paragem ou antes a fila na parada?

E aquele gajo porreiro, de pêra, que vai a sair da esquadra? Vamos ter que dizer que é um cara legal, de cavanhaque, a sair da delegacia?

Se quisermos agrafar um relatório, recorreremos a um grampeador ou a um agrafador?

E se o nosso fito é afiar um lápis, agarramos num apontador ou num apara-lápis?

Fomos à privada e não usámos a descarga ou fomos à retrete e não puxámos o autoclismo?

E por aqui, pela merda, me fico. Em castelo. À Casteleiro. Em bom português, do único, porque merda é merda, aqui ou no Brasil.

Não sei quem é o autor, mas, daqui, chapeau!

P.S. - Os meus e-mails são redigidos em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo Aborto Ortopédico - perdão! Acordo Ortográfico.
quinta-feira, 4 de junho de 2015

Nota explicativa sobre o artigo que adiante se publica:
Por ter achado o texto interessante e honesto para quem, como nós, é lisboeta de coração; porque vivo numa pequena cidade – Praia – que se tornou (in)compreensivelmente, altamente insegura;  porque tenho passado pelas mesmas sensações do autor do texto quando estou em Lisboa e ando e passeio a pé, descontraída e tranquilamente; porque aí pude com uma grande felicidade verificar que se pode sair do cinema à meia-noite, com  duas netas adolescentes e andar a pé, gozando o passeio até à casa, e sem pensar em assaltos;
Por tudo isto, achei oportuno trazer ao leitor do «Coral Vermelho» o texto que se segue, com a devida vénia ao autor, Joaquim Ferreira Santos e ao Jornal «O Globo».

 

Rio-Lisboa (Joaquim Ferreira dos Santos)

O GLOBO, 28/MAI/2015

O carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida do Rio.

O bom de descer as ladeiras de Lisboa é que durante alguns dias você está longe da selvageria carioca, pode sentir a nostalgia de sair flanando como fazia antes nas ruas da sua cidade. Zero de medo. Assim como quem não quer nada, um sorvete da Santini numa das mãos, você vai Rua do Carmo abaixo, passa pela luvaria Ulisses e, quando dá com os cornos no Rossio, o largo monumental pode fazer a surpresa de oferecer uma festa de máscaras ibéricas, comidas e danças por todos os lados, mas nunca a cena de um médico ensanguentado no chão do Café Nicola, esfaqueado por algum garoto que em seguida lhe roubou a bicicleta e foi embora.

Isto aqui é Lisboa, ó pá. Zero de deslumbramento. As escolas de Portugal acabaram de ser avaliadas em trigésimo lugar num ranking de 38 sistemas educacionais europeus, há muita coisa a ser feita, mas o bom disto aqui é que se vive em paz com os pequenos valores da existência. Zero de sobressaltos. A delícia antiga de se ir ali à esquina e, na ordem natural da felicidade das coisas, voltar sem que a polícia lhe tenha metido uma bala perdida nas costas.

Agora, por exemplo, você está na ladeira do Príncipe Real e basta pôr os pés na faixa de pedestres para que os carros parem até você chegar do outro lado. Aí é só começar a descer a rua por uma calçada de pedras portuguesas, todas postas em seus lugares, nenhuma solta e chamando os pés para um tropeção que pode para sempre lhe estuporar os artelhos e desgraçar a sobrevivência.

Não está acontecendo nada de muito notável, Lisboa está linda, mas não se faz aqui o registro de qualquer grande marco a se exaltar na revolução civilizatória moderna. É apenas uma cidade que tem se descoberto feliz consigo mesma.

Lisboa está coberta dos caminhos simples, verdadeiros yellow-brick-roads para se levar a vida com leveza, essa carência carioca, e num deles você desce o Bairro Alto, atravessa o Largo Luís de Camões, pega a Rua Alecrim e, ao final, apesar de todas as modernidades da Rua Nova do Carvalho, é possível encontrar ainda de pé as tascas da tradição gastronômica. Tudo convive sem conflito. Ao contrário do Rio, onde toda semana fecham uma mesa na memória do paladar e tiram da boca do cidadão um gosto familiar, em Lisboa é possível sentar num tamborete do quase botequim Sol e Pesca para comer as conservas que há séculos apetecem ao apetite local. Ninguém mais sabe ao certo o que é antigo e o que é moderno. As sardinhas continuam nas latas, o azeite continua de oliva, mas o estilo de tudo isso agora vem embrulhado em papéis do mais fino design.

Isto aqui é Lisboa, ó pá, e isto não é o anúncio de que o mundo está sendo reinventado a partir de suas oito colinas. Os políticos corruptos também estão, como os ratos de sua corja internacional, nas capas do “Expresso” e do “Público”. Mas na vida real do dia a dia a cidade encontrou um jeito delicado de lustrar os seus casarões magníficos, parecidos com os que todo mês desabam na Lapa carioca e, ao mesmo tempo em que se orgulha deles, reinventa suas funções. Não há mais loja de roupa, mas de “conceito”, e portuguesa de bigode era a vovozinha. Agora as garotas são todas “gira”, o termo local para traduzir o “cool”.

A sensação em alguns momentos é que você vai sair da Rua Augusta, tomar uma ginja no canto da Praça da Figueira e quando dobrar em direção ao Largo dos Intendentes vai dar na verdade nos Arcos da Lapa. Mas é só impressão. As ruas são limpas, os garçons servem às mesas com presteza, os telhados são os mais bonitos do mundo e as praças estão sempre tomadas por senhoras que descansam ou jovens, no Quiosque do Refresco, animados por doses de capilé. Tagarelam, paqueram, o de sempre. Ninguém aporrinha o próximo.

O Cais do Sodré, por exemplo, está basicamente o mesmo de sete anos atrás. Mas se você prestar bem a atenção, andar para a direita e entrar no Mercado da Ribeira, lá sobrevive o comércio tradicional das barracas dos tripeiros, convivendo com os stands da nova culinária portuguesa, tudo redesenhado sob o patrocínio da revista “Time Out” — e é impossível ao carioca não pensar que um dia, sem precisar ir tão longe, poderia estar assim, curtindo a vida em paz, comprando suas flores, gastando pouco, beliscando o que quisesse, na Cadeg de Benfica. Depois, sem entrar em pânico, passaria pela Barreira do Vasco e chegaria em casa para contar aos que ficaram como foi bom.

Ao carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida da cidade, foi preciso ir até Lisboa para recolher histórias de não acontecimentos, comer um bacalhau ao sossego e ter a sensação inenarrável de que não corre o risco de ser assassinado na próxima esquina — e em Lisboa esses sonhos, essas pataniscas simples, parecem cada vez mais fáceis de se realizarem. A cidade se pacificou com suas tradições, entendeu feliz que um bom jeito de avançar é o da refazenda das suas guarirobas. Ao invés de gourmet, os pastéis de Belém procuram resgatar a receita original. E se em algum momento a cidade tentou esquecer Amália Rodrigues, por causa de suas relações com Salazar, Lisboa agora, em mais um arroubo de orgulho pelas suas referências, está cercada de motoristas de táxi com os carros sintonizados na recente Rádio Amália, um chorrilho de 24 horas de fados da grande cantora.

Na chegada ao Galeão, o carioca-da-semana-passada foi cercado pela notória turbamulta de taxistas. Sonhou que uma Rádio Elizete Cardoso iniciava o processo de pacificação geral e convocava a cidade a guardar suas facas.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Porque a oportunidade sugere que seja assinalada - Dia Internacional da Criança -  Aqui se transcreve um texto de A. Ferreira, publicado há dez anos (2005) no semanário «Expresso das Ilhas» e mais tarde no livro, «Inquietações em Crónicas Datadas», tendo como sujeito  crianças de e na rua. Mantém infelizmente e para nossos pecados, alguma actualidade.

Crianças de e na Rua… Que diferença faz?

Crianças “de” e “na” rua é uma designação que já fez (e vem fazendo) perder imenso tempo, acção e muito trabalho sério das instituições do Estado e da sociedade, sobretudo na discussão inócua dos casos da Praia, do Mindelo e do Sal que tem adiado políticas de efeitos eficazes para o combate deste mal inominável, porque monstruoso e terrível!

Crianças de e na Rua, distinção puramente técnica de sociólogos e técnicos sociais e tornada modismo e frase feita para debates substancialmente académicos que, na realidade, distraem os incautos, entretêm os políticos, não passando tudo de pura figura de uma retórica trágica.

Não nos deixemos enganar: O conteúdo é o mesmo, o significado é sensivelmente igual e as resultantes, infelizmente, em quase nada diferem.

Crianças de e na Rua, cujas pontas se diluem na realidade dos factos mostram, ou por outra, deixam perceber a tragédia humana de muitos meninos e, ultimamente, meninas, que se traduz no facto de serem escorraçados, de ignorarem a segurança de um lar, o afecto, a higiene, a alimentação e os cuidados básicos devidos por uma mãe e por um pai. Do mesmo modo está-lhes vedada – porque descuidadas pela família e ignoradas por quem de direito – a frequência da escola, a educação, e, portanto a oportunidade de aprendizagem e interiorização progressiva de valores e de princípios que farão delas, mais tarde, homens e mulheres válidos.

Não podemos continuar a ignorar a extensão e os efeitos do mal que, há mais de duas décadas, flagela o país de forma continuada e crescente, com particular incidência nas regiões urbanas e com enormes custos para a sociedade. É vê-las, às portas dos supermercados, das lojas de conveniências, nas imediações dos hotéis e dos clubes nocturnos, a exigir, tal é a agressividade que, na maior parte das vezes, pedem quando não ameaçam, assaltam e maltratam com instrumentos cortantes como facas, ou nacos de vidro, o pacato transeunte que calcorreia as ruas e os lugares da cidade, criando insegurança, diminuindo a capacidade humana de compreensão e de solidariedade pelo próximo, ainda que este próximo seja infanto-juvenil e pondo em causa uma opção estratégica do País  – o Turismo.

Temos todos a noção de que o rosário é longo, complexo, mas não insolúvel. Sim, o problema tem solução se se quiser! Se houver uma forte e determinada vontade, uma política eficaz (não a que procura votos a qualquer preço!) e que passa por muitos e transdisciplinares caminhos. Pela família, pela escola, pela sociedade, pela opinião pública, pela discussão do problema, de preferência sem “paninhos quentes”, pelo Estado através dos sectores que cuidam desta matéria.

Crianças de e na Rua, parafraseando a tão usada e abusada expressão dos nossos ilustres deputados, “para quando a solução?”. Embora neste caso seja adequada e oportuna a utilização da conhecida locução frásica tornada verbo – “paraquandar” – porque não se trata de abertura de caminhos vicinais ou de construção de um chafariz, problemas importantes, mas locais e de solução física, material, mas sim, de uma questão de âmbito nacional com reflexos profundos nas gerações vindouras que não se resolve apenas com dotação orçamental e que deve merecer atenção acrescida dos representantes da Nação. Enfim, já se “dormiu” tempo demais e as consequências nefastas são por demais evidentes e portanto à vista de todos!

Um pequeno passeio por alguns bairros, sobretudo os novos bairros, da cidade da Praia, revela o desenvolvimento extensivo de uma traça arquitectónica caracterizada por uma envolvente em gradeamentos de ferro, com o fim de evitar os assaltos em crescendo a que já não se dá nota à polícia pela incapacidade confessada desta em os resolver alegando impedimentos legais de protecção às crianças, porque são inimputáveis, sem qualquer contrapartida efectiva. O cidadão é confrontado, por vezes, com gana de fazer a indesejável “justiça com próprias mãos”, que não é, não pode nem deve ser timbre de sociedades ditas e tidas por civilizadas.

Não, mil vezes não! Não podemos continuar a assistir a esta regressão social e civilizacional que se tornou “normal” nos meios urbanos de, pelo menos, três das mais importantes Ilhas do País! Basta!

O governo tem que criar mecanismos efectivos de combate a este flagelo. A responsabilização dos progenitores é imperiosa. Um rastreio pela nossa administração (latu sensu) dá conta de inúmeros “responsáveis”, da classe política inclusive, obrigados, sublinhamos “obrigados” pelo Tribunal a descontar directamente no salário a pensão de alimentos. Como pode isto acontecer? Como pode um irresponsável ser eleito ou ocupar cargos de responsabilidade? Sim, porque se trata de alguém que não só quis fugir às suas responsabilidades como desrespeitar uma decisão judicial… A moralização e o respeito da e pela classe política passam por aí.

O permitir-se o alastramento da irresponsabilidade parental para com a criança que é trazido ao mundo, de qualquer maneira, abandonada primeiro pelo pai, a seguir pela mãe, e por fim não reconhecida pela própria família de que ela, a criança, chega a esquecer os nomes, é um atentado contra os direitos humanos! O Governo deve avocar o seu papel: uma política de população assumida e sem complexos; penalizar, de forma exemplar, os progenitores, a família, quanto mais não seja pelos efeitos dissuasores que dali adviriam. De outra forma, a listagem e as estatísticas elaboradas pelos Serviços que tutelam os direitos dos menores, sobre crianças que não deviam estar e muito menos ser da Rua, não passam de números sem qualquer significado!

Crianças de e na Rua, não interessa se “de” ou se “na”, devem constituir prioridade de uma política social por aquilo que é hoje e pelo que projecta para o futuro. Nenhum governo, mormente os que se dizem de esquerda, pode ignorá-lo. O combate deve ser encetado já e antes que seja tarde de mais…

Cabo Verde, quanto mais não seja, pela sua tradição cristã e, obviamente, humanística, não pode permitir que esta tragédia ganhe gerações.

A.    Ferreira

12/10/2005