Por ocasião da cerimónia de atribuição do grau de "Doutor Honoris Causa" ao Dr. António Manuel Mascarenhas Gomes Monteiro, pela Universidade de Mindelo. Dezembro 2015

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

 Hão-de convir comigo de que não é fácil falar de uma pessoa por quem se tem muita amizade, e por quem se nutre igualmente, uma certa admiração pelo carácter íntegro e generoso que dela emerge.

Quando tentei caracterizar, há muito tempo atrás, o perfil de Mascarenhas Monteiro, vieram-me à memória e registei-as então, as palavras, da portentosa escritora portuguesa, Agustina Bessa-Luís que no seu livro, «Meninos de Ouro», a determinada altura e para definir o seu protagonista, o narrador dizia que ele se situava entre aqueles para quem “o luxo é um acidente interior.” Nada exibicionista ou alardeado. Nada exterior, mas sim, um atributo interno. Situo o Dr. Mascarenhas Monteiro, nesta definição pela sua simplicidade no trato social e pela sua modéstia sem pose, e pela riqueza interior que demonstra no trato com outrem. Tudo isso adveniente da sua boa formação e capacidade humanas.

Antes de entrar neste modesto ensaio laudatório sobre um perfil tão insigne, permitam-me, ilustres presenças, senhores e senhoras, que faça um breve recuo no tempo: Mais precisamente há vinte cinco anos, em 1990, quando aqui, nas ilhas, se vivia um ambiente de alguma alegria republicana, cidadã, marcada pela abertura democrática que se dera então em Cabo Verde, com o fim do regime de Partido Único, presente entre nós, desde a Independência em 1975.

O Dr. Mascarenhas Monteiro perfilava-se e destacava-se como o candidato desse tempo ímpar na nossa história mais recente, em que finalmente, tínhamos conquistado a liberdade que tanto almejávamos e íamos poder votar livremente com alternativas!

Ora bem, recuando no tempo, tive o privilégio e um enorme prazer, devo dizê-lo, de organizar nessa altura - Novembro de 1990, para o Jornal «Opinião» - um conjunto de textos em que, para além de uma entrevista com o então candidato presidencial, procurei, ouvi, e escutei vários testemunhos de diferentes cidadãos sobre a pessoa em que residia a esperança democrática – mais tarde confirmada – de uma presidência diferente em quase tudo o que havíamos presenciado até então.

De entre as muitas personalidades ouvidas, registados foram também alguns depoimentos de antigos professores liceais que o foram do adolescente/jovem Tony Mascarenhas Monteiro. Seleccionei de entre eles, e para esta ocasião, o depoimento da antiga Professora de Geografia, Drª Maria Luísa Ferro Ribeiro, quem, a determinada altura da conversa, afirmou: “ (...) é um dado normalmente aceite que o professor marca o aluno e que essa influência estende-se às vezes, até à vida profissional...e Maria Luísa Ribeiro continuou: “mas acho que o inverso pode ser verdade, há alunos que também marcam o professor e incitam-no a continuar a sua tarefa; há alunos que mostram que vale a pena essa profissão e isso é mais evidente e ganha maior relevância quando se está no início da carreira. Foi exactamente o que sucedeu comigo. Ainda jovem vinha preparar a minha tese para a licenciatura em Ciência Geográfica, tese essa que versava a ilha de Santiago. O decorrer da preparação dos meus trabalhos coincide com o início da minha actividade de leccionação no Liceu da Praia. Então, do conjunto dos alunos que me ficaram gravados pela vida fora, um deles é precisamente António Mascarenhas Monteiro – Tony, como nós todos o chamávamos. Recordo-o como um jovem bem-comportado, responsável, calado, mas interveniente e interessado na matéria. Sempre com um enorme sentido de seriedade e de responsabilidade, nada habituais na idade e na época e que eu atribuía ao facto de ele ser o mais velho  do grupo de irmãos e de muito cedo ter assumido posições de responsabilidade familiar. E finalizou a antiga professora: (...) pelo muito que me marcou como professora não só por ter sido bom aluno do ponto de vista do aproveitamento, mas pelo aluno que impressionava qualquer professor (...) e quando vejo o actual Tony, penso que o que ele é hoje, já estava quase que escrito pela maneira de ser dele que haveria de ser, enfim, a pessoa que todos nós conhecemos: responsável, modesta, uma vida de projecção mas comedida e sobretudo uma ligação muito especial com as pessoas. (...) Fim de citação.

Achei interessante, porque nunca perdem actualidade estes dizeres, apesar dos anos passados e das vicissitudes normais do decorrer de uma vida. Dizeres definidores de uma tão prestigiada personalidade nacional e assim trazê-los à colação, neste momento em que a Universidade de Mindelo, achou por bem, distingui-lo com o grau “Honoris Causa” que tão bem se casa com o perfil do homenageado.

Pois bem, falar do perfil do Dr. Mascarenhas Monteiro é percorrer um curriculum de exemplar porte cívico e moral, edificado num laborioso percurso existencial.

António Manuel Mascarenhas Gomes Monteiro, nasceu em Santa Catarina, ilha de Santiago pertencendo já à galeria dos seus filhos mais ilustres, é hoje, na hora actual,  seguramente, o seu mais distinto homem público. Originário de uma família de proprietários e de comerciantes, de homens e de mulheres ligados ao trabalho e à família. A mãe, senhora que teve uma educação cuidada, inclusivamente fez estudos como interna num Colégio em Portugal, era filha de antigo Seminarista. Logo, o avô materno de Mascarenhas Monteiro fez os seus estudos na pioneira e prestigiada instituição académica/religiosa cabo-verdiana, o célebre Seminário-Liceu de S. Nicolau. Foi a mãe quem iniciou o filho, nas primeiras letras da sua escolarização e no incitamento ao gosto pela leitura através de clássicos da literatura portuguesa.

Do pai, comerciante laborioso que cedo os deixou, recebeu o nosso homenageado, o legado valioso de que a integridade de carácter, o valor do trabalho honrado e o primado da família, constituem pilares para a existência digna do ser humano.

São estas as palavras evocativas de Mascarenhas Monteiro, relembrando, há 25 anos, a casa paterna, o progenitor. E passo a citar: “Devo dizer que a imagem que conservo do meu pai é a de um homem profundamente humano, muito preocupado com o futuro dos filhos. Quando ele adoeceu gravemente, passou por um período de enorme sofrimento, sobretudo psicológico a pensar no futuro dos filhos. Era um pai, muito tolerante (...) que preferia falar com o filho quando este prevaricava... o ambiente da nossa casa era muito são e de muita solidariedade” Fim de citação.

Não admira pois, que o Dr. Mascarenhas Monteiro provenha de um ambiente familiar em que a boa educação, assim entendida na nossa cultura, como assumpção e interiorização de valores éticos cristãos que devem nortear a vida humana, marcaram presença e, inscreveram na pessoa do Dr. Mascarenhas Monteiro, uma cidadania pessoal e social sempre em crescendo.

Na Vila de Assomada, em Santa Catarina, Santiago, fez os estudos primários. Na cidade da Praia os estudos liceais de onde sairia para, na Europa, iniciar os estudos superiores em Direito. Primeiro em Portugal, e depois  na Bélgica, onde se licenciou.

Aí se manteve como Investigador no Centro Inter-Universitário de Direito da Universidade Católica de Lovaina e como Assistente da Faculdade de Direito da mesma Universidade.

De regresso ao país, desempenhou várias e altas funções, das quais destacaria, a de Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, onde antes fora Juiz-conselheiro.

Recordando ainda os 25 anos do nosso Estado democrático, gostaria de nesta ocasião, relembrar às ilustres presenças de que o Dr. Mascarenhas Monteiro foi quem primeiro reclamou oficialmente a abertura democrática - no seu discurso, em nome dos Magistrados, no acto dos cumprimentos do Ano Novo ao então Presidente da República em Janeiro de 1990 - ao sugerir junto de instâncias superiores, o aparecimento de Listas Independentes, nas legislativas que se avizinhavam, a competir com o então Partido único, o PAICV, à semelhança do que havia sido legislado para as eleições autárquicas.

O Dr. Mascarenhas Monteiro é para os anais da história política  de Cabo Verde, o primeiro Presidente da República eleito por sufrágio directo e universal..

Com ele, marcou-se um “virar de página” em Cabo Verde, pela postura democrática do Chefe de Estado. O Presidente Mascarenhas Monteiro, pautou e pontuou a sua magistratura, entre outros parâmetros, por um correcto relacionamento inter-institucional, por um profundo respeito pela  separação  de poderes, e por uma rigorosa e escrupulosa observação da Constituição, sem esquecer a sua forma pessoal de estar na vida marcada por uma enorme simpatia e generosidade intrínsecas ao seu carácter, sem ser populista e sem ser maculada por qualquer demagogia, uma vez que são traços que todos nós lhe reconhecemos como inerentes ao seu saber estar e ao seu saber ser.

Estava assim iniciada em Cabo Verde uma nova e responsável forma de vivência democrática entre os órgãos do poder, entre si, e   estabelecida também nessa mesma coexistência democrática, a ligação entre estes e o cidadão.

Com a sua acção firme e determinada marcadamente apartidária e reconhecidamente isenta prestigiou e consolidou o emergente regime democrático.

Após os dois mandatos,  retirou-se o Presidente Mascarenhas Monteiro do activo político nacional, com muito prestígio angariado pelo seu notável desempenho, mas sem deixar de continuar a exercer  uma intensa e ao mesmo tempo muito discreta – como é  seu timbre – actividade cívica e humana em prol do país, e em prol da paz no mundo, como mediador internacional em zonas de conflitos, na qualidade de convidado de organizações e de organismos internacionais, de entre eles a Francofonia, a UA - Unidade Africana e a ONU - Organização das Nações Unidas; e também como conferencista convidado em vários fóruns no estrangeiro para debater, reflectir e discorrer sobre a democracia, os direitos humanos e os grandes problemas que continuam a assolar o Continente africano e o mundo.

No plano nacional, retomo, e após deixar a presidência da República, o Dr. Mascarenhas Monteiro cria com um grupo de curadores, a Fundação “Esperança” que se tem dedicado, fundamentalmente à causa da criança e do jovem em risco e de risco, crianças e jovens que sem o amparo familiar nuclear, escolar e social, resvalavam infelizmente para a delinquência, para a marginalidade ou para a precariedade.

Para além desse importante atendimento, ou melhor, complementando-o, a Fundação “Esperança” criada pelo Presidente Mascarenhas Monteiro, concede bolsas de estudo e de formação no país, para estes mesmos jovens algo desvalidos. Trata-se de uma instituição inteiramente ao serviço de causas, abrangente nos seus objectivos meramente sociais e afastando de todo, fins outros de individual respaldo e/ou de vã gloria pessoal. Daí que fiável e séria, porque tem como finalidade servir a quem realmente mais necessita e, no caso, a criança e o jovem em risco, sempre bem afastado das luzes da ribalta, em conformidade com a discrição que empresta a todos os seus actos públicos.

Da sua actividade de escrita e de reflexão sobre matérias que afinal lhe são caras, encontram-se expressas em alguns artigos e publicações, originariamente versadas em francês, dos quais, e entre outros, destaco: «Reflexões sobre a competência de um Governo demissionário», publicado em Bruxelas em 1977. «A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. A proteção dos Direitos Humanos nos níveis nacional e internacional» publicado em 1991.

Magnífico Reitor, Senhores e Senhoras, distintas presenças:

É  longa e ricamente repleta, na acepção mais real do que isso possa significar, o curriculum vitae, do Dr.  Mascarenhas Monteiro.

Mas nunca é de mais, reiterar de que há qualidades e traços humanos que todos os que com ele se privam de perto, lhe reconhecem unanimemente: Uma genuína generosidade que lhe vem do seu interior, uma simpatia cativante que lhe emerge com muita naturalidade, uma cultura e uma erudição que humildemente manifesta, uma seriedade e grande probidade de homem público, com espirito de missão e ao serviço de nobres causas. Assim é o Dr. Mascarenhas Monteiro.

Para terminar, tal como comecei, parafraseando as palavras sábias da grande escritora de língua portuguesa, Agustina Bessa-Luís, volto a retomar o sentido delas: há Homens, em quem o luxo, no sentido de riqueza espiritual, humana e anímica, é um atributo que brota do próprio ser, e acrescentarei, excelências, Magnífico Reitor, meus senhores e minhas senhoras, que estamos perante alguém a quem assenta perfeitamente a definição: Um cidadão exemplar, um estadista vertical e de peso, um homem público íntegro, uma personalidade de cultura e um grande homem de família. Com este perfil, estou absolutamente certa que qualquer organização ou comunidade se sentirá orgulhosa e honrada de o ter como um dos seus.

Muita obrigada, pela vossa atenção.

 

 

Armindo Ferreira lança romance sobre história recente da Guiné e Cabo Verde

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

·         Escrito por  Antonio Monteiro, Expresso das Ilhas 

Depois de “O passaporte”, publicado em 2002, Armindo Ferreira volta às lides literárias com “Mulheres de Pano Preto”, um romance histórico de grande fôlego em que pretende suscitar um debate desapaixonado sobre a história recente da Guiné e Cabo Verde. Para isso, sob pretexto de uma história de amor, o autor reanalisa de forma ficcional e documental os acontecimentos mais marcantes do período imediatamente antes e logo a seguir à independência dos dois povos.  Apesar de desmistificar muitos factos e acontecimentos ocorridos nos últimos 40 anos, o autor vê o seu livro apenas como um contributo para a pacificação com a nossa história.


Expresso das ilhas – O seu livro é publicado em edição do autor. Porquê?

Armindo Ferreira – Boa pergunta. É que é difícil obter patrocínios e conseguir uma editora para se publicar um livro. Depois levam muito tempo a decidir. E como não sou escritor, fiz um esforço para editar o meu próprio livro, sem ter que me sujeitar a determinadas burocracias e tempos de espera que não se coadunam com a minha maneira de ser. Também será porque há neste meio de patrocínios determinadas práticas com as quais não concordo, porque não há critérios. Os privados que dêem o seu dinheiro a quem quiserem. Agora as instituições públicas que fazem patrocínio, deviam ter regras fixas e públicas para que os patrocínios fossem apreciados porque o dinheiro é de todos nós.

A questão foi colocada mais no sentido de saber se duvidava da qualidade do livro que escreveu e por isso resolveu avançar com edição de autor.

Não duvido porque não tenho pretensão nenhuma. Pelo seu conteúdo, achei que era importante publicar o livro agora, no momento que estamos a atravessar. Se notou bem, o livro é um romance com laivos históricos para situar o leitor num determinado tempo. É um tempo que não vem sendo contado convenientemente. Nós estamos a apagar determinados traços de história para tentar reescrevê-la de outra forma. E foi justamente o que eu quis fazer: tentar repor esses traços para que os mais novos saibam o que na realidade se passou –  embora sob forma ficcionada, que leve o leitor a sentir aquilo que se vivia na altura…
 Então podia levar um pouco o véu sobre o enredo do romance?

De certa forma é uma história de amor passada numa época turbulenta: antes da independência, após e aquela fase que culmina com o rompimento do polémico processo da unidade Guiné-Cabo Verde. E como se poderá ler tem como protagonistas Alice, Tomás e outros antigos estudantes do Liceu Honório Barreto, em Bissau.

Li numa recensão ao seu livro que quis distinguir de forma clara a percepção mais inteligente, mais reflectida nas falas e nas análises das suas personagens femininas.

Não foi intencional. Foi uma leitura de quem fez a recensão. Talvez haja quem ache que os homens saíram beneficiados… Mas foi apenas uma leitura. Não tive essa intenção.

O título “Mulheres de Pano Preto” reforça essa leitura.

Não sei se se lembra de uma canção de José Carlos Schwarz  “Mindjeres di pano preto” que são aquelas mulheres que durante a luta perderam os filhos, os netos, os irmãos e os maridos e com a chegada do PAIGC pensaram que tudo ia mudar, continuaram a perder os seus entes queridos, porque o PAIGC trouxe a independência, mas não trouxe a liberdade. O regime autoritário que existiu antes, continuou e talvez um pouco mais autoritário ainda. Portanto, a independência não calou a dor dessas mulheres, elas continuaram a chorar.

O seu livro narra uma história de amor, mas tem um desfecho pouco romântico: Tomás é preso arbitrariamente e quando sai da prisão acusa a mulher de ter cometido adultério…

Bom, no livro há precedentes que o levaram a tomar essa atitude. Foi o reflexo da sociedade que se criou, uma sociedade cheia de desconfiança, de dúvidas, de incertezas e uma sociedade má em que tínhamos uma classe que dominava e outra que foi destruída. Essa destruição teve reflexos nas famílias. O facto de Alice e Tomás não se entenderem no fim era expectável: foi a esperança que nós tínhamos alimentado que acabou por se tornar num pesadelo. “Mulheres de Pano Preto” não é um romance cor-de-rosa. É um desfecho que está em sintonia com o tempo que então se vivia. Muitos casais se desfizeram com a chegada dos novos donos do poder.
 “Mulheres de Pano Preto” é um romance cabo-verdiano ou guineense?

Reflecte os dois países, Guiné e Cabo Verde em partes quase iguais, porque a acção do livro desenrola-se no tempo da unidade Guiné-Cabo Verde. Portanto, havia formalmente – porque os dois povos nunca aceitaram a unidade – uma unidade que era imposta pela força. Aliás, ao pequeno ai, como se viu, aquilo desfez-se com o gáudio das duas partes.

É um romance autobiográfico?

Nada que se pareça comigo. Senão seria uma multiplicidade de alter egos pelas personagens do livro. Tem uma ou outra memória pessoal, mas as afinidades terminam por aí. 

Mas como diz na abertura do romance, as suas personagens apoiam-se em referentes reais.

Sim, é natural que se respaldem em referentes reais: já não se inventa nada. Mas quando construí as minhas personagens não estava a pensar minimamente em ninguém em particular.
“Mulheres de Pano Preto” é um romance histórico com uma precisão de datas e acontecimentos pouco comuns em livros deste género. Como se documentou?

À medida que ia escrevendo, fui consultando os livros e sobretudo ouvi pessoas que presenciaram esses acontecimentos. Portanto, os actores directos nessas acções. Por exemplo, quando falo da morte de António Buscardini [Chefe dos Serviços de Segurança da Guiné-Bissau na altura do golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980] foi gente que esteve envolvida nisso que me contou. Mesmo quando descrevo o 14 de Novembro, com Nino Vieira a ser interpelado pelo Buscardini, são histórias que eu recolhi de gente que esteve ligada ao assunto. Portanto, é uma obra de ficção mas baseada em factos reais.

O que o autor quis dizer com “Mulheres de Pano Preto”?

O leitor, melhor do que eu, tirará as suas conclusões do romance. O que quis dizer, escrevi-o no livro. O que as pessoas irão pensar do que eu disse, é uma outra história. Portanto, é preferível que as pessoas pensem naquilo que irão ler e que cheguem às suas próprias conclusões. Da minha parte, eu quis levar ao conhecimento das pessoas determinadas factos que marcaram uma época. A interpretação que poderão vir a fazer do livro ultrapassa-me, porque o livro já não é meu, já é do leitor. Fará as interpretações que bem entender, mas aí lavo as minhas mãos, se puder.
Diz que narra factos para levá-los ao conhecimento das pessoas, mas emite juízos de valor sobre estes factos. De propósito?

No livro há um narrador que não é o autor, mas pode ser que uma das personagens seja o autor. Em todo o caso, há uma distinção entre o narrador, de facto… Faço esta intromissão de propósito, achei que ficava bem. Só por isso.
Um exemplo. “A independência de Cabo Verde é fruto fundamentalmente do 25 de Abril”.

Não, isto é um diálogo. Note-se que em todo o livro há um pró e um contra. Portanto são argumentos. Há argumentos segundo os quais a independência de Cabo Verde é fruto apenas do 25 de Abril. Os combatentes que chegaram depois a Cabo Verde lutaram na Guiné para a independência da Guiné. Eles não foram mandatados pelo povo cabo-verdiano para combaterem por eles na Guiné. Portanto, é o povo da Guiné que deve estar agradecido dos combatentes cabo-verdianos na Guiné. Em Cabo Verde não combateram. Esta é uma lógica que pode até não ser a minha, eu posso ter outra. Mas é preciso pôr todos os argumentos em jogo para que o leitor tire depois as suas conclusões, porque é necessário hoje um debate sério sobre a nossa história recente, despido de qualquer preconceito. É que nós passamos por um período ditatorial duro em Cabo Verde: houve prisões arbitrárias, houve tortura e houve mortes. Hoje os agentes desse regime são tidos como democratas e a dar até lições de democracia. Todo o homem muda, mas o seu carácter é imutável depois de formado. O que proponho no livro é que façamos um debate sobre isso e não tomar como dado adquirido determinadas coisas, que por isso não se discutem.  

“Mulheres de Pano Preto” pode ser considerado um romance epocal, no sentido em que cobre um longo período, comum a muitos cabo-verdianos da sua geração, que começa no liceu e termina com o fim do efémero projecto de unidade Guiné-Cabo Verde.

Sim, apanha toda uma época que começa com o liceu, a entrada para a tropa colonial, depois a entrada para a clandestinidade, as guerrilhas, a vivência em Lisboa, o regresso à Guiné, o regresso outra vez a Lisboa, porque o ambiente de guerra não é muito favorável e, com a independência, o regresso utópico porque quase todos nós tínhamos a ideia de que independência iria resolver todos os problemas. Hoje sabemos que só a juventude pode pensar assim. A independência foi apenas um passo para a resolução dos problemas. Mas mesmo assim, as pessoas que protagonizaram a independência não estavam preparadas para essa fase. E se notarmos bem até Amílcar Cabral chamou atenção a isso. Ele disse que quando formos independentes iremos encontrar outras pessoas que saberão levar avante essa fase. Claro que os tipos que fizeram a guerra não pensaram assim, porque acharam que eram capazes. E o resultado é que a Guiné-Bissau, 42 anos depois da independência, não sabe ainda o que é o desenvolvimento e não tem paz. Porque eles formaram militares, eram bravos combatentes, mas não estavam preparados para governar um país.

Não é muito pretensioso querer lançar com o seu romance um debate sobre toda uma época vivenciada na Guiné e Cabo Verde?

Não é lançar, mas suscitar. Pode parecer pretensioso, mas não sou o primeiro a fazer isso. Há outros que já escreveram sobre isso. É mais uma achega para o debate. Quando escrevo no livro que pretendo fazer um debate, quero dizer que pretendo juntar-me àqueles que querem fazer o debate da nossa história recente, dos últimos 40 anos, porque de outra forma vamos ter uma história que não é a nossa história real. A história baseia-se em factos reais e depois há as interpretações. Por exemplo, os festejos do quadragésimo aniversário foi a glorificação do Partido Único. E em boa verdade, ninguém defende o Partido Único, ninguém defende o totalitarismo, nem o autoritarismo. E o Partido Único foi isso.
O seu livro traz à luz factos relevantes e desmistifica outros como a suposta recepção do Papa Paulo VI aos líderes Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. Porque não decidiu escrever um tratado histórico?

É que um ensaio histórico carece de maior investigação e ela tem que ser profunda. Os dados têm que ser contraditados, porque há sempre uma fonte contrária. Eu não tenho formação nem capacidade para fazer isso. Todavia eu gostava que alguns pontos desse percurso de mais de 40 anos fossem conhecidos. Foi essa a minha motivação.
Qual a sua expectativa quanto à recepção do seu livro?

Fiz uma edição muito reduzida. Gostaria que o livro fosse lido e vou deixar aqui o meu email para que as pessoas que o lerem me coloquem directamente, se assim o entenderem, as suas questões: agregofer.jr@gmail.com. Tenho também já aberto um endereço só para acolher essas questões que é agregofer.jr@outlook.com. As pessoas podem não estar de acordo com os dois pontos de vista que normalmente tenho. É que pode muito bem existir uma terceira via. Podem dizer ‘aqui falhaste, etc’. Por exemplo, quando dizem que as Forças Armadas têm 50 ou 40 e tal anos tenho que dizer que é uma aberração histórica. Os Estados é que têm exércitos, ou seja o exército não precede o Estado. Temos também, como escrevo no livro, a independência da Guiné-Bissau proclamada, segundo o PAICG, em Madina do Boé, a 24 de Setembro de 1973 Só vou avançar um pormenor. A Guiné dita Portuguesa tinha cerca de 50 mil homens armados e tinha aviação. Seria extremamente temerário fazer as eleições com data, hora e local marcados nesta zona. Isso já diz tudo. Depois há as declarações do então governador e chefe das forças armas da Guiné-Portuguesa, Bettencourt Rodrigues, que disse que durante todo esse dia aviões e helicópteros percorreram toda a zona de Madina do Boé. Acredite se quiser, mas é logico que sabendo de antemão da hora e local da proclamação, que os portugueses fizessem isso. Não digo mais nada. Cada um que tire as suas conclusões. Pronto, ficou para a história Madina do Boé, mas é um mito. Mário de Andrade explica isso muito bem. Como se diz, uma mentira contada mil vezes passa a ser verdade.  

Os factos que traz no livro podem estragar a festa da celebração dos 40 anos de independência?
Acho que não, pode ser tomado com um presente na decorrência dos 40 anos da independência nacional. Podia ser pretensão a mais minha, mas se alguém achar que o livro pode ser considerado dentro desse âmbito que o faça, mas considero pouco provável. Em todo o caso a ideia não é estragar a festa, mas se calhar fazer a festa com verdade. Não sou detentor de verdades absolutas, por isso trago sempre no livro o ponto e o contraponto. Poderá haver mais, mas é preciso fazer este exercício para que se chegue a uma plataforma de entendimento. Além disso, é preciso pacificarmos com a nossa história






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 



 

 
 

Livro/Catálogo "CASA DA MEMÓRIA - Objectos e memórias"

sábado, 28 de novembro de 2015
Decorreu recentemente, a apresentação da obra acima referida, numa das salas da Biblioteca Nacional, na cidade da Praia e posteriormente no Pátio da Casa da Memória em S. Filipe, no Fogo. Mindelo, será o terceiro palco dessa apresentação.

O livro é a um tempo a ilustração - via  imagens e  textos - do espólio da Casa da Memória e na decorrência, insere e descreve a história da ilha do Fogo ao longo dos séculos.
A Casa da Memória (epónimo  significativo  de memória permanecida nos objectos) tem vindo de há duas décadas da sua existência, a ganhar espaço e prestígio enquanto projecto cultural.

Primeiro, na cidade de São Filipe, na ilha do Fogo e depois, um pouco por todas as ilhas de Cabo Verde. É também já reconhecida internacionalmente pelos seus muitos visitantes, turistas estrangeiros que demandam a ilha do vulcão.
 
Por estas razões, tornou-se numa visita incontornável e obrigatória para quem pise o solo foguense.

Mas falar  da Casa da Memória é falar também de uma instituição de natureza cultural, etnográfica, pioneira na preservação – através de objectos – da memória histórica e social do modo de vida dos antigos moradores dos sobrados, casario, cuja traça arquitectónica belíssima, distingue e particulariza a cidade de São Filipe.
O seu núcleo museológico é composto por um recheio de casas de outrora da cidade de S. Filipe. Casas assobradadas, residências da classe social mais abastada da ilha. Desde a casa-de-jantar, passando ao quarto de dormir, ao qual não falta o Oratório, e indo até à cozinha com o seu trem de antanho, e ao quintal com o pilão, o balaio, e o grande moinho de pedra, estes últimos utensílios domésticos, comuns às casas de todas as classes sociais (do sobrado ao funco); o visitante percorre o interior de várias casas da época antiga da cidade, através do modelo visitado.

Interessante também é visitar os livros, a biblioteca antiga como parte do espólio caseiro de algumas famílias antigas e gradas da ilha do vulcão.
Seria bom não esquecer, que a cidade de São Filipe foi habitada (os seus sobrados) desde os primórdios do seu povoamento, por uma espécie de classe social alta, composta por homens e por mulheres, donos de terras de café e de sequeiro e que muitos deles eram ao mesmo tempo, comerciantes e armadores de barcos. Com efeito, tinham a postura de verdadeiros senhores e terra-tenentes da época. Eles dominavam o funcionalismo e as chefias da administração local, porque também portadores de maior literacia.

O seu largo pátio, é um espaço que acolhe também conferências, palestras, oficinas de trabalho, visitas de estudantes e projecta filmes ditos de “qualidade,” entre outras actividades que promove, tendo como denominador comum, pensar o enriquecimento cultural dos cidadãos de uma ilha que hodiernamente anda bem necessitada disso.
Quando se visita a casa museológica que é a Casa da Memória, faz-se como que uma retrospectiva no tempo e no espaço, pois que somos transportados para épocas remotas e para, diria, uma quase intimidade das famílias gradas da ilha.

Chegou o momento de falar da mentora e autora deste arrojado projecto e a principal responsável pelo aparecimento da oportuna e necessária obra: Monique Widmer, uma cidadã suiça e cabo-verdiana de afectos e de sentimentos que escolheu a ilha do Fogo para dela fazer também sua terra estimada. Disponibilizou parte das suas poupanças pessoais e  tem-se dedicado  ao serviço desta nobre causa.
Manda a verdade e é de inteira justiça realçar o papel de coadjuvante notável de Gilda Marta Vasconcelos Barbosa, foguense de gema , cuja família e familiares dispensaram para a Casa da Memória, parte significativa do recheio de casa  nela exposta.

As duas, conjuntamente, têm vindo a trabalhar para que o rico espólio – ilustrativo do interior de um sobrado – que hoje o visitante desfruta e reconhece quando entra na Casa da Memória, seja uma realidade visível e que perdure a bem da memória histórica e social da ilha do Fogo.
Afinal, a Casa da Memória pelo simbolismo histórico que encerra, pela memória que guarda de séculos da vivência social, doméstica, reflectida nos objectos que expõe, constitui na actualidade, um ponto deveras interessante e a não perder, no roteiro de quem visite a cidade de São Filipe.

MULHERES DE PANO PRETO - Texto de apresentação

domingo, 22 de novembro de 2015
Por: Manuela Letria Silva

Enquadramento e resumo da obra.
Trata-se de uma obra de ficção de feição historiográfica, contada num estilo vivo e espontâneo, em tom coloquial, próprio das atmosferas familiares de onde brota toda a intriga. Situa-se entre o romance e o drama histórico. Bem delimitado no espaço e no tempo, num acto de comprometimento o autor traz ao nosso convívio um testemunho sobre certos aspectos da história da nossa época.

Cito logo na 1ª linha do capítulo 1 “ a minha narrativa situa-se no período que medeia entre a criação do Liceu Honório Barreto e a Independência nacional ou um pouco mais – o rompimento do polémico processo da unidade Guiné Cabo-Verde. Trata-se de uma história apenas singular, naquilo que é individual e paradigmático para grande parte dos casais da época sujeitos às circunstâncias sociais e aos momentos históricos que se viviam”
Sob o signo da pedagogia cultural, convido-vos a mergulhar comigo no universo de “Mulheres de Pano Preto”, seguindo estas mulheres heróicas que acompanham o narrador e espicaçam as outras personagens a contar a história desse período, naquilo que tinha de mais enigmático.

O romance abre com o conhecimento travado entre Alice e Tomás, ainda nos bancos da escola, segue os seus desenvolvimentos normais, por vezes conturbado com a prisão arbitrária do marido, vencem todas as vicissitudes e quando tudo parecia ter contornos de final feliz, fecha de forma dramática com o anúncio da hipotética separação do casal, na sequência de uma cena de ciúmes, situação injusta para esta mulher de pano preto, vítima de humilhação e assédio sexual por parte dos algozes do poder. Com firmeza e determinação, na sua fragilidade tudo fez para não cair nas malhas do leão. Por ironia do destino, salva pelo filho que na sua ingenuidade a entrega ao pai sob capa de adultério.
Através da rememoração da adolescência, o narrador revisita espaços que marcaram esta fase tão importante da vida de todos; espaços onde a ficção concorre com a realidade, Liceu Honório Barreto, Praça do Império, de entre outros, espaços emblemáticos que povoam o imaginário do narrador e das demais personagens, viveiro onde germinaram as primeiras e verdadeiras amizades, relatadas em histórias de vida, através de personagens tão fiéis à sua realidade, que interagem com tanta naturalidade em estilo coloquial, com tanta verosimilhança, como é próprio de quadros realistas que acabam por estimular a emoção do leitor que se vê mergulhado na ilusão da referencialidade. Porém, este quadro altera-se drasticamente com a chegada dos guerrilheiros do PAIGC.

Os espaços onde se movimentam as personagens estão bem delimitados, em dois momentos distintos na narrativa, na Guiné, antes de 74, em Portugal, com a partida de alguns destes jovens para prosseguir os estudos ou na emigração, e na Guiné Bissau, pós 74/75, nos mesmos espaços, mas os contornos da intriga mudam drasticamente, a alegria contagiante de outrora, a esperança eivada nos discursos de celebração da independência cedem lugar à decepção e ao desânimo, a ponto de alguns equacionarem a hipótese do exílio como solução.
A história da Guiné e por arrastamento, a de Cabo Verde é apresentada nesses dois momentos fundamentais, protagonizada alternadamente pelo narrador e pelas perspicazes personagens femininas, preocupadas em desmistificar dogmas em torno de fenómenos que lhes inquietavam, através de insistentes indagações, para por vezes retirar a ferro informações consideradas tabu, como era o exemplo paradigmático o processo da Unidade Guiné Cabo Verde, tratado com alguma reserva e secretismo, não lhes custasse o preço da liberdade.

Do rol das personagens que se movem nesses espaços, destaca-se o casal Alice e Tomás e o casal amigo Pedro e Helena, sendo os primeiros, protagonistas que desempenham um papel primordial na narrativa, em torno dos quais se desenrola toda a intriga. Primeiro em Portugal, para onde se deslocaram muito cedo para prosseguir os estudos e depois na Guiné dos pós 25 de Abril, para participar no processo de Reconstrução Nacional. A casa deles, bem como a do casal amigo tanto em Portugal, como na Guiné, funcionam como espaços de acolhimento para convívios periódicos entre amigos cabo-verdianos e guineenses, constituem o cenário onde se desenrola toda a intriga. Nesses encontros de socialização em que procuravam estar sintonizados com a terra, as conversas giravam sobretudo em torno da política e da independência, temas candentes da realidade de então, a ditadura do Estado Novo, a Censura, o governo de Spínola, as melhorias que este ia introduzindo, as intervenções sociais de alguma visibilidade, o jogo de cintura para ganhar a confiança das populações, as acções da PIDE, as movimentações dos comandos militares portugueses e as da guerrilha do PAIGC, e com alguma acuidade a implantação do Partido em Cabo-Verde e o processo da Unidade Guine Cabo Verde,
No segundo momento, o do pós independência entram em cena novos protagonistas Tomás, Benjamim, Ramsés, sob o comando da arguta Sara que de Cabo-Verde, através das suas cartas a Ramsés, vai dando conta das similitudes entre a situação política dos dois países, as prisões arbitrárias, as perseguições, o medo, a intolerância. 

Normalmente, quando as introduz, o narrador descreve-as física e psicologicamente, deixando indícios que permitem ao leitor descortinar a natureza das suas intervenções.
Pode-se ser tentado a vislumbrar traços autobiográficos do autor, mas o concurso de todas as personagens, a par do narrador personagem, enquanto criaturas ficcionadas do autor textual, na apresentação (representação) deita por terra esta pretensão.

Note-se, que o próprio autor teve o cuidado de sublinhar na contra capa e cito ”por favor, não entre nem ponha ninguém nas minhas personagens ainda que lhe pareçam conhecidas ou mesmo familiares. Trata-se de um exercício de ficção e como tal, respalda-se ou apoia-se em referentes, eventualmente reais”
A história de Alice e Tomás, como tantas outras começa na adolescência, numa época em que, apesar de aceite, a convivência entre os géneros não era encorajada nem entre os mais próximos, e a submissão ao género considerado mais forte fazia escola.

Os referentes do texto, personagens como Alice e Tomás e as demais personagens, acções como os bafatórios, os encontros de socialização, a tentativa de violação da Alice, estados como a decepção generalizada de algumas personagens, as indagações sobre a implantação do PAIGC em Cabo-Verde, as formas de resistência, movimentos de resistência anteriores ao PAIGC, a nostalgia dos actores deste romance constituem objectos de ficção, isto é, não existem no mundo empírico, não são factualmente referenciáveis, constituem objectos de ficção.
Todavia, entre estes referentes figuram objectos que têm, ou tiveram, existência no mundo empírico: a Praça do Império, o Liceu Honório Barreto, O Estado Novo, a guerrilha, o totalitarismo, os movimentos de resistência anteriores ao PAIGC, o líder da UPICV, os Claridosos, os nativistas, em suma uma aproximação semântica com o mundo empírico, com os seres, as coisas, os eventos, os sistemas de crenças e convicções, as ideologias, existentes no mundo empírico, É um processo natural porque a literatura germina no seu contexto existencial, de onde brota e se revitaliza.

Aliás, tem sido considerado um contra senso tentar divorciar as ideologias da autonomia semântica do texto literário, porque “as ideologias são um elemento integrante dos signos, das regras e das convenções dos sistemas semióticos culturais.”
A  pseudo-referencialidade não anula a referencialidade do mundo empírico. Trata-se de uma realidade fundada não na correspondência real, mas na modelização, (entenda-se trabalho do criador) desse mundo do homem e da experiencia vital.

Pela própria especificidade do código de textos desta natureza, vivenciamos o convívio e coexistência natural entre personagens e acções puramente ficcionais com personagens e factos que tiveram de facto existência histórica.
A verdade está no texto enunciado, isto é, não denota factos acontecidos no mundo actual e historicamente verídicos, não existiu no mundo empírico, porém, tudo é verdadeiro no mundo possível criado pelo texto literário, é verdade do narrador.

Apesar de o autor ter optado pela apresentação de episódios mais ou menos independentes, e da complexidade da intriga com vários episódios entrelaçados, a unidade da acção é assegurada pela observância cronológica dos factos, em torno da acção principal que congrega a si as histórias paralelas; os episódios e as evocações fluem-se e encadeiam-se naturalmente, garantindo a articulação lógica entre si, num desfecho dramático cuja solução fica em ‘suspense’, com a hipotética separação do casal e a manutenção da atmosfera e cor local que empresta o título ao romance ”Mulheres de Pano Preto”,
Pelo seu valor documental e pelas reflexões que suscita é uma obra cuja leitura se impõe.
 
 
Fonte – Víctor Manuel de Aguiar e Silva, Ficcionalidade e Semântica do Texto Literário, Teoria da Literatura, 8ª ed. pág. 639 a 647.

A propósito da beleza natural de Santo Antâo...

domingo, 15 de novembro de 2015


 

Fontainhas. Cabo Verde
 Santo Antão.
 
 
Parte inferior do formulár 
Recebi do nosso amigo, Rui Jorge Baptista, Geólogo de formação que veio com a mulher, Fernanda Leite, engenheira de Minas, conhecer a ilha das montanhas. A impressão captada é de que, Santo Antão é a ilha mais importante e bela em “potencial natural” dada a “paisagem envolvente.
 
Creio que como ele, muitos dos nossos leitores comungam da ideia de que Santo Antão é a ilha do nosso pequeno Arquipélago aquela que mais impressiona e fascina pela  imponência e pela força telúrica com que a mãe natureza a dotou. Tomo a liberdade de aqui e logo a seguir, transcrever a carta que ele tão gentilmente nos enviou:
 
 
“(...) como te dissemos Santo Antão é efetivamente uma ilha que muito nos impressionou, 
 
Tem quase todas as condições para ser a ilha mais importante do arquipélago, mas no tempo de outra tecnologia a falta de condições para ter um porto de mar  fez com que fosse menos ocupada, aproveitada e desenvolvida. 
 
Mas  das quatro ilhas que já visitámos em CV esta foi até agora a que maior potencial natural nos pareceu reunir e que com algum investimento mais poderá crescer. 
Mas também reconheço que esta impressão se baseia em primeiras impressões, nem sempre muito baseadas nem muito refletidas, sendo portanto uma primeira análise sujeita a reconsiderações.
 
Mas se a paisagem e a envolvente nos impressionou, mais ainda me marcou a capacidade de um povo que soube adaptar-se às condições naturais e procurou arrumar a casa onde se instalou para criar condições de vida ainda que por vezes muito carenciadas. 
 
Das que vimos a aldeia que mais me impressionou, talvez pela sua envolvente geográfica foi a aldeia de ALTO MIRA.  
 
A geografica local é impressionante com relevos alcantilados, com as rochas vulcânicas cineriticas, mais macias, suportadas por uma rede de filões mais resistentes que atuando como contrafortes sobressaem nos altos, apontando aos céus e que proporcionam uma paisagem simplesmente maravilhosa. 
 
A conjugação destes relevos altos e a presença de formações rochosas mais alteráveis proporcionam condições para haver um abaixamento de temperaturas nos altos que propiciam condensação das humidades maritimas e causam uma maior precipitação a qual favorece o desenvolvimento de solos. Devido à morfologia e ao regime de precipitação por vezes muito concentrado o solos poderão ter tendência para serem arrastados para os vales e para o mar quando ocorrerem as chuvadas mais intensas que sendo fonte de vida são também agentes da erosão e da destruição.
 
Mas o povo que ocupou a ilha soube com o seu suor criar condições para minimizar e domar os efeitos dos agentes naturais construindo sistemas de suporte de terras e contenção de água. E isso é bem visível nos enormes muros de suporte que protegem estreitas faixas de solo, insistente e repetidamente cultivado, e que são preparadas nos tempos mais secos para que quando a chuva vier haja já nelas sementes prontas a germinar. 
 
Junto duas  fotos que tirei. 
 
Não serão grandes peças fotográficas mas são demonstrativas do que acabei de dizer. 
 
Por um lado mostra o povo preparando os solos e semeando porque como lá diziam, em breve iria chover e as sementes já teriam de estar na terra, para não perderem tempo no seu desenvolvimento.
 
Por outro lado mostram todo o trabalho que foi necessário fazer  para que efetivamente cada palmo de terra fosse  conquistado e protegido.”

 
 
 

Mulheres de Pano Preto de A. Ferreira

sábado, 7 de novembro de 2015

- uma leitura –
Eis um romance histórico que nos traz de volta sob forma, a um tempo, ficcionada e documental, os acontecimentos mais relevantes, mais marcantes que configuraram o imediatamente antes e alguns anos após, as sagas das independências da Guiné e de Cabo Verde.
Na minha opinião a obra dispõe de duas partes interligadas embora. A saber: uma história de amor entre Alice e Tomás, tendo como cenário Bissau, a cidade linda (embora real, aqui também reside um “olhar afectivo” na descrição do narrador) e ajardinada, antes da chegada dos guerrilheiros do PAIGC. Narra igualmente a vida quotidiana dos estudantes e dos bissauenses  ao longo do tempo.
O leitor vai-se apercebendo da movimentação político-partidária do tempo, da mobilização  no meio urbano e bem forçada no interior do país. O recrudescimento das acções persecutórias da PIDE, a intensa actividade militar portuguesa e a da sua contraparte, o PAIGC; das tentativas de um desenvolvimento acelerado da Guiné, da aparente fartura resultado de uma economia de guerra; da “Guiné melhor” spinolista, entre outros factos que historicamente marcaram a época.
Em suma, é-nos dado sentir e acompanhar a rápida transformação do comportamento e das atitudes, não só  da juventude da época, mas também e sobretudo, dos habitantes da capital guineense.
A segunda parte do livro, considerei-a mais histórica, mantendo embora toda uma  estrutura romanceada, bem patente na criação e na interacção das personagens, tantos as masculinas, Tomás, Pedro, Ramsés, Benjamim, mais protagonistas, entre as demais personagens, e as personagens femininas de que adiante daremos conta em separado, dado a relevância das mesmas.
Entrámos em Cabo Verde dos anos de 1974/75  através da  abordagem - da situação social e política conturbada que então se vivia no Arquipélago – de Benjamim . É ele quem define de forma lapidar como alguns se transformaram em “heróis” e em “combatentes da liberdade da Pátria” com muita ironia de mistura. Diz  Benjamim a determinada altura: (...) “ depois do 25 de Abril tornámo-nos todos corajosos e procurámos protagonismo a todo o custo. Lançámo-nos todos à conquista de heroísmo (...)”.  E continua a sua descrição da movimentação político/partidária nas ilhas com algum sarcasmo, pois que de algum oportunismo evidente se tratava uma vez que já  não havia necessidade de mostrar “tamanho zelo” no serviço patriótico, naquele momento, dado que as FA, (Forças Armadas Portuguesas), o Movimento dos Capitães de Abril, estavam a favor da independência e em ligação amistosa  no geral, apenas e só com o PAIGC.
Mas é sobretudo nas cartas de Sara a Ramsés, que o leitor encontrará através de um certo realismo descritivo, o quadro daquilo que se passava aqui nas ilhas nas vésperas da independência e logo a seguir, com a actuação monolítica do poder recém-instalado. São peças bem articuladas dentro da obra e que sem quebrarem o ritmo da narrativa, servem de adjuvantes ao narrador, pois que com ele partilham a tarefa de contar as peripécias que  configuraram afinal, os primeiros anos do país insular.
Escreve Sara a determinada altura: “(...) pretende-se montar aqui um cenário de pós-guerra, como na Guiné-Bissau, como se aqui tivesse havido guerra que felizmente, como sabes bem, aqui não houve. Talvez para enganar a História e passar a imagem para as gerações vindouras que a luta armada também se fez em Cabo Verde. (...)”
Sara continua a missiva relatando outras e mais, de entre as turbulências aqui vividas: “(...) Houve gente expulsa. Cabo-verdianos expulsos de Cabo Verde. Quem pode compreender isto? (...) e desta forma também geram a fuga da elite cabo-verdiana... Fala-se de medidas de segurança. Segurança de quem ou contra quê?(...)
As cartas de Sara acabam por ser documentos que retratam com algum pormenor a época histórica e o tempo fundamental da narrativa, «Mulheres de Pano Preto»
Por outro lado, e subjacente às histórias contadas, há  como que  em pano de fundo e que perpassa todo o romance, o sentimento e a percepção, da violência, do despotismo e da arrogância que acompanharam a assunção do novo poder nos dois países sob égide do PAIGC.
«Mulheres de Pano Preto» a simbologia do título, o significado profundo da dor que a mulher /mãe/irmã/esposa/companheira, sente e manifesta sob formas várias. Aliás, destaca-se no romance o protagonismo das personagens femininas, Alice, Helena, Sara, entre outras, são os rostos e as vozes daquilo que o romance contém de mais lúcido e de mais assertivo em termos de opinião. São elas quem, nos convívios em casa de cada uma e através de intensos e de vivos diálogos, debatem, criticam com veemência os acontecimentos coevos ao discurso narrativo da obra, ao momento histórico por que passavam os dois países (Cabo Verde e Guiné), na vã tentativa de construção de uma unidade forçada e violenta e que se revelou inócua. São as personagens femininas que transmitem ao leitor o presente e o devir da narrativa histórica inserta no livro.

Interessante é que nos pareceu que o autor quis distinguir de forma muito clara, essa percepção mais inteligente, mais reflectida nas falas e nas análises das suas personagens femininas.
Na minha opinião  são elas que prendem e “fixam” o leitor e o fazem chegar  com interesse, ao fim do enredo deste romance/histórico.
«Mulheres de Pano Preto» de A. Ferreira, é um convite ao leitor para “viajar” ao passado recente destas ilhas e ao da vizinha Guiné e encontrar alguma explicação histórica sobre factos que nos fizeram chegar ao nosso hoje vivencial de 40 anos.
A escrita é despojada, escorreita, muito ao estilo do autor que nisso nos iniciou no seu primeiro livro publicado: «O Passaporte», em 2002.