sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

  Com a devida vénia ao autor, um dos maiores pensadores portugueses deste tempo, Professor Eduardo Lourenço, transcrevo aqui um texto de sua autoria sobre a nossa Língua comum e que me foi enviado pelo amigo e colaborador do «Coral Vermelho», Adriano Miranda Lima. Convido o leitor a lê-lo como uma meditação sábia, sobre os transcendentes e históricos processos de formação plural e diversa da Língua portuguesa. 

 

A CHAMA PLURAL

Por Eduardo Lourenço

Não se pode dizer de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que nos inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os portugueses falam, que a voz que fala os portugueses. Enquanto realidade presente ela é ao mesmo tempo histórica, contingente, herdada, em permanente transformação e trans-histórica, praticamente intemporal. Se a escutássemos bem ouviríamos nela os rumores originais da longínqua fonte sânscrita, os mais próximos da Grécia e os familiares de Roma. Juntemos-lhe algumas vozes bárbaras das muitas que assolaram a antiga Lusitânia romanizada, uns pós de arábica língua, que espanta não tenham sido mais densos, e teremos o que chamámos, com apaixonada expressão, o “tesouro do Luso”.

Na nossa Idade Média o estatuto da língua era, como o das outras falas cristãs, um “falar” sem transcendência particular. Com o Renascimento, abertura sobre o universal segundo o modelo greco-latino, paradoxalmente, os “falares” europeus tornam-se “língua”, e a língua, signo privilegiado de identidade. Nascem os discursos hagiográficos da língua nacional, da bela língua italiana para Bembo, da altiva fala castelhana para Nebrija, da polida língua francesa para Du Bellay, da nossa nobre e suave língua portuguesa para Fernão de Oliveira, Barros, António Ferreira que a converte em objecto de culto e de orgulho. Diz-me que língua falas, dir-te-ei o estatuto que tens. Nenhum destes endeusamentos ou apologias da dignidade das línguas nacionais é inocente. Fazem parte do processo histórico em que culmina o sentimento nacional.

Descobre-se que a língua não é um instrumento neutro, um contingente meio de comunicação entre os homens, mas a expressão da sua diferença. Mais do que um património, a língua é uma realidade onde o sentimento e a consciência nacional se fazem “pátria”.

Ainda vem longe o tempo em que para cada uma das línguas dominantes da cultura europeia se torne também claro que uma língua não é um dom do céu, destinado à vida eterna, mas um tesouro que deve ser defendido da usura do tempo e das pretensões das outras a ocupar os espaços sem defesa.

A língua é uma manifestação da vida e como ela em perpétua metamorfose. Não há expressão mais melancólica que a tão comum e tão pouco meditada de “língua morta”, nem maravilha maior que a da sua ocasional ressurreição. Como o universo, uma língua viva deve estar em perpétua expansão, ao menos no seu espaço interior, sob pena de se tornar ainda em vida “língua morta”. Essa vitalidade não releva apenas da mera ordem voluntarista ou do ritualismo conservador de academias ou profissionais das nobres ciências da gramática, ou da filologia. É, sobretudo, obra dos que a trabalham ou a sonham como exploradores de um continente desconhecido: romancistas, dramaturgos, poetas, sobretudo, que não apenas os que assim se chamam mas todos os que na quotidiana vida inventam sem cessar as expressões de que precisam para não se perder tempo que passa, do mundo que se renova e transfigura.

É de supor que os homens se tenham inventado como seres falantes por um acto mágico, por um “fiat” ainda hoje misterioso que cada palavra recomeça como se o fogo de hoje se ligasse ao fogo original por uma cadeia de chamas que se ateassem umas às outras. Essa magia original é ao mesmo tempo um desafio e um exorcismo. O destino de cada cultura está intimamente ligado a esses dois papéis que toda a língua encarna. As culturas que o esquecem são as que têm já, dentro de si, as primícias do seu esgotamento. Por graças da História, a língua portuguesa encontrou-se, em dado momento, em condições de elevar esse desafio, esse exorcismo conaturais a toda a fala, a exercício, quase se podia dizer, a missão vital, amalgamando como poucas o destino da sua cultura ao destino da sua língua. Essa aventura podia ter sido, como outras europeias, apenas um exemplo mais da violência colonizadora clássica. Foi também isso, mas foi algo mais e mais importante.

A celebrada alma portuguesa pelo mundo repartida, de camoniana evocação, foi, sobretudo, língua deixada pelo Mundo. Por benfazejo acaso, os portugueses, mesmo na sua hora imperial, eram demasiado fracos para “impor”, em sentido próprio, a sua língua. Que ela seja hoje a fala de um país-continente como o Brasil ou língua oficial de futuras grandes nações como Angola e Moçambique, que em insólitas paragens onde comerciantes e missionários da grande época puseram os pés, de Goa a Malaca ou a Timor, que a língua portuguesa tenha deixado ecos da sua existência, foi mais benevolência dos deuses e obra do tempo que resultado de concertada política cultural. Sob esta forma, um tal projecto seria mesmo anacrónico. Nenhum autor português, nem estrangeiro, escreveu acerca da nossa acção uma obra como “a conquista espiritual do México”, pois não tivemos nenhum México para conquistar e lusitanizar.

O derramamento, a expansão, a crioulização da nossa língua foram como a das nossas “conquistas”, obra intermitente de obreiros de acaso e ganância (da terra e do céu) mais do que premeditada “lusitanização” como nós imaginamos – porventura enganados – que terá sido a romanização do mundo antigo ou a francisação e anglicisação dos impérios francês e britânico.

Quiseram também as circunstâncias – na sua origem pouco recomendáveis – que a nossa língua europeia, em contacto com a africana escrava, se adoçasse, mais do que já é na sua versão caseira, para tomar esse ritmo aberto, sensual, indolente, do português do Brasil ou o tom nostálgico da de Cabo Verde.

A miragem imperial dissolveu-se há muito. Da nossa presença no mundo só a língua do velho recanto galaico-português ficou como elo essencial entre nós, como povo e como cultura, e as novas nações que do Brasil a Moçambique se falam e mutuamente se compreendem entre as demais… Uma língua não tem outro sujeito que aqueles que a falam, nela se falando. Ninguém é seu “proprietário”, pois ela não é objecto, mas cada falante é seu guardião, podia dizer-se a sua vestal, tão frágil coisa é, na perspectiva do tempo, a misteriosa chama de uma língua.

Mas como duvidar que a longa cadeia dos mais exemplares e ardentes dos seus guardiães, aqueles que tornaram sensível o que nela há de imponderável, de Fernão Lopes a Gil Vicente, de Camões a Vieira, de Castro Alves a Pessoa, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, ou de Baltazar Lopes a José Craveirinha, se apague ou se estiole? Houve épocas de depressiva configuração em que não era possível pensar no futuro da nossa plural e una fala portuguesa, sem alguma melancolia.

Hoje, não temos motivos para imaginar que, em prazo humanamente concebível, o seu destino seja o dos famosos versos da Tabacaria de que o tempo apagará o traço e a memória. A pluralizada língua portuguesa tem o seu lugar entre as mais faladas no Mundo. Isso não basta para que retiremos dessa constatação empírica um contentamento, no fundo, sem substância. Se contentamento é permitido, só pode ser o que resulta de imaginar que esse amplo manto de uma língua comum, referente de culturas afins ou diversas, é, apesar ou por causa da sua variedade, aquele espaço ideal onde todos quantos os acasos da História aproximou, se comunicam e se reconhecem na sua particularidade partilhada. Não seria pequeno milagre num Mundo que sonha com a unidade sem alcançar outra coisa que o seu doloroso simulacro.

 

 

Eduardo Lourenço, ensaísta, professor universitário e filósofo, usa da palavra durante a cerimónia de entrega do Prémio Pessoa 2011, 14 de maio de 2012 em Lisboa.

 

Eduardo Lourenço (São Pedro de Rio Seco, 1923) é um professor e filósofo português. Entre 1953 e 1965, foi leitor de Cultura Portuguesa na Alemanha e em França. Começou como maître assistant na Universidade de Nice, até que se tornou jubilado pela mesma, em 1988. Em 1989, assumiu funções como conselheiro cultural junto da Embaixada Portuguesa em Roma e, desde 1999, ocupa o cargo de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Ganhou o Prémio Pessoa em 2011.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

 
 
 
Caro Leitor, perca uns minutos do seu tempo e leia este belíssimo texto de apresentação do livro de A. Ferreira, "Mulheres de Pano Preto" por Maria Odette Pinheiro no Salão Nobre da Câmara Municipal de S. Vicente.
 Fazendo jus ao livro, o texto é também um convite a uma reflexão sobre o processo da nossa independência e sobre a nossa História recente.
                                                                                                         *****

APRESENTAÇÃO DO LIVRO “MULHERES DE PANO PRETO”

(ARMINDO FERREIRA, Edição do Autor, 2015)

São Vicente, 14 de Janeiro de 2016

                                                                -- por Maria Odette Pinheiro

Mulheres de Pano Preto, o livro que está a ser aqui apresentado, é uma obra que essencialmente descreve acontecimentos que na Guiné e em Cabo Verde tiveram lugar grosso modo entre pouco antes do 25 de Abril de 1974 e pouco depois do golpe de estado do chamado Movimento Reajustador que, a 14 de Novembro de 1980, pôs fim ao projecto da unidade Guiné-Cabo Verde.

É com muita habilidade que o Engenheiro Armindo Ferreira descreve esses acontecimentos, usando o género historiográfico da novela histórica, através do qual, usando a ficção, pela boca das suas personagens, com descrições e diálogos muito bem conseguidos e de agradável leitura, vai contando e interpretando os eventos, os quais tiveram consequências determinantes na vida das populações tanto da Guiné como de Cabo Verde.

Nascido na Guiné, filho de pai caboverdiano e mãe guineense, o autor fez os estudos liceais parcialmente na Guiné e parcialmente em Cabo Verde, e os superiores em Portugal. Conhecedor destes três países, viveu e trabalhou na Guiné durante grande parte dos acontecimentos descritos, mantendo com Cabo Verde um contacto mais ou menos estreito através de laços familiares.

É assim que as suas personagens ficcionais se encontram bem posicionadas para nos informar acerca do que aconteceu nesse período, descrevendo com maior ou menor vivacidade a atmosfera da época, os sonhos e as esperanças, as quase certezas; mas, também, desfazendo mitos e apontando as incoerências, lembrando os atropelos aos direitos humanos, o sofrimento de tantos nas duas nações em que o Estado esteve dominado pelo mesmo partido único; desmistificando, assim, muito do que se tem dito ou silenciado acerca desse período

O título, Mulheres de Pano Preto, tem a ver com as viúvas guineenses e as mães enlutadas que perderam os seus filhos na esperança da liberdade, durante a luta da independência; mulheres imortalizadas no poema de Armando Salvaterra, cantado pelo artista guineense José Carlos Schwarz, Mindjeres di Pano Preto.

São mulheres que, segundo as personagens do livro, sofreram duplamente: primeiro, pelos horrores da guerra que lhes levou os seus entes queridos; depois, por terem sido traídas nas promessas de dias melhores, pelas quais a independência da Guiné acabaria com a opressão; e que a liberdade longamente sonhada seria finalmente alcançada; e que da luta surgiria o tão propalado homem novo: um homem abnegado e desinteressado, que poria o interesse do seu povo acima de todos os outros interesses, para trazer à Guiné a almejada paz e o progresso na igualdade e no respeito pelos direitos de todos os seus filhos.

Na página 120 é-nos dito que quando os altos dirigentes do PAIGC chegaram a Bissau, e fizeram o primeiro comício, “a população estivera radiante e transbordante de júbilo… Houve pessoas que choraram de contentamento, outras abraçavam-se e formulavam certezas num amanhã de progresso e de desenvolvimento; e risonho para as gerações vindouras. Uma nova era e uma nova esperança acabavam de ser anunciadas e, para muitos, de nascer para todos os guineenses”.

Mas, bem ao contrário, as mulheres de pano preto, à semelhança de muitos outros homens e mulheres, despertaram abruptamente do seu sonho e viram-se privadas daquilo por que tanto haviam ansiado. Encontraram-se desencantadas, ameaçadas, sem as liberdades mais elementares, desrespeitadas, violentadas, numa atmosfera de medo, quase pavor, esperando a hora em que lhes poderiam bater à porta para levar novos entes queridos, muitas vezes ao encontro duma morte clandestina, sem direito a julgamento, funeral ou campa.

A cena desenvolve-se principalmente na Guiné, começando à volta de um grupo de alunos do liceu Honório Barreto, que viviam ainda uma adolescência descuidada e ensaiavam timidamente os primeiros namoricos.

Cabo Verde é o cenário alternativo, pois acontecimentos que cá tiveram lugar são também contados, embora de modo indirecto, através de cartas ou das visitas de familiares que viviam nestas ilhas, mantendo, a família e os amigos na Guiné a par do que por cá ia acontecendo.

Parte do enredo passa-se, também, em Portugal, já que, como era vulgar acontecer, alguns dos protagonistas foram para lá prosseguir os estudos, e lá ficaram a viver. Alice e Tomás, personagens principais, mais outros ligados a eles pela amizade dos bancos do liceu, então já formados e a trabalhar, são apanhados pelo 25 de Abril na então metrópole. E como tantos caboverdianos e guineenses fizeram no após 25 de Abril, acorreram pressurosos, com a esperança de que seriam uma mais-valia para a reconstrução da sua terra, agora em liberdade e com igualdade de todos os cidadãos.

Dizem-nos na pág. 117 que, todos os que assim faziam, “faziam-no absolutamente convencidos de que o mérito e o conhecimento prevaleceriam sobre o diploma ou estatuto de combatente. Estavam dispostos a largar tudo e voltar à terra, em atitude generosa que consideravam prioritária face aos seus projectos pessoais, para dar o seu melhor perante aquilo que achavam serem as necessidades do país em recursos humanos ante a almejada gigantesca tarefa de reconstrução nacional”. Tomás e Alice nunca imaginaram quanto se arrependeriam mais tarde, com a prisão arbitrária de Tomás e acontecimentos bem graves que puseram em risco o seu casamento!

Infelizmente, em todos os tempos a História (com H maiúsculo) é escrita e contada da perspectiva dos vencedores. Há uma verdade oficial que impera e tende a perdurar, raramente contestada. Frequentemente os vencidos são silenciados ou a sua voz perde-se no esquecimento até da geração presente, quanto mais das gerações futuras; ficam, aqui e ali, só vozes tenuemente ouvidas através de registos esparsos dos que teimaram em não se calar e em continuar a contar a verdade que viveram, ou viram viver, e que difere bastante da perspectiva linda e triunfante dos que venceram.

Este é o mérito de Mulheres de Pano Preto. Conta a outra metade da verdade, da história de todos nós, da independência, para que ela não seja monocórdica ou fique unilateral; para que apresente os diversos aspectos, muitas vezes contraditórios: uma história feita, é verdade, de sacrifício e abnegação da parte de milhares de guineenses e poucas dezenas de caboverdianos que na Guiné lutaram pela independência dessa colónia, esperando conseguir a reboque a de Cabo Verde; uma guerra em que houve glória, mas também contradições e horrores, em que muitas vezes a praxis se desviou profundamente, quase que posso dizer, opostamente, ao que era anunciado; o que talvez se possa justificar por serem assim as guerras.

Mas a guerra acabou. E os portugueses partiram. E o que se seguiu foi decididamente não glorioso, pois os combatentes escolheram cobrar dos respectivos povos um juro e um capital excessivos pelo que haviam investido na luta, coartando-lhes a liberdade, proclamando-se únicos interlocutores legítimos na decisão do seu destino e, mais pronunciadamente na Guiné, arvorando-se em senhores da vida e da morte dos seus “súbditos”, como nas monarquias absolutas da Europa dos tempos de antanho!

Somos lembrados das prisões sem culpa formada e por tempo indeterminado, dum e doutro lado do mar, em celas insalubres e conspurcadas com esterco, sem direito a advogado, a alimentação e a visitas, esperando o dia em que os algozes resolvessem soltar os presos e devolvê-los à liberdade. Aliás, liberdade, não – pois liberdade não rima com mordaça. Aprisionem o ser humano no seu corpo, mas não lhe aprisionem a alma: não lhe roubem a liberdade de pensar e de se exprimir, de ser ele próprio, de escolher o seu destino, o que talvez seja o pior dos sofrimentos!

Mas nessa época, ambos os tipos de liberdade eram bastante condicionados, e o livro reflecte isto bem: falar não se podia, pois havia delatores por todos os lados; e para alguém se deslocar para fora de Bissau, ou para sair da Guiné e de Cabo Verde, precisava de uma autorização de saída, que era negada ou dificultada a muitos, conforme estivessem ou não nas boas graças dos dominadores. Personas non gratas eram impedidas de sair, e alguns foram-no, mesmo de Cabo Verde, até para continuar os estudos; outros foram metidos num avião, sem aviso prévio, e obrigados a aportar a outras paragens: desterrados da sua própria terra.

Pelo livro, se ainda não sabíamos, somos informados dos fuzilamentos dos comandos africanos: milhares e milhares de soldados guineenses que lutaram do lado das tropas portuguesas, e que mesmo depois de desarmados voluntariamente ao abrigo de falsas garantias, foram raptados na noite para nunca mais serem vistos, caindo em valas comuns mercê das balas de pelotões de fuzilamento: eles e muitos civis. Desapareceram sem deixar rasto. Houve também fuzilamentos públicos, aos quais a população foi conclamada a assistir – até crianças! Foi então que, página 299, assistindo ao que se passava na sua Guiné, as mulheres de pano preto, as mulheres grandes da Guiné, “puseram as mãos na cabeça e gritaram bem alto a sua profunda dor e a sua angústia”.

Assim, muitos foram como que cilindrados por não cooperarem com o partido, ou por diferirem dos seus dogmas, talvez o principal tendo sido o da unidade Guiné-Cabo Verde, acerca da qual os povos dos dois Estados nada puderam dizer, e que tanto dum lado como doutro era motivo de forte contestação.

É possível que em Cabo Verde na altura não se tivesse a noção exacta do quanto os próprios guineenses eram opostos a esse projecto, o da unidade, mas os diálogos do livro são esclarecedores. Viam-no como um modo de os cabo-verdianos eternizarem a dominação dos guineenses, o que era a sua interpretação do papel que os nossos patrícios, devido à sua maior escolaridade, desempenhavam na administração colonial, sempre em posições de mando ao lado dos portugueses; além de que, outrora, a Guiné fora um distrito administrativo do Governo de Cabo Verde; e ainda outros antecedentes mais negativos, como a Guerra da Pacificação, em que soldados caboverdianos haviam sido utilizados para submeterem os guineenses; para cúmulo, na guerra da independência os caboverdianos eram a cúpula, tendo morrido pouquíssimos em combate – enquanto os guineenses seguiam para as frentes da batalha e morriam às centenas, morrendo também aos milhares a população civil, que era dizimada pelos bombardeamentos – não tendo morrido ninguém em solo caboverdiano.

Mas a questão da unidade era tabu, não podia ser discutida nem contrariada, nem sequer em Cabo Verde, onde havia argumentos contra muito válidos. Quem se opusesse à unidade era inimigo do partido. E muitos dos que sofreram prisões e perseguições várias, tanto na Guiné como em Cabo Verde, sofreram-nas porque foram veementemente contrários a esse projecto. Mas o futuro veio a dar-lhes mais que razão: era uma unidade tão artificial, que sensatos eram os que se lhe opuseram.

Quanto a Cabo Verde, onde não houvera luta armada, com a independência de todas as colónias garantida por Portugal na nova Lei Constitucional de Julho de 1974 e a nossa especificamente estipulada no acordo de Argel de 29 de Agosto do mesmo ano, a transição para a independência poderia ter-se dado com serenidade, reflexão e sem clivagens sociais. O acordo de Argel afirmava que “a delegação portuguesa, em nome do seu governo, reafirma o direito do povo de Cabo Verde à autodeterminação e independência, e garante a efectivação desse direito”.

Mas a agenda do partido, como o livro torna bem claro, não era simplesmente levar Cabo Verde à independência (como também não o era para a Guiné). Para ambos os territórios o objectivo era instalar o regime totalitário que se seguiu, sobre a égide do partido único de orientação marxista-leninista, regido pelos que combateram na Guiné e mais uns poucos que concordavam com a sua orientação ideológica.

Essa agenda requeria que se instalasse um clima revolucionário que legitimasse a imediata entrega do poder, que não desse lugar a quaisquer reflexões e em que se pudesse subjugar todas as correntes contrárias. Esse clima, quase estado de sítio, é evidente nos diálogos e nas cartas trocadas pelos personagens do livro: milícias populares armadas a patrulhar as ruas, barreiras nas estradas para procurar armas imaginadas (numa terra em que sob Portugal a população nunca teve armas!), tomada das rádios para passar só a mensagem revolucionária, insultos gritados e escritos nas paredes das casas, prisões arbitrárias sob acusações nebulosas ou desprovidas de fundamento, pessoas exiladas. Todos os que poderiam ter uma voz discordante foram silenciados e amedrontados, de modo que a Assembleia Nacional Popular que declarou a independência e passou a reger o país sob a batuta do partido, tinha 100% de deputados que o apoiavam.

Implantou-se, assim, um regime opressivo e autoritário, que atrasou de muitos anos a chegada da democracia e o desenvolvimento mais acelerado dos dois Estados. E ao causar fracturas profundas, das quais ainda não conseguimos recuperar, e ao destruir a camada mais lúcida e preparada da sociedade civil, criou um estado de apatia e desmotivação e uma dependência do Estado, que Cabo Verde ainda não conseguiu sacudir.

Mulheres de Pano Preto contribui também para desmistificar duas falsidades que continuam a imperar entre nós: a primeira, que quem não estava de acordo com o partido era contra a independência, especialmente, como já vimos, quem estivesse contra a unidade Guiné-Cabo Verde, caso da UPICV, partido com maior implantação em Santiago, e que foi desmantelado pela força, pela prisão e desterro dos seus líderes.

A segunda falsidade: que aqueles que pediam alguma reflexão, e um tempo mais alargado de transição, para se poder equacionar o problema da autossuficiência de Cabo Verde e da sobrevivência do povo, até então vitimado pelas secas e pelas fomes, eram, igualmente, contra a independência. Foi o caso da UDC, tentando a sua implantação em São Vicente, que queria uma transição mais alargada e reflectida, equacionando todas as alternativas. Nunca desejaram que tudo continuasse na mesma, como tanto se faz crer. Estas duas falsidades ainda hoje são esgrimidas por alguns, para justificarem os desmandos de então.

Além dos que eu tenho mencionado, Mulheres de Pano Preto é decididamente um livro que ajuda a esclarecer muitos outros factos desse tempo determinante na nossa história, sendo portanto de leitura obrigatória para os que quiserem ser bem informados.

Se me permitem, terminarei com uma palavra pessoal, já que o lançamento do livro foi integrado nas comemorações desta semana, entre o 13 e o 20 de Janeiro, duas datas tão importantes para nós. Os meus comentários não têm o fito de reabrir feridas mal cicatrizadas ou de acirrar ódios e malquerenças meio adormecidos. Mas precisamos, sim, de encontrar um equilíbrio, em que, dando o verdadeiro valor à independência, se reconhece que ela poderia ter sido alcançada noutro clima e por outras vias que não a da clivagem social, a destruição das elites caboverdianas e do sofrimento desnecessário de tantos homens e mulheres que não se reviam na ideologia e nos dogmas do PAICV. Poderíamos ter sido livres em 1975! Poderíamos ter tido eleições multipartidárias e um regime aberto. Até porque os 15 anos de partido único nada fizeram para amadurecer o povo politicamente. Pelo contrário! O amadurecimento só pode acontecer em liberdade!

Assim, recordar o outro lado tem o mérito de ajudar a suster um certo triunfalismo dos vencedores e a excessiva cultura dos heróis, trazendo-os a um nível mais terra-a-terra, de homens corajosos, sim, mas que cometeram os seus erros, e alguns bem crassos: fizeram bem, mas à mistura houve muito mal e sofrimento desnecessário.

Bom seria que os que causaram tal sofrimento o reconhecessem, tivessem um pouco de humildade e até pedissem perdão aos que foram feridos pelo caminho, o que os elevaria moralmente e ajudaria a sarar as chagas que abriram. Na ausência disso, peçamos a Deus que, embora não esquecendo o passado, saibamos todos construir um futuro melhor: futuro que só pode ser bem construído quando nos livramos das mágoas e dos ressentimentos, quando estes já não nos afectarem a ponto de determinarem o nosso comportamento e nos fazerem desviar da construção de um País de paz e concórdia.

Mulheres de Pano Preto contribuirá, decerto, para que um dia, quando com o devido distanciamento se escrever a verdadeira história, ela não seja silenciosa quanto ao sofrimento dos vencidos, mas seja uma história equilibrada, que considera todas as perspectivas. Então, talvez, algum sábio conte aos seus netos que a bandeira custou em mais do que uma maneira.

Bem-haja a independência, mesmo com os custos que teve, e bem-haja o 13 de Janeiro, que foi a verdadeira libertação desta terra. Quanto à abertura, eu teria também algo a dizer. Mas isto seria outra história!

Por favor, leiam o livro!

                                                         

 

"Ler é poder mais..."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Um texto sempre oportuno e bem-vindo à causa da Leitura!
Com a devida vénia ao seu autor, permito-me  aqui transcrevê-lo. Merece ser amplamente divulgado.
É minha convicção que entre nós se ressente de forma alarmante e, por vezes, muito constrangedora da falta de leituras, de uma informação cuidada e verificada. Já não falo só da questão dos nossos alunos. Refiro-me igualmente  e sobretudo, a gente responsável, professores, jornalistas, historiadores, entre outros altos quadros que nos representam e governam e que falam em público, sem leituras feitas, sem que tenham dados históricos devidos e minímamente  cruzados e verificados. Enfim, e numa palavra: sem cultura. Torna-se doloroso e penoso, escutá-los.
Daí este magnífico texto do Pediatra português, Mário Cordeiro, publicado na revista Visão, nº 1189, de 17 de Dezembro de 2015, que nos apela a ler, pois que “Ler é poder mais”.
Eu acredito que sim!
 

 

 Ler é poder mais

Mário Cordeiro*

Os livros são memória colectiva, espaço de liberdade e uma fronteira civilizacional. É o aparecimento da escrita que define a passagem da pré-História para a História. Tirando excepções, a literatura esteve ao lado da democracia, do livre pensamento e da dignificação do ser humano, mesmo que para contar uma simples história, relatar vivências ou expressar ideias e sentimentos como na poesia.

Antes da escrita havia a tradição oral, de geração para geração, mas adulterando-se e perdendo pormenores, em função do tempo, das recordações e também dos interesses e juízos de valor do narrador. Os livros vieram estruturar a palavra e sedimenta-la, perpetuando-a.

Ler é, também, um espaço. Um espaço de tranquilidade, que se pode rever, controlar, que exige dedicação e que permite retomar o tempo do Homem, o tempo do Tempo, a parte endorfínica da nossa vida. Ler é ver, mexer, sentir, cheirar, parar o Tempo e saborear.

Quem lê, escreve melhor, fala melhor e será, seguramente, uma pessoa  mais estruturada, sabedora e livre.

É ideia geral que as crianças cada vez leem menos. Provavelmente será verdade, sobretudo se restringirmos o verbo “ler” à leitura de livros que não os da escola, os de informação “pura e dura”, ou os epifenómenos (e isto não é um juízo de valor) como O Diário de… ou qualquer outro bestseller de vida tão esporádica quanto efémera.

Os livros e a leitura são espaços de recreação, de calma, tranquilidade, exploração táctil e olfativa, que dão o prazer de folhear, pousar e reflectir, parar e pensar, imaginar, criar cenários, usar a experiência pessoal para entender o conteúdo e esse privilégio a ser cilindrado pelos ecrãs e pela falsa comunicação dos “cem mil amigos” das redes sociais, como se essa interacção não passasse de pobre, limitada e mentirosa.

Os actuais pais já não pertencem a uma geração com hábitos de leitura, seja por falta de tempo e cansaço, seja porque preferem diversões que exigem menos das “células cinzentas”, como televisão, internet ou revistas “cor-de-rosa”.

A própria sociedade volta as costas aos livros. Compram-se menos, oferecem-se menos, usam-se menos. Numa sociedade que exige tudo à la minute, que usa e deita fora, que desperdiça, claro que os livros, como símbolo da calma, do tempo, do voltar atrás e (re)saborear certas passagens, não poderiam estar na moda. É impossível uma página escrita competir com um ecrã. É utopia querer que o ritmo de um romance combata de igual para igual a acção de um filme ou de uma série televisiva.

As crianças habituaram-se a hábitos de leitura praticamente nulos. Na própria Escola, os manuais de ensino são user friendly, interactivos, recheados de figuras, desenhos e fotografias, reduzindo texto quase a zero. Compreende-se do ponto de vista didáctico e pedagógico. É mau no sentido de estimular a leitura. Quando algum professor tem a ideia “bizarra” de dar um livro a ler para depois comentar, a maioria dos alunos (e encarregados de educação) pensará: “Que seca! Que pincel!”.

É pena que a memória escrita, o mistério, o esforço de imaginação e de abstracção que a leitura de um livro representa sejam considerados “incómodos” que só se farão por obrigação. A realidade virtual substitui algumas funções do cérebro humano. Encaro isso com grande mágoa.

Dentro de alguns anos os clássicos terão caído em desuso, amarelecerão nas prateleiras das livrarias, substituídos por histórias de mais fácil “digestão”. Os livros de aventuras e os romances que alegraram a infância de tantas gerações serão considerados obsoletos, antiquados, ridículos, na apreciação de crianças e adolescentes hipercríticos e menos tolerantes.

Todavia, podemos inverter esta tendência se, além de estimular a leitura e controlar os hábitos televisivos, dermos o exemplo e desenvolvermos nas crianças a capacidade e o talento de escrever. Escrever e ler andam a par. O vocabulário aumenta, a gramática melhora, a construção de frases torna-se mais fluida e mais coerente e uma coisa leva imediatamente à outra. Escrever. Apenas escrever, sejam diários, poemas, contos, apontamentos de viagens, o que seja.

Torna-se urgente inverter a tendência. Não há soluções mágicas. Os hábitos culturais, para se sedimentarem, sobretudo quando vão contra a “lógica” e o facilitismo do sistema, exigem esforço e tempo. Não se compram no hipermercado nem na farmácia. Depois da pré-História veio a História. Não podemos admitir que, depois desta, venha o vazio, o caos e a iliteracia. Porque virá com eles a diminuição da liberdade.

*Pediatra

 

 

E assim vai a cidade da Praia...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

 

Começámos mal o ano de 2016, com um assalto à casa da nossa filha e genro. Poupo-vos os pormenores dos objectos valiosos, para os seus donos, roubados em plena luz do dia e dos constrangimentos de quem estava em dia de embarque...

Peregrinação à Polícia de Segurança Pública, que a determinada altura, queixando nós de que eles nem se deslocam ao local do roubo para as perícias e só registam a queixa sem agir, pois já não era a primeira vez que lá íamos, respondeu-nos o Agente que atendia: “Nós não temos meios...” ou algo similar.

E assim funciona na cidade capital mais infestada de bandidos e de criminosos do país,  uma Polícia mal equipada, com respostas e argumentário altamente confrangedores, e a ter isso displicentemente como justificação para o  cidadão lesado, revoltado, que paga os seus impostos, e que espera no mínimo ter os seus bens protegidos.

A conselho amigo, rumámos depois  à Polícia judiciária onde o atendimento já foi de longe melhor. Os seus Agentes deslocaram-se à residência assaltada.

E assim vivemos nós na capital do país com medo. Dentro e fora de casa. Onde guardar os nossos pertences? Se nem em casa nossa estamos seguros? Na rua é apertar a carteira e a vida e pedir o resguardo dos altos designíos! Em casa, é estar sempre alerta e cheios de medo de eventuais assaltantes que não são tão eventuais assim. Tornaram-se numa constante certeza, infelizmente.

Esta cidade é já pertença dos bandidos. Estamos nas mãos deles. Completamente indefesos.

Se não é na nossa casa, é na casa vizinha ou, um pouco mais distante. A frequência de roubos e de assaltos deve ser já imensurável ! E se as estatísticas policiais funcionassem, teríamos alguma percepção tangível.

Enfim. É o nosso dia-a-dia!

Não há sossego! E por favor não me venham falar em qualidade de vida! Onde? Nesta cidade é que ela não existe.

Uma sugestão e um alvitre ao turista ou visitante: passem ao largo da cidade da Praia! O perigo espreita-vos em cada rua ou esquina desta cidade, com uma altíssima probabilidade de se converter em realidade.

 E outra coisa: no momento do assalto não se vê polícia por perto... e nem contem com socorro algum!

É assim a desencantada “morabeza” da Capital das ilhas...

P. S. Relevem-me caros leitores se desabafei de forma desabrida. Costumo ser contida. Mas a minha indignação está ao rubro.

 

Ano Novo, novas esperanças...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Um voto muito sincero aos prezados Leitores do «Coral Vermelho», que tenham  um novo ano repleto de saúde, de sucessos, de paz e de harmonia!
Para Cabo Verde um ano de paz e de segurança para os cidadãos. Sobretudo de renovação num quadro democrático, com programas credíveis de governação mais inteligente, mais clarividente, visando o real desenvolvimento de todas as ilhas, com especial cuidado para a camada populacional que vive na pobreza, com muito pouca literacia e, infelizmente, com muita delinquência.

De entre estes meus desejos de renovação, de verdadeira busca de alternativas, para as nossas ilhas, apoio-me  numa expressão judicativa e muito bem achada do Dr. Joaquim Saial que no seu artigo no «Terra Nova» de Novembro de 2015, e a propósito de referência feita por um pintor francês, de passagem por Mindelo, nos idos anos de 1950, sobre o grande Baltazar Lopes da Silva,focando aspectos da sua imensa cultura. Joaquim Saial termina o seu texto, dizendo: (...) Outros tempos, também de gente de alta intelectualidade das ilhas, jamais igualada no seu conjunto (...). Fim de transcrição.

Pois bem, é nesta linha de pensamento que faço igulamente votos de que Cabo Verde volte a conhecer homens e mulheres de tão alto gabarito intelectual e ético, como alguns, desse tempo de outrora aqui referido.

Boas Festas e Feliz Ano Novo!

 

Viver numa cidade insegura, é viver em risco permanente...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015
 
Será que na quadra festiva, um tempo de celebrações familiares, amigas e de harmonia se deva escrever um texto tão negativo como o que proponho escrever? Não sei, fica-me a dúvida...
Só que não consigo calar a minha indignação perante a ameaça, diária e constante que a cidadã - não importa a faixa etária - está sujeita nesta cidade da Praia, quando põe o pé na rua.
Os assaltos são frequentes ao longo do ano e crescem com particular gravidade na Quadra que atravessamos. Infelizmente a segurança policial, ou outra, não cresce em eficácia - nem de longe, nem de perto -  em igual proporção.
Observo que a polícia é imediata, quando se trata de multar um estacionamento infractor. Não discordarei. Pena é que não tenha igual presteza, quando um cidadão é assaltado em plena rua movimentada pelos mesmo carros que são por eles multados.
A verdade porém, é que nos locais, na hora, e nos momentos de assalto, nenhum polícia está por perto...
 São-nos narrados, ouvimos e assitimos em ritmo diário a episódios de roubos a residências, a lojas, de assaltos na rua. Enfim, para mal dos nossos pecados isto passou a ser conversa diária em qualquer sítio que se esteja.
Para exemplificar, narrarei um desses episódio a que assiti recentemente.. Passou-se no passeio à beira-mar  no Palmarejo, local onde, ao fim do dia, muita gente se junta para a caminhada, para a corrida vespertinas. Ora bem, uma jovem munida de  máquina fotográfica, fotogravava o mar perto e a paisagem em volta. As pessoas iam e vinham ao longo do “calçadão”. Eis que no meio disto surge um grupo de cerca de seis a oito rapazes  bandidos,  autênticas aves de rapina que se atiram de surpresa sobre a moça, quais abutres sobre a presa; ela caiu desamparada, arrancaram-lhe a câmara fotográfica e fugiram a correr à vista de todos. Tudo vi impotente embora, pois apenas pude gritar por socorro...mas de nada me valeu. A polícia chegou depois.
 Aliás, cenas como esta são diárias e de elevada frequência nas ruas e nos becos da cidade e dos bairros da Praia.  Tornaram-se numa constante e sem fim à vista. Se não são máquinas, são carteiras,  são compras, enfim, tudo que alguém transporte consigo, é-lhe arrebatado de forma violenta.
Para quando uma segurança eficaz da cidade?
Quem, em consciência, mulher, nacional, praiense, se sente segura nas ruas da cidade?
Quem em honesto pensamento, convida ou recomenda um estrangeiro amigo a visitar esta terra? É que  no momento seguinte ao convite, preocupado ficará com a segurança da pessoa amiga.
Vivemos em risco permanente nesta cidade tão insegura para os seus habitantes. As mulheres e os idosos que o digam! São as principais vítimas dos ladrões e dos bandidos.
Por vezes pergunto-me: que turistas nos visitarão? ...apenas virão uma vez e  devem jurar nunca mais cá voltar, pois que, volta e meia, são assaltados, maltratados física e psicológicamente pelos bandidos que pululam -  com um à-vontade estranhíssimo - esta cidade, capital das ilhas.
Por certo que não ficarão com vontade de recomendar Cabo Verde a ninguém mais.
Este país, cujos governantes, por um lado, tanto alarde fazem do seu turismo mas não oferecem por outro lado, algo que é vital para a sustentabilidade desse mesmo turismo, que é a segurança do cidadão residente/visitante/turista e dos seus bens.
Espero, faço votos que se conheçam proximamente no programa governativo de algum partido político, concorrente às eleições legislativas, a prioridade devida e explicitada; a política e o “modus operandi” na área da segurança em Cabo Verde, com particular acuidade para a cidade da Praia, a mais insegura do país.
 
 
 

CONTO DE NATAL CABO-VERDIANO

domingo, 20 de dezembro de 2015

MNIN ISJUS TITÁ NASCÊ NA MAR

      Adriano Miranda Lima
 
 
      Aquela tarde de 24 de Dezembro de 1951, no Mindelo, seria igual a outras, não fosse véspera de Natal. Nhô Mano descia a rua de Morguino, vindo das fraldas do Monte, a caminho da Praia de Bote, mergulhado nos seus pensamentos, quase não dando pelas pessoas que o cumprimentavam. Tinha encontro marcado no botequim Boca de Tubarão com os três companheiros que o ajudam na actividade do bote adquirido com o suor do seu trabalho. A sua experiência dizia-lhe que não podia contar com a melhor disposição deles em ir para o mar em véspera de Natal. Mas que remédio tinham eles? ─ Interrogou-se no seu íntimo. A pesca na véspera foi um fiasco, por causa da ventania que soprou, encapelando o mar, e agora tinham mesmo de ir à vida. O tempo estava de boa feição, sem vento e com mar calmo, e nhô Mano estava confiante numa boa pescaria durante a noite. Não era altura de luar e iam precisar de cafucas (1) para iluminar os trabalhos. Ainda teria de verificar se eram suficientes as pontarias de anzóis (2) que durante a manhã preparou. Mas o que o preocupava mesmo era a boa vontade dos seus companheiros em trabalhar numa altura desta. O Muxim, o mais velho dos três, nunca virava a cara ao trabalho, embora homem de pouca fala. O Fidjim raramente dizia que não, mas tinha o velho hábito de ir à Missa de Galo com a mãe dos seus filhos. O maior problema era o Lela de nhâ Lorença, o mais jovem; bom remador, sim senhor, mas refilão e pouco regular no seu procedimento, e além disso amigo do seu groguinho e da sua paródia.

       Nhô Mano passou em primeiro lugar pelo Plurim de Pêxe (3) para arranjar isco, e a seguir deu umas voltinhas pela rua da Canecadinha, onde adquiriu alguns suprimentos, incluindo petróleo para as cafucas; depois, foi ao bote ultimar os preparativos, o que sempre preferia fazer sozinho, com a sua habitual calma e meticulosidade.

       Estava já à porta do Boca de Tubarão, onde parou por momentos a olhar para o horizonte. O Sol ia a caminho da linha de cumeada de Santo Antão, e nhô Lela pensou com os seus botões que era hora de despachar e ir para o mar. No interior do botequim os 3 pescadores olharam para o patrão quando ele entrou. Não estavam lá de muito boa cara, e o Lela e nhâ Lorença disparou logo:

      ─ Ó nhô Mano, no Natal? Cmanera? (4) ─ Sem ter tempo de nhô Mano reagir, Fidjim adiantou:

      ─ Eu por acaso já tinha combinado umas coisas com a Bia.  

      O Muxim é que não abriu a boca, entretendo-se a rapar uma unha com um canivete, mesmo quando nhô Mano olhou para ele interrogativo, como que a pedir a sua opinião. Então o catraeiro respondeu:

      Mnis, sei que hoje é véspera de Natal, sim senhor, e vocês têm razão, lá isso têm. Mas já viram que ontem não pescámos nada e estamos todos quebrados (5)? Não será melhor arranjarmos um dinheirinho para amanhã podermos ter em casa ao menos um bom almocinho com a família e sentir uns trocos a mexer no bolso? Depois, essa coisa de Natal é mais para rico, não para nós. Por algum motivo o povo diz que em Cabo Verde “ramede de pobre é pobreza”, mas é claro que temos de lutar contra essa fatalidade. Vocês interessam-se lá por essa coisa de presépio, Menino Jesus, prenda de Natal? Ora, ora…

      Sem coragem para contrariar quem lhes dava a ganhar o pão do dia, lá se levantaram os pescadores, seguindo em silêncio atrás do seu patrão em direcção ao Flor da Baía, nome com que ele baptizou o bote. Com os seus 66 anos, nhô Mano ainda se apresentava com todo o vigor para as duras lidas do mar. Os músculos retesados dos seus braços compridos eram a prova de muitos anos a dar ao remo.

       Conferiram os apetrechos de pesca, numa espécie de check list que o catraeiro não dispensava. A seguir, arrastaram o bote até à água e momentos depois ele já deslizava suavemente ─ chape-chape, chape-chape ─ tomando a direcção da Ponta do Morro Branco, movido pela força dos oito braços. O silêncio em que iam foi interrompido por Lela quando ouviram alguns foguetes estralejar sobre a cidade: ─ Adé, eles estão a saudar a nossa saída, nhô Mano! Não estamos lá para festejar mas temos ao menos direito a foguete ─ riu-se soltando uma sonora gargalhada. Seguiu-se então o seguinte diálogo entre os quatro.

      ─ Eu, Mano de nhâ Ludovina, vos digo que não tem piada nenhuma festejar sem dinheiro no bolso. Nem Natal, nem São João, nem Carnaval, nem festa nenhuma. Aliás, foram poucos os natais em que não estive derriba de mar, desde que me fiz homem. A vida não é um mar de rosas, moços.

       Interveio Muxim, quebrando o seu habitual mutismo: ─ Eu também não. E não me recordo de alguma vez ter havido festa de Natal em minha casa. Só me lembro de o meu pai, que tinha manhas de funileiro, me ter feito um navio de lata bnitim. Tinha eu seis aninhos, e o meu pai copiou o modelo de um vapor inglês que estava fundeado na Baía.

      ─ Eu, brinquedo, brinquedo… nunca cheirei nenhum – disse o Lela. A não ser uma cornetinha que me deram na catequese nos Salesianos. Tinha os meus onze anos e passei o dia todo a tocar, fazendo uma trabuzana tal que a avó Tanha me mandou ir tocar para a rua...

      ─ Digo-vos que Natal, Natal, é em casa de gente branca – interrompeu-o o Fidjim – a minha mãe foi criada em casa de gente rica e lembro-me do que ela contava. E no dia de Natal aparecia sempre com coisas boas de comer que lhe davam das sobras, bolo, pudim, croquetes... Também lhe davam roupa usada em bom estado ainda.

       Os foguetes ainda se ouviam ao longe quando atingiram a Ponta do Morro Branco. Em lenta agonia, o Sol era uma imensa bola de fogo a mergulhar no mar, deixando atrás de si pinceladas de um rosa espectral, espécie de mortalha do dia que findava. Em breve cairia sobre o mar um manto escuro cada vez mais espesso, ficando como únicas referências visuais o vulto sobranceiro do Monte Cara e, mais além, o ilhéu dos Pássaros. Começaram a lançar as pontarias de anzóis, com o bote a mover-se suavemente, agora apenas ao sabor da corrente. A 3 quilómetros de distância, estava a Ponta de Ladra Cachorro, mas só a demandariam se a faina não corresse logo de feição. A certa altura, nhô Mano mostrou o balaio em que estava a comida para a noite:

      ─ Rapazes, nesse balaio há peixe frito, pastéis de milho e pão da padaria Jonas, que é a nossa ceia, e… uma garrafinha de grogue, que é o meu presente para vocês não pensarem que sou calisto (6). Gastei os últimos escudos que trazia no bolso, mas com fé em Nosso Senhor vamos fazer esta noite um bom dinheirinho.

       Os homens ouviram e continuaram no seu afã de lançar anzol e sondar os locais mais propícios, no que o Muxim tinha um especial faro. As duas cafucas estavam já acesas e ao longe divisaram outras luzinhas a piscar sobre o mar, quais pirilampos a imitar iluminações de Natal no negrume da noite.

      ─ É rapaziada de S. Pedro. Eles também devem andar quebrados como nós…

      ─ Não estejas agora com remoques, Lela ─ retorquiu Muxim. Não somos só nós que trabalhamos no Natal, trabalham os doutores, os enfermeiros, os guardas de alfândega, os polícias de capitania, e outras mais criaturas.

       A verdade é que, fosse por obra do Pai Natal ou simples acaso, estavam a fazer boa pescaria. O relógio de nhô Mano marcava 2 horas da manhã e o fundo do bote já registava uma boa captura de goraz, garoupa e esmoregal, entre outras espécies menores. Mas nhô Mano queria aproveitar o maná e mandou remar mais para o pé de uns rochedos próximos, pensando que umas moreias também calhariam bem. Assim foi a noite toda, até que o cansaço se tornou visível nos rostos. Enquanto estavam mergulhados no seu trabalho, iam conversando sobre as suas vidas pessoais e metendo algumas pilhérias pelo meio.

      O Lela estava debruçado sobre o bote a recolocar isco nos anzóis quando nhô Mano se virou para o Muxim e lhe segredou junto ao ouvido, sem que os outros ouvissem: ─ Vê lá tu, o Lela não é mau rapaz, até trabalha muito bem quando quer, mas é preciso espicaçá-lo. Às vezes olho para ele e lembro-me do meu filho macho, o Humberto, que infelizmente morreu na flor da idade.

      ─ Ah, lembro-me bem do Beto, que Deus haja. A vida é assim, nhô Mano, mas você tem a sua filha Luzia, por sinal boa rapariga.

      Nesse ínterim, o catraeiro disse aos companheiros que ia dormitar um pouco porque já não tinha a idade deles e o corpo estava mesmo a reclamar. Enroscou-se sobre um dos assentos do bote e não tardou a entrar nos braços de Morfeu.

       Os pescadores prosseguiram a sua azáfama, seguindo as instruções do patrão, que queria desembarcar às primeiras horas da manhã com um carregamento o maior possível e enquanto houvesse peixe a rondar. Mas, a certa altura, nhô Mano acordou sobressaltado com o Lela a gritar, esbaforido:

       ─ Acordem, acordem, olhem lá ao longe, no horizonte, dois palmos à esquerda de Santo Antão!!! Mnin Isjus titá nascê na mar (7), embrulhado num lençol de nuvens!!! Olhem bem, olhem bem!!!

      Nhô Mano, estremunhado, esfregou os olhos e virou a cabeça para onde apontava o seu jovem companheiro. Mirou, mirou, e disse:

      ─ Onde é que estás a ver o Mnin Isjus, Lela? – Este voltou a fitar o horizonte, desta vez com as mãos em canudo.

      ─ Estava lá, sim, juro!!! O Fidjim é testemunha, que ele também viu!!! E o Muxim também deve ter visto!!!

      ─ Ó Lela, o que vi foram umas nuvens em forma de figurinhas, mas qual é (8), rapaz?, não havia nenhum Mnin Isjus, ─ respondeu o Fidjim ─ às vezes as nuvens tomam cara de gente…

        Eh lá, a mim não me metam nisto, que eu até nem acredito nestas coisas de religião! ─ rematou o Muxim.

     Então, nhô Mano, conhecendo bem o seu mais jovem companheiro, teve um pressentimento e perguntou:

       ─ Lela, onde é que está a garrafa de grogue que ficou acima de meio quando fui dormir? ─       O Lela, acabrunhado, mostrou a garrafa, já completamente vazia. Todos deram uma gargalhada e o catraeiro exclamou, todo divertido:

       ─ É sempre o mesmo. Não se pode confiar uma garrafa a este rapaz. Agora vais ser tu a pagar-nos uma rodada de grogue no Boca de Tubarão!

       Instantes depois, o Flor da Baía já dobrava a Ponta do Morro Branco, a caminho da Praia de Bote, impulsionado pelas remadas sincopadas dos quatro pescadores. O céu estava coalhado de cúmulos dispersos, de cor variando entre o branco e o cinzento, como pedaços de algodão espalhados ao acaso para atapetar a chegada do Mnin Isjus.  

 
 (1) Lanterna improvisada com um recipiente, torcida e petróleo.

(2) Sistema de pesca formado por um longo fio e vários anzóis.

(3) Mercado de Peixe

(4) Expressão crioula interrogativa que significa: “Então, como?”

(5) Termo crioulo que significa estar-se sem dinheiro, vindo do inglês broken. 

(6) Termo crioulo que significa forreta.

(7) Tradução do crioulo mindelense para o português: “Menino Jesus está a nascer no mar”

(8) Expressão típica em crioulo que significa: “Como assim, qual é a tua?”

 

Tomar, Dezembro de 2015

Adriano Miranda Lima