É Preciso Refrescar a Memória?...

domingo, 14 de fevereiro de 2016

 
Cheguei a casa e encontrei-a mergulhada em papeis. À sua volta, ou melhor, à volta da cadeira, postada sobre uma carpetezinha, em que se encontrava sentada com uma prancheta azul à ilharga, junto a uma estante de livros, espalhavam-se jornais, revistas, livros e outros documentos não identificáveis (por mim) numa confusão indescritível. Aparentemente caótica. Mas eu sabia bem que a desordem era mesmo aparente – um caos organizado - e que depois tudo voltaria ao seu lugar. Na mão um exemplar do “Terra Nova”. Olhei para ela, não muito admirado, porque o cenário já me era familiar, – repetia-se amiúde quando ela tinha em mãos um trabalho que exigia alguma “investigação” doméstica – mirei-a interrogativamente e perguntei-lhe, de forma talvez um pouco abrupta: Que procuras desta vez?

Não respondeu à minha questão e com um olhar de clara surpresa estampada na cara – que me deixou em expectativa – os seus olhos claros muito mais abertos do que habitualmente reflectindo estupefacção, avançou-me, como se eu já estivesse contextualizado e sintonizado com ela: Chegaste a ler esta entrevista?

– Entrevista? Perguntei eu. Qual entrevista? Normalmente leio o jornal todo… acrescentei.

– Esta! A do ex-presidente da república! replicou.

– Devo ter lido, respondi de forma displicente, acrescentando: Qual é a data do jornal?

– Julho de 2013.

– Julho de 2013? Querias tu que eu me lembrasse de uma entrevista feita há dois anos e meio? Não te esqueças que já celebrei muitos aniversários. E a minha memória também. Não fez caso dos meus comentários e retrucou:

– Disto tinhas que te lembrar… São assuntos que normalmente não te escapam e ainda por cima é apresentado em grandes parangonas, disse-me enquanto apontava com o dedo a frase exibida na primeira página do jornal: ”HÁ UM PRECONCEITO* GRANDE EM RELAÇÃO AOS PARTIDOS ÚNICOS” afirmando: Isto é uma vergonha. Tira qualquer um do sério! Estou escandalizada!

Franzi a testa, levantei o sobrolho e disse-lhe:

– Tens razão, se calhar não a li… Essas nossas frequentes andanças para Lisboa, Praia, Lisboa fazem-me perder uma boa parte das informações... Outrossim, (observei a fotografia) … Ele tem um discurso passadista e uma exacerbada sede de protagonismo… Deixa-me ver o jornal! …

Sentei-me e pus-me a ler a entrevista. Procurava o enquadramento da tal frase que aparentava a lavagem da memória do passado e uma negligente justificação dos seus anos de governação, sem oposição, isto é, sem qualquer abertura para o contraditório. Na verdade não a tinha lido, a entrevista. Não era possível tê-la lido e ficado indiferente! A generosidade da jornalista em aceitar determinadas respostas sem contrapor era bem patente. Via-se ao longo da entrevista que, mau grado a organização das perguntas, se não era, parecia ser uma debutante em assuntos políticos. Parecia mais uma entrevista escrita onde não tinha havido complementação das respostas do que ao vivo como ilustram as imagens que a acompanhavam. Como aceitar a justificação das fraudes de Baluarte, Mãe Joana e Covoada comprovadas em tribunais, decisivas para a sua eleição com um simples: ”Tem de ver o meu comportamento. Eu não dei importância a isso porque não havia de estar a responder a todas as provocações. Tem de verificar o meu comportamento.” (Fim de citação e da resposta)

Era isto mesmo que a jornalista devia interpor. Sim, precisamente o seu comportamento, senhor comandante, que foi de silêncio absoluto, de acomodação às fraudes e do seu aproveitamento cúmplice. Responder a provocações? Que provocações? O que se esperava era que o senhor fizesse uma condenação pública das fraudes eleitorais e se demarcasse daqueles que as cometeram em seu nome. Toda a gente esperava que procedesse em conformidade com o que disse atrás, referindo-se ao assassínio de Amílcar Cabral, que as “assumisse” tendo em conta a quem o crime beneficiou ou interessou…

A entrevista está prenhe de fait divers e de subtil arrivismo. E também da glorificação de um passado, em muitos aspectos, de triste memória onde sobressaem a exclusão e a repressão. Com quem então preconceitos em relação aos partidos únicos?! Dizer-se isto em 2013 não é só preciso ser-se apenas um antidemocrata, é também declarar-se um convicto inimigo da democracia.   Compreendo a exclamação de “escândalo!” que me alertou para a entrevista. Partido único não combina com democracia e fazer a sua apologia, quais forem as circunstâncias é colocar-se contra a democracia o que, aliás, o entrevistado declara frontalmente na entrevista ao assumir que a prioridade não era a democracia, mas sim “pôr de pé o estado soberano e suas instituições” como se isto não fosse possível, e até desejável, em democracia. Este raciocínio de secundarização da democracia em proveito próprio e do clã define, por si só, a natureza do regime.

E na mesma linha, chega a ser confrangedora e caricata a resposta à pergunta: “Considera que houve ditadura em Cabo Verde?” Vale bem a pena reproduzi-la:

Eu acho que não. Ditadura como? Ditadura com a responsabilização das pessoas? As pessoas é que fizeram aquilo. Era Pedro Pires o grande ditador? Tem de pensar nisso. Porque a pessoa que está consigo aqui é a mesma que começou como Primeiro Ministro de Cabo Verde. Se for ver as minhas declarações, há-de chegar à conclusão de que se optou pela solução que eu acho mais eficaz, a que estava ao alcance. Mais. Há que ter em conta que fora o PAIGC, quem é que lutou mais para a independência de Cabo Verde? Eu acho que pouca gente ou ninguém. E apareceu gente? Sim. Depois de já termos a independência ou depois do processo encaminhado para a independência. Antes não passávamos de meros terroristas.” (Fim de citação, o itálico é meu)

Descodificando, era como se dissesse: “Este velhinho simpático, afável, com inquestionável bonomia que está à sua frente, poderia alguma vez ter sido um ditador? Ele é o mesmo de há 40 anos. Aliás, mesmo que tivesse havido ditadura, ela estava justificada primeiro porque eu [que sei tudo] achei que era a “solução mais eficaz” depois, porque só o PAIGC lutou para a independência, para a posse da terra e da gente, e os que vieram depois não passam de oportunistas e, por isto, sem direito a nada.”

Simplesmente patética, a resposta. Mas não ingénua nem despida de arrogância e paternalismo, pois quando a jornalista o confronta com: “Como explica, por exemplo, a lei da reforma agrária e a opressão dos opositores ao regime?” Diz umas generalidades sobre a reforma agrária apoiando-se (imagine-se!) numas hipotéticas intenções do regime colonial sem falar das consequências desastrosas e criminosas da que aplicou. E sobre a segunda parte da pergunta: “a opressão dos opositores ao regime” nem uma vírgula. Acabei de ler a entrevista, dirigi-me a minha interlocutora e disse-lhe:

– E tu, já leste a entrevista?

– Sim, dei-lhe uma passagem rápida… respondeu-me ela. E repliquei:

– Porque será que a jornalista não o “obrigou” a responder à questão dos opositores ao regime? Não compreendo a omissão a uma resposta tão clarificadora quanto aos eventuais preconceitos sobre os partidos únicos e as ditaduras que geram. Fiz uma pausa e continuei:

– Porque não lhe falou a jornalista das arbitrariedades da polícia política (DL 95/76); das perseguições aos opositores; da proibição de partidos políticos; da lei que criminaliza boatos (Dec. 37/75); da lei de prisão arbitrária apenas por suspeição; da lei (Decisão com Força de Lei nº 1/77) que estabelece a impunidade dos membros do Governo perante a lei; dos tribunais militares de génese totalmente político-partidária – combatentes da Guiné – (conjugação DL nº 121/77 e nº 8/75) para julgar todos os militares (e militarizados) e alguns civis; do juramento de fidelidade dos funcionários a um partido (binacional) – o PAIGC – e não ao Estado de Cabo Verde (Dec.4/76); da autorização de saída; do delito de opinião; das torturas; das mortes de opositores?

Se isto não configura um regime ditatorial que só pode ser gerado por um Partido Único (ou ausência de partidos), então não há ditaduras e não haverá qualquer razão para se ter preconceitos em relação a Partidos Únicos.

– Olha, o que me surpreende é como é que um homem que jurou defender uma Constituição tão democrática como a nossa e, obviamente, pluralista e defensora dos direitos, garantias e liberdade dos cidadãos, ousa falar tão apologeticamente de partidos únicos. Está visto que não bate a bota com a perdigota. Só pode ser compreendido, não justificado, no âmbito de uma estratégia de exaltação e glorificação de um regime que todo o País condenou de forma inequívoca no dia 13 de Janeiro de 1991. Parece que o regresso ao poder, dez anos depois, travestidos de democratas, fá-los pensar que o povo já se esqueceu do veridicto de 1991.

É preciso refrescar a memória!

A.   Ferreira

 

 

CRÓNICAS PARA FAZER RIR, OU TALVEZ NÃO - 3

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

 

(Para ler esta não precisa de muito humor)

 

MUDANÇA DE GUARDA

Por ser racional, o ser humano tem o dever de contextualizar tudo. Apresentar argumentos deslocados do seu contexto histórico e social é simplesmente um pretexto para desvirtuar a verdade e manipular a história a favor de interesses inconfessados.

- M. Odette Pinheiro

Não me lembro quando obtive o meu primeiro Bilhete de Identidade. Talvez tivesse sido quando ia entrar para o Liceu. Mas lembro-me que era um Bilhete de Identidade da “República Portuguesa”. Como o de todos os caboverdianos, na época. Aqui não havia essa discriminação oficial existente nas outras colónias, em que uns eram considerados cidadãos e outros não.

Dizem que Portugal nos considerava cidadãos para nos poder usar como capatazes para dominar o resto da malta (leia-se, povo das outras colónias). Não sei, pois não alinho nesta nossa mania crioula de atribuir motivações aos outros (a qual até está bem patente nos comentários aos meus artigos), como se alguém pudesse ler o pensamento alheio: tal e qual se ouve frequentemente no Parlamento (“vocês fizeram isto porque…” e apontam as motivações mais variadas, que podem estar bem longe da realidade). Eu… prefiro dar o benefício da dúvida, pois não sou Deus para saber o que vai no pensamento ou na alma de outra pessoa.

Como estas ilhas eram desertas quando os portugueses as descobriram ou acharam (conforme preferirem, embora alguns escolham acreditar em habitantes inexistentes, justificando, assim, uma certa linha de pensamento), começando só então a nossa história como comunidade (a outra começou, realmente, com Adão e Eva; e alguns podem querer ir até ao homo sapiens sapiens, ou mesmo antes), e tendo eles contribuído para a nossa matriz como povo, talvez tivessem por nós um certo… “carinho” – eles que são uns sentimentalões, caso contrário nunca cantariam o fado, que, se não estivermos de sobreaviso, nos põe todos a chorar e nos pode deprimir a pensar que todo o amor é infeliz, que só há traição e o mundo é tão triste…! Além disso, vejam a massa que têm mandado para cá, embora, como dizia o nhô Djunga, mandem também uns tubarões (não os Azuis) para levar parte dela de volta.

Mas a verdade é que Cabo Verde teve oportunidades que as outras colónias não tiveram, o que muito nos veio a beneficiar depois da independência, ajudando-nos a alcançar o patamar que já alcançámos, pois tivemos pontos de partida sociais e educacionais muito diferentes, e mesmo de desenvolvimento, apesar de toda a nossa pobreza. Hoje falamos como se o que conseguimos foi só mérito nosso, como se tivéssemos partido da estaca zero, o que não é verdade!

Tivemos oportunidades especialmente em matéria de instrução. Não foram tantas como gostaríamos, pois não havia escolas suficientes para todos, e não criaram cá nenhuma universidade, nós que já temos 10 (uma para cada 50 mil habitantes!), enquanto eles se contentaram por vários séculos em ter só uma. E já com 10 milhões de habitantes tinham umas escassas três, e por muito tempo.

Mas a verdade é que facultaram aos caboverdianos estudar nessas três, à nossa escolha (nem sequer havia numerus clausus, para se ter de entrar à dentada), ou nas suas muitas escolas médias, como as de Magistério Primário, Enfermagem, Regentes Agrícolas, etc. Para isso era preciso ter o “cacau” necessário ou conseguir uma das bolsas que davam aos alunos com melhores notas e que não tivessem condições financeiras (tal e qual hoje, mas em muito menor escala), à custa das quais muitos ganharam formação e a exposição às ideias do mundo lá fora – que lhes permitiu seguir os caminhos que levaram à luta pela independência. De Portugal, ou de posições no “mundo então português”, saíram para se dedicarem à luta.

Nessa altura, os poucos que tivessem a sorte e a oportunidade de fazer o liceu e terminar o antigo 5º ano (melhor ainda se fosse o 7º), e não podiam ir estudar fora, concorriam ao Banco, à Alfândega ou à Administração Pública, pois o comércio local só podia abranger poucas pessoas e eram mal pagas. E preenchiam cá os quadros, ou iam para o sul servir nas outras colónias, ganhando a vida dessa maneira, já que as oportunidades de instrução para os habitantes dessas colónias eram ainda menores. Aquando da independência, a maior parte dos cargos públicos em Cabo Verde, mesmo os de chefia, eram preenchidos por caboverdianos.

Mas a quem tinha pouca ou nenhuma escolaridade restava a vida difícil de trabalhar a terra. E quando vinham os anos de seca, viam-se obrigados a “dar nome” para Angola ou São Tomé, o Caminho Longe, donde muitos não voltavam, a ponto de se cantar em Santo Antão que “terra longe tem gente gentio, gente gentio ta comê gente, ta comê gente até os osso”! Reminiscências de tempos remotos em que ainda havia canibalismo a que, exagerada e até “deslocadamente”, se associava essa Terra Longe, medonha para tantos! Mas Terra Longe era a única esperança de sobrevivência. Ficar era morrer. Ir dava uma possibilidade de escape, embora não garantida. É como quando o cirurgião, confrontado com a necessidade de uma operação arriscada, está perante o dilema: operando, pode morrer; não operando é morte certa.

Quanto às condições de vida, pensávamos que em Portugal viviam à grande e à francesa, enquanto em Cabo Verde se curtia a fome. Pensávamos… até chegar lá e ver o analfabetismo, a pobreza e o subdesenvolvimento que grassava. Claro que não havia as secas como cá, e por isso não havia a quantidade de mortes pela fome. Mas pão com uma sardinha era o almoço de muitos trabalhadores no Metropolitano de Lisboa. Trabalhando duro e ganhando muito pouco.

Entretanto, Salazar dizia: “Ao português, basta saber ler, escrever e contar”, o que era pouquíssimo numa Europa industrializada que avançava a olhos vistos. E os portugueses emigravam aos montões para a França, para fazer os trabalhos servis que os franceses já não queriam fazer. E lá viviam nos bidonvilles, como nas favelas que há nos subúrbios de Mindelo, Praia, Espargos e Sal Rei. Era um povo também sofrido, embora não tanto como o nosso! Só que tínhamos a vantagem do clima, ninguém morria de frio ou calor!

Mas Salazar sofria daquele orgulho incompreensível de se contentar com estar “orgulhosamente só”. De maneira que, enquanto ligados a Portugal, quando as secas nos atingiam não havia possibilidade de haver campanhas de solidariedade a nosso favor, como escreveu Jorge Barbosa. O nosso destino era morrer sozinhos, a solidariedade internacional não era procurada nem permitida. O orgulho não deixava estender a mão para pedir socorro, nem para eles mesmos, quanto mais para uma parcela do “império” donde não lhes vinha nada (nem petróleo, nem ouro, nem diamantes), este Cabo Verde (que ironia de nome!) de “rotcha nu, sima menine ta nacê”.  

Mas, voltando atrás, quando estudante em Portugal pude compreender o que uma mentalidade retrógrada no poder pode fazer a um povo (até a um Império, de norte a sul!). Não era simples crueldade para connosco, era mais uma certa inépcia misturada com arrogância, essas coisas que por vezes atacam alguns políticos e não os deixam ver claramente. Era também descaso e teimosia, tudo institucionalizado, que impactava negativamente a própria Metrópole. Importava mudar! Precisávamos de encontrar alternativas! Tanto nós como o povo português, o de ginjeira!

E a mudança chegou. Chegou para o povo português na Revolução dos Cravos, esse quase milagre que fez com que em poucas horas a ditadura fosse deitada pela janela fora, sem derramamento de sangue, embora seguido de um período conturbado, em que de novo o totalitarismo tentou assenhorear-se do país. E nesse período Portugal tornou-se economicamente ainda mais pobre, embora tivesse conseguido segurar a liberdade.

Mas a libertação da ditadura em Portugal, que certamente teria um reflexo em nós, ainda não nos garantia a resolução de outros problemas. E eram essencialmente três: o grande problema das secas, fome e falta de desenvolvimento, que Portugal não havia resolvido; a falta de autodeterminação para dirigirmos o nosso próprio destino como nação com características culturais e linguísticas muito próprias que, nunca deixo de vincar, já éramos havia muito; o racismo existente em Portugal – que alguns, indevidamente, tentam transpor para cá, quando a maior parte de nós crescemos sem noção de que havia diferença entre pessoa preta e pessoa branca (a que, por brincadeira, chamo respectivamente de castanho e beije, variantes da mesma cor, justamente para desvalorizar a questão racial que se centra na dicotomia preto/branco). Esse racismo (aspecto cultural enraizado num povo, que não muda dum dia para o outro) tenderia a fazer com que em Portugal os caboverdianos de pele mais escura se sentissem ainda discriminados, como que cidadãos de 2ª, o que seria inaceitável dentro do mesmo Estado.

Mas, para nós, a mudança também chegou com a independência, aspirada pela maior parte mas temida por todos que eram realistas (confessadamente até por aqueles que a fizeram), por não se saber das possibilidades de sobrevivência da nossa nação sem estar ancorada em algo (leia-se outro Estado ou comunidade internacional). O que teria acontecido se, no dia da independência, os Estados Unidos da América não tivessem oferecido a Cabo Verde cinco milhões de dólares em ajuda alimentar, o que era impensável durante o domínio de Portugal? E, mutatis mutandis, as ajudas continuaram e ainda continuam a vir de todos os lados: EUA, UE, Luxemburgo, Portugal, China, etc., etc., único modo de equilibrar as nossas contas e conseguir alguns extras: palácio do governo, palácio da assembleia nacional, novos liceus, residências estudantis, hospitais, “casas para muitos”, palácio presidencial, estádio nacional, campus universitário e muito, muito mais, que não vale a pena enumerar, pois é conhecido de todos (ou quase!); além de todo o tipo de programas que vão ajudando socialmente a sociedade caboverdiana.

Temos de reconhecer que muito ajudou a gestão criteriosa dos recursos das ilhas e das ajudas recebidas naqueles primeiros anos em que importava estabelecer os alicerces do novo Estado; e também que até agora todas as etapas da governação contribuíram para que Cabo Verde se firmasse e ganhasse o prestígio que tem na comunidade internacional. Avançou-se muito, não há dúvida, e o Cabo Verde de hoje tem muito pouco a ver com o de há 40 anos. Por isso, bem-haja a independência!

VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Cidade da Praia. Fevereiro 2016.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

 Antes de entrar propiamente ao que aqui me traz, e uma vez que é sobre “Arménio Vieira, o cultor da Língua de Camões” chamava aqui as palavras do escritor Germano Almeida, quando reitera e afirma a sua ligação à Língua portuguesa, ao retratar bem o seu ambiente linguístico/cultural: (…) eu cresci alimentado por ambas (a língua portuguesa e a cabo-verdiana) sem nunca diferenciar qual das duas era mais suculenta pois que as usava indiferentemente, e por isso ambas fazem parte do que eu sou, razão por que não quero viver sem nenhuma delas, sei que perder uma me amputaria em metade. (…)”.

Creio que a geração a que pertenço se revê  se não na totalidade, em parte significativa, nesta afirmação em que ouso incluir também o poeta Arménio Vieira.

E porque também a linguagem poética de Arménio Vieira é construída substantivamente através deste seu ser cultor da Língua portuguesa, evoco a propósito, as palavras do conhecido poeta Manuel Alegre, que chama à Língua portuguesa, «a música secreta» e a determinada altura escreve: “Há na minha língua uma página chamada Atlântico, onde há sempre uma viagem que não acaba até outros mares e outros poemas. (…) Nas suas harmonias, nas suas dissonâncias, nas suas vogais azuis e verdes e nas suas consoantes sibilantes. Tem a cor do mar e o assobio do vento. Amo essa cor, esse assobio, esse murmúrio. E o cheiro a alga e sal (…)” (Fim de citação)

Posto isto passo ao tema.

Sobre Arménio Vieira

Falar sobre Arménio Vieira é sempre um prazer. Acrescido do facto de ser uma grande honra  trazer para aqui tão grande poeta! O nosso prémio Camões!

Arménio Vieira, Poeta, escritor, jornalista, professor, crítico de cinema.

Ora bem, a sua poesia e a sua ficção de há muito que ultrapassaram as nossas fronteiras geográficas e, hoje, são pertença não só da cultura cabo-verdiana, como da literatura lida, estudada e analisada em Língua portuguesa, no espaço da lusofonia, como ainda traduzidas para outras línguas e culturas.

Costumo dizer que o poeta,  nasceu na cidade da Praia, cabo-verdiano de origem e de vivência e, (aqui também caberia um “mas”) de pena universalista.

Sim, os textos de Arménio Vieira, quer sejam em poemas ou em prosa e esta última é quase sempre poética, fazem jus a este “universal” que existe e que caracteriza o seu ser poeta.

Com efeito, a sua formação poética, cultural e histórica – na minha opinião, opinião aliás, de uma leitora aficionada dos textos – poemas de Arménio Vieira – revela-se quase toda ela “bebida” fundada na cultura dita europeia ocidental. Ele parte da clássica greco-latina, passa e passeia-se (o poeta) pela história e pela literatura europeia, a mais erudita, com ênfase na portuguesa, na francesa russa, inglesa, alemã, entre outras, indo até à americana e, algumas vezes, num jogo simbólico muito peculiar deste poeta, consegue prefigurá-las, transferi-las e contextualizá-las para as ilhas desta “macaronésia” atlântica sempre indecisa e adiada.

Senhor de uma erudição e cultura portentosas, Arménio Vieira dá-se ao luxo de “jogar” de “brincar” de construir e de desconstruir também, através de “trocadilhos” poéticos com essa cultura imensa que possui, e que reelabora numa constância e em profundidade, como aliás, prova tudo o que vem escrevendo. No fundo, e à boa maneira dos eleitos, aos quais ele pertence, intelectualmente falando. Os seus textos como que extraem a essência filosófica, desse lastro cultural que o sustenta, como também reflectem a mundividência experimentada e teorizada por um observador de todo especial. Para além de aliar a isso tudo, a poesia que parece que lhe é inata.

Ora é o próprio poeta que dita o «Ser Poeta» (pág. 91 de «O Brumário», edição da Biblioteca Nacional de Cabo Verde e Publicom, 2013)."Sem cuidar do tempo / que os ponteiros gastam / Entre a débil consoante / (Pela qual o navio Se faz ao mar) E a exausta vogal / Com que termina / A viagem / Me dou ao ofício / De escrever poesia.”

 Pois é, entre o “tempo” ou a ausência dele, no início e no final da “viagem”; com a habilidade tecedeira de uma “aranha”; a beleza da “rosa;” e a (im) precisão de um “número”, simbólicos e alegóricos, assim o poeta cria e escreve o seu poema. 

 Mas igualmente num poema inserto num dos seus últimos livros da trilogia do Brumário, e em jeito de situar o leitor, o autor prevê  e justifica o destino dos seus versos. A poesia é o “baralho do poeta” com que “…os loucos tentam o póquer que os salve”. ( pág. 18 de «O Brumário») “ Estes versos acerca dos livros / e da gente terão o destino / com que os deuses selaram as criaturas, / incluindo quem, pelo melhor / de todos os poemas, / previu o fim da tabacaria em frente / mais a tabuleta e o dono dos cigarros, / e de quantos loucos, dos quais, / pelo mágico baralho do poeta, / tentam o póquer que os salve.”                                                                                                                                                                                                                                                
O poeta munido com estas preciosas “ferramentas” chamemo-las assim, mais a estilística que ele auto-recria em estética própria e original; com isto tudo interligado e interdependente, o poeta configura os seus poemas – textos prodigiosamente melódicos e poéticos, que nos deliciam.
Na escrita de A. Vieira há também questões de sempre, inquietantes e existenciais com que o poeta nos interpela. A morte, por exemplo.

 Por outro lado, e do que mais gosto e aprecio na poesia de Arménio Vieira  é a sua assombrosa capacidade de, através da comicidade da linguagem, parodiar, em tom jocoso, irónico, por vezes mordaz, temas vários, personagens e personalidades reconhecidas no mundo das artes, do cinema e da Literatura e utilizar amiúde a chamada linguagem de carnaval, da paródia ou a menipeia que ele tão bem desenvolve e aplica na sua linguagem criativa literária. Esta linguagem sobre a qual teorizou e bem Júlia Kristeva, aliás autora curiosamente  conclamada pelo poeta e trazida à cena poética num dos textos incluídos no Brumário.

  De facto e retomando, há um riso paródico e uma finíssima ironia em muitos textos de Arménio Vieira cujos sentidos porque plurissignificativos residem no tornar comum ou no chamado “destronamento” de quase tudo que é tido por elevado, dogmático ou sério. Repito que fortes influências desta discursividade carnavalesca são visíveis, em muitos dos textos de A. Vieira.

O poeta por vezes, brinca e/ou ironiza com a chamada poesia épica, laudatória que narra em versos, heróis, os seus feitos ou cometimentos bélicos.

 Em sentido oposto, aquilo que há de elevado e humanamente comovedor nas pessoas, nas criaturas, temo-lo bem descrito e sentido, pelo poeta em muitos dos seus poemas narrativos e/ou, dialogados. Apenas uma ilustração disso. O exemplo que achei muito terno, muito afectivo e solidário foi aquele com que Arménio Vieira brindou os mais velhos da literatura e da cultura cabo-verdiana, se quisermos, e generalizada numa frase: os Homens da Claridade. Vamos encontrá-lo exactamente no texto “Bisca Tropical”  (página 31 das «Derivações do Brumário» . Edição da Biblioteca Nacional de Cabo Verde e Publicom, 2013)

  “Imaginem este quadro, surreal e jocoso: Praça Nova (1936). Jaim Figueiredo jogando a bisca versus Rendall Leite, o douto germanista.

Subitamente, Figueiredo joga o ás sobre um duque. Nhô Djunga Fotógrafo, fingindo-se irritado, exclama: Homessa! Será que o Pavão de Lata foi quem o mandou jogar o ás?

Manuel Lopes diz: Não respondo à pergunta, que eu não vi nada.

Baltasar Lopes solta uma estrondosa gargalhada. “Vá lá que o Jaime nunca soube o que é um jogo a doer”, pensou mas não disse.

Jorge Barbosa diz: Figueiredo precisa de óculos, é só ir ao João Lopes.

Aurélio Gonçalves conclui indulgente e filosoficamente: Figueiredo distraiu-se, acontece aos melhores.

Para terminar, falou Jaime Figueiredo: Alucinação alcoólic, sou um barco ébrio.

Rendall Leite de pé: - game is over, adieu sweet Prince.

Manuel Ferreira, o cronista, chegaria ao Jardim de Epicuro, ou seja, à referida praça quando rebentou a guerra de todas as guerras, razão por que de tal bisca a céu aberto não fez menção nem registo. Em tempo: faço-o eu, nascido Cinco Anos Depois, por coincidência a única fita que Marlon Brando assinou.

P.S. – O Pavão de Lata, um hipotético romance de J. Figueiredo, continua a ser um mistério. João Cleofas Martins (Nhô Djunga), à semelhança de Juan Rulfo, era prosador e fotógrafo. O restante, excepto as pessoas nomeadas, é pura ficção.

Nota final à guisa de epitáfio: à data eram personagens em busca de um palco. Quem nos dera tê-los de novo, ainda que seja para a bisca do adeus.”

 Ora bem, com o estilo a que nos habituou, o poeta inscreve nos seus textos, em larga medida, duas das suas múltiplas dimensões: uma, a de jogador de xadrez, o qual, no seu ambiente, na cidade da Praia, já tem lugar cativo. E a outra, a de crítico de cinema que Arménio Vieira fora outrora. É assim que nos traz à ribalta (através de memórias inscritas em alguns poemas,  grandes clássicos e eternas fitas cinematográficas que nos ficaram inesquecíveis, com os nomes dos seus realizadores e dos actores celebrizados pela memória fílmica. Há um trecho muito interessante que é um pequeno documentário ou mesmo, um “take” qual realizador de filme que A. Vieira nos dá em: “Post Scriptum”. (página 93, de «O Brumário»):

“ Imaginemos a seguinte bizarrice: Quelha de Londres, cerca de 1918. Em vez de Jack o Estripador matando senhoras, vêem-se três terríveis tigres – Adolf Hitler, Benito Mussolini e Vladimir Lenine, de cassetete e apitos à Gestapo, correndo atrás de Charlot, o Judeu vagabundo, o qual, tremendo, tal um coelho entre a parede e o pau, é salvo por Fernando Pessoa, da guarda-chuva em riste e de cigarro na boca.

Coincidências: os cinco, sem exclusão usam brilhantina e cuecas de nylon made in England. Pessoa, porém, é o único que perfuma as cartas de amor e fuma tabaco.

Filme de quinze minutos, mudo é claro, dirigido por Charles Spencer Chaplin, segundo uma ideia do Conde Silvenius.”

Do mesmo modo, o tal jogador exímio de xadrez, que é A. Vieira quando simbolicamente transplantado para a escrita poética, e poeta, ele faz-nos perceber, de forma subtil, através de peças colocadas num tabuleiro quase cósmico, que nos está a transportar para um xadrez mais complicado, que é afinal, a própria vida.

Arménio Vieira ao longo dos seus poemas, como que desafia o leitor para uma revisitação, de que ele dá o exemplo; ou mesmo para uma leitura inaugural das obras dos grandes nomes da literatura e de vultos da História universal e neste ponto, sou tentada a dizer, que o poeta emerge aqui neste particular, com uma dimensão pedagógica. Ele faz isso, não só  citando-os  mas também fazendo-os interagir em imaginados diálogos,  entre  personagens  e, entre os entes históricos (escritores) que as criaram e que o poeta constantemente convoca nos seus textos-poemas.

 Não obstante toda essa abrangência e esse todo panorâmico no modo de ver, no olhar, e no fazer poético que Arménio Vieira possui, mesmo assim,  e de forma diferenciada, Arménio Vieira faz-se acompanhar no seu caminhar poético, de alguns distintos companheiros  que ouso dizer, mais presentes, mais constantes, mais próximos da sua senda poética, os quais, ele ora cita, alegoriza, os metaforiza, ora os recorda num real quase vivenciado. E isto, em vários textos. Apenas para exemplificar, mencionarei, distinguindo, Camões, Borges e Fernando Pessoa, e a propósito deste último, no dizer de Luís Carlos Patraquim (Mitografias, Poemas na Vertical) e cito: “ Percebemos que o homem e a obra, mais o formidável desdobramento heteronímico...é uma presença na poesia de Arménio Vieira. Não uma influência angustiante... com ele A. Vieira, dialoga, glosa, recombina, sacoleja em mordaz ou empático novo lançamento de dados” (Fim da citação).

De facto, encontramos em muitos textos de A. Vieira, esta intertextualidade pessoana transfigurada.

Outros poetas há também, que foram seus  compagnons de route”) os quais, de forma real e vivida são  recordados, em alguns poemas. Um deles é  sem dúvida, Mário Fonseca.

Com este último, vale também dizer que são ou foram – uma vez que M. Fonseca nos deixou – poetas de uma mesma geração e que de certa forma, juntos iniciaram a que depois seria uma  longa e profícua caminhada poética, que teve os seus inícios no antigo «Boletim Cabo Verde», no «Seló». Juntos participaram em colaborações dispersas em várias revistas literárias, apenas para citar «Imbondeiro» «Vértice» entre outros periódicos.

 O Mar e as Rosas” é o poema dedicado exactamente à memória do saudoso poeta Mário Fonseca. Tratou-se de um facto. Passou-se na vida real. M. Fonseca perdera os manuscritos do livro e andou um ror de anos em busca deles. Creio que assim Arménio Vieira o celebriza e o imortaliza neste quase soneto e através do título homónimo da obra perdida. Outro poema em que Mário Fonseca é evocado ao lado de um grande nome da poesia portuguesa, Fernando Assis Pacheco também já desaparecido do mundo dos vivos; é o poema “Epitáfio,” na página 30 das «Derivações do Brumário».

 Pois bem,  a poesia de A. Vieira corporiza-se numa tal subtileza imagística, que a plurissignificação das palavras  escolhidas, a linguagem metafórica, culta, multifacetada, a beleza rítmica, a musicalidade versatória, entre outros atributos, que distinguem os bons textos poéticos, são tidos em plena valorização, nos poemas de Arménio Vieira.

Mesmo para terminar e perceber o “estar” e o “sentir do poeta, temos o poema “o estar só entre muita gente.”  (pág. 14 «O Brumário»):

“Estar só entre as gentes / magnífica antítese, / nada melhor do que isto. / Quem o disse e na pedra  o gravou/ foi um Camões errante e amoroso. / Venha agora a nave que me leve / a uma ilha (...)  ...Alternância e não antítese / é quanto pude achar, / já que, das muitas rosas / que eu vi em nove ilhas e no resto / nunca fui a metade.” 

Pois bem, usando o mote camoniano, o poeta expressa  as suas emoções, ora doces, ora amargas,  o seu isolamento interno, o seu sentir-se incompleto.

O poeta afinal, - numa espécie de fio condutor dos seus poemas - releva com ironia e com alguma complacência, as partidas pregadas por algo que pode ser nomeado  de  Destino. Assim, Arménio Vieira nos conduz ao seu mundo interior,  à consciência da sua solidão, às suas ilusões e decepções e à maneira como ele percepciona e vê o mundo.

 
Praia, 3 de Fevereiro de 2016.

CRÓNICAS PARA FAZER RIR; OU TALVEZ NÃO - 2

sábado, 30 de janeiro de 2016

 

Leia só se tiver um fino sentido de humor

A NOSSA MATRIZ

Viemos de longe, mas viemos para ficar. E não ficámos estáticos mas, à semelhança das pedras que rolam nas ondas, deixámo-nos burilar pelo tempo e pelas vicissitudes por que fomos passando. Hoje somos o que somos, e não queremos ser outros que não nós mesmos!

- M. Odette Pinheiro

 

Parece que estas ilhas eram desertas. De gente, quero eu dizer, porque havia bichos. E foram descobertas por um povo lá do Norte (um povo já misturado, descendente de Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, Mouros e sabe-se lá que mais), do qual fazia parte um tal Infante D. Henrique que não tinha muito que fazer e ficava horas esquecidas a olhar para o mar e a imaginar o que havia do outro lado. Então ele resolveu embarcar alguns homens e mandá-los descobrir. Naquele tempo era assim! Os reis e os filhos dos reis mandavam e todo o mundo obedecia. Mas, claro, o Infante ficou em terra, pelo seguro (não devia saber nadar e creio que ainda não havia coletes salva-vidas)!

Os barcos vieram por aí abaixo e quando chegaram a estas ilhas e os homens viram que não havia cá ninguém, fincaram uma bandeira no chão e disseram: “São nossas! Habemos ilhas!” Tal e qual quando achamos uma coisa no chão e ficamos com ela, alegando que “é de gato e cachorro”, sem nos preocuparmos em procurar o verdadeiro dono! (Sabideza do caboverdiano!) Mas esses homens tinham desculpa, pois não havia vivalma à vista!

Tais eram os hábitos da época! Quando os exploradores (não do homem pelo homem, ainda não se tinha descoberto essa ideia) achavam uma terra deserta, fincavam-lhe logo o pau da bandeira e declaravam-na pertença da Coroa. Quem chegasse primeiro, pumba! Fincava a bandeira. Não era preciso ir ao notário fazer escritura, nem mais nada, embora por vezes o Papa tivesse de ratificar a posse. Como quando dividiu o mundo entre portugueses e espanhóis! Foi pelo tratado de Tordesilhas, lembram-se? O Papa decretou: Portugal descobre para um lado da linha imaginária, Espanha descobre para o outro lado. Brejeiro mesmo! Deste modo não andariam às turras. Foi assim que Portugal ficou com o Brasil; e a Espanha, com a América do Norte! O problema foi quando outros países resolveram entrar na brincadeira. Inventaram os piratas, como o das Caraíbas!

Feio mesmo era quando chegavam onde já havia gente. Mais do que feio, uma coisa medonha. Porque o hábito dessa gente lá do Norte, os brancos europeus (bem, branco só se for encardido, a precisar de lixívia. Mas, como gostam de ser chamados brancos, não me vou dar ao trabalho de procurar a cor certa), dizia eu, esses chamados brancos, ao chegarem a um lugar já habitado, queriam sempre fincar o pau da bandeira para chamar a terra sua; e como os donos da terra não gostavam disso, havia sempre zaragata da grossa. Infelizmente, os chineses já tinham inventado a pólvora, e os europeus traziam espingardas. Assim, quase sempre eram estes que venciam, embora tenha havido algumas boas excepções, em que levaram uma trepa. Uma vez, lá para o norte de África, os portugueses até perderam um rei, um tal de D. Sebastião, que ainda estão à espera que volte para os libertar completamente da troika.

Agora, como as pessoas que iam encontrando nas terras habitadas eram muito diferentes, e geralmente o ser humano tem a ideia de que “o que o mundo precisa é de mais gente como nós e menos como eles”, suspeitando a priori de tudo que é diferente, acharam que os “indígenas” eram inferiores. Já viram como fazem os meninos quando há um colega diferente? Troçam da sua maneira de falar, do seu cabelo, das suas roupas; e se tem um defeito físico, pior ainda! É a natureza humana no seu pior.

Foi assim nas terras habitadas no continente, aqui para o sul. Encontraram pessoas duma cor muito escura. E como eles não eram experts em cores (desculpem o inglês, mas para mostrar erudição agora é sempre necessário colocar umas palavrinhas em inglês), chamaram-lhes negros, ou seja, de cor preta. Poderiam ter-lhes chamado castanho-escuro, mas preferiram negro ou preto, talvez para ser mais curto. Ou, então, foi bullying. Sabiam a confusão que isso ia dar!

Os hábitos dos habitantes também pareciam esquisitos a essa gente que se achava branca. Por causa do calor, usavam muito pouca roupa. Até as mulheres andavam sempre de monokini, que ainda não tinha sido inventado na Europa. Só lá para a última parte do séc. XX, quando as europeias passaram a andar nas praias de maminhas ao léu. Mas como nesse tempo andavam vestidas do pescoço aos pés, incluindo os braços, acharam que eram muito feio, mesmo imoral, andar com tão pouca roupa. Imaginem, se até os fatos de banho da época cobriam todo o corpo!

Também estranharam que não falassem português; nem inglês ou francês, embora os portugueses também não entendessem estas línguas muito bem (então a pronúncia!). Mas sempre poderiam arranjar um tradutor. Pior ainda é que os africanos não sabiam escrever a sua própria língua. Na Europa já se estava a inventar a imprensa, e nessa parte da África ainda não sabiam escrever à mão, nem sequer hieróglifos como os antigos egípcios!

E a música! Em vez da harpa e outros instrumentos muito soft (erudição!) que usavam na Europa, nesse que era o tempo do canto gregoriano (parecido com os cantares alentejanos), os africanos só tinham o tambor e pouco mais! E como ainda não havia telefone nem internet, comunicavam entre si pelo rufar do tambor (uma espécie de morse mais grosseiro). E usavam também o tambor para umas danças esquisitas para os europeus, com saltos e passos estranhos que nada tinham a ver com as danças de salão europeias, uma coisa lentíssima que até dava sono enquanto se dançava.

Portanto, tudo era diferente. E os europeus, julgando-se superiores, resolveram apropriar-se dos africanos à força, para fazerem os trabalhos pesados que eles não gostavam de fazer. Era a escravatura, o pior rebaixamento do ser humano. Embora já existisse desde tempos imemoriais, adquiriu proporções ainda mais vergonhosas nesse tempo.

Tudo isto era fruto da época e do coração humano, que é o que é e ainda não mudou. Pois ao longo do século XX e neste princípio do XXI, quando há a ONU, a declaração dos direitos do homem, vários tratados internacionais, etc., ainda há escravos em muitos lugares. E sabemos como tem sido o mundo: o Holocausto, Ruanda, Síria, Kosovo, República Centro Africana, Mali, Crimeia, Iraque (incluindo a sua invasão pela América), Guiné Bissau, Somália, Burundi, etc. etc. etc., é sempre uns a maltratar os que são diferentes ou que não pensam da mesma maneira, e a querer aproveitar-se do próximo.

Mas, voltando às nossas ilhas, encontradas desertas, os descobridores resolveram torná-las habitadas, trazendo umas dezenas de portugueses e outros europeus e muitos escravos africanos para as colonizar. E como a maior parte das esposas brancas ficaram na Europa, e os homens brancos consideravam as escravas sua propriedade, não tinham qualquer problema em as violar, começando a nascer-lhes filhos mulatos.

Contudo, diz-se que nem tudo foi sexo forçado, porque as mulheres sabiam que o futuro dos filhos poderia ser diferente se fossem filhos de brancos, e elas mesmas poderiam obter favores especiais dos senhores. Não é assim ainda hoje? Não há quem arranja titio (ou faz coisa pior) para poder estudar, e quando acaba o curso dá-lhe um pontapé, para assumir namorados da sua idade? (É a instrumentalização da mulher pelo homem e do homem pela mulher!) Por isso nem todos os mulatinhos que nasceram teriam sido feitos à força, mas sim daquele modo que a Simone cantou na Eurovisão em 1969.

E assim se originou o meu povo: branco e negro misturando os seus genes, uma coisa linda se um não estivesse submetido ao outro! É que hoje sabe-se que é melhor ter genes diversificados do que ser raça pura. Há menos perigo de taras! Não é bazofaria de crioulo, não senhor! É uma provada vantagem genética.

Sucederam-se as gerações (foram 500 anos!) e foram-se misturando as características dos dois povos. Quando a escravatura foi proibida, os escravos deixaram de vir, mas os europeus continuaram, especialmente ao serviço de Portugal: militares e profissionais vários. Muitos casaram ou juntaram-se com pessoas da terra e eles ou filhos ou netos ficaram por cá. Vieram também castelhanos, italianos, ingleses, judeus. E o pool genético foi-se diversificando, ou mais ou menos, conforme as ilhas, podendo dizer-se, contudo, que todo o caboverdiano é misturado, quer o que parece branco, quer o que parece negro. É como o café com leite: mais claro ou mais escuro, mas não mais café puro ou leite como tirado da vaca.

E com a cultura aconteceu o mesmo. Os escravos não tinham uma cultura e língua uniformes, pois eram de várias etnias, embora algumas possivelmente aparentadas. É verdade que algumas coisas da cultura dos escravos foram reprimidas e por isso foram caindo em desuso: coisas que pareciam inferiores ou imorais, no conceito europeu. Mas algumas permaneceram, e o povo foi-se acomodando como pôde, ganhando características novas. É a microevolução, uma propriedade de os seres vivos se conformarem ao ambiente (não só físico, mas social e cultural), adaptando-se às circunstâncias, para que a vida seja mais fácil e maiores as probabilidades de sobrevivência.

Assim o caboverdiano criou uma cultura nova, com aspectos muito ricos e distintos das matrizes originais, a que se pode com toda a justiça chamar a cabo-verdianidade, sem se ter de pedir desculpas ou pensar que se traiu alguém: os nossos hábitos, a nossa música, incluindo os nossos instrumentos musicais, a maneira de estar, as tradições familiares, a língua, a nossa maneira tradicional de vestir, etc. etc., tudo características que definem o caboverdiano como povo e como nação.

Não precisamos de voltar para trás, para duvidarmos de ou negarmos o que somos hoje. Não precisamos de copiar quem quer que seja, porque estiveram lá longe na nossa origem. Seria de novo uma violência. Precisamos é olhar para a frente e reforçar o que somos, comparando-nos com os que já provaram que podem vencer os desafios do mundo actual, trabalhando as nossas ainda insuficiências neste mundo globalizado e sem retorno, onde temos de competir com os melhores e onde há novos perigos que nos espreitam.

É tempo de ajudar os nossos jovens a compreenderem as dinâmicas da evolução social (sem qualquer conotação negativa da palavra evolução), significando simplesmente aquilo em que nos fomos tornando. Dizer-lhes que não podemos virar a roda da vida para trás.

Os anos em que estivemos dominados trouxe-nos muitos males, mas também deu-nos algumas vantagens que não devemos nem podemos deitar fora. Precisamos ter apreço pelo que nos ficou das duas culturas, pelo que de positivo há em nós vindo dos dois lados, em vez de artificial e insensatamente tentar arrancar o que de europeu perdurou em nós, procurando forçosamente voltar às origens “africanas”, o que nunca é possível. Esta é a alienação suprema. Mas dela falaremos noutra altura.

(continua)

Ainda Existem bons exemplos vindos de África...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Mãos amigas enviaram-me o texto que se segue. Eu que sou uma afro-céptica assumida, nos tempos que correm. Com exemplos destes e a ser verdade - pesem embora os exageros – faz renascer alguma esperança neste Continente, com países tão mal tratados pelos seus próprios dirigentes.

 

 

Os cortes inacreditáveis desde que é Presidente da Tanzânia já fazem eco.

É o recém-eleito Presidente da Tanzânia e já ficou na memória das pessoas. Também conhecido por Bulldozer pelas mudanças radicais que implementou, John Magufuli tem 56 anos e assumiu a liderança do país a 5 de Novembro de 2015.

Os cortes inacreditáveis desde que é Presidente da Tanzânia já fazem eco:
Pela primeira vez em 54 anos, a Tanzânia não vai celebrar oficialmente o dia da Independência, 9 de Dezembro, porque Magufuli defende ser “vergonhoso” gastar rios de dinheiro nas celebrações quando “o nosso povo está a morrer de cólera” – nos últimos três meses morreram pelo menos 60 pessoas vítimas de cólera
Não há mais viagens para fora, as embaixadas deverão tratar dos assuntos no exterior. Se for necessário viajar, uma permissão especial deverá ser dada pelo Presidente ou pelo seu Chefe de Gabinete

​Acabaram-se as viagens em 1ª classe e executiva– com excepção do Presidente, o Vice-Presidente e o Primeiro ministro.
Acabaram-se os workshops e seminários em hotéis caros, quando há tantas salas de ministérios vazias.

​O Presidente Magufuli perguntou por que motivo os engenheiros recebem V8s (modelo de carro topo de gama) se as carrinhas são mais práticas para o seu trabalho
Acabaram-se os subsídios. Por que motivo são pagos subsídios se vocês recebem salários; aplicável também aos parlamentares
Todos os indivíduos ou empresas que tenham comprado empresas do Estado, que foram privatizadas, mas não fizeram nada com elas (passados 20 anos) ou as fazem recuperar imediatamente ou devem devolver ao governo
John Magufuli cortou o orçamento da inauguração do novo Parlamento de 100 mil dólares para 7 mil dólares.
Já que teimamos em não ouvir os sinais dos tempos, não resisto e pergunto:

​​

Amigo John, que tal um saltinho a  alguns outros países do seu Continente e

 

sugerir o mesmo aos seus ilustres homólogos?

 

 

 

 

 

 
sábado, 23 de janeiro de 2016

 

CRÓNICAS PARA FAZER RIR, OU TALVEZ NÃO - I

(Leia só se tiver um fino sentido de humor)

IDENTIDADE

- M. Odette Pinheiro

 

Quando os disparates são demasiado grandes, há duas maneiras de lidar com eles. Ou se lança mão de todos os argumentos da lógica e do conhecimento, ou então… Eu optei por esta segunda alternativa.

 Parece que os inteligentes piraram. Piraram quase todos. É que segundo o jornal “O Público” (e é verdade porque eu vi o respectivo vídeo, para que as culpas não escorreguem para a jornalista) essa gente inteligente gostaria que eu dissesse uma coisa que eu não posso dizer. E não posso, por várias razões.

Começo pela primeira. Sou bisneta de judeu, daqueles que andaram pelo mundo de terra em terra à procura de um lugar onde fossem bem recebidos e onde o seu dinheirinho fosse apreciado em vez de fazer a inveja dos menos industriosos. Os pais do meu bisavô chegaram cá vindos de Marrocos, não sei se por se terem cansado de comer tâmaras, e descobriram o seu oásis em Santo Antão, tendo até direito a campa no cemitério judeu da Ponta do Sol (se quiserem verificar).

Nhô Abron (de Abraão, em Português), meu bisavô, também lá enterrado, quando chegou à idade casadoira, escolheu para sua mulher uma mulatinha bastante escura (como sabem em Cabo Verde há-as de todas as tonalidades, é só escolher) e muito pobre (ai o amor!), e gostou tanto dela que lhe fez nove filhos (e parece que nunca saltou a cerca!): oito meninas e um rapaz que já vieram um pouco menos escurinhos que a minha bisavó, mas não da cor do pai (beije, como a maior parte dos semitas).

Não que isso me interesse, pois cresci sem noção de que a cor da pele tinha a ver com o que estava dentro. Agora parece que se quer voltar ao muito antigamente já longínquo, e destrinçar entre aqueles que são escurinhos, escurinhos, e clarinhos, clarinhos. Que retrocesso! Eu nunca o fiz enquanto crescia. Nunca me olhei ao espelho para ver se estava a ficar demasiado escura. E andava todos os dias no mar e ao sol, ali na Escasinha, Prainha, ou Lajedo, na Ponta de Sol, dali esta paixão que tenho pelo mar. Aprendi a nadar às costas do meu avô, ainda bem pequenina, e nunca mais parei. E adorava o sol.

Gostava da minha bisavó cor de chocolate bem escuro, do meu avô beije, dos irmãos do meu pai, uns escuros e outros claros, e respeitei-os a todos como sendo iguais. Será que precisamos que um Martim Luther King venha desafiar-nos: “Tenho um sonho, que um dia os meus quatro filhos viverão numa nação em que não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo do seu carácter?” Que Deus nos livre, mas precisamos atalhar esta corrente daninha enquanto é tempo, se há gente a tentar fazer a cabeça dos nossos jovens e a incentivá-los a outras coisas que não sejam o aperfeiçoamento do seu carácter (desculpem esta nota de seriedade, mas o problema é sério mesmo. São capazes de os convencer que ainda são escravos, e teremos mais uma revolta dos escravos, só que já não será à moda antiga! Agora, com boca bedjo e tudo).

Para voltar à genealogia e para fazer bem as contas, como o sangue da minha bisavó já era misturado, minha avó deve ter ficado com bastante menos de 50% de sangue vindo de África, 2 donde remotamente haviam vindo uns antepassados. O meu avô era também de sangue misturado, pois o pai era descendente (muito perto) dum português, o primeiro Vera-Cruz destas ilhas. Mistura com mistura dá misturada! Lá saiu a minha mãe quase branca (branca não, que é a cor da neve, novamente beije como o meu bisavô). É que a hereditariedade tem destas coisas. O potencial beije estava lá escondido na avó e no avô, e pumba, veio ao de cima na minha mãe: linda e de um cabelo que lhe dava pelas costas (não me tomem isto como ofensa, mas gostos são gostos! Também gosto do encaracoladinho, curto e com muito gel para ficar cheio de brilho e a emoldurar a cabeça. É uma belezura, como diz o brasileiro! Do que já não gosto tanto é desses prolongamentos artificiais, para fazer parecer o que não é. Como os soutiens muito enchumaçados! Mas é só uma questão de gosto, e não tenho nada contra o gosto de ninguém, e não penso que os gostos em si sejam sinais de insegurança identitária.

Do que a minha mãe teve sorte é de não ter sido menina e moça ao tempo da independência, pois teria de andar a fugir das tesouras dos progressistas que estiveram a correr atrás das meninas que tinham cabelos longos e lisos para lhos cortarem, pois as “africanas” não têm cabelos assim. (Será que ali é que começaram os disparates que lemos em “O Público”?)

De volta ao meu pedigree (com o devido respeito pelos meus antepassados), do lado do meu pai a coisa não é menos complicada pois há uma bisavó filha de inglês (sim, súbdito de Sua Majestade). Aliás, sempre nos consideramos primos dela (ai a alienação!) e até ficámos muito… desculpem que não se diz, “chateadinhos”, quando não recebemos convite para o casamento do primo Charles e da Diana (realmente a família já não é o que costumava ser!). E o Pinheiro é de um Português que umas quatro ou cinco gerações atrás veio cá parar, gostou e ficou. Ou foi obrigado a ficar. Que isto de se precisar de autorização de saída não começou com a independência. Estes copiaram de outros a ideia luminosa.

Mas o que acontece comigo não é excepcional. É o que acontece com grande parte dos caboverdianos, mesmo os lá de Rincão, Ribeirão Manuel e lugares do Santiago profundo, considerados de raça mais pura. Investiguem e vão ver a misturada que encontram, a despeito de opiniões mais doutas de que não há muita mestiçagem física em Cabo Verde! Donde vieram os Lubranos, Veigas, Monteiros, Pintos, Reis Borges, Queridos, Mascarenhas, etc. etc. etc., todos com antepassados bem identificados vindos da estranja, que lhes misturaram o puro-sangue africano? Não me venham dizer que foram só escravos a quem mudaram o nome. E que por terem a cor do chocolate muito escuro só têm genes vindos da mãe África, e não do papá Europa.

É que os genes que determinam a cor da pele são complicados. São poligenes, e por isso aditivos e não funcionam segundo a lei de Mendel (lembram-se, o frade que gostava de brincar com ervilhas, e entretinha-se a cruzá-las?). Quanto à cor da pele, há dois pares de genes, Aa e Bb, em que os chamados alelos designados pelas letras maiúsculas produzem grande quantidade de melanina, enquanto os de letra minúscula produzem pouca quantidade. Adicionam-se, conforme os genes que cada um tem. Assim, duas pessoas (até agora macho e fêmea) com dois pares médios (AaBb) cruzando-se entre si podem dar todas as cambiantes: desde o AABB, pele negra, isto é, chocolatão; até aabb, pele clara (chamada de branca). É por isso que encontramos toda a diversidade em Cabo Verde. Filhos dum pai e duma mãe mulatos médios, podem ser desde o branco ao negro, e é o que acontece em muitas famílias. Se duvidarem, verifiquem na Internet. Nem tudo que aparece lá é verdade, mas isto é de fonte segura.

(http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Genetica/genesnaoalelos4.php).  

Do lado “africano”, se tivéssemos nós tido os nossos Kunta Kintés (do livro de Alex Halley e filme Roots), que, apesar de escravos, teimosamente tivessem contado às suas filhas Kizzys donde eram e as glórias da família, e tivessem insistido em que elas contassem aos seus filhos, e esses aos filhos dos filhos, e assim por diante, talvez pudéssemos dizer exactamente de onde vieram as nossas raízes africanas que se foram diluindo na caboverdianidade. Mas não aconteceu, e só sabemos que remotamente alguns dos nossos antepassados vieram da costa ocidental da mamã África. Com o tempo deixaram de ser o que eram e nós passámos a ser quem e o que somos hoje. HOJE! Como ouvi num filme quando eu era ainda criança, “o passado é uma porta fechada, e a chave está perdida”. O passado já não me pertence, o futuro não sei se o terei. Só tenho o hoje. Carpe diem, como escreveu Horácio. Agarra o presente!

Quanto à segunda razão, e voltando aos nossos inteligentes, o que querem que eu responda quando me perguntam o que eu sou? O que escolher nessa misturada, de avós, bisavós, tetravós? A única resposta lógica e segura é que eu sou caboverdiana. Agora, quando me perguntam onde é que isso fica, digo-lhes que fica a cerca de 400 milhas marítimas da Costa Ocidental da África, um pouco abaixo das Canárias (se se considerar o Norte para cima, isto também pode ser contestado), mais ou menos na linha horizontal (para quem sabe geografia, paralelo) do Senegal. Maior precisão, só no laboratório! Assim toda a gente fica a saber onde ficam estas ilhas onde tive a felicidade de nascer (até pareço o Lúcio na CAN!).

Agora, definir-me a mim ou a minha identidade pelo nome de um continente é absolutamente absurdo, pois ninguém mais no mundo o faz. O brasileiro diz que é brasileiro e não sul-americano, o holandês diz que é holandês e não europeu, o russo, a mesma coisa (doutro modo eles teriam um problema, com essa mania de estarem em dois continentes ao mesmo tempo: teriam de dizer se eram russos europeus ou russos asiáticos!).

Além disso, definir a minha identidade por um continente é uma coisa muito arriscada, pois um continente é uma coisa grandinha demais. Ficariam a pensar se eu sou do Magrebe (e teria a obrigação de ser beije claro, e até de rezar de rabo para o ar), se sou lá das terras de Haile Selassie, com as suas conotações étnicas e religiosas específicas, se sou lá mais para o Sul e sofri o apartheid, se … tantas possibilidades que é impossível mencioná-las todas!

Assim, minha gente, por favor, contentem-se com o facto de nós, que nos consideramos caboverdianos, dizermos que somos caboverdianos. Mas não vão falar mal de nós para os jornais portugueses, que isso é muito feio! É pior que ter os embaixadores estrangeiros a meter-se nos nossos assuntos! Se nos quiserem chamar de complexados ou alienados, o problema é vosso, mas façam-no aqui dentro. Entretanto, leiam Freud e vejam (melhor no sofá, com ajuda) se isso não é o que ele chamou de projecção: atribuir a outrem aquilo com que não estamos confortáveis dentro de nós mesmos. Traumas de infância? Ou então, é show! Politicamente correcto!
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

  Com a devida vénia ao autor, um dos maiores pensadores portugueses deste tempo, Professor Eduardo Lourenço, transcrevo aqui um texto de sua autoria sobre a nossa Língua comum e que me foi enviado pelo amigo e colaborador do «Coral Vermelho», Adriano Miranda Lima. Convido o leitor a lê-lo como uma meditação sábia, sobre os transcendentes e históricos processos de formação plural e diversa da Língua portuguesa. 

 

A CHAMA PLURAL

Por Eduardo Lourenço

Não se pode dizer de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que nos inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os portugueses falam, que a voz que fala os portugueses. Enquanto realidade presente ela é ao mesmo tempo histórica, contingente, herdada, em permanente transformação e trans-histórica, praticamente intemporal. Se a escutássemos bem ouviríamos nela os rumores originais da longínqua fonte sânscrita, os mais próximos da Grécia e os familiares de Roma. Juntemos-lhe algumas vozes bárbaras das muitas que assolaram a antiga Lusitânia romanizada, uns pós de arábica língua, que espanta não tenham sido mais densos, e teremos o que chamámos, com apaixonada expressão, o “tesouro do Luso”.

Na nossa Idade Média o estatuto da língua era, como o das outras falas cristãs, um “falar” sem transcendência particular. Com o Renascimento, abertura sobre o universal segundo o modelo greco-latino, paradoxalmente, os “falares” europeus tornam-se “língua”, e a língua, signo privilegiado de identidade. Nascem os discursos hagiográficos da língua nacional, da bela língua italiana para Bembo, da altiva fala castelhana para Nebrija, da polida língua francesa para Du Bellay, da nossa nobre e suave língua portuguesa para Fernão de Oliveira, Barros, António Ferreira que a converte em objecto de culto e de orgulho. Diz-me que língua falas, dir-te-ei o estatuto que tens. Nenhum destes endeusamentos ou apologias da dignidade das línguas nacionais é inocente. Fazem parte do processo histórico em que culmina o sentimento nacional.

Descobre-se que a língua não é um instrumento neutro, um contingente meio de comunicação entre os homens, mas a expressão da sua diferença. Mais do que um património, a língua é uma realidade onde o sentimento e a consciência nacional se fazem “pátria”.

Ainda vem longe o tempo em que para cada uma das línguas dominantes da cultura europeia se torne também claro que uma língua não é um dom do céu, destinado à vida eterna, mas um tesouro que deve ser defendido da usura do tempo e das pretensões das outras a ocupar os espaços sem defesa.

A língua é uma manifestação da vida e como ela em perpétua metamorfose. Não há expressão mais melancólica que a tão comum e tão pouco meditada de “língua morta”, nem maravilha maior que a da sua ocasional ressurreição. Como o universo, uma língua viva deve estar em perpétua expansão, ao menos no seu espaço interior, sob pena de se tornar ainda em vida “língua morta”. Essa vitalidade não releva apenas da mera ordem voluntarista ou do ritualismo conservador de academias ou profissionais das nobres ciências da gramática, ou da filologia. É, sobretudo, obra dos que a trabalham ou a sonham como exploradores de um continente desconhecido: romancistas, dramaturgos, poetas, sobretudo, que não apenas os que assim se chamam mas todos os que na quotidiana vida inventam sem cessar as expressões de que precisam para não se perder tempo que passa, do mundo que se renova e transfigura.

É de supor que os homens se tenham inventado como seres falantes por um acto mágico, por um “fiat” ainda hoje misterioso que cada palavra recomeça como se o fogo de hoje se ligasse ao fogo original por uma cadeia de chamas que se ateassem umas às outras. Essa magia original é ao mesmo tempo um desafio e um exorcismo. O destino de cada cultura está intimamente ligado a esses dois papéis que toda a língua encarna. As culturas que o esquecem são as que têm já, dentro de si, as primícias do seu esgotamento. Por graças da História, a língua portuguesa encontrou-se, em dado momento, em condições de elevar esse desafio, esse exorcismo conaturais a toda a fala, a exercício, quase se podia dizer, a missão vital, amalgamando como poucas o destino da sua cultura ao destino da sua língua. Essa aventura podia ter sido, como outras europeias, apenas um exemplo mais da violência colonizadora clássica. Foi também isso, mas foi algo mais e mais importante.

A celebrada alma portuguesa pelo mundo repartida, de camoniana evocação, foi, sobretudo, língua deixada pelo Mundo. Por benfazejo acaso, os portugueses, mesmo na sua hora imperial, eram demasiado fracos para “impor”, em sentido próprio, a sua língua. Que ela seja hoje a fala de um país-continente como o Brasil ou língua oficial de futuras grandes nações como Angola e Moçambique, que em insólitas paragens onde comerciantes e missionários da grande época puseram os pés, de Goa a Malaca ou a Timor, que a língua portuguesa tenha deixado ecos da sua existência, foi mais benevolência dos deuses e obra do tempo que resultado de concertada política cultural. Sob esta forma, um tal projecto seria mesmo anacrónico. Nenhum autor português, nem estrangeiro, escreveu acerca da nossa acção uma obra como “a conquista espiritual do México”, pois não tivemos nenhum México para conquistar e lusitanizar.

O derramamento, a expansão, a crioulização da nossa língua foram como a das nossas “conquistas”, obra intermitente de obreiros de acaso e ganância (da terra e do céu) mais do que premeditada “lusitanização” como nós imaginamos – porventura enganados – que terá sido a romanização do mundo antigo ou a francisação e anglicisação dos impérios francês e britânico.

Quiseram também as circunstâncias – na sua origem pouco recomendáveis – que a nossa língua europeia, em contacto com a africana escrava, se adoçasse, mais do que já é na sua versão caseira, para tomar esse ritmo aberto, sensual, indolente, do português do Brasil ou o tom nostálgico da de Cabo Verde.

A miragem imperial dissolveu-se há muito. Da nossa presença no mundo só a língua do velho recanto galaico-português ficou como elo essencial entre nós, como povo e como cultura, e as novas nações que do Brasil a Moçambique se falam e mutuamente se compreendem entre as demais… Uma língua não tem outro sujeito que aqueles que a falam, nela se falando. Ninguém é seu “proprietário”, pois ela não é objecto, mas cada falante é seu guardião, podia dizer-se a sua vestal, tão frágil coisa é, na perspectiva do tempo, a misteriosa chama de uma língua.

Mas como duvidar que a longa cadeia dos mais exemplares e ardentes dos seus guardiães, aqueles que tornaram sensível o que nela há de imponderável, de Fernão Lopes a Gil Vicente, de Camões a Vieira, de Castro Alves a Pessoa, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, ou de Baltazar Lopes a José Craveirinha, se apague ou se estiole? Houve épocas de depressiva configuração em que não era possível pensar no futuro da nossa plural e una fala portuguesa, sem alguma melancolia.

Hoje, não temos motivos para imaginar que, em prazo humanamente concebível, o seu destino seja o dos famosos versos da Tabacaria de que o tempo apagará o traço e a memória. A pluralizada língua portuguesa tem o seu lugar entre as mais faladas no Mundo. Isso não basta para que retiremos dessa constatação empírica um contentamento, no fundo, sem substância. Se contentamento é permitido, só pode ser o que resulta de imaginar que esse amplo manto de uma língua comum, referente de culturas afins ou diversas, é, apesar ou por causa da sua variedade, aquele espaço ideal onde todos quantos os acasos da História aproximou, se comunicam e se reconhecem na sua particularidade partilhada. Não seria pequeno milagre num Mundo que sonha com a unidade sem alcançar outra coisa que o seu doloroso simulacro.

 

 

Eduardo Lourenço, ensaísta, professor universitário e filósofo, usa da palavra durante a cerimónia de entrega do Prémio Pessoa 2011, 14 de maio de 2012 em Lisboa.

 

Eduardo Lourenço (São Pedro de Rio Seco, 1923) é um professor e filósofo português. Entre 1953 e 1965, foi leitor de Cultura Portuguesa na Alemanha e em França. Começou como maître assistant na Universidade de Nice, até que se tornou jubilado pela mesma, em 1988. Em 1989, assumiu funções como conselheiro cultural junto da Embaixada Portuguesa em Roma e, desde 1999, ocupa o cargo de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Ganhou o Prémio Pessoa em 2011.