domingo, 3 de abril de 2016
Caro Leitor, seguem-se mais duas crónicas de Maria Margarida Mascarenhas. São escritos inéditos que aqui se publicam, gentilmente enviados por Adriano Miranda Lima
 
 
BLOW UP
 
Resposta a Adriano
Não a esse que construiu o Muro e delimitou as fronteiras do seu poder que dialogou com a Yourcenar, também Margarida de nome, mas ao amigo dessas viagens ontológicas.
É que esse convite chegado por power point convidando-me ao esplendor de uma viagem ao cosmo, de escalas aumentadas ou reduzidas, em sentido inverso elevado à potência n, teve sempre um ponto de partida e de chegada convencional. No power point era a folha de uma árvore.
Mas nunca deixei de sentir que eu era o passageiro no verdadeiro sentido de todas as viagens e que o condutor do veículo não se via, mas lá estava no eixo do caminho aleatoriamente escolhido. Logo, há uma escolha. Não sei se uma opção.
Mas alguém ou algo propunha um diálogo dando-me a capacidade de interpelar. De interpelar o universo em todos os sentidos cognoscíveis. Para ficar a saber que uma rosa, não é uma rosa, não é uma rosa; mas que é a rosa. Enfim, para me levar nesta viagem das ideias no meu microcosmo de cogitações e enigmas e deparar com a interrogação de um Nietzsche aos gregos, que colocaram o homem como a medida de todas as coisas porque precisamente eles tinham a necessidade da tragédia. E no fim para me relembrar que é questionável a problemática da ciência como é hoje entendida.
E o que explica a coincidência de estar a preparar uma crónica sobre o blow-up precisamente quando na noite seguinte assisto a um documentário sobre o nosso planeta e as suas vicissitudes de milhões de anos, de cataclismos naturais, de separação dos continentes, de degelos e desaparecimento de dinossauros? É tudo indiferente a esta criatura que aqui debita e sente uma frisson ou calafrio por saber que de 30 em trinta milhões de anos acontecem as catástrofes quando, no seu trajecto no universo, a Terra se encontra numa zona mais densa que provoca tempestades solares e queda de meteoros e... que podemos estar agora nessa fase cíclica?
Todos estamos cônscios da nossa finitude mas a tragédia faz-nos questionar e interpelar? E recebo a interpelação do Adriano precisamente neste nó existencial. Alguém me interpela.
Parece que no universo tudo está escrito e imutável e que alguém brinca connosco num diálogo socrático intencional fornecendo-nos pistas e chaves inseguras mas que nos vai espiralando num vertiginoso crescente e decrescente blow-up. Ampliando ou diminuindo, explodindo ou não, afastamo-nos sempre individual e colectivamente porque quanto mais aumentamos mais desfocamos, embora recortando o objecto sem encontrar a solução do enigma.
 
Lembram-se do filme BLOW-UP?
 
 
Paço de Arcos, 30 de Novembro de 2006
 
 
Maria Margarida Mascarenhas
 
 
 
 
 
 
 
Amores-Perfeitos
 
Estamos na estação dos amores-perfeitos. Informação dada no momento rural da manhã pelo engenheiro agrónomo Sassetti. E mais! Seguem o ciclo da vida.
Não suportam o Inverno nem o Verão. Teremos de optar por guardar as sementes ou comprá-las nos viveiros da Câmara e vê-las crescer pela raiz.
 E por essa magia com que pinto o meu quotidiano, abro o computador e descubro esse mimo de singeleza oferecido pelo amigo Adriano: Esse cartoon animado em simplicidade de traço Modigliani que me fala do mistério da renovação da vida e que me traz à ideia o nosso Nobel de literatura com as intermitências da morte. Esse desafio ao nosso desejo de perenidade. Num segundo que dura a nossa eternidade, passamos pelo prazer, pela alegria, pela união/afastamento e pelo desgosto não separado de uma liturgia necessária à citação do nosso destino.
 Desfilam como num filme os meus avós, pais, sobrinhos e netos nessa matrioska do nosso entendimento e dos nossos limites num ”never-ending story”.
E vou-me renovando pelas raízes, plantando amores-perfeitos nas estações em que se me oferecem em pleno, embora tenha em casa umas imitações de plástico…como as fotografias que emolduram o meu espaço.
 Plantemos amores-perfeitos e … que sejam perfeitos ”enquanto duram”
 
Paço de Arcos, 22 de Fevereiro de 2006
 
Maria Margarida Mascarenhas
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 

terça-feira, 29 de março de 2016

Eis mais um inédito da escritora, contista Maria Margarida Mascarenhas (1938-2011) enviado ao «Coral Vermelho» pelas mãos amigas de Adriano Miranda Lima. Uma crónica sobre o final da vida.

 

Cemitério de elefantes

 
Já não ofertarei mais chocolates a Maria Inácia. Despedimo-nos dela e de sua vida quase vegetativa no último domingo. Mas adorava chocolates.


A caçula da Clotilde já os enterrou a todo, um a um, desde que retornaram de Angola. Conheci-a acompanhando a penúltima às sessões de quimioterapia. Saberá ainda recuperar a vida que não viveu?
 

Em Cabinda contaram-me histórias dos cemitérios dos elefantes devastados por caçadores de marfim. Os elefantes quando pressentem a morte dirigem-se para um local escolhido para isso.
 

Há quem tome as suas decisões. Há quem delegue noutros essa decisão e há aqueles a quem ninguém pergunta nada e se decide tudo por eles. EUTANÁSIA.
 

A Maria Inácia foi levada no dia um de Setembro para uma antecâmara de um desse lugares de nomes celestiais e paradisíacos e pela primeira vez recusou comer os meus chocolates.
 

Como sempre fui conversar com o meu banco azul. A Bela acácia mesmo em frente ao banco definhava a olhos vistos, cheia de buracos e infestada de cogumelos gigantes. A última poda deve ter ditado, para meu desgosto, a sentença. A serra eléctrica cortou-a cerce ao passeio e ali estava aquele vazio alargando-me o panorama do rio.
 

Todos os dias contemplo o que sobejou, uma face em forma de coração expondo como num calendário dos Maias a história daquela vida e o tempo que a habitou. Círculos concêntricos e irregulares onde conto os anos e as fases daquela vida. Anos mais fartos, anos mais sóbrios, rugas, dores e cicatrizes. Entre a lisura do tronco e a sua crosta nasceu um misericordioso rio resinoso formando colóides.
 

Surpreendeu-me hoje aquele relógio vegetal de raízes pujantes. As chuvas de Setembro choraram sobre ela e no bico da oração cresce já com alguns ramos uma futura árvore se a lei humana se sobrepuser à Natural. As duas leis que regem aquele jardim....
 
A quem posso ainda oferecer chocolates?

 
Paço de Arcos, 28 de Setembro de 2006
 
Maria Margarida Mascarenhas

 

 
segunda-feira, 28 de março de 2016

O texto que se segue é da autoria de Maria Margarida Mascarenhas (1938-2011)
Trata-se de um inédito, gentilmente enviado por Adriano Miranda Lima, colaborador deste Blogue.
 
“A DIMENSÃO OCULTA”


É o título de um livro de tese do T. Hall que vivamente recomendo a quem não o leu.

 A dimensão a que se refere diz respeito à “proxémia” ou a distância a que cada povo no Universo tolera a proximidade física do outro em sociedade.

Vou atrever-me a extrapolar um pouco a sua teoria para outras áreas e até ao Tempo.

O meu cunhado que é de origem céltica, de olhos azuis e pele de lagosta cozida, desembarcou no Aeroporto do Sal com a minha irmã que é cabo-verdiana. No controle dos passaportes passou de imediato a minha irmã ficando ele do outro lado da fronteira para preencher papeladas e solicitar o visto. O Funcionário ficou girando o passaporte nas mãos e olhando para cada um deles em amena conversa de cada qual do lado das suas fronteiras. Foi então que num gesto lento dos salenses ele aboliu as fronteiras devolvendo-lhe o passaporte português: é casado com ela, pode passar, nhô ê cabo-verdiano!

Foi um gesto de simbologia e efeitos invejáveis pelas diplomacias de corredores e de turismo de folhetos: como um sincero voto de boa estadia! Sem gorjetas nem corrupção. A dimensão oculta da nossa Morabeza.

Em Cabo Verde tudo se resolve naturalmente noutra dimensão temporal e espiritual. Foi também assim com o meu problema identitário e com a maturidade do País.

As fronteiras traçadas pelos políticos e as outras onde nós nos encarceramos.

Em 1978 fui pela primeira vez a Cabo Verde após a independência. Levei passaporte cabo-verdiano e corria tudo bem quando me surgiu um problema que parecia grave. Para sair exigiam-me comprovativo de trabalho em Portugal e autorização de residência que está claro não possuía.

Tinha de ir trabalhar no dia seguinte em Portugal e lá me vi ensanduichada numa fila sem espaço para corpos, ensopada no suor dos meus patrícios de construção civil num dia de Verão sufocante, num estreito corredor que se estendia para a rua, na Polícia de fronteiras.

Nisto passa alguém conhecido que ao me ver naquele sufoco e me tira da fila convidando-me discretamente a sair para um refresco. Naquela proxémia de “fila africana” já não sabia qual a minha identidade.

Precavida, levara também na mala o meu passaporte português, com que por fim acabei por sair de Cabo Verde através de outra dimensão oculta.

De 1978 a 2006 a evolução natural da nossa dimensão oculta.

Paço de Arcos, 2 de Agosto de 2006

 
Maria Margarida Mascarenhas

 

Viva a Primavera!...

quinta-feira, 24 de março de 2016

No passado dia 20 uma onda perpassou sobre o arquipélago e coloriu todas as ilhas de verde anunciando a Primavera. Chegou com a pontualidade de um relógio suíço e rigorosamente como indicado no calendário do tempo - 20 de Março, equinócio de Primavera 2016.
O MpD – o partido da liberdade e da democracia – voltou ao poder depois de uma longa travessia no deserto de quinze penosos anos. O povo saiu à rua e a festa foi rija e grossa até de madrugada muito alta onde nem sequer faltou fogo de artifício celebrando o equinócio político.  

Ulisses Correia e Silva, o timoneiro desta viagem vitoriosa é aclamado, com todo o mérito, por todo o lado. É a personagem do momento para a qual todas as esperanças convergem. No discurso da vitória lembrou que não há vencedores nem vencidos mas apenas Cabo Verde. Ficou-lhe muito bem para um discurso de vitória. É um lugar-comum para as pessoas de bom senso.
Mas a sua vitória sendo saborosíssima por vivificar o nosso sistema democrático ao corporizar a alternância democrática não é inédita e, felizmente, ficou aquém das de Carlos Veiga – duas maiorias qualificadas – o que faz de Jorge Nogueira o verdadeiro homem-surpresa destas eleições pelo ineditismo do seu êxito – cobrir a ilha do Fogo de verde.

As promessas do PM “eleito” eufemisticamente transformadas em “compromissos” sendo necessárias e certas, só serão válidas e úteis se forem bem executadas. O caminho é escabroso não pelas opções de políticas mas porque está minado com as nomeações de última hora do PM cessante, as inúmeras agências reguladoras – cerca de duas dezenas – dominadas completamente pelo aparelho partidário do PAICV, as empresas públicas dirigidas pelos boys  quase todos da Comissão Política do PAICV, a Função Pública infestada com os rapazes e as meninas do PAICV, as instituições do ensino público na sua quasi-totalidade orientadas e contaminadas pela ideologia sustentada numa narrativa histórica do PAICV (Não esquecer que em 41 anos da História como país independente 31 são do PAIGC/CV)…   A tudo isto deve-se ajuntar a enorme dívida pública, o estado calamitoso de algumas empresas públicas da qual sobressaem os TACV, a IFH e a Electra, o anémico crescimento económico (à volta de 1%), as depauperadas finanças públicas com a dívida acima dos 120% do PIB, entre outras.
É assim que quando vi escrito em outdoors com fotografia de Ulisses “Nha partido é Cabo Verde” a minha primeira reacção foi de apreensão e preocupação… Apreensivo por chegar a pensar que o slogan era uma demarcação dos partidos políticos e do seu MpD relegado para um cantinho; preocupado porque me sugeria uma perigosa presunção, precisamente porque não há democracia sem partidos políticos; e, algum temor à mistura porque apesar de ter dito que rezava todos os dias para que o poder não lhe subisse à cabeça, a frase representava um certo messianismo que o desmentia; e também, porque é sabido que a popularidade é quase sempre um produto da propaganda e, consequentemente efémera, e ninguém ganha eleições, sobretudo as legislativas, sem uma poderosa máquina partidária a sustentá-lo. Por fim, pensando melhor, considerei-a uma metáfora eleitoralista que o coloca já como Primeiro-Ministro e deste modo acima dos partidos políticos.
 
Não tenhamos dúvidas: Procurem e especulem os analistas políticos sobre as causas da vitória do MpD ou da derrota do PAICV. Encontrarão, seguramente, várias.
 
Mas a verdade, verdadinha, é que o governo e as suas estruturas de apoio estavam a cair de podre e o povo cabo-verdiano com a sua sabedoria e sentido de oportunidade resolveu dar-lhes o golpe de misericórdia.

Mau grado as enormes qualidades (que circunstancialmente conheci durante o tempo que junto partilhamos no Governo) de Ulisses Correia e Silva – seriedade, humildade e muito empenhamento – hoje potenciadas pela sua significativa e consistente experiência política  – partidária, autárquica e parlamentar, para além da já referida governativa – o seu principal trunfo foi a excelente gestão da Câmara da Praia que não sendo pouco, não era, contudo, suficiente para o extrapolar às outras ilhas, o projectar à escala nacional e provocar o tsunami que arrasou o PAICV para o qual a UCID também muito contribuiu. Quem ganhou as eleições foi o MpD no seu todo. E foi toda a equipa do MpD, sem qualquer excepção, de Santo Antão à Brava que soube tão bem explorar as fragilidades de um governo/partido corroído por escândalos vários – má-gestão (incompetência) e gestão danosa (incompetência e/ou corrupção se for intencional) gritantes, forte clientelismo, laxismo, nepotismo, amiguismo – e que há muito dava mostras de cansaço, de ausência de alternativas; em suma, de coma profundo.
A vitória é colectiva. É do MpD. O que não desmerece, bem pelo contrário, valoriza Ulisses como seu líder.

Da minha parte, temo profundamente os homens providenciais. O culto da personalidade, do qual temos todos uma péssima recordação, é grave e perigoso. Muito perigoso mesmo! E Ulisses não merece, de todo, este tratamento.
Assim como uma andorinha não faz a Primavera, um homem só, não resolve os problemas de um país em regimes democráticos. Repito: Não basta apenas ter boas escolhas, fazer opções certas. Muito mais importante é que estas escolhas sendo certas sejam também bem executadas. É aqui que entra a equipa, o partido e a sua envolvência.  

Por isso, quem “vai governar” é o MpD e deve fazê-lo com uma equipa coesa, empenhada, pragmática, ciente e respeitadora dos “compromissos” assumidos. Os compromissos não são só do Ulisses Correia e Silva que é, obviamente, o mais credenciado “porta-voz” do seu partido. São sobretudo do partido que ele lidera. Mas já as várias equipas dos mais diferentes níveis que os irão concretizar serão, em última instância, da sua inteira responsabilidade.
O caminho é estreito e totalmente minado; a margem de manobra extremamente limitada.
Impõe-se tirar proveito da alternância que as eleições proporcionaram, o que exige muita coragem e engenho para desminar e desarmadilhar o terreno e lançar alternativas, novos paradigmas de governação, uma vez que os actuais estão absolutamente esgotados.
Todos serão necessários porque o caminho é difícil… Muito difícil mesmo! Ninguém pode ser dispensável…

    A. Ferreira

A nossa Mestiçagem e as levas de Deportados vindos de Portugal...

quinta-feira, 17 de março de 2016

 
 Não há como deixar de fora – e não ajuntar a esta nossa formidável e bela mestiçagem - a contribuição dada pelos muitos Deportados para a então colónia penal de Cabo Verde. Se o destaque vai para as ilhas de São Nicolau, de Santiago e do Fogo, ( tendo esta última, registado e acolhido casos muito mais antigos dos “banidos do reino” ainda do tempo da monarquia); não é menos certo que outras ilhas também, foram terra de acolhimento para esses homens.  Muitos deles arrancados do seu país, por “crime” de opinião e de pensamento e às vezes de “tendência comunista” como  li  num documento  justificativo para a deportação de um professor liceal para S. Vicente, nos anos 40 do século XX.
Não falo da prisão fechada do Tarrafal. Trágico e horrendo “depósito” de homens valorosos também. Refiro-me sim, aos enviados, com residência fixa, para determinada ilha. Que circulavam, conviviam e trabalhavam em diversos sectores de actividade existentes nas ilhas para onde eram enviados.
E eles foram muitos. “ (...) de mais de três centenas de deportados, constituídos principalmente por civis e militares (...)” fixados em Cabo Verde, como assevera Victor Barros no seu livro, «Campos de concentração em Cabo Verde» E continua: “ entre 1927 e os primeiros anos de 1930, Timor e as  ilhas de Cabo Verde constituíram os destinos preferenciais para o isolamento e a fixação de centenas de deportados (...) num total de 800”.  Transcrições do Livro.
Eram homens ainda jovens muitos deles, na força da idade e da vida, que sem dia de regresso, aqui viveram no meio de nós e aqui constituíram família. Uns, segunda família, pois já eram casados em Portugal e assim não puderam dar os apelidos aos descendentes. Há muitos casos assim. Outros, deixaram os filhos com os apelidos, pois que ainda solteiros o puderam fazer e outros ainda, casaram com mulheres da ilha onde tinham residência forçada. Muitos foram aqui enterrados
O caso da ilha de S. Nicolau é paradigmático disto que narro.
Caro leitor, tudo isto é mestiçagem, direi mais recente, em termos históricos, pois que advém do  século XX. Como alguém já o disse e bem: a nossa mestiçagem, não tem finidade à vista, está sempre a acontecer...
No caso do Fogo, lamento não possuir dados. Mas sirvo-me daquilo que o vulgo conhece. É interessante notar, que alguns dos deportados, tinham apelidos aristocratizantes e que os perdiam como castigo do rei, ou de alguém por ele, por serem “banidos do reino”. Também eles se fundiram em comunhão marital, com mulheres da ilha do vulcão e deixaram muita descendência. Só sei que da contribuição dada, não só a demográfica, ressalta igualmente, o desenvolvimento da ilha e da cidade de São Filipe, continuado pela direcção dos descendentes.
Para além do livro aqui citado, não conheço outro, com a extensão e a profundidade de «Campos de concentração em Cabo Verde» de Victor Barros. O livro em apreço, abarca também Timor e São Tomé e Príncipe, como espaços de deportação do Estado Novo, e o seu autor explica-nos que à ideia de deportação vinham juntos as de: “o isolamento e de depósito.” A leitura da obra,  conduz o leitor a perceber as condições abjectas como eram transportados de Portugal e atirados para as ilhas de Cabo Verde,  para Timor e para São Tomé, esses homens com o estigma de deportados. Triste condição humana!
Talvez  fosse já tempo, de surgir também, algum ensaio sério, sobre a história específica, dos deportados em Cabo Verde. Quem eram? De onde vieram? Como viveram aqui? As famílias que constituíram? E os descendentes aqui deixados? Estes são numerosos e ainda sabem e podem contar sobre as suas origens. Estas memórias não são assim tão antigas.
E porque não um marco histórico, lá nas ilhas onde viveram, sofreram? Mas também onde conheceram  gente e família que lhes mitigou e lhes suavizou o castigo, por largos anos?

Fica aqui o alvitre para alguma tese séria, descrevendo o caso particular da deportação para Cabo Verde.
P.S. – Se o estudo aqui alvitrado já existe, para além de felicitar o (a) autor(a), peço desculpas pela ignorância.
É que estava a pensar no meu amigo e historiador, Joaquim Saial, de pena séria e ilustre que possivelmente terá algum trabalho sobre este assunto.

 

 

 

 

SOBRE O TEMA DA EUTANÁSIA

segunda-feira, 14 de março de 2016

 

 

Este tema tem sido badalado nos últimos dias, interpelando o sentido da nossa humanidade e a nossa espiritualidade.

No ano passado, no mês de Maio, desloquei-me a S. Vicente/Cabo Verde, minha ilha natal, para estar presente numa altura em que, a minha mãe, aos 92 anos, sofrendo de doença grave pouco tempo antes detectada (cancro no pâncreas), estava acamada e a aguardar o desfecho final. Depois de ter estado internada no hospital, os médicos decidiram que ela devia regressar a casa porque o único tratamento ali ministrado podia ser prosseguido em casa: medicamentação para aliviar as dores, cuidados paliativos, como hoje se diz.

Num estado de semi-inconsciência, ela ainda me reconheceu quando cheguei, mas não tardaria a perder a noção do que a rodeava. Pelas informações que fui recebendo enquanto estive ausente, o súbito agravamento do seu estado convencera-me de que tinha de viajar sem demora, sob pena de não chegar a tempo do funeral, dado que, com a sua avançada idade, a morte podia ocorrer a todo o momento. No entanto, assim não aconteceu. Ela ainda resistiu 21 dias desde a minha chegada, o que me proporcionou o conforto espiritual de lhe fazer uma companhia que, embora em circunstância dolorosa, tinha para mim um significado muito especial: no momento derradeiro, estar presente e desejar que a minha mãe permanecesse viva o mais que pudesse.

Mas aí é que podem emergir sentimentos contraditórios. Sentir o enlevo da presença de um ente querido e ao mesmo tempo assistir angustiosamente ao seu sofrimento, sabendo-o uma tortura de que só a morte é capaz de libertar. Interrogar-se também sobre qual será o desejo que o doente acalenta lá no fundo da sua semi-inconsciência quando, como era o caso da minha progenitora, não era possível qualquer comunicação verbal ou minimamente sinalizada.

O que eu senti, eu, Adriano, e toda a família, é que seríamos de todo incapazes de autorizar qualquer forma de eutanásia, mesmo que a mãe, estando consciente, o desejasse. No entanto, no que a mim toca, se um dia vier a estar em semelhante situação, desejarei, pelo contrário, que os meus familiares autorizem o termo do sofrimento. Mas o que desejarei para mim não o projecto para outros.

Eis uma questão verdadeiramente controversa e difícil de ser avaliada sob uma perspectiva jurídica sem que a nossa consciência ético-moral e os fundamentos da nossa espiritualidade não reclamem primazia.

No entanto, em Portugal, no dealbar do século passado, a eutanásia era praticada nas remotas aldeias serranas. Escreve o Aquilino Ribeiro na sua obra “Geografia Sentimental” que essa prática era usual naquele tempo. Quando um idoso, em fim de vida, se apresentava doente, em grande sofrimento, sem esperança, a família chamava o “abafador”, um homem que se prestava ao acto de abreviar o sofrimento de outrem. E Aquilino descreve a cena: na sala, o mulherio aguarda em silêncio; entra o “abafador” e, sem palavra, dirige-se ao quarto do paciente que, à vista, começa a gemer; o outro, às cavalitas, tapa-lhe o rosto com a almofada e pressiona até que a imobilidade sucede ao estertor. Consumada a tarefa e pago, o “abafador” sai e o mulherio rompe em choro lastimoso: “ai coitadinho, ai coitadinho…”.

Mais de um século depois, interrogamo-nos sobre o que verdadeiramente evoluiu positivamente em termos civilizacionais. Os recursos da ciência médica para aliviar o sofrimento do doente terminal? Certamente que sim. Os fundamentos da nossa consciência ético-moral em relação aos tempos transactos? Provavelmente não.

 

Tomar, 13 de Março de 2012

Adriano Miranda Lima

 

 

 

 
sexta-feira, 11 de março de 2016

Porque estamos em tempo de campanha eleitoral e a maldita praga da “compra de votos” dos pobres e dos emigrantes igualmente pobres, instalou-se entre nós  de uma forma afrontosa e descarada, com casos julgados em tribunal; porque temos de dar um basta! a esta violentação de consciências,  vai aqui transcrito da LUSA, o veemente apelo da Igreja Católica. Bem haja!

 
O apelo oportuno da Igreja Católica de Cabo Verde

 A Igreja Católica de Cabo Verde através dos seus Bispos, encabeçada pelo seu Cardeal, exorta os cabo-verdianos a "não venderem, nem trocarem o seu voto", apelando para a denúncia de qualquer tentativa de "compra de consciência" nas eleições deste ano.

Numa nota pastoral sobre as eleições de 2016, divulgada hoje, os bispos cabo-verdianos, "encorajam cada católico ou cada cidadão" a "não deixar que nada nem ninguém o obrigue a votar contra a sua consciência, a nunca vender nem trocar por nada o seu voto".

"Apelamos a que denuncie vigorosamente às autoridades competentes toda a tentativa de manipular ou desvirtuar o seu voto, a troco de favores e outros meios ilícitos e antidemocráticos", adiantam os bispos de Santiago, cardeal Arlindo Furtado, e do Mindelo, Ildo Fortes.

A nota pastoral apresenta "alguns princípios a ter em conta" no período eleitoral, sublinhando a necessidade de "exortar os cidadãos para o seu dever político e cristão de exercer de forma livre, consciente e autónoma o seu direito-dever de votar".

Os líderes da Igreja Católica em Cabo Verde esclarecem que não querem dar qualquer indicação de voto, mas manifestam o desejo de que "os cristãos votem segundo as exigências da doutrina social da Igreja, os direitos fundamentais da pessoa humana e em resposta às necessidades sociais, culturais, educacionais e económicas da sociedade".

"Escolher os deputados da nação é um compromisso social e cristão muito sério, porque se trata de eleger aqueles que em nome do povo vão fazer leis e governar o país num contexto social, cultural e económico conturbado", referem.

Sublinham, por isso, que os candidatos "devem ser escolhidos com base em princípios éticos fundamentais. O voto deve ser dado a quem pode realmente dar respostas razoáveis e reais às questões da atual sociedade cabo-verdiana".

Os bispos apelam ainda para a participação eleitoral nas três eleições que o país realiza este ano - legislativas, autárquicas e presidenciais. "São três grandes oportunidades para os cidadãos darem a sua colaboração na edificação de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna, através do voto", sublinham.
O documento da Igreja Católica indica ainda que todos são "livres de apoiar um ou outro partido" e que "ninguém deve considerar quem pensa diferente como um inimigo a abater".

"O espírito democrático e a maturidade humana e política devem levar-nos a aceitar o pluralismo de ideias e programas como algo natural entre pessoas que amam igualmente a sua pátria e procuram o bem comum. A unidade deve prevalecer sobre o conflito", refere o texto.

 Os bispos manifestam também o desejo que a campanha eleitoral em curso e as outras que virão "sejam marcadas pela ética e pela elevação do discurso".
"A campanha eleitoral serve para elucidar o cidadão quanto aos problemas sociais e dar a conhecer os candidatos e as propostas de cada partido [...] é uma oportunidade de reflexão sobre o que precisa ser escolhido e implementado em Cabo Verde e sobre o que deve ser mudado e rejeitado", adiantam.

Texto transcrito da LUSA – Agência de Noticias, 09 Março de 2016.



Parte inferior do formulário