sábado, 16 de abril de 2016

Retomando o texto do Armindo, gostaria de acrescentar que na poesia de Gabriel Mariano, é recorrente a figura de “Capitão” enquanto sujeito poético e com a significação de líder popular, de quem está à cabeça de algo que há-de acontecer, uma revolução, uma sublevação, uma mudança, um novo dia. Semantema polissémico, “capitão” ganha igualmente estatura profética, pois ele é  anunciador de um futuro próximo diferente, para melhor, contido em desejo veemente na mensagem poética de G. Mariano.

 Assim foi em  Capitão Ambrósio” (1956) poema ícone, não só de um tempo acusatório de fome, de crise, mas também augúrio para tempos novos, para “madrugadas” de promessas e plenas de esperanças.

Ora, daí que surja o nosso Nho Ambroze – Mestre Ambrósio, carpinteiro de profissão, na explicação dada por Baltazar Lopes da Silva -  transfigurado poeticamente em “Capitão Ambrósio” um autêntico lider, capaz de galvanizar todo o Arquipélago, para um levantamento, pois ele ousou, porque o povo estava afrontado, e foi preso por isso mesmo. Pagou com o degredo e a masmorra o “crime” da sua coragem.

Gabriel Mariano, empresta ao seu sujeito poético: “Capitão Ambrósio uma projecção e uma dimensão épicas. Um herói popular, um profeta, um mártir. “Capitão Ambrósio” corporiza e antropormorfiza, a figura desejada, esperada, para que as ilhas entrassem em “trilhos verdes florindo” para que o povo pudesse “ plantar na dor nova flor” e “cantar na madrugada limpa”

Poema de tom empolgante e de ritmo em crescendo, “Capitão Ambrósio” assume-se hino, ode, canto e marcha triunfal, rumo à liberdade.

Outra nota interessante em Gabriel Mariano, é que  Ambrósio tinha que ser “mulato”. É que assim carrea a simbologia/antropológica do cabo-verdiano mestiço, ou, não fosse G. Mariano  autor do grande ensaio «Do Funco ao Sobrado – ou o Mundo que o Mulato criou»  (1959) perfigurando as ilhas de Cabo Verde. O ensaista exaltou sempre o papel do mestiço, o protagonista, o motor e “a força propulsora” da construção da sociedade cabo-verdiana. Logo, tanto para o poeta, como para o ensaísta, o mulato é o sujeito/objecto da própria caboverdianidade.

Apenas para o leitor se relembrar, transcrevo a seguir algumas estrofes do longo e épico poema:

CAPITÃO AMBRÓSIO

                                                                 (...)

O povo marcha na rua.

Vai na frente o Ambrósio

mulato Ambrósio guiando

leva nas mãos a bandeira.

Pesada e fria é a noite

injusta e amarga é a fome

mas vai na frente o Ambrósio

e há promessas de luz

para além da negra bandeira

novos caminhos de amor

de trás da negra bandeira

caminhos novos sorrindo

florindo novos destinos

Certos

Perfeitos

Abertos

Em olhos famintos abrindo

destinos claros na frente ...

                     (...)

Guiando o povo marchando.

                     (...)

Foi um minuto

veio o vento e passou.

Mulato Ambrósio foi preso

julgado e preso o Ambrósio

preso para longe o Ambrósio

mandado pra longe o Ambrósio

longe do povo o Ambrósio.

Mas a bandeira ficou.

Morreu e foi enterrado

mas a bandeira ficou.

Meu capitão

e a morte chega sempre indesejada.

                     (...)

Capitão! a voz vem dos mortos

- Vem nos ventos e na lua -

vem dos vivos sem rumo

vem nos famintos catando

o seu destino na rua.

Capitão! E a voz

esta voz somos nós.

Se o choro

Plantando na dor nova flor

renasce com novo calor ?

Capitão! Esta voz somos nós!

(...)

Capitão! volta no choro outra vez!

Chiquinha foi e morreu

Nhonhó partiu e ficou

Mas tu volta pra nós.

(...)

A gente grita cantando

Capitão Ambrósio chegou!

Chegou o Ambrósio chegou!

(...)

Na frente segue Ambrósio!

Meu pai: manda o povo cantar

manda o povo cantar na madrugada limpa

manda o povo cantar com tambores e búzios

Quando o Ambrósio chegar.

Lisboa, 1956

Ora bem, o simbólico “Capitão” tão ao gosto do poeta Gabriel Mariano, representa a força emotiva, que ultrapassa toda a adversidade. Prefigura a solidariedade, a voz messiânica que se sobrepõe ao passado/presente e galvaniza o ouvinte/povo a prestar atenção ao futuro outro e que vem a caminho.

Assim, vamos encontrar de novo a figura de “capitão” com a mesma simbologia dos versos anteriores,  no poema “Sabará Passará” que a seguir transcrevo:

 - Que homem é aquele que lá vem que lá vem?

É um capitão que vem meu irmão.

As ondas do mar

são altas são altas

Sabará passará!

As ondas do mar

São altas são altas

Sabará passará!

As ondas do mar são

São moles são moles

Sabará passará!

As ondas do mar

Não são de fiar

Pelas ondas do mar Sabará passará

- Que homem é aquele que lá vem que lá vem?

É um

Capitão

Que vem

Meu irmão!

( 12 Poemas de Circunstância, 1965)

Afinal, “Capitão” é uma ideia-força do também  insubmisso poeta que foi Gabriel Mariano.

José Gabriel Lopes da Silva Mariano, nasceu na Vila  Ribeira Brava, ilha de S. Nicolau, a 18 de Maio de 1928. Faleceu em Lisboa, Portugal, a 18 de Fevereiro 2002. Jurista de profissão, Escritor, poeta e ensaísta. Autor notável, uma das figuras de proa na galeria dos grandes pensadores e dos homens da cultura cabo-verdiana. Iniciou-se no «Boletim Cabo Verde» tendo ganho em 1950, o 1º prémio na modalidade Conto. Publicou neste períodico, poemas, contos e ensaios.Colaborou igualmente na revista «Claridade».

 Da sua vasta obra publicada, destacamos: «Amor e Partida na poesia crioula de Eugénio Tavares» ensaio, 1951; «A Mestiçagem: seu papel na formação da sociedade caboverdeana» ensaio, 1958; «Inquietação e Serenidade – Aspectos da insularidade em Cabo Verde» ensaio, 1959; «O Rapaz  Doente» conto, 1963;  «Uma Introdução à Poesia de Jorge Barbosa» ensaio, 1964; «12 Poemas de Circunstância» 1965; «João Cabafume» colectânea de contos, 1976; «Osvaldo Alcântara – O Caçador de Heranças» ensaio, 1991.  

Poeta e ensaísta de mérito, detentor de vários prémios literários e culturais, Gabriel Mariano figura em inúmeras Revistas e Antologias poéticas de Língua portuguesa e de língua francesa.    

 
terça-feira, 12 de abril de 2016

Codornizes um petisco à sua mesa
 
 
A semana começou sob o signo das aves com a inquietante pergunta da minha priminha Susana Loff se gostaria de ser ave. Está claro que lhe respondi que gosto de ser mulher e voar com uma propulsão vinda do interior.
 
Depois veio a ternura do pardalinho da Lica e a águia do Adriano, esta última uma espécie de Lili Caneças do reino dos pássaros.
 
Mas de manhã muito cedo no meu passeio matinal tive um choque desagradável ao deparar logo à entrada do meu Jardim com aquele painel explosivo de uma espécie de ave-do-paraíso de rosto alienígeno e triste e cauda exuberante desfolhando-se como fogo de artifício em pétalas de sangue. Recuei instintivamente mas corajosamente continuei em frente. Outros tantos painéis expunham-se abrindo alas grafitando-me a consciência e ameaçando-me com os seus labirintos, setas, garras, bicos afiados gotejando sangue, punhais, granadas de mão, faróis amarelos de escondidos automóveis, entranhas de motores, setas, setas e mais setas num emaranhado de cores negras e vermelhas apontavam-me a saída daquele labirinto, mas não atinava com ela. Vi um pássaro dinossáurico sobrevoando numa sugestão humana uma mesa de mistura de sons em cores cinzentas num ambiente sufocante de um Disco-jockey corcunda. Uma rapariga de sonho com um cabelo emaranhado de setas e sangue exibindo uma bem desenhada flor cor-de-rosa na orelha. O painel de traços menos psicadélico delineava um militar de rosto oriental com um capacete tapando-lhe os olhos, tendo do lado esquerdo uma mão segurando uma granada e do lado direito uma espécie de pequeno cadafalso com um dedo engatilhado na corda.
 
E no meio desta inconformidade e revolta dos guetos urbanos destoava um jovem azul contorcendo-se numa calçada branca num rap ou quiçá numa capoeira baiana.
 
Semana da Juventude em Oeiras e a municipalidade tentando engodar este gueto aprisionando-o em painéis de madeira prensada.
 
Mas por detrás de um painel descubro que continuaremos a ter as paredes sujas por aí e que não passa de umas tréguas com o outro gueto a que pertenço.
 Nas costas de todas, as telas aliviavam-se com textos e www endereçando-nos para os seus sites e obrigavam-me a enfrentar a minha consciência. Não faça de konta ke não sabe kem somos!
Apesar de tudo que venham os Freuds e Hitchcoks da Praça desmontar esses pássaros, motores, velocidades, faróis, discotecas e essas setas que persistem em aparecer na variedade de autores, ou pertencem à mesma escola.
Quando cheguei à porta da minha casa, ainda me senti entusiasmada com o belo desenho da carrinha de distribuição do meu minimercado exibindo umas codornizes encantadoras que me sorriem sem ressentimentos convidando-me: Codornizes, um petisco à sua mesa. E garanto-vos que o desenho não continha gotas de sangue. Não há Hanniball que resista.

 
Paço de Arcos, 13 de Maio de 2006

 
Maria Margarida Mascarenhas

 

 
Uma Nota de agradecimento: O Blogue sente-se altamente honrado, por poder publicar estes escritos inéditos da nossa conterrânea e saudosa Contista, Maria Margarida Salomão Mascarenhas. Os agradecimentos vão direitinhos para o amigo e colaborador, Adriano Miranda Lima, que tão gentilmente os fez chegar ao Coral Vermelho.

Mais uma Crónica inédita da M. Margarida Mascarenhas


Bunda invejável

Agora que me decidi a assumir-me como "negra greco-romana”, descubro que no acordo lusófono acrescentou-se à lista dos elementos que definem a cabo-verdianidade: a bunda.
 
Oh tempo volta para trás…
 
Agora é que eu desejaria ser cabo-verdiana de corpo livre e carne rija de bunda ao vento, perseguida pelos machos dos PALOPS como um golfinho brincando nas águas. EVA, de Germano Almeida.
 
Ai Tarrafal, ai arquipélago que foi Colónia!
 
TRAGO MARCADA NA CARNE AS MARCAS DAS ÉPOCAS POR MIM VIVIDAS, DAS TORTURAS QUE ME FORAM IMPOSTAS, DA PRISÃO A QUE ME SUBMETERAM.
 
Quando cheguei em 1963 a Portugal com o meu corpo de “crioula constrangida” como fui cantada por um vate luso, com o meu rabinho (como se dizia então) soltinho e ondulando debaixo das linhas Saco que era o look de então, as professoras Higgins que me descobriram e protegiam ali na Aeronáutica Civil, transformaram-me na Pobre Elisa que teria de aprender as regras da Europa e enterrar a imoralidade das mulatas tentadoras.
 
Pois é! Transformaram-me nos cânones da My fair Lady. Além dos ditongos dos “erres” e dos “alios em vez de alhos” os “filios em vez de filhos” “o frio em vez de friu”, infligiram-me a pior das torturas. Aprisionaram a minha Bunda numa “CINTA DE CASTIDADE”. Obrigaram-me a usar cintas e meias de ligas sempre soltas nas minha volumosas pernocas….
 
Fui casta, como as belas chinezinhas de pés de dez centímetros. Não havia mãos violadoras que me arrancassem as cintas…
 
Tal como a viola aprisionada, esperei um habeas-cinta, que só a revolução dos Cravos me restituiu. Tarde demais. A minha Bunda transformara-se numa Bunda greco-romana, e que ROMANA! Tinha a bunda “enfaixada” das mondrongas, como diria a minha amiga Lilica Pires.
 
Nem morna, nem funaná, nem cachupa! Só queria ver a minha bunda cabo-verdiana restaurada e perseguida pelos olhares do século vinte e um.

 
Paço de Arcos, 7 de Abril de 2006

 
Maria Margarida Mascarenhas

 

Daniel Filipe – Poeta da solidão e do exílio

domingo, 10 de abril de 2016

O poeta luso-cabo-verdiano, Daniel Filipe, nasceu a 11 de Dezembro de 1925, na ilha da Boavista e faleceu em Lisboa, ainda novo aos 38 anos de idade, a 6 de Abril de 1964. Portanto há 52 anos.

 De acordo com os seus biógrafos, entre os quais, destaco e cito Manuel Ferreira, (vide «No Reino de Caliban», Vol. I 1975) é quem nos informa que o poeta Daniel Filipe, de seu nome completo, Daniel Damásio da Ascenção Filipe, chegou criança ainda – “com cerca de 2 anos de idade” – a Portugal, levado pelo pai, deportado na Boavista, Coronel médico, Gonçalo Monteiro Filipe. A mãe, Rita Maria Ascensão, era natural da  ilha das dunas.

Na antiga Metrópole, Daniel Filipe  fez  os seus estudos e foi funcionário do Minstério do Ultramar. Esteve destacado na Agência – Geral do Ultramar e, daí dirigia o programa radiofónico: Voz do Império, da Emissora Nacional.

Figura em várias antologias poéticas de Língua portuguesa. Tendo aparecido na 3ª edição da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, publicada em 1971, edição Círculo de Poesia, Livraria Moraes Editora e que abarcou poetas  do período 1945-1971 . Mas já antes desta importante edição, Daniel Filipe publica  em 1965, na  «Poesia Portuguesa de após-Guerra de 1945 – 1965».

Interessante é que nela, na Antologia citada, já  aparece impresso o poema mais famoso e conhecido de Daniel Filipe que é a «Invenção do Amor», então muito declamado, nos anos 60 do século XX  ainda que sob censura e ameças da polícia política em saraus poéticos e em manifestações nas Universidades portuguesas e nos teatros de intervenção, como um dos poemas ícones de protesto ao então regime salzarista. De recordar que o seu autor, foi perseguido e torturado pela PIDE.

Para além desse emblemático poema que marcou uma época, e que foi publicado pela primeira vez em 1961, sob forma de opúsculo; Daniel Filipe, deixou extensa e densa obra (se pensarmos na brevidade vivida. Morreu aos 38 anos de idade) marcada pela sentimento de solidão, de bloqueio e de pátria como lugar de exílio. Tópicos marcantes na escrita poética dita de intervenção social, na linha da literatura portuguesa neo-realista, então vigente.

Da sua poesia conhecida e publicada, no tocante a Cabo Verde, distingue-se:  «Missiva» (1946); «Marinheiro em Terra» (1949); «A Ilha e a Solidão» (1957) este último, mereceu o prémio Camilo Pessanha. A evocação da mãe-ilha, atravessada por uma melancolia em que a  saudade e a morna, mais um certo sentimento de orfandade pela ausência materna, acabam por ser neste livro, os sujeitos poéticos saudosamente mencionados pelo autor. No fundo e tal como disse Manuel Ferreira, “retomando a caboverdianidade.”

Pois bem, Daniel Filipe traz-nos no poema Ilha a seguir transcrito, a lembrança/saudade, que guardou da sua ilha, ainda que através de num exercício de reminiscência:

Ilha

No azul líquido é somente

um ponto anónimo da carta.

Ô minha fala inconsequente!

Saudade morna do ausente,

distante ainda que não parta!


O horizonte é linha de àgua

por estrelas-peixe enodoada.

Se me recordo em bruma e mágoa,

 à solidão da ilha trago-a

dentro de mim petrificada.

(A Ilha e a Solidão, 1957)

Eis mais um poema de Daniel Filipe. Nele o poeta evoca a aventura/desventura da pesca da baleia:

Romance de Tomasinho-Cara-Feia

Farto de sol e de areia,

que é o mais que a terra dá,

tomasinho-cara-Feia,

vai prá pesca da baleia.

Quem sabe se tornará?


Torne ou não torne, que tem?

Vai cumprir o seu destino.

só nha Fortunata, a mãe,

que é velha e não tem ninguém,

chora pelo seu menino.


Torne ou não torne, que importa?

Vai ser igual ao avô.

Não volta a bater-me à porta;

deixou para sempre a horta,

que a longa seca matou.


Tomasinho-Cara-Feia,

(outro nome, quem lho dá?)

Farto de sal e de areia,

foi prá pesca da baleia.

- E nunca mais voltará.

(A Ilha e a Solidão, 1957)


 Em Cabo Verde os seus poemas foram publicados no antigo «Boletim Cabo Verde», nos anos 60 do século passado, periódico dirigido por Dr. Bento Levy. 

Daniel Filipe, colaborou na revista literária «Távola Redonda» onde figuraram os mais distintos poetas portugueses de então. Foi co-Director dos Cadernos Poéticos,  «Notícias do Bloqueio», título sugestivo e bem significativo para a época.

Para além das obras já referidas, temos deste autor: O Viageiro Solitário (1951); Recado para a Amiga Distante (1956); O Manuscrito na Garrafa (romance, 1960); Pátria, Lugar de Exílio (1963).

Daniel Filipe foi um poeta do seu tempo e os seus textos reflectem o contexto  sócio-político em que viveu. Poeta culto, marcado por uma indagação inquieta e constante sobre o presente em que é negada ao Homem a fruição da liberdade, e sobre o futuro que se apresenta presumivelmente bloqueado. Carrega o poeta um sentimento de uma angústia existencial permanente que vai percorrer grande parte da sua escrita. Esta angústia apresenta-se envolta em revolta (s) sugerida (s), que acabam  transmudadas na mais profunda poesia. E isto acontece em grande parte dos seus textos.

Para terminar este escrito - que mais não pretendeu  que  relembrar um grande nome da poesia de língua portuguesa, que foi Daniel Filipe - deixo ao leitor, à guisa de fecho, as páginas que contêm a infausta notícia da morte do poeta, ocorrida em Abril de 1964 e enviada por Humberto Duarte Fonseca, ao «Boletim Cabo Verde» foi publicada no número de Abril-Junho do mesmo ano, aproveitando o períodico cabo-verdiano  a ocasião para prestar homenagem ao poeta luso-cabo-verdiano prematuramente desaparecido como se ilustra nas páginas que se seguem:

domingo, 3 de abril de 2016
Caro Leitor, seguem-se mais duas crónicas de Maria Margarida Mascarenhas. São escritos inéditos que aqui se publicam, gentilmente enviados por Adriano Miranda Lima
 
 
BLOW UP
 
Resposta a Adriano
Não a esse que construiu o Muro e delimitou as fronteiras do seu poder que dialogou com a Yourcenar, também Margarida de nome, mas ao amigo dessas viagens ontológicas.
É que esse convite chegado por power point convidando-me ao esplendor de uma viagem ao cosmo, de escalas aumentadas ou reduzidas, em sentido inverso elevado à potência n, teve sempre um ponto de partida e de chegada convencional. No power point era a folha de uma árvore.
Mas nunca deixei de sentir que eu era o passageiro no verdadeiro sentido de todas as viagens e que o condutor do veículo não se via, mas lá estava no eixo do caminho aleatoriamente escolhido. Logo, há uma escolha. Não sei se uma opção.
Mas alguém ou algo propunha um diálogo dando-me a capacidade de interpelar. De interpelar o universo em todos os sentidos cognoscíveis. Para ficar a saber que uma rosa, não é uma rosa, não é uma rosa; mas que é a rosa. Enfim, para me levar nesta viagem das ideias no meu microcosmo de cogitações e enigmas e deparar com a interrogação de um Nietzsche aos gregos, que colocaram o homem como a medida de todas as coisas porque precisamente eles tinham a necessidade da tragédia. E no fim para me relembrar que é questionável a problemática da ciência como é hoje entendida.
E o que explica a coincidência de estar a preparar uma crónica sobre o blow-up precisamente quando na noite seguinte assisto a um documentário sobre o nosso planeta e as suas vicissitudes de milhões de anos, de cataclismos naturais, de separação dos continentes, de degelos e desaparecimento de dinossauros? É tudo indiferente a esta criatura que aqui debita e sente uma frisson ou calafrio por saber que de 30 em trinta milhões de anos acontecem as catástrofes quando, no seu trajecto no universo, a Terra se encontra numa zona mais densa que provoca tempestades solares e queda de meteoros e... que podemos estar agora nessa fase cíclica?
Todos estamos cônscios da nossa finitude mas a tragédia faz-nos questionar e interpelar? E recebo a interpelação do Adriano precisamente neste nó existencial. Alguém me interpela.
Parece que no universo tudo está escrito e imutável e que alguém brinca connosco num diálogo socrático intencional fornecendo-nos pistas e chaves inseguras mas que nos vai espiralando num vertiginoso crescente e decrescente blow-up. Ampliando ou diminuindo, explodindo ou não, afastamo-nos sempre individual e colectivamente porque quanto mais aumentamos mais desfocamos, embora recortando o objecto sem encontrar a solução do enigma.
 
Lembram-se do filme BLOW-UP?
 
 
Paço de Arcos, 30 de Novembro de 2006
 
 
Maria Margarida Mascarenhas
 
 
 
 
 
 
 
Amores-Perfeitos
 
Estamos na estação dos amores-perfeitos. Informação dada no momento rural da manhã pelo engenheiro agrónomo Sassetti. E mais! Seguem o ciclo da vida.
Não suportam o Inverno nem o Verão. Teremos de optar por guardar as sementes ou comprá-las nos viveiros da Câmara e vê-las crescer pela raiz.
 E por essa magia com que pinto o meu quotidiano, abro o computador e descubro esse mimo de singeleza oferecido pelo amigo Adriano: Esse cartoon animado em simplicidade de traço Modigliani que me fala do mistério da renovação da vida e que me traz à ideia o nosso Nobel de literatura com as intermitências da morte. Esse desafio ao nosso desejo de perenidade. Num segundo que dura a nossa eternidade, passamos pelo prazer, pela alegria, pela união/afastamento e pelo desgosto não separado de uma liturgia necessária à citação do nosso destino.
 Desfilam como num filme os meus avós, pais, sobrinhos e netos nessa matrioska do nosso entendimento e dos nossos limites num ”never-ending story”.
E vou-me renovando pelas raízes, plantando amores-perfeitos nas estações em que se me oferecem em pleno, embora tenha em casa umas imitações de plástico…como as fotografias que emolduram o meu espaço.
 Plantemos amores-perfeitos e … que sejam perfeitos ”enquanto duram”
 
Paço de Arcos, 22 de Fevereiro de 2006
 
Maria Margarida Mascarenhas
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 

terça-feira, 29 de março de 2016

Eis mais um inédito da escritora, contista Maria Margarida Mascarenhas (1938-2011) enviado ao «Coral Vermelho» pelas mãos amigas de Adriano Miranda Lima. Uma crónica sobre o final da vida.

 

Cemitério de elefantes

 
Já não ofertarei mais chocolates a Maria Inácia. Despedimo-nos dela e de sua vida quase vegetativa no último domingo. Mas adorava chocolates.


A caçula da Clotilde já os enterrou a todo, um a um, desde que retornaram de Angola. Conheci-a acompanhando a penúltima às sessões de quimioterapia. Saberá ainda recuperar a vida que não viveu?
 

Em Cabinda contaram-me histórias dos cemitérios dos elefantes devastados por caçadores de marfim. Os elefantes quando pressentem a morte dirigem-se para um local escolhido para isso.
 

Há quem tome as suas decisões. Há quem delegue noutros essa decisão e há aqueles a quem ninguém pergunta nada e se decide tudo por eles. EUTANÁSIA.
 

A Maria Inácia foi levada no dia um de Setembro para uma antecâmara de um desse lugares de nomes celestiais e paradisíacos e pela primeira vez recusou comer os meus chocolates.
 

Como sempre fui conversar com o meu banco azul. A Bela acácia mesmo em frente ao banco definhava a olhos vistos, cheia de buracos e infestada de cogumelos gigantes. A última poda deve ter ditado, para meu desgosto, a sentença. A serra eléctrica cortou-a cerce ao passeio e ali estava aquele vazio alargando-me o panorama do rio.
 

Todos os dias contemplo o que sobejou, uma face em forma de coração expondo como num calendário dos Maias a história daquela vida e o tempo que a habitou. Círculos concêntricos e irregulares onde conto os anos e as fases daquela vida. Anos mais fartos, anos mais sóbrios, rugas, dores e cicatrizes. Entre a lisura do tronco e a sua crosta nasceu um misericordioso rio resinoso formando colóides.
 

Surpreendeu-me hoje aquele relógio vegetal de raízes pujantes. As chuvas de Setembro choraram sobre ela e no bico da oração cresce já com alguns ramos uma futura árvore se a lei humana se sobrepuser à Natural. As duas leis que regem aquele jardim....
 
A quem posso ainda oferecer chocolates?

 
Paço de Arcos, 28 de Setembro de 2006
 
Maria Margarida Mascarenhas

 

 
segunda-feira, 28 de março de 2016

O texto que se segue é da autoria de Maria Margarida Mascarenhas (1938-2011)
Trata-se de um inédito, gentilmente enviado por Adriano Miranda Lima, colaborador deste Blogue.
 
“A DIMENSÃO OCULTA”


É o título de um livro de tese do T. Hall que vivamente recomendo a quem não o leu.

 A dimensão a que se refere diz respeito à “proxémia” ou a distância a que cada povo no Universo tolera a proximidade física do outro em sociedade.

Vou atrever-me a extrapolar um pouco a sua teoria para outras áreas e até ao Tempo.

O meu cunhado que é de origem céltica, de olhos azuis e pele de lagosta cozida, desembarcou no Aeroporto do Sal com a minha irmã que é cabo-verdiana. No controle dos passaportes passou de imediato a minha irmã ficando ele do outro lado da fronteira para preencher papeladas e solicitar o visto. O Funcionário ficou girando o passaporte nas mãos e olhando para cada um deles em amena conversa de cada qual do lado das suas fronteiras. Foi então que num gesto lento dos salenses ele aboliu as fronteiras devolvendo-lhe o passaporte português: é casado com ela, pode passar, nhô ê cabo-verdiano!

Foi um gesto de simbologia e efeitos invejáveis pelas diplomacias de corredores e de turismo de folhetos: como um sincero voto de boa estadia! Sem gorjetas nem corrupção. A dimensão oculta da nossa Morabeza.

Em Cabo Verde tudo se resolve naturalmente noutra dimensão temporal e espiritual. Foi também assim com o meu problema identitário e com a maturidade do País.

As fronteiras traçadas pelos políticos e as outras onde nós nos encarceramos.

Em 1978 fui pela primeira vez a Cabo Verde após a independência. Levei passaporte cabo-verdiano e corria tudo bem quando me surgiu um problema que parecia grave. Para sair exigiam-me comprovativo de trabalho em Portugal e autorização de residência que está claro não possuía.

Tinha de ir trabalhar no dia seguinte em Portugal e lá me vi ensanduichada numa fila sem espaço para corpos, ensopada no suor dos meus patrícios de construção civil num dia de Verão sufocante, num estreito corredor que se estendia para a rua, na Polícia de fronteiras.

Nisto passa alguém conhecido que ao me ver naquele sufoco e me tira da fila convidando-me discretamente a sair para um refresco. Naquela proxémia de “fila africana” já não sabia qual a minha identidade.

Precavida, levara também na mala o meu passaporte português, com que por fim acabei por sair de Cabo Verde através de outra dimensão oculta.

De 1978 a 2006 a evolução natural da nossa dimensão oculta.

Paço de Arcos, 2 de Agosto de 2006

 
Maria Margarida Mascarenhas