quarta-feira, 4 de maio de 2016

Registo aqui uma oportuna informação historicamente verificada de Gilda Barbosa sobre o ascendente ilustre,Bartolomeu Vieira de Vasconcelos, sobre quem no artigo anterior, interroguei a razão da vinda dele do Reino para a ilha do Fogo.

Eis o esclarecimento:

 “(...) 

1-Bartolomeu Vieira de Vasconcelos era Capitão (os graus militares da altura não coincidem com os atuais), parece ter vindo de Lisboa e foi Capitão-mor do Fogo. Casou com Maria Teresa Barbosa Rebelo, já foguense e bisneta paterna do Capitão Amaro Monteiro Rebelo.

 

2-Amaro Monteiro de Rebelo, natural de Lisboa, Capitão (???) para o Fogo, onde casou com Maria Fidalga das Donas, já foguense, filha de Filipe Correia da Sllva, Capitão e de sua mulher Inês Barbosa de Andrade. Do Amaro Monteiro de Rebelo sairam os ramos Sacramento Monteiro e Monteiro de Macedo.

 

Quase todos os que vieram de Portugal foram enviados pelo Reino para ocuparem cargos na ilha ou simplesmente para viverem e povoarem.

 

3-João de Araújo Gomes, de onde vieram muitos ramos, era natural do Reino de Portugal, veio ao Fogo em 1784, residiu no Fogo e desempenhou vários cargos na Guiné Bissau e no Fogo. Com a autorização do Reino, foi o fundador da Cova da Figueira, onde construiu uma Igreja.

 

4-O apelido Barbosa é um dos mais antigos. O primeiro a usar o apelido foi D. Sancho Nunes Barbosa, filho do conde D. Nuno de Celanava. O apelido veio da Quinta de Barbosa, na Freguesia de S. Miguel das Rãs. Apoiavam D. Pedro contra D. Afonso, que ganhou na batalha de Aljubarrota. Depois, motivos políticos originaram a dispersão da família Barbosa que assim chegou também a Cabo Verde.

 

5-A família Vasconcellos é possivelmente originária do Reino de Leão. João Perre de Vasconcelos, neto de Martins Moniz, foi o primeiro a usar o apelido. Alguns passaram para a Madeira, onde casaram com os Medina, originário da Espanha, dando a família Medina e Vasconcelos, tendo Teodoro Felix de Medina Vasconcelos vindo para o Fogo com a esposa Ana Joaquina Rosa Santos.

 

6- Houve um que chegou ao Fogo, vindo do Reino, por ter havido um naufrágio no sítio de «Ruprera» e, em vez de seguirem para o Brasil como desejavam, aqui ficaram. Este era um Távora, que fugia das perseguições em Portugal, tendo suprimido o apelido ficou a chamar-se Marcelino José Lorge Henriques. Vinha acompanhado de um cavaleiro da casa real, José Cláudio Mendes Rosado e de sua esposa Isabel Caetana da Fonseca, naturais do Algarve. Marcelino viria a casar com uma filha deles, Maria do Monte Fortunata Mendes Rosado. Marcelino desempenhou o cargo de Capitão-Mor do Fogo e um dos filhos de José Cláudio, João Carlos Mendes Rosado foi o povoador da ilha de S. Vicente.

 
Aa origens não vieram só de Portugal mas também da Espanha: família Roiz; Nozolini e Rian, originários, respectivamente, da Itália e França, vindos de Tenerife, onde residiam na altura, Spencer, etc., etc..

 Depois dá uma série de combinações, através de casamentos. (...)

 (...)

com a amizade da

 Gilda

Carolino do Sacramento Monteiro

segunda-feira, 2 de maio de 2016


- Poeta foguense do século XIX -

Sobre este poeta foguense pouco sabemos. Deixo aqui ao leitor, alguns dados biográficos e notas informativas com interesse, que me foram gentilmente transmitidos, pela minha querida amiga e familiar, Gilda Marta Vasconcelos Barbosa, matemática de formação, intelectual  de grande probidade e isso reflecte-se na sua escrita. Guardiã do legado bibliográfico dos seus ilustres ascendentes. Co-fundadora - ao lado de Monique Widmer - da Casa da Memória, situada na cidade de São Filipe.

Entrando agora no tema que intitula este texto, começaremos por informar que  Carolino do Sacramento Monteiro, nasceu em S. Filipe,  na ilha do Fogo a 21 de Abril de 1866, filho de gente grada e de sobrado da cidade.

Em Lisboa, fez  os estudos superiores em Agronomia. Engenheiro Agrónomo, de profissão, trabalhou em Huíla, Angola.

Seguiu a linha anarquista. Não reconhecia instituições. Teve uma companheira de origem sul-africana, Martha Atleta Maria Akkerman, com quem teve quatro filhos.

A morte deve ter ocorrido em Lisboa, de regresso da sua estada profissional em Àfrica. Dos dados recolhidos faltou o registo do ano do seu passamento.

De acordo com Gilda Barbosa, um dos filhos do poeta, terá visitado a ilha do Fogo.

Nota interessante. O poeta Carolino do Sacramento Monteiro, partilha com Henrique Vieira de Vasconcelos, romancista, poeta e contista, o ascendente comum que veio de Lisboa para o Fogo - possivelmente no século XVII ou XVIII - Bartolomeu Vieira de Vasconcelos -  (Fidalgo? Eventualmente pertencente aos “banidos do reino”? Mandados para o Fogo,  por terem caído nas más graças de sua majestade?)  Não se sabe. O certo é ser ele o ascendente masculino, que se terá ligado com mulher do Fogo e que deixou boa descendência, sendo Carolino seu neto e Henrique seu bisneto.

Um breve parêntese para falar sobre Henrique de Vasconcelos. Este escritor Nasceu em S. Filipe, ilha do Fogo, em 1876 e faleceu em  Lisboa, Portugal em 1924. Licenciou-se em Direito, ple Universidade de Coimbra e foi Director–Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em Legações e Missões diplomáticas, em vários países.

Tal como Carolino Monteiro, Henrique de Vasconcelos tem a sua origem na burguesia local, foguense, classe social que era formada por alguns altos funcionários públicos, proprietários, comerciantes e armadores locais e que esteve tradicioalmente bem assente na ilha, sobretudo na cidade de S. Filipe, como elite, terra-tenentes, e como chefia das instituições públicas da ilha, até ser intencionalmente desestruturada com a chegada dos novos senhores de Cabo Verde, em 1975.

 Retomando, Henrique de Vasconcelos. prosseguiu os estudos superiores em Portugal e aí se manteve, uma vez que fez carreira diplomática. Terá sido detentor de uma vasta biblioteca, pois foi um importante bibliófilo. Romancista, Contista e poeta. Autor de entre outras, das seguintes obras: «Flores cinzentas»  Coimbra, 1893. «Os Esotéricos» Lisboa, 1894 «A Harpa de Vanádio» poesia (Coimbra, 1894);«Amor Perfeito», poesia (Lisboa, 1895);«A mentira vital», conto (Coimbra, 1897); «Contos novos» contos (Lisboa, 1903); «Flirts» contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e «Sangue das rosas», poesia (Lisboa, 1912) .

Fecho o parêntese e regresso ao poeta Carolino Monteiro, sujeito e protagonista do nosso texto de hoje.

Em mãos e a ser analisado, o  “4º livro” manuscrito, que o autor intitulou, na capa: «Poesias, 1887-1888-1889» Na folha de cobertura diz: “Lágrimas e Sorrisos” Lisboa, Junho de 1888. Assinado, Carolino Monteiro. São 70, o número de poemas que o volume contém.

 Constitui uma espécie de caderno, onde ele escrevia e guardava os poemas que ia publicando em diferentes periódicos, jornais e revistas., anotados em rodapé, do mesmo caderno/livro. Assim, o poeta cita, o jornal «Gazeta de Notícias»; a revista «Illustrado», «O Santareno», «Notícias do Norte» entre outros períodicos citados no livro em análise.

Ora bem, se existe um 4º livro, significa que três outros o precederam. Tanto assim é que Gilda Barbosa, me informou de que ela possui  também o 3º livro e só não mo enviou, dado o mau estado do volume e a já adiantada inelegibilidade dos textos, resultados de danos ao longo de 130 anos. Se tivermos em conta que os poemas redigidos tiveram início em1886. Por onde andarão já os dois primeiros livros?...

Atenção que todo este acervo de livros e de documentos, hoje bem conservados pela actual proprietária, a nossa Gilda Marta, só lhe chegaram às mãos como herdeira, após o passamento dos ascendentes que os possuíram originalmente.

Logo, muitos deles apresentam já os traços e as “traças” do tempo muito destruidores dos papéis.

De seguida transcrevo alguns poemas do livro 4º «Poesias» de Carolino Monteiro.

 Pois bem, o grande interesse destes textos residirá também na sua vetusta antiguidade,(perdoem-me a redundância) dentro da nossa Literatura.

  O poeta, Carolino Monteiro seguiu a linha da escola poética romântica portuguesa, naturalmente. Embora o romantismo português venha datado de cerca de 1770 (início) a 1865 (data da Questão Coimbrã, e que marca a entrada do Realismo na Litertura portuguesa) o romantismo conheceu várias fases ou períodos evolutivos ao longo do tempo. A escola romântica permaneceu muito mais tempo na poesia - para além da Questão Coimbrã, 1865 -  do que na prosa ficcionista.   

Assim, melhor colocariamos os poemas de Carolino Monteiro, como já moldados pelos cânones  ou, pela estética do Ultra-Romantismo. O «eu» lírico, destaca-se e apresenta-se na singularidade dos  seus sentimentos e das suas emoções.

Eis, pois, como o poeta se apresenta. Por sinal sob forma cómica, galhofeira e algo irónico com ele próprio. Usando trocadilhos, traça o seu auto-retrato. Mas, ao mesmo tempo, não se furta em nos dar conta dos seus sentimentos.

(...) Mas quem sou, perguntarão?

Parece-me até escusado fazer minha apresentação.

Sou conhecido no mercado

Sou o arroz, - o carolino,

Por sobrenome, Monteiro.

Sou maior, estudante e solteiro.

Não digo a minha morada

(não pensem que sou vadio)

Pois sou qual lua adorada

Que pelo espaço etéreo e frio

Vai mudando todos os meses.

Sou atacado muitas vezes

De grande bolha e mania

Faço ginástica e poesia,

e danço com toda gente.

(...) (quase ilegível, o verso, imediatamente a seguir pois que riscado.).

Tenho também geralmente por longo hábito fumar

Sou bom rapaz, não desfazendo

Alguém que me está escutando.

E oh! Que horror!

Tornando meus gargarejos

Em longas gargalhadas.

Não peço a ninguém beijos

Com receio de não mos darem...”

 

  Lisboa,Illustrado,14-3-1889.

 

A ironia e a fina graça aqui expressos neste excerto de um poema:

(...) “Eis-me aqui, pois, condenado

Ao maior sofrimento!

Disse que não me fez rogado,

pois não ouviu os meus lamentos.

V.excias. pedem que o Senhor Carolino recite

Uma poesia encantadora.

Ah! Não sei, juro minha Senhora,

Não sei recitar, acredite.

- É modéstia, ora vá, sim? –

O que há de fazer a gente

Quando os lábios carmisos

Pedem tão ardentemente?

Que força e que atrações

Não têm os nossos corações...

 

Levanto-me atrapalhado

Contrafeito e esquisito

Como um jovem namorado

Que nem sequer tem um dito

Um filão, um galanteio delicado

Para dizer à sua dama.

(...)

Vai servir pois de espantalho

De bobo e de ave (...)

Em pé no meio da sala

Ninguém fala...

Faz-se silêncio enfim.

Sei que lá por dentro

Todos se riem dos meus modos

E disfrutam-me calados.

Confesso: exponho-me aos sorrisos delicados...

Depois de fazer poesia sem graça e sem entoação

Recresce a ironia...”

1889. «Illustrado»

Para terminar o feixe irónico e trocista de que é feito também a poesia de C. Monteiro, segue  o poema, “Casamento”

Eu não caso contigo pelos teus olhos

pretos como o carvão,

nem tão pouco, pombinha idolatrada,

pelo teu santo e nobre coração.

Eu quero ser honesto e verdadeiro,

De abusar não pretendo da alma tua,

- Aí vai a verdade, nua e crua –

Caso contigo pelo teu dinheiro.”

Lisboa, Dezembro de 1887.

«Notícias do Norte»

Dos três poemas transcritos, o leitor apercebe-se - como  se de recorte dominante se tratasse nos  versos de Carolino Monteiro - desta forma de riso, de um certo gozo, e de auto-complacência irónica que o poeta faz de si próprio.   Continuamos a ter essa mesma atitude escarninha de si mesmo  e com relação por vezes a outrem, em outros poemas presentes no volume.

No meu entender, o poeta deixa subentendido com isso, um auto posicionamente inteligentemente assumido de que a sátira mais mordaz, mais contundente, ainda que dirigida a outro (s) destinatário(s), deve-se apresentar antes de mais, a retratar simbolicamente o «eu» do poeta.

 Antes de prosseguir com as transcrições dos poemas que escolhi para ilustrar o texto, faço notar ao leitor que tomei a liberdade de passar os versos, orignalmente escritos  na ortografia oitocentista, para a grafia actual (Claro, que em desacordo com o descaracterizador Acordo Ortográfico, em vigor).

Há também e com alguma intensidade, a faceta lírica propriamente dita, na poesia de Carolino Monteiro. O poema que a seguir se transcreve é disso ilustrativo.

       “ Amor romântico

 
Amo uma deusa de olhos deslumbrantes

de lábio de coral, formoso e breve

de tranças cetinosas, ondulantes

de lindos dentes, brancos como a neve.

 

Quando sorri, uma alegria amena

também me inunda o cálice da vida.

Mas se me foge esta visão serena

a minha alma anoitece constrangida.

 

É um bijou de graça e formosura

a sua boca fresca e pequenina,

quero sorver dos lábios a frescura

qual doida abelha em rosa purpurina.

 

Eu sou para ela, a noite fria, escura,

causo-lhe dó como quem pede esmola;

ela é para mim a aurora que fulgura

o bálsamo sagrado que consola!

 

Ela é qual rosa, vicejante e bela

que vive à luz e aos beijos da alvorada!

Eu, triste violeta tão singela,

apenas vivo à sombra do meu nada!

 

Se peço o aroma da mimosa crioula,

a casta luz do seu olhar bendito,

foge-me a visão casta e de granito.

……………………………………………………..

Eu sou qual planta que na sombra estiola!”

 

Lisboa, 24 de Março de 1887

In: «Santareno».

 
Caro leitor, termino este escrito, não sem antes dizer que gostaria de puder dar a conhecer mais outros poemas deste poeta pouco conhecido entre nós, e aqui afinal  deixou um bom número de poemas,  mas confesso que tenho alguma dificuldade em transcrevê-los com o rigor necessário e a certeza de que não estarei a adulterar o sentido dos versos, uma vez que estão manuscritos, com tinta antiga pela qual o tempo passou e desbotou. Uma caligrafia cuidada é certa, mas do seculo XIX e que tentei transcrever para a escrita actual. Espero que  este breve informe sobre o poeta Carolino do Sacramento Monteiro, seja aumentado e completado por outrem que disponha de mais dados.

OS CEM DIAS (EM ESTADO) DE GRAÇA

segunda-feira, 25 de abril de 2016
Passei por uma banca de jornais e deparei-me num dos semanários da capital, estampado em grandes parangonas, com “LIVRAMENTO QUESTIONA O PERFIL DE JORGE SANTOS” sobre uma fotografia – como que a desmentir a afirmação – em que os dois se abraçavam amigavelmente e sorridentes. Esbocei um sorriso e disse para mim mesmo: Não obstante isto ser apresentado com a configuração nítida – à medida e para o regalo do PAICV – de mais uma sórdida e mesquinha intriga (mesmo que seja verdade) jornalística de que determinados media já se especializaram, este é o “MpD na sua plenitude!”. Nada de unanimidades resultantes do já “afamado” centralismo democrático, nem “pactos de silêncio” cúmplices, nem as normalmente brandidas “disciplinas partidárias”, mesmo em assuntos de consciência.
 
O MpD é um “movimento” concebido especificamente para derrubar a ditadura do PAIGC/CV e combater a ideologia que lhe está associada. Tornado partido, por imperativos legais, que o tempo materializou, não perdeu a sua característica frentista gerada na liberdade e na pluralidade de opiniões. Cada membro tem a sua posição livremente assumida que manifesta em órgãos próprios. Está no seu ADN. Não se pode duvidar da sua génese libertária e democrática. Muito mais autocrítico do que oponente, constitui sempre o primeiro núcleo da crítica à sua própria actuação. Por isto não me surpreendeu que alguém, dentro do MpD, questionasse o perfil de Jorge Santos para o desempenho de um tão alto cargo. O de Ulisses também já o foi, que ninguém duvide, e está, não direi sob suspeita, mas sob atenta vigilância até à satisfação das expectativas dos militantes e apoiantes. E dos membros do Governo? Quantos são alvos de questionamento pelo próprio MpD?

Pessoalmente, até acho, que Jorge Santos, em termos objectivos, pelo seu vasto currículo político, idoneidade moral e contínuo activismo, tem todas as condições para se candidatar e ser o que quiser ser na sociedade política cabo-verdiana. Não está nem aquém nem além dos que o precederam nestas altas funções de Presidente do centro político da democracia cabo-verdiana. Contudo, compreendo e também reconheço que não seja apenas o currículo objectivo que determina a escolha e a eleição do Presidente da Assembleia Nacional ou de quem quer que seja para um cargo político. Há que contar com outros parâmetros dos quais se destacam os interesses intra e extra-partidários que aconselhem que hajam arranjos internos, conveniências estratégicas, jogos de compensação e de circunstâncias que serão necessários não só para manter o equilíbrio e a harmonia internos do partido mas também para o preparar para os desafios que se esperam. Sobre isto, que nunca é pacífico, só quem lá dentro está …

No momento em que escrevo estas linhas, o Governo do MpD ou, mais correctamente, o Governo apoiado pelo MpD, chefiado por Ulisses Correia e Silva, inicia efectivamente as suas funções. É tradicional presenteá-lo com cem dias de estado de graça, em que se lhe concede o benefício da dúvida.

A composição do Governo é criticada por tudo o que é canto. Não apenas as pessoas, mas também a configuração. Diz-se que Ulisses não tinha qualquer necessidade de se autolimitar de forma tão rígida quanto ao número de membros do seu governo. Não é isto que ganha eleições ou que define uma governação. A palavra é de prata e o silêncio de ouro. Depende obviamente de contextos e de circunstâncias. Por isto, Ulisses Correia e Silva tem de ser mais parco nas palavras para bem gerir as expectativas… sobretudo fora do ambiente de campanha. Bastaria apenas dizer que o seu elenco governativo seria menor do que qualquer outro. Há-de convir que foi uma retórica inútil, imprudente e algo masoquista.

Por mim não me atrevo a pronunciar sobre a polémica existente quanto ao formato e à ligação entre certas áreas. Seria seguramente pretensão a mais, uma vez que me faltaria o conhecimento da estratégia que lhe está subjacente e que é determinante para qualquer juízo valorativo.

Porém, aparentemente, ao contrário dos seus antecessores “eleitos” – Carlos Veiga e José Maria Neves – nota-se que lhe falta um núcleo duro de protecção e de amparo para os primeiros embates. Aguardemos pelos resultados.

Dizem os “treinadores de bancada” que Ulisses devia rodear-se de “ministros de Estado” fortes politicamente, que o amparassem e dissipassem parte da carga que sobre ele impende. Isto é, dois ou, eventualmente, três ministros de Estado com autoridade política – um para a área social, outro para a área económico-financeira e, eventualmente, um terceiro para a área de soberania. Uma espécie de um conselho de administração de uma empresa que seria o Governo em que ele seria o presidente – primus inter pares. Tudo leva a crer que a governação seria mais partilhada, os efeitos de contestação/reacção (há-os sempre) amortecidos e o PM resguardado. Como gestor e político, sabe isto tão bem como ninguém.

Tivesse havido a descentralização constante do Manifesto do MpD que só o Ministério das Infra-estruturas (1991-1996) então realizou, o número de ministérios hoje avançado por Ulisses não chocaria a ninguém.

De todo o modo, e da minha parte, continuo a conceder um tempinho de graça ao novo Governo com a firme certeza de que pior do que o anterior não é possível. Um tempo que não pode ser igual para todos, diga-se em abono da verdade. É óbvio que o que se pretende ver não é a resolução imediata dos problemas, mas a estratégia, a orientação, as medidas de política e o modus operandi.

Ao Ministro da Economia, por razões inerentes à dimensão do seu ministério e à integração do ministro é o que deve usufruir de maior tolerância. Ao Ministro da Administração Interna, por desejo meu, creio que também de toda a população, dava-lhe 24 horas dada a situação calamitosa e desastrosa em que se encontra a nossa segurança pública. Mas ficaria extremamente satisfeito se nos 100 dias do período do estado de graça desse indicações seguras e tranquilizadoras de que esta total incapacidade, ineficácia e ineficiência – excepto na caça de multas de estacionamento, entre os meus amigos e conhecidos, e são muitos já vítimas, não tenho notícias de um só caso de furto, roubo ou assalto resolvido – da nossa polícia e o desfile provocador, descarado, impune e até “protegido” dos meliantes (que até já tiveram a honra de serem recebidos – imagine-se! – por um Governo) iriam ter um fim.

Do lado oposto, estão as Ministras da Educação e das Infra-estruturas – técnicas de inquestionável competência nas áreas que ora tutelam, conhecedoras profundas das respectivas “casas” e dos respectivos sectores, quer na vertente pública quer na privada, ao que se deve associar, sobretudo à Ministra das Infra-estruturas – que melhor conheço – uma inexcedível capacidade de trabalho, bastarão 60 dias.

Sessenta dias apenas e uma lembrança para ter sempre presente: Um ministro não é um técnico, é um político!

A.   Ferreira

O Dia do Professor Cabo-verdiano

domingo, 24 de abril de 2016

 
Creio que se comemorou este ano, o Dia do Professor Cabo-verdiano, 23 de Abril, na maior discrição. Eu pelo menos, não dei por nada. Bem, se calhar, se eventos houve, aconteceram no interior das escolas. E se assim foi ainda bem!

Esta efeméride, para além de todo o simbolismo nela contido, é sempre um convite à reflexão. Uma reflexão sobre o perfil e o papel do professor aqui em Cabo Verde.

Sim, que papel ou papéis lhe estão e lhe estarão destinados nesta nossa tão desregulada sociedade? Apenas o de debitar a matéria como manda o programa da disciplina que tem em mãos?  De cumprir a totalidade dos itens semestrais, e/ou anuais? Sim, e não só, mas também o de deixar a sua marca de  mestre.

É isso mesmo que escrevi: a sua marca de mestre. De educador, de pedagogo, de Homem de cultura. Será pedir de mais? Voltamos ao antigamente da vida? Hão-de me perguntar. Na verdade era o que me apetecia. Sobretudo nesta altura em que sou apanhada por uma espécie de nostalgia bem negativista, dado o estado do nosso ensino, e o perfil de saída secundária e universitária dos alunos.  Excepções à parte. Mas o geral, deixa muito a desejar.

 Se pensarmos  no perfil de entrada dos alunos, a maioria provinda de família disfuncional e monoparental, com etapas queimadas em termos de socialização educadora básica, ausência gritante de muita informação que se obtém em seio familiar nuclear, a questão que se põe também ao  professor, à escola, será o como formar este perfil infanto/juvenil assim descrito e recorte maior na sociedade cabo-verdiana?

Mas na verdade a ideia de mestre surgiu-me por uma série de associações de ideias. Permitam-me a repetição.

Uma delas tem a ver com o passamento recente do professor António Saint’Aubyn, natural da ilha de S. Nicolau e catedrático das ciências matemáticas, da Universidade de Coimbra. Que terá deixado certamente, a sua marca de mestre. Lá voltamos nós.

Através dele, recuei até 2007, ano em que se comemorou merecidamente o centenário do nascimento de Baltazar Lopes da Silva, o patrono do Dia do Professor cabo-verdiano,. Recordemos que o nosso autor consagrado Baltazar Lopes da Silva, nasceu a 23 de Abril de 1907.

 Lembro-me dos vários eventos organizados pelo então Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Brava , Amílcar Spencer Lopes e a sua equipa. Foram momentos de altíssima qualidade. Com diversas intervenções  bem sucedidas, sobre o professor, o escritor, o poeta, o filólogo e o humanista, Baltazar Lopes da Silva. Intervieram entre outros,  Alberto de Carvalho, conhecido biógrafo de B.L.S. Leão Lopes, autor do livro, «Baltazar Lopes – um homem arquipélago, na linha de todas as batalhas».

Pois bem, coube precisamente ao antigo aluno de B. Lopes da Silva, António Saint’Aubyn, falar do perfil do seu saudoso professor.

E o Professor Saint’Aubyn fê-lo de uma forma em que combinou harmoniosamente a simplicidade e a magistralidade, numa oratória cativante.

É nessa linha de professor/pedagogo para o ensino básico, liceal e mais, educador no melhor sentido da palavra que a escola cabo-verdiana ainda necessita, pois infelizmente a pertença a um lar estruturador e estruturado para a formação da criança é  infelizmente, excepção nestas ilhas nos dias que correm.

Era apenas isso que me ocorreu recordar, no dia do Professor cabo-verdiano.

 

 

Capitão Ambrósio e Nhô Ambrose – o Mito e a Realidade

sábado, 16 de abril de 2016
Ao ler, por mero acaso, uma declaração de uma conceituada personalidade da cultura cabo-verdiana, onde apontava como seu herói de infância o “capitão Ambrósio” (sic), fiquei perplexo e algo desapontado com a pessoa pela expressão utilizada. Trata-se de alguém que domina muitíssimo bem o verbo e de quem não esperava uma tão flagrante e inoportuna imprecisão. É que “capitão Ambrósio” é uma genial criação de Gabriel Mariano de 1956, altura em que ele – autor da declaração – já não era propriamente um adolescente e muito menos criança. Estaria a referir-se a Nhô Ambrose personagem que protagonizou a manifestação de 1934 e que acabaria por ser deportado para Angola? Fiquei curioso com o jogo de datas, porque sempre pensei que Ambrósio teria falecido antes de 1940.

E daí, perguntei a minha cara-metade – no meu caso específico acho mais assertiva a expressão inglesa better-half – se sabia em que datas teria regressado a Cabo Verde e falecido o Ambrósio, o nhô Ambrose, que tinha servido de referência a Gabriel Mariano para o magnífico poema “Capitão Ambrósio”, ao que ela me respondeu que não fazia a mínima ideia, enquanto me recomendava a consulta a Michel Laban. Disse-lhe, prontamente, que tanto quanto me lembrava – li-o há mais de 20 anos – não me parecia que Michel Laban pudesse responder à pergunta que lhe havia feito. Contudo, eu não tinha nada a perder em revisitar Michel Laban e o seu “CABO VERDE – Encontro com escritores”, uma edição em 2 + 1 volumes da Fundação Eng. António de Almeida.

Estava absolutamente convencido que a separação entre o mito e a realidade, entre “Capitão Ambrósio” e “Nhô Ambrose”, estava já perfeitamente esclarecida. Mas, também estava (ou ainda estou) igualmente convencido de que eram (ou são) necessárias atitudes pedagógicas no tratamento do assunto para não induzir os mais incautos, os menos informados, a uma ambiguidade que poderia (ou poderá) suscitar uma certa confusão entre a História e a ficção. Tanto mais que alguns, para se evidenciarem, até recorrem a “factos”, obviamente, urdidos – não será seguramente do caso em apreço – muito pouco honestos, na identificação e localização da personagem histórica dizendo ainda recordarem-se (imagine-se!...) do “mulato” Ambrósio.

Ao recorrer a Michel Laban e ao seu interessante “CABO VERDE – Encontro com Escritores” deparei-me com dois “encontros” – precisamente o primeiro e o último do seu I volume – onde o autor entrevista Baltasar Lopes e Gabriel Mariano, dois importantes protagonistas da saga do Mestre Ambrósio. Julgo pertinente transcrever no que ao assunto diz respeito, a posição clarificadora destas duas personalidades:

A esse propósito, disse Gabriel Mariano (G.M.) na entrevista concedida a Michel Laban (P.) em 1984 e transcrita no livro deste último (I volume págs. 296 a 378) a dado passo, o seguinte (pág. 352 a 354):

P. – Volto ao problema, humano também, do «Capitão Ambrósio», de 56. Pode contar o que sabia, nessa data, sobre o capitão Ambrósio?

G.M. – Posso. Em 56, quando eu… Antes de fazer o poema não tinha nenhum conhecimento do capitão Ambrósio. Do capitão, vírgula, do Ambrósio. Porque «capitão», eu é que lhe dei o posto de «capitão». Eu soube da história dessa sublevação popular em São Vicente, ocorrida em 1934, e dirigida, ao que suponho por nhô Ambrose – Ambrósio – , já em Lisboa, como estudante. Essa sublevação surgiu em 1934, eu tinha seis anos de idade; e eu soube disso em 53, 54, já adulto. Eu soube através de conterrâneos, infelizmente já mortos: Cristóvão Santos e o Carlos Alberto Leite. Eles é que me contaram a história desse levantamento popular que houve em São Vicente. Contaram-me a história, normalmente, em conversa de café: «Aconteceu isso…» E se eu fiz o poema, posteriormente, é porque a história me impressionou muito. Na altura o que senti foi raiva e orgulho. A história impressionou-me. E, bom, a partir daí, conhecendo a história de Ambrósio, e já com uma compreensão crítica dos fenómenos sociais, económicos, coloniais, etc. já, aí, eu pude distinguir, ao fazer o poema, as coisas. Enfim, o Ambrósio aparece no poema como um líder popular que, massacrado pela fome e pelas circunstâncias, lidera, conduz o povo à rebelião contra a ordem estabelecida, e deixa uma mensagem de liberdade. E no meu poema eu não condeno o Ambrósio – um juiz condená-lo-ia, um julgador, não… aliás, ele foi condenado. Foi condenado à prisão e cumpriu a pena em Angola. Quer dizer: um juiz condená-lo-ia, mas eu não o condeno… Nem sequer o absolvo, pois seria um insulto pôr-se o problema de absolver o Ambrósio. Eu limito-me a enaltecer o papel que o Ambrósio desempenhou nesta sublevação. E eu soube, para concluir, soube da história do Ambrósio, aqui em Portugal, porque, em Caboverde, nunca ouvi falar do Ambrósio… Nem aos mais velhos, nem aos mais novos. Eu sabia que tinha havido uma barulheira qualquer (isso contava-se) em São Vicente, e não só, em anos de crise. Agora, não sabia que isto teria ou não que ver com Ambrósio, porque nunca ninguém me falou do Ambrósio. Eu fiz o poema motivado pela história dessa movimentação e dei-lhe o título de «Capitão», que ele não tinha, nunca ninguém o tratou por capitão. «Capitão», eu é que lhe dei o posto de «capitão Ambrósio».

Era alto, moreno, tipo mulato, de olhos verdes. Por isso é que eu digo no poema… «corpo mulato e verde…» Dizem que ele fazia este comentário: «O bom português é como o bom bacalhau: só vem para o Ultramar de cem em cem anos e quando calha!» Mas que ele devia ter sido um homem de uma personalidade muito forte, devia ter sido… Porque aquilo que ainda me contam hoje, as pessoas mais antigas, dessa rebelião – Ambrósio à frente, com a bandeirinha preta, e quando a tropa saiu cá para fora para os reprimir, tiros… A coragem dele… A coragem ao ser, depois, preso e interrogado lá pelo militar português que foi encarregado de fazer o inquérito… A resposta que ele deu: «O bom português é como o bom bacalhau: só vem para o Ultramar de cem em cem anos e quando calha!» Isso, ao que me contaram, dito cara a cara, à sua excelência o oficial militar português que o interrogava… Isso revela uma personalidade muito forte, muito valente, muito corajosa… Nhô Ambrose, você sabe quem é que esteve envolvido no levantamento popular? Os intelectuais do grupo “Claridade”, designadamente Baltasar Lopes. Envolvidos como força propulsora. (Fim de transcrição; o “bold” e o itálico são meus):

Vejamos agora o que diz Baltasar Lopes (B.L.) sobre a mesma personagem (págs. 29 a 33) na entrevista (págs. 11 a 55 ), esta de 1985, também conduzida por Michel Laban (P.) com os mesmos propósitos e transcrita no mesmo livro:

P. – Mestre Ambrósio?

B.L. – O Mestre Ambrósio é um mito. É uma incertidão histórica… Eu vou-lhe contar o que é: eu morava na Praça Nova e um grande amigo meu, que está hoje na América do Norte, Jonas Wahnon, quase todos os dias ia lá, e ele andava – como todos nós – preocupadíssimo com a miséria que grassava em São Vicente: fome, fome, fome… Ele vivia perto do Monte Sossego, chegava lá e dizia: « – Olha para aquilo, nem o fumo se vê a sair! Miséria, miséria…» E a certa altura, não me lembro qual de nós se lembrou que nós precisávamos fazer qualquer coisa; mas para isso precisávamos dum pretexto, e um pretexto bom… E o óptimo seria se o povo saísse à rua numa manifestação. Mas é claro, saísse e depois voltasse imediatamente porque já sabíamos que quando o povo sai excede-se… E através dessas conversas, nós decidimos pensar quem seria que em São Vicente, com bastante ascendente sobre o povo, seria capaz de provocar uma saída do povo, um levante… E lá chegámos ao Mestre Ambrósio que era um indivíduo que eu já conhecia – conheci-o acidentalmente. – O Mestre Ambrósio era um indivíduo alto, muito alto, muito branco de olhos azuis, parecia um profeta…

P. – Branco?

B.L.Muito branco mesmo, muito alto. Era um ariano autêntico… Olhos claros… salvo erro azuis –, muito claros. Então com atitudes proféticas. Lembro-me perfeitamente quando o meu amigo Velosa foi julgado por uma prepotência do juiz que cá estava – depois do julgamento foi absolvido e nós todos fomos levá-lo a casa. Encontramos já lá o Mestre Ambrósio à porta e ele saudou a chegada do grupo com a mão levantada e exclamando: «E viva a consciência pública. A verdade é alta e a mentira é funda!»

Pensamos então no Mestre Ambrósio, que seria talvez o indivíduo…

P. - Mestre, porquê?

B.L. – Ele era carpinteiro, salvo erro. Mestre de ofício. Agora não sei se fui eu ou se foi…; o grupo pretendia – não é o grupo “Claridade”, o grupo…

P. - Que grupo então?

B.L. – Este grupinho, eu, Manuel Lopes, o Velosa e o Jonas Wahnon. Nós pretendíamos pura e simplesmente um pretexto para chamar atenção do Governo e falámos então ao Mestre Ambrósio que saísse com o Povo mas que imediatamente visse se o povo recolhia para evitar distúrbios. E assim se fez, ele saiu, mas pelo sim pelo não, promovemos – neste caso, neste ponto intervém também um cidadão, o senhor Augusto Miranda, um velho advogado provisionário que estava sempre onde houvesse uma causa digna a ser defendida, lá estava ele. Morreu, coitado, desemparado em Lisboa, no Hospital do Ultramar. Nós organizamos então um grupo e fomos àquela pracinha que fica em frente da Câmara, havia lá um coreto, fizemos um comício. Eu falei, falou o senhor Miranda e dissemos então ao povo que nós estávamos a par da situação e que íamo-nos pôr em contacto com o Governo para resolver a situação do povo, arranjar trabalho, melhorar aquela situação. Pedimos então ao povo que fosse para casa serenamente, sossegadamente, ordeiramente, que nós íamos tratar do assunto. Eles dispersaram, foram para casa e nós fomos à Associação Comercial e mandámos um telegrama ao Governo em que em nome da Associação Comercial… Já tínhamos mobilizado a Associação Comercial – eu até fazia parte da Associação Comercial, entrava lá, porque o meu pai era comerciante também, ele era proprietário, mas, de quando em quando, lá fazia o seu comércio. De maneira que – a Associação Comercial era uma força viva – para poder entrar nessa força viva, a minha militância levou-me a pedir ao meu pai que se inscrevesse na Associação Comercial; ele delegou-me a mim plenos poderes para o poder representar. De maneira que eu tinha lá… era a minha casa também. E, depois do comício, fomos a Associação, expusemos o assunto, que ia a Associação, ia mandar telegrama: redigimos o telegrama, dizíamos a situação do povo, etc., etc., pedimos providências imediatas porque a situação do povo era intolerável e perigosa e que a Associação se solidarizava com o povo. Sabe qual foi a reacção do Governo? Em vez de tomar providências, agravou com um imposto “ad valorem” de 3% todas as mercadorias que o comércio de São Vicente importasse porque ele é que se tinha solidarizado com o povo nos distúrbios do dia tal! A nossa militância foi isso… O governante que cá estava era um estupor, imagine! A única coisa que ele sabia era fazer discursos e beber whisky, nisso era “imbattable”…

P. – E o Mestre Ambrósio?

B.L. – E o Mestre Ambrósio depois foi julgado…

P. – Mas incidentes, não houve? Houve essa reunião na praça da Câmara, depois dispersaram… Não houve desfile com o Mestre Ambrósio?

B.L. – Antes, isso foi antes. Mas o desfile não foi mais do que a caminhada desde os lados da Salina. Porque o grosso da população trabalhadora é da parte sul da cidade…

P. – Da aldeia da Craca?

B.L. – É um dos bairros, sim. É na vinda para a cidade, propriamente.

P. – Foi então que houve esse desfile… E essa bandeira, viu-a ou foi uma coisa imaginada?

B.L. – Não, houve bandeira, a «bandeira negra da fome»… O Mestre Ambrósio, a imagem que se tem do Mestre Ambrósio é a imagem criada pelo poema de Gabriel Mariano: o Mestre foi julgado, foi deportado para Angola e nesta altura nós resolvemos… discutimos se devíamos ou não apresentarmo-nos para seguirmos o destino do Mestre Ambrósio já que nós tínhamos, ainda que indirectamente, responsabilidade do que se tinha passado. Se não estou em erro, o Manuel Velosa é que disse: «Assim é abrir caminho para… é deixar o campo da batalha sem guerreiros. Porque se nós vamos, quem fica cá para qualquer coisa de que o povo precise?» De maneira que lá foi…

P. – Até foi dito que havia, inscrita na bandeira, a palavra fome…

B.L. – Sim, fome.

P. – Lembra-se de tê-la visto?

B.L. – Sim, sim.

P. - E o «Capitão» depois voltou?

B.L. – Voltou, veio morrer em Cabo Verde.

(Fim da transcrição; o itálico e o “bold” são meus)

Das duas entrevistas fica claro que Ambrósio, Nhô Ambrose, sendo um herói, era na verdade um “soldado desconhecido”, como muitos outros que, na mesma ocasião, encabeçaram o assalto aos armazéns da Alfândega do Mindelo em São Vicente uma vez que só cerca de 20 anos após os acontecimentos que o marcaram, ouviu Gabriel Mariano, em absoluto, falar dele em Lisboa numa normal conversa de café. E sabe-se que quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto... E vai daí, o poeta Gabriel Mariano, idealizou-o e transformou-o num “mulato de olhos verdes”, num heróico e garboso “capitão” que marcha à frente das suas “tropas”. Num herói nacional. Ele «capitão Ambrósio» é uma obra toda sua… Aliás, a distinção entre Nhô Ambrose e Capitão Ambrósio é nítida. Inclusive fisicamente. Enquanto Nhô Ambrose é de tez branca e olhos azuis, Capitão Ambrósio é mulato e de olhos verdes. É uma criação poética que imortalizou Nhô Ambrose.

É preciso separar a ficção da História, o mito da realidade.
A.Ferreira

Obs. De acordo com a nota de Michel Laban, na entrevista a Gabriel Mariano, “Cabo Verde” foi escrito “Caboverde” por indicação do entrevistado.