A
nossa democracia – estou em Cabo Verde – é muito recente e ressente-se da sua
juventude com reflexos muito óbvios na condução da coisa política. Mais de três
séculos separam a Revolução Gloriosa (1688) – mãe do pluralismo e génese das democracias
modernas – da nossa democracia (1991). Um longo caminho temos pela frente por
mais que a aceleremos. Mas isto não obsta que executemos coisas básicas que têm
que ver apenas com valores também eles simples como verdade, honestidade,
honra, integridade, sentido de compromisso, entre outros.
O
Governo nomeado através da maioria parlamentar do MpD caminha muito rapidamente
para o término do seu período de graça sem que a tendência aponte sequer para a
satisfação das expectativas mais baixas dos seus eleitores.
Os cabo-verdianos
votaram maioritariamente no MpD. É este partido que deve prestar contas pelas
promessas que fez, pelos contratos sociais e políticos que contraiu com a
sociedade e pelas expectativas que criou.
O Governo que o partido indicou para
executar o seu programa é da sua inteira responsabilidade e durará o tempo que ele,
o partido, entender. Nem mais um minuto! Sempre para o bem de Cabo Verde e dos
cabo-verdianos.
O
programa do Governo não pode colidir com (nem ignorar) o do MpD que o povo directamente
votou. Têm que nos dar o que prometeram.
O
escrutínio de um partido no poder faz-se em várias frentes donde sobressaem duas:
acções governativas e actividade do grupo parlamentar que as suporta. E daí estarem
sujeitos a todo o tipo de críticas e de apreciação.
Pelo “andar da carruagem”
tudo levar a crer que determinada “entourage” deste Governo é avessa a críticas
– mesmo que venham de entre os seus eleitores, pois que são estes os seus mais
leais críticos – que amiúde apelida de “má-língua” numa tentativa de a apoucar
e de a ignorar.
Criticar
não é maldizer assim como aplaudir não é bajular. A dicotomia entre estes dois
pares de conceitos é tão nítida quanto é perversa a sua confusão.
Como
escreveu alguém (transcrevo): “Qualquer crítica –
e qualquer defesa – que se baseie sobretudo em
insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada.” (o sublinhado é meu). Substituiria
“Qualquer crítica” por “qualquer comentário” e subscreveria a frase.
A continuar assim, com esta nova postura, o MpD corre o risco
de afastar da sua “práxis” uma mais-valia, já tida por tradição, que é a força
transformadora da crítica interna, feita pelos seus membros que sem receio de a
exteriorizar, mais não pretendem que ajudar o Partido a rumar num trilho que
sirva melhor as linhas governativas do país.
Torna-se
evidente e inequívoco que os rótulos (insultuosos) que partem do interior de
uma organização política associados aos comentários que lhes são dirigidos,
quer em privado quer em público, têm por objectivo o condicionamento implícito da
liberdade de opinar sobre essa organização política.
O
efeito das variantes negativas – maldizer, bajular, entre outras - devia ser
equivalente: ambas amordaçam a opinião livre colocando-lhe uma marca pejorativa
que a inibirá de se manifestar. Mas na prática, não é isto que acontece:
lança-se sobre o crítico o anátema de “má-língua” (dizer mal) com todos os
efeitos deletérios sobre a pessoa ou grupo de pessoas e premeia-se o “bajulador”
(ou a sua troupe) como fiel
aplaudente (seguidor) do grande chefe.
Mas
o mundo não é a branco e preto não obstante o maniqueísmo se afigure
inquestionavelmente mais cómodo porque dispensa o esforço de raciocínio, de
procura da “virtude” – que está no meio, diz o povo. Um largo espectro, um
arco-íris de matizes, existe entre estes dois extremos.
Impõe-se,
pois, uma análise objectiva, honesta e correcta – a isenção nunca é fácil (deve-se
tentar) e nem sei se existe quando se é parte – feita tendo como pano de fundo
os benefícios da sociedade cabo-verdiana e a legitimidade das exigências ao
cumprimento das promessas eleitorais e as expectativas dos eleitores num quadro
de legalidade, igualdade e equidade antes de classificar qualquer comentário.
Esta é a função de qualquer entidade ou organização que se preze.
Contudo,
reconheço que é inquestionavelmente mais cómodo o maniqueísmo que não carece de
justificação nem de esforço sobretudo quando se orienta para o insulto fácil. E
torna-se ainda mais confortável quando conduz à generalização abusiva.
Mas
a confusão não fica por aqui, também se tenta fazer passar “privilégio” por
“direito” sobretudo nos chamados eufemisticamente lobbies, que na realidade, no nosso País, não passam de amiguismo.
Não
serei eu a enumerar os vários nichos de expectativas defraudadas porque
correria sérios riscos de ser apelidado de “incendiário” o que parece já estar também
no léxico da entourage do poder.
Cabe
aos partidos políticos um papel fundamental na formação e formatação da
consciência política dos cidadãos. Isto é, não os assiste apenas angariar aderentes
e votos para a sua causa, mas também ter, pela sua postura e comportamento, uma
acção de pedagogia política sobre a sociedade o que implica também honestidade
e verdade perante os compromissos assumidos, cumprimento dos “contratos
políticos” realizados durante as campanhas não defraudando as expectativas dos
eleitores e respeito, muito respeito por qualquer opinião mesmo discordando
dela.
Tudo isto ocorre, em grande parte, porque há a
fulanização da política que aponta incidentemente tanto para a intriga
mesquinha como para o culto da personalidade.
E não é preciso ir muito longe: Basta olhar para
o comportamento de grande parte dos candidatos às autárquicas e para os seus
respectivos “slogans” de candidatura – uma eleição local.
Pode
daí não advir mal algum se alguém do PAICV tenha sido nomeado para um cargo
dirigente pelo actual governo apoiado pelo MpD não obstante as eleições tenham
sido ganhas sob o signo de MUDANÇA. É uma prática que não só não é virgem como
constitui até tradição em democracias mais maduras e avançadas partilhar
determinados cargos com a oposição de alternância governativa, equilibrando-os,
em caso de conselhos de administração, pelo número de administradores e pela distribuição
de pelouros. Pessoalmente, estou é mesmo interessado na competência da pessoa
para o desempenho da função, sobretudo quando se trata de funções “meramente”
técnicas.
A
minha posição pessoal apoia-se no facto de presumir, que para funções de forte
componente política, nenhum homem intelectualmente sério e honesto com profundo
respeito pelo seu pensamento e pelo seu projecto de sociedade aceitaria permanecer
no lugar para que tenha sido nomeado ou indigitado pelo governo anterior (mais)
pelas suas simpatias políticas ou mesmo militância, isto é, pelas suas
convicções ideológicas e confiança política do que (apenas) pela sua
competência específica para o desempenho desse cargo; ou, mantendo-se com as
suas convicções políticas, aceitar um convite de sentido contrário para
execução das mesmas funções. Seria violentar-se, ou, então, o que é pior, fazer
o papel de infiltrado ou, como sói dizer-se, de submarino. Contudo, como também
se costuma dizer, cada um sabe com que linhas se cose.
O
que na realidade, me parece uma posição ao mesmo tempo oportunista e
desrespeitosa para a nossa ignorância, é a justificação que se ouve dos dois
lados – governo e o nomeado – para esta “promíscua” coabitação.
Do
lado do Governo, quando inquiridos pelos seus correligionários mais zelosos,
que terão embarcado no voto de mudança, vem uma falaciosa, ingénua ou pueril justificação:
“Para termos os votos que tivemos, muitos paicvistas terão votado em nós.” Uma
lógica que se poderia aplicar a qualquer governo com maioria absoluta na
Assembleia.
Dito
dessa forma soa a falso. Ou é ingenuidade, ou configura um menor respeito à
nossa ignorância o que não parece ser menos grave. O que sobressai é a hipótese
absurda de que todos os eleitores são militantes de partidos, ignorando deliberadamente
os “independentes” flutuantes e os novos que se formam ao longo de um mandato e
que só exercerão (manifestarão) a sua “simpatia” quando tiverem 18 anos.
Se o
MpD não se considera ainda um partido devidamente consolidado, é um problema
que se põe aos seus militantes e que não me parece resolver-se com a actual
direcção que luta com uma indefinição ou, se calhar, com uma deriva identitária,
assente no carácter errático das suas decisões e tomadas de posição políticas.
Mas
o PAICV é um partido bem definido que funciona consistentemente de acordo com
as suas convicções, estatutos e inquestionável disciplina partidária. É preciso
não confundir isto com a existência de eventuais facções ou correntes internas
que, respeitando as regras, só enriquece a sua democracia interna. Que ninguém
se iluda: estamos no século XXI perante um partido de organização marxista.
E pensar
que um, um só militante do PAICV tenha votado na sigla MpD é um exercício, a
meu ver, de pura heresia política. Não confundir as eleições legislativas,
totalmente partidárias, com as presidenciais!
Façamos
um pequeno exercício com as eleições legislativas, exceptuando as primeiras
(1991) não pela atipicidade dos resultados – maioria qualificada – mas pelas
circunstâncias políticas peculiares que as envolveram e que as tornaram transitórias
e redutoras uma vez que a emigração não votava, o que só viria a acontecer graças
ao MpD com a Constituição de 1992.
ANO (Legisla-tivas)
Nº de deputados
Nº de Votos
Nº de Eleitores
PAICV
MpD
Outros
MpD
PAICV
1996
22
49
1
2001
40
30
2
2006
41
29
2
2011
38
32
2
94 674
117 967
298.567
2016
29
40
3
122 881
86 078
350.388
Média
34
36
2
DP
9
9
1
:
Olhando
para o quadro e numa análise grosseira e simplista – muitos outros parâmetros (omissos)
cruzados exigiriam um estudo mais cuidadoso – concluímos:
1º - A média de
deputados de cada um dos partidos, desde a entrada em vigor da actual
Constituição, é sensivelmente igual: 34 para o PAICV e 36 para o MpD; o pequeno
desvio observado foi provocado pela maioria qualificada de 1996.
2º - Cada um desses
grandes partidos tem garantido um eleitorado fixo correspondente a cerca de 29
(mínimo) deputados, dado que os resultados de 1996 fogem à normalidade
(estatística), em democracia – maioria qualificada;
3º - Os restantes (±)12
deputados uma vez que a média dos pequenos partidos é de 2, serão os
verdadeiros campos de acção dos partidos nas campanhas. Este número, não
pertence, obviamente, a nenhum dos partidos (ou pertence a todos) e será
disputado no terreno dos novos eleitores, mais os eleitores flutuantes sem
cores partidárias que votam de acordo com as suas conveniências mais imediatas
movidas pela propaganda eleitoral ou por outras causas.
4º - Nas últimas
eleições – 2016 – votaram mais cerca de 52.000
novos eleitores do que nas eleições anteriores (2011);
5º O MpD ganhou, nestas eleições de 2016 mais
cerca de 28.000 votos do que nas
eleições anteriores; enquanto o PAICV
perdia cerca de 32.000 votos e a
UCID somava mais cerca de 6.000 votos. Os ganhos do MpD e da UCID juntos
((±34.000) são superiores à perda do PAICV ((± 32.000).
Concluir
linearmente, num universo de 52 mil novos eleitores mais os eleitores sem
partido (flutuantes), da transferência de votos do PAICV para o MpD ou que a
vitória do MpD é fruto de gente do PAICV que votou no MpD, é, no mínimo, muito
precipitado, mau grado se possa admitir o surgimento de um ou outro caso
isolado sem qualquer relevância.
Quanto
ao argumento dos nomeados que se justificam que estão ao serviço de Cabo Verde,
esquecem que todos estão ao serviço de Cabo Verde mesmo os mais humildes
servidores e que não é nem pode ser isto que está em causa.
O
que suscita forte reflexão é a assumpção, por parte deles (nomeados), das novas
orientações, das novas abordagens, em suma, do novo Projecto Político para o
desempenho da função. É ainda a MUDANÇA… Como disse um analista político o que é que se pode esperar das mesmas
pessoas, nos mesmos lugares com as mesmas leis que o actual Partido político
que apoia o Governo rejeitou nas votações parlamentares?
A
mim não me repugna ver quadros da oposição em funções dirigentes desde que
essas funções sejam eminentemente técnicas e essas pessoas tenham já provas
dadas – não amiguismo – da sua competência nessa área. Nesta linha, até posso
compreender no aparelho do Governo a função de assessoria (assessores técnicos)
em determinados sectores por gente (soft) de oposição. O que já não compreendo
e que se me afigura uma autêntica quadratura do círculo é a de “conselheiro”
oriundo da oposição. Um conselheiro tem associado uma forte componente política
de sintonia não só de carácter ideológico como de meios, metas e objectivos com
o aconselhado. A menos que as políticas para esse sector sejam rigorosamente as mesmas do governo
anterior.
Mas
o que me faz mesmo impressão e, como se costuma dizer, me tira do sério, é a cena de vitimização dos quadros do
PAICV quando afastados. Depois de quinze anos a partidarizar toda a
administração do Estado, no que é publicamente confirmado pelo seu próprio
chefe, dizem-se agora perseguidos porque foram afastados, substituídos. Imagine-se,
PERSEGUIDOS! A obsessão de que são os donos da terra e que só eles poderão
governar, não os deixa ver de que hoje são OPOSIÇÃO e que este governo tem toda
a legitimidade para fazer as mudanças que entender no quadro da lei e a coberto
do voto popular. Mas a cena de vitimização tem de facto outro propósito: a de
condicionar, intimidar o MpD e o seu Governo a não ir mais longe do que a
simples substituição. A não denunciar as irregularidades, e os eventuais crimes
existentes e praticados na sua gestão.
Pois
bem, o Governo nada tem a temer com as suas mudanças e tem a obrigação de
informar a população do estado de cada sector e agir em conformidade (sob pena de cumplicidade) para a sua salvaguarda e para a defesa do erário. Os
gestores nomeados não têm que se envergonhar
em ser MpD ou seu simpatizante, tomando atitudes gratuitas e folclóricas porque
não é isto que caracteriza uma gestão, mas assumi-lo (o MpD) firmemente quando
for necessário. Noblesse oblige!
A. Ferreira
O texto que se segue, recebi-o
há já algum tempo, enviado pelas mãos amigas de Valdemar Pereira, que sei leitor
assíduo destes e de outros assuntos.
Com a devida vénia à autora e ao Jornal
português «Expresso», aqui o reproduzimos pois que é de interesse para a
leitura daqueles que cépticos e
contrários estão relativamente ao Acordo - ortográfico - do nosso desacordo...
Nove
argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990
Manuela Barros Ferreira *
Qualquer crítica - e qualquer defesa - que se baseie
sobretudo em insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada.
Por isso apresento uma série de argumentos relativos à eficiência operativa do
OA 90 e a aspectos de ordem linguística, educativa, sociológica, diplomática,
económica e de preservação patrimonial que me levam a não concordar com a sua
aplicação.
1. Argumento da pouca eficácia
O AO 90, em vez de diminuir o número de palavras que se
escreviam diferentemente em Portugal e no Brasil, aumentou-o consideravelmente.
Segundo um estudo de Maria Regina Rocha (que exclui três tipos de vocábulos),
2.691 palavras que se escreviam de forma diferente mantêm-se diferentes; apenas
569 que eram diferentes se tornaram iguais; 1.235 palavras que eram iguais
tornaram-se diferentes e, destas, 200 mudaram apenas em Portugal, dando origem
a soluções aberrantes como aceção, conceção, confeção, contraceção, deceção,
impercetível..., enquanto no Brasil se continua a escrever acepção, concepção,
confecção, contracepção, decepção, imperceptível, etc. (cf. “A falsa unidade
ortográfica”, Jornal Público, 19.01.2013, retomado em http://ciberdúvidas.iscte-iul.pt/.)
2. Argumento de ordem fonológica
Uma das características da língua portuguesa falada em
Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”, ou seja: para nós, a
pronúncia das vogais “a” , “e” e “o” em posição tónica não é a mesma que a que
têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa” com o de “casinha”:
na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é fechado. Compare-se o
“e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa” pronunciamos “ê”, em
“meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da fala e digamos “mzeta”,
continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos “tolo” com “ô” mas em
“tolice”, o “o” é fechado. Esta regra é de aprendizagem automática, desde a
primeira infância. Existem excepções, por motivos etimológicos e de paradigma
morfológico: caveira, dilação, especar, especular, padeira, relator, retrovisão
e algumas mais. Algumas dessas palavras até costumavam, até certa altura, levar
um acento grave para indicar que a vogal era aberta: pàdeira e rètaguarda por
exemplo. Hoje ele só subsiste como indicador da junção do artigo “a” com a
preposição “a” e com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à
Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal foi
eliminado dos advérbios de modo, e assim “sòmente” e “fàcilmente” passaram a
escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se inútil porque “os falantes
da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”. Foi talvez essa a primeira
“facada” que os legisladores da língua deram na transparência que a escrita
devia ter para quem o português não era a língua materna – como era o caso da
maior parte dos nativos das colónias de então. Noutros casos subsistia porém o
recurso a letras etimológicas, com a função de indicar que as vogais que as
precediam eram abertas. É o caso de “nocturno”,“espectador”, “tractor”. Sem
esse auxílio, a regra de fechamento da vogal que não tem acento tónico tende a
aplicar-se. É por isso que o AO 90 induz a que se leia “nuturno” ou, quando
muito, “nôtúrno”; “espetador” como um derivado de “espeto” e “trator” com “a”
fechado, vocábulo que não existe. Quer dizer, o AO aumentou desmesuradamente o
número das excepções a uma regra de pronúncia que permitia uma leitura
intuitiva.
3. Argumento de ordem morfológica
Há um princípio básico de qualquer ortografia: a
coerência morfológica. O AO 90, seguindo estritamente a produção fonética,
exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e
muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em “Egito” perde-se a
ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus habitantes.
4. Argumento de linguística
histórica
A língua portuguesa é, como todas as línguas naturais,
um produto da História. A nossa deriva maioritariamente do latim, tem muitas
raízes gregas, muitas achegas vocabulares árabes, tem remodelações
renascentistas, tem neologismos oriundos das nações até onde viajou e dos
variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram chegando através dos
séculos. A escrita reflecte essa riqueza.
Sobretudo com o Renascimento, a nossa língua sofreu um
impulso extraordinário. A partir dessa altura foram criadas ou recuperadas
numerosas palavras com base no grego e latim. Não falemos nos termos da
Botânica, Medicina, Biologia, Química, que não há lugar nem tempo para tamanha
empresa. Falemos apenas de um processo: o da criação de palavras derivadas.
Se repararem bem, a coerência morfológica que
mencionei acima, é coisa que aparentemente falha: as palavras derivadas muitas
vezes diferem daquela que lhes deram origem. Por exemplo, “lunar” e “luneta”
não derivam de “lua”, “pedal” não deriva de “pé”, “lacticínio” não deriva de
“leite”, “nocturno” não deriva de “noite”. Todas estas (e tantas, tantas
outras...) palavras foram criadas, não a partir da palavra portuguesa (que
sofreu todas as evoluções que o tempo imprimiu à raiz latina), mas sim
directamente a partir do étimo latino, recuperado por pessoas eruditas:
“luna-”, “pede-“, “lacte-“, “nocte-“. Uma coisa é o ter-se a pronúncia do latim
transformado por via popular, através dos séculos (perdendo o “n“, o “l” e
outras consoantes sonoras intervocálicas, transformando “–ct” em “-it”, etc.)
outra coisa é criar-se uma palavra nova, aproveitando, reciclando um étimo já
longínquo para fazer frente às novas necessidades de vocabulário. Deste modo,
muitas das nossas palavras derivadas conservaram o étimo latino a partir do
qual foram criadas. Elas fazem parte do património da língua, veiculando uma
dupla marca de origem: social (erudita) e temporal (tardia).
5. Argumento educativo
Como ensinar a uma criança que “soturno” se lê com “o”
fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a palavra “noturno” se lê
com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no assunto e fica o caso
arrumado. Como ensinar a uma criança que da palavra “noite” se formou
“noitada”, mas que “noiturno” e “noitívago” não existem, o que existe para o AO
90 é “noturno” e a dupla grafia “notívago” e “noctívago”?
Não seria mais fácil escrever estas últimas com “ct” e
dizer-lhe que são palavras entradas na língua por via erudita e não por via
popular? E que, se elas, crianças, comeram papa “láctea”, esta é outra palavra
também erudita, tal como “lacticínios” ? Escrever “laticínios” não remete para
outra coisa a não ser para “lata”. Talvez a lata de leite condensado que se
vende nos supermercados?
6. Argumento sociológico
Antes de 1990 já existiam duas grafias em Portugal: a
norma de 1945, muito bem destrinçada e explicada em Prontuários Ortográficos; e
uma grafia difusa, sempre em reconstrução e evolução - a das mensagens juvenis
- caracterizada pela simplicidade extrema, minimalista, com consoantes isoladas
representando palavras, sem pontuação, nem cedilhas nem tiles. Esta tendência não
fez senão acentuar-se com a generalização do uso electrónico. É nesta situação
dicotómica que se insere uma terceira forma ortográfica, a do AO 90. Os
defensores da norma de 45 agridem verbalmente os defensores da de 90 e
vice-versa. E os jovens? Uns são penalizados nas notas por escreverem à antiga
algumas palavras-ratoeira; outros são menosprezados porque escrevem à sua,
deles, moda “simplex”; e os que escrevem “à moderna” deixam de respeitar as
edições existentes na biblioteca da sua escola e inclusive invocam o pretexto
da “confusão gráfica” para deixarem completamente de ler.
Se o AO 90 não é um erro sociológico, não sei o que
será.
7. Argumento diplomático
O Acordo Ortográfico de 1990 tinha-se proposto
unificar a escrita de todos os países de língua oficial portuguesa. Este
objectivo não foi conseguido. Portugal impôs unilateralmente uma grafia que não
tem o acordo de todos .
Diz-se que o AO 90 foi feito, essencialmente, para
aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para isso pretendia unificar
a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos agudos onde os brasileiros
têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que corresponde a uma efectiva
diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p” que são pronunciados em
palavras brasileiras e não o são nas correspondentes portuguesas. Por exemplo,
no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em Portugal, segundo o AO:
respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas palavras não se pronunciem
como os de “repetido” e “recessão”.
Angola e Moçambique não assinaram o AO 90 (o que me
parece um grande exemplo de bom senso, sobretudo se tivermos em conta o
argumento que se segue). A opinião destes países de língua oficial portuguesa
devia ter sido ponderada e tida em conta pelo governo português antes de
avançar para uma “situação de facto” extremamente difícil de reverter.
8. Argumento económico
O que seria economicamente mais recomendável?
Adoptar como obrigatório o AO 90 em nome de futuras
vendas de futuros livros, tornando obsoletas as bibliotecas existentes? Ou
manter a escrita de 1945, com todo o enorme acervo literário e científico que
produziu?
Leiamos as palavras da escritora moçambicana Paulina
Chiziene:
“Quantos dicionários Moçambique terá de comprar de
novo? Quantos livros terá de mandar reescrever? Quantos livros de escola terão
de ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que vale a pena
sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um “c” e um “p” do que está
escrito? [...] Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”.
(Tradutores contra o Acordo Ortográfico).
9. Argumento da preservação
patrimonial
É natural que uma língua que se começou a escrever e
ensinar há relativamente pouco tempo – por exemplo, o mirandês, no fim do século
XX – não tenha qualquer obrigação de respeitar formas que os portugueses foram
elaborando ao longo dos séculos. Porém a mim parece-me que todos nós,
portugueses, que dispomos de uma língua escrita desde, pelo menos, D. Afonso
II, temos obrigação de manter o mais possível as marcas históricas das palavras
que até nós chegaram.
A grafia portuguesa já em tempos renunciou a algumas
marcas históricas: por exemplo, o “ph” e os “ll” etimológicos (pronunciados “f”
e “l”), dado que esse modo de escrever induzia a leituras erradas, e podia, por
isso mesmo, ser descartado. Porém o AO 90 vai longe demais, ao afectar de modo
evidente a leitura das vogais não acentuadas e a íntima conexão lógica que
existe dentro de cada paradigma vocabular.
Ao modificar-se a escrita, com base numa (suposta)
maior facilidade da sua aprendizagem, estabeleceu-se uma enorme confusão nessa
mesma escrita e perdeu-se a possibilidade de jovens e menos jovens
compreenderem os mecanismos de formação das palavras. Perdeu-se o nexo entre
elas.
Para terminar:
Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao
renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num
movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível
movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem
passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à
deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo
destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este
desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por
pequenas coisas, aparentemente insignificantes.
É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é
demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa.
Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é
passível de emendas fundamentais.
* ex-investigadora do Centro de Linguística da
Universidade de Lisboa
a
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quarta-feira, 22 de junho de 2016
Porque estamos em período de exames; porque se
trata de uma época muito particular para os alunos e para quem os tenha em
casa a estudar; achei interessante e oportuno trazer ao leitor deste Blogue o
presente texto - com a devida vénia ao autor, Henrique Magalhães,
e ao Jornal «Público» de 22/06/2016 - pois que reflecte de forma verosímil, o “animus”
de um aluno em provas finais. Mas afinal, são etapas necessárias na vida do estudante em
processo formativo.
Se o exame de História tivesse rosto
Diário
do aluno Henrique
Magalhães Talvez o exame de História tenha identidade própria. Sorria quando
vê a minha mão mergulhada em tinta e o meu pensamento a sufocar com a matéria
como se estivesse imobilizado dentro de um oceano profundo, a segundos de se afogar.
Ou talvez seja eu que estou assustadoramente cansado. Não consigo pensar em
melhor metáfora para alcançar a maturidade do que esta prova.
É impossível conseguir bons resultados sem lutar e lutar contra
aquela folha medieval e tenebrosa, sem suar, sem sentir uma cortante e gélida
brisa na espinha ao ver as horas a acumularem-se no relógio e continuar trémulo
e hesitante enquanto tento reflectir sobre três aspectos estruturantes do impacto
da Grande Depressão e das prioridades económicosociais do regime nazi. A todos
os redactores destes exames, um severo obrigado! Ainda ontem, olhei pela janela
do meu quarto, num dos poucos segundos que tive para respirar no meio de todo
aquele fumo de revoluções e contra-revoluções e tratados e conferências que suspiravam
através dos milhentos livros e fichas espalhadas pela minha escrivaninha, e vi
duas crianças a jogarem à bola com um carinhoso sorriso nos lábios. Desejei
expulsá-las, porém, nesse momento, apercebi-me de uma melancólica verdade: eu
já fui assim, despreocupado e cheio de energia. Estarei a ficar velho? Não! A
culpa é da História. Penso para os meus botões: será que posso colocar no meu
currículo que fiz o exame até ao fim? Independentemente da nota, será que ter
sobrevivido a 15 páginas, quatro grupos e 700 anos de acontecimentos confinados
em duas ou três folhas de teste é o suficiente para arranjar um bom emprego no
futuro? Devia! Será que se, numa entrevista de trabalho, disser isto chamar-me-ão
piegas? Provavelmente. No final da prova reparei que tinha as mãos sujas de
tinta esferográfica e não consegui deixar de pensar que talvez isso tenha uma
razão de ser. A cada letra que escrevi, a cada erro que cometi tracei um bocadinho
mais do meu futuro, um bocadinho mais da minha pessoa. Qualquer que seja o
nosso fado, enfrentaremos toda a história que está para vir com bravura. Agora
descansemos, que também faz bem.
Aluno do 12.º ano, Secundária Rainha
Dona Amélia, Lisboa
terça-feira, 21 de junho de 2016
Assinala-se o X ano da morte (2006)
do escritor Henrique Teixeira de Sousa. Em jeito de homenagem a um grande nome
das Letras cabo-verdianas, «Coral Vermelho» junta-se às efemérides evocativas,
focando o perfil deste inesquecível contista e romancista que boa obra nos deixou.
Resenha
bio-bibliográfica
1919 – Nasce na Freguesia de São Lourenço,
na localidade de S. Domingos, na Ilha do Fogo, Henrique Teixeira de Sousa,
filho do capitão de longo curso, João de Sousa, natural da Brava e de Laura
Teixeira de Sousa, natural do Fogo.
1926-1930 - Instrução Primária em S. Filipe.
1931 - Preparatório para o Liceu.
1932-1938 - Estudos secundários no então Liceu
Infante D. Henrique, na cidade do Mindelo.
1936 – Publicação do Conto «Tchuba é nós
Governador» no Jornal Juventude, órgão
dos estudantes liceais. No antigo 6º Ano do Liceu de Gil Eanes em Mindelo, S.
Vicente.
1938 – Ingresso na Faculdade de Medicina
da Universidade de Lisboa.
1945 – Conclusão do curso de Medicina.
1946 – Cursos do Instituto de Medicina
Tropical, de Medicina Sanitária, da Universidade do Porto.
1946 – Ingresso no Quadro de Saúde do
Ultramar, tendo sido colocado em Timor, como médico interno no Hospital central
e Professor da escola de Enfermagem.
1947 – Publica no n.º 5 da Revista
«Claridade» o estudo sobre: Estrutura
Social da Ilha do Fogo em 1940.
1948 – Transferido para Cabo Verde e
colocado como Delegado de Saúde da Ilha do Fogo, onde construiu e renovou os actuais Hospital e Maternidade.
1949
– Publica no n.º 8 da
Revista «Claridade»: Sobrados, Lojas
& Funcos.
1950 – Inicia uma colaboração duradoira no
Boletim “Cabo Verde” que só termina
no último ano de publicação da revista, em 1964.
1955-56 – Frequenta em Marselha, França o II
Curso para Formação de Médicos Nutricionistas para a África ao sul do Sahara.
1957 – Nomeado médico-adjunto da Missão
Permanente de Estudo e Combate de Endemias de Cabo Verde e Presidente da
Comissão de Nutrição de Cabo Verde. Torna-se membro titular da Societé Scientifique d´higiene alimentaire
de Paris. Chefiaa Delegação Portuguesa à III Sessão da Conferência
Inter-Africana de Nutrição reunida em Luanda. Ainda no mesmo ano é colocado no
Hospital de S. Vicente.
1958 – Participa na cidade do Mindelo no
Colóquio sobre o Homem cabo-verdiano, sob coordenação do Professor Almerindo
Lessa. Igualmente participa no Congresso de Paludismo e Medicina Tropical em
Lisboa, onde apresentou o trabalho: «Cabo Verde e a sua gente». Publicado em
separata, pelas Edições Propaganda, Praia, Imprensa Nacional de Cabo Verde,
1958.
1959 – Participa em Lwiro (antigo Congo
Belga) no Seminário de Nutrição.
1960
–Publica o futuro
Conto «Raiva» no Boletim «Cabo Verde» nº 124 de Julho, sob epígrafe: Episódios
verídicos da minha vida clínica.
1961/64 – Presidente da Câmara Municipal de
S. Vicente.
1965e seguintes – Médico do Hospital de S. Vicente.
1972 – Publica a Colectânea de contos, Contra
Mar e Vento. Editora Europa/América.
1972/73 – Deslocações profissionais
periódicas à Ilha de S. Nicolau, onde inicia os manuscritos do futuro romance, Ilhéu de Contenda.
1973 – Nomeado Adjunto do Chefe da
Repartição de Saúde e Assistência de Barlavento.
1975 – Pertence ao grande número de
cabo-verdianos que deixa Cabo Verde por motivos que se prenderam com os
tumultuosos e conturbados momentos primeiros, vividos com os anúncios da
Independência do Arquipélago. Discorda do projecto de unidade Guiné/Cabo Verde
do PAIGC e parte para Portugal onde fixa residência no Concelho de Oeiras e
retoma a vida profissional.
1978 – Publica o romance Ilhéu de Contenda, pela Editorial «O
Século». Aposenta-se e continua muito ligado à sua terra natal à qual dedica
toda a sua produção literária.
1980 – Inicia e mantém por largos anos,
uma colaboração de índole cultural, com o mensário «Terra Nova».
1981e
seguintes - Reconcilia-se, faz as
pazes, com o então governo e o regime de Partido único, agora PAICV. A forçada
Unidade Guiné/Cabo Verde havia erodido com o Golpe militar na
Guiné-Bissau(1980). São-lhe devolvidos os bensentão confiscados e nacionalizados no Fogo e em S. Vicente.
É também altura em que é frequentemente convidado pelo
Governo de Cabo Verde, Ministério da Cultura e pela Associação de Escritores
Cabo-verdianos. Desloca-se ao país amiudadamente. A última visita a Cabo Verde
verificou-se nos finais de 2005). Iniciam-se em Cabo Verde, a partir de então,
os prémios literários, as condecorações e as homenagens ao escritor que é
Teixeira de Sousa.
1984 – Publica Capitão de Mar e Terra, romance –Publicações Europa – América.
1986 - Recebe o prémio «Claridade» pela
sua obra, Ilhéu de Contenda,
outorgada pelo Ministério da Cultura e Informação de Cabo Verde.
1987 – Publica Xaguate, romance, Publicações Europa – América.
1988 – Prémio «Jorge Barbosa» da
Associação de Escritores Cabo-verdianos para o romance Capitão de Mare Terra.
1990 – Publica Djunga, romance, Publicações Europa – América.
1992 – Prémio «Fialho de Almeida» da
Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos, para o romance Djunga.
1994 – Publica Entre Duas Bandeiras, romance, Publicações Europa – América.
1998 – Publica Na Ribeira de Deus, romance.
2005 – Publica Oh Mar de Túrbidas Vagas, romance.
2006 – Faleceu em Portugal, (onde residia
desde 1975) a 3 de Março, vítima de atropelamento.
Chegou o CORAL Vermelho que pretende ser um espaço de diálogo interactivo, salutar e fraterno entre todos os que nele entrarem e queiram connosco, através de temas e de assuntos vários enriquecer este painel coralino.