Sobre o antigo Jornal «O Manduco»

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

( Agosto de 1923 a Junho de 1924)

A iniciativa  concretizada em boa hora, pela editora da Livraria «Pedro Cardoso» em dar à estampa uma edição “fac-símile” dos números do referido jornal; foi a todos os títulos louvável, pois  que veio não só dignificar o nome do  patrono que carrega, mas também, dar a conhecer de forma mais acessível a leitores interessados, parte da obra, por Pedro Cardoso deixada. Com efeito, o leitor tem assim  conhecimento e  registo histórico, muito importante, de um certo jornalismo que se fazia nos inícios do século XX,  nestas ilhas. No caso de «O Manduco», jornalismo com algum carácter regional, local, uma vez que partia da ilha do Fogo.
Trata-se aliás, de um  periódico impresso com uma feição muito singular feito um pouco à  imagem e à semelhança do perfil do seu fundador, dono e primeiro director, Pedro Monteiro Cardoso. Interessante é que ele logo no primeiro número como mandavam as normas, faz a apresentação  do seu jornal de uma forma original é certa, mas muito pouco ortodoxa. Aqui vão excertos do editorial do 1º número: “ Apresentando-se. Em nome de Deus...
É praxe dar-se, no 1º número de qualquer folha política ou literária, a razão do seu aparecimento.
A nós porém, aborrecem-nos as praxes.
De mais, este mensário é propriedade exclusivamente nossa.
Não nos consideramos pois, obrigados a dizer os motivos determinantes da sua publicação.
Que o comprem, que o assinem e o paguem adiantadamente, aqueles que porventura os deseje conhecer. Que do referido contexto se inferem, quando expressamente se não declarem. Dizer isto não será ainda programatizar?
 Talvez. No entanto assinar e pagar adiantadamente é o que convém. (...)
 (...) Oh! Como é doce sonhar! Praza a Deus que vos tome, caboverdianos, o vício de ler, não por empréstimo mas somente pagando-o. Amén!
 Todo o editorial se apresenta nesse tom, ora irónico, ora censurando os vícios do “grogue” e das “funçanatas” em que se deleita o putativo leitor, ao invés de comprar «O Manduco» e cultivar-se na sua leitura.
Portanto, ao «O Manduco»  liga-se um nome sonante da poesia e do folclore cabo-verdianos, Pedro Cardoso. Nome que se confundia com a própria ilha que o viu nascer. Acrescentaria por graça, que só não se chama ao Fogo a ilha de Pedro Cardoso, porque o vulcão é mais “roncador”. E, por isso, tomou-lhe lugar. Sim, porque em matéria de desaforo e quanto a bradar  altissonantemente as suas crenças, os seus amores, os seus desamores e os seus combates, quer em poesia, quer em prosa, creio que P. Cardoso não se coíbia muito e não ficava muito atrás do vulcão, metaforicamente falando, claro.  Um pequeno aparte: certamente que alguns  conhecem o célebre poema em crioulo «Djarfogo» deste poeta em que à boa maneira camoniana se confunde o “amador com a coisa amada” Djarfogo /Fogo é nha nome botismo, / é Fogo laba burcam, / é Fogo sangue na beia,/ é Fogo amor na coraçan. // Um dia na mei de mar, / m' labanta na luz de sol, / nha serra botom fitchado, / desdobra el abri um frol, / m' nece ja cu nha destino, / nhas fidjus un cria's assim: / ali o pa tudo mundo, / peto bronze, / alma cetim   / Fogo é nha nome botismo, / nha graca ama nha bençom, / Fogo corage na peto, / Fogo manduco na mon.”Pedro Cardoso, in:  É mi que lha'r Fogo (1941). Para o leitor não falante do crioulo de Cabo Verde (no caso, a variante da ilha do Fogo) aqui vai uma tradução aproximada ao português: “Fogo é o meu nome de baptismo / Fogo é ser lava do vulcão / Fogo é o sangue que corre na veia / Fogo é ter amor no coração / Um dia no meio do mar / alevantei-me à luz do sol / Vi a minha serra qual botão fechado / desdobrar-se e abrir-se em flor / assim nasci já com o meu destino / assim criei os meus filhos / aqui e em todo o mundo / peito de bronze / alma de cetim / Fogo é o meu nome de baptismo / É a minha graça e a minha bênção / Fogo coragem no peito / Fogo manduco na mão”
Ora bem, o poema para além de realçar em linhas metafóricas, a orografia da ilha, a idiossincrasia das suas gentes, o poeta antropomorfiza a ilha, fazendo-a “falar” na primeira pessoa. É igualmente, um bom exemplo de fusão do poeta, com a sua ilha. Claro que se percebe que a versão original foi escrita para ser dita ou lida em  voz altissonante e com muita força emotiva. O interessante  é que mais uma vez a imagem do “manduco” cara e reiterada pelo poeta, simboliza e singulariza a ilha do vulcão.
Feche-se este aparte e voltemos ao jornalismo da época  de Pedro Cardoso.

Para além do mais, através do «Manduco», espreita-se também um tipo de jornalismo praticado e nobilitado pela pena dos intelectuais cabo-verdianos do início do século passado. E aqui estamos já a falar de textos jornalísticos elaborados com o saber e a pena culta, dos seus autores, porque são homens de e da cultura que os elaboraram para os jornais onde colaboravam. Mas não vá sem dizer que estes jornalistas literatos, Pedro Cardoso, Eugénio Tavares e José Lopes manejam com à-vontade nos seus textos, o intertexto - porque os conhecem bem - dos escritores, poetas portugueses, clássicos, românticos e realistas. Para exemplo,  na poesia lírica adoptam como patronos, Camões e João de Deus; já o modelo e o modo de compor os sonetos de assuntos elevados e espirituais é em Antero de Quental que buscam o padrão; como modelo de poeta anti-clerical, protestatário e combativo é Guerra Junqueiro; e finalmente, o exemplo a seguir de Historiador probo e sério,  é Alexandre Herculano. Outro vulto frequentemente, por eles citado é Victor Hugo da Literatura francesa. Basta ler os números de «Manduco» para disso se aperceber. 
No jornalismo do passado das ilhas, encontrámos  personalidades e nomes que nele se destacaram. Referirei  apenas alguns, para exemplo: Luís Medina, Luís Loff,  Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Corsino Lopes, Abílio Macedo, José Barbosa, J. Calasans, João Gomes Barbosa, Mário Pinto, César M. Barbosa, entre outros.
Uma observação: neste rol de nomes ilustres mencionados incluí a maior parte daqueles, cuja colaboração «O Manduco» regista  e que pode ser confirmada pela vossa leitura dos números publicados.

Mas antes de prosseguir, e porque nada acontece ao acaso, haverá sempre um contexto histórico a enquadrar. Com efeito, e fazendo rapidamente um pouco de história, em retrospectiva, verificámos que a liberalização da imprensa portuguesa que já vinha acontecendo a partir do último quartel do século XIX como resultado de toda uma legislação de matriz liberalizante, especificamente a ela destinada, teve como efeito mais imediato, um surto de vários jornais em Portugal, a maior parte de expressão combativa e política. O interessante é que se verificou também aqui no arquipélago, mais ou menos na mesma altura, e com especial realce para a cidade da Praia, uma relativa “abundância”, se assim me é permitido expressar, de periódicos e de jornais, com a mesma feição dos congéneres portugueses.
Com efeito, em Cabo Verde, seguiu-se com entusiasmo, e através de alguns jornais portugueses, as lutas Liberais que em Portugal se travavam. Pois que o ideal liberal pugnava pela defesa do desenvolvimento do país e, por arrastamento também o das suas colónias. Mas o realce era o da liberalização de leis para vários sectores. 
Ora bem, nessa senda, e a partir de 1877, os nossos publicistas, periodistas e editores, a maior parte homens letrados e pertencentes, muitos deles, às elites das ilhas, entusiasmados com o caso da então metrópole, fundam - também aqui e  na cidade da Praia, sobretudo - jornais para a defesa dos interesses da colónia. Assim tivemos os jornais:  INDEPENDENTE,  CORREIO de CABO VERDE, semanários noticioso, literário e político; ECHO de CABO VERDE, jornal político e noticioso;  A IMPRENSA, semanário político e noticioso; A JUSTIÇA, O PROTESTO, quinzenários políticos; O POVO PRAIENSE, e O PRAIENSE, entre outros. Igualmente quase todos de pouca duração por motivos vários entendíveis, dos quais sobressai o problema financeiro para a sua manutenção e circulação.
De certa forma, este período pode ser considerado como tendo sido fecundo, porque também iniciático de um jornalismo com aspectos já autonomizados em matéria  opinativa e política do cabo-verdiano.
Abreviando, mais tarde, chegados ao século XX e com o advento e a implantação do regime republicano (1910) novas leis, mais democráticas e de maior alcance para a imprensa, são produzidas em Portugal - veja-se e leia-se o cabeçalho de «O Manduco» que traz destacada a seguinte inscrição: “Da Constituição Portuguesa (artigo 3º, nº 13) «A expressão do pensamento, seja qual fôr a sua forma, é completamente livre, sem dependência de caução, censura ou autorização prévia, mas o abuso deste direito é punível, nos casos e pela forma que a lei determinar». Tudo isso permitiu um renascer esperanças nos republicanos cabo-verdianos, que os havia aqui também e de boa cepa. Aguardaram ansiosamente  pela sua chegada. Entoaram-lhe loas através dos seus poemas e de outros escritos. Esperavam pelo cumprimento de promessas, de atendimento às graves crises famélicas, à construção de estradas, portos, escolas. Enfim, obras para o desenvolvimento do Arquipélago. Porque  eram eles,  os chamados homens bons das ilhas, que as haviam  reclamado. Então, aproveitando o bom momento histórico que se vivia, os activistas republicanos, os mais novos, muitos deles já com formação académica do Seminário-Liceu de S. Nicolau, retomaram com mais afinco, esta via de combate e de protesto que eram os jornais. E teremos agora um jornalismo mais politizado e até mesmo partidarizado. 
Reparem, que não é por acaso, que alguns dos nomes mais destacados da actividade jornalística cabo-verdiana foram filiados no Partido Republicano, no partido Socialista português, e alguns deles membros activos da maçonaria portuguesa que se expandiu entre as ilhas, com lojas e  com triângulos, organizações maçónicas do Grande Oriente Lusitano. A essas organizações políticas e secretas pertenceram exactamente os dois directores do «Manduco» - Pedro Cardoso e Eugénio Tavares. Outros, embora em menor número, como Abílio Monteiro de Macedo, pertenceram também à Carbonária. Todas elas sociedades secretas de índole republicana.
Vale acrescentar, que de uma maneira geral - raríssimas terão sido as excepções - os intelectuais cabo-verdianos aplaudiram, aderiram à liberdade trazida pelo republicanismo dos primeiros anos e conseguiram efectivar o chamado jornalismo combativo e de opinião com  algum desafogo. Aliás, o artigo de José Lopes inserto no nº 6 é um autêntico testemunho disso para a memória do Arquipélago.
Não é por acaso também, e  isso ficou evidenciado na leitura dos números do Manduco ora compilados que, quer Pedro Cardoso, quer Eugénio Tavares, quer José Lopes e quer ainda, os de mais colaboradores, procuram  louvar todos - Presidentes da República, deputados, ministros, governadores - desde que  tragam como “selo e senha” a marca do regime republicano. Eram sempre bem-vindos,  mesmo que falhassem os objectivos. Até isso lhes era tolerado. 
Abreviando e resumindo:  é neste contexto histórico de algum empolgamento republicano e libertário do espaço português de que Cabo Verde era parte, com liberdade de expressão da imprensa que vigorou (desde a implantação da república em 1910 até à ditadura militar instalada a 28 de Maio de 1926); é neste ambiente, repito, que surgiu e viveu  entre 1923/1924,  o jornal «O Manduco».
Para finalizar, uma nota de louvor à editora, Livraria «Pedro Cardoso», que na pessoa do seu Administrador/gestor Dr. Mário Silva, tem vindo a retirar da sombra e do esquecimento, autores e obras antigas, sempre válidos para a cultura cabo-verdiana, como foi esta edição compilada e “fac-símile” dos 13 números do Jornal «O Manduco».

QUE CAMINHOS SEGUIR PARA TORNAR O MUNDO MELHOR?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

 
     No passado domingo à tarde, assisti num canal televisivo a uma entrevista do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Questionado, afirmou que o mundo em que vivemos é hoje bem melhor do que o foi no passado, apesar das nossas queixas e lamentações. Pode ser verdade, mas o padrão de avaliação envolve parâmetros de vária natureza e depende do quadrante geográfico de quem o faça. A opinião de um europeu ou americano não será seguramente a mesma de um africano ou asiático.

     Ponto assente, isso obriga-nos a revisitar Alvin Toffler, escritor e jornalista americano (Outubro de 1928 - Junho de 2016), autor do best seller “A Terceira Vaga”, quando afirma que a História da humanidade é feita de sucessivas vagas de mudança operadas pelo processo civilizacional. A primeira vaga foi a Revolução Agrícola, a segunda a Revolução Industrial e a terceira a presente era da informação, da cibernética e da robótica, de que somos hoje beneficiários. Em Abril deste ano, Toffler proferiria uma conferência na Reitoria da Universidade de Lisboa, onde desenvolveu a sua teoria sobre aquilo que designou por Quarta Vaga – Bioeconomia, defendendo que a economia não pode mais desligar-se de práticas que ignorem a sua sustentabilidade numa equilibrada relação com o meio ambiente. Terá sido das últimas intervenções públicas do escritor, que faleceria dois meses depois, em 27 de Junho, aos 87 anos.

     O bem-estar que o homem almeja depende, inapelavelmente, da forma como vive e explora os recursos do planeta, como se organiza e como resolve os seus conflitos. As mudanças civilizacionais foram moldando a percepção do homem sobre os modelos de organização política e social e as formas de exercício do poder político. Na Primeira Vaga, o poder era personificado e exercido autocraticamente ou quanto muito assistido por um conselho. A noção de território e o sentimento de consciência nacional progressivamente foram tomando forma e consolidando-se. Na Segunda Vaga, com a Revolução Industrial e o Iluminismo, surge o Estado-Nação e desde logo o poder ganha formas de maior sofisticação, mediante estruturas jurídicas que orientam e regulam o exercício da soberania e a defesa dos interesses nacionais em confronto com outros povos.

     Hoje, as mudanças determinadas pela Terceira Vaga e a iminência da Quarta Vaga vieram pôr em cheque o modelo das instituições que nos governam desde há séculos tornando-as obsoletas e questionando a sua validade operativa. Embora permaneça o mito das soberanias nacionais, é cada vez mais difícil para um governo tomar decisões com a independência de outrora, sem ter de levar em conta factores exteriores que ganham relevo crescente com o processo de globalização proporcionado pela Terceira Vaga. Talvez seja a razão por que hoje há dificuldade em descortinar líderes de perfis que desejaríamos idênticos aos de um Churchill, de um De Gaulle, de um Roosevelt ou de um Adenauer. Mas estes líderes, transpostos para a nossa época, provavelmente iriam evidenciar as mesmas debilidades e insuficiências que a opinião pública aponta a par e passo aos governantes de hoje. Com efeito, a complexidade dos problemas sociais da actualidade não tem paralelo com o passado. O líder dos estados de direito democráticos não consegue exercer a sua autoridade pessoal sem ser contido pelas constituições ou expedientes jurídicos como as providências cautelares ou pressionado pela opinião pública através dos mais variados meios de comunicação.

     O que é verdade na esfera interna dos estados é particularmente reflexivo nas relações entre os estados e no plano em que se concertam com maior ou menor eficácia as políticas e as estratégias nacionais ou comunitárias. Dentro da União Europeia é cada vez mais nítida a percepção de que as soberanias nacionais se esbatem face às instituições comunitárias e aos desafios da globalização, e isso levanta interrogações, sobretudo nos sectores políticos mais à esquerda. O controlo dos orçamentos e a formatação das principais políticas nacionais obedecem às directrizes e imposições comunitárias. Mas o pensamento futurista de Alvim Toffler leva-nos ainda mais longe fazendo-nos ver que sem uma política mundial devidamente concertada o planeta compromete os seus equilíbrios e pode soçobrar.

     Então, os desafios são inumeráveis sem que as respostas se perfilem por enquanto com a urgência e a clareza desejadas. No seu livro “A Quarta Revolução − A Corrida Global para Reinventar o Estado”, Adrian Wooldridgem e John Micklethwait denunciam a crise da governação do mundo actual e a ineficácia do Estado no Mundo Ocidente, afirmando que é necessário revolucionar o sistema político e apontando caminhos para melhorar o futuro da sociedade humana. É verdade que a globalização trouxe benefícios óbvios ao mundo não obstante reger-se por um viés neoliberal, com os defeitos vários que lhe têm sido apontados, dos quais o mais preocupante é o impacto ecológico negativo em consequência do consumismo desenfreado e da devastação dos recursos naturais. Mas o processo da globalização é imparável e as sociedades humanas têm de se ajustar aos seus impulsos.

     Assim, se os problemas planetários atingem uma dimensão de tal ordem preocupante que não se compadecem mais com a inoperância de estados soberanos fechados em si, incapazes de gerar os melhores consensos no plano internacional, não haverá outra solução senão repensar o seu modelo. Ora, se a economia depende cada vez mais da dinâmica global, é natural que as soberanias tenham de encontrar pontos de convergência em espaços supranacionais onde as decisões políticas se sirvam dos mesmos instrumentos que lograram a agilização e a expansão da economia. A democracia não deixará de ser válida, importante e insubstituível como sistema de governo, mas ela terá de ser transposta eficazmente para as relações internacionais, de par com a diplomacia, aperfeiçoando os seus mecanismos de representatividade, auscultação e sondagem de opiniões, em ordem à melhor concertação de vontades para a melhor solução dos problemas globais.

     Neste processo, a Europa e os Estados Unidos não podem continuar a dar sinais de perderem o pé ante o ressurgimento da Rússia e a emergência das potências asiáticas. Caso contrário, deixará de fazer sentido a opinião de Mario Vargas Llosa quando, ao afirmar que o mundo está melhor, tomava como padrão de referência o Mundo Ocidental.

 

Tomar, 10 de Outubro de 2016

 

Adriano Miranda Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Caro leitor, eis aqui um texto que retirei - com a devida vénia - do «Arrozcatum» “blog” de Zito Azevedo e que vale a pena ler, pois a sentença do Juiz para além de pedagógica, convida a uma reflexão sobre as relações e os valores inter-gerações. Pais/filhos; professores/alunos.

 

“O juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, no interior do Sergipe, Brasil, julgou improcedente um pedido de indemnização que um aluno pleiteava contra o professor que lhe tirou o telemóvel na sala de aula.

De acordo com os autos, o educador tomou o telemóvel do aluno, pois este estava a ouvir música com os fones de ouvido durante a aula.

O estudante foi representado por sua mãe, que exigia  reparação por danos morais diante do "sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional". Na negativa, o juiz afirmou que "o professor é o indivíduo vocacionado para tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe”. O magistrado solidarizou-se com o professor e disse que "ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma".

O juiz Eliezer Siqueira ainda considerou que o aluno violou uma norma do Conselho Municipal de Educação, que impede a utilização de telemóveis durante o horário escolar, além de desobedecer, reiteradamente, às instruções do professor. Ainda considerou não ter havido abalo moral, já que o estudante não utiliza o telemóvel para trabalhar, estudar ou qualquer outra actividade edificante.

E declarou: "Julgar procedente esta demanda, é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os reality shows, a ostentação, o ‘bullying intelectual', o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectualmente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira”.

Por fim, o juiz ainda faz uma homenagem ao professor. "No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro HERÓI NACIONAL, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu ‘múnus’ com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor."

 

ISTO DEVERIA SER LIDO POR TODOS OS POLÍTICOS, MAGISTRADOS, PROFESSORES, ALUNOS MAL COMPORTADOS E RESPECTIVOS PAPÁS...

(Pesquisa de Adriano M. Lima)



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DA IDEOLOGIA E OUTRA ORDEM DE PRINCÍPIOS

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

                    

     As ideologias podem definir-se grosso modo como sistemas de pensamento abstracto concebidos para interpretar a realidade social e encontrar soluções para os problemas das comunidades humanas. Os partidos políticos organizam-se em função de uma ideologia, que, em princípio, deverá pautar a sua concepção sobre a sociedade e a governação da coisa pública.

     Mas, nos tempos que correm, há quem pense que a ideologia está a ser substituída por ideias feitas produzidas por uma determinada corrente da economia. Ou seja, por uma visão monolítica veiculada por uma globalização de cariz neoliberal, pouco aberta a encarar variantes de pensamento racional no seu seio. É certo que todo o sistema económico é legítimo detentor de uma ideologia, mas o problema é quando ele se julga inatacável nas suas razões, nos seus propósitos e nos seus fins. Em boa verdade, esse monolitismo, salvaguardadas as diferenças, tende a ser do mesmo jaez do que caracterizava a ideologia marxista-leninista, que se subordina rigidamente às relações de dominação entre as classes sociais, pouca margem de maleabilidade consentindo na sua dialéctica.

    Estando a ideologia marxista-leninista aparentemente na mó de baixo, a palavra de ordem vem agora de uma ideologia de sentido contrário, e de coloração única, em que o credo do mercado sob a égide do capitalismo liberal mais ortodoxo se impõe em toda a linha condicionando a vida dos povos.

     E qual é o resultado desta evidência? Desde logo, uma vez induzida uma única visão da realidade, a Ideologia, na sua pluralidade, deixa de catalisar a discussão e o confronto político, ficando assim coarctada a liberdade de pensar, criar e inovar. E a democracia é praticamente assassinada porque só um livre escrutínio eleitoral pode ditar a escolha maioritária da ideologia vencedora ou dos acordos políticos gerados pelo confronto de pensamentos diferentes ou opostos. Só nessa condição a Ideologia é trave mestra na definição dos parâmetros orientadores das soluções governativas. Ora, se falece essa possibilidade, ou se estiola a virtude que lhe está subjacente, cai-se na alienação e na consagração de um pensamento único, via aberta para a autocracia.

     De facto, a ausência da discussão e do confronto de visões distintas abre caminho para a aridez mental que propicia a manipulação de consciências. Por trás, instalam-se então de pedra e cal poderes invisíveis que se obstinam nos seus processos e nos fins a atingir. No nosso país como em outros mais, os instrumentos dilectos da sua estratégia de manipulação são órgãos de comunicação e políticos domesticados e desprovidos de ideologia.

     Sim, políticos domesticados e desprovidos de ideologia, disse eu. Infelizmente, é o que mais abunda nas pseudo democracias da actualidade. Políticos que nunca se sentiram tocados por um lampejo do ideal de servir a comunidade e que apenas ingressaram numa formação partidária para assegurar um modo de vida cómodo que nunca almejariam mercê das suas capacidades profissionais e competindo no mundo do trabalho.

     Muitos deles se diziam da extrema-esquerda na sua juventude para mais tarde se metamorfosearem hipocritamente em sociais-democratas ou liberais, como ilustram vários exemplos. Mas em todos os casos sem um verdadeiro substrato ideológico enraizado no seu espírito. São dos tais que mudam de partido como quem muda de casaca ou que abdicam de cargos políticos para que foram eleitos mal vejam o aceno de um lugar privilegiado numa superestrutura supranacional ou a oferta de um cargo bem estipendiado no tal mercado que hoje manipula e tutela as nossas vidas. De resto, para eles o cargo político é apenas um trampolim para outros voos. Sem ideologia propriamente dita na ossatura do seu pensamento ou nas fímbrias da sua consciência, desconhecem o significado da palavra Ética e espezinham a palavra Moral se algo de incómodo surge no trajecto das suas conveniências pessoais.

     A União Europeia foi outrora um paradigma de valores e princípios que outros povos gostariam de emular. Hoje, o seu destino parece estar nas mãos de gente sem ideias, pouco escrupulosa e de escassas virtudes.

    

 
Tomar, 23 de Setembro de 2016

Adriano Miranda Lima

 

 

 

 

 

2016 – O “ANNUS HORRIBILIS” DO PAIGC/CV

quarta-feira, 7 de setembro de 2016


A 20 de Março – início da Primavera – anunciava-se alegre e ruidosamente, em Cabo Verde, a Primavera política. A vitória do MpD nas legislativas que cobriu todas as ilhas de verde anunciava um Verão político – as autárquicas – muito quente para o PAICV, o que veio a acontecer. Sem dúvida que o acompanhou o calor abrasador que grassa pelas nossas ilhas. 

Outono não se anuncia melhor. E não será apenas uma questão da onda verde que politicamente galgou Cabo Verde mas produto de um desempenho muito bom do candidato presidencial à sua própria sucessão que resgatou a imagem da função presidencial, que herdara do seu antecessor, tornando-a de novo honrosa, dignificada, culta e respeitada por todos os cabo-verdianos.

Assim, 2016 ficará para a História do PAIGC/CV como o Annus horribilis.

Se a retumbante vitória do MpD nas legislativas tinha paralelo nas duas maiorias qualificadas de 1991 e 1996, os resultados destas autárquicas podem configurar, sem pôr em causa o que diz o presidente do MpD – “uma vitória da democracia” – um eventual “desvirtuamento” no funcionamento da democracia cabo-verdiana se não se lhes derem a devida atenção e um analítico enquadramento. Isto é, devem ser analisados numa óptica realista: sem quaisquer deslumbramentos ou triunfalismos.

Atente-se à dimensão da oposição PAICV: duas pequenas – com todo o respeito, muito pouco importantes – câmaras em vinte e duas, tendo sido relegado para terceira força política em três concelhos. Uma autêntica hecatombe!

Os resultados destas duas eleições bem como a quase certa vitória nas presidenciais que  se aproximam do actual Presidente (mandato suspenso) que não obstante não pertencer a qualquer partido político é inquestionavelmente da área política próxima do MpD, podem configurar um regresso, desta vez, democrático, de “partido único”. Toda a atenção é pouca!

Diz o povo que quem semeia ventos colhe tempestade. Foram quinze anos de maioria democrática que foram exercidos com poder absoluto, autoritarismo e exclusão apoiados em mentiras, falsas promessas e malabarismos retóricos. O PAICV foi implacável! Quem não fosse desse partido era simplesmente ignorado ou afastado. Isto num País em que o Estado é, de longe, o maior empregador.

O ex-presidente do PAICV quis, como primeiro-ministro, “brincar” com o povo cabo-verdiano, sobretudo no seu último mandato, e como militante do PAICV com o seu próprio partido, ao menorizar a sua sucessora dando-lhe um subalterno e modesto lugar no seu governo, promovendo-se num desenfreado marketing pessoal com viagens permanentes e discursos demagógicos, populistas e ego-centrados, pensando apenas nas presidenciais que acabariam, para ele, por se gorar. A pouco e pouco ia definhando o seu partido julgando que com a sua postura se sobressairia. Ele seria a montanha e o resto a planície ou a achada. Para a consumação dos seus objectivos, apenas seria necessário agradar os chamados “históricos” o que fez enchendo-lhes de benesses e mordomias que o actual governo e as finanças públicas terão que gerir.

É certo que a sucessora, jovem e impetuosa, deixou-se embalar na “canção do bandido” que mais não era do que um disfarçado “canto do cisne”, assumindo a continuidade em vez de se demarcar da gestão desastrosa da qual chegou a ensaiar críticas assertivas em alguns discursos, designadamente na disputa interna para a presidência do partido, promovendo a verdadeira renovação do seu partido para a qual tinha todas as condições, nomeadamente combatividade e juventude – tempo para esperar melhor altura de voltar e impor as suas convicções, se tivesse que bater com as portas.

O partido ainda estava vivo quando o recebeu, mas em morte lenta, em estado comatoso que ela não soube ver e muito menos, consequentemente, gerir. Faltou-lhe a visão estratégica ou, pelo contrário, houve excessiva ansiedade e ganância pelo poder? Ou ambas? E agora, só lhe resta fazer o funeral. O do partido, não o seu funeral político porque é jovem e tem pela frente um longo e promissor futuro. O primeiro passo está dado. A questão agora será sempre o timing... E as convicções!

Não obstante a soberania do povo na sua escolha, não há qualquer dúvida que o actual estado do País não é o mais conveniente para o bom funcionamento da democracia: as autarquias, o governo, o parlamento e o presidente, todos da mesma área política.

É preciso que, rapidamente, o PAICV se reestruture, interiorize a democracia e consciencialize de vez, de que não é o dono disto... Ele é necessário para a democracia se assumir verdadeiramente esta forma de ser e estar na política. Não apenas a retórica.

Na ausência de uma oposição com voz – a actual é fraca e, com poucas excepções, sem moral – impõe-se, pois uma abertura interna e alguma atenção para a crítica no seio do MpD e a afirmação de uma sociedade civil verdadeiramente empenhada e actuante.

Embora aposte que o PAICV fará precisamente o contrário, é minha opinião que devia investir em força nas presidenciais de forma a levar os seus votos à presidência e ganhar alguma legitimidade para o respaldo às suas eventuais reivindicações. Ter cuidado com o discurso nas presidenciais porque, mesmo que o eleito seja o Presidente de todos os cabo-verdianos, “só não sente quem não se sente filho de boa gente.”

O que na verdade estranha são os defensores do “partido único”, do “centralismo democrático” e da “democracia nacional revolucionária” de triste memória que nos “orientou” durante quinze (ou serão 30?) longos anos, insurgirem agora contra o actual figurino” porque, afirmam, (imagine-se!...) “os ovos estão todos no mesmo cesto”.  Convenhamos!...Nunca é tarde para se mudar de ideias. É por isso que se diz que só não muda de ideias quem as não tem.
A. Ferreira


domingo, 4 de setembro de 2016
Por achar interessante o texto “A pessoa que ele é” aqui o publico com a devida vénia ao autor, cujos textos aprecio e que leio com alguma regularidade.  Bom Domingo para todos!

A pessoa que ele é
Amar os filhos porque são filhos, e não gostar das pessoas que eles são
Não sei se os leitores têm uma ideia da frequência com que fala dos filhos quem procura consultas de psicologia ou psiquiatria. Ainda que a razão mais imediata seja outra, mais cedo ou mais tarde estamos a conversar sobre eles e elas – como agora se diz, para não ofender as mentes politicamente corretas...
Na nossa vida, a partir do momento em que os rebentos aparecem, e até à morte, estão sempre dentro de nós, para o bem e para o mal. Há-os para todos os gostos: os porreiros, que não complicam nada a vida; os assim-assim, que têm fases complicadas mas depois vão ao sítio; e os muito chatos que nos xingam os miolos por tudo e por nada.
Em grande parte por nossa culpa; nossa, dos técnicos, que meteram na cabeça dos pais que os filhos são fotocópias genéticas. Passamos a vida a pensar: ”Mas o que é que eu fiz de errado para me sair esta prenda?” De vez em quando conseguimos respirar fundo e dizemos para outro progenitor: “Não ligues, já nasceu assim, não temos culpa nenhuma, os outros são diferentes, este é que nasceu 'com os pés para a frente'.”
Nunca mais me esqueço de um homem, já com 60 anos, que me procurou por uma situação que não tinha nada a ver com os filhos. Quadro de uma empresa, estava farto do que fazia e cheio de projetos diferentes para o futuro, mas hesitava sobre o que fazer, sobretudo por questões de lealdade a quem trabalhava com ele. Falámos algumas vezes neste contexto, até que um dia me perguntou se podia falar dos filhos. “Claro que pode!”
“Eu tenho dois filhos, já estão os dois a trabalhar, um já casou, o outro vive acasalado, tenho um neto e vem uma neta a caminho. Mas há uma coisa que me persegue desde há muitos anos. Não consigo ser igual com os dois. Claro que do ponto de vista material, não faço nenhuma diferença, sempre lhes dei o que podia e achava adequado. O senhor doutor tem filhos?” Disse-lhe que sim. “Então, se calhar, percebe o que lhe vou dizer, só consigo falar disto com a minha mulher e, felizmente, nunca atirámos culpas um ao outro. O mais velho, desde pequenino, sempre foi mais difícil, dormia pior, comia pior, não tivemos uma noite sossegada durante uns bons anos. Mas dissemos um para o outro: ”Isto vai passar.' A pouco e pouco, nem sei bem explicar como, comecei a sentir que havia uma barreira entre mim e ele, esforçava-me por quebrá-la, mas à mínima aproximação ele dava-me com os pés e à mãe também. Revoltei-me e culpei-me, acordei a meio da noite várias vezes a pensar nisto, mas com o tempo foi-se instalando uma coisa terrível para mim. Comecei a dizer para mim próprio que, se tivesse conhecido este tipo socialmente, não o aturava nem um minuto, e dei por mim a fugir dele, mas não deixando de cumprir as minhas obrigações de pai. O doutor percebe isto que lhe estou a contar?” E começou a chorar, convulsivamente. “Desculpe eu estar a chorar. É que não gosto da pessoa que ele é.”
José Gameiro in “Diário de um Psiquiatra”
(Revista “EXPRESSO” de 23/Abril/2016)


terça-feira, 2 de agosto de 2016
SENTIMENTOS RETROACTIVOS

Aquela “rapariga branca”


     De vez em quando, acordo de madrugada e sou repentinamente assaltado pela recordação de episódios remotos da minha vida. Guardados na memória, de onde nunca saíram nem se deliram nos seus pormenores, estão arrumados em prateleiras que a mente constrói para não colapsar sob o peso do quanto vai sendo acumulado.
     Em Julho de 1967, era, desde há quase dois anos, comandante de um pelotão no Leste de Angola (Zona de Intervenção Leste), que se tornara de intensa actividade de guerrilha, a partir do momento em que o MPLA resolveu abrir a chamada “Frente Leste”, reduzindo a pressão no Norte. No decurso de várias acções, diferidas no tempo, o meu pelotão havia perdido em combate duas praças, um cabo e um soldado, e sofrido dois feridos com alguma gravidade, mas que regressaram à actividade depois de hospitalizados e recuperados. O pelotão, que era independente, isto é, não integrado em companhia, estava de reforço a um batalhão sediado num lugar que se chamava Gago Coutinho, hoje designado Lumbala Nguingo.
     Por essa altura da nossa comissão, entendendo os comandos superiores que as tropas da zona já tinham a dose suficiente de desgaste físico e moral, foi ordenada a sua rendição e transferência para região mais tranquila. O batalhão foi para as zonas de Benguela, Lobito e Moçâmedes, onde não havia guerra, e o meu pelotão para Luanda, integrando a Reserva da Região Militar de Angola. Foi assim que deixámos o mato e rumámos a Luanda, num percurso terrestre de quase dois mil quilómetros, tendo ficado aquartelados no Campo Militar do Grafanil, uma mega infra-estrutura militar localizada nos arredores daquela cidade. Para trás ficaram dezanove meses de isolamento e constante tensão psíquica.
     No Grafanil, ficámos disponíveis para a escala de missões de escolta a colunas de reabastecimento para a Zona de Intervenção Norte. Mas foi sol de pouca dura a permanência em Luanda. Um mês depois, éramos transferidos para a Fazenda Tentativa, um colossal empreendimento agro-industrial, cerca de sessenta quilómetros a norte de Luanda. A Fazenda Tentativa integrava uma extensíssima plantação de cana-de-açúcar, cujos canaviais se espraiavam pelas margens do rio Dande, e uma fábrica para a transformação no produto final – o açúcar. Tudo isso pertencia à Companhia de Açúcar de Angola, que exportava o produto para todos os cantos do império. Nunca tinha visto um empreendimento daquela extensão, possuidor de muitas valências e autónomo nas suas funcionalidades orgânicas e sociais. Com efeito, a Fazenda possuía apoio sanitário próprio, igreja, hospital, farmácia, laboratório de análises, escola, um cinema ao ar livre, e até um improvisado campo de futebol. A infra-estrutura fabril, com vários armazéns, era enorme e debitava continuamente na sua função de produzir açúcar e outros derivados, mas com o inconveniente de poluir o ar com a fuligem das suas chaminés, conspurcando as roupas de quem estava nas imediações. A cana crescia livremente nos extensos hectares formando um matagal intransponível, a qual, depois de cortada, era transportada em pequenos vagões que rolavam por carris de ferro puxados por tractores desde o local da colheita até à fábrica.
     A mão-de-obra agrícola era privativa, instalada num grande aldeamento tipo roça, constituído por modestas habitações de alvenaria para alojar os trabalhadores e suas famílias, que seriam de muitas centenas se não milhares. A direcção e os funcionários dos serviços administrativos viviam em moradias com os requisitos normais de conforto. Enfim, aquele complexo surpreendia pela sua grandiosidade e pela modernidade da sua concepção, embora se questione a óbvia exploração da mão-de-obra barata que era garantida pela população indígena, e também por cabo-verdianos, que suponho terão ido para Angola com contratos que não difeririam muito dos das roças de S. Tomé no que concerne à questão laboral. Tinham, é certo, habitação e assistência sanitária, e eram-lhes fornecidos alguns géneros alimentícios essenciais (farinha, peixe seco, óleos), mas a remuneração monetária era indubitavelmente de valor irrisório, como viria a saber.
     Em instalações adaptadas dentro do perímetro da Fazenda, encontrava-se sediado um comando de batalhão, apenas com uma das suas companhias orgânicas, estando as restantes três aquarteladas no Grafanil. Esse comando de batalhão exercia o comando de um subsector militar naquela região, o qual integrava ainda duas companhias de origem diferente, instaladas, respectivamente, na vila do Caxito e na localidade das Mabubas, onde havia uma barragem hidroeléctrica.
     Toda esta sucinta descrição serve para introduzir o que vem a seguir, que é do foro mais íntimo. Na Fazenda Tentativa, onde reencontrei alguns camaradas alferes que eu já conhecia, por terem embarcado comigo para Angola na mesma viagem do navio Vera Cruz, ao tempo transformado em transporte de tropas para a guerra do Ultramar, foi-me proporcionado algum retorno à “civilização”. No entanto, apesar da situação de descompressão que passámos a fruir, fomos empenhados em certas missões, como aconteceu com a protecção militar à safra do café na região de Uíge e a ocupação durante um mês do destacamento militar da Barra do Dande, junto ao mar.
     Depois da minha chegada à Tentativa, soube logo que havia dois cabo-verdianos funcionários dos serviços administrativos da Fábrica, ambos naturais de Santo Antão e pertencentes a duas famílias conhecidas da Vila da Ribeira Grande, respectivamente, de apelidos Medina e Benrós, com os quais viria a estabelecer contacto e relações pessoais, tendo, inclusivamente, sido convidado para o almoço do dia de Natal em casa do Benrós, que era casado. Ambos eram bem mais velhos que eu, pelo que não havia um conhecimento pessoal que remontasse ao tempo do liceu Gil Eanes.
     Certo dia, um alferes disse-me: − “Lima, há uma rapariga cabo-verdiana branca entre os pretos do aldeamento dos trabalhadores. Ela é mais ou menos da nossa idade e parece que vive com um deles. Destoa completamente naquele meio”. Respondi-lhe que podia, de facto, dar-se o caso que lhe atraiu a atenção, já que em Cabo Verde o processo da nossa miscigenação ocasionou e continua a ocasionar os mais diferentes tipos étnicos, embora com predomínio da cor escura. Mais adiantei que na nossa terra, dum modo geral, o comum das pessoas não interioriza a cor da pele como um factor de diferenciação social, sendo até vulgar verem-se pessoas de cor branca em condição muito modesta e outras de tez escura bem instaladas na vida. Prestado este esclarecimento, o tempo foi fluindo, entre as rotinas da vida militar e as horas de ócio. Um dos passatempos era o jogo de cartas, em que o tenente-coronel comandante participava. Bracarense, era homem de poucas palavras e pouco aberto a elucubrações, fossem elas de teor genérico ou, muito menos ainda, de natureza política. Mas um dia, a dado passo da conversa, teve este desabafo: “ Estamos aqui desterrados a guardar tudo isto, que não passa de um negócio de exploração de mão-de-obra barata para não dizer escrava. Os donos vivem principescamente nos seus palacetes no Estoril e em Cascais e estes desgraçados são pagos com uma macheia de farinha e um salário miserável”. Surpreendeu-me ouvir isso de quem ostentava um ar sisudo do alto da sua avantajada estatura.
     Aconteceu que, certo dia, estando eu em frente da instalação que funcionava como messe/bar para os oficiais, apercebi-me de uma jovem mulher que vinha na companhia de outra igualmente jovem. A diferença entre as duas é que uma era branca e outra escura, mas ambas descalças e com vestes modestas, em tudo denunciando-se a sua condição social. A branca poderia, como é normal em Cabo Verde, ser mestiça, mas as suas características pouco ou nada o denunciavam. A outra, embora de tez escura, pareceu-me do tipo cabo-verdiano, pelas feições regulares e até pela sua pose natural. A branca susteve o passo e simulou continuar a conversa com a companheira, mas ficando a olhar detidamente para a minha pessoa, pouco ou nada disfarçando a curiosidade. Tal como eu soube que havia uma cabo-verdiana “branca entre os pretos”, ela, provavelmente, terá tido conhecimento de que havia chegado um oficial cabo-verdiano à guarnição militar. Por momentos, senti-me algo confuso porque a mulher olhava-me da cabeça aos pés, ao passo que eu, pela discrição que me é própria, não correspondia com igual desfaçatez, mas sem deixar de notar que ela possuía um rosto atraente, de tez bem clara, feições regulares e cabelos castanhos lisos e corridos. Seria ela a tal cabo-verdiana “branca” de que me falara o meu camarada? Viria a saber que sim e que ela era do Fogo e vivia com um natural da sua ilha, de outra cor de pele. Admiti que ela poderia estar a trabalhar na Fazenda em trabalhos domésticos e não propriamente na actividade da fábrica ou da plantação.
     Tempos depois, estando eu no cinema da Fazenda a ver um filme dos que ali se projectavam regularmente, verifiquei que a jovem em causa e, supostamente, o marido, ou companheiro, estavam sentados mais à frente e obliquamente ao sítio onde eu me encontrava. De novo, ela voltou a incidir a atenção sobre a minha pessoa, virando constantemente a cabeça para me olhar, pouco se importando com a presença do par ao lado. Houve mesmo uma altura em que este se virou para olhar na mesma direcção, talvez estranhando que a mulher persistisse naquela sua curiosidade.
     Depois disso, não me recordo de ter voltado a encontrar a rapariga no meu trajecto dentro do imenso espaço da Fazenda. Até porque estive afastado da guarnição em duas missões diferentes e prolongadas, como atrás referi. De vez em quando, percorria de jeep a área do empreendimento, passando pelo vasto aldeamento dos assalariados, em tarefas ligadas à fiscalização da segurança militar do perímetro. Será que no meu íntimo a queria reencontrar, sabe-se lá movido por que instigações íntimas? Na verdade, não a esquecera. Sei que arrisco a que se veja nas minhas palavras o recalcamento de um inconfessável desejo secreto. Todavia, não houvera qualquer contacto entre nós, sequer uma conversa, apenas uma silenciosa e tensa curiosidade recíproca, ostensivamente assumida por ela e convenientemente mitigada por mim. Mas é aí que radica uma arreliadora ambiguidade no meu comportamento. Se lhe tivesse prestado uma especial atenção por causa da sua cor, estaria a cair na mesma armadilha mental que o meu camarada alferes. Ambas as raparigas que eu vi pela primeira vez frente à instalação da messe/bar eram cabo-verdianas. O interesse que me poderiam despertar a mim, um cabo-verdiano, só poderia ser em função do seu valor humano e não da cor da pele. Só que uma delas, a branca, é que aparentou uma atitude de interesse focalizado na minha pessoa, suscitado por mera curiosidade ou outro motivo. Daí eu admitir que talvez pudesse ter tido um comportamento diferente para com ela.
     A esse tempo, eu era um jovem tão discreto como hoje sou por natureza, contudo sem a actual capacidade de introspecção, fruto do posterior amadurecimento dado pelo tempo e de uma contínua reflexão sobre o sentido da vida. Hoje, com outro suporte interior, tento reproduzir, psicanaliticamente, e por mera hipótese, o que essa moça terá congeminado com os seus botões ao avistar o alferes conterrâneo. Oriunda de uma terra em que as diferenças étnicas eram quase irrelevantes nas suas consequências mais directas, terá encontrado nas paragens onde passou a viver, uma realidade diferente. Percebeu que havia discriminação pela cor da pele e que a estratificação social não era indiferente àquela condição. No entanto, ela, branca, ou quase, estava entre os “pretos”, sujeita ao mesmo fadário de pobreza e sonhos trancados. Com escassa instrução escolar, estava condenada a viver irremediavelmente no mais baixo patamar de vida, sem que a cor da pele lhe acrescentasse especial valia. Do outro lado, via alguém de tez semelhante à dela e no entanto possuindo um estatuto social diferente, vivendo entre os “brancos”. Porque é que, sendo ambos filhos de terra minguada de recursos, viviam em realidades opostas? Que oportunidades divergentes houve para justificar a deriva dos seus percursos de vida? Claro que as respostas a estas perguntas são do nosso conhecimento. Os trâmites da vida não são lineares, emaranham-se em teias que o destino tece ou o homem lhe proporciona com as suas acções.
     Pois, é pouco provável que a jovem foguense, espírito simples, tenha entrado nesse intrincado campo de cogitações. Naquela idade, os seus impulsos humanos seriam, certamente, tão instintivos e naturais quanto eram então os do jovem alferes. Uma simples curiosidade feminina apenas a terá movido, não a conseguindo conter dentro dos limites das conveniências sociais, ignorando códigos de conduta mais sofisticados. Todavia, hoje penitencio-me de não ter mandado bugiar as convenções ou a prudência que me impediram de tomar a iniciativa de lhe falar para saber algo sobre a sua vida, não necessariamente por causa dela ou por reacção à sua indiscreta curiosidade, mas para saber dos nossos conterrâneos que ali trabalhavam de sol a sol para angariar o sustento. Quem sabe prestar-lhe, a ela e a outros, algum favor pessoal dentro das minhas possibilidades. Em boa verdade, os contactos na Fazenda que me permiti foram com pessoas mais próximas do meu estrato social e cultural. Era a atitude mais cómoda e mais conveniente para quem ainda andava na incipiência do amadurecimento psicológico, mais atraído para o óbvio e o senso comum, sem suficiente consciência de si para lançar âncora em fundos abissais. Embora com o arcaboiço psicológico de quem já tinha convivido com a Senhora Morte, o jovem Adriano ainda dormia a noite toda o sono tranquilo da inocência e não acordava de madrugada assaltado por longínquas recordações de factos e acontecimentos que não foram resolvidos em toda a plenitude da sua humanidade.
     Que é feito dessa jovem conterrânea branca, pobre, de pés descalços, que me fitou demorada e enigmaticamente naquela manhã africana e naquela noite no cinema? Provavelmente seguiu o mesmo destino daquela terra martirizada pela guerra civil e pela selvajaria demencial. Deve ter comido o pão que o diabo amassou, como tantas outras criaturas inocentes e indefesas que sofreram penas e horrores por culpa directa ou indirecta daqueles que as queriam “libertar”. Confortar-me-ia que ela tivesse regressado ao Fogo e reconstituído a sua vida, quem sabe emigrando para a América ou outro destino risonho, deliciando-se com a presença de netos como eu.
     Quando, em Janeiro de 1968, deixei a Fazenda Tentativa para embarcar de regresso à Metrópole, observei pela última vez os extensos canaviais que se perdiam de vista no horizonte, ondulando ao sopro da brisa. Da portentosa riqueza restam hoje apenas destroços, como pude ver em imagens actuais obtidas através da net. Mas o esqueleto de toda aquela infra-estrutura ali permanece como um fantasma que, após a morte física, se obstina em não abandonar o mundo dos vivos. Foi certamente daqueles escombros de memória que emergiu a imagem da conterrânea foguense para acordar o meu espírito na madrugada passada, meio século depois.



Tomar, 1 de Agosto de 2016

Adriano Miranda Lima