AS “TRUMPALHADAS” DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL AMERICANA

domingo, 13 de novembro de 2016
       Penso que na história social dos EUA não há memória do que se viu no “day after” à eleição do novo presidente do país. Com efeito, manifestações ruidosas e atrabiliárias ocorreram em algumas cidades, contestando a eleição de Donald Trump, como que a confirmar o velho adágio: quem semeia ventos colhe tempestades.
     Posto isto, muitos perguntarão o que irá agora na cabeça do próximo inquilino da Casa Branca, quando, uma vez eleito, parece forçar sinais de um comportamento diferente do estilo belicoso, boçal, reles e ordinário que caracterizou a sua campanha eleitoral. De facto, e na aparência, é como se o leão se tenha de repente convertido em cordeiro. Será então caso para indagar o que há de verdade e autêntico no comportamento de Donald Trump. Ele é o rufião da campanha eleitoral ou é o homem que, num ápice, muda a sua pose por finalmente tomar consciência da realidade e da tremenda responsabilidade do cargo para que foi eleito?
     Ora, não é crível que alguém, ainda mais aos setenta anos, mude de personalidade e de carácter, a não ser por conveniência táctica. Por isso, quando, em súbita pirueta, Trump exterioriza um ar mais apaziguado e compõe um estilo mais contemporizador, reluzindo de urbanidade, pergunta-se se não estamos perante alguém com dotes de actor. Sendo assim, forçoso é reconhecer que o homem não será destituído de astúcia política, como se poderia supor, o que, paradoxalmente, deita por terra a ideia de um estilo populista puro e duro. Vendo a coisa pelo viés da sociologia política, direi, especulando obviamente, que na campanha eleitoral o Trump pode ter usado o tom e o modo que julgava adequados para conquistar o eleitorado que lhe interessava. Ou seja, o eleitorado WASP (branco, anglo-saxónico e protestante) das classes média e média-baixa, visando nomeadamente as cidades industriais decadentes e o mundo rural. Sem este estratagema, moldado pela astúcia e pelo cálculo, fica a dúvida se ele teria conseguido atrair aquele sector da sociedade que foi seguramente decisivo na sua vitória. Caber-lhe-á agora arranjar expedientes para não defraudar aquele segmento social, sem que o que será muito curto o seu estado de graça.
     Isto porque, colocado agora frente à realidade fria dos factos e das circunstâncias, deve estar a passar em revista as promessas eleitorais proclamadas alto e bom som. Sentirá um frio percorrer-lhe a espinha quando pensa na promessa de dar uma machadada na globalização com a taxação substancial dos produtos importados da China e da Europa, sabendo como sabe que aquele país detém a dívida federal dos EUA, de mais de 1 trilião de dólares? Estará a meditar na promessa de retrair a intervenção do seu país como polícia do mundo (NATO), quando sabe que esse papel é indissociável da prosperidade da indústria de guerra americana? Estará a medir o alcance efectivo da sua promessa de maciço investimento público no país, sabendo de antemão que uma medida de natureza keynesiana não se quadra a uma economia aberta e autónoma a nível da política monetária? Isto só para referir três medidas emblemáticas porque outras que foram anunciadas não deixarão de implicar fortemente com a realidade social americana.
      É óbvio que um empresário da estirpe do Trump só pode ter triunfado no mundo de negócios graças ao comportamento racional e não à atitude impulsiva, epidérmica e errática. Assim, quando acusou a candidata opositora de pertencer ao “sistema”, surpreende que a denúncia seja feita por um grande tubarão como ele, já que uma economia genuinamente liberal como a americana não deixa de se entrelaçar na rede dos interesses políticos. De duas uma, ou ele leva até ao fim o seu papel de “outsider” ou não demorará a ser engolido pela dinâmica natural do “establishment” social e política que ele verbera e considera responsável pelo esmaecimento da grandeza do seu país. Seja como for, a grande novidade é este caso de populismo ser personificado por um homem da origem e estatuto social de Trump, ao contrário de outros casos que a História regista. Mas a verdade é que, mesmo que venha a verificar-se uma cambalhota espalhafatosa no seu trajecto, o “fenómeno” Trump não vai deixar de ter repercussões no mundo, a começar pela Europa, em que despontam candidatos do mesmo estilo à espera de subir ao proscénio do populismo. É o Beppe Grillo na Itália, é a Marine Le Pen na França, e são outras mais tendências preocupantes no xadrez político de outros países da Europa, incluindo a Alemanha.
     No entanto, e apesar de tudo, é possível que o Donald Trump não venha a comportar-se como um elefante numa loja de porcelanas. Admite-se que as oligarquias tradicionais do partido Republicano possam, preventivamente, domesticar o animal, segurando-lhe a tromba para evitar que faça estragos irreparáveis. Mas será sempre um “case study” saber como este tipo de populismo vai evoluir numa democracia experimentada e sólida como a americana. Não é fácil adiantar vaticínios, mas, para já, nem tudo será negativo se o Trump representar uma pedrada nesse charco que é globalização desregulada, obrigando a um reacerto das suas regras.
 Tomar, 12 de Novembro de 2016

Adriano Miranda Lima

Subsídios para a caboverdeanidade [2]:Qual a origem do Arquipélago? Faz parte de África?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Por nos parecer muito interessante e bastante clarificador da génese geológica das nossas ilhas e da sua localização e identificação no contexto geográfico, assunto “dogmatizado e mitificado” como argumentário para derivas várias, tomamos a liberdade de publicar o texto adiante, com a devida vénia ao autor, a quem agradecemos a valiosa contribuição e felicitamos pela sua capacidade de síntese e clareza de exposição.

Por José Carlos Mucangana

Hoje, todos parecem acreditar e muitos continuam a afirmar, leigos e conceituados especialistas, que o arquipélago se encontra em África.
Jorge Querido (2011, Um demorado olhar sobre Cabo Verde, 342 p., Chiado Editora, Lisboa ou Praia?) escreve peremptoriamente: “Todas ilhas do arquipélago cabo-verdiano, sem excepção, são de origem vulcânica”, esquecendo-se que a ilha de Maio resultou dum movimento tectónico, que trouxe à superfície sedimentos pelágicos depositados a cerca de 2.000 metros de profundidade (Frederico Machado, 1967, Geologia das ilhas de Cabo Verde, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 25 p.). Depois afirma que “as dez ilhas e algumas ilhotas” (oito mais precisamente) “se situam sobre a vertente da plataforma continental africana”. Poucas linhas mais adiante, lembra que “as ilhas estão separadas da costa africana por fundos que, em muitos pontos, ultrapassam largamente os 3.500 metros de profundidade”.

Como é que Jorge Querido, um conceituado especialista na matéria, quer prolongar a plataforma africana ou a sua “vertente” para ocidente destes fundos oceânicos, onde se encontram as dez ilhas e os oito ilhéus do arquipélago? Esses fundos oceânicos separam obviamente o arquipélago do continente a que ele chama “nosso” e o arquipélago está fora do continente de Jorge Querido.
Desde o século XIX, os geólogos nunca consideraram os arquipélagos da Madeira e de Cabo Verde como uma dependência de África, atendendo à grande profundidade dos mares que os separam deste continente (Fig.1). Esta conclusão foi tirada muito antes do aparecimento da teoria tectónica de placas, que só veio confirmá-la e procurar explicá-la.
Os arquipélagos da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde são de formação mais antiga do que dos Açores. Mas, vejamos primeiro o que são ilhas vulcânicas. Trata-se de vulcões submarinos, que são muito numerosos, dando relevo aos fundos oceânicos e às planícies abissais. Só alguns crescem e se levantam acima do nível das águas para formar ilhas.

Há ilhas vulcânicas de dois tipos: As do primeiro tipo como os Açores, a Islândia e a ilha de Santa Helena, pertencem a uma dorsal vulcânica médio-oceânica, ou cordilheira de montanhas submarinas, que divide os oceanos em duas bacias. Nesta dorsal a crosta ou litosfera oceânica abre-se, deixando sair lavas basálticas que se vão solidificando para formar nova litosfera oceânica dum lado e doutro da dorsal, ocupando assim o espaço libertado pelo afastamento dos dois novos continentes, um do outro, no nosso caso o Brasil ou a América do Sul a ocidente e a África a oriente. Há ainda outro tipo de ilhas vulcânicas, que resultam da passagem das placas de litosfera oceânica deslizando sobre o manto (Fig. 2), por cima de pontos (na realidade zonas de mais de 100 Km de dimensões horizontais) de acumulação de calor neste manto.

 Fig. 2. Num corte do globo terrestre (Wikipedia) , pode ver-se que, à volta de uma esfera muito densa, chamada núcleo, vem o manto de 2000 Km de espessura e, por cima deste, à superfície, a litosfera rochosa, que pode ser muito delgada (geralmente 7 a 8 Km de espessura) no fundo dos oceanos ou mais espessa, melhor, menos delgada, com cerca de 30 Km de espessura nos continentes. As dorsais vulcânicas médio-oceânicas dividem a litosfera em placas grandes e pequenas. Estas dorsais expulsam magma basáltico, que faz crescer as placas e as empurra e faz deslizar sobre o manto, umas contra as outras e ainda umas por debaixo das outras, perdendo-se no manto, a chamada subducção. Estes movimentos tectónicos das placas de litosfera rochosas são acompanhados de vulcanismo, nas faixas de tracção, que as separam e fracturam, como nas (1) dorsais médio-oceânicas e nos (2) riftes continentais, exemplo o grande rifte africano e nas faixas de (3) subducção, como a África a passar por debaixo da Europa fechando o Mediterrâneo. Há ainda faixas de compressão como o subcontinente indiano contra a Ásia, levantando os Himalaias e o Tibete. A litosfera oceânica delgada é formada por rochas basálticas de composição química dita básica, ao passo que que a litosfera continental é formada por rochas de composição química preponderantemente ácida, sendo os granitos as rochas plutónicas mais representadas e características dos continentes acompanhados pelas rochas metamórficas.
Estes pontos quentes ou penachos de calor, fundem as rochas do manto e da litosfera oceânica dando origem a Câmaras de magma, que se descarrega periodicamente, rasgando a litosfera oceânica e formando arquipélagos de ilhas alinhadas. Estão neste caso o arquipélago de Hawai, onde o movimento da placa oceânica em relação ao manto é rápido (cerca de 10 cm/ano), os arquipélagos das Canárias, Madeira e Cabo Verde, que se deslocam mais devagar, a menos de 1 ou 2 cm/ano relativamente ao ponto quente correspondente do manto. Todos eles são formados por montanhas submarinas e ilhas alinhadas em cadeias, com o respectivo ponto quente do manto, cuja posição é conhecida ou extrapolada.

Em Cabo Verde há duas cadeias de ilhas alinhadas, a do Norte (Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, esta alongada no sentido do alinhamento, Boa Vista e Sal, que fica fora do alinhamento e a Norte deste e a do Sul (Brava, Fogo Santiago e Maio). Os eixos das duas cadeias fazem um ângulo inferior a 40º, cujo vértice está a 21º 45’ de longitude W e 15º 40’ de latitude N. Neste vértice encontra-se um monte submarino, chamado Monte Cabo Verde (Fig. 1). As ilhas de Maio, Boa Vista e Sal com o parcel de João Valente, entre Maio e Boa Vista a 20 m de profundidade, certamente uma antiga ilha erodida, alinham-se grosseiramente num eixo SSSW-NNNE de fraca curvatura, cortando o ângulo agudo das outras duas cadeias e dando ao conjunto do arquipélago a forma de uma ferradura aberta para o ocidente.
O alinhamento das ilhas em duas cadeias diferentes e uma terceira cadeia de que faz parte o parcel de João Valente indica que o movimento da litosfera oceânica não tem sido uma simples translação, houve rotação e mudança de direcção da translação da placa, quando o continente africano e a Península Arábica embateram com a grande placa euroasiática a Norte. A abertura do Grande Rifte ou sistema de falhas dos lagos da África Oriental também pode ter perturbado este movimento. O terceiro alinhamento das ilhas em arco de círculo pode ser o resultado duma tectónica profunda.
As ilhas de Sal e de Maio são as mais antigas; a sua formação, sem contar os complexos de base e os seus socos, inacessíveis à colheita directa de amostras para datação, iniciou-se há cerca de 17 Ma (milhões de anos). A ilha de Maio não apresenta vulcanismo recente, contrariamente a todas as outras. Está num processo de erosão, que é compensado por um movimento de levantamento vertical (José Ricardo Ramalho, Rui Quartau, Alan Trenhaile, George Helffrich, José Madeira, Sónia S. D. S. Victória e Daniela N. Schmidt, Why have the old Cape Verde islands remained above sea level? Insights from field data and wave erosion modeling,
http//www.webpages.uidaho.edu/dgeist/Chapman/Ramalho_AGU_erosion.pdf).

A formação das outras ilhas datadas não vai além 6 Ma (Santiago, São Nicolau, São Vicente) ou 3 Ma para Santo Antão. A ilha do Fogo com o seu vulcão activo é a mais jovem e está em fase de construção. A idade das ilhas de Boa Vista, Santa Luzia e Brava não são bem conhecidas, só foi extrapolada das ilhas mais próximas (Ricardo Alexandre dos Santos Ramalho, 2011, Building of Cape Verde Islands, Springer Verlag, 207 p.)
Todas estas ilhas estão no cume e no centro de uma elevação arredondada ou abóbada dos fundos submarinos, que é a maior do mundo com mais de 1500 m de altura e um diâmetro lateral de cerca de 1500 Km. A espessura da litosfera oceânica de 7 Km entre as ilhas é normal. Trata.se duma abóbada ou inchamento do próprio manto. A estratigrafia da ilha de Maio indica que o movimento de elevação desta abóbada atingiu 2000 m no fim do Mioceno e início de Oligoceno e que esta elevação foi contemporânea do início da actividade do ponto quente. Ao sul desta elevação encontra-se a planície abissal da Gâmbia e a pequena abóboda da Serra Leoa, ao norte a planície abissal entre Cabo Verde e Madeira, a ocidente as duas planícies abissais unem-se na planície abissal de Cabo Verde, que se prolonga à dorsal médio-atlântica e a oriente a abóboda de Cabo Verde com a sua litosfera oceânica esbarra com o continente africano ou prolonga-se por debaixo deste.

O movimento lento e complicado da placa oceânica praticamente estacionária em relação ao penacho de calor, ou ponto quente do manto e as rupturas tectónicas e movimentos verticais desta placa, são os dois factores, que combinados podem explicar a origem das ilhas e a forma do arquipélago.

A origem das ilhas não é puramente vulcânica, há intervenção da tectónica profunda e da sedimentação no fundo oceânico; as ilhas não são simplesmente vulcânicas. Além de rochas vulcânicas compreendem rochas sedimentares antigas e depositadas a grandes profundidades (ilha de Maio). Em Santiago, Boavista, Maio, S. Vicente, Brava, encontram-se rochas plutónicas macrocristalinas alcalinas, pobres em sílica, e também gabros. Citemos ainda os carbonatitos de Brava e Fogo para sublinhar a complexidade litológica das ilhas. Faltam porém, em todas as ilhas, as rochas ácidas graníticas e metamórficas características das litosferas continentais (Ramalho 2011). Estas ilhas não têm nada que se assemelhe a um continente. Contrariamente a Madagascar, Cabo Verde não é um pedaço de continente, um pequeno continente, que teria ficado entre África e Brasil, quando o continente primitivo, Gonduana se fracturou e desintegrou, ou que se teria separado tardiamente de África. Também não é um micro-continente, como o Arquipélago do Almirante (República de Seychelles), que se separou de Madagascar com a Índia, para depois se separar desta e que compreende um conjunto de ilhas graníticas. Cabo Verde será talvez um microcontinente, uma pequena placa, que falhou no seu desenvolvimento, ficou incompleta, sem crosta continental e não chegou a ser placa continental.

A tectónica de placas não é tão simples como parece na sua apresentação esquemática. As placas nem sempre deslizam sobre uma astenosfera, ou manto superior, bem lubrificada; a superfície de contacto nem sempre é uniforme mecanicamente (viscosidade, resistência à ruptura) e quimicamente; compreende asperidades variadas, é rugosa; pedaços da litosfera continental inferior podem ser arrastados à superfície da astenosfera como talvez tenha acontecido no arquipélago e sua abóbada oceânica.

As ilhas Canárias estão só a cerca de 100 Km da plataforma ou margem do continente africano. Porém, não pertencem ao continente, nem estão relacionadas com a tectónica norte-africana nem com o grande acidente tectónico activo de Agadir, sensivelmente alinhado com elas (J.C. Carracedo et al., 1998, Hot spot volcanism close to a passive continental margin: the Canary islands Geol. Mag., 135, 5, p. 591-604).

As ilhas de Cabo Verde encontram-se a distâncias de 450 a 600 Km do continente mais próximo que é o africano. Estão mais longe de África do que a Madeira, que os madeirenses nunca pretenderam considerar como fazendo parte do continente africano.

A plataforma ou margem continental da África (Fig. 3) é estreita e só se alarga na África do Sul e no canal de Moçambique (Fig. 4). A sua largura é de 20-25 Km, em média, ao longo da costa Atlântica.
Fig. 3. A plataforma continental prolonga o continente sob as águas do oceano até uma profundidade de 200 m, com larguras variáveis de alguns a poucas dezenas de quilómetros. O continente acaba por um talude íngreme entre 200 m e mais de 3000 m de profundidade (Wikipedia)
Fig. 4. Mapa simplificado do continente africano com a sua plataforma continental geralmente estreita (Wikipedia)

Como é que Jorge Querido desejaria encaixar o arquipélago completo de dez ilhas e oito ilhéus, mais um parcel e um monte submarino na estreita plataforma do “seu” continente e no talude ainda mais estreito desta plataforma? As ilhas grandes não cabem lá, quanto menos o arquipélago! Só as “ilhotas” lá caberiam, com as suas pequenas dimensões; o arquipélago só lá cabe em mitos delirantes ou disparates irreflectidos…

Felizmente os recursos do oceano à volta de Cabo Verde pertencem exclusivamente à República de Cabo Verde. Não pode haver disputa com nenhum país africano, americano ou europeu. Os países da África Ocidental exercem as suas jurisdições nos troços de plataforma continental delimitados ou a delimitar relativamente às suas fronteiras terrestres, o que é o caso da Guiné, por exemplo. Cabo Verde não está, nem nunca esteve em África.

Com efeito e resumidamente, o estudo da sua geologia, geoquímica e geofísica só tem comprovado que o arquipélago de Cabo Verde, como os arquipélagos da Madeira e das Canárias, faz parte do Oceano Atlântico, pertence à litosfera oceânica, não faz parte de continente nenhum. Está fora do continente africano e da sua estreita plataforma e separado desta por profundidades superiores a 3.500 m, como atinadamente lembrou Jorge Querido.
O mesmo se pode dizer das ilhas e arquipélagos do Oceano Índico. A grande ilha de Madagascar é um pedaço de continente ou um pequeno continente, que se separou da África, mais precisamente de Moçambique, a seguir à Austrália e ao Subcontinente Indiano. É de origem tectónica, com vulcanismo e rochas vulcânicas na sua periferia onde houve ruptura do grande continente pré-existente, o continente Gonduana. O arquipélago do Almirante é um pedaço de continente ainda mais pequeno. A formação dos Arquipélagos das Mascarenhas e do Comoro está ligada a pontos quentes do manto.
Está assim bem estudado e documentado, que as dez ilhas, oito ilhéus, um parcel e um monte submarino do arquipélago, pertencem ao Oceano Atlântico.
Contrariamente à linguística, o estudo da geologia do arquipélago não foi descurado, nem politizado pelos investigadores cabo-verdianos e portugueses, que trabalham em equipa e se apoiam mutuamente.
Foi recentemente publicado o livro acima referido (Ramalho, 2011), que reúne e interpreta os conhecimentos adquiridos até à data sobre a formação deste arquipélago oceânico. Mas a formação das ilhas e do arquipélago ainda não foi bem compreendida; as investigações continuam. Tampouco ainda não foi bem estudada a tectónica da África Ocidental, que aparenta estabilidade, mas apresenta uma sismicidade notável com movimentos horizontais entre compartimentos separados por falhas e movimentos verticais, com as rias da Guiné a afundarem-se enquanto se eleva o Futa Djalon. Serão estudos apaixonantes a fazer pelas novas gerações de geólogos cabo-verdianos, dispostos a esquecerem os mitos e porem-se a trabalhar para acertar o relógio cabo-verdiano, como já diziam os Claridosos (Jorge Barbosa, 1936, citado por Arnaldo França, em Baltasar Lopes, 2010, Escritos Filológicos e Outros Ensaios, Praia, 365 p.), ou melhor, no caso da geologia, mantê-lo acertado e, quem sabe, adiantá-lo. Tudo depende deles.

Extraído de Artiletra Nº 128/129 de Abril/Maio de 2015

PITONISAS DA NOSSA ECONOMIA

domingo, 30 de outubro de 2016

Quem assiste, todas as semanas, no canal TVI 24, às dissertações de um conhecido analista do estado da economia e das finanças de Portugal, tende a dar-lhe razão dentro do princípio de que 2+2=4. A matemática elementar, sustentando gráficos e valores numéricos repetidos ad nauseam, ano após ano, parece a única matriz do seu conceito. Mas se o segredo do sucesso se resumisse a esse instrumento de análise, qualquer economista licenciado com 10 valores teria capacidade para governar o sector. O axioma só não surte efeito porque, no dizer do analista, temos sido governados por “criminosos loucos”. Estes seguramente que não desconhecem a matemática, mas a ilustre figura deve supor que, ungidos pelo diabo, têm o sortilégio de subverter a soma de 2 + 2 para valores estranhos e distorsivos.
     Não é preciso muito esforço para perceber a insinuação mal disfarçada: as nossas dificuldades financeiras se devem às liberdades cívicas do regime democrático. É particularmente sobre esta II República que ele descarrega a sua verrina quando fala de “criminosos loucos”. E é implícito que absolve das malfeitorias nacionais o ditador Salazar, que soube destronar os “criminosos loucos” do seu tempo para que as contas públicas se reconciliassem com a normalidade tranquila da matemática. Mas para protegê-la com grades de ferro Salazar teve de suprimir a oposição, de domesticar o parlamento, de extinguir a liberdade de opinião, de acabar com os sindicatos, de criar uma polícia política, de construir uma colónia penal em Cabo Verde. Nada mais simples, e só os “criminosos loucos” é que não se lembraram nem se lembram do Ovo de Colombo descoberto por Salazar. Com aquele governante, as contas foram postas no seu devido lugar e o país entrou numa era de paz… de cemitério: sem progresso material, sem infra-estruturas, sem indústrias evoluídas, sem promoção da instrução, sem segurança social, sem protecção à infância e à velhice.

     Bastou o retorno da democracia em 1974 para que as nossas contas se descontrolassem, tudo por culpa dos “excessos revolucionários” cometidos, como sentencia o analista e, obviamente, merecendo aqui a nossa concordância. Só que aqueles “excessos” tiveram a virtude de instituir o direito de todos os portugueses à segurança social, à saúde, ao ensino e à cultura, eliminando ou atenuando a gravidade de situações de abjecta e confrangedora pobreza.

    Posto isto, começa a desenhar-se no espírito do leitor a sugestão de que a economia será algo muito complexo nos seus meandros para se poder consertar com duas marteladas de matemática. Sim, a economia não é uma ciência exacta. Ramo das ciências sociais, depende, como tal, de variáveis que não é fácil quantificar e por vezes até identificar com linear clareza. São do domínio do comportamento humano e social, onde a imprevisibilidade e a incerteza são de tal grau que muitas vezes conseguem deitar por terra as estimativas e previsões mais sofisticadamente calculadas. Mais ainda porque aquelas variáveis são normalmente interdependentes, obnubilando a percepção da sua complexidade, não só por interferência de fenómenos sociais internos como de dinâmicas exteriores não controláveis pelos governos.

     Contudo, a pessoa em causa não é o nosso único oráculo nesta delicada e difícil matéria. O canal SIC tem outro senhor de certezas inabaláveis e irrevogáveis. Estes dois são os de maior visibilidade porque desde há anos vêm usufruindo de um exclusivo privilégio nos respectivos espaços mediáticos, sem terem contraditório que se veja. Um foi ministro durante ano e meio e o que consta de mais saliente na sua governação foi ter negociado um empréstimo aos EUA, por culpa de anteriores “criminosos loucos”, cuja concessão exigiria a primeira intervenção do FMI no país. No entanto, enquanto ministro ele não fez escola nem deixou, que se conheça, qualquer receita infalível para o sector. O outro é apenas jornalista, com licenciatura em economia, nunca tendo exercido qualquer cargo público ou privado que assinale os seus méritos e constitua background da ciência virtual que amiúde despeja no canal televisivo que lhe dá guarida.

     Direi que são ambos as principais pitonisas da nossa economia, de entre outras menos notadas e de mais esparsa intervenção. Por que não são chamadas a salvar a pátria estas pessoas que se mostram tão compenetradas dos seus argumentos, tão cientes da infalibilidade dos seus cálculos, dos seus juízos e dos seus prognósticos? Bem, admito que não desejarão qualquer prova real das suas capacidades, a não ser com uma hipotética supressão da democracia, pois caso contrário teriam de se confrontar com as mesmas adversidades e condicionalismos por que passaram ministros de alto gabarito académico e grande traquejo como Sousa Franco, Silva Lopes, Vítor Constâncio, Miguel Cadilhe, Hernâni Lopes, Jacinto Nunes e outros. Ou será que estes merecem ser mimoseados com o tratamento de “criminosos loucos”?

     Chegado aqui, o leitor terá já intuído ou deduzido que o problema das nossas contas públicas poderá ter, na verdade, alguma relação com a nossa idiossincrasia. Isto é, com a falta de apuro da nossa consciência colectiva para fortalecer a unidade em torno dos grandes objectivos nacionais. Esta é, aliás, a face visível da nossa dificuldade em maximizar as virtudes da democracia, de modo a que ela se torne facilitadora de consensos e maiorias políticas e extirpe à nascença fenómenos (corrupção e evasão fiscal, por exemplo) que corroem a saúde do organismo nacional. As pitonisas em causa certamente que não ignoram o fundo sociológico do problema, mas preferem fazer vista grossa e entreter o pagode com a superficialidade das suas análises.

     Claro que despedir a democracia para viabilizar a resolução dos nossos problemas não deve passar seriamente pela cabeça de ninguém, nem mesmo das pitonisas. Por isso é que lhes fica mal passar a imagem de que são virgens impolutas ou mentes luminosas, enquanto subliminarmente crucificam e execram quem ousa assumir a governação. Tanto mais que as suas análises e conjecturas podem ajudar a dona de casa ou o merceeiro da nossa rua, mas de pouco servem para o esclarecimento da complexidade da ciência económica. Bem se diz que a economia é algo sério demais para ser deixado só aos economistas.

 

Tomar, 17 de Outubro de 2016

 

Adriano Miranda Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o antigo Jornal «O Manduco»

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

( Agosto de 1923 a Junho de 1924)

A iniciativa  concretizada em boa hora, pela editora da Livraria «Pedro Cardoso» em dar à estampa uma edição “fac-símile” dos números do referido jornal; foi a todos os títulos louvável, pois  que veio não só dignificar o nome do  patrono que carrega, mas também, dar a conhecer de forma mais acessível a leitores interessados, parte da obra, por Pedro Cardoso deixada. Com efeito, o leitor tem assim  conhecimento e  registo histórico, muito importante, de um certo jornalismo que se fazia nos inícios do século XX,  nestas ilhas. No caso de «O Manduco», jornalismo com algum carácter regional, local, uma vez que partia da ilha do Fogo.
Trata-se aliás, de um  periódico impresso com uma feição muito singular feito um pouco à  imagem e à semelhança do perfil do seu fundador, dono e primeiro director, Pedro Monteiro Cardoso. Interessante é que ele logo no primeiro número como mandavam as normas, faz a apresentação  do seu jornal de uma forma original é certa, mas muito pouco ortodoxa. Aqui vão excertos do editorial do 1º número: “ Apresentando-se. Em nome de Deus...
É praxe dar-se, no 1º número de qualquer folha política ou literária, a razão do seu aparecimento.
A nós porém, aborrecem-nos as praxes.
De mais, este mensário é propriedade exclusivamente nossa.
Não nos consideramos pois, obrigados a dizer os motivos determinantes da sua publicação.
Que o comprem, que o assinem e o paguem adiantadamente, aqueles que porventura os deseje conhecer. Que do referido contexto se inferem, quando expressamente se não declarem. Dizer isto não será ainda programatizar?
 Talvez. No entanto assinar e pagar adiantadamente é o que convém. (...)
 (...) Oh! Como é doce sonhar! Praza a Deus que vos tome, caboverdianos, o vício de ler, não por empréstimo mas somente pagando-o. Amén!
 Todo o editorial se apresenta nesse tom, ora irónico, ora censurando os vícios do “grogue” e das “funçanatas” em que se deleita o putativo leitor, ao invés de comprar «O Manduco» e cultivar-se na sua leitura.
Portanto, ao «O Manduco»  liga-se um nome sonante da poesia e do folclore cabo-verdianos, Pedro Cardoso. Nome que se confundia com a própria ilha que o viu nascer. Acrescentaria por graça, que só não se chama ao Fogo a ilha de Pedro Cardoso, porque o vulcão é mais “roncador”. E, por isso, tomou-lhe lugar. Sim, porque em matéria de desaforo e quanto a bradar  altissonantemente as suas crenças, os seus amores, os seus desamores e os seus combates, quer em poesia, quer em prosa, creio que P. Cardoso não se coíbia muito e não ficava muito atrás do vulcão, metaforicamente falando, claro.  Um pequeno aparte: certamente que alguns  conhecem o célebre poema em crioulo «Djarfogo» deste poeta em que à boa maneira camoniana se confunde o “amador com a coisa amada” Djarfogo /Fogo é nha nome botismo, / é Fogo laba burcam, / é Fogo sangue na beia,/ é Fogo amor na coraçan. // Um dia na mei de mar, / m' labanta na luz de sol, / nha serra botom fitchado, / desdobra el abri um frol, / m' nece ja cu nha destino, / nhas fidjus un cria's assim: / ali o pa tudo mundo, / peto bronze, / alma cetim   / Fogo é nha nome botismo, / nha graca ama nha bençom, / Fogo corage na peto, / Fogo manduco na mon.”Pedro Cardoso, in:  É mi que lha'r Fogo (1941). Para o leitor não falante do crioulo de Cabo Verde (no caso, a variante da ilha do Fogo) aqui vai uma tradução aproximada ao português: “Fogo é o meu nome de baptismo / Fogo é ser lava do vulcão / Fogo é o sangue que corre na veia / Fogo é ter amor no coração / Um dia no meio do mar / alevantei-me à luz do sol / Vi a minha serra qual botão fechado / desdobrar-se e abrir-se em flor / assim nasci já com o meu destino / assim criei os meus filhos / aqui e em todo o mundo / peito de bronze / alma de cetim / Fogo é o meu nome de baptismo / É a minha graça e a minha bênção / Fogo coragem no peito / Fogo manduco na mão”
Ora bem, o poema para além de realçar em linhas metafóricas, a orografia da ilha, a idiossincrasia das suas gentes, o poeta antropomorfiza a ilha, fazendo-a “falar” na primeira pessoa. É igualmente, um bom exemplo de fusão do poeta, com a sua ilha. Claro que se percebe que a versão original foi escrita para ser dita ou lida em  voz altissonante e com muita força emotiva. O interessante  é que mais uma vez a imagem do “manduco” cara e reiterada pelo poeta, simboliza e singulariza a ilha do vulcão.
Feche-se este aparte e voltemos ao jornalismo da época  de Pedro Cardoso.

Para além do mais, através do «Manduco», espreita-se também um tipo de jornalismo praticado e nobilitado pela pena dos intelectuais cabo-verdianos do início do século passado. E aqui estamos já a falar de textos jornalísticos elaborados com o saber e a pena culta, dos seus autores, porque são homens de e da cultura que os elaboraram para os jornais onde colaboravam. Mas não vá sem dizer que estes jornalistas literatos, Pedro Cardoso, Eugénio Tavares e José Lopes manejam com à-vontade nos seus textos, o intertexto - porque os conhecem bem - dos escritores, poetas portugueses, clássicos, românticos e realistas. Para exemplo,  na poesia lírica adoptam como patronos, Camões e João de Deus; já o modelo e o modo de compor os sonetos de assuntos elevados e espirituais é em Antero de Quental que buscam o padrão; como modelo de poeta anti-clerical, protestatário e combativo é Guerra Junqueiro; e finalmente, o exemplo a seguir de Historiador probo e sério,  é Alexandre Herculano. Outro vulto frequentemente, por eles citado é Victor Hugo da Literatura francesa. Basta ler os números de «Manduco» para disso se aperceber. 
No jornalismo do passado das ilhas, encontrámos  personalidades e nomes que nele se destacaram. Referirei  apenas alguns, para exemplo: Luís Medina, Luís Loff,  Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Corsino Lopes, Abílio Macedo, José Barbosa, J. Calasans, João Gomes Barbosa, Mário Pinto, César M. Barbosa, entre outros.
Uma observação: neste rol de nomes ilustres mencionados incluí a maior parte daqueles, cuja colaboração «O Manduco» regista  e que pode ser confirmada pela vossa leitura dos números publicados.

Mas antes de prosseguir, e porque nada acontece ao acaso, haverá sempre um contexto histórico a enquadrar. Com efeito, e fazendo rapidamente um pouco de história, em retrospectiva, verificámos que a liberalização da imprensa portuguesa que já vinha acontecendo a partir do último quartel do século XIX como resultado de toda uma legislação de matriz liberalizante, especificamente a ela destinada, teve como efeito mais imediato, um surto de vários jornais em Portugal, a maior parte de expressão combativa e política. O interessante é que se verificou também aqui no arquipélago, mais ou menos na mesma altura, e com especial realce para a cidade da Praia, uma relativa “abundância”, se assim me é permitido expressar, de periódicos e de jornais, com a mesma feição dos congéneres portugueses.
Com efeito, em Cabo Verde, seguiu-se com entusiasmo, e através de alguns jornais portugueses, as lutas Liberais que em Portugal se travavam. Pois que o ideal liberal pugnava pela defesa do desenvolvimento do país e, por arrastamento também o das suas colónias. Mas o realce era o da liberalização de leis para vários sectores. 
Ora bem, nessa senda, e a partir de 1877, os nossos publicistas, periodistas e editores, a maior parte homens letrados e pertencentes, muitos deles, às elites das ilhas, entusiasmados com o caso da então metrópole, fundam - também aqui e  na cidade da Praia, sobretudo - jornais para a defesa dos interesses da colónia. Assim tivemos os jornais:  INDEPENDENTE,  CORREIO de CABO VERDE, semanários noticioso, literário e político; ECHO de CABO VERDE, jornal político e noticioso;  A IMPRENSA, semanário político e noticioso; A JUSTIÇA, O PROTESTO, quinzenários políticos; O POVO PRAIENSE, e O PRAIENSE, entre outros. Igualmente quase todos de pouca duração por motivos vários entendíveis, dos quais sobressai o problema financeiro para a sua manutenção e circulação.
De certa forma, este período pode ser considerado como tendo sido fecundo, porque também iniciático de um jornalismo com aspectos já autonomizados em matéria  opinativa e política do cabo-verdiano.
Abreviando, mais tarde, chegados ao século XX e com o advento e a implantação do regime republicano (1910) novas leis, mais democráticas e de maior alcance para a imprensa, são produzidas em Portugal - veja-se e leia-se o cabeçalho de «O Manduco» que traz destacada a seguinte inscrição: “Da Constituição Portuguesa (artigo 3º, nº 13) «A expressão do pensamento, seja qual fôr a sua forma, é completamente livre, sem dependência de caução, censura ou autorização prévia, mas o abuso deste direito é punível, nos casos e pela forma que a lei determinar». Tudo isso permitiu um renascer esperanças nos republicanos cabo-verdianos, que os havia aqui também e de boa cepa. Aguardaram ansiosamente  pela sua chegada. Entoaram-lhe loas através dos seus poemas e de outros escritos. Esperavam pelo cumprimento de promessas, de atendimento às graves crises famélicas, à construção de estradas, portos, escolas. Enfim, obras para o desenvolvimento do Arquipélago. Porque  eram eles,  os chamados homens bons das ilhas, que as haviam  reclamado. Então, aproveitando o bom momento histórico que se vivia, os activistas republicanos, os mais novos, muitos deles já com formação académica do Seminário-Liceu de S. Nicolau, retomaram com mais afinco, esta via de combate e de protesto que eram os jornais. E teremos agora um jornalismo mais politizado e até mesmo partidarizado. 
Reparem, que não é por acaso, que alguns dos nomes mais destacados da actividade jornalística cabo-verdiana foram filiados no Partido Republicano, no partido Socialista português, e alguns deles membros activos da maçonaria portuguesa que se expandiu entre as ilhas, com lojas e  com triângulos, organizações maçónicas do Grande Oriente Lusitano. A essas organizações políticas e secretas pertenceram exactamente os dois directores do «Manduco» - Pedro Cardoso e Eugénio Tavares. Outros, embora em menor número, como Abílio Monteiro de Macedo, pertenceram também à Carbonária. Todas elas sociedades secretas de índole republicana.
Vale acrescentar, que de uma maneira geral - raríssimas terão sido as excepções - os intelectuais cabo-verdianos aplaudiram, aderiram à liberdade trazida pelo republicanismo dos primeiros anos e conseguiram efectivar o chamado jornalismo combativo e de opinião com  algum desafogo. Aliás, o artigo de José Lopes inserto no nº 6 é um autêntico testemunho disso para a memória do Arquipélago.
Não é por acaso também, e  isso ficou evidenciado na leitura dos números do Manduco ora compilados que, quer Pedro Cardoso, quer Eugénio Tavares, quer José Lopes e quer ainda, os de mais colaboradores, procuram  louvar todos - Presidentes da República, deputados, ministros, governadores - desde que  tragam como “selo e senha” a marca do regime republicano. Eram sempre bem-vindos,  mesmo que falhassem os objectivos. Até isso lhes era tolerado. 
Abreviando e resumindo:  é neste contexto histórico de algum empolgamento republicano e libertário do espaço português de que Cabo Verde era parte, com liberdade de expressão da imprensa que vigorou (desde a implantação da república em 1910 até à ditadura militar instalada a 28 de Maio de 1926); é neste ambiente, repito, que surgiu e viveu  entre 1923/1924,  o jornal «O Manduco».
Para finalizar, uma nota de louvor à editora, Livraria «Pedro Cardoso», que na pessoa do seu Administrador/gestor Dr. Mário Silva, tem vindo a retirar da sombra e do esquecimento, autores e obras antigas, sempre válidos para a cultura cabo-verdiana, como foi esta edição compilada e “fac-símile” dos 13 números do Jornal «O Manduco».

QUE CAMINHOS SEGUIR PARA TORNAR O MUNDO MELHOR?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

 
     No passado domingo à tarde, assisti num canal televisivo a uma entrevista do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Questionado, afirmou que o mundo em que vivemos é hoje bem melhor do que o foi no passado, apesar das nossas queixas e lamentações. Pode ser verdade, mas o padrão de avaliação envolve parâmetros de vária natureza e depende do quadrante geográfico de quem o faça. A opinião de um europeu ou americano não será seguramente a mesma de um africano ou asiático.

     Ponto assente, isso obriga-nos a revisitar Alvin Toffler, escritor e jornalista americano (Outubro de 1928 - Junho de 2016), autor do best seller “A Terceira Vaga”, quando afirma que a História da humanidade é feita de sucessivas vagas de mudança operadas pelo processo civilizacional. A primeira vaga foi a Revolução Agrícola, a segunda a Revolução Industrial e a terceira a presente era da informação, da cibernética e da robótica, de que somos hoje beneficiários. Em Abril deste ano, Toffler proferiria uma conferência na Reitoria da Universidade de Lisboa, onde desenvolveu a sua teoria sobre aquilo que designou por Quarta Vaga – Bioeconomia, defendendo que a economia não pode mais desligar-se de práticas que ignorem a sua sustentabilidade numa equilibrada relação com o meio ambiente. Terá sido das últimas intervenções públicas do escritor, que faleceria dois meses depois, em 27 de Junho, aos 87 anos.

     O bem-estar que o homem almeja depende, inapelavelmente, da forma como vive e explora os recursos do planeta, como se organiza e como resolve os seus conflitos. As mudanças civilizacionais foram moldando a percepção do homem sobre os modelos de organização política e social e as formas de exercício do poder político. Na Primeira Vaga, o poder era personificado e exercido autocraticamente ou quanto muito assistido por um conselho. A noção de território e o sentimento de consciência nacional progressivamente foram tomando forma e consolidando-se. Na Segunda Vaga, com a Revolução Industrial e o Iluminismo, surge o Estado-Nação e desde logo o poder ganha formas de maior sofisticação, mediante estruturas jurídicas que orientam e regulam o exercício da soberania e a defesa dos interesses nacionais em confronto com outros povos.

     Hoje, as mudanças determinadas pela Terceira Vaga e a iminência da Quarta Vaga vieram pôr em cheque o modelo das instituições que nos governam desde há séculos tornando-as obsoletas e questionando a sua validade operativa. Embora permaneça o mito das soberanias nacionais, é cada vez mais difícil para um governo tomar decisões com a independência de outrora, sem ter de levar em conta factores exteriores que ganham relevo crescente com o processo de globalização proporcionado pela Terceira Vaga. Talvez seja a razão por que hoje há dificuldade em descortinar líderes de perfis que desejaríamos idênticos aos de um Churchill, de um De Gaulle, de um Roosevelt ou de um Adenauer. Mas estes líderes, transpostos para a nossa época, provavelmente iriam evidenciar as mesmas debilidades e insuficiências que a opinião pública aponta a par e passo aos governantes de hoje. Com efeito, a complexidade dos problemas sociais da actualidade não tem paralelo com o passado. O líder dos estados de direito democráticos não consegue exercer a sua autoridade pessoal sem ser contido pelas constituições ou expedientes jurídicos como as providências cautelares ou pressionado pela opinião pública através dos mais variados meios de comunicação.

     O que é verdade na esfera interna dos estados é particularmente reflexivo nas relações entre os estados e no plano em que se concertam com maior ou menor eficácia as políticas e as estratégias nacionais ou comunitárias. Dentro da União Europeia é cada vez mais nítida a percepção de que as soberanias nacionais se esbatem face às instituições comunitárias e aos desafios da globalização, e isso levanta interrogações, sobretudo nos sectores políticos mais à esquerda. O controlo dos orçamentos e a formatação das principais políticas nacionais obedecem às directrizes e imposições comunitárias. Mas o pensamento futurista de Alvim Toffler leva-nos ainda mais longe fazendo-nos ver que sem uma política mundial devidamente concertada o planeta compromete os seus equilíbrios e pode soçobrar.

     Então, os desafios são inumeráveis sem que as respostas se perfilem por enquanto com a urgência e a clareza desejadas. No seu livro “A Quarta Revolução − A Corrida Global para Reinventar o Estado”, Adrian Wooldridgem e John Micklethwait denunciam a crise da governação do mundo actual e a ineficácia do Estado no Mundo Ocidente, afirmando que é necessário revolucionar o sistema político e apontando caminhos para melhorar o futuro da sociedade humana. É verdade que a globalização trouxe benefícios óbvios ao mundo não obstante reger-se por um viés neoliberal, com os defeitos vários que lhe têm sido apontados, dos quais o mais preocupante é o impacto ecológico negativo em consequência do consumismo desenfreado e da devastação dos recursos naturais. Mas o processo da globalização é imparável e as sociedades humanas têm de se ajustar aos seus impulsos.

     Assim, se os problemas planetários atingem uma dimensão de tal ordem preocupante que não se compadecem mais com a inoperância de estados soberanos fechados em si, incapazes de gerar os melhores consensos no plano internacional, não haverá outra solução senão repensar o seu modelo. Ora, se a economia depende cada vez mais da dinâmica global, é natural que as soberanias tenham de encontrar pontos de convergência em espaços supranacionais onde as decisões políticas se sirvam dos mesmos instrumentos que lograram a agilização e a expansão da economia. A democracia não deixará de ser válida, importante e insubstituível como sistema de governo, mas ela terá de ser transposta eficazmente para as relações internacionais, de par com a diplomacia, aperfeiçoando os seus mecanismos de representatividade, auscultação e sondagem de opiniões, em ordem à melhor concertação de vontades para a melhor solução dos problemas globais.

     Neste processo, a Europa e os Estados Unidos não podem continuar a dar sinais de perderem o pé ante o ressurgimento da Rússia e a emergência das potências asiáticas. Caso contrário, deixará de fazer sentido a opinião de Mario Vargas Llosa quando, ao afirmar que o mundo está melhor, tomava como padrão de referência o Mundo Ocidental.

 

Tomar, 10 de Outubro de 2016

 

Adriano Miranda Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Caro leitor, eis aqui um texto que retirei - com a devida vénia - do «Arrozcatum» “blog” de Zito Azevedo e que vale a pena ler, pois a sentença do Juiz para além de pedagógica, convida a uma reflexão sobre as relações e os valores inter-gerações. Pais/filhos; professores/alunos.

 

“O juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, no interior do Sergipe, Brasil, julgou improcedente um pedido de indemnização que um aluno pleiteava contra o professor que lhe tirou o telemóvel na sala de aula.

De acordo com os autos, o educador tomou o telemóvel do aluno, pois este estava a ouvir música com os fones de ouvido durante a aula.

O estudante foi representado por sua mãe, que exigia  reparação por danos morais diante do "sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional". Na negativa, o juiz afirmou que "o professor é o indivíduo vocacionado para tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe”. O magistrado solidarizou-se com o professor e disse que "ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma".

O juiz Eliezer Siqueira ainda considerou que o aluno violou uma norma do Conselho Municipal de Educação, que impede a utilização de telemóveis durante o horário escolar, além de desobedecer, reiteradamente, às instruções do professor. Ainda considerou não ter havido abalo moral, já que o estudante não utiliza o telemóvel para trabalhar, estudar ou qualquer outra actividade edificante.

E declarou: "Julgar procedente esta demanda, é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os reality shows, a ostentação, o ‘bullying intelectual', o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectualmente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira”.

Por fim, o juiz ainda faz uma homenagem ao professor. "No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro HERÓI NACIONAL, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu ‘múnus’ com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor."

 

ISTO DEVERIA SER LIDO POR TODOS OS POLÍTICOS, MAGISTRADOS, PROFESSORES, ALUNOS MAL COMPORTADOS E RESPECTIVOS PAPÁS...

(Pesquisa de Adriano M. Lima)



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