A Educação: O debate do devir?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Agora mais do que nunca, se pede e se sugere com premência, uma análise, uma discussão, um debate sério e objectivo sobre a Educação em Cabo Verde. Com gente no activo, profissional nesta matéria; com a escola, com os professores, com pais interessados, com especialistas da área, ouvindo também os formandos em Educação, entre outros agentes com interesse para a causa, para que o desenho de uma estratégia educativa para este país seja gizada para os tempos actuais e se realize de forma substantiva, com objectivos fiáveis e fazíveis...
A propósito da Educação, em Cabo Verde, li num dos últimos editoriais do Jornal «Expresso das ilhas», (nº 791 de 25 de Janeiro de 2017) pela pena do seu Director, Humberto Cardoso, um artigo muito interessante. Um convite à reflexão dos responsáveis e de todos nós, sobre matéria tão candente e primordial para o desenvolvimento humano, social e tecnológico do país.
Escreveu o autor a determinada altura e passo a transcrever: “A educação foi mais uma vez tema de debate no Parlamento. Desta feita foi no âmbito da interpelação ao governo visando confrontá-lo com as suas promessas eleitorais. A opção do governo pelo estudo das línguas, das ciências das tecnologias e da matemática como via de se chegar a uma economia de conhecimento foi aflorada  durante a interpelação, mas rapidamente deixada para trás. Matérias com maior impacto político designadamente carreiras e contratos dos professores, bolsa de estudo para os jovens, isenção de propinas e problemas salariais das cozinheiras das cantinas acabaram por monopolizar as atenções e exacerbar as opiniões. Depois disso não ficou muito espaço para se discutir a educação que realmente o país precisa para construir um futuro de desenvolvimento".  
E mais adiante, acrescentou algo que nos interpela:
“Em Cabo Verde discutir a qualidade do ensino pode facilmente levar a acusações de que se está atacar os professores. Não é por acaso que qualquer debate sobre educação acaba por exclusivamente incidir sobre questões sindicais e de carreira dos professores ficando de lado a questão da qualidade. Ninguém quer perder no jogo do arremesso político que pode surgir da discussão. Todos, porém, acabam por perder porque nada de substancial se altera ficando a percepção geral aquela já manifestada pelo presidente da república da “qualidade insatisfatória global do nosso sistema de ensino.”
E concluiu o articulista, revelando  bons exemplos que, se calhar, até devíamos ter como modelo: “É hoje ponto assente a importância central da educação em qualquer estratégia de desenvolvimento, particularmente quando o ponto de partida é o de um país pequeno insular e com uma economia ainda dependente da generosidade internacional. Países pequenos e/ou insulares que têm distinguido na corrida para o desenvolvimento posicionam-se todos como países de top nos rankings internacionais no domínio da língua, das ciências e da matemática. Nos testes do PISA, Singapura, Macau, Irlanda, Finlândia, e Estónia estão entre os que mais brilham. O caso de Singapura que com somente dez anos mais de independência do que Cabo Verde conseguiu erguer-se para os primeiros lugares, apesar de enormes dificuldades, entre as quais ser uma sociedade constituída por três grupos étnico-linguísticos. devia interpelar a todos (...)
Articular educação, economia e desenvolvimento revela-se cada dia mais crucial na vida das nações. Também em Cabo Verde devia ser a via privilegiada para um futuro de prosperidade”. Fim da transcrição.

Na verdade, a realidade que hoje se vive em matéria de escolarização nestas ilhas, causa justificadas preocupações. Atingiu-se já um ponto de iliteracia inaceitável - em todos os escalões académicos e em todas as faixas etárias -  do Básico, ao Secundário e ao ensino Superior; de adolescentes, a jovens e até em adultos alfabetizados, escolarizados e graduados. De tal modo, que brada aos céus! A escola cabo-verdiana, o ensino que nela se ministra têm sido até objecto já de algum “gozo humorístico e satírico” pelas tantas e tamanhas calamidades e incorrecções conceptuais e linguísticas, infelizmente, ditas, escritas por alguns professores - os quais já são muitos e que quase configuram a regra -  lidas, ouvidas e divulgadas  pelos próprios alunos, alguns, oriundos de meios familiares mais informados e escolarizados que as contam como se extraídas de algum anedotário nacional. Nem dá para acreditar!
Como e porquê se verificou tal retrocesso? Apetece-me comparar a situação actual escolar de forma relativa é certa, com a dos letrados e formados cabo-verdianos do passado? Como se chegou a este ponto tão baixo? O que se fez à escola cabo-verdiana que não chega ao fim de um ciclo de ensino, com alunos que minimamente saibam ler, escrever e contar? Uma calamidade de todo o tamanho! 
Antigamente, para se fazer aprovar na 4ª classe (correspondente ao actual 4º Ano do ensino básico/primário) o aluno tinha que satisfazer os três requisitos referidos; ou seja, saber ler, saber escrever e saber deduzir correctamente, com lógica;  saber contar, isto é, saber fazer as quatro operações com algum rigor aritmético.
Actualmente, temos alunos com o 12º Ano do ensino secundário completo que mal juntam sílabas e soletram ao ler um simples texto. Uma tremenda vergonha! E isto, para não mencionar a escrita pejada de erros e de falta de lógica ortográfica e semântica. Contar? Não sabem mesmo!  Ler e interpretar um mapa geográfico é um autêntico quebra-cabeças. Nem sei se neste momento, o utilizam na sala de aula da disciplina de Geografia. O pior é nem foi substituído por algo de mais valia. O material escolar básico, pura e simplesmente já não existe nas escolas de hoje.
Muitos alunos nunca abriram um livro, um manual, de História, de Geografia, de Física, de ficção, de poesia, entre outras formas de aquisição de saber e de cultura adequada a cada fase de escolarização. Não utilizam a memória. Isso não lhes foi ensinada a utilidade desse precioso dom, para fixarem e interiorizarem textos,  trechos e conceitos que depois se transformarão um dia, em memória culta e erudita que só lhes trará literacia. 
Na mesma linha,o raciocínio lógico e dedutivo já não entra na acção educativa, didáctica. Façam um pequena experiência, tentem estabelecer um diálogo com um aluno cabo-verdiano, do 12º ano de escolaridade. Ponham uma ou duas questões sobre uma matéria qualquer inscrita no programa curricular que ele terá dado. Ficarão espantados com a ignorância que ele ou ela, demonstrará. Enfim, um verdadeiro desastre científico/técnico e pedagógico, vem percorrendo o nosso ensino. Que credibilidade?
Infelizmente, são estes perfis com imensas e graves lacunas, com longas etapas queimadas, que ingressam no ensino superior. Cá dentro e no estrangeiro. Que fazem a Licenciatura, o Mestrado e o Doutoramento. São os modernos altos Quadros cabo-verdianos. Haverá excepção nisso... Sim, claro! Também, mal seria!!
,Daí que se não admire ninguém da iliteracia que campea por aqui. É basta contactá-los nos seus postos de trabalho, os ditos altos Quadros. Pequenos nada apenas. Este mero exemplo. Entro em consultórios médicos em que levo rodadas de «tu». Esclareço: sou tratada por desconhecido e mais jovem que usa o verbo só na 2ª pessoa do singular.  A ser tratada por “tu” por senhores doutores (assim os trato.Usando eu as formas verbais na 3ª pessoa do singular. No que faço bem) e alguns, por pura ignorância linguística e cultural (na nossa cultura há formas de tratamento distintos que variam entre o formal e o informal, entre mais velhos e mais jovens) Dizem-me: “vais  comprar este medicamento" (em vez de vai  ou mesmo: a senhora vai) . "Olha para a doutora” ( em vez de olhe) que é ela própria a auto-referir-se, enquanto me faz testes) Enfim, ouço constrangida, “barbarismos” deste calibre proferidos por gente adulta e aparentemente, altamente formada, porque especialistas na área da consulta. Mas que desconhece uma simplicíssima regra gramatical e social...
O pior é que desconhecem que não devem tratar paciente adulto e que não é da intimidade deles por “tu”. Eu sei que o não fazem por mal. É por pura ignorância, aqui empregado no seu sentido mais vernáculo. Isto é: eles e elas, ignoram, desconhecem as regras gramaticais e sociolinguisticas. Não lhes foi ensinado na escola em que andaram ?...
Lá está, a escola! A escola com particular acuidade entre nós, devia ser o complemento, o parceiro por excelência, mais activo e mais próximo da família. Grande parte destes adultos, hoje formados, enquanto criança não teve infelizmente qualquer forma de socialização e de informação sistematizadas ao longo da educação caseira sobre as regras básicas do saber, do saber estar em sociedade. É nisso que devia ter entrado a escola próxima da família e transmissora de valores. Não foi assim. Os maus resultados estão à vista de todos, para a nossa lamentação. 
 E isto produziu a incivilidade que grassa entre nós,  o quotidiano do nosso viver social, com especial acuidade entre a geração mais nova .
III
A questão da Língua portuguesa na praxis de ensino cabo-verdiano, anda pelas “ruas da amargura,” de tal modo, que aqui há dias foi muito bem e assertivamente sintetizada numa intervenção feita por um ouvinte oriundo da ilha de Santo Antão, num debate radiofónico a propósito de questões linguísticas entre nós. Disse então o ouvinte esta frase simples e lapidar: “...As senhoras  aí no estúdio que estão a debater a questão, estão baralhadas, os professores cá fora que as escutam estão baralhados, e os alunos, como devem calcular, mais baralhados estão ainda...”
 O ouvinte santantonense, radiografou desta forma, a situação que se vive actualmente quanto à magna questão do ensino da língua portuguesa nas escolas que foi tornado em bico-de-obra, por estes “estrategas” da língua que infelizmente possuímos. 
Mal se fala em se ensinar, como deve ser a Língua portuguesa, a língua veicular dos alunos cabo-verdianos, eis que alguns dos ditos peritos, saltam logo com a questão do Crioulo. E isso, de forma a misturar por vezes, com algum despropósito, uma questão que nos seus melhores momentos, foi tratada em campo próprio, procurando a metodologia mais adequada para uma língua viva, veicular para a nossa instrução, e em franca expansão;  uma língua que é a nossa segunda língua ou nossa língua segunda e que para uma minoria (em que me incluo) é igualmente, língua materna.
Uma questão que devia ser equacionada  em paralelo, mas distinta da questão do crioulo. Só assim, penso eu, se lograriam melhores resultados nos aprendentes .
Resultado, com todos estes “ruídos”, criaram já um ambiente de tal forma confuso, que assim não se chega a parte alguma e a questão permanece por resolver. Fico com a convicção de que os ditos peritos linguísticos se comprazem no meio caótico que eles próprios engendraram e que lhes serve exactamente, ao que vêem. Isto é, para as luzes da ribalta que demandam.
Não sou pessimista, mas estou muito céptica, muito preocupada, relativamente ao ensino que se vem praticando nas salas de aulas das escolas cabo-verdianas.

 Nesta ordem de ideias, criou-se uma espécie de “fantasia linguística” de que os nossos meninos em início de escolarização, não podem e nem devem ser expostos à Língua portuguesa. Isto, se não se lhes puser o Crioulo pela frente. Todo o falante cabo-verdiano é exposto desde tenra idade à língua portuguesa. Uns mais, outros, bem menos. Deixemo-nos de fantasias. 
 Abro um pequeno parêntesis para aqui recordar uma visita que há tempos fiz a um Jardim Infantil no Concelho do Tarrafal e de a responsável/monitora, me contar que logo pela manhã, no começo das actividades, ter alguma dificuldade em conseguir alguma disciplina e silêncio na sala, pois que  se instala algum barulho com as crianças, cada uma a seu jeito,  a querer contar umas às outras o último episódio visto da telenovela que na altura, passava na TV - que impropriamente viam, me seja permitido  também este desabafo –
Ora bem, tanto quanto sabemos os diálogos das telenovelas que passam na televisão nacional, são em português Que se saiba não são em crioulo. O que é certo é que aquelas crianças do interior da ilha de Santiago, entendiam-nos com muito à-vontade. 
E esta?... Afinal, parece que a história da não utilização da Língua  portuguesa na escola básica, justificada com o falso e falacioso argumento de que as nossas criancinhas não percebem a língua portuguesa, anda a ser muito mal contada. Aqui chegados, fecho o parêntesis e o texto.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (3):  Que significam as palavras crioulo e papear?  Qual foi a origem, em Cabo Verde, da língua, que ficou a ser designada por crioulo?


Um dos meus amigos, António Amaro de Melo, professor de português do liceu de Setúbal, Portugal, foi quem me iniciou às obras do Mestre Baltazar Lopes da Silva.  Ele gosta de dizer, que qualquer aluno de filologia românica pode compreender a origem e a formação do crioulo.  Com isto, fiquei sem saber, se estava condenado a não compreender essa origem, por não me ter matriculado em filologia, como desejava o meu professor de português do Liceu Salazar de Lourenço Marques, doutor José António Duarte Marques, ou se tinha que arranjar tempo e recursos e se ainda ia a tempo de me matricular em filologia românica.  Para ganhar tempo, tomei uma decisão prática.  Utilizar os rudimentos de filologia, que me tinham inculcado naquele liceu.  Resolvi começar por consultar dicionários etimológicos.

Consultei, primeiro, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo, 2 volumes, 10ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa, 1944.  Não dá a etimologia de crioulo ou crioilo.  Com a mesma raiz, há ainda criatura, criança, cria, criado, termos que se referem a pessoas humanas, e criação.  Dá muitos significados de crioulo com menção da área geográfica de utilização, mas sem datas, entre aquelas o Minho, onde significa criança de colo e que é, certamente, o mais antigo, a Índia Portuguesa, obviamente mais recente, onde passou a significar filho adoptivo.  Estes pareceram os significados mais relevantes para as nossas investigações.  Há ainda o Ribatejo, onde a palavra designa aves, que embora de arribação, lá se conservam e o Brasil, onde a palavra se generalizou às pessoas, animais ou vegetais próprios de certa localidade.  A palavra também passou a designar o “dialecto” português falado em Cabo Verde e os “dialectos coloniais”, ou melhor, línguas que apareceram e se desenvolveram nas colónias europeias da África, América e Ásia.

O Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, 1789 -1949, 12 volumes, dá também para crioulo, o significado de criança de colo, que se manteve no Minho, assim como o significado da Índia Portuguesa.  O Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa, 2001, 2 volumes, dá criança de colo, como regionalismo minhoto.

Depois consultei o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2002, 6 volumes, Círculo de Leitores, Lisboa.  Dá os mesmos significados de crioulo, que os precedentes e tenta reconstituir a etimologia da palavra com a raiz cria-, do verbo criar documentado desde 1091 e derivado do latim creare (creo, creas, creavi, creatum) e a terminação –oulo, que pode ser assimilada ao sufixo –olo, -ola, utilizado em criançola, por exemplo.  Cria designa um animal recém-nascido e designou também criança de peito ou de leite, significado este, que caiu em desuso, depois da adopção da palavra bebé do inglês baby.

O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, 1977, 5 volumes, Livros Horizonte, Lisboa confirma que crioulo deriva da palavra cria seguida do sufixo –olo, em latim –ollu-.  Sendo a raiz latina e o sufixo igualmente latino, temos de admitir, até prova do contrário, que a palavra portuguesa crioulo veio directamente do latim para o português.  Esta palavra é de origem latina, foi correntemente utilizada em português falado e em português clássico e só mais tarde caiu em desuso, restringido-se o seu uso e permanecendo modernamente no Minho com o significado original de criança de colo, criança que já não é cria, nem criança de leite e de peito, ou bebé.  O Padre Baltazar Barreira, em 1611, no século XVII, ainda utilizava esta palavra para designar as numerosas crianças pequenas que via nas quintas, filhos e filhas dos cativos e forros, que ali trabalhavam (Padre Baltazar Barreira ao Padre Assistente de Portugal, 17.7.1611, Carta Ânua da Missão de Cabo Verde do ano de 1610 até Julho de 1611, Documento 111, p. 438 – 469, Monumenta Missionaria Africana, África Ocidental (1610 - 1622) coligida e anotada pelo Padre António Brásio C. S. Sp., Segunda Série Vol. IV, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1968, 718 p.).

A filologia indica assim, que as crianças de colo, idade em que começam a aprender a falar e gatinhar estão relacionadas com a origem da língua e com o nome da língua, que nasceu em Cabo Verde, em meados do século quinze, quando ainda não havia Brasil.

Em crioulo, falar diz-se papiá.  Nas ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Curação) o nome dado à língua crioula é papiamento.  O verbo papear era utilizado na ilha da Boavista, segundo António Amaro de Melo (7 de Novembro de 2013, informação verbal), pela professora da sua avó que costumava dizer:  “Meninos, vamos papear de outra maneira.”  O verbo crioulo papiá tem origem no verbo português papear derivado do latim pipiare, que também deu piar e pipiar para a voz das aves e sua imitação.  Mas papear, derivado de pipiar, segundo Cândido de Figueiredo (1944), significa falar muito, chilrear, tagarelar, mover os beiços sem som compreensível e audível, cochilar.  O Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais e Silva, 1789-1949, dá cinco significados diferentes da palavra:  (1) cochilar, falar baixo, mover os beiços como quem reza, (2) falar muito, papaguear, palrar, parolar, (3) gorjear, chilrear, pipiar, (4) mover as mandíbulas como quem masca e engole em seco, (5) bater um papo, no Brasil, (6) repetir como papagaio, papaguear.  O terceiro significado aplica-se às aves e é ilustrado por Camilo Castelo Branco, Serões, V, p. 40, com as andorinhas.  Os outros aplicam-se a seres humanos.  O último é ilustrado por Venceslau de Morais, Traços, p. 38:  “O papear insólito dos garotos…”  No tempo de Venceslau José de Sousa de Morais, oficial da marinha, fundador e professor do liceu de Macau e cônsul português no Japão (Lisboa, 1854 - Tokushima, 1929) a palavra crioulo já não era usada, salvo no Minho e ele utilizou a palavra garoto com o significado de crioulo.

A filologia indica, que as crianças de colo, a primeira geração de crianças nascidas em Santiago, se puseram, entre os dois e os cinco anos de idade a papaguear e a tagarelar e, finalmente, a falar a sua própria língua, que tomou o nome dos seus primeiros falantes crioulos, para ser designada por língua crioula.  Repetiram, papaguearam as palavras que ouviam, construíram frases e, como a grande maioria dos pais não as corrigissem e não as ensinassem a falar português, inventaram a língua crioula, para satisfazer as suas necessidades imperiosas de comunicar e de organizar a sua vida social infantil.  O seu papeamento não era compreendido pela geração precedente, que falava ou se fazia compreender em português, geralmente sem o ter aprendido em nenhuma escola, à maneira duma algaravia ou caçanjaria.  Cada criança ouvia línguas diferentes aos seus pais e até provavelmente a maioria dos casais, sem língua comum, só comunicassem no português, que tinham conseguido aprender, mal ou bem.  O crioulo nasceu espontaneamente, tal como a primitiva língua da espécie dos homens modernos, cuja capacidade de criar línguas ou aprendê-las, em tenra idade, ficou gravada nos genes, que regulam o crescimento do cérebro humano.  Conhecem-se casos de crianças mantidas em isolamento, que deixaram de poder aprender a falar a partir duma certa idade.  Em Cabo Verde, foi a primeira geração de crianças que inventou a língua crioula, muito antes dessa idade, quando ainda eram crioulos.  De contrário e se houvesse condições, nomeadamente pais conhecedores para os ensinarem, teriam aprendido português, a língua dominante e praticamente a única que se falava, mais mal do que bem, quando nasceram.

Nas sociedades das crianças nunca houve preconceitos, nem lutas de classes, todas as crianças sem distinção de taxa de melanina dérmica, nem de filiação e origem social, nem de religião, passaram a falar uma língua materna comum, que cresceu com elas e passou a ser uma língua de trabalho comum, depois uma língua franca no litoral africano entre o Rio Sanaga e a Serra Leoa e mais tarde teve pretensões a língua literária, com a escolarização do século vinte, já depois de se ter espalhado pelo mundo.

Mestre António Carreira (1972, Cabo Verde - Formação e Extinção duma Sociedade Escravocrata, 1460-1878, Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, Lisboa, 344 p.) avaliou “a menos de cinquenta anos do seu achamento”, que, segundo este autor, foi à volta de 1460 (A Ilha de Santiago foi a primeira a ser achada e visitada, todas tinham sido avistadas até 1462.), a formação da língua crioula, em Cabo Verde.  Segundo Mestre António Carreira, essa lenta formação do crioulo teria assim durado até aos primeiros anos do século XVI.  Mas, em poucas dezenas de anos, cinquenta anos, que foi o tempo, que durou o monopólio de comércio com a costa africana (1466 a 1514 ou 1518), já os lançados, representantes e despachantes dos comerciantes de Santiago tinham ensinado o crioulo como língua franca na Grande Guiné, que nessa altura era bem mais vasta do que hoje.

Na actual Pequena Guiné e Casamansa o crioulo manteve-se muito próximo do seu dialecto de Santiago  Mestre António Carreira (1984, O Crioulo de Cabo Verde, surto e expansão, segunda edição, Mem Martins, 195 p.) mostrou que não havia condições sociológicas para formação do crioulo na Guiné e confirmou que o crioulo de Guiné era “sim o crioulo caboverdeano de Sotavento levado pelos colonos idos do Arquipélago”, como tinha afirmado Mestre Baltazar Lopes da Silva anteriormente.

Na Gâmbia e Serra Leoa, com o advento duma nova língua dominante, cerca de um século e meio depois, o crioulo caboverdeano foi relexificado em inglês, dando duas línguas (dialectos) muito próximas, mutuamente compreendidas pelos respectivos falantes, o aku e o krio, respectivamente, que são falados pela grande maioria da população desses países e conservam gramática, expressões caboverdeanas e algum léxico de origem portuguesa, como, por exemplo, pikin para criança e kohna kohna woman para mulher livre  (Peace Corps, Sierra Leone, 1985, Krio Language Manual, U. S. Government Printing Office, 1985-526-044/30228, Internet, 214 p.).  Além destas, Benjamim Pinto Bull (1989, O crioulo da Guiné-Bissau:  Filosofia e Sabedoria, Lisboa, Instituto de Culturta e Língua Portuguesa, Bissau, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, 351 p.) indica mais três palavras do krio, que são de origem portuguesa e resistiram à relexificação inglesa.  O crioulo das Ilhas dos Ídolos (Îles de Los), restos dum vulcão extinto da plataforma continental, em frente da península de Conacri (cabo de Sagres ou cabo Ledo), também sofreu a influência do inglês até 1904, data em que estas ilhas foram cedidas à França e depois, com a presença de missionários ingleses.

As crianças puseram-se a tagarelar e papear crioulo e até hoje os lusófonos monolingues nunca mais as compreenderam, o que lhes causou grandes arrelias e despautérios, ao longo duma longa história, a terminar com a perplexidade e “repugnância” de Gilberto Freyre.

O crioulo do Arquipélago de Hauai (Hawaii) nasceu por volta de 1920, pelo que o seu nascimento e desenvolvimento recentes estão muito bem documentado.  Foi em Hauai, que o linguista inglês Derek Bickerton (2008, “Bastard” Tongues, a trailblazing linguist finds clues to our common humanity in the worl’s lowliest languages, Nova Iorque, 270 p.) esclareceu a origem das línguas crioulas e as separou dos pidgins (= algaravias ou caçanjarias) a que costumam erradamente andar ligadas na crioulística.  Mostrou que o crioulo não deriva da língua de contacto pidgin, como se pensava.  A geração emigrada, que falava pidgin, ou algaravia inglesa, não compreendia o crioulo, língua materna dos seus próprios filhos.

Para ilustrar o que se tem pensado (erradamente) em Cabo Verde da origem e formação do crioulo vamos dar a palavra a Jaime, personagem principal da novela Identidade de Viriato de Barros (2005, Cabo Verde, 127 p.):  “Com o tempo emergiu dessa miscigenação generalizada, como que uma nova entidade étnica, o caboverdeano, que não se definia em termos de raça, mas por um conjunto de hábitos e costumes comuns, uma língua nova criada a partir desse esforço de ajustamento de parte a parte, pela simples necessidade de comunicação entre africanos e uma minoria europeia, que acabou por adoptar essa espécie de língua intermédia forjada pela população de origem africana com base na língua portuguesa, simplificando a sua estrutura gramatical e moldando a sua estrutura fonética à sua própria matriz linguística.”  É o que ele pensava sobre a origem da língua e da nação caboverdeana, mas Jaime não explicava porque se chamou crioulo a essa língua nova.  É que essa língua nova, que não era intermédia, nem forjada pela população de origem africana, nem de estrutura fonética moldada a uma matriz linguística pré-existente, tomou o nome dos seus primeiros falantes, as crianças de colo, que já não eram crias ou crianças de leite ou de peito, mas que ainda não tinham atingido a chamada idade da razão, num esforço de comunicar e organizar a sua sociedade pueril fraternal, desprovida de preconceitos e mal definida em termos de taxa de melanina dérmica.  Essa língua foi inventada e continuou a ser falada por todas as crianças, incluindo os filhos dos patrões e os filhos dos cativos, os que tinham pais da minoria portuguesa vindos da Europa e os que tinham pais, vindos de África, das numerosas nações da Grande Guiné.  Para desenvolver essa língua de gramática inata e simples as crianças recorreram às palavras portuguesas que ouviam à sua volta, repetindo-as, papagueando-as.  A nova língua ficou pronta, quando a primeira geração de crianças atingiu a idade da razão e começaram umas poucas a estudar na escola ou seminário, em português, e todas a trabalhar, em crioulo.

Em Hauai, não havia escravos, nem colonialismo, tratava-se de um estado federado americano.  Concentraram-se ali bruscamente, num mercado de pequenas dimensões, um elevado número de trabalhadores de múltiplas origens:  Açores, Madeira, Brava, os únicos que se poderia pensar serem black americans (= americanos pretos) ou afro-americanos, pelas aparências, mas que certamente repudiariam essas designações porque, na América, os caboverdeanos eram e continuaram a ser, até hoje, caboverdeanos fora das classificações americanas pela taxa de melanina dérmica, além dos que vinham da Coreia, Japão, China e Filipinas, estes últimos falando várias línguas diferentes, etc.  A geração imigrada falava algaravias de hauaiano e depois caçanjarias de inglês.  A primeira geração de crianças nascidas no Arquipélago inventou o crioulo hauaiano, há menos de um século.  Interessa sublinhar, que não houve ali nem escravos, nem pretos e castanhos black americans.  Crioulo e escravatura levada de África para a América foram duas coisas diferentes, que convém não misturar, mas infelizmente foram misturadas pelos linguistas europeus e americanos.  A origem da língua crioula não tem nada a ver com a taxa de melanina dérmica, nem com a origem africana ou outra, nem com o grau de civilização, educação e inteligência dos falantes.  Em Cabo Verde, uma maioria era de origem africana, em Hauai nenhum falante era africano e até havia falantes, que falavam o crioulo de Cabo Verde com os seus filhos e deixaram algum léxico caboverdeano na nova língua.  Com excepção deste léxico de uma das línguas do substracto, na estrutura da nova língua não se encontram vestígios de português, nem de japonês, nem de chinês, nem de coreano, nem de tagalá, nem das outras línguas do substracto plurilinguístico.

Antes de prosseguir esta análise da origem das línguas crioulas nas Antilhas e Caraíbas, com a ajuda dos dicionários, temos que prestar uma devida e merecida homenagem a uma filóloga, linguista caboverdeana, Maria Dulce de Oliveira Almada (Estudos de Ciências Políticas e Sociais Nº 55, Cabo Verde, Contribuição para o estudo do dialecto falado no seu arquipélago, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1961, 166 p.)  Com a sua modéstia de investigadora, adiantada trinta anos, em relação a Derek Bickerton, a intuição da doutora Maria Dulce de Oliveira Almada Duarte, orientada pelo que lhe tinham ensinado os seus mestres portugueses, levou-a a invocar a linguagem infantil para explicar certos aspectos do crioulo, que estudava (p. 23).  Pena foi, que se tivesse afastado prematuramente da investigação e das universidades, para se dedicar à “luta”, ou seja à política no exílio, deixando o terreno de investigação do crioulo livre para exploração por linguistas estrangeiros e a escola crioulística portuguesa e caboverdeana, que foi a primeira e a mais adiantada, no fim do século XIX, a ficar ultrapassada pelas escolas de outros países.

Com efeito, o estudo das línguas crioulas, em Portugal, colocou-se na vanguarda em 1880, quando Francisco Adolfo Coelho, Professor de Glotologia, ou Linguística, como se passou a dizer mais tarde, do curso superior de letras publicou no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 2ª Série, Nº 3, p. 129-196 o seu primeiro artigo sobre os “dialectos românicos ou neolatinos na África, Ásia e América”.  Desde o início nos finais do século XIX e meados do século XX, foram integrados nesses estudos falantes e profundos conhecedores destas línguas, como Baltasar Lopes da Silva e Maria Dulce de Oliveira Almada.

Lamentavelmente, a PIDE impediu Mestre Baltazar de entrar como docente na Universidade de Lisboa, em 1940 e a Doutora Maria Dulce deixou os Claridosos em Cabo Verde, em 1961 e foi para a “luta”, em Conácri, mesmo em frente das Ilhas dos Ídolos, um arquipélago de origem vulcânica da margem (plataforma) continental africana, onde ainda se falava crioulo.  Não devia ser a primeira vez e certamente não foi a última, que a PIDE, instituição da confiança do Professor Doutor António de Oliveira Salazar, prejudicou os interesses de Portugal e dos países lusófonos, comprometendo a carreira universitária de Mestre Baltazar Lopes da Silva (entrevista a Fernando Assis Pacheco, 1988, Retratos falados: O mago Baltazar, suplemento de O Jornal, 6 a 12 de Maio de 1988, p. 20 - 25).

O Professor Francisco Adolfo Coelho dava razão a Émile Auguste Egger (1879, Observations et réflexions sur le développement de l’intelligence et du langage chez l’enfant, Mémoire lu à l’Académie des Sciences Morales et Politiques Paris, Alphonse Picard Éditeur, 72 p.; Google Books: http://archive.org/stream/observationsetr02 eggegoog/observationsetr02eggegoog_djvu.txt), que comparava a linguagem das crianças aos “dialectos” crioulos.

Para quem estiver interessado e gostar de ler francês, copiamos da página 44 da obra citada os dois parágrafos em que Émile Auguste Egger, Membre de l’Institut, descreve a linguagem duma criança francesa de 28 meses que começa a criar uma frase, para compará-la com as frases dos crioulos de léxico francês, que, sendo línguas diferentes do francês, são evidentemente estruturadas “sem nenhuma preocupação da conjugação, nem mesmo da sintaxe francesas” como escreve o autor:

«Après l'acquisition et la prise de possession des différents mots usuels de notre langue, un second progrès de l'enfant dans la pratique du langage, c'est de former une phrase par la réunion de plusieurs mots.  Le premier progrès est loin d'être accompli quand déjà commence celui-ci.  (= Depois da aquisição e de tomar posse das diferentes palavras usuais na nossa língua, um segundo progresso da criança na prática da linguagem é a formação duma frase reunindo várias palavras.  O primeiro progresso está longe de ter terminado, quando já começa este.)

A vingt-huit mois, l'enfant connaît le sens des trois mots:  ouvrir, rideau et pas (négation);  déjà il les rapproche avec une certaine dextérité, en les accompagnant du geste et du monosyllabe ça.  «Pas ouvrir ça» signifie «la fenêtre est fermée»;  «pas rideau ça» signifie «la fenêtre n'a pas de rideau».  On reconnaît là ces grossières façons de parler qu'on décore parfois du nom de patois nègre, parce que les nègres de nos colonies n'empruntent guère à la langue de leurs maîtres qu'un petit nombre de vocables, les plus nécessaires, et qu'ils les accouplent, selon le strict besoin, sans aucun souci de la conjugaison et même de la syntaxe.»  (Aos vinte e oito meses, a criança já conhece o significado de três palavras :  abrir, cortina e não, negação;  já começa a juntá-las com certa destreza, acompanhadas de gestos e da palavra isso.  « Não abrir isso » significa «a janela está fechada» ;  « não cortina isso» significa «a janela não tem cortina».  Aqui se reconhece aquelas maneiras grosseiras de falar que às vezes se designam falar negro, porque os negros das nossas colónias só imitam à língua dos seus patrões um pequeno número de vocábulos, os que são mais necessários, associando-os, segundo a estrita necessidade, sem nenhuma preocupação da conjugação e mesmo da sintaxe.)  

Egger observou, que a criança, assim que aprende umas poucas palavras, designando objectos ou pessoas ao seu redor, começa logo a construir frases sem muita hesitação ou com “uma certa destreza”.  Utiliza uma gramática inata, que é própria da sua idade e põe-se a falar espontaneamente.  Quando não há ninguém a ensinar-lhe uma outra língua, a criança fala espontaneamente um crioulo, com outras crianças, nas mesmas condições.  Quando os pais ou outras pessoas a corrigem e orientam, a ensinam a falar, aprende a língua destes e, nesta idade, é capaz de facilmente aprender mais do que uma língua, ao mesmo tempo.

O que é pena é que o Professor Egger, em sintonia com os preconceitos dos europeus da sua época, não estivesse agradecido aos caboverdeanos e seus descendentes, que, na Guadalupe e outras colónias francesas tinham começado a relexificar a sua língua tornando-a mais próxima do francês e das suas façons de parler raffinées (= maneiras de falar refinadas).

Mestre Francisco Adolfo Coelho acrescentou que a formação dos “dialectos” crioulos era essencialmente um fenómeno psicológico;  esses “dialectos” formavam-se rapidamente para acudir à necessidade de relação.  Escreveu mais que “os dialectos crioulos, indo-português e todas as formações semelhantes devem a origem à acção de leis psicológicas ou fisiológicas”, hoje diríamos neurológicas, “por toda a parte as mesmas e não às línguas anteriores dos povos em que se acham esses dialectos.”  Os factos que tinha acumulado e publicado o professor Francisco Adolfo Coelho mostravam “à evidência que os caracteres essenciais desses dialectos são por toda a parte os mesmos, apesar das diferenças de raça (entenda-se hoje, cultura), de clima, das distâncias geográficas e ainda dos tempos.”  Não encontrou “nenhum som das línguas indígenas”, hoje línguas do substracto, que tivesse sido “transportado para esses dialectos”.

Quando discutiu a formação da língua crioula, no segundo número de Claridade, Revista de Arte e Letras, Mestre Baltazar Lopes da Silva (Baltazar Lopes, 1936, Notas para o estudo da linguagem das ilhas, Claridade, Nº 2, Agosto de 1936, p. 5 e 10) começou por apresentar as duas teorias, que havia nessa altura, do processo de formação das línguas crioulas:  (1) a dos que, como Hugo Schuchardt, da Universidade de Graz na Áustria, que foi aprender crioulo a Lisboa à escola de Mestre Francisco Adolfo Coelho com os caboverdeanos Joaquim Vieira Botelho da Costa e Custódio José Duarte (1886, O Crioulo de Cabo Verde, Breves estudos sobre o crioulo das ilhas de Cabo Verde oferecidos ao Dr. Hugo Schuchardt, Boletim da Sociedade de Geografia, 6ª Série, Nº 6, p. 325-388), Lucien Adam e P. Meyer, “consideram os crioulos meros produtos da aplicação da gramática dos idiomas indígenas a um vocabulário europeu” e (2) a sustentada por Adolfo Coelho, segundo a qual “as particularidades gramaticais dos idiomas indígenas” tinham “influído muito pouco” na “constituição essencial” dos crioulos.  O conhecimento profundo, que tinha do crioulo caboverdeano, levou Mestre Baltazar a concluir que a teoria defendida por Francisco Adolfo Coelho, de quem já não chegou a ser aluno, era a única que correspondia “à realidade do problema”.

O problema da formação da língua caboverdeana estava assim colocado na base da realidade dos factos conhecidos, mas as fantasiosas teorias do substracto, tentando fazer derivar os crioulos das gramáticas das línguas maternas dos falantes da língua de contacto ou algaravia inicial (pidgin), reapareceram em Cabo Verde após a independência, trazidas pelos marxistas-leninistas e baseadas em puros mitos, como veremos mais adiante.  Parece que tristemente e desrazoavelmente (para não dizer irracionalmente) vieram para Portugal e mantêm-se nas universidades portuguesas (Dulce Pereira, 2006, O Essencial sobre Língua Portuguesa, Crioulos de Base Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho S. A., 131 p.).

______________________


Nota de Rodapé para Esclarecimento dos Leitores:

Os leitores de ARTILETRA, que conhecem a Fundação Amílcar Cabral, devem lá ter visto o apelido do meu avô materno, Mucangana.  Naqueles tempos de idealismo e ilusões, já tínhamos saído da clandestinidade, mas queríamos lá continuar para enganar a PIDE.  Foi assim que apareceram José Gilmore, pseudónimo de Holden ROBERTO, Abel Djassi, pseudónimo de Amílcar Lopes Cabral e outros.  Ao apelido do meu avô materno acrescentei o meu primeiro nome próprio traduzido em macua, Issufo, para assinar artigos de jornalismo e relatórios, aos quais o Marcelino, utilizando a lei do menor esforço, acrescentava, às vezes os seus, Mahlala e Kalungano.  Uma professora universitária mal informada, convenceu-se, que o apelido do meu avô materno era mais outro pseudónimo do Marcelino (Dalila).

Depois daqueles poucos anos de idealismo, voltei para a minha vida profissional.  Tenho escrito artigos técnicos e científicos, relatórios assinados com o apelido do meu avô paterno, Horta.  Quem estiver interessado, pode procurá-los na Internet.

Para evitar confusões e não misturar os géneros, volto a gora a assinar temas de literatura e de história com o apelido do meu avô materno.

Desde já agradecido pela atenção dos leitores, subscreve-se, aqui, este autor José Carlos Mucangana, ao serviço de ARTILETRA e dos seus leitores

                                                                                                                                    J. C. M. (= J. C. H.)     





Fig. 1.  Professor Francisco Adolfo Coelho, Coimbra 1847 - Carcavelos 1919 (Wikipedia)



 Fig. 2.  Baltasar Lopes da Silva, Caleijão, São Nicolau 1907 - Lisboa 1989 (Wikipedia)

Fig. 3 Maria Dulce de Oliveira Almada Duarte tal como era quando fez a sua tese em Lisboa (Fotografia encontrada no processo Del. Porto, PR 30843 IND, NT 3930, Joaquim Alberto Chissano, José Carlos de Oliveira Sousa Horta e outros, Arquivos da Pide/DGS, Torre do Tombo, Lisboa).  Quando Maria Dulce saiu de Portugal para Marrocos a PIDE mandou vigiar a sua família no Porto. Esta fotografia ficou, por engano, num arquivo da delegação da PIDE do Porto.  Um segundo engano aconteceu em Cabo Verde, quando um funcionário da PIDE foi ter com o pai de Maria Dulce, mostrando-lhe uma fotografia de outra pessoa trocada por esta. O funcionário foi-se embora envergonhado, quando depois de olhar para a fotografia, que ele exibia, o pai de Maria Dulce lhe disse, que não era a sua filha.


O EMPAREDAMENTO MENTAL DE TRUMP


      Entre outros pontos da agenda política do presidente Donald Trump, está a ter grande impacto mediático interno a decisão de construir o muro entre o seu país e o México, elegendo-o como uma magna prioridade, tanto assim que foi das primeiras medidas aprovadas mal se sentou na cadeira do poder. No entanto, o que ele pretende é completar o muro em toda a extensão fronteiriça, já que a sua construção começou em 1994. Só que este muro é apenas um detalhe da agenda de um homem que Pacheco Pereira, no seu artigo no Público de 28 de Janeiro, intitulado “TRUMP, O REI DOS TEMPOS MODERNOS”, caracterizou nos seguintes termos: “Não é um democrata, não é um liberal, não é um conservador, nem um fascista, nem um nacionalista, é um demagogo revolucionário, egocêntrico e autoritário, que só ouve a voz do seu próprio sucesso.”
     Contudo, existem outras mais barreiras abomináveis por este mundo fora, como o muro de Israel/Cisjordânia, o da Coreia, o de Ceuta/Melilla, o do Sahara Ocidental, o de Chipre, o de Caxemira, e, mais recente, o de Evros entre a Grécia e a Turquia. Algumas destas barreiras têm uma finalidade política, de delimitação de fronteiras, como é o caso da Coreia e de Chipre. Mas as mais recentes destinam-se a vedar a entrada da emigração ilegal nos países ditos de “primeiro-mundo”, situação que hoje atinge proporções alarmantes, em cuja génese está a guerra, a desgraça e a fome, ou seja, a fenomenologia de um mundo desigual e cada vez mais perigoso.
     Tudo isto vem em contracorrente com as expectativas que se abriram há mais de vinte anos. Quando, em 9 de Novembro de 1989, caiu o ominoso Muro de Berlim, selando o acto oficial da reunificação das duas Alemanhas, garrafas de espumante rebentaram e foguetes estalejaram no ar. A alegria foi particularmente esfuziante nos dois países envolvidos e até então desirmanados, e contagiou o mundo ocidental em geral. O Muro de Berlim era um tumor na consciência da humanidade. Dir-se-á que rasava a jugular da civilização ocidental, enquanto outros, como o da península da Coreia, não passavam de quistos menores nos subúrbios do mundo. A extirpação do primeiro marcou o fim da guerra-fria e pintalgou o coração do mundo com cores da mais viva esperança. O entusiasmo foi tão contagiante que até homens de reconhecido traquejo na cena internacional se deixaram levar na crista da onda. Nem sequer houve o cuidado de ouvir alguns oráculos avisados, sobre as linhas do porvir, tão unânime parecia a ideia da inauguração de uma nova era no dealbar deste século, uma era de paz e prosperidade, de mais justiça e igualdade, sob os auspícios de uma globalização que estava a desenhar-se, face à queda da Economia Marxista e o advento do Liberalismo.
      Todavia, a realidade não tardou a vir ao de cima, surpreendente realidade, ou talvez não, qual crisálida que rasga o seu invólucro para libertar um novo ser. Com efeito, os velhos conflitos não se resolveram, nomeadamente o do Médio Oriente, em que as duas Guerras do Golfo abriram a porta a um terrorismo islâmico sem precedentes na sua escalada, com uma incidência local destruidora e assassina, e com uma repercussão internacional que não conhece fronteiras. De permeio, até no seio da Europa, após a violenta implosão da República Socialista Federal da Jugoslávia em 1991, se verificaram episódios que não se julgavam já possíveis, com as cicatrizes ainda frescas da II Guerra Mundial. A África continua o mesmo cancro de sempre, com os seus distúrbios de menor duração mas sempre imprevisíveis e letais nas suas consequências, um continente incapaz de regenerar as suas lideranças políticas e acertar o passo com o progresso civilizacional. É a principal origem da horda dos refugiados e emigrantes que demandam a Europa pela sua orla meridional.
     Portanto, o fim da guerra-fria não aliviou, como se esperava, o ambiente de confrontação, antes parece tê-lo acirrado, de forma insidiosa e violenta. É como se tivesse sido aberta uma válvula que continha ódios, ressentimentos e dissensões nunca dirimidos. De facto, a princípio, ainda se pensou que a erosão do Bloco Leste pudesse dar lugar a uma nova e mais concertada ordem mundial, expurgada da hegemonia política de qualquer potência, ou seja, a emergência de um mundo multipolar mas mais atreito a soluções de convivência harmoniosa e franco entendimento diplomático. Mas quem tinha a faca e o queijo na mão não entendeu assim. Os Estados Unidos, pois claro, a superpotência subitamente triunfante, não quiseram deixar os seus créditos por mãos alheias e não tardaram a reivindicar a sua hegemonia. Se com o presidente Clinton houve uma fase inicial de aparente introversão estratégica, pautada por uma certa hesitação sobre o novo papel dos Estados Unidos no teatro mundial, as dúvidas caíram por terra quando aquele país não diminuiu o seu orçamento militar e começou a intervir em força no plano externo e em vários cenários. Ainda assim, nada que se visse como prelúdio da arrogância unilateralista que o segundo George Bush viria a assumir mal chegou ao poder, e de cuja desastrosa política beligerante o mundo anda a sofrer as consequências, a apanhar com os estilhaços por toda a parte.
    Na verdade, o mundo piorou em todos os sentidos. Os seus mais graves problemas permanecem sem solução. Segundo dados oficiais, o flagelo da fome atinge cerca de 800 milhões de pessoas nos países subdesenvolvidos, cerca de 270 milhões nos países em transição e 11 milhões nos países desenvolvidos. E o resultado deste cenário é a fuga que diariamente milhares de seres humanos empreendem em direcção aos países mais prósperos, para fugir à guerra, à fome e à pobreza, calculando-se, segundo as Nações Unidas, em 244 milhões o número de emigrantes em todo o mundo. Esses 244 milhões já são efectivos, mas receia-se uma grande retaguarda que vai engrossando assustadoramente.
     Este é o cenário dos tempos actuais. Até há poucos anos, esperava-se que subissem ao palco das decisões internacionais homens de visão esclarecida e grande envergadura moral. Mas não, contra todas as expectativas, acabou de assumir a presidência da primeira potência mundial um homem da estirpe de Donald Trump, que Pacheco Pereira caracterizou como uma criatura híbrida e por isso mesmo particularmente perigosa. Se ele fosse um ditador de contornos claramente definidos, num país de tradições democráticas como os EUA, teria sido possível travar a sua ascensão ao poder, assim como relativamente fácil anular agora o seu protagonismo. Neste momento, ele é como a cereja em cima deste bolo azedo em que se transformou o mundo. O tampão na fronteira entre os EUA e o México será porventura o pormenor menos relevante do seu desvario. Pior serão os muros de outra natureza que ele tenciona estabelecer a nível planetário, visto que podem inquinar o que, mal ou bem, ainda vai segurando o sistema de relações internacionais, quer políticas quer económicas. Tudo isto é alarmante e o caos é uma possibilidade, a menos que o emparedamento mental de Trump se torne tão evidente e tão nocivos os seus efeitos, que ele seja a breve trecho apeado do poder por aqueles que lá o colocaram.
    


Tomar, 30 de Janeiro de 2017

Adriano Miranda Lima






POSTAL AMISTOSO

domingo, 29 de janeiro de 2017

 - À atenção do Professor da Língua Portuguesa do Ensino Básico, Secundário e Universitário de Cabo Verde -

Caro colega:
Cordiais cumprimentos. Decidi dirigir-me a si desta forma – em postal amistoso -  para assim entabularmos  um diálogo, cujos termos julgo eu, ambos bem conhecemos:
1 – Gostaria de delicadamente lhe perguntar se gosta da Língua portuguesa, se a usa na  sala de aula com os seus alunos e se nas conversas que com eles costuma ter fora do contexto das aulas, usa igualmente a nossa língua portuguesa. Se respondeu SIM  às três questões, merece as felicitações dos pais e encarregados de educação dos alunos, da sociedade cabo-verdiana que contribui para que exerça dignamente a função de professor de português e queira receber as minhas felicitações  aqui também incluídas.
Se não, ainda poderá estar a tempo de arrepiar caminho e ser melhor professor.
Releve-me esta maneira, a modos que de colega mais velha, de iniciar a relação epistolar.
2 – Sabia  caro colega que não pode ser isoladamente culpado da má preparação notória que os seus alunos revelam em matéria de expressão escrita e oral da Língua portuguesa, no final dos diferentes patamares de ensino?
 Pois bem, a si coube  e cabe certamente parte importante e fundamental desta calamidade linguística que  assistimos actualmente nas nossas escolas. Mas caberá igualmente aos professores de História, de Geografia, de Estudos Sociais, de Ciências Naturais, de Física, de Química, de Matemática, entre  outras disciplinas curriculares do sistema do ensino, uma grande dose de culpa, pelo desleixo, pelo desafecto, pela falta de cuidado que esses nossos colegas, de uma maneira geral demonstram em relação à Língua veicular  do Ensino em Cabo Verde; inscrita em alongado texto na Lei de Bases do Ensino, 1990 e nas leis que regulamentam os diferentes níveis escolares do sistema escolar do País. A Língua portuguesa. Língua aliás, através da qual aqueles docentes fizeram toda o seu percurso escolar e veículo linguístico dos livros científicos e técnicos por onde estudaram durante o curso.
3 – Reconheço também que a maior parte dos professores que sai munido de Diploma dos nossos estabelecimentos de Formação, traz do antecedente, o perfil de aluno medíocre  do sub-sistema secundário. É este perfil que regra geral, demanda formação superior no País. Infelizmente, é a realidade existente e a mais visível, na sala de aula das instituições médias e superiores de formação, tanto na ilha de Santiago, como na ilha de São Vicente.
Posto isto, a questão que se coloca é a seguinte: como podemos ter docentes e ensino de qualidade quando a base e a matéria prima são  más? Que esperar do saber e da cultura de um professor que nunca leu um livro por inteiro? E mais, que desaconselha (repare bem!) os pais e os alunos a adquirirem livros de estudo e manuais escolares? Que qualidade de ensino estamos a ter nestas ilhas, depois de mais de 40 anos de investimentos de alguma grandeza na Educação?... algo, ou pior, muita coisa está erradissíma!  
4- Eu sei caro colega, porque também tenho o mesmo sentimento de  vergonha e de tristeza profunda que possui  o comum do cidadão cabo-verdiano, mais velho, quando temos notícias de que o  actual e infelizmente grande insucesso académico dos nossos estudantes universitários, nas Universidades portuguesas e brasileiras se deve em grande parte ao não domínio da Língua comum.
Muitos estudantes cabo-verdianos, são aconselhados e avisados, por vezes, já em pleno funcionamento  das suas actividades lectivas de que não estão aptos a acompanhar as aulas e os trabalhos no âmbito do curso escolhido, porque não sabem expressar-se oralmente e nem escrever correctamente a Língua portuguesa.  Que calamidade! E note caro colega, trata-se de alunos que obtiveram médias, as mais elevadas em liceus nacionais! - altamente inflacionadas, é a conclusão a que se chega -  e por isso mesmo puderam candidatar-se a cursos fora do país.
5 – Por hoje, quedo-me por aqui, esperando sobre a mesma matéria, voltar em breve a contactá-lo. Até lá, prezado colega, medite mas medite mesmo, na enorme responsabilidade que sobre si impende e no grau de exigência que deve ter consigo próprio a bem do ensino da Língua portuguesa nas nossas escolas.
Ensine com gosto e com boa preparação a nossa bela língua veicular, são os meus votos sinceros.
Sempre colega:

Ondina Ferreira
sábado, 28 de janeiro de 2017
Considerando que o assunto é de relevante interesse para os falantes da Língua portuguesa e com a devida vénia ao Jornalista/autor da boa informação, e ao Jornal  «Público« de 28/01/2017, transcreve-se o texto:

Língua portuguesa
Nuno Pacheco
As alterações propostas ao acordo ortográfico são um documento aberto. A Academia das Ciências quer agora discuti-las.

Depois de aprovado na Academia das Ciências de Lisboa, na quinta-feira, por 18 votos contra cinco, o documento Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi ontem divulgado à imprensa. Tem três pontos essenciais e estes dizem respeito à acentuação gráfica, às sequências consonânticas e ao emprego do hífen. A ACL diz, no documento, que se trata “de um primeiro trabalho”, no sentido de que se “avance com a sistematização de critérios e orientações visando “uma maior regulação” e “na defesa de um registo adequado à variante portuguesa.”
O presidente da ACL, Artur Anselmo, gostaria que este documento servisse de base a uma discussão mais alargada. “A Academia”, diz ele ao PÚBLICO, “propôs uma reunião de todas as organizações que trabalham com profissionais da escrita: PEN Clube, a Associação Portuguesa de Escritores, a Sociedade Portuguesa de Autores e seria bom que também participassem organismos representativos dos jornalistas.” Esta reunião, ainda sem data marcada, articula-se, diz, “com a audição a que eu serei sujeito, e com muito gosto, na Assembleia da República. Estou à espera que me digam quando.”
As alterações ao texto do acordo ortográfico de 1990 (AO90) propostas coincidem com as que já tinham sido parcialmente antecipadas na comunicação social: a diferenciação de pára e para; pélo (de pelar), pelo e pêlo; pôr e por; recupera-se a terminação -ámos no pretérito perfeito para distinguir do presente do indicativo, -amos (ex: falámos, falamos); aceita-se a dupla acentuação em palavras como oxigénio/oxigênio ou tónico/tônico, mas com delimitação geográfica clara (uns em Portugal, outros no Brasil); retoma-se o acento circunflexo na 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo, crêem, lêemvêem, em lugar do creem, leem, veem imposto pelo AO90; nas sequências consonânticas recuperam-se as palavras que eram iguais em Portugal e no Brasil e que mudaram só em Portugal (concepção, recepção, etc), sugere-se a manutenção da consoante dita muda em certas palavras “para evitar arbitrariedades” (característica, por exemplo, em lugar de caraterística) e nos casos onde ela tenha “valor significativo, etimológico e diacrítico” (conectar, decepcionado, interceptar), mas sugere-se que continuem eliminadas em casos como acionar, atual, batizar, coleção, exato, projeto.
Por fim, no uso do hífen propõe-se a sua manutenção nas “expressões com valor nominal”, ou palavras compostas, como maria-vai-com-as-outras, em formas como luso-brasileiro, em vocábulos onomatopaicos (au-au, lenga-lenga), e propõe-se que se escreva pára-choques, pára-brisas ou pára-raios, mantendo-se escritas aglutinadamente palavras como mandachuva, paraquedas ou paraquedista. Há mais propostas, mas estes tópicos dão já uma ideia do que a ACL pretende sujeitar à discussão pública.
Artur Anselmo não tenciona deixar morrer o tema. “Isto é como uma campanha: se se silencia, cai no esquecimento. Precisamos de avivar a questão fazendo reuniões, trocando impressões, criando uma onda que vai crescer e perante a qual o poder político terá de tomar uma posição.” Mas conscientemente, acrescenta: “Tudo o que fizermos tem de ser feito com muito juízo: firme, mas apoiado na ciência e na cultura.”

nuno.pacheco@publico.pt
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Nótula ao Leitor


José Fortes Lopes, natural da ilha de São Vicente, Professor universitário e estudioso da História contemporânea de Cabo Verde; dos acontecimentos que envolveram a independência, (1975) e da emergência do regime Democrático (1990) nas ilhas. O autor fixa neste ensaio um ponto de vista para o qual, convidamos o leitor a partilhar numa leitura que esperamos reflexiva e crítica.



SUBSÍDIOS PARA HISTÓRIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA DE CABO VERDE
Introdução:
Estes Subsídios (em duas partes) têm por objectivo contribuir para uma melhor compreensão da História Política Contemporânea de Cabo Verde.
Não sou historiador nem cientista político, mas as circunstâncias e o meu envolvimento cívico em prol de Cabo Verde, nomeadamente a minha ilha natal, S. Vicente, tem-me levado por vias que no âmbito da minha actividade normal nem imaginaria e nunca teria antecipado. Esta tarefa rouba do meu tempo, mas a situação de Cabo Verde chegou a tal ponto de degradação social, cívica intelectual e cultural que não deixa indiferente o menos justo dos cristãos, que no passado teve a felicidade de conhecer um país que tinha muito para dar certo, sobretudo boa gente, e encontra-se num impasse e em vias de se inviabilizar. Assim, se puder contribuir para alguma reposição de Verdades e do Bem, então a minha tarefa não é inglória. Este é o meu propósito e móbil.
Assiste-se hoje a manipulações grosseiras da história, a omissão de factos e dados, a exageros e inverdades e mesmo situações que configuram fraudes científicas do ponto de vista do tratamento de material histórico. Fruto da guerra civil ideológica e política ocorrida no arquipélago durante cerca de 60 anos, os protagonistas do sistema partidarizado tentam, em função das conjunturas, colar a realidade histórica às suas narrativas. A história política do arquipélago, reescrita segundo os novos cânones partidários, resume-se, hoje, a uma dialéctica entre os dois principais partidos, o PAIGC/CV e o MPD, que se consideram demiurgos da nacionalidade, da liberdade e da democracia cabo-verdiana. De acordo com os seus pontos de vista, a nação cabo-verdiana pura e simplesmente não existia antes da independência ou da liberdade, considerando-se os pais criadores. Criaram Homens Novos, numa Nova Nação que, usando a lógica das suas teses, emergiu de geração espontânea, po isso somente os militantes do PAICV e do MpD têm existência e legitimidade política e histórica. Factos, personagens e dados importantes da história de Cabo Verde, anteriores ou contemporâneos, mas não simpáticos para com as suas narrativas, são assim pura e simplesmente apagados. Cidadãos e comunidades que não lêem o mundo pelas suas narrativas são marginalizados ou desaparecem das narrativas. Mesmo os que
contribuíram para que tais partidos alcançassem o poder, podem cair na desgraça, ao passo que o número de heróis e participantes nas lutas é inflacionado para gerir as novas clientelas partidárias e impressionar os mais jovens, normalmente a faixa etária com menos de 40 anos. Acresce que o centralismo pretende resumir todo Cabo Verde à ilha de Santiago. ‘Faits divers’ locais transformam-se em eventos de dimensão histórica nacional, ao passo que outros acontecimentos que marcaram a história tornam-se irrelevantes e omitidos. Séculos da história de Cabo Verde não são revelados ou tidos em consideração. A este fenómeno chama-se Revisionismo Histórico, um aspecto típico de sistemas totalitários que pretendem manipular e moldar as mentalidades de acordo com obediências ideológicas. Participam nesta operação a sociedade inteira, mais precisamente, os médias, intelectuais e a classe política que daí tira dividendos. Estaremos ainda numa situação totalitária em regime demiocrático?
1- A mitologia oficial sobre a paternidade da fundação de Cabo-Verde, da independência e da democracia cabo-verdianas
Sobre a história de Cabo Verde, duas leituras exclusivas e antagónicas estão a perfilar-se no momento actual: a da Independência e do Patriotismo e seus Heróis; a da Liberdade e da Democracia e seus protagonistas. Ambas circunscrevem a história de Cabo Verde a um período bastante delimitado, cuja génese é o nascimento do PAIGC, que se reclama de partido fundacional da nacionalidade cabo-verdiana e consagra o seu protagonismo com a independência política conquistada em 1975, sob a égide da luta armada no mato da Guiné, denominada Luta de Libertação Nacional, embora em solo estrangeiro. Depois, com a cisão ocorrida no seio do PAIGC em 1980, nasce o PAICV, pondo-se termo ao utópico e contranatura projecto da Unidade Guiné-Cabo Verde, mas a perspectiva ideológica mantém-se inalterável nos seus princípios e na sua prática. Mais tarde, o ano de 1990 marcaria o fim da primeira leitura, a da Independência e dos Heroísmos, com a queda do famoso artigo IV da Constituição de Cabo Verde, que sustentava o regime do Partido Único, e consagrava o PAICV como luz e guia de Cabo Verde.
É a partir daí, com a liberalização do regime, que se abre o espaço para a outra leitura, a da Liberdade e da Democracia, e de que se reclama o MpD, o partido que se forma em 1990 com base em dissidentes do PAIGC original e uma maioria de militantes saída do
PAICV. É assim que, em oposição ao PAICV, o MpD considera-se o pai da “Democracia e da Liberdade”.
Estas são, pois, as duas narrativas oficiais que, aparentemente, tendem a prevalecer na actual historiografia cabo-verdiana, cobrindo um curto período de 60 anos no máximo, desde 1960 (data do nascimento de movimentos nacionalistas na Guiné que incorporavam Cabo Verde no seus propósitos, à actualidade). Todo o período histórico anterior fica omisso ou encoberto em especulações de cariz demasiadamente ideológicos. No entanto, entre as duas narrativas não há sequer espaço para inserir a mais fina folha de papel. Acresce um fenómeno recente, as narrativas revisionistas do Fundamentalismo originário de Santiago, estribado no Centralismo Político e Cultural em voga em Cabo Verde, que vem ocupando progressivamente todo o espaço das narrativas políticas, reescrevendo uma versão da História, que usa ‘faits divers’ locais, trasformados em factos históricos de dimensão nacional, ao mesmo tempo excluindo a contribuição do Norte de Cabo Verde, nomeadamente a ilha de S. Vicente, o palco da História contemporânea de Cabo Verde, dos últimos dois séculos. Eventos, factos e personagens oriundos destas regiões são censurados e omissos deliberadamente e mesmo boicotados.
Há, pois, de artificioso e falso nas narrativas actuais, já que demasiado restritivas na interpretação da história e na análise sociológica do processo de consciencialização político-cultural do homem cabo-verdiano. De resto, costuma-se dizer que a história é escrita, ou reescrita, pelos vencedores e os detentores do poder, e é por isso que o PAIGC/PAICV, o MpD e os Fundamentalistas, cada um reclamando o seu quinhão de vitória, se julgam com direito à sua própria narrativa fundacional e de tentar impô-las.
Sem querer recuar muito no tempo para uma clarificação conceptual, bastará citar o sociólogo, especialista da Emigração/Diáspora, Luiz Silva, quando afirma que Cabo Verde não nasce no 5 de Julho, mas existiu muito antes. Silva defende que Cabo Verde como nação, como conceito ideológico, nasceu na emigração /diáspora com núcleos autónomos que cultivavam a sua cabo-verdianidade do local de origem. Na realidade esta construção ocorreu durante várias etapas, ao longo dos 500 anos da História de Cabo Verde, desde que se descobriu e povoou o arquipélago.
Pode considerar-se como acontecimento inaugural e simbólico do processo de construção da nacionalidade cabo-verdiana, a criação da Cidade Velha na ilha de
Santiago, a primeira fundada por europeus nos trópicos e que foi o pivot do tráfego de escravos africanos. Cabo Verde cresce e floresce, pois, a partir do comércio transatlântico entre a Europa e a América, contribuindo para o povoamento deste continente. Todavia, as vicissitudes históricas, as condições climatéricas desfavoráveis e a escassez de recursos naturais, não propiciaram as melhores condições para que o arquipélago progredisse economicamente e crescesse demograficamente.
Na verdade, até inícios do século XX, a população de Cabo Verde apenas atingia as 100 mil almas. Com a queda da Cidade Velha, nunca mais se constituíram centros populacionais expressivos em Santiago até inícios do século XX. A própria cidade da Praia, a capital administrativa, onde residia o governador e o seu staff, até à data da independência não passava de um pequeno burgo com algumas ruas, onde residia a burguesia local afecta à máquina administrativa, sem infra-estruturas adequadas. Todo o resto consistia em populações rurais vivendo na mais extrema pobreza, habitando povoados dispersos pela ilha e sem significado.
Espanta obviamente que a cidade da Praia fosse ainda em 1975 algo precário e carente de vitalidade urbana, sendo ela a capital da colónia, onde residia o governador e estavam sediadas as estruturas da governação colonial. Mas a única razão plausível é que a cidade não possuía uma sociedade civil dinâmica, imaginativa e produtiva, situação a que se acomodou o governo colonial. A cidade vivia basicamente da empregabilidade assegurada pela administração pública à sua elite, e a ilha subsistia dos magros recursos da agricultura de sustentação em regime de sequeiro, num arquipélago no seu todo fustigado por secas e emigração.
Em meados do século XIX, com o povoamento de S. Vicente, a cidade do Mindelo, graças ao Porto Grande e à presença britânica, torna-se o mais importante centro populacional, económico, político, intelectual e cultural de Cabo Verde, a metróple cabo-verdiana, com o reconhecimento da administração colonial e da ex-Metrópole. O arquipélago torna-se de novo viável e autosufiente graças a actividade económica desenviolvida no Porto Grande. A ilha de S. Vicente, à escala de Cabo Verde, adquiria uma actividade económica, comercial e industrial que lhe permitia o desenvolvimento de fenómenos tipicamente urbanos: lutas sindicais, sociais e políticas, assim como actividades culturais e intelectuais relevantes. Para ela afluem gentes de todo o arquipélago e da Metrópole, assim como
estrangeiros, nomeadamente italianos e judeus, que passam a incorporar uma sociedade civil dinâmica e criativa. É por mérito exclusivo desta, que a ilha passa a destacar-se consideravelmente no contexto do arquipélago, abrindo-se para o progresso e para o futuro e introduzindo a modernidade no território. É nela que ocorrem os movimentos literários e políticos do século XX, de que é exemplo mais destacado a Claridade. S. Vicente é em todos os sentidos uma ilha de cultura liberal, não sendo por acaso que é no seu chão que o 25 de Abril encontra eco no arquipélago, acolhendo-o com incontidas explosões libertárias, enquanto o resto de Cabo Verde passa praticamente ao lado dos acontecimentos. Desta maneira, com o contributo activo do MFA, S. Vicente é que proporcionou as condições para a instalação prematura em Cabo Verde do PAIGC e para a montagem do palco do discurso libertador que haveria de condicionar o futuro do território e influenciar a sua história (Continua em 2- Contestação da alegada paternidade da independência e da democracia cabo-verdianas).
Janeiro de 2017

José Fortes Lopes

Os políticos cabo-verdianos e Os desafios Semânticos

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Há bem poucos meses, um político de topo desabafava aparentemente pesaroso, numa animada conversa não propriamente restrita, que já estava farto do pessoal do MpD – seu partido – e acrescentava: preguiçosos e incompetentes. Não é que eu esteja em desacordo total com ele, mas penso que houve algum excesso e alguma arrogante presunção. Fizesse ele antes, uma introspecção, breve que seja, baseada na análise das funções que já exerceu, seu desempenho e desfecho, teria verificado que correria sérios riscos de alguém o classificar de modo muito semelhante. Então, recorreria a Ortega y Gasset – “o Homem é ele e suas circunstâncias” – para se justificar e não chegaria a tão patéticas conclusões acerca do militante do MpD. Faria seguramente uma análise de contexto, que é tão somente uma variável múltipla da multifunção “circunstâncias” e obteria outros resultados ou, no mínimo, particularizava-os. As suas afirmações fazem lembrar as de um “super-ministro” que alcandorado no alto do seu pedestal usou a comunicação social e toda a sua jactância para demitir um gestor público, por sinal de excelente formação académica, proclamando a sua incompetência. É esse ministro, já na condição de gestor público, que protagonizou, um par de anos depois, a mais desastrosa e vergonhosa gestão verificada em Cabo Verde após a independência. 
Mas, pergunto-me, o que terá levado o político, com responsabilidades elevadas, a fazer tal “desabafo”? Justificar, perante o seu eleitorado, a colocação dos seus amigos da actual oposição ou outros, completamente desconhecidos em lides políticas (não se sabe o que pensam…) em determinados lugares cobiçados por militantes que deram “suor, sangue” e alguma ambição para que ele lá estivesse e que se julgam com capacidade para desempenhar esses lugares? Tendo sido um general de campanha, o que o levou a conduzir as suas tropas para uma vitória se já sabia que não tinha gente para a “ocupação e administração do território”?
E o paradoxo é, sem dúvida, a anunciada nova orientação do seu partido que pretende criar inúmeras incompatibilidades entre funções de Estado e de partido, o que exigirá dessa associação política abundância de quadros i.e. de muita gente – em quantidade e qualidade – para os preencher desertificando a administração pública dos seus militantes de qualidade. Aliás, esta medida ou pretensa orientação só fará sentido, a meu ver, (e se calhar seria até desejável) se fosse estendida por um pacto alargado a todo o Estado. Uma medida do Estado. Do género da assumida pelo Reino Unido em que nenhum funcionário público pode filiar-se ou militar em partidos políticos.
Acreditar que, feita de forma unilateral, será um exemplo ou uma medida moralizadora da ética política é pura ingenuidade e promoverá, sem qualquer dúvida, ou a desertificação do Partido – seguramente agravada com o eventual advento da regionalização – ou a ocupação da administração de topo do Estado pela oposição. Somos um País de 500 mil habitantes e temos todos os órgãos partidários que têm os países de muitos milhões de habitantes e, quase sempre – o “quase” cartesiano – em maiores proporções.
As pessoas públicas devem ter sempre muito cuidado com as afirmações que fazem. As suas conversas nunca têm natureza privada, mesmo em ambientes tidos como informais. A sua valoração e o seu aproveitamento são feitos sempre em circunstâncias que lhe são adversas ou em situações exploratórias.
Na sequência do uso excessivo da palavra pelos políticos vem à colação uma afirmação de um outro político de topo que ao ser confrontado com as afirmações do Mestre Baltazar Lopes quando este diz que “não somos nem africanos nem europeus, mas sim cabo-verdianos” ele terá contraposto de forma veemente e acabada, como se fosse o dono da verdade: “Não, somos africanos!”. Não teve nem a deferente humildade nem a tolerância intelectual de separar as águas, conhecendo o autor da tese. Baltazar Lopes era um intelectual do mais alto gabarito e, referia-se, obviamente, em termos culturais, não obstante, como também disse o também renomado Mestre Victorino Nemésio, – açoriano – complementando Ortega y Gasset e particularizando a insularidade: “o Homem é também ele e a sua geografia”.
Não está em causa se Baltazar Lopes tinha (tem) ou não razão. O que é certo, é que ele não tinha que ser contraditado, se não usando os mesmos instrumentos e os mesmos métodos de análise ou, pelo menos, ao utilizar outros, defini-los e clarificá-los de forma a chegar a tal conclusão diferente e peremptória. Presumo que aqui também houve um excesso e uma certa precipitação, sobretudo diplomática, porque se exauriu nela.
Ninguém duvida que somos geopoliticamente africanos. É um dado objectivo. É uma opção estratégica ou outra, – sempre circunstancial – uma vez que não nos situamos no continente africano. Nem geologicamente nem geograficamente. É apenas o continente mais próximo. Não me lembro de ter ouvido um caribenho gabar-se americano. E é-o de facto. E daí pergunto-me porquê tanta obsessão no nosso africanismo? Somos ilhas atlânticas. Se tivermos alguma dúvida pensemos nos arquipélagos das Canárias e da Madeira, que mais perto do que nós estão da plataforma continental africana, e deduzir se alguém os considera africanos. Ou será que ser africano é a cor da pele? Também isto esbarraria nos, p.e., tunisinos.
Outra palavra que se vem usando de forma abusiva, é “chefe” referindo-se aos políticos de topo. Não me parece muito simpático em política e em democracia falar-se de “chefe”. As palavras não são inócuas. E a sinonímia raras vezes é perfeita e rigorosa. “Chefe” não é necessariamente “líder” ou vice-versa. Não são sinónimos. E muito menos o são, na política. Vem isto a propósito, de uma conversa que tive com um político de topo em que eu tentava mostrar-lhe a minha discordância em relação a uma determinada orientação do seu partido e ele, em vez de a defender com a argumentação eventualmente esgrimida no seio do Partido, rematou-me e encerrou a conversa com “o que é que queres: o “chefe” quer assim!”. Deduzi e, não podia haver outra conclusão que ele se referia ao presidente do seu Partido e retorqui-lhe: estou a ver que ele é mesmo teu “chefe” e não vosso “líder”. E isto é grave!... É, em tese, o regresso ao “centralismo democrático” de má memória: O Chefe disse, o Chefe quer…
Por vezes chego a pensar que o que realmente existe na nossa classe política não é incompetência nem propriamente falta de conhecimento específico ou, como disse o outro, preguiça. O que é gritante, é um enorme défice de cultura geral. Não a informação “internética” ou o domínio do “economês”. A básica.
Muitos outros casos de utilização inapropriada de expressões passam quase todos os dias pela nossa comunicação social. Uns mais graves, outros compreensíveis… Por isto, toda a atenção com a linguagem política é pouca porque ela requer redobrados cuidados semânticos.
A.Ferreira