Zito Azevedo: Pioneiro da rádio, cantor de bela voz, homem do desporto.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Por: Carlos Filipe Gonçalves

Na véspera do dia mundial da rádio 12 de Fevereiro de 2017, Zito Azevedo, uma
referencia na história da radio cabo-verdiana deixou o mundo dos vivos. O famoso
locutor e produtor da Radio Clube Mindelo e Rádio Barlavento calou-se para sempre. A
notícia da sua morte desencadeou nas redes sociais, centenas de comentários evocativos
e lembranças daqueles que o conheceram, ouviram os seus programas radiofónicos, o
viram arbitrar no Estádio da Fontinha em Mindelo ou o ouviram cantar, porque ele um
grande cantor de bela voz, que interpretava fielmente a Mornas da Ilha Brava. No
entanto, no dia seguinte, dia mundial da radio (13 de Fevereiro) de entre a catadupa de
programas evocativos da efeméride, nenhuma referencia ao desaparecimento deste
personagem, um pioneiro da radio que foi contemporâneo de Evandro de Matos, Telmo
Vieira e tantos outros a quem devemos o que a rádio é hoje: um meio de comunicação
com história e tradição! A eles, todos nós os mais antigos, Carlos Gonçalves António
Pedro Rocha, Fernando Carrilho, Santos Nascimento, Carlos Afonso, John Matos entre
outros, devemos o que somos hoje…
Neste dia mundial da rádio, muitos outros pioneiros, para não dizer todos, não foram
lembrados, mas não se trata de esquecimento; trata-se sim de uma cultura que se
instalou entre nós que não valoriza, nem assume o passado, como exemplo para o
presente e projecção do futuro. Para que fique um marco, uma evocação, para os jovens
profissionais de hoje e de amanhã, passo a apresentar uma resenha biográfica deste
grande homem:
Foi um personagem que marcou a rádio em Cabo Verde nos anos 1950/60 até inícios
dos anos 1970. Para além de locutor de bela voz clara e perfeita dicção, era um grande
animador de programas em directo, produtor/apresentador dos célebres programas
Revista Sonora e Onda do Desporto na Radio Barlavento. Também foi um afamado
apresentador de espectáculos, tendo ficado nos anais, a apresentação que ele fez do
primeiro concerto do conjunto Voz de Cabo Verde em Janeiro de 1968 no Éden Park e
claro os concertos realizados nos anos seguintes.
O seu nome completo José Manuel Faria de Azevedo, nasceu em Leiria, Portugal, em 1
de Junho de 1934. Chegou a Cabo Verde em 1943, onde passou a viver com os pais em
Mindelo, Ilha de S. Vicente; recém-chegado prosseguiu os estudos, a partir da 3ª classe
na Escola Camões e depois no Liceu Gil Eanes (Mindelo) do 1º ao 5º e 6º no Liceu
Alexandre Herculano, Porto, Portugal. O pai era proprietário da Ourivesaria Azevedo na
rua do mercado que vai para a Câmara Municipal. Hoje já não existe. Cresceu portanto
na cidade do Mindelo, onde estudou, se fez homem e onde viveu até meados dos anos
1970. Era casado com uma crioula da Brava, os seus filhos nasceram em Cabo Verde.
Zito era pois um “menino de São Cente” na plenitude, que vicissitudes da «revolução»
obrigaram a ir viver em Portugal, terra que o viu nascer, mas onde sofreu até o final da
vida as saudades da Rua de Lisboa ou do Porto Grande que o viram crescer. O seu amor
por S. Cent está vista no seu blog Arrozcatum que manteve desde 2008, onde publicou
até o passado dia 22 de Janeiro o 10.009º post intitulado “A ameaça…” numa referência
aos tempos sombrios que poderão estar para vir! Na maioria destas publicações no
ciberespaço defendeu causas e deu asas ao seu imenso manancial de saber nas mais
diversas áreas! Vale a pena deixar aqui aos leitores o 10.008º Post, intitulado
«Regresso» (leia-se do hospital): “Exactamente trinta dias depois, regressei ao meu
cantinho... Está tudo como devia estar, já o locatário, como se sabe, está bem diferente,
infelizmente, para pior... Mas, como creio já ter escrito algures, posso ser, agora, fisicamente incapacitado mas continuarei a lutar para ser mentalmente activo...” Que força de vontade, que coragem! Quem diria que poucas semanas depois já não estaria entre nós?
Sobre a sua vida profissional é o próprio Zito Azevedo quem a conta: “Fiz Rádio pela primeira vez aos 15 anos, no programa «As Lições do Xiquinho» com Henrique de Albuquerque na Rádio Clube Mindelo (1950) onde vim a ser locutor, produtor, realizador.” Na radio da Rua de Lisboa, produziu e apresentou diversos programas: Histórias da Nossa História, Outras Terras Outras Gentes, Rádio-Cinema). Cheguei a Director de Programação!..” Exclama e passa a descrever a sua vida de cantor: “Em 1969, acompanhado do conjunto de Marino Silva gravei cinco mornas na antiga Emissora Nacional, para o programa Ouvindo as Estrelas. (Tenho cópias melhoradas desta gravação)! Com Os Centauros (conjunto) gravei um disco de mornas, editado pela Casa do Leão e outras aparições em público inclusive acompanhado pela Voz de Cabo Verde.”
Foi na época, produtor de rádio independente com a sua empresa Produções Onda, conforme explica: “realizei e produzi para a Rádio Barlavento “Onda do Desporto” e “Revista Sonora”... De sociedade com Abílio Alves e Abel Pires Ferreira, fiz a produção e realização de uma emissão de rádio independente, (na Radio Barlavento) das 22 às 24 horas – “Encontro às Dez” – Musica, publicidade, animação concursos interactivos... Também era noticiarista (3 vezes por semana)! Orientei as primeiras emissões de Frequência Modulada da Rádio Barlavento...”
Estas declarações, foram por ele enviadas por email em 2012 para eu poder fazer uma curta biografia, para o livro em que estou a trabalhar “Kab Verd Band AZ”. Não satisfeito solicito mais informações e ele responde: “As Produções Onda foi uma produtora de rádio (julgo que a primeira) e era de minha propriedade: eu produzia, realizava, montava e gravava tudo em estúdio que tinha em minha casa, onde era produzida também a publicidade para o Encontro às Dez.” Enviei-lhe entretanto o texto que escrevi para ele ver e corrigir; e respondeu: “Neste caso podem omitir-se os nomes e dizer que se tratava de «uma parceria», em vez de sociedade...Essas duas horas de emissão eram «compradas» à Radio Barlavento e nós cobrávamos pela publicidade emitida durante a emissão...Devo adiantar que dava lucro...!” E terminava assim o email: “Um forte abraço e votos de felicidades para um trabalho de tanto fôlego... Zito”.
Eu não imaginava que um dia, esses dados também serviriam para esta crónica sobre este vulto da radio cabo-verdiana. Obrigado Zito por tudo o que aprendemos contigo, foste um homem simples, quem melhor do que tu, para traçar o teu retrato? “Antigo (82 anos), mas activo, amigo do meu amigo, coração de manteiga, amante do belo, bom garfo, conversador, não fumo, mas adoro um bom Gin&Tonic...!” Que mais poderias ter/ser para que valesse a pena a tua recordação?
Praia, 13 de fevereiro de 2017
Carlos Filipe Gonçalves
Jornalista
domingo, 12 de fevereiro de 2017



Até sempre Zito!
Ao companheiro do “Blog”. «Arrozcatum»
Do Zito guardo a lembrança do seu indesmentível afecto por Mindelo, sua terra considerada e na extensão, à ilha Brava por causa do amor/eleito pela mulher, natural da ilha de Eugénio Tavares, o poeta/compositor de quem o Zito tão bem entoava as mornas.
Neste momento, as palavras devem ser contidas e, se calhar, melhor “falará” o nosso silêncio carregado de boas memórias dos textos do «Arrozcatum» ponto de encontro e de são convívio criado pelo Zito, de seu nome completo: José Manuel Faria de Azevedo.
Mindelo foi a sua terra. Terra onde se criou, estudou, trabalhou e fez-se homem.  Ali casou e teve os filhos.
Não correria em grandes margens de erro ao dizer que naquela cidade, Zito terá passado os momentos mais significativos de uma vida.
Zito guardava uma mágoa muito grande: o de ter sido expulso da sua terra sem razões plausíveis, sem lógica alguma. Ele sentiu-se completamente injustiçado por aqueles que nos tempos conturbados de 1974/75, se achavam os únicos “donos” e senhores mandões de Cabo Verde, com poderes sem limites sobre os outros cidadãos.
Zito, interrogou-se sempre e questionava sem resposta, o porquê da sanha havida ao tempo contra ele? A razão da sua expulsão - na altura sem remédio - da sua bela e querida ilha de S. Vicente?... Ninguém lhe respondeu (!?)...
A resposta (se alguma vez acontecer, tenho sérias dúvidas.) agora pecaria por tardia, pois  infelizmente, Zito já não está entre nós.
Que ao menos que a injustiça havida e o mal acontecido sejam  algo que, sobretudo, os que cometeram tamanha torpeza, e estejam vivos, sobre isso meditem e peçam perdão.
Mas lembremos aqui e agora o Zito do «Arrozcatum» de excelentes textos, de histórias alegres e de memórias interessantes, por ele narrados,  das belas fotografias de Cabo Verde e das mornas que ele passava em rodapé,do seu “Blog,” e connosco partilhava.
Até sempre Zito! «Coral Vermelho» te saúda!
Descansa em paz!

 P. S. A fotografia é da autoria de Joaquim Saial do «Praia de Bote», e foi tirada no dia 11 de Julho, Verão de 2016, durante o almoço/convívio no restaurante da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, na Baixa lisboeta. Convivas: Zito, Valdemar, Adriano, Joaquim Djack, Carmo e Ondina.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Nuno Pacheco, Jornalista do Jornal «Público» deixa-nos nesta crónica registos e informações muito interessantes. Nomeadamente, de Línguas mundiais e não só, que possuem várias ortografias e coexistem bem. Outras bem  curiosas, sobre a grafia da nossa Língua (sónicas e fónicas) e como sempre à volta do Acordo Ortográfico do nosso desacordo.
Afinal, apenas uns míseros 2% de desigualdade entre as duas variantes: a portuguesa e a brasileira, não justifica tanta animosidade e mal-estar, parafraseando  Nuno Pacheco.
A ortografia impõe-se e é sempre bom respeitar-se a velha e instrutiva etimologia...
Com a devida vénia ao autor e ao Jornal acima referido, transcrevemos o texto.


Cerá ke istu tambãe
ce iskreve acim?

Nuno Pacheco

In: Jornal Público de Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2017

No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de submeter a escrita à fonética. Já em meados
do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escreve como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Com um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou. Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos,curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneirasconsoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása,caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para agrafia ofi cial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografi a impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifi ca ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será? Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e acto, ótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam. Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para fi carmos iguais ao
Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não fi camos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns mas a Língua Portuguesa é a única com duas
 ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem nove, o Sérvio tem oito, o Alemão e o Chinês têm cinco cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual três variantes. Ortográficas, sim. E para quem acha que o inglês se escreve
da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês-padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado
(1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; off ense, off ence; bark, barque; check,
cheque; connection connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet,
quartette; refl ection, refl exion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.
O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-sebem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em. 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.
Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.”
Será?
Jornalista. Escreve à quinta-feira

nuno.pacheco@publico.pt

A Educação: O debate do devir?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Agora mais do que nunca, se pede e se sugere com premência, uma análise, uma discussão, um debate sério e objectivo sobre a Educação em Cabo Verde. Com gente no activo, profissional nesta matéria; com a escola, com os professores, com pais interessados, com especialistas da área, ouvindo também os formandos em Educação, entre outros agentes com interesse para a causa, para que o desenho de uma estratégia educativa para este país seja gizada para os tempos actuais e se realize de forma substantiva, com objectivos fiáveis e fazíveis...
A propósito da Educação, em Cabo Verde, li num dos últimos editoriais do Jornal «Expresso das ilhas», (nº 791 de 25 de Janeiro de 2017) pela pena do seu Director, Humberto Cardoso, um artigo muito interessante. Um convite à reflexão dos responsáveis e de todos nós, sobre matéria tão candente e primordial para o desenvolvimento humano, social e tecnológico do país.
Escreveu o autor a determinada altura e passo a transcrever: “A educação foi mais uma vez tema de debate no Parlamento. Desta feita foi no âmbito da interpelação ao governo visando confrontá-lo com as suas promessas eleitorais. A opção do governo pelo estudo das línguas, das ciências das tecnologias e da matemática como via de se chegar a uma economia de conhecimento foi aflorada  durante a interpelação, mas rapidamente deixada para trás. Matérias com maior impacto político designadamente carreiras e contratos dos professores, bolsa de estudo para os jovens, isenção de propinas e problemas salariais das cozinheiras das cantinas acabaram por monopolizar as atenções e exacerbar as opiniões. Depois disso não ficou muito espaço para se discutir a educação que realmente o país precisa para construir um futuro de desenvolvimento".  
E mais adiante, acrescentou algo que nos interpela:
“Em Cabo Verde discutir a qualidade do ensino pode facilmente levar a acusações de que se está atacar os professores. Não é por acaso que qualquer debate sobre educação acaba por exclusivamente incidir sobre questões sindicais e de carreira dos professores ficando de lado a questão da qualidade. Ninguém quer perder no jogo do arremesso político que pode surgir da discussão. Todos, porém, acabam por perder porque nada de substancial se altera ficando a percepção geral aquela já manifestada pelo presidente da república da “qualidade insatisfatória global do nosso sistema de ensino.”
E concluiu o articulista, revelando  bons exemplos que, se calhar, até devíamos ter como modelo: “É hoje ponto assente a importância central da educação em qualquer estratégia de desenvolvimento, particularmente quando o ponto de partida é o de um país pequeno insular e com uma economia ainda dependente da generosidade internacional. Países pequenos e/ou insulares que têm distinguido na corrida para o desenvolvimento posicionam-se todos como países de top nos rankings internacionais no domínio da língua, das ciências e da matemática. Nos testes do PISA, Singapura, Macau, Irlanda, Finlândia, e Estónia estão entre os que mais brilham. O caso de Singapura que com somente dez anos mais de independência do que Cabo Verde conseguiu erguer-se para os primeiros lugares, apesar de enormes dificuldades, entre as quais ser uma sociedade constituída por três grupos étnico-linguísticos. devia interpelar a todos (...)
Articular educação, economia e desenvolvimento revela-se cada dia mais crucial na vida das nações. Também em Cabo Verde devia ser a via privilegiada para um futuro de prosperidade”. Fim da transcrição.

Na verdade, a realidade que hoje se vive em matéria de escolarização nestas ilhas, causa justificadas preocupações. Atingiu-se já um ponto de iliteracia inaceitável - em todos os escalões académicos e em todas as faixas etárias -  do Básico, ao Secundário e ao ensino Superior; de adolescentes, a jovens e até em adultos alfabetizados, escolarizados e graduados. De tal modo, que brada aos céus! A escola cabo-verdiana, o ensino que nela se ministra têm sido até objecto já de algum “gozo humorístico e satírico” pelas tantas e tamanhas calamidades e incorrecções conceptuais e linguísticas, infelizmente, ditas, escritas por alguns professores - os quais já são muitos e que quase configuram a regra -  lidas, ouvidas e divulgadas  pelos próprios alunos, alguns, oriundos de meios familiares mais informados e escolarizados que as contam como se extraídas de algum anedotário nacional. Nem dá para acreditar!
Como e porquê se verificou tal retrocesso? Apetece-me comparar a situação actual escolar de forma relativa é certa, com a dos letrados e formados cabo-verdianos do passado? Como se chegou a este ponto tão baixo? O que se fez à escola cabo-verdiana que não chega ao fim de um ciclo de ensino, com alunos que minimamente saibam ler, escrever e contar? Uma calamidade de todo o tamanho! 
Antigamente, para se fazer aprovar na 4ª classe (correspondente ao actual 4º Ano do ensino básico/primário) o aluno tinha que satisfazer os três requisitos referidos; ou seja, saber ler, saber escrever e saber deduzir correctamente, com lógica;  saber contar, isto é, saber fazer as quatro operações com algum rigor aritmético.
Actualmente, temos alunos com o 12º Ano do ensino secundário completo que mal juntam sílabas e soletram ao ler um simples texto. Uma tremenda vergonha! E isto, para não mencionar a escrita pejada de erros e de falta de lógica ortográfica e semântica. Contar? Não sabem mesmo!  Ler e interpretar um mapa geográfico é um autêntico quebra-cabeças. Nem sei se neste momento, o utilizam na sala de aula da disciplina de Geografia. O pior é nem foi substituído por algo de mais valia. O material escolar básico, pura e simplesmente já não existe nas escolas de hoje.
Muitos alunos nunca abriram um livro, um manual, de História, de Geografia, de Física, de ficção, de poesia, entre outras formas de aquisição de saber e de cultura adequada a cada fase de escolarização. Não utilizam a memória. Isso não lhes foi ensinada a utilidade desse precioso dom, para fixarem e interiorizarem textos,  trechos e conceitos que depois se transformarão um dia, em memória culta e erudita que só lhes trará literacia. 
Na mesma linha,o raciocínio lógico e dedutivo já não entra na acção educativa, didáctica. Façam um pequena experiência, tentem estabelecer um diálogo com um aluno cabo-verdiano, do 12º ano de escolaridade. Ponham uma ou duas questões sobre uma matéria qualquer inscrita no programa curricular que ele terá dado. Ficarão espantados com a ignorância que ele ou ela, demonstrará. Enfim, um verdadeiro desastre científico/técnico e pedagógico, vem percorrendo o nosso ensino. Que credibilidade?
Infelizmente, são estes perfis com imensas e graves lacunas, com longas etapas queimadas, que ingressam no ensino superior. Cá dentro e no estrangeiro. Que fazem a Licenciatura, o Mestrado e o Doutoramento. São os modernos altos Quadros cabo-verdianos. Haverá excepção nisso... Sim, claro! Também, mal seria!!
,Daí que se não admire ninguém da iliteracia que campea por aqui. É basta contactá-los nos seus postos de trabalho, os ditos altos Quadros. Pequenos nada apenas. Este mero exemplo. Entro em consultórios médicos em que levo rodadas de «tu». Esclareço: sou tratada por desconhecido e mais jovem que usa o verbo só na 2ª pessoa do singular.  A ser tratada por “tu” por senhores doutores (assim os trato.Usando eu as formas verbais na 3ª pessoa do singular. No que faço bem) e alguns, por pura ignorância linguística e cultural (na nossa cultura há formas de tratamento distintos que variam entre o formal e o informal, entre mais velhos e mais jovens) Dizem-me: “vais  comprar este medicamento" (em vez de vai  ou mesmo: a senhora vai) . "Olha para a doutora” ( em vez de olhe) que é ela própria a auto-referir-se, enquanto me faz testes) Enfim, ouço constrangida, “barbarismos” deste calibre proferidos por gente adulta e aparentemente, altamente formada, porque especialistas na área da consulta. Mas que desconhece uma simplicíssima regra gramatical e social...
O pior é que desconhecem que não devem tratar paciente adulto e que não é da intimidade deles por “tu”. Eu sei que o não fazem por mal. É por pura ignorância, aqui empregado no seu sentido mais vernáculo. Isto é: eles e elas, ignoram, desconhecem as regras gramaticais e sociolinguisticas. Não lhes foi ensinado na escola em que andaram ?...
Lá está, a escola! A escola com particular acuidade entre nós, devia ser o complemento, o parceiro por excelência, mais activo e mais próximo da família. Grande parte destes adultos, hoje formados, enquanto criança não teve infelizmente qualquer forma de socialização e de informação sistematizadas ao longo da educação caseira sobre as regras básicas do saber, do saber estar em sociedade. É nisso que devia ter entrado a escola próxima da família e transmissora de valores. Não foi assim. Os maus resultados estão à vista de todos, para a nossa lamentação. 
 E isto produziu a incivilidade que grassa entre nós,  o quotidiano do nosso viver social, com especial acuidade entre a geração mais nova .
III
A questão da Língua portuguesa na praxis de ensino cabo-verdiano, anda pelas “ruas da amargura,” de tal modo, que aqui há dias foi muito bem e assertivamente sintetizada numa intervenção feita por um ouvinte oriundo da ilha de Santo Antão, num debate radiofónico a propósito de questões linguísticas entre nós. Disse então o ouvinte esta frase simples e lapidar: “...As senhoras  aí no estúdio que estão a debater a questão, estão baralhadas, os professores cá fora que as escutam estão baralhados, e os alunos, como devem calcular, mais baralhados estão ainda...”
 O ouvinte santantonense, radiografou desta forma, a situação que se vive actualmente quanto à magna questão do ensino da língua portuguesa nas escolas que foi tornado em bico-de-obra, por estes “estrategas” da língua que infelizmente possuímos. 
Mal se fala em se ensinar, como deve ser a Língua portuguesa, a língua veicular dos alunos cabo-verdianos, eis que alguns dos ditos peritos, saltam logo com a questão do Crioulo. E isso, de forma a misturar por vezes, com algum despropósito, uma questão que nos seus melhores momentos, foi tratada em campo próprio, procurando a metodologia mais adequada para uma língua viva, veicular para a nossa instrução, e em franca expansão;  uma língua que é a nossa segunda língua ou nossa língua segunda e que para uma minoria (em que me incluo) é igualmente, língua materna.
Uma questão que devia ser equacionada  em paralelo, mas distinta da questão do crioulo. Só assim, penso eu, se lograriam melhores resultados nos aprendentes .
Resultado, com todos estes “ruídos”, criaram já um ambiente de tal forma confuso, que assim não se chega a parte alguma e a questão permanece por resolver. Fico com a convicção de que os ditos peritos linguísticos se comprazem no meio caótico que eles próprios engendraram e que lhes serve exactamente, ao que vêem. Isto é, para as luzes da ribalta que demandam.
Não sou pessimista, mas estou muito céptica, muito preocupada, relativamente ao ensino que se vem praticando nas salas de aulas das escolas cabo-verdianas.

 Nesta ordem de ideias, criou-se uma espécie de “fantasia linguística” de que os nossos meninos em início de escolarização, não podem e nem devem ser expostos à Língua portuguesa. Isto, se não se lhes puser o Crioulo pela frente. Todo o falante cabo-verdiano é exposto desde tenra idade à língua portuguesa. Uns mais, outros, bem menos. Deixemo-nos de fantasias. 
 Abro um pequeno parêntesis para aqui recordar uma visita que há tempos fiz a um Jardim Infantil no Concelho do Tarrafal e de a responsável/monitora, me contar que logo pela manhã, no começo das actividades, ter alguma dificuldade em conseguir alguma disciplina e silêncio na sala, pois que  se instala algum barulho com as crianças, cada uma a seu jeito,  a querer contar umas às outras o último episódio visto da telenovela que na altura, passava na TV - que impropriamente viam, me seja permitido  também este desabafo –
Ora bem, tanto quanto sabemos os diálogos das telenovelas que passam na televisão nacional, são em português Que se saiba não são em crioulo. O que é certo é que aquelas crianças do interior da ilha de Santiago, entendiam-nos com muito à-vontade. 
E esta?... Afinal, parece que a história da não utilização da Língua  portuguesa na escola básica, justificada com o falso e falacioso argumento de que as nossas criancinhas não percebem a língua portuguesa, anda a ser muito mal contada. Aqui chegados, fecho o parêntesis e o texto.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (3):  Que significam as palavras crioulo e papear?  Qual foi a origem, em Cabo Verde, da língua, que ficou a ser designada por crioulo?


Um dos meus amigos, António Amaro de Melo, professor de português do liceu de Setúbal, Portugal, foi quem me iniciou às obras do Mestre Baltazar Lopes da Silva.  Ele gosta de dizer, que qualquer aluno de filologia românica pode compreender a origem e a formação do crioulo.  Com isto, fiquei sem saber, se estava condenado a não compreender essa origem, por não me ter matriculado em filologia, como desejava o meu professor de português do Liceu Salazar de Lourenço Marques, doutor José António Duarte Marques, ou se tinha que arranjar tempo e recursos e se ainda ia a tempo de me matricular em filologia românica.  Para ganhar tempo, tomei uma decisão prática.  Utilizar os rudimentos de filologia, que me tinham inculcado naquele liceu.  Resolvi começar por consultar dicionários etimológicos.

Consultei, primeiro, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo, 2 volumes, 10ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa, 1944.  Não dá a etimologia de crioulo ou crioilo.  Com a mesma raiz, há ainda criatura, criança, cria, criado, termos que se referem a pessoas humanas, e criação.  Dá muitos significados de crioulo com menção da área geográfica de utilização, mas sem datas, entre aquelas o Minho, onde significa criança de colo e que é, certamente, o mais antigo, a Índia Portuguesa, obviamente mais recente, onde passou a significar filho adoptivo.  Estes pareceram os significados mais relevantes para as nossas investigações.  Há ainda o Ribatejo, onde a palavra designa aves, que embora de arribação, lá se conservam e o Brasil, onde a palavra se generalizou às pessoas, animais ou vegetais próprios de certa localidade.  A palavra também passou a designar o “dialecto” português falado em Cabo Verde e os “dialectos coloniais”, ou melhor, línguas que apareceram e se desenvolveram nas colónias europeias da África, América e Ásia.

O Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, 1789 -1949, 12 volumes, dá também para crioulo, o significado de criança de colo, que se manteve no Minho, assim como o significado da Índia Portuguesa.  O Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa, 2001, 2 volumes, dá criança de colo, como regionalismo minhoto.

Depois consultei o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2002, 6 volumes, Círculo de Leitores, Lisboa.  Dá os mesmos significados de crioulo, que os precedentes e tenta reconstituir a etimologia da palavra com a raiz cria-, do verbo criar documentado desde 1091 e derivado do latim creare (creo, creas, creavi, creatum) e a terminação –oulo, que pode ser assimilada ao sufixo –olo, -ola, utilizado em criançola, por exemplo.  Cria designa um animal recém-nascido e designou também criança de peito ou de leite, significado este, que caiu em desuso, depois da adopção da palavra bebé do inglês baby.

O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, 1977, 5 volumes, Livros Horizonte, Lisboa confirma que crioulo deriva da palavra cria seguida do sufixo –olo, em latim –ollu-.  Sendo a raiz latina e o sufixo igualmente latino, temos de admitir, até prova do contrário, que a palavra portuguesa crioulo veio directamente do latim para o português.  Esta palavra é de origem latina, foi correntemente utilizada em português falado e em português clássico e só mais tarde caiu em desuso, restringido-se o seu uso e permanecendo modernamente no Minho com o significado original de criança de colo, criança que já não é cria, nem criança de leite e de peito, ou bebé.  O Padre Baltazar Barreira, em 1611, no século XVII, ainda utilizava esta palavra para designar as numerosas crianças pequenas que via nas quintas, filhos e filhas dos cativos e forros, que ali trabalhavam (Padre Baltazar Barreira ao Padre Assistente de Portugal, 17.7.1611, Carta Ânua da Missão de Cabo Verde do ano de 1610 até Julho de 1611, Documento 111, p. 438 – 469, Monumenta Missionaria Africana, África Ocidental (1610 - 1622) coligida e anotada pelo Padre António Brásio C. S. Sp., Segunda Série Vol. IV, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1968, 718 p.).

A filologia indica assim, que as crianças de colo, idade em que começam a aprender a falar e gatinhar estão relacionadas com a origem da língua e com o nome da língua, que nasceu em Cabo Verde, em meados do século quinze, quando ainda não havia Brasil.

Em crioulo, falar diz-se papiá.  Nas ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Curação) o nome dado à língua crioula é papiamento.  O verbo papear era utilizado na ilha da Boavista, segundo António Amaro de Melo (7 de Novembro de 2013, informação verbal), pela professora da sua avó que costumava dizer:  “Meninos, vamos papear de outra maneira.”  O verbo crioulo papiá tem origem no verbo português papear derivado do latim pipiare, que também deu piar e pipiar para a voz das aves e sua imitação.  Mas papear, derivado de pipiar, segundo Cândido de Figueiredo (1944), significa falar muito, chilrear, tagarelar, mover os beiços sem som compreensível e audível, cochilar.  O Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais e Silva, 1789-1949, dá cinco significados diferentes da palavra:  (1) cochilar, falar baixo, mover os beiços como quem reza, (2) falar muito, papaguear, palrar, parolar, (3) gorjear, chilrear, pipiar, (4) mover as mandíbulas como quem masca e engole em seco, (5) bater um papo, no Brasil, (6) repetir como papagaio, papaguear.  O terceiro significado aplica-se às aves e é ilustrado por Camilo Castelo Branco, Serões, V, p. 40, com as andorinhas.  Os outros aplicam-se a seres humanos.  O último é ilustrado por Venceslau de Morais, Traços, p. 38:  “O papear insólito dos garotos…”  No tempo de Venceslau José de Sousa de Morais, oficial da marinha, fundador e professor do liceu de Macau e cônsul português no Japão (Lisboa, 1854 - Tokushima, 1929) a palavra crioulo já não era usada, salvo no Minho e ele utilizou a palavra garoto com o significado de crioulo.

A filologia indica, que as crianças de colo, a primeira geração de crianças nascidas em Santiago, se puseram, entre os dois e os cinco anos de idade a papaguear e a tagarelar e, finalmente, a falar a sua própria língua, que tomou o nome dos seus primeiros falantes crioulos, para ser designada por língua crioula.  Repetiram, papaguearam as palavras que ouviam, construíram frases e, como a grande maioria dos pais não as corrigissem e não as ensinassem a falar português, inventaram a língua crioula, para satisfazer as suas necessidades imperiosas de comunicar e de organizar a sua vida social infantil.  O seu papeamento não era compreendido pela geração precedente, que falava ou se fazia compreender em português, geralmente sem o ter aprendido em nenhuma escola, à maneira duma algaravia ou caçanjaria.  Cada criança ouvia línguas diferentes aos seus pais e até provavelmente a maioria dos casais, sem língua comum, só comunicassem no português, que tinham conseguido aprender, mal ou bem.  O crioulo nasceu espontaneamente, tal como a primitiva língua da espécie dos homens modernos, cuja capacidade de criar línguas ou aprendê-las, em tenra idade, ficou gravada nos genes, que regulam o crescimento do cérebro humano.  Conhecem-se casos de crianças mantidas em isolamento, que deixaram de poder aprender a falar a partir duma certa idade.  Em Cabo Verde, foi a primeira geração de crianças que inventou a língua crioula, muito antes dessa idade, quando ainda eram crioulos.  De contrário e se houvesse condições, nomeadamente pais conhecedores para os ensinarem, teriam aprendido português, a língua dominante e praticamente a única que se falava, mais mal do que bem, quando nasceram.

Nas sociedades das crianças nunca houve preconceitos, nem lutas de classes, todas as crianças sem distinção de taxa de melanina dérmica, nem de filiação e origem social, nem de religião, passaram a falar uma língua materna comum, que cresceu com elas e passou a ser uma língua de trabalho comum, depois uma língua franca no litoral africano entre o Rio Sanaga e a Serra Leoa e mais tarde teve pretensões a língua literária, com a escolarização do século vinte, já depois de se ter espalhado pelo mundo.

Mestre António Carreira (1972, Cabo Verde - Formação e Extinção duma Sociedade Escravocrata, 1460-1878, Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, Lisboa, 344 p.) avaliou “a menos de cinquenta anos do seu achamento”, que, segundo este autor, foi à volta de 1460 (A Ilha de Santiago foi a primeira a ser achada e visitada, todas tinham sido avistadas até 1462.), a formação da língua crioula, em Cabo Verde.  Segundo Mestre António Carreira, essa lenta formação do crioulo teria assim durado até aos primeiros anos do século XVI.  Mas, em poucas dezenas de anos, cinquenta anos, que foi o tempo, que durou o monopólio de comércio com a costa africana (1466 a 1514 ou 1518), já os lançados, representantes e despachantes dos comerciantes de Santiago tinham ensinado o crioulo como língua franca na Grande Guiné, que nessa altura era bem mais vasta do que hoje.

Na actual Pequena Guiné e Casamansa o crioulo manteve-se muito próximo do seu dialecto de Santiago  Mestre António Carreira (1984, O Crioulo de Cabo Verde, surto e expansão, segunda edição, Mem Martins, 195 p.) mostrou que não havia condições sociológicas para formação do crioulo na Guiné e confirmou que o crioulo de Guiné era “sim o crioulo caboverdeano de Sotavento levado pelos colonos idos do Arquipélago”, como tinha afirmado Mestre Baltazar Lopes da Silva anteriormente.

Na Gâmbia e Serra Leoa, com o advento duma nova língua dominante, cerca de um século e meio depois, o crioulo caboverdeano foi relexificado em inglês, dando duas línguas (dialectos) muito próximas, mutuamente compreendidas pelos respectivos falantes, o aku e o krio, respectivamente, que são falados pela grande maioria da população desses países e conservam gramática, expressões caboverdeanas e algum léxico de origem portuguesa, como, por exemplo, pikin para criança e kohna kohna woman para mulher livre  (Peace Corps, Sierra Leone, 1985, Krio Language Manual, U. S. Government Printing Office, 1985-526-044/30228, Internet, 214 p.).  Além destas, Benjamim Pinto Bull (1989, O crioulo da Guiné-Bissau:  Filosofia e Sabedoria, Lisboa, Instituto de Culturta e Língua Portuguesa, Bissau, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, 351 p.) indica mais três palavras do krio, que são de origem portuguesa e resistiram à relexificação inglesa.  O crioulo das Ilhas dos Ídolos (Îles de Los), restos dum vulcão extinto da plataforma continental, em frente da península de Conacri (cabo de Sagres ou cabo Ledo), também sofreu a influência do inglês até 1904, data em que estas ilhas foram cedidas à França e depois, com a presença de missionários ingleses.

As crianças puseram-se a tagarelar e papear crioulo e até hoje os lusófonos monolingues nunca mais as compreenderam, o que lhes causou grandes arrelias e despautérios, ao longo duma longa história, a terminar com a perplexidade e “repugnância” de Gilberto Freyre.

O crioulo do Arquipélago de Hauai (Hawaii) nasceu por volta de 1920, pelo que o seu nascimento e desenvolvimento recentes estão muito bem documentado.  Foi em Hauai, que o linguista inglês Derek Bickerton (2008, “Bastard” Tongues, a trailblazing linguist finds clues to our common humanity in the worl’s lowliest languages, Nova Iorque, 270 p.) esclareceu a origem das línguas crioulas e as separou dos pidgins (= algaravias ou caçanjarias) a que costumam erradamente andar ligadas na crioulística.  Mostrou que o crioulo não deriva da língua de contacto pidgin, como se pensava.  A geração emigrada, que falava pidgin, ou algaravia inglesa, não compreendia o crioulo, língua materna dos seus próprios filhos.

Para ilustrar o que se tem pensado (erradamente) em Cabo Verde da origem e formação do crioulo vamos dar a palavra a Jaime, personagem principal da novela Identidade de Viriato de Barros (2005, Cabo Verde, 127 p.):  “Com o tempo emergiu dessa miscigenação generalizada, como que uma nova entidade étnica, o caboverdeano, que não se definia em termos de raça, mas por um conjunto de hábitos e costumes comuns, uma língua nova criada a partir desse esforço de ajustamento de parte a parte, pela simples necessidade de comunicação entre africanos e uma minoria europeia, que acabou por adoptar essa espécie de língua intermédia forjada pela população de origem africana com base na língua portuguesa, simplificando a sua estrutura gramatical e moldando a sua estrutura fonética à sua própria matriz linguística.”  É o que ele pensava sobre a origem da língua e da nação caboverdeana, mas Jaime não explicava porque se chamou crioulo a essa língua nova.  É que essa língua nova, que não era intermédia, nem forjada pela população de origem africana, nem de estrutura fonética moldada a uma matriz linguística pré-existente, tomou o nome dos seus primeiros falantes, as crianças de colo, que já não eram crias ou crianças de leite ou de peito, mas que ainda não tinham atingido a chamada idade da razão, num esforço de comunicar e organizar a sua sociedade pueril fraternal, desprovida de preconceitos e mal definida em termos de taxa de melanina dérmica.  Essa língua foi inventada e continuou a ser falada por todas as crianças, incluindo os filhos dos patrões e os filhos dos cativos, os que tinham pais da minoria portuguesa vindos da Europa e os que tinham pais, vindos de África, das numerosas nações da Grande Guiné.  Para desenvolver essa língua de gramática inata e simples as crianças recorreram às palavras portuguesas que ouviam à sua volta, repetindo-as, papagueando-as.  A nova língua ficou pronta, quando a primeira geração de crianças atingiu a idade da razão e começaram umas poucas a estudar na escola ou seminário, em português, e todas a trabalhar, em crioulo.

Em Hauai, não havia escravos, nem colonialismo, tratava-se de um estado federado americano.  Concentraram-se ali bruscamente, num mercado de pequenas dimensões, um elevado número de trabalhadores de múltiplas origens:  Açores, Madeira, Brava, os únicos que se poderia pensar serem black americans (= americanos pretos) ou afro-americanos, pelas aparências, mas que certamente repudiariam essas designações porque, na América, os caboverdeanos eram e continuaram a ser, até hoje, caboverdeanos fora das classificações americanas pela taxa de melanina dérmica, além dos que vinham da Coreia, Japão, China e Filipinas, estes últimos falando várias línguas diferentes, etc.  A geração imigrada falava algaravias de hauaiano e depois caçanjarias de inglês.  A primeira geração de crianças nascidas no Arquipélago inventou o crioulo hauaiano, há menos de um século.  Interessa sublinhar, que não houve ali nem escravos, nem pretos e castanhos black americans.  Crioulo e escravatura levada de África para a América foram duas coisas diferentes, que convém não misturar, mas infelizmente foram misturadas pelos linguistas europeus e americanos.  A origem da língua crioula não tem nada a ver com a taxa de melanina dérmica, nem com a origem africana ou outra, nem com o grau de civilização, educação e inteligência dos falantes.  Em Cabo Verde, uma maioria era de origem africana, em Hauai nenhum falante era africano e até havia falantes, que falavam o crioulo de Cabo Verde com os seus filhos e deixaram algum léxico caboverdeano na nova língua.  Com excepção deste léxico de uma das línguas do substracto, na estrutura da nova língua não se encontram vestígios de português, nem de japonês, nem de chinês, nem de coreano, nem de tagalá, nem das outras línguas do substracto plurilinguístico.

Antes de prosseguir esta análise da origem das línguas crioulas nas Antilhas e Caraíbas, com a ajuda dos dicionários, temos que prestar uma devida e merecida homenagem a uma filóloga, linguista caboverdeana, Maria Dulce de Oliveira Almada (Estudos de Ciências Políticas e Sociais Nº 55, Cabo Verde, Contribuição para o estudo do dialecto falado no seu arquipélago, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1961, 166 p.)  Com a sua modéstia de investigadora, adiantada trinta anos, em relação a Derek Bickerton, a intuição da doutora Maria Dulce de Oliveira Almada Duarte, orientada pelo que lhe tinham ensinado os seus mestres portugueses, levou-a a invocar a linguagem infantil para explicar certos aspectos do crioulo, que estudava (p. 23).  Pena foi, que se tivesse afastado prematuramente da investigação e das universidades, para se dedicar à “luta”, ou seja à política no exílio, deixando o terreno de investigação do crioulo livre para exploração por linguistas estrangeiros e a escola crioulística portuguesa e caboverdeana, que foi a primeira e a mais adiantada, no fim do século XIX, a ficar ultrapassada pelas escolas de outros países.

Com efeito, o estudo das línguas crioulas, em Portugal, colocou-se na vanguarda em 1880, quando Francisco Adolfo Coelho, Professor de Glotologia, ou Linguística, como se passou a dizer mais tarde, do curso superior de letras publicou no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 2ª Série, Nº 3, p. 129-196 o seu primeiro artigo sobre os “dialectos românicos ou neolatinos na África, Ásia e América”.  Desde o início nos finais do século XIX e meados do século XX, foram integrados nesses estudos falantes e profundos conhecedores destas línguas, como Baltasar Lopes da Silva e Maria Dulce de Oliveira Almada.

Lamentavelmente, a PIDE impediu Mestre Baltazar de entrar como docente na Universidade de Lisboa, em 1940 e a Doutora Maria Dulce deixou os Claridosos em Cabo Verde, em 1961 e foi para a “luta”, em Conácri, mesmo em frente das Ilhas dos Ídolos, um arquipélago de origem vulcânica da margem (plataforma) continental africana, onde ainda se falava crioulo.  Não devia ser a primeira vez e certamente não foi a última, que a PIDE, instituição da confiança do Professor Doutor António de Oliveira Salazar, prejudicou os interesses de Portugal e dos países lusófonos, comprometendo a carreira universitária de Mestre Baltazar Lopes da Silva (entrevista a Fernando Assis Pacheco, 1988, Retratos falados: O mago Baltazar, suplemento de O Jornal, 6 a 12 de Maio de 1988, p. 20 - 25).

O Professor Francisco Adolfo Coelho dava razão a Émile Auguste Egger (1879, Observations et réflexions sur le développement de l’intelligence et du langage chez l’enfant, Mémoire lu à l’Académie des Sciences Morales et Politiques Paris, Alphonse Picard Éditeur, 72 p.; Google Books: http://archive.org/stream/observationsetr02 eggegoog/observationsetr02eggegoog_djvu.txt), que comparava a linguagem das crianças aos “dialectos” crioulos.

Para quem estiver interessado e gostar de ler francês, copiamos da página 44 da obra citada os dois parágrafos em que Émile Auguste Egger, Membre de l’Institut, descreve a linguagem duma criança francesa de 28 meses que começa a criar uma frase, para compará-la com as frases dos crioulos de léxico francês, que, sendo línguas diferentes do francês, são evidentemente estruturadas “sem nenhuma preocupação da conjugação, nem mesmo da sintaxe francesas” como escreve o autor:

«Après l'acquisition et la prise de possession des différents mots usuels de notre langue, un second progrès de l'enfant dans la pratique du langage, c'est de former une phrase par la réunion de plusieurs mots.  Le premier progrès est loin d'être accompli quand déjà commence celui-ci.  (= Depois da aquisição e de tomar posse das diferentes palavras usuais na nossa língua, um segundo progresso da criança na prática da linguagem é a formação duma frase reunindo várias palavras.  O primeiro progresso está longe de ter terminado, quando já começa este.)

A vingt-huit mois, l'enfant connaît le sens des trois mots:  ouvrir, rideau et pas (négation);  déjà il les rapproche avec une certaine dextérité, en les accompagnant du geste et du monosyllabe ça.  «Pas ouvrir ça» signifie «la fenêtre est fermée»;  «pas rideau ça» signifie «la fenêtre n'a pas de rideau».  On reconnaît là ces grossières façons de parler qu'on décore parfois du nom de patois nègre, parce que les nègres de nos colonies n'empruntent guère à la langue de leurs maîtres qu'un petit nombre de vocables, les plus nécessaires, et qu'ils les accouplent, selon le strict besoin, sans aucun souci de la conjugaison et même de la syntaxe.»  (Aos vinte e oito meses, a criança já conhece o significado de três palavras :  abrir, cortina e não, negação;  já começa a juntá-las com certa destreza, acompanhadas de gestos e da palavra isso.  « Não abrir isso » significa «a janela está fechada» ;  « não cortina isso» significa «a janela não tem cortina».  Aqui se reconhece aquelas maneiras grosseiras de falar que às vezes se designam falar negro, porque os negros das nossas colónias só imitam à língua dos seus patrões um pequeno número de vocábulos, os que são mais necessários, associando-os, segundo a estrita necessidade, sem nenhuma preocupação da conjugação e mesmo da sintaxe.)  

Egger observou, que a criança, assim que aprende umas poucas palavras, designando objectos ou pessoas ao seu redor, começa logo a construir frases sem muita hesitação ou com “uma certa destreza”.  Utiliza uma gramática inata, que é própria da sua idade e põe-se a falar espontaneamente.  Quando não há ninguém a ensinar-lhe uma outra língua, a criança fala espontaneamente um crioulo, com outras crianças, nas mesmas condições.  Quando os pais ou outras pessoas a corrigem e orientam, a ensinam a falar, aprende a língua destes e, nesta idade, é capaz de facilmente aprender mais do que uma língua, ao mesmo tempo.

O que é pena é que o Professor Egger, em sintonia com os preconceitos dos europeus da sua época, não estivesse agradecido aos caboverdeanos e seus descendentes, que, na Guadalupe e outras colónias francesas tinham começado a relexificar a sua língua tornando-a mais próxima do francês e das suas façons de parler raffinées (= maneiras de falar refinadas).

Mestre Francisco Adolfo Coelho acrescentou que a formação dos “dialectos” crioulos era essencialmente um fenómeno psicológico;  esses “dialectos” formavam-se rapidamente para acudir à necessidade de relação.  Escreveu mais que “os dialectos crioulos, indo-português e todas as formações semelhantes devem a origem à acção de leis psicológicas ou fisiológicas”, hoje diríamos neurológicas, “por toda a parte as mesmas e não às línguas anteriores dos povos em que se acham esses dialectos.”  Os factos que tinha acumulado e publicado o professor Francisco Adolfo Coelho mostravam “à evidência que os caracteres essenciais desses dialectos são por toda a parte os mesmos, apesar das diferenças de raça (entenda-se hoje, cultura), de clima, das distâncias geográficas e ainda dos tempos.”  Não encontrou “nenhum som das línguas indígenas”, hoje línguas do substracto, que tivesse sido “transportado para esses dialectos”.

Quando discutiu a formação da língua crioula, no segundo número de Claridade, Revista de Arte e Letras, Mestre Baltazar Lopes da Silva (Baltazar Lopes, 1936, Notas para o estudo da linguagem das ilhas, Claridade, Nº 2, Agosto de 1936, p. 5 e 10) começou por apresentar as duas teorias, que havia nessa altura, do processo de formação das línguas crioulas:  (1) a dos que, como Hugo Schuchardt, da Universidade de Graz na Áustria, que foi aprender crioulo a Lisboa à escola de Mestre Francisco Adolfo Coelho com os caboverdeanos Joaquim Vieira Botelho da Costa e Custódio José Duarte (1886, O Crioulo de Cabo Verde, Breves estudos sobre o crioulo das ilhas de Cabo Verde oferecidos ao Dr. Hugo Schuchardt, Boletim da Sociedade de Geografia, 6ª Série, Nº 6, p. 325-388), Lucien Adam e P. Meyer, “consideram os crioulos meros produtos da aplicação da gramática dos idiomas indígenas a um vocabulário europeu” e (2) a sustentada por Adolfo Coelho, segundo a qual “as particularidades gramaticais dos idiomas indígenas” tinham “influído muito pouco” na “constituição essencial” dos crioulos.  O conhecimento profundo, que tinha do crioulo caboverdeano, levou Mestre Baltazar a concluir que a teoria defendida por Francisco Adolfo Coelho, de quem já não chegou a ser aluno, era a única que correspondia “à realidade do problema”.

O problema da formação da língua caboverdeana estava assim colocado na base da realidade dos factos conhecidos, mas as fantasiosas teorias do substracto, tentando fazer derivar os crioulos das gramáticas das línguas maternas dos falantes da língua de contacto ou algaravia inicial (pidgin), reapareceram em Cabo Verde após a independência, trazidas pelos marxistas-leninistas e baseadas em puros mitos, como veremos mais adiante.  Parece que tristemente e desrazoavelmente (para não dizer irracionalmente) vieram para Portugal e mantêm-se nas universidades portuguesas (Dulce Pereira, 2006, O Essencial sobre Língua Portuguesa, Crioulos de Base Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho S. A., 131 p.).

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Nota de Rodapé para Esclarecimento dos Leitores:

Os leitores de ARTILETRA, que conhecem a Fundação Amílcar Cabral, devem lá ter visto o apelido do meu avô materno, Mucangana.  Naqueles tempos de idealismo e ilusões, já tínhamos saído da clandestinidade, mas queríamos lá continuar para enganar a PIDE.  Foi assim que apareceram José Gilmore, pseudónimo de Holden ROBERTO, Abel Djassi, pseudónimo de Amílcar Lopes Cabral e outros.  Ao apelido do meu avô materno acrescentei o meu primeiro nome próprio traduzido em macua, Issufo, para assinar artigos de jornalismo e relatórios, aos quais o Marcelino, utilizando a lei do menor esforço, acrescentava, às vezes os seus, Mahlala e Kalungano.  Uma professora universitária mal informada, convenceu-se, que o apelido do meu avô materno era mais outro pseudónimo do Marcelino (Dalila).

Depois daqueles poucos anos de idealismo, voltei para a minha vida profissional.  Tenho escrito artigos técnicos e científicos, relatórios assinados com o apelido do meu avô paterno, Horta.  Quem estiver interessado, pode procurá-los na Internet.

Para evitar confusões e não misturar os géneros, volto a gora a assinar temas de literatura e de história com o apelido do meu avô materno.

Desde já agradecido pela atenção dos leitores, subscreve-se, aqui, este autor José Carlos Mucangana, ao serviço de ARTILETRA e dos seus leitores

                                                                                                                                    J. C. M. (= J. C. H.)     





Fig. 1.  Professor Francisco Adolfo Coelho, Coimbra 1847 - Carcavelos 1919 (Wikipedia)



 Fig. 2.  Baltasar Lopes da Silva, Caleijão, São Nicolau 1907 - Lisboa 1989 (Wikipedia)

Fig. 3 Maria Dulce de Oliveira Almada Duarte tal como era quando fez a sua tese em Lisboa (Fotografia encontrada no processo Del. Porto, PR 30843 IND, NT 3930, Joaquim Alberto Chissano, José Carlos de Oliveira Sousa Horta e outros, Arquivos da Pide/DGS, Torre do Tombo, Lisboa).  Quando Maria Dulce saiu de Portugal para Marrocos a PIDE mandou vigiar a sua família no Porto. Esta fotografia ficou, por engano, num arquivo da delegação da PIDE do Porto.  Um segundo engano aconteceu em Cabo Verde, quando um funcionário da PIDE foi ter com o pai de Maria Dulce, mostrando-lhe uma fotografia de outra pessoa trocada por esta. O funcionário foi-se embora envergonhado, quando depois de olhar para a fotografia, que ele exibia, o pai de Maria Dulce lhe disse, que não era a sua filha.


O EMPAREDAMENTO MENTAL DE TRUMP


      Entre outros pontos da agenda política do presidente Donald Trump, está a ter grande impacto mediático interno a decisão de construir o muro entre o seu país e o México, elegendo-o como uma magna prioridade, tanto assim que foi das primeiras medidas aprovadas mal se sentou na cadeira do poder. No entanto, o que ele pretende é completar o muro em toda a extensão fronteiriça, já que a sua construção começou em 1994. Só que este muro é apenas um detalhe da agenda de um homem que Pacheco Pereira, no seu artigo no Público de 28 de Janeiro, intitulado “TRUMP, O REI DOS TEMPOS MODERNOS”, caracterizou nos seguintes termos: “Não é um democrata, não é um liberal, não é um conservador, nem um fascista, nem um nacionalista, é um demagogo revolucionário, egocêntrico e autoritário, que só ouve a voz do seu próprio sucesso.”
     Contudo, existem outras mais barreiras abomináveis por este mundo fora, como o muro de Israel/Cisjordânia, o da Coreia, o de Ceuta/Melilla, o do Sahara Ocidental, o de Chipre, o de Caxemira, e, mais recente, o de Evros entre a Grécia e a Turquia. Algumas destas barreiras têm uma finalidade política, de delimitação de fronteiras, como é o caso da Coreia e de Chipre. Mas as mais recentes destinam-se a vedar a entrada da emigração ilegal nos países ditos de “primeiro-mundo”, situação que hoje atinge proporções alarmantes, em cuja génese está a guerra, a desgraça e a fome, ou seja, a fenomenologia de um mundo desigual e cada vez mais perigoso.
     Tudo isto vem em contracorrente com as expectativas que se abriram há mais de vinte anos. Quando, em 9 de Novembro de 1989, caiu o ominoso Muro de Berlim, selando o acto oficial da reunificação das duas Alemanhas, garrafas de espumante rebentaram e foguetes estalejaram no ar. A alegria foi particularmente esfuziante nos dois países envolvidos e até então desirmanados, e contagiou o mundo ocidental em geral. O Muro de Berlim era um tumor na consciência da humanidade. Dir-se-á que rasava a jugular da civilização ocidental, enquanto outros, como o da península da Coreia, não passavam de quistos menores nos subúrbios do mundo. A extirpação do primeiro marcou o fim da guerra-fria e pintalgou o coração do mundo com cores da mais viva esperança. O entusiasmo foi tão contagiante que até homens de reconhecido traquejo na cena internacional se deixaram levar na crista da onda. Nem sequer houve o cuidado de ouvir alguns oráculos avisados, sobre as linhas do porvir, tão unânime parecia a ideia da inauguração de uma nova era no dealbar deste século, uma era de paz e prosperidade, de mais justiça e igualdade, sob os auspícios de uma globalização que estava a desenhar-se, face à queda da Economia Marxista e o advento do Liberalismo.
      Todavia, a realidade não tardou a vir ao de cima, surpreendente realidade, ou talvez não, qual crisálida que rasga o seu invólucro para libertar um novo ser. Com efeito, os velhos conflitos não se resolveram, nomeadamente o do Médio Oriente, em que as duas Guerras do Golfo abriram a porta a um terrorismo islâmico sem precedentes na sua escalada, com uma incidência local destruidora e assassina, e com uma repercussão internacional que não conhece fronteiras. De permeio, até no seio da Europa, após a violenta implosão da República Socialista Federal da Jugoslávia em 1991, se verificaram episódios que não se julgavam já possíveis, com as cicatrizes ainda frescas da II Guerra Mundial. A África continua o mesmo cancro de sempre, com os seus distúrbios de menor duração mas sempre imprevisíveis e letais nas suas consequências, um continente incapaz de regenerar as suas lideranças políticas e acertar o passo com o progresso civilizacional. É a principal origem da horda dos refugiados e emigrantes que demandam a Europa pela sua orla meridional.
     Portanto, o fim da guerra-fria não aliviou, como se esperava, o ambiente de confrontação, antes parece tê-lo acirrado, de forma insidiosa e violenta. É como se tivesse sido aberta uma válvula que continha ódios, ressentimentos e dissensões nunca dirimidos. De facto, a princípio, ainda se pensou que a erosão do Bloco Leste pudesse dar lugar a uma nova e mais concertada ordem mundial, expurgada da hegemonia política de qualquer potência, ou seja, a emergência de um mundo multipolar mas mais atreito a soluções de convivência harmoniosa e franco entendimento diplomático. Mas quem tinha a faca e o queijo na mão não entendeu assim. Os Estados Unidos, pois claro, a superpotência subitamente triunfante, não quiseram deixar os seus créditos por mãos alheias e não tardaram a reivindicar a sua hegemonia. Se com o presidente Clinton houve uma fase inicial de aparente introversão estratégica, pautada por uma certa hesitação sobre o novo papel dos Estados Unidos no teatro mundial, as dúvidas caíram por terra quando aquele país não diminuiu o seu orçamento militar e começou a intervir em força no plano externo e em vários cenários. Ainda assim, nada que se visse como prelúdio da arrogância unilateralista que o segundo George Bush viria a assumir mal chegou ao poder, e de cuja desastrosa política beligerante o mundo anda a sofrer as consequências, a apanhar com os estilhaços por toda a parte.
    Na verdade, o mundo piorou em todos os sentidos. Os seus mais graves problemas permanecem sem solução. Segundo dados oficiais, o flagelo da fome atinge cerca de 800 milhões de pessoas nos países subdesenvolvidos, cerca de 270 milhões nos países em transição e 11 milhões nos países desenvolvidos. E o resultado deste cenário é a fuga que diariamente milhares de seres humanos empreendem em direcção aos países mais prósperos, para fugir à guerra, à fome e à pobreza, calculando-se, segundo as Nações Unidas, em 244 milhões o número de emigrantes em todo o mundo. Esses 244 milhões já são efectivos, mas receia-se uma grande retaguarda que vai engrossando assustadoramente.
     Este é o cenário dos tempos actuais. Até há poucos anos, esperava-se que subissem ao palco das decisões internacionais homens de visão esclarecida e grande envergadura moral. Mas não, contra todas as expectativas, acabou de assumir a presidência da primeira potência mundial um homem da estirpe de Donald Trump, que Pacheco Pereira caracterizou como uma criatura híbrida e por isso mesmo particularmente perigosa. Se ele fosse um ditador de contornos claramente definidos, num país de tradições democráticas como os EUA, teria sido possível travar a sua ascensão ao poder, assim como relativamente fácil anular agora o seu protagonismo. Neste momento, ele é como a cereja em cima deste bolo azedo em que se transformou o mundo. O tampão na fronteira entre os EUA e o México será porventura o pormenor menos relevante do seu desvario. Pior serão os muros de outra natureza que ele tenciona estabelecer a nível planetário, visto que podem inquinar o que, mal ou bem, ainda vai segurando o sistema de relações internacionais, quer políticas quer económicas. Tudo isto é alarmante e o caos é uma possibilidade, a menos que o emparedamento mental de Trump se torne tão evidente e tão nocivos os seus efeitos, que ele seja a breve trecho apeado do poder por aqueles que lá o colocaram.
    


Tomar, 30 de Janeiro de 2017

Adriano Miranda Lima